Repensar a Educação
4. A nova pedagogia
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
A nova pedagogia está caracterizada por muita terminologia que se oculta
e que forma uma “família terminológica”. A psicopedagogia, o
pedagogismo, o construtivismo, a sociologia da educação e o igualitarismo
escolar possuem muitas características em comum, mas enfocam a
educação a partir de diferentes pontos de partida.
A nova pedagogia foi inspirada, entre outros, por Rousseau, Dewey,
Piaget, Bourdieu e Foucault de forma que serão explicadas a seguir. O
campo é algo difuso porque não há somente um livro fundamental, mas
talvez o que mais se aproxima desta posição é Democracia e educação,
publicado pelo pedagogo norte-americano Dewey em 1916. Nesta obra, são
encontradas a maioria das tendências e conceitos que serão discutidos nas
páginas seguintes. As teorias de Dewey e outros agora podem ser
comparadas com as experiências de muitas décadas e de muitos países,
experiências que constituem uma plataforma concreta para compreender
como funcionam as teorias quando se tenta colocá-las em prática.
A seguir, analisaremos primeiro os conceitos que vêm do campo da
sociologia; depois, os enfoques mais psicológicos e, para terminar, os
filosóficos e políticos. Todo este conglomerado de conceitos forma a nova
pedagogia. Uma questão central que será discutida é averiguar até que
ponto a nova pedagogia é baseada em dados cientificamente comprovados
ou não.
4.1. A sociologia da educação
A rápida expansão da escolarização durante a primeira metade do século
XX significou ao mesmo tempo a modernização e democratização do
ensino elementar, mas o ocorrido depois desse período é mais difícil de caracterizar. Exerceu muita influência uma corrente de pensamento
chamada sociologia da educação, que exagera o papel ideológico da escola
e nega o valor da transmissão de conhecimentos. Os teóricos desta corrente
são, em primeiro lugar, Foucault e Bourdieu, que começam a tornar-se
célebres em meados de 1968. Segundo seu pensamento, a escola deixa de
ser um lugar de aprendizagem e superação para o indivíduo e passa a
transformar-se em um espaço para o doutrinamento. A partir da perspectiva
marxista, que é a que inspira de forma geral esta corrente, a escola aparece
como um instrumento de conservação da ordem social burguesa e não como
uma ferramenta que permite se liberar da ignorância e adquirir autonomia
pessoal às crianças. Os professores são vistos como os “serventes” da
burguesia, e a escola, como reprodutora das relações de dominação de
classe.
Para os sociólogos não costuma ser interessante o rendimento escolar,
mas se concentram no estudo dos alunos como membros de uma
determinada classe social. Preferem não falar de maus costumes com
relação ao aluno, mas sim de injustiça social e normalmente costumam
eximir o aluno de qualquer responsabilidade se obtiver maus resultados.
Acusa-se invariavelmente a sociedade. Tampouco levam em consideração a
influência negativa que exercem alunos sem interesse pelos estudos sobre
os estudantes que trabalham. A meta dos sociólogos é a “integração” na
sala de aula dos alunos com problemas e não uma melhoria do rendimento
intelectual do grupo em seu conjunto. Poderia ser dito que os alunos com
problemas são seus clientes preferidos. Apesar da energia empregada pelos
advogados da compaixão como base da aprendizagem, esta atitude resulta
improdutiva. Tampouco constitui uma posição ética, já que com ela são
adiadas com altivez as necessidades dos outros alunos, considerados
comuns, ante a atenção dispensada aos especiais.
Se a escola é “tolerante” com o mau comportamento, não conseguirá
impor condutas positivas. Longe de diminuir o número de alunos com problemas graves, a “bondade” faz com que estes aumentem. Em um
ambiente barulhento com constantes discussões com crianças desmotivadas,
é difícil que exista ao mesmo tempo um grupo de alunos capaz de se
concentrar e obter bons resultados. Todos se cansam, e o trabalho produzido
é escasso.
As opiniões desta corrente podem ser ilustradas através de alguns
exemplos práticos. Começaremos com um livro escrito pelo norte-
americano Casella, o qual enumera todos os problemas que apresentam os
alunos que vivem em guetos urbanos, mas sem sugerir nenhum caminho
eficaz para resolvê-los40. Pelo contrário, renega qualquer tentativa de
resolver a situação. Não menciona a aprendizagem de disciplinas. Parece
profundamente indiferente ao conhecimento e aos problemas e alegrias da
profissão docente. Não menciona a frustração dos alunos que querem
estudar e cujos esforços se veem interrompidos algumas vezes por
estudantes de conduta negativa. Casella se concentra na defesa dos alunos
com dificuldades, mas somente a partir de uma perspectiva retórica, pois
não propõe melhores programas para que estes alunos possam aprender e
melhorar sua conduta. Casella não concorda com a tomada de medidas de
segurança nos colégios. Tampouco aceita que se exerça influência alguma
sobre as crianças problemáticas porque isso equivaleria a uma
“etiquetagem”, uma exclusão, uma “estigmatização”, e seria “expô-los à
vergonha”. Afirma que “seus” estudantes não devem ser dirigidos para a
formação de profissionais – que ele estima desprestigiada – , mas sim que
se deve “lutar” para que isto não ocorra. Tudo isto depois de confessar aos
leitores que “seus” jovens não vão ao colégio com regularidade. Quando,
por exemplo, destroem os banheiros, isto “se entende”, opina Casella,
porque sentem frustração. Constata que os filhos de mães solteiras
adolescentes possuem muito mais dificuldades que outros, mas não sugere
nenhuma iniciativa para que diminua o número de mães solteiras, por exemplo. Acredita que qualquer decisão para colocar ordem é um ato
antijuvenil, a general crackdown on kids 41.
A única argumentação que Casella dá para explicar as dificuldades dos
alunos é atribuí-las à desorganização da comunidade – entende-se entre os
afroamericanos, sem que isto seja mencionado claramente – , na qual já não
há adultos com autoridade, dispostos a ajudar os jovens com seus conselhos
ou propondo-lhes atividades úteis. Os pobres são também pobres em
amigos e familiares de confiança, não têm com quem passar o tempo, hang
out, essa expressão americana tão difícil de traduzir aplicada à necessidade
humana de companhia.
Casella detesta seu próprio país. Não menciona que continua sendo o país
que mais atrai os imigrantes. Detesta também a classe média e deseja para
os seus familiares as vantagens da educação, mas sem que tenham que fazer
o esforço de estudar. Para Casella, colocar os alunos destrutivos em grupos
à parte serve para preservar os privilégios dos já privilegiados. Considera
que o dever dos alunos sem problemas é dedicar seu tempo para constituir
um entorno adequado para os outros, ou seja, para servir de instrumentos do
bem alheio unicamente. Parece ver a escola como um mal que está ali e que
não se pode evitar. Sua linha ideológica é similar à de Foucault e vem dizer
que a sociedade oprime seus membros 42. A única coisa que o autor
recomenda é misturar alunos de diferentes etnias e níveis de conhecimentos
a fim de que isso se transforme em proveito de “seus” preferidos. Em
Casella aparece o homem que mostra abertamente seu desprezo pelo país a
qual pertence e por boa parte de seus concidadãos. Obviamente, não tem
muito interesse pelo conteúdo da educação, mas escreve um livro sobre
educação, com o qual sem dizê-lo, dá a chave de como deve ser lida a sua
obra. Suas propostas são, em sua maioria, sugestões para acabar com o que
ele detesta: a sociedade, os cidadãos em geral e a educação.
Mas não podemos deixar o livro de Casella sem mencionar a entrevista
que realiza em uma prisão. Os reclusos dizem, indo contra o que o próprio
Casella sustenta, que uma pessoa pode escolher, que sempre pode se afastar
de uma situação potencialmente violenta. Os reclusos afirmam a liberdade
humana, Casella não.
Tomlinson, representante inglesa da sociologia da educação, ataca a
pesquisa que tornou público o êxito das escolas eficazes 43. Interpreta-a
como um modo de “castigar” as escolas socialmente inovadoras. Acredita
que falar em elevar os níveis acadêmicos é pura retórica, algo que não
corresponde à realidade. Para ela, a educação é a responsável pela divisão
do mercado trabalhista e peca por não ter conseguido diminuir a injustiça
que implica ter nascido dentro de certa classe, raça e sexo. Não cita
resultados nem fala da necessidade de um país de contar com mão de obra
preparada. Para Tomlinson, a educação simplesmente reafirma os
privilégios da classe média: nem sequer menciona o esforço que implica
estudar. Acredita que os pais que tentam dar uma boa educação a seus
filhos são “feras” que buscam colocar os filhos em boa posição social. Em
sua opinião, a classe média deveria aceitar de uma vez por todas se
transformar em um entorno que favoreça as possibilidades de êxito social
da classe inferior. A autora é outro exemplo de desprezo pela classe média,
bastante similar ao de Casella, ainda que o contexto desta vez seja britânico.
Para ela, a escola é um agente da exclusão social. Não fala de
conhecimentos e nisso se reconhece sua adesão à teoria social da educação.
Violence in schools é uma antologia de estudos sobre a violência escolar
em diferentes países europeus 44. Todos os colaboradores deste livro
procedem da área do trabalho social e não da educação. Constatam a
existência de problemas na educação, mas propõem programas sociais, não
melhorias na maneira de organizar o que lhe é próprio: o estudo. Pedem
dinheiro para mais pesquisa sem reclamar mudanças nas regras da escola. Para eles, o interessante é a classe social dos alunos e não o que aprendem.
Raciocinam como se a escola fosse sempre a mesma. Na prática, o que
fazem é defender os violentos, sustentando que as injustiças sociais de
algum modo justificam os ataques aos demais alunos, evitando qualquer
menção à responsabilidade de cada um por seus atos. Falam como se um
aluno sempre agisse de certa maneira por pertencer a determinado grupo e
nada mais. Como Casella e Tomlinson, expressam-se negativamente com
relação à classe média. Quanto aos conteúdos escolares, nenhuma palavra
relacionada ao reforço do programa de estudo, mas sim que os professores
estudem a cultura dos alunos. O interessante para eles é observar e
descrever os infratores em vez de tentar impedir que sejam cometidos esses
delitos.
4.2. O igualitarismo
Os países ocidentais tiveram uma escolarização obrigatória há pelo menos
cem anos, e em muitos casos, quase dois séculos. Neste sentido, a
democratização é um fato instalado há muito tempo atrás. No entanto, a
partir de meados do século XX, foi dado outro passo nesse processo,
prolongando a escolaridade obrigatória e unificando as diferentes
ofertas educacionais. Quanto ao desejo de elevar o nível educativo, há
consenso político generalizado, mas dentro desta postura alguns setores se
queixam por utilizar a escola ao mesmo tempo como um instrumento para
aumentar a igualdade social, mantendo todos os jovens dentro da mesma
estrutura, a chamada escola compreensiva. Esta segunda onda de
democratização aguça a tensão entre conhecimentos e igualdade social. Em
geral, chega a ser mais importante o igualitarismo que elevar o nível de
conhecimentos.
Já que os pais dos jovens são votantes, os políticos querem lhes dar
aquilo em que se resume a esperança do futuro de seus filhos: um título de
graduação escolar ou de ensino médio. Também buscam dar aos jovens o que reclamam, um certificado, mas sem que tenham que realizar muito
esforço. Se a educação é vista como mercadoria política, o conteúdo não
importa muito, e o essencial é a imagem, o nome e a ilusão. Para não
enfrentar a dificuldade de fazer com que todos estudem, muda-se a
orientação da escola e cada vez menos se fala de “estudo”, preferindo-se o
termo de “trabalho escolar”. A introdução da informática, a pedagogia do
lúdico e o trabalho em equipe, tudo isto transmite uma imagem juvenil de
uma escola que está preparando os jovens para um futuro do qual não
sabemos nada, mas que será “jovem”. A escola é vista como um lugar de
trabalho e o jovem terá cumprido os requisitos da escolaridade apenas
estando ali e participando das atividades propostas. Sem os exames.
A escola compreensiva considera todos os alunos por igual; portanto,
todos deveriam começar o colégio na mesma idade seja qual for sua
preparação prévia. Ocorriam atrasos na aprendizagem, era oferecida ajuda
oportuna. As tarefas individuais foram desaparecendo com a desculpa de
que os alunos eram muito diferentes entre si e que este problema iria
aumentar se os bons alunos, além disso, estudassem em suas casas e os
outros não. Também foi sendo eliminada, pouco a pouco, a avaliação dos
resultados para que não se tornasse óbvio que alguns avançavam mais que
outros. Em vez de pedir ao aluno que não havia aprendido que repetisse, foi
instalada a aprovação automática. Foi explicado que era mais importante o
desenvolvimento social da criança do que o intelectual e que, por isso, seria
apropriado que o jovem conservasse os mesmos colegas. Já que, de todos os
modos, a escola deveria imitar a vida e deixar de ser sistemática – doutrina
que será explicada mais adiante –, não era importante que todos os alunos
aprendessem o mesmo ou não. A escola era vista como um lugar parecido
com o trabalho dos adultos, só que para crianças e jovens e, por isso, estar
presente já era o suficiente. Se para os adultos não são aplicados exames no
trabalho, por que então aplicá-los aos jovens? Além disso, o projeto foi
introduzido como forma de trabalho, o qual não funcionava bem através de exames escritos. A metodologia do projeto requer que o aluno escolha
livremente um tema e uma forma de trabalhar. Como comparar trabalhos
muito diferentes entre eles? Foi assim que os trabalhos dos estudantes
começaram a ser considerados como a expressão da personalidade do aluno.
E quem se atreve a opinar sobre a personalidade de outra pessoa? Foi
ensinado aos professores que devem ser “tolerantes” também com os erros e
a única nota realmente “democrática” tornou-se o aprovado. Tanto os bons
alunos como os reprovados tiveram notas não desejáveis. Em vez de
corrigir e qualificar os trabalhos, o professor devia juntá-los em uma pasta
que seria avaliada destacando o progresso individual do aluno. A ideia de
fundo é que todo trabalho tem algum valor e que não se pode distinguir
entre uma categoria de esforço e outra, e assim é descartada qualquer
distinção entre quem se esforçou ou não.
A introdução da escola compreensiva teve como meta a harmonia social
da sociedade. A reforma contava com duas vertentes principais: que todos
os jovens tivessem experiências em comum para se conhecer e se apreciar e
que todos entrassem na vida adulta com a mesma base de conhecimentos.
Acreditava-se que assim todos alcançariam o que antes somente alguns
conseguiam. Poucos se atreveram a expressar que os que antes haviam
estudado em colégios exigentes perderiam em parte seu nível. A estes
receios se respondia sempre que tal coisa não aconteceria e que, se
acontecesse, esses alunos de qualquer modo sairiam ganhando porque
teriam aprendido destrezas sociais.
A disciplina fundamental da escola compreensiva era a língua, por ser o
que todos têm em comum. O objetivo era dar grande ênfase à expressão do
aluno, de suas ideias e opiniões. Também foram incorporadas muitas horas
de disciplinas práticas ou estéticas por dois motivos: alcançar um
desenvolvimento integral do aluno e oferecer às crianças com diferentes
talentos a possibilidade de se sobressair. A ideia da escola compreensiva
contém a noção de que um aluno que não tem facilidades para o teórico, sobressai-se no prático, algo que pode acontecer talvez na sociedade
agrária, onde os filhos da classe camponesa trabalhavam junto com seus
pais adquirindo habilidades manuais, mas isto atualmente não é assim, pois
quais habilidades manuais aprenderiam hoje nos lares urbanos?
Outra ideia igualitária é a de acreditar que todos os indivíduos
amadurecem psicologicamente ao mesmo ritmo. Para dar apenas um
exemplo de que isso não acontece, a experiência mostra que quase sempre
as meninas são mais maduras que os meninos de até aproximadamente
dezessete anos. Por isso, se o programa é elaborado pensando nelas, será
bastante difícil para muitas crianças, logo estas sofrem uma discriminação.
Se o programa é realizado conforme o nível de maturidade das crianças, é
provável que venha a ser mais fácil para as meninas. Se o programa é
realizado levando em conta o aluno médio, também ficam discriminados os
mais e os menos maduros. Entre os alunos de cinco anos, a diferença de
idade mental poderia ser dos três aos oito anos. Entre os de quatorze anos,
um grupo poderia oscilar entre os nove e os dezoito anos.
Tudo isto implica em uma enorme gravidade, posto que os alunos que por
algum motivo não conseguem dominar as bases da lectoescrita nunca
chegam ao nível de seus companheiros, o que pode levá-los a uma
imaturidade agressiva. São as crianças que logo reclamam constantemente
a atenção, crendo-se ser o centro do mundo, como costumam fazer as
crianças muito pequenas. Esperava-se “resolver” esta situação rebaixando o
nível de exigência e proibindo a repetição do curso. Os resultados estão à
vista: as dificuldades do aluno são cada vez mais graves. Ainda que seja
oferecido um apoio generoso, o aluno não pode aprender de súbito o que
não aprendeu durante vários anos e sobre novos conteúdos. A ideia de
apoiar afetivamente o aluno em vez de manter uma exigência gradual é
ineficaz e prejudica os outros alunos, aos quais atrasa e diminui recursos.
Além disso, transforma em constante e crescente a necessidade de classes
de apoio. Por tudo isso, fazer com que a organização escolar dependa da idade do aluno e não de sua maturidade mental é algo muito curioso, pois a
escola é principalmente uma instituição para a aprendizagem mental. Em
ortografia ou matemática o aluno perde tempo quando já sabe o que os
demais apenas começam a praticar, e se o que o professor propõe está muito
acima de seu nível, também perde tempo porque não o compreende.
A maturidade tem a ver com a capacidade de concentração. Na
brincadeira, as crianças “esquecem do tempo e do espaço”, estão em outro
mundo e os vemos totalmente entregues ao que estão fazendo. A
concentração é outra capacidade muito desigualmente distribuída na
população escolar. Depois da infância, a concentração tem a ver cada vez
mais com a vontade. Aprendemos a voltar nossa atividade mental para um
campo, a fim de realizar certas tarefas que nos propomos. Se a criança não
desenvolveu esta capacidade, a escola não pode ensiná-la nada.
Também são diferentes as crianças com relação à responsabilidade. Uma
criança não aprende a ser responsável porque é mais velha, mas sim porque
se lhe foi ensinado como ser responsável, passo a passo. Primeiro se trata de
ensiná-la a realizar tarefas simples, como recolher e guardar bem seus
próprios brinquedos ou sua roupa, depois a gama de atividades se amplia. O
conceito de responsabilidade inclui dois aspectos: o primeiro é a promessa
de cumprir e o segundo a realização desse ato. A promessa pode ser literal
ou a simples aceitação de uma regra aprendida. Se não se exige da criança a
realização de tarefas, a criança não aprenderá a ser responsável. Por isso, a
exigência não é somente um fator de desenvolvimento intelectual, mas
também uma parte da aprendizagem de bons costumes de convivência e de
trabalho. No colégio, a criança aprende a realizar e avaliar as tarefas que lhe
são impostas. Familiariza-se com o que é aprender através do modelo que a
professora lhe oferece. Uma professora preparada utiliza métodos variados
e, assim, seus alunos adquirem um amplo repertório de formas de trabalhar.
No entanto, nem todos os estudantes aprendem estas técnicas de
concentração e responsabilidade que formam a base de outras
aprendizagens e que são imprescindíveis. O igualitarismo é baseado na
igualdade de valor que, como seres humanos, os estudantes merecem. Isso é
assim e ninguém discute. Outra coisa totalmente distinta é levar em conta se
os alunos de certa idade adquiriram técnicas de concentração e
responsabilidade, de se relacionar com outros e se alcançaram um bom
domínio da linguagem, em resumo, tudo o que é necessário para a
socialização secundária. Se não adquiriram tudo isto, precisam de pelo
menos um ano extra para se preparar para a vida social e intelectual que
demanda o colégio. Por isso, se for permitido que comecem com os demais,
o farão com um atraso que muitos não chegarão a superar durante o resto da
escolarização ao mesmo tempo em que significarão um empecilho para seus
colegas. Estes perderão seu tempo e começarão a entediar-se no colégio e
talvez eles também não cheguem a mudar esta atitude durante o restante de
sua escolarização.
4.3. O direito à diferença
Nos anos sessenta, junto ao dogma do igualitarismo, foi introduzido outro:
a escola devia se adaptar às diferenças entre os alunos. As mudanças
simultâneas nos sistemas educativos são muitas e, em parte, contraditórias e
se considera que o grande público tem dificuldade para compreendê-las:
— São implementadas políticas de descentralização que limitam a
influência do Estado.
— É introduzida a ideia da autonomia dos centros, o qual também
diminui o poder do Estado.
— Prospera um movimento a favor da “democracia escolar” que tira
possibilidades de dirigir o trabalho educativo aos professores.
— São suprimidos vários exames, o que diminui a importância da
transmissão dos conhecimentos.
— Finalmente, também começam a ser enfocadas as diferenças
culturais dos alunos, diminuindo a importância do plano de estudos
comum.
Em todos os países ocidentais, o resultado dessas mudanças é o mesmo:
diminui o nível de conhecimento e aumenta a violência escolar. No entanto,
os defensores da sociologia da educação continuam sem ver nada negativo
nisso, ao contrário, seria uma vantagem que os filhos dos burgueses
aprendessem menos, assim poderia aumentar a igualdade entre eles e os
filhos dos operários, que não é o mesmo que diminuir a desigualdade com a
promoção dos desfavorecidos. Começa a ser considerado apropriado não
dedicar tempo à ortografia e à sintaxe por serem sistemas “fechados”, não
“livres”. A “livre criatividade” do indivíduo poderia valer mais que um
sistema supostamente impossibilitado de expressão. São reduzidos os
conteúdos dos estudos de história e literatura. Um dos propósitos é
combater um possível nacionalismo: assim, o jovem não aprende a adotar a
visão do mundo sustentada por antepassados menos modernos e tolerantes
que a presente geração. Aprende a preferir as tradições de outros países do
que as do seu.
Pessoas de todos os campos políticos denunciaram as falácias desta
política que significa se desfazer dos alcances culturais de nossos
antepassados. Eliard, trotskista francês, sustenta que todas as reformas
realizadas na França desde 1959 em nome da democracia tiveram efeitos
contrários aos buscados e totalmente caóticos: “Como evitar que a
pluralidade não se transforme em cacofonia e o ecletismo não leve ao
triunfo do disforme, do trivial e do insignificante?” 45. Mas o novo dogma
insistia que a conduta e os valores de todos merecem gozar de idêntica
estima porque expressam sua cultura. O resultado foi um caos nas salas de aula, pois aquilo tornava necessário preparar um programa para cada aluno,
portanto, por que ter escolas? Seria melhor que cada um permanecesse em
casa com “sua” cultura, o que tampouco foi possível porque os pais
precisam sair para trabalhar, mas em consequência desta perspectiva, a
escola se transformou em uma creche estatal sem um conteúdo cognoscitivo
planificado.
A França poderia servir de exemplo, segundo Eliard. A França estava
muito orgulhosa de sua escola “republicana”, que ignorava as diferenças de
etnia e de religião. A ideia fundamental era que tratando os alunos
diferentes da mesma maneira, seriam garantidos os direitos de cada um
deles. No entanto, Eliard e outros críticos franceses acreditam que a
situação atual cada vez se assemelha mais à vivida sob o Antigo Regime,
abolido em 1789, porque muitos cidadãos, na realidade, ficam sem
instrução básica ao desaparecer um ensino de conteúdos comuns. Adaptar a
escola aos alunos tal como são e às condições puramente locais, de aldeia,
constitui a negação da escola, do sentido que a aprendizagem tem para a
humanidade e da necessidade de oferecer um bom sistema educativo como
base de sustentação de um povo com futuro.
Uma das características mais chamativas da educação na Europa ocidental
e nos Estados Unidos é ver como paulatinamente a autoridade dos
professores foi sendo menosprezada. O igualitarismo educativo tem sido
acompanhado por um pronunciado repúdio à autoridade. As pedagogias em
voga recomendam que todos os estudantes da mesma idade estejam nas
mesmas salas de aula sem que importem seus conhecimentos prévios.
Todos os alunos devem ter direito a questionar o ensino, a reger seu próprio
trabalho e avaliá-lo. Insiste-se mais na aquisição do costume de questionar
do que na capacidade de aprender.
Em vários países da Europa ocidental em meados de 1950-1960 até então,
apesar do fato dos governos mencionarem frequentemente a importância da tecnologia para o futuro, na prática, o igualitarismo tem sido mais forte do
que o esforço de oferecer uma boa formação, por exemplo, em ciências
naturais ou outra voltada para assegurar ao país uma mão de obra
qualificada nestas matérias. Em vista do esforço que implica a
aprendizagem de matemática, física e química, estas disciplinas são menos
estudadas e frequentemente seu nível é diminuído. O que se considera
importante, entretanto, é o aluno saber mexer em um computador, sendo
considerado um conhecimento prático.
Como foi possível a escola ter sido danificada em tão pouco tempo?
Talvez uma explicação seja que a escola é uma instituição e as instituições
representam algo estável, um ponto de referência, mais que a pluralidade e
a diversidade. A escola tem como missão oferecer certa “igualdade”, certa
“normalização” aos pequenos cidadãos. Também ensina o respeito às
normas da sociedade e precisa do apoio desta para realizar esta tarefa Se
não são dadas estas condições, a escola entra em crise. A escola se impôs e
pode obter uma parte importante dos recursos da sociedade precisamente
quando foi considerado que a transmissão da cultura e das técnicas de
trabalho intelectual era de grande valor para todos. Os ataques atuais
enfraquece a mesma base da “empresa social” que é a escola. Se não
prevalece a ideia do bem universal da escola e se o particularismo local
passa a ser visto como mais importante, o projeto de escola como
instituição desaparece para ser substituído pelo doutrinamento do grupo
étnico, religioso ou linguístico. Nasce uma escola que ensina o que separa
as pessoas no lugar do que as une.
O modo com que foi enfocado o trabalho contra a discriminação dentro da
escola foi o de não permitir que se tratasse ninguém de maneira
depreciativa. Atualmente, no entanto, enfatiza-se considerar discriminatório
que não se ensine nas salas de aula o que pertence à cultura do grupo de
cada um e que não se aceite o que cada um possa desenvolver segundo as
pautas que ele, pessoalmente, considera pertinentes. A diferença é introduzida em todos os aspectos da vida escolar: nas exigências, nos
conteúdos, nos métodos de trabalho e na apresentação dos trabalhos. A
escola se transforma em expressão da diversidade mais do que do estudo do
mundo. Esta nova ideia permeia tudo e impede uma organização sistemática
da aprendizagem. Resumindo: permite sabotar o projeto de escolarização
geral da população.
O direito à diferença é outra faceta da teoria da inclusão. Se podem ser
alunos em qualquer grupo, alunos com grandes problemas físicos, psíquicos
e de aprendizagem, é lógico que não se pode pedir os mesmos resultados a
todos e, com isto, abandona-se o ensino em comum. O professor se
transforma em um auxiliar de escritório que “documenta” as metas e as
tarefas entregues de cada aluno. A vida social do grupo é de “convivência”
e de “tolerância” e a vida intelectual é individual e consta de tarefas
entregues e registradas. O público e compartilhado é o social. Para o
professor, os relatórios sobre o trabalho dos alunos são uma “proteção”
contra as possíveis acusações de qualquer inspetor ou pai descontente. A
ideologia pedagógica diz que o aluno é o responsável por seu trabalho.
A última moda ideológica é a do multiculturalismo, conjunto de visões
contraditórias segundo o qual todas as culturas são igualmente valiosas e
cada pessoa tem o direito a viver dentro de sua própria cultura. Esta
ideologia é extremamente negativa para a educação porque sustenta que não
há razões para estudar a própria cultura, que não é mais que uma de tantas,
e, além disso, estudar a própria cultura poderia ser interpretado como um
ato hostil para as outras culturas, assim como valiosas por definição. Como
não é possível estudar todas as culturas do mundo, tampouco é considerado
interessante estudar somente uma ou outra porque a escolha seria fortuita.
Em resumo: não é importante estudar porque o que se aprende é fortuito. As
matérias que mais sofrem esta nova ideologia são as humanidades. A
situação dos estudos humanísticos poderia ter levado a um aumento de interesse pelas ciências naturais, mas o igualitarismo impede um
desenvolvimento nessa direção.
Como é possível que isto tenha ocorrido? Uma explicação poderia ser que
semelhante ataque em grande escala contra a educação e também contra a
escola pública e gratuita pegasse a comunidade desprevenida. A revolução
armada já não tem o atrativo que tinha, mas trabalhar dentro do Estado para
destruí-lo leva a uma tomada de poder menos arriscada e não sangrenta.
Vários grupos ideológicos se instalaram dentro do campo educacional, cada
um com sua própria agenda. Os anarquistas, que querem diminuir a
importância do Estado ganharam bastante terreno na política escolar. Um
dos resultados poderia ser a desordem e o vandalismo reinantes. Os
estalinistas, que vão contra os professores como representantes da burguesia
também obtiveram notáveis êxitos; a docência é uma das profissões na qual
ocorrem mais licenças por depressão ou esgotamento psíquico. Os novos
professores não entram com a mesma bagagem cultural e não poderão
transmitir muitos conhecimentos nem aos filhos dos burgueses nem aos
outros, o que poderia alegrar os maoístas. Além de tirar “poder” da
profissão docente, talvez estes ideólogos vejam como um triunfo que não se
aprenda muito, já que sua meta não é adquirir conhecimentos.
4.4. A teoria do ambiente
A teoria do ambiente é um conceito utilizado em psicologia para discutir
temas relacionados com a educação e o igualitarismo. Esta teoria sustenta
que a herança genética importa menos que o entorno e que se o ambiente
escolar é o mesmo para todos os alunos, todos aprenderão por igual.
Existem atualmente algumas ideias “psicologicamente corretas” e são
poucos os que se atrevem a questioná-las46. Acredita-se no “contágio” da
inteligência, no sentido de que se estudam juntos os inteligentes e os menos
inteligentes, estes se desenvolverão mais rápido. A teoria do ambiente está
associada a outras ideias, como a de requerer estigmatização dos alunos caso se permita escolher entre diferentes itinerários. Uma medida em
conformidade com a teoria do ambiente é a “de Robin Hood”, ou seja, a de
tirar recursos dos centros nos quais os alunos conseguem bons resultados
para desviá-los para os que acumulam fracassos. Não está provado que isto
funcione: que os colégios de baixo nível possam aumentá-lo ou que os
colégios com bons resultados possam se manter assim sem os recursos com
o qual contavam. A teoria do ambiente expressa pessimismo pedagógico
porque considera impossível que um aluno proveniente de um meio
intelectualmente pobre alcance bons resultados. Isto diretamente é uma
falácia. Na prática, é uma teoria elitista que não mostra interesse pelos
conhecimentos dos alunos, mas sim por seu êxito escolar, baseado ou não
em conhecimentos. Nisto vemos suas semelhanças com a sociologia da
educação.
Um psicólogo sueco, Eriksson, que acompanhou de perto a teoria do
ambiente no campo da educação, a desautoriza, sustentando que a
diferenciação escolar deveria aumentar. A ideia de frear os inteligentes,
argumentando que podem “concluir” a aprendizagem em vez de avançar
mais, não funciona porque estes alunos ficam desatendidos, não aprendem
nada novo e se entediam. É uma maneira de fazer com que os alunos de
bom nível percam tempo e se afastem, fazendo com que deixem de gostar
do trabalho escolar, o que não deixa de ser uma forma de “abuso” cometido
pela própria escola contra estes alunos. Para Eriksson, não há dúvida de que
os estudantes precisam de uma educação diferenciada conforme suas
necessidades e não a recebem por causa da teoria do ambiente, não baseada
em comprovações científicas.
Ao mesmo tempo, Eriksson não rejeita o ensino ético e social na escola.
No entanto, a formação social e ética que propõe é uma que implante
valores como dizer a verdade, manter as promessas, ajudar os mais fracos e
se respeitar mutuamente. O psicólogo acrescenta que há também diferenças
herdadas na capacidade de receber uma educação social e moral e de aceitar as normas sociais, motivo pelo qual também esta educação deve ser feita de
maneira diferente para grupos desiguais. O resultado das pesquisas
psicológicas leva o autor a afirmar que o rendimento escolar é uma
combinação do quociente intelectual, a motivação para os estudos, a
capacidade de concentração e a possibilidade de estudar em um ambiente
propício.
A motivação é um campo muito estudado dentro da psicologia. Nem
todos aprendem de maneira igual e nem todos possuem a mesma
motivação. O grande problema agora é a desmotivação pelo trabalho
escolar de muitos alunos. Eriksson observou que a escolarização
compensatória tem um efeito relativamente escasso e rejeita a perspectiva
de uma “reserva de inteligência” a propósito da “baixa quota de filhos de
operários na universidade”, ideia que parte do pressuposto de uma
distribuição igual de inteligência entre as classes sociais, uma perspectiva
tampouco apoiada por pesquisas quando se trata de grupos. Aponta também
que se a teoria do ambiente fosse acertada e se implantasse, e se
conseguíssemos criar ambientes iguais em nome da democracia, estaríamos
diante de um perverso efeito em que a herança se transformaria em um fator
determinante da conduta individual, já que seria a única diferença entre um
indivíduo e outro.
Em psicologia, uma parte importante da pesquisa sobre os fatores
hereditários em comparação com o meio é baseada em estudos sobre
gêmeos geneticamente idênticos separados ou não durante a infância. O
resultado da pesquisa se pode resumir dizendo que o fator hereditário impõe
os limites, mas que o ambiente pode melhorar ou piorar os resultados. Os
psicólogos falam de um fator geral de inteligência, mas também de fatores
parciais, específicos, que podem gerar resultados diferentes, ainda que, no
geral, costume haver uma importante correlação positiva. O geralmente
admitido é que existe uma inteligência básica, mas que a inteligência, além
disso, é pluridimensional e depende do contexto. As pessoas muito inteligentes costumam ser também mais saudáveis e mais fortes, ou seja, a
natureza não é igualitária e não distribui os bens genéticos de maneira
equitativa.
Os igualitaristas não gostam que quando se treina um grupo todos
melhorem, ainda mais os inteligentes. Tampouco lhes agrada que quem se
destaca quando jovem tenha muitas probabilidades de continuar sendo
brilhante no futuro. Com o objetivo de diminuir a importância da
inteligência, se dá ênfase para a criatividade, mas as pesquisas demonstram
que a inteligência é uma condição necessária para a criatividade, necessária,
mas não suficiente. Para melhorar o nível criativo, o lógico seria começar
melhorando o nível de conhecimentos de todos. Para tentar distribuir
equitativamente a criatividade, foram oferecidos cursos, mas não dão
resultado se o estudante não reunir as condições básicas. Com relação à
criatividade científica ou artística, a nova pedagogia não se interessa pela
criatividade das grandes personalidades históricas: prefere a expressão da
criatividade no aluno.
Em relação à criminalidade, a teoria do ambiente considera que a
sociedade é responsável pelo crime, sendo o criminoso uma vítima das
estruturas sociais. Para esta teoria do ambiente somente são importantes as
causas subjacentes e não as medidas para diminuir a criminalidade. Dentro
do campo escolar, se os alunos recebessem uma formação conforme suas
verdadeiras necessidades, seria de se esperar que diminuísse a agressividade
entre eles. Se fosse fomentado nos estudantes o respeito pelo conhecimento,
diminuiria a agressão contra os professores. Finalmente, não está provado
que se possa aprender se reinar a anarquia na sala de aula. Depois de
estudar Eriksson, pode-se entender o motivo pelo qual os igualitaristas não
se interessam pela psicologia em geral, mas somente pela teoria do
ambiente.
4.5. O construtivismo
As fontes destas ideias sobre a autonomia do ser humano podem ser
encontradas desde o idealismo de Kant, quando se afirma que não
conhecemos verdadeiramente como é a realidade, mas apenas nossas
representações dela, e que não podemos estar seguros da relação exata entre
um objeto e sua representação, de modo que as representações poderiam ser
chamadas de construções mentais de cada um. Esta afirmação tem como
consequência que o conhecimento é subjetivo e que é impossível o
conhecimento objetivo, neutro, de tipo científico. De fato, a maioria dos
construtivistas são filosoficamente idealistas neokantianos. Já foi
comentado que os construtivistas pensam que o conhecimento é construído
pelo indivíduo, não o recebe, e que “conhecer” é um processo de adaptação
ao mundo cultural, não o descobrimento de como é o mundo independente
do ser humano e pré-existente. Os filósofos ressaltam a condição
antropocêntrica desta visão, já que a realidade passa a ser vista não como
algo independente do ser humano, mas enquanto existente para ele, a
serviço do homem. Afasta-se, então, a ideia do estudioso que investe seu
tempo conhecendo a realidade e, entretanto, fortalece-se o interesse
instrumental de aproveitar o que oferece a natureza. O interesse pela
história, a tradição, o não material, passa para o segundo plano e dá lugar ao
relacionado com a vida ativa e, em primeiro lugar, a tecnologia.
Na variante pedagógica, o construtivismo ou a psicopedagogia diz que o
aluno não pode aprender de algo que venha de fora, e sim que toda
aprendizagem deve ser baseada no próprio aluno, em seus conhecimentos
anteriores, sua vontade de aprender e seus interesses. Desta posição, foi
extraída a ideia de que a aprendizagem deve ser divertida. Outra hipótese
sustenta que o aluno é e deve ser sua própria autoridade em matéria de
aprendizagem. Ninguém sabe como ele mesmo o que lhe apetece. Em
consequência, posto que os alunos não gostarão nunca do mesmo ao mesmo
tempo e já que nem todos precisarão do mesmo ensino, será impossível dar
aula. Sob essa perspectiva, as explicações do professor chegam a “atrapalhar”. O novo papel do professor vem a ser o de um “facilitador”,
alguém a quem se pode consultar. Esta posição se encaixa bem com a ideia
do igualitarismo porque não exige que os alunos tenham um nível prévio
para estar em certo grupo e, já que todos trabalham sozinhos, tampouco é
necessária a coordenação de uma autoridade 47.
Não somente declara o aluno como especialista de sua própria
aprendizagem, mas também sustenta que os conhecimentos possuem menos
importância hoje que antes por causa da velocidade com que mudam as
cosias em todos os terrenos. Em vez de se concentrar na aquisição de
conhecimentos básicos, agora depreciativamente chamados de “escolares”
ou “formais”, o aluno deve aprender técnicas para dominar um computador,
encontrar informação e apresentá-la. É curioso e até contraditório que uma
corrente sem estima pela ciência baseie sua doutrina no rápido
desenvolvimento da ciência!
Como se vê, para esta ideologia pedagógica não são importantes nem as
matérias nem os níveis alcançados nelas e, pela mesma razão, perdem
também importância os professores, especializados em disciplinas. O que
antes costumava ser denominado ensino, consistia em dar certa matéria a
um grupo com determinada preparação e maturidade. Agora, é hegemônica
a nova pedagogia que acredita que a tarefa do professor é se estacionar em
uma sala de aula, apoiando as atividades iniciadas pelos alunos. É rejeitada
não somente a ideia da importância dos conhecimentos, mas também a das
exigências, a da autoridade do docente e a das regras de conduta, assim
como as referências a uma cultura compartilhada.
A pedagogia construtivista é apresentada como a verdade científica.
Serviu para deslegitimar outras formas de intervenção educativa e é descrita
a si mesma como o ponto culminante de uma história cada vez mais
científica da compreensão da mente humana. Uma maneira de explicar o
construtivismo é inseri-lo em um marco ideológico: é um romanticismo antropológico e filosófico. O construtivismo acredita que a criança não
aprende bem estudando livros e escutando a professora. Insiste que a
aprendizagem é uma atividade livre e que se o aluno não manipula
pessoalmente o material não pode aprender. Por isso, o estudante deve ser
ativo, decidir ele mesmo como, o que e quando irá estudar porque assim
supostamente assimila melhor os novos conteúdos. Acredita-se que o aluno
aprende melhor trabalhando sozinho ou em equipe que com o professor.
Deste modo, os alunos se transformam em professores uns dos outros,
enquanto que o verdadeiro professor é passado para um segundo plano,
transformado em um “facilitador”. Sua tarefa é organizar um conjunto de
materiais e contestar possíveis perguntas. O lema que resume esta ideia é o
de “colocar o aluno no centro”. Considera-se legítimo que o aluno se baseie
em seu parecer, talvez arbitrário, para decidir o que vai estudar e como. O
construtivismo dá prioridade ao como sobre o que. A prioridade passa do
conhecimento das disciplinas à aplicação de certo método, de certa atitude
frente a um novo conteúdo. Assim, o método usurpa o local dos saberes
tradicionais.
A criança supostamente possui dentro de si tudo o que necessita e, se não
for incomodada, “construirá” antes ou depois os elementos culturais que lhe
fazem falta, tais como a linguagem, a matemática, a arte ou as habilidades
físicas. Assim, o construtivismo parece acreditar que todo o
desenvolvimento da humanidade está contido virtualmente dentro de cada
criança. Como Rousseau, seus seguidores pensam que a criança não deve
se centrar na leitura porque os livros corrompem, a mesma coisa afirmam
sobre o trato com professores adultos.
Piaget se transformou no grande ídolo do construtivismo ao lançar a ideia
de que a criança aprende os conceitos através de suas atividades e quando já
amadureceu. Piaget foi psicólogo, não professor, estudou a aprendizagem
sem se interessar particularmente em como melhorá-la ou acelerá-la; estudou sobre todas as leis físicas, das quais uma criança possivelmente
possa aprender observando o seu próprio ritmo e sem plano prévio 48. As
razões que se opõem a esta maneira de conduzir a aprendizagem são várias.
Para começar, muitas coisas que são aprendidas na escola não são
observáveis à primeira vista, mas sim são abstratas, distantes ou ausentes.
Além disso, na escola se exige que todos os alunos aprendam e devem
incorporar muitos conhecimentos assim que o tempo urgir. É caro e pouco
eficaz esperar que a criança queira estudar e, pelo contrário, é mais seguro e
econômico ensiná-la. A escola não pode ser somente um lugar de encontro,
mas sim tem que dar garantia de resultados49.
O construtivismo transforma os alunos em perfeitos egoístas cognitivos.
Estes alunos acharão que suas ideias, as quais terão chegado talvez por
casualidade, são as corretas. Não é prevista uma correção por parte do
professor e não há exames. Provavelmente os alunos se transformam
também em egoístas psicológicos e sociais, já que não aprendem a respeitar
a sociedade representada pelo professor. Por outro lado, vão sentir a pressão
de seu próprio grupo de colegas. Possuem pouca possibilidade de construir
uma personalidade independente à margem do grupo.
Rodríguez descreveu a decepção de alguns progressistas com a nova
escola 50. Para ela, como para a sociologia da educação, a escola reproduz
as injustiças de classe e de gênero. A autora omite o principal: a
necessidade de trabalhar para adquirir conhecimentos. Nem fala dos
conhecimentos prévios para poder continuar avançando na aprendizagem
nem das disciplinas ou dos conhecimentos delas que os professores
necessitam. No entanto, para Rodríguez, as reformas não saíram como
estava previsto, apesar de que são “os seus” os que impuseram as regras.
Rodríguez resolve este dilema acusando o neoliberalismo de tudo o que ela
não concorda.
Uma das razões pelas quais a autora associa as reformas com o
neoliberalismo é que a nova pedagogia se volta para o desenvolvimento de
características pessoais como a independência e a iniciativa pessoal, que
permitem ao aluno se adaptar a novas situações. Aqui também se fala muito
mais de criatividade e flexibilidade do que de conhecimentos específicos. A
autora, desse modo, destaca como característica negativa que esta
pedagogia perceba o indivíduo como um ser “universal” e não insista em
uma identificação social prévia.
Rodríguez acredita ver nesta proposta pedagógica uma reação pendular ao
regime franquista. Se, desde então, havia sido privilegiado o conteúdo e as
metodologias tradicionais, na democracia devia ser necessariamente o
contrário. Assim, foi dada ênfase no como ensinar, e não no que e no para
que ensinar 51. No entanto, esse “como” era mais psicológico que
metodológico. Os anos oitenta significaram, assim, um êxito para a
“psicopedagogia” apresentada como o único método. Já não havia
preocupação por como escolher materiais nem quais conceitos ensinar, mas
como os professores deviam elaborar as tarefas para que todos
aprendessem. O professor devia respeitar e estimular a todos. O
construtivismo garantia a democracia fazendo com que todos os estudantes
pudessem participar. Os modelos de ensino tradicionais tão dependentes do
professor passaram a ser considerados antiquados. Pelo contrário, foi
exigido que o professorado dedicasse uma atenção individual à
aprendizagem de cada aluno.
Isto supõe uma extrema individualização52. O professor projeta a
situação e depois o aluno assume a responsabilidade de encontrar o
conteúdo. Supõe-se que os alunos tendem a desenvolver as aprendizagens
desejadas sem mais ajuda. Tudo isto influenciou sobre as necessidades da
educação especial. A partir deste momento, os alunos que não aprendem
parecem precisar de habilidade e capacidade para tomar iniciativas. Já não se enfatiza o tipo de problema do aluno. Todas as diferenças são tratadas
como “necessidades especiais”, uma fórmula que aparece como um
eufemismo.
A autora viu as consequências do protagonismo da psicopedagogia, que
outorga todo o protagonismo aos alunos. Os professores se transformam
em simples organizadores de situações de aprendizagem e são, portanto,
facilmente substituíveis. Como professora, a autora aceita mal que seu
papel tenha se tornado insignificante e que nem sequer sirva para constituir
um “contexto”, mas sim que apareça relegado a uma função impessoal, de
organização. Além disso, a psicopedagogia é apresentada como a única
opção pedagógica razoável, o qual constitui outro fator de pressão contra os
professores 53.
O construtivismo, também chamado, às vezes, de construcionismo, é um
termo quase desconhecido pelo grande público, que deveria conhecê-lo por
corresponder a uma corrente que está mudando os países ocidentais. O
construtivismo em pedagogia faz parte de uma teoria construtivista mais
geral. Há diferentes definições do termo e nas discussões sobre esta
corrente se pode observar uma escala de acepções cada vez mais radicais: 1.
o construtivismo social como uma perspectiva crítica, semelhante ao que se
costumava chamar de realismo crítico ou criticismo. 2. o construtivismo
social como teoria social vê a sociedade como uma criação humana em
constante processo de mudança. 3. o construtivismo social como teoria do
conhecimento, o aspecto mais importante para a educação. 4. o
construtivismo social como ontologia sustenta que não há outra realidade
que a das palavras. Os dois primeiros pontos poderiam ser aceitos por
muitos observadores, mas os dois últimos comportam problemas, em
particular, ao serem aplicados às ciências naturais 54. O construtivismo
social na terceira versão, visto como teoria de conhecimento, foi
interpretado frequentemente como um relativismo e em sua quarta versão foi interpretado como idealismo ou antirrealismo. Estas duas últimas
versões estão combinadas com uma forte crítica contra a ciência. A partir
do ponto de vista da educação, a enorme influência desta corrente foi
negativa por ter desviado o interesse e o esforço na transmissão dos
conhecimentos a um questionamento do mundo do conhecimento. Em
particular, parece negativo que os futuros professores aceitem que não é
importante que os alunos recebam um ensino entusiasta e enérgico.
Pode-se estudar o construtivismo também a partir de uma perspectiva
metodológica: há uma variante “escura”, voltada a questões de poder e que
cita frequentemente Foucault, e outra “clara”, que se interessa pelo
discurso e os processos sociais, baseada na teoria do discurso, na etnologia
e na desconstrução55. A maioria dos construtivistas acredita que não
podemos ter acesso a como é o mundo, mas somente a nossas próprias
ideias sobre ele. Já que não se pode saber nada do mundo, é inútil
argumentar e investigar, como fazem os “realistas”. Os construtivistas
acreditam que a linguagem não possui nenhuma relação precisa com o
mundo e que somente configura formas de falar, “práticas retóricas”. Os
relativistas chamam de “ingênuas”, “essencialistas” e “objetivistas” as
perspectivas distintas das suas. Evitam, em particular, toda discussão sobre
o corpo como sede da aprendizagem, já que desconfiam da biologia. Em
psicologia, negam a inteligência, a personalidade e a doença mental como
realidades. Para a psicologia ortodoxa, os eventos psicológicos estão dentro
do indivíduo, mas para os construtivistas constituem uma relação com a