Repensar a Educação
Prefácio
Se o leitor estiver satisfeito com a qualidade do ensino no país, público ou
privado, e acreditar que nossas crianças estão em ótimas mãos nas salas de
aula, absorvendo cada vez mais conhecimento objetivo e bebendo na
cultura universal, então nem precisa ler esse livro: não se trata de uma cura
milagrosa para a cegueira.
Agora, se o leitor concordar que a situação da educação é lamentável e
preocupante, que cada vez mais os valores dentro e fora das escolas se
encontram subvertidos, então o livro de Inger Enkvist é leitura obrigatória,
pois explica em detalhes quais são as origens dos problemas e apresenta
propostas concretas para solucioná-los.
A autora condena com bastante propriedade as novas tendências
pedagógicas que vêm tomando conta do mundo todo. Mas seu livro é mais
do que um combate à pedagogia social nas salas de aula; é um libelo em
defesa da verdadeira e clássica educação em sentido mais abrangente,
aquela que ensina alguém a ser adulto, a amadurecer com maturidade e
responsabilidade.
É função dos adultos transmitir o legado da civilização aos seus
descendentes, pois não se absorve isso automaticamente. Como diz Inger,
“Em nenhuma ocasião histórica sobreviveu um grupo que não tenha sido
capaz de formar a geração que lhe sucedia”. Mas será que as novas
gerações estão sendo bem formadas? Ou estariam elas, em nome de uma
pretensa “liberdade” plena, sendo deformadas?
O que vemos em quantidade cada vez maior são adolescentes
indisciplinados, rebeldes, agressivos, e com péssima formação intelectual e
cultural. A ausência de limites é a marca registrada da geração que merece a alcunha de “mimimi”, pois, mimada ao extremo, confunde desejos com
direitos. Afinal, “um jovem que não entende o conceito de limite se torna
insolente e insuportável”.
As escolas possuem uma função sagrada na formação social e moral de
uma sociedade. Os professores já foram vistos com imenso respeito no
passado, pois eram os responsáveis por transmitir conhecimento aos mais
jovens. Hoje, por tudo que é lado, esses jovens aprendem a desprezar a
própria sociedade, a cuspir em toda hierarquia, a afrontar o próprio
professor. Aprendem desde cedo que podem agir com total impunidade,
arrogância e desprezo pelas autoridades. Não há como sobreviver dessa
forma, ao menos não preservando valores básicos de uma civilização que
mereça tal rótulo.
Várias são as origens do problema apontadas pela autora. O romantismo
nos moldes de Rousseau, que encara a criança como “pura” e a civilização
como corrompida; o construtivismo, que delega ao próprio aluno a busca do
saber e confunde aprendizado com diversão; o relativismo, que nega o
próprio conhecimento objetivo e a possibilidade de alcançar verdades; o
igualitarismo, que rejeita a realidade de que somos desiguais em nossas
habilidades e capacidades; o multiculturalismo, que é o relativismo
estendido às culturas, impedindo a valorização das próprias tradições; etc.
Vivemos na era do narcisismo exacerbado, com crianças cada vez mais
autocentradas, julgando-se o “centro do universo”, extremamente egoístas e
hedonistas. O foco no esforço a longo prazo não é ensinado; em seu lugar,
há uma crescente tolerância com tudo que é “diferente”, o que na prática se
traduz em enaltecer a mediocridade. Nas escolas de hoje vemos uma
espécie de “vale tudo”, em que a cobrança dá lugar à vitimização dos que
não são capazes de acompanhar o ritmo dos demais alunos.
O que ocorreu foi uma exportação da luta de classes marxista para dentro
das escolas, que passaram a ser vistas não mais como um local de aprendizagem e superação individual, mas como instrumento opressor e de
doutrinação pelas elites burguesas. O filósofo Foucault tem tudo a ver com
isso, e recebe duras críticas da autora. Só senti falta do nome de nosso
“ilustre” pedagogo dos oprimidos, Paulo Freire, pois o estrago que suas
ideias equivocadas causaram não ficou limitado às fronteiras nacionais. Ele
merecia uma honrosa menção na lista dos culpados.
Enkvist fulmina: “A escola já não ajuda os incultos a tornarem-se cultos,
mas faz com que acreditem que são cultos. A diferença entre o inculto de
antes e o de hoje se baseia no fato de que o primeiro sabia que não era
culto. Agora se trata de bajular o inculto”. Ao destruir a tradição, o estoque
acumulado de conhecimento objetivo, os clássicos, a educação moderna
contribui para a destruição da própria cultura. E faz isso em nome da
“democratização” do ensino, o que é pior.
Como lembra a autora, os comunistas, em especial os maoístas, foram
mestres na arte de atacar o intelectualismo, e os assassinos do Khmer
Vermelho chegaram a dizimar qualquer um no Camboja que aparentasse
algum sinal de cultura superior. Dizem que bastava usar óculos para ser
considerado perigoso e correr o risco de ser morto pela fúria dos igualitários
ressentidos. É a obsessão de nivelar por baixo que acaba destruindo
qualquer civilização. Pura idealização da inveja.
“Estamos diante de uma mística social que quer ‘construir’ um novo
homem, com menos conhecimentos, mas com atitudes mais igualitárias”,
resume a autora. A seita dos pedagogos sociais avança, e com ela o rastro
de destruição da verdadeira educação, liberal e clássica. Esse livro que o
leitor tem em mãos representa uma importante munição na resistência
contra tal ataque niilista. É preciso resgatar nossos alunos das garras dos
pedagogos!
Rodrigo Constantino
Economista, articulista e presidente do Instituto Liberal