Repensar a Educação
1. O ser humano
Nascemos absolutamente indefesos. Qualquer coisa pode acabar conosco.
Precisamos de proteção, comida, limpeza e adestramento durante anos antes
de poder começar a sobreviver por nós mesmos. Dependemos totalmente
em primeiro lugar de nossos pais, mas também do grupo e, por sua vez,
nossos filhos dependerão completamente de nós para subsistir e para
aprender a viver em sociedade. Ser pai ou mãe não somente significa
cumprir com uma função individual, mas também social. Após anos,
“entregamos” nossos filhos ao grupo. Como pais, constituímos uma ponte
entre o jovem e a sociedade. Por isso temos uma obrigação dupla, para com
a sociedade e para com os filhos.
Diferentemente dos animais, os humanos se distinguem por ter uma
infância prolongada, um longo período de preparação para a vida, uma
fase dilatada que é um dos fatores que contribuem para a nossa
possibilidade de viver de uma forma mais individual que os animais. Graças
a este longo período, temos a possibilidade de aprender uma série de
condutas que ampliam extraordinariamente nossa capacidade de atuar na
vida. Nossa personalidade é formada durante este período.
O ser humano é um ser social. Por isso, se somos educados de maneira
negativa, tanto nós como nosso grupo sofreremos as consequências, já que
nossa existência e a do grupo estão estreitamente vinculadas. Sem o grupo,
não poderíamos sobreviver nem teríamos acesso às comodidades que outros
homens foram descobrindo e criando desde a aparição dos seres humanos
na Terra. Não pertencer e não ser requisitado para ajudar é uma experiência
penosa para o ser humano e, ao contrário, não há nada mais grato que a
admiração dos outros, uma autêntica recompensa social. Um dos aspectos mais duros da velhice se baseia precisamente no fato de que o grupo possa
ser menos requisitado.
O homem nasce com certas faculdades que correspondem a sua
constituição como ser biológico. No entanto, o homem não é somente um
ser natural, mas também artificial e, neste sentido, como membro de certo
grupo e como indivíduo, sua formação pode variar. Somos seres não
somente naturais, mas também culturais.
Por isso, se a educação familiar em grupos humanos primitivos é
observada, adverte-se de imediato como a criança segue o exemplo dos
adultos como algo natural. Tanto o adulto como a criança sabe que o mais
jovem deve ser adaptado ao grupo, à vida tal como é no lugar em questão.
O adulto conhece melhor esta vida que a criança e por isso pode guiá-la. A
criança aprende em primeiro lugar com os adultos da família mas também
com seus irmãos. Os pais ensinam seus filhos o que eles mesmos
aprenderam.
No entanto, em uma sociedade moderna, a vida social e econômica se
tornou tão complexa que todos os cidadãos precisam de uma longa série de
destrezas para poder conviver com os outros humanos, motivo pelo qual a
aprendizagem intelectual já não é um privilégio, mas sim uma verdadeira
obrigação. O caráter da sociedade moderna requer que todos aprendam
porque também exige que cada um ganhe um salário, respeite as leis e
pague impostos. A dependência com respeito aos demais membros do
grupo se mantém como antes, mas as modalidades mudaram
substancialmente. Hoje enfrentamos problemas oriundos desse período de
aprendizagem notavelmente prolongado e de exigências cada vez mais altas
e dificilmente negociáveis, independentemente do que o jovem se interesse
a aprender. Em outras palavras, o mundo no qual a criança deve ser
integrada conta com uma base biológica natural, mas atualmente influenciam muito mais os aspectos culturais, muito desenvolvidos, que
deverá incorporar.
A lectoescrita ingressou muito mais tarde na história da humanidade, mas
revolucionou nossa existência. No início, foi uma técnica utilizada pelas
pessoas cultas e a classe dirigente. A partir da perspectiva da criança, a
escrita supõe a obrigação de ter acesso a uma invenção sofisticada cujo
manejo deve se transformar em automático. Será assim como se a criança
pudesse entrar em contato com outros períodos e outros lugares, e isto sem
que seja através do relato de um avô ou de um viajante. A recompensa por
este esforço é para cada indivíduo a possibilidade de viver uma vida mais
variada.
Há um ditado entre vários povos africanos que diz assim: “Precisa-se de
uma aldeia inteira para educar uma criança”. Esta frase expressa de
maneira plástica que educação significa a inserção social e que somente se
o grupo humano for consistente, a criança ficará convencida de que “isso é
o que se deve fazer”. A criança pode adotar uma conduta determinada
somente porque sua mãe ou seu professor disse, mas se o que eles lhe
aconselham coincide com o que dizem os demais adultos, a aprendizagem
será mais profunda e irá assimila-la melhor. O exemplo africano ilustra que
a educação é ao mesmo tempo direta e indireta. Consiste no que se diz
explicitamente e o que se ensina implicitamente. Se os dois tipos de ensino
transmitirem a mesma mensagem ao jovem, a educação será mais fácil e
mais completa. O ensino indireto, no qual a criança “absorve” por viver em
comunidade, é o mais forte dos dois. Como para todos os seres biológicos, a
imitação é um modelo de aprendizagem muito importante, ainda que
atualmente não lhe seja concedida tanta transcendência. Sua eficácia está
relacionada com o desejo de pertença, de admiração, de aceitação, todos
eles motivos de atuação de enorme força 1.
A criança precisa adquirir costumes positivos para ela e seu ambiente e
não desfrutará de uma vida feliz e produtiva se não aprender a se comportar
de uma maneira aceitável para a sociedade. Para sobreviver, precisa que
seus membros sejam respeitosos e colaborem com ela. Se, ao contrário,
proliferarem pessoas inescrupulosas, de maus costumes ou que
simplesmente buscam somente seu próprio benefício, sua conduta se
transformará em uma ameaça para a vida comunitária.
Crescer é se transformar passo a passo em um adulto e, para ser
reconhecida como adulto, a criança deve aprender a se comportar como
adulto. Precisamente por ser algo indireto é tão preocupante que alguns
jovens estejam rodeados de modelos negativos. Em outras épocas, agora
condenadas, falava-se de “más influências” ou de “companhias
indesejáveis”. Atualmente, os modelos não desejáveis se encontram em
casa, na televisão e internet, instalados pelos pais como se constituíssem o
centro do lar, como também na habitação da criança, e se encontram
também nos colégios com o beneplácito dos políticos, que costumam se
refugiar na ilusão de que a presença eletrônica impede a deserção de jovens
violentos, que veem como exclusão.