Repensar a Educação

Inger Enkvist · Capítulo 3 de 11

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Repensar a Educação

1. O ser humano

 

Nascemos absolutamente indefesos. Qualquer coisa pode acabar conosco.

Precisamos de proteção, comida, limpeza e adestramento durante anos antes

de poder começar a sobreviver por nós mesmos. Dependemos totalmente

em primeiro lugar de nossos pais, mas também do grupo e, por sua vez,

nossos filhos dependerão completamente de nós para subsistir e para

aprender a viver em sociedade. Ser pai ou mãe não somente significa

cumprir com uma função individual, mas também social. Após anos,

“entregamos” nossos filhos ao grupo. Como pais, constituímos uma ponte

entre o jovem e a sociedade. Por isso temos uma obrigação dupla, para com

a sociedade e para com os filhos.

 

Diferentemente dos animais, os humanos se distinguem por ter uma

infância prolongada, um longo período de preparação para a vida, uma

fase dilatada que é um dos fatores que contribuem para a nossa

possibilidade de viver de uma forma mais individual que os animais. Graças

a este longo período, temos a possibilidade de aprender uma série de

condutas que ampliam extraordinariamente nossa capacidade de atuar na

vida. Nossa personalidade é formada durante este período.

 

O ser humano é um ser social. Por isso, se somos educados de maneira

negativa, tanto nós como nosso grupo sofreremos as consequências, já que

nossa existência e a do grupo estão estreitamente vinculadas. Sem o grupo,

não poderíamos sobreviver nem teríamos acesso às comodidades que outros

homens foram descobrindo e criando desde a aparição dos seres humanos

na Terra. Não pertencer e não ser requisitado para ajudar é uma experiência

penosa para o ser humano e, ao contrário, não há nada mais grato que a

admiração dos outros, uma autêntica recompensa social. Um dos aspectos mais duros da velhice se baseia precisamente no fato de que o grupo possa

ser menos requisitado.

 

O homem nasce com certas faculdades que correspondem a sua

constituição como ser biológico. No entanto, o homem não é somente um

ser natural, mas também artificial e, neste sentido, como membro de certo

grupo e como indivíduo, sua formação pode variar. Somos seres não

somente naturais, mas também culturais.

 

Por isso, se a educação familiar em grupos humanos primitivos é

observada, adverte-se de imediato como a criança segue o exemplo dos

adultos como algo natural. Tanto o adulto como a criança sabe que o mais

jovem deve ser adaptado ao grupo, à vida tal como é no lugar em questão.

O adulto conhece melhor esta vida que a criança e por isso pode guiá-la. A

criança aprende em primeiro lugar com os adultos da família mas também

com seus irmãos. Os pais ensinam seus filhos o que eles mesmos

aprenderam.

 

No entanto, em uma sociedade moderna, a vida social e econômica se

tornou tão complexa que todos os cidadãos precisam de uma longa série de

destrezas para poder conviver com os outros humanos, motivo pelo qual a

aprendizagem intelectual já não é um privilégio, mas sim uma verdadeira

obrigação. O caráter da sociedade moderna requer que todos aprendam

porque também exige que cada um ganhe um salário, respeite as leis e

pague impostos. A dependência com respeito aos demais membros do

grupo se mantém como antes, mas as modalidades mudaram

substancialmente. Hoje enfrentamos problemas oriundos desse período de

aprendizagem notavelmente prolongado e de exigências cada vez mais altas

e dificilmente negociáveis, independentemente do que o jovem se interesse

a aprender. Em outras palavras, o mundo no qual a criança deve ser

integrada conta com uma base biológica natural, mas atualmente influenciam muito mais os aspectos culturais, muito desenvolvidos, que

deverá incorporar.

 

A lectoescrita ingressou muito mais tarde na história da humanidade, mas

revolucionou nossa existência. No início, foi uma técnica utilizada pelas

pessoas cultas e a classe dirigente. A partir da perspectiva da criança, a

escrita supõe a obrigação de ter acesso a uma invenção sofisticada cujo

manejo deve se transformar em automático. Será assim como se a criança

pudesse entrar em contato com outros períodos e outros lugares, e isto sem

que seja através do relato de um avô ou de um viajante. A recompensa por

este esforço é para cada indivíduo a possibilidade de viver uma vida mais

variada.

 

Há um ditado entre vários povos africanos que diz assim: “Precisa-se de

uma aldeia inteira para educar uma criança”. Esta frase expressa de

maneira plástica que educação significa a inserção social e que somente se

o grupo humano for consistente, a criança ficará convencida de que “isso é

o que se deve fazer”. A criança pode adotar uma conduta determinada

somente porque sua mãe ou seu professor disse, mas se o que eles lhe

aconselham coincide com o que dizem os demais adultos, a aprendizagem

será mais profunda e irá assimila-la melhor. O exemplo africano ilustra que

a educação é ao mesmo tempo direta e indireta. Consiste no que se diz

explicitamente e o que se ensina implicitamente. Se os dois tipos de ensino

transmitirem a mesma mensagem ao jovem, a educação será mais fácil e

mais completa. O ensino indireto, no qual a criança “absorve” por viver em

comunidade, é o mais forte dos dois. Como para todos os seres biológicos, a

imitação é um modelo de aprendizagem muito importante, ainda que

atualmente não lhe seja concedida tanta transcendência. Sua eficácia está

relacionada com o desejo de pertença, de admiração, de aceitação, todos

eles motivos de atuação de enorme força 1.

A criança precisa adquirir costumes positivos para ela e seu ambiente e

não desfrutará de uma vida feliz e produtiva se não aprender a se comportar

de uma maneira aceitável para a sociedade. Para sobreviver, precisa que

seus membros sejam respeitosos e colaborem com ela. Se, ao contrário,

proliferarem pessoas inescrupulosas, de maus costumes ou que

simplesmente buscam somente seu próprio benefício, sua conduta se

transformará em uma ameaça para a vida comunitária.

 

Crescer é se transformar passo a passo em um adulto e, para ser

reconhecida como adulto, a criança deve aprender a se comportar como

adulto. Precisamente por ser algo indireto é tão preocupante que alguns

jovens estejam rodeados de modelos negativos. Em outras épocas, agora

condenadas, falava-se de “más influências” ou de “companhias

indesejáveis”. Atualmente, os modelos não desejáveis se encontram em

casa, na televisão e internet, instalados pelos pais como se constituíssem o

centro do lar, como também na habitação da criança, e se encontram

também nos colégios com o beneplácito dos políticos, que costumam se

refugiar na ilusão de que a presença eletrônica impede a deserção de jovens

violentos, que veem como exclusão.