Repensar a Educação

Inger Enkvist · Capítulo 1 de 11

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Repensar a Educação

Prefácio

 

Se o leitor estiver satisfeito com a qualidade do ensino no país, público ou

privado, e acreditar que nossas crianças estão em ótimas mãos nas salas de

aula, absorvendo cada vez mais conhecimento objetivo e bebendo na

cultura universal, então nem precisa ler esse livro: não se trata de uma cura

milagrosa para a cegueira.

 

Agora, se o leitor concordar que a situação da educação é lamentável e

preocupante, que cada vez mais os valores dentro e fora das escolas se

encontram subvertidos, então o livro de Inger Enkvist é leitura obrigatória,

pois explica em detalhes quais são as origens dos problemas e apresenta

propostas concretas para solucioná-los.

 

A autora condena com bastante propriedade as novas tendências

pedagógicas que vêm tomando conta do mundo todo. Mas seu livro é mais

do que um combate à pedagogia social nas salas de aula; é um libelo em

defesa da verdadeira e clássica educação em sentido mais abrangente,

aquela que ensina alguém a ser adulto, a amadurecer com maturidade e

responsabilidade.

 

É função dos adultos transmitir o legado da civilização aos seus

descendentes, pois não se absorve isso automaticamente. Como diz Inger,

“Em nenhuma ocasião histórica sobreviveu um grupo que não tenha sido

capaz de formar a geração que lhe sucedia”. Mas será que as novas

gerações estão sendo bem formadas? Ou estariam elas, em nome de uma

pretensa “liberdade” plena, sendo deformadas?

 

O que vemos em quantidade cada vez maior são adolescentes

indisciplinados, rebeldes, agressivos, e com péssima formação intelectual e

cultural. A ausência de limites é a marca registrada da geração que merece a alcunha de “mimimi”, pois, mimada ao extremo, confunde desejos com

direitos. Afinal, “um jovem que não entende o conceito de limite se torna

insolente e insuportável”.

 

As escolas possuem uma função sagrada na formação social e moral de

uma sociedade. Os professores já foram vistos com imenso respeito no

passado, pois eram os responsáveis por transmitir conhecimento aos mais

jovens. Hoje, por tudo que é lado, esses jovens aprendem a desprezar a

própria sociedade, a cuspir em toda hierarquia, a afrontar o próprio

professor. Aprendem desde cedo que podem agir com total impunidade,

arrogância e desprezo pelas autoridades. Não há como sobreviver dessa

forma, ao menos não preservando valores básicos de uma civilização que

mereça tal rótulo.

 

Várias são as origens do problema apontadas pela autora. O romantismo

nos moldes de Rousseau, que encara a criança como “pura” e a civilização

como corrompida; o construtivismo, que delega ao próprio aluno a busca do

saber e confunde aprendizado com diversão; o relativismo, que nega o

próprio conhecimento objetivo e a possibilidade de alcançar verdades; o

igualitarismo, que rejeita a realidade de que somos desiguais em nossas

habilidades e capacidades; o multiculturalismo, que é o relativismo

estendido às culturas, impedindo a valorização das próprias tradições; etc.

 

Vivemos na era do narcisismo exacerbado, com crianças cada vez mais

autocentradas, julgando-se o “centro do universo”, extremamente egoístas e

hedonistas. O foco no esforço a longo prazo não é ensinado; em seu lugar,

há uma crescente tolerância com tudo que é “diferente”, o que na prática se

traduz em enaltecer a mediocridade. Nas escolas de hoje vemos uma

espécie de “vale tudo”, em que a cobrança dá lugar à vitimização dos que

não são capazes de acompanhar o ritmo dos demais alunos.

 

O que ocorreu foi uma exportação da luta de classes marxista para dentro

das escolas, que passaram a ser vistas não mais como um local de aprendizagem e superação individual, mas como instrumento opressor e de

doutrinação pelas elites burguesas. O filósofo Foucault tem tudo a ver com

isso, e recebe duras críticas da autora. Só senti falta do nome de nosso

“ilustre” pedagogo dos oprimidos, Paulo Freire, pois o estrago que suas

ideias equivocadas causaram não ficou limitado às fronteiras nacionais. Ele

merecia uma honrosa menção na lista dos culpados.

 

Enkvist fulmina: “A escola já não ajuda os incultos a tornarem-se cultos,

mas faz com que acreditem que são cultos. A diferença entre o inculto de

antes e o de hoje se baseia no fato de que o primeiro sabia que não era

culto. Agora se trata de bajular o inculto”. Ao destruir a tradição, o estoque

acumulado de conhecimento objetivo, os clássicos, a educação moderna

contribui para a destruição da própria cultura. E faz isso em nome da

“democratização” do ensino, o que é pior.

 

Como lembra a autora, os comunistas, em especial os maoístas, foram

mestres na arte de atacar o intelectualismo, e os assassinos do Khmer

Vermelho chegaram a dizimar qualquer um no Camboja que aparentasse

algum sinal de cultura superior. Dizem que bastava usar óculos para ser

considerado perigoso e correr o risco de ser morto pela fúria dos igualitários

ressentidos. É a obsessão de nivelar por baixo que acaba destruindo

qualquer civilização. Pura idealização da inveja.

 

“Estamos diante de uma mística social que quer ‘construir’ um novo

homem, com menos conhecimentos, mas com atitudes mais igualitárias”,

resume a autora. A seita dos pedagogos sociais avança, e com ela o rastro

de destruição da verdadeira educação, liberal e clássica. Esse livro que o

leitor tem em mãos representa uma importante munição na resistência

contra tal ataque niilista. É preciso resgatar nossos alunos das garras dos

pedagogos!

 

Rodrigo Constantino

 

Economista, articulista e presidente do Instituto Liberal