Repensar a Educação

Inger Enkvist · Capítulo 5 de 11

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Repensar a Educação

3. A educação na escola

 

A escola é parte da garantia de sobrevivência da sociedade, exatamente

como a família é em outro nível. Tanto a família quanto a escola são

agentes de transmissão cultural. Já que os seres humanos são seres

biológicos, a única maneira de sobreviver é através de outros seres. A

sociedade não somente exige contar com jovens tão competentes como os

idosos que morrem para ocupar seu lugar, mas o ideal é que sejam ainda

mais competentes. Uma democracia entrega, além disso, a sorte da

sociedade aos cidadãos, ou seja, educar o cidadão é educar o soberano,

como dizia Sarmiento. Os jovens devem estar à altura quando chegar a vez

deles de serem responsáveis pela sociedade. O nível não somente

intelectual, mas também social e moral de uma sociedade é decidido nas

escolas. Por isso, uma sociedade que deixa a educação nas mãos de pessoas

indignas desta confiança não consegue prosperar. Se for ensinado aos

jovens a desprezar sua sociedade, a mesma não sobreviverá.

 

Quando as escolas públicas começaram a ser criadas no século XIX, havia

uma série de argumentos para investir dinheiro público nesta atividade. A

escola pública era parte da modernização do Estado. Se os cidadãos

soubessem ler, o Estado poderia tratar com eles diretamente, o qual

facilitaria a administração. Nos países protestantes, a leitura esteve

relacionada com a vida religiosa porque o cristão devia saber ler a Bíblia.

Antes da aparição das escolas públicas, as crianças aprendiam a ler, se o

fizessem, com a mãe, os avós ou, às vezes, com algum empregado da casa.

Em muitos países, sacristães, organistas ou padres instruíam as crianças,

mas obviamente estas pessoas tinham também outras ocupações.

 

Outra função da educação foi a integração do país. O cidadão não

somente vive no marco da família e da aldeia, mas também claramente pertence a um conjunto mais amplo, o país. O país é construído, até certo

ponto, através da escola obrigatória. Os cidadãos, além de dominar o dialeto

local, aprendem a dominar a língua nacional. Aprendem a história, a

geografia, a religião e a literatura. De certo modo, pode-se falar de

doutrinamento para o bem comum do indivíduo e da sociedade. É

absolutamente fundamental que o cidadão tenha uma atitude positiva

perante a sociedade e que respeite suas leis. As condutas antissociais

ameaçam os outros cidadãos, geram gastos e provocam o caos. A instrução

pública significa também que o país pode dispor de uma mão de obra

versátil e não ficar atrasado em comparação com outros países. Ou seja,

existe uma relação de mútua dependência entre o país e o indivíduo.

 

Finalmente, a escola é também uma forma econômica, racional, de

organizar o ensino: permite que uma pessoa ensine muitas crianças ao

mesmo tempo. Para isso, o professor deve ter adquirido conhecimentos

especiais e atualizados dos quais os pais não possuem necessariamente, e

pelos quais as crianças podem chegar mais longe que os pais. Os pais

costumam ter uma formação típica da época de sua própria escolarização. O

professor, ao contrário, está capacitado para fazer provisão de materiais

didáticos, o qual se torna impossível em uma casa particular por uma série

de razões. O professor também deve ter aprendido métodos para adaptar o

ensino à idade e à capacidade dos alunos.

 

Nos últimos séculos, os Estados foram se tornando conscientes da

importância de que todos os cidadãos soubessem ler e escrever. A princípio,

a escolarização obrigatória não foi uma reforma bem vista por muitos

camponeses, que preferiam utilizar seus filhos como mão de obra.

Atualmente, a escola chegou a ocupar a função oposta, a de creche. Os pais

trabalham fora de casa e precisam ser liberados do dever de cuidar de seus

filhos. Os filhos já não representam uma valiosa mão de obra para as

famílias, mas sim um luxo sentimental. O efeito creche é também muito

importante para o Estado. Ninguém quer ter crianças e adolescentes à deriva pelas ruas nas grandes cidades. Por causa de reformas adotadas por

outros motivos, a mão de obra é agora tão cara que se torna praticamente

impossível dar um emprego aos mais jovens. Este fato influenciou

poderosamente nas decisões sobre a educação sem que tenha transcendido

oficialmente.

 

Para entender a significação da escola, podemos refletir sobre a escola

como edifício. Uma escola possui algumas características arquitetônicas

que faz com que a identifiquemos imediatamente como tal. Há algumas

décadas era frequente construir as escolas como castelos ou, pelo menos, de

tal maneira que se visse claramente que se tratava de uma instituição social.

Atualmente, estamos tão acostumados com os edifícios escolares que talvez

não pensemos em sua funcionalidade. Na escola, há várias salas de aula

porque se trabalha com vários grupos e com diferentes níveis. Conta com

dependências para guardar de maneira ordenada os materiais didáticos e

com salas de aula menores para que os alunos possam trabalhar em equipe

ou de maneira individual. Há salas especializadas para a ginástica, a arte, a

música, os trabalhos manuais e os cuidados domésticos, para a física, a

química, a biologia e a tecnologia. Há refeitórios e lavabos. As vezes, há

espaços de recreação para os alunos. Há escritórios para o diretor do colégio

e sua secretaria, para a assistência social e para a enfermaria. Costuma

haver uma sala de descanso para os professores e salas menores para sua

preparação individual. Costuma haver uma sala com uma fotocopiadora e

um escritório para o bedel. Muitas escolas contam com uma biblioteca,

talvez também com uma sala de televisão e vídeo, e agora quase sempre

com uma sala de computadores. Além disso, costuma haver pátios e jardins

rodeando os edifícios escolares.

 

Por que esta enumeração do que todo mundo já sabe? Para nos recordar

que a escola é hoje um mundo especializado, que o edifício reflete o plano

de estudo e o horário dos alunos. A sociedade não somente adotou um

plano de estudo, como também sacrificou muitos recursos para construir edifícios especiais que permitam uma educação eficaz. É curioso que,

atualmente, foi alcançado um consenso mais massivo sobre a necessidade

de equipamento das escolas do que sobre as metas a serem alcançadas com

este equipamento. É como que se acreditasse que a mera existência das

instalações se transformasse automaticamente em aprendizagem. Para

aproveitar a fundo os edifícios, são necessários professores competentes

que se identifiquem com sua profissão e que cuidem dos locais. É

necessário um regulamento interno que proíba qualquer vandalismo por

parte dos alunos.

 

O edifício escolar é uma imagem visual do plano de estudo. É o visível

do invisível. Muitas vezes, aos pais dos alunos e aos próprios alunos

somente lhes interessa o que for mais próximo na vida do aluno e, se não

fosse pelo edifício, não saberiam bem quais disciplinas são dadas. As

matérias que são estudadas nas escolas em diferentes países são

surpreendentemente similares e as diferenças não são observadas tanto no

plano de estudo como na qualidade das aprendizagens.

 

A educação é um dos gastos ou investimentos mais fortes do Estado de

Bem-estar. Em muitos países, a educação nacional é “a empresa” com mais

empregados do país. Quando os contribuintes se queixam dos impostos, é

importante que a sociedade possa justificá-los com a boa qualidade das

escolas. As avaliações de qualidade são cada vez mais importantes. Não se

trata somente do resultado individual de um aluno e suas notas, mas

também do funcionamento de uma disciplina, de um estabelecimento, da

educação em uma cidade, uma região ou um país. Nos últimos anos, temos

sido testemunhas de múltiplas comparações internacionais que seguramente

vão aumentar no futuro. Cada avaliação tem seus propósitos e se deve saber

interpretá-la, mas o essencial é que geram uma vontade de superação.

 

A gratuidade da escolarização é um avanço social importante. No

entanto, existem alguns efeitos adversos. Nem todos os alunos cuidam dos livros gratuitos. Alguns jogam fora comida no refeitório, outros destroem os

banheiros e até há os que provocam incêndios. Há um século, o problema

para os professores era organizar o trabalho, talvez em uma única sala para

alunos de diferentes idades e conhecimentos, e conseguir alguns materiais

básicos, como cadernos, lápis e livros. Às vezes, os professores viviam em

um apartamento no mesmo edifício escolar, e nos países frios, eram

responsáveis por acender a estufa no inverno e tirar a neve para que os

alunos pudessem entrar. Se antes os alunos mais avançados aprendiam

através de materiais disponíveis na sala de aula, chegamos a uma situação

em que, apesar de ter conhecimento da existência de diversas possibilidades

em forma de livros e programas eletrônicos, somente trabalham com alguns

destes materiais e normalmente não chegam a conhecê-los a fundo. Em vez

de expressar sua gratidão por ter a oportunidade de estudar, muitos alunos

falam do colégio como se fosse uma prisão e esperam o momento de ser

“liberados”.

 

Por que mantemos escolas nesta época em que há novas possibilidades de

utilizar internet para estudar? Poder comparar os resultados e discutir os

temas estudados é uma forma de socialização que funciona como estímulo e

como motivação. O grupo pode oferecer ao aluno uma energia psíquica e

física que o motiva e assim apoiar os esforços do professor.

 

Outra característica da escola pública no passado é que foi ao mesmo

tempo a escola do Estado e do povo, por contraposição à privada que

costumava ser a escola da Igreja e das elites. No entanto, há algumas

décadas, a escola pública é atacada por ser supostamente um instrumento de

doutrinamento “burguês” dos filhos da classe operária. Definitivamente,

está ocorrendo um ataque às regras de comportamento, às exigências, aos

conteúdos e à formação de professores. O resultado começa a se tornar

visível e é bem conhecido por todos os que trabalham dentro do campo da

educação: uma proletarização dos colégios públicos e uma revalorização e

prestígio dos centros não públicos. Agora começa a existir colégios públicos nos quais os alunos não aprendem quase nada e colégios privados

com bons professores, boas instalações, mas, sobretudo, com alunos que

estudam e avançam. A Espanha se aproxima de um sistema no qual os

filhos dos já educados estudam nos colégios privados e os filhos dos

operários passam a ter uma educação vazia de conteúdos. Cria-se, assim,

uma classe baixa, inculta, uma situação que constitui uma verdadeira

ameaça para uma democracia avançada.

 

É impossível que uma escola pública funcione com alunos que não

queiram estudar. Um exemplo extremo do que poderia chegar a ser um

ensino nestas condições é o de um jovem professor norte-americano

idealista que havia pedido um emprego em um lugar afastado para trabalhar

em uma região povoada quase unicamente por indígenas norte-

americanos 16. Os alunos detestavam ter que frequentar a escola e faziam o

impossível para enfraquecer a autoridade do professor. Ignoravam seus

comentários ou respondiam lenta e preguiçosamente. Imitavam suas

palavras ou sua forma de agir. Transformavam o professor no alvo de suas

críticas e chacotas. Constantemente, pediam permissão para ir ao banheiro.

As experiências de trabalho deste professor demonstram que é impossível

ensinar alunos que não estão dispostos a aprender e, infelizmente, ocorrem

casos similares nos bairros da periferia de muitas cidades grandes. Tem-se

falado muito da dignidade do aluno, mas chegou a hora de ser criada uma

escola que sirva de salvaguarda também da dignidade do docente e de si

mesma como instituição social.

 

Para tratar dos problemas mais frequentes da educação nos países

desenvolvidos, vamos citar também as observações do conhecido pedagogo

norte-americano Damon 17. Este autor descreve a dependência da sociedade

de um bom funcionamento da educação e explica por que são preocupantes

as tendências atuais. Como tantos outros, Damon considera que é

impossível organizar um ensino para jovens que não querem aprender. Em situações semelhantes, destrói-se o ambiente moral necessário para o ethos

da educação. Os professores começam a dizer que se deve manter uma

“distância” profissional, que não se recomenda se envolver muito para não

terminar “queimado”. Quando a vocação acaba, somente permanece a pura

burocracia, a pura obrigação de ir ao colégio, até ser liberado desta

obrigação.

 

Muitos colégios oferecem uma imagem degradada. As pichações que

cobrem os muros transmitem a ideia de uma sociedade que perdeu o

controle. Como mudar essa situação? O primeiro passo é voltar a garantir a

segurança física. Conseguir a estabilidade da equipe de professores é muito

importante. As crianças não podem aprender sozinhas, já que precisam de

instrução, precisam ser empurrados, precisam ver uma apresentação

organizada dos conhecimentos que devem adquirir, e se isto não ocorrer as

primeiras vítimas são os alunos que não podem contar com um apoio

acadêmico em sua casa. Damon constata que é um marco no

desenvolvimento moral de uma criança o ter aprendido a aceitar regras

sociais e o respeito pela ordem social, mas sem algum tipo de sanção, o

aluno não está suficientemente “alertado” com relação à seriedade da ordem

ou instrução recebida.

 

Buscando as possíveis explicações destas mudanças em seu país, Damon

aponta que a cultura destrutiva da crítica foi amplificada pelo

sensacionalismo e os meios de comunicação. Existe a ideia de que a

oposição leva à verdade. Isto afeta o consenso que necessitam os adultos

para socializar seus filhos, ilustrado pelo exemplo da “aldeia africana”.

 

Por isso, considera negativa a ideia de adiar de qualquer maneira a entrada

no mundo dos estudos organizados, uma ideia influenciada por Rousseau.

Ao contrário, é preciso que comecem a estudar e a adquirir bons costumes o

quanto antes. Se não forem ensinados os bons costumes, as crianças

desenvolverão interesses que não os ajudarão a avançar em seu conhecimento do mundo. A ideia romântica de centralizar toda atividade ao

redor dos desejos da criança não funciona, aponta Damon. Trata-se de uma

interpretação das teorias do psicólogo suíço Piaget que levou a uma

pedagogia “aguada”, a uma apatia, a uma ausência de objetivos que

busquem desenvolver a potencialidade de cada criança. Os alunos se

acostumaram com uma atitude passiva, com uma vida sem esforços. Damon

considera que estamos em condições piores do que há um século porque em

nome do “angelismo escolar” são tolerados hoje os costumes da mentira e

do engano. Em vez de respeito pela autoridade, são fomentados o

cepticismo e a rebeldia. Isto se traduz no narcisismo, depressão, baixos

rendimentos e uma conduta antissocial e autodestrutiva. Os jovens somente

aprenderam a respeitar a si mesmos. A pedagogia da “criança no centro” é a

pedagogia do narcisismo, o contrário do que ocorre nas culturas

tradicionais, nas quais a criança aprende a obedecer e a ajudar a

coletividade. A cultura do facilitismo desanima os jovens dispostos a

realizar um esforço. Há uma falta de equilíbrio entre os direitos e as

responsabilidades. Damon enumera os sinais de desenvolvimento

antissocial, antiescolar e inclusive de desintegração social que podem ser

observados em sociedades tecnicamente avançadas como a sua. Os jovens

assistem televisão entre quatro e seis horas diárias e mais durante os finais

de semana. Há bairros nos quais uma em cada três alunas é mãe solteira.

São observados sérios problemas psicológicos e sociais que vão da

irritabilidade, teimosia e mentiras ao roubo e coisas piores. Estas condutas

negativas costumam, além disso, vir acompanhadas da ansiedade, do

isolamento social e da falta de amigos.

 

3.1. Língua e pensamento

 

Entre os aspectos mais importantes da educação se encontram o

desenvolvimento da linguagem e do pensamento.

A linguagem se utiliza para explorar o mundo, e não somente é resultado

de explorações já realizadas por outros. A criança desenvolve sua

linguagem a cada dia e a escola normalmente acelera notavelmente esta

aprendizagem. Uma criança de sete anos poderia ter um vocabulário de

umas seis mil palavras e a cada ano escolar acrescentar outras três mil. O

crescimento do vocabulário é uma das medidas com a qual se comprova se

a escolarização está sendo bem sucedida ou não 18.

 

A tarefa do professor inclui conhecer a fundo o fenômeno do

desenvolvimento linguístico, com o objetivo de selecionar os elementos que

ensinará e organizá-los. O professor deve dedicar tempo para escolher bem

os exemplos e organizá-los. Faz falta uma análise precisa do fenômeno que

será ensinado e uma compreensão dos processos mentais do aluno

necessários para que assimile o novo conceito e para abstraí-lo. O aluno

precisa memorizar, voltar ao exemplo, compará-lo com outros e repassar o

aprendido. É importante incorporar o costume de verificar um trabalho feito

e poder justificar por que foi realizado assim e não de outro modo.

 

A motivação interna é fundamental para o trabalho intelectual. Deve-se

querer entender para chegar a entender. Devem existir conhecimentos

prévios e o costume de perseverar nos estudos para alcançar a “façanha”

intelectual de aprender algo novo. Para que este milagre seja realizado, é

importante que o professor selecione tarefas adequadas às possibilidades do

aluno, mas também que este esteja disposto a pensar. A estrutura é

necessária tanto para aprender como para recordar, e os projetos de sala de

aula ou as atividades isoladas, sem acompanhamento de um ensino

estruturado, não deixam impressões significativas na mente do aluno. Para

utilizar o pensamento de maneira eficaz, é preciso utilizar a memória,

diferenciando os exemplos dos conceitos.

 

A abstração é a capacidade de escolher certos elementos não levando em

conta os outros. Trata-se de uma operação mental que consegue reduzir a multiplicidade da realidade e estender uma opinião a uma classe inteira de

objetos, apesar de ter estudado somente alguns. Em alguns temas, somente

é possível a abstração e não a generalização, por exemplo, quando se trata

de uma personagem literária. Podemos descrever uma personagem, mas o

fato de ter estudado uma não basta para saber como são outras personagens,

pois nem todas possuem as mesmas características. Se falamos de um fato

histórico, o fato de ter estudado um tampouco necessariamente significa que

conhecemos como se desenvolveu outro fato similar.

 

Outros conhecimentos permitem, pelo contrário, a generalização, um

procedimento que sempre vai precedido pela abstração. Um aluno que

observa certa reação química entre duas substâncias em uma proveta sabe

que é normal que ocorra o mesmo se as mesmas substâncias se misturarem

nas mesmas condições pela segunda ou terceira vez. Neste caso, depois da

fase da abstração, pode-se passar a de generalização, posto que se trata de

uma “lei”. Quando o aluno compreender esta relação entre exemplo e

conceito universal, aprendeu. “Abstração + generalização =

conceitualização”19.

 

Existe confusão quanto à relação entre o prático, ativo e concreto e o

teórico e abstrato. Não é o prático o que dá valor ao teórico, mas sim o

contrário. O concreto se torna compreensível somente através do teórico e

abstrato. Entendemos o mundo através dos conceitos. Se não tivéssemos

conceitos, tudo o que acontecesse a nosso redor soaria confuso e

incompreensível e, perante a mesma realidade, cada vez sentiríamos o estar

aterrizando em um cenário completamente novo e que continuaria sendo

novo, algo que nos cansaria muito. O ser humano se relaciona com o mundo

através dos conceitos que lhe permite se orientar e “economizar” o esforço

cognitivo. Nomear, classificar e relacionar são operações diretamente

projetadas para interagir com o mundo.

Os conceitos já aprendidos servem de modelo aos novos. Quanto mais

sabemos, mais fácil é aprender mais ainda e, por isso, deve-se começar a

aprender o quanto antes possível. Se o aluno não desenvolveu instrumentos

intelectuais e linguísticos, não pode entender a significação de cada

elemento novo. A língua é o instrumento mais importante para incorporar

novidades, para entender o novo e, ao mesmo tempo, é um reflexo do

aprendido. Por isso, a escola constitui uma comunidade linguística e seu

correto funcionamento depende de que a organização respeite a ordem e os

níveis de aprendizagem. Se o professor avançar sem que todos os alunos

tenham entendido, deixa-se muitos para trás, mas o que tampouco pode

fazer é explicar absolutamente tudo desde o princípio em cada ocasião

porque assim tampouco ocorre progresso.

 

Contar com um vocabulário preciso é uma condição imprescindível para

adquirir um pensamento preciso. Ter acesso a determinadas estruturas

gramaticais é básico para conceber e expressar pensamentos claros. A

estrutura verbal é a parte visível do pensamento e há uma interdependência

de linguagem e pensamento. O docente que não promover o

desenvolvimento da linguagem do aluno não pode reivindicar que apoia

seu desenvolvimento intelectual.

 

Os estudiosos especialistas em leitura enfatizam que para ler bem, deve-

se ter um conhecimento do mundo combinado com um bom vocabulário e

com destrezas técnicas de decodificação. O leitor habituado guarda na

memória uma longa série de esquemas mentais aos quais pode recorrer com

incrível rapidez e entre os quais escolhe o sentido que convém a um dado

contexto. Somente o costume de ler combinado com a assimilação de uma

ampla gama de conhecimentos permite esta compreensão rápida que dá

sentido à leitura. O leitor principiante avança tão lentamente e com tantos

erros que a leitura para ele somente presume esforço e nenhum prazer 20.

Em outras palavras, não há melhor caminho para o desenvolvimento intelectual do que o aprender a ler bem e depois praticar muito. Primeiro se

aprende a ler, depois se lê para aprender e finalmente se lê para estudar um

assunto a partir de diferentes pontos de vista.

 

Além disso, um estudo longitudinal de crianças a partir de um ano de

idade até dez mostra que o êxito escolar tem a ver com o estar habituado ao

mundo dos livros. Através dos livros, a criança tem acesso a um “aqui e

agora” que o acostuma a não ver a si mesmo como o centro do universo e o

prepara para aprender 21.

 

Atualmente, quase todos os pesquisadores acreditam que é um equívoco

pensar que se deve esperar que a criança amadureça para iniciar o processo

de aprendizagem, tal como foi interpretado por Piaget 22. Este psicólogo

sustentava que o entendimento se desenvolveria quase somente depois do

amadurecimento da criança e que a aprendizagem seria impossível antes

que se alcançasse o amadurecimento correspondente. Os pesquisadores de

neurofisiologia sustentam agora que o amadurecimento pode ser acelerado.

A mesma ideia da escola é baseada nesse empurrar o aluno para ir além de

aonde iria somente por sua própria capacidade e vontade. A maturidade é a

consequência de uma boa pedagogia.

 

A insistência atual em diferentes estratégias em vez da prática da própria

leitura poderia se transformar em um beco sem saída. Ao contrário, cada

vez mais estudos mostram que nosso pensamento depende do contexto.

Para a escola, a consequência é que se deve ensinar os alunos muitas

matérias para que estejam familiarizados com muitos “contextos”. Os

pesquisadores observaram que os que mais sabem de um campo levam em

consideração mais possibilidades e tiram melhores condições. Em outras

palavras, é fundamental ter conhecimentos prévios. Os pesquisadores

também se interessam muito pelo conhecimento organizado como algo

narrativo, um enfoque também diferente da insistência nas estratégias. Especialmente os alunos com problemas aprendem mais facilmente se o

novo se apresentar em forma de história.

 

Um estudo sobre as transformações cerebrais durante a vida mostra que

os conhecimentos e destrezas que conservamos mais tempo são os

aprendidos quando éramos muito jovens23. Quando a vista e o ouvido já

não funcionam tão bem como antes, dependemos mais do que foi

aprendido. É mais difícil adquirir conhecimentos depois de velho, o que

quer dizer que se deve aprender durante a juventude tudo o que for possível.

Os pesquisadores que estudam a memória em pessoas de idade destacam

que há recordações de uma especial nitidez do que foi vivido e aprendido

entre os dez e os trinta anos, com um pico entre os dezesseis e os vinte e um

anos. É impossível dizer com mais clareza que é indispensável aproveitar

ao máximo os anos de escolarização. Os psicólogos não acreditam muito na

capacidade das pessoas para usar estratégias metacognitivas. Além disso,

apontam que, em seus experimentos, não somente o ruído, mas também a

música obstaculiza a aprendizagem e a capacidade de recordar a longo

prazo o que foi aprendido.

 

O biólogo chileno Varela foi um dos primeiros a apontar que a

aprendizagem muda o organismo e que o sistema cognitivo possui a

potencialidade de “se auto-organizar”. O cérebro não somente se “enche”,

como também se reorganiza quando aprende. O cérebro cria uma rede de

conexões cada vez mais densa, flexível e rápida. A leitura e os

conhecimentos em geral transformam o cérebro do leitor e quanto mais

aprende o jovem, melhor “formata” seu cérebro para compreender o

mundo.

 

Os psicólogos falam da importância da atenção combinada com a vontade

para todas as aprendizagens. As pessoas que se destacam no campo que for

costumam ter dez anos de treinamento intensivo, conforme diz a famosa

regra dos dez anos ou das dez mil horas. Também falam de escolher bons modelos. Em outras palavras, uma escola que não ensina o esforço a longo

prazo, mas sim a “tolerância” pela falta de atenção, não prepara um bom

futuro para seus alunos 24.

 

3.2. A relação entre aluno e professor.

 

A meta da escolarização é que a criança se transforme em um adulto

maduro, racional, culto e responsável. Para chegar a isto, deve-se acostumá-

lo a buscar a verdade e a fundar seu pensamento em argumentos. Já que

geralmente o aluno aprende muito por imitação, o professor é para ele uma

influência moral e intelectual de primeira ordem. Por isso, inclusive se

poderia dizer que o professor deve ser digno de admiração. Não somente

por seus conhecimentos, mas também por sua entrega ao ensino, sua

imparcialidade e sua justiça. Falava-se antes de vocação ao magistério;

atualmente continua havendo necessidade de que o professor saiba antepor

as necessidades dos alunos às suas próprias. Se o professor não apresentar

nenhuma característica sobressalente, o que transmitirá será a mediocridade

e o aluno concluirá que o mundo do conhecimento não é muito interessante.

Se alguém se apresentar como professor sem ter conhecimentos para

transmitir, afeta a confiança do aluno na escola como instituição, portanto,

o dano feito vai além do professor em questão.

 

O professor possui o posto que desempenha por encargo da sociedade.

Não é o empregado dos pais nem o escravo dos alunos. É um representante

da sociedade adulta que aceitou a tarefa de vigilar para que os jovens

recebam o ensino que a sociedade considera apropriada. Este trabalho é

encarregado ao professor por outros adultos, mas necessita sentir que conta

com a confiança dos mesmos. Se a sociedade lhe retira a confiança, não

poderá cumprir sua obrigação porque lhe faltará autoridade para realizar a

tarefa de educar. Os exames e avaliações do próprio professor e de seus

alunos possuem, entre outras, a função de permitir que a sociedade constate

se o professor cumpriu o seu dever.

Tanto os professores como os pais devem saber combinar afeto com

exigência. Os professores devem gostar dos estudantes o suficiente para

serem capazes de se sacrificar por eles, mas não é possível que o professor

continue sacrificando-se sem que a sociedade lhe retribua de alguma forma.

Tampouco é sensato pedir esforços aos alunos sem nenhuma recompensa, e

menos ainda “mimá-los” se é esperado que evoluam em conhecimento.

Simplesmente, não há melhor estratégia que a de respeitar o esforço que

significa ensinar e aprender.

 

Também é preciso que nos países democráticos, assim como em qualquer

sociedade, os cidadãos se comportem de maneira respeitosa com as leis. Em

uma ditadura, o medo à repressão pode obrigar a população a cumprir certas

normas, mas em um país democrático se espera que o acatamento seja

voluntário e racional, ou seja, por bem, o que se consegue através do

ensino. Por isso, é muito importante que a escola funcione bem porque,

caso contrário, o país não poderá se defender dos violentos. A mesma

modalidade democrática de um país o expõe a abusos por parte dos que não

receberam educação.

 

Ultimamente em muitas nações industrializadas, adverte-se o

desequilíbrio entre os direitos e as exigências dos alunos com a

correspondente confusão sobre o papel do professor. Culpa-se o professor

por não ter conseguido realizar tarefas impossíveis. Um professor não pode

ensinar com igual êxito ao aluno que quer aprender e ao que não quer. O

educando deve ser “ensinável”. É uma ofensa ao professor quando o

mesmo é enfrentado por alunos que lhe mostrem desprezo: nenhuma

aprendizagem é possível com um aluno ausente ou rebelde.

 

O aluno deve aceitar durante alguns anos o papel de aluno, deixando de

lado outros papéis, porque para poder aprender precisa se concentrar na

tarefa de aprendizagem. É necessário, portanto, certo “ascetismo” escolar,

dosando as saídas e as horas de televisão quando se deseja dominar algo difícil. Em parte, a eterna discussão sobre os uniformes escolares também

cabe ser considerada desde esta perspectiva. O uniforme não somente faz

com que alunos de diferentes origens sociais e étnicas se tornem iguais,

como também dá ênfase ao comum papel de alunos com relação à etapa

geracional na qual se encontram. Quando vestem uniforme, recordam

perante os demais cidadãos que fazem parte de uma instituição social, na

qual são proibidas certas condutas negativas tanto para o seu próprio bem

como indivíduos como para o bom nome da instituição.

 

O plano de estudos supõe que o aluno deve respeitar um horário, fazer

deveres, ser organizado e aprender a expressar-se oralmente e por escrito.

Adotar um plano de estudo significa se propor a uma meta. O típico da

aprendizagem é ir pouco a pouco, o aprender algo todos os dias. Os alunos

se queixam muitas vezes pela lentidão, de tantos dias iguais nos quais

aparentemente “não acontece nada”, mas se ficarem doentes ou se

ausentarem durante duas semanas, será difícil recuperar o que foi perdido e

um mês de ausência costuma significar a perda do ano para a criança.

 

As notas, por sua vez, são uma recompensa ao trabalho realizado. Em

muitos países, discute-se se o efeito das notas é mais negativo do que

positivo. Negativo seria se as notas causassem estresse ou desatassem uma

desmedida concorrência entre colegas, mas o positivo se baseia no fato de

que constituem uma gratificação, um reconhecimento ao trabalho bem feito

ou um lembrete de que o aluno tenha podido trabalhar melhor. Os que se

pronunciam contra as notas costumam preferir falar de “trabalho escolar”

em vez de aprendizagem; preferem o quantitativo no sentido de ver o

trabalho como algo concreto, uma série de folhas preenchidas, em vez de

considerar outras implicações mais sutis, qualitativas e abstratas. Mas a

aprendizagem escolar é isso: qualitativa e abstrata. Não há outra

aprendizagem fora do que se realiza no cérebro de cada aluno. Por isso,

algumas escolas outorgam prêmios por excelência ao final do ano escolar; a

existência de um prêmio pode motivar os jovens a esforçar-se mais porque os fatores psicológicos influenciam poderosamente nessa idade. É típico da

adolescência o querer ser testado, sobressair e se superar.

 

A profissão docente é imprescindível, os professores deveriam se sentir

apoiados e respeitados pela sociedade, no entanto, este grupo atinge uma

porcentagem alta de determinados profissionais de licença por estresse,

depressão, esgotamento ou conflitos em seu local de trabalho. As causas

mencionadas são a desmotivação dos alunos e a falta de disciplina, fatores

que também dissuadem e assustam muitos candidatos à docência. As

escolas de formação de professores recebem menos solicitações de bons

candidatos e as vagas disponíveis são ocupadas por estudantes que antes

não haviam sido aceitos. O novo pessoal docente é constituído por pessoas

cuja própria escolarização nem sempre foi brilhante. Há aqueles que veem

nisso um avanço social, já que pessoas que antes não podiam ensinar, hoje

têm acesso à profissão docente. Por este caminho, o sistema escolar em

todos seus níveis se transforma mais em um meio para igualar os cidadãos

do que em uma instituição dedicada a instruir cidadãos e transmitir a

cultura. Para alguns pedagogos, isto seria uma conquista e o argumento é

que este novo professor sabe como é difícil aprender e será mais

compreensivo perante a dificuldade de seus alunos.

 

Os alunos e os docentes são, então, iguais, mas se alguém for “mais

igual” que o outro, no sentido de Orwell, esse é o aluno. Cada vez mais, o

professor é relegado a um papel de empregado, enquanto que o aluno cada

vez mais parece um príncipe ditando ordens. Fala-se muito da dignidade do

aluno, mas muito pouco da dos professores. Somente os professores com

uma autoestima sumamente debilitada aceitam ser tratados pelos alunos da

maneira em que hoje são tratados.

 

Além disso, considera-se agora que todos os professores são iguais. Os

que estudaram mais que seus colegas até devem ser discretos e ocultar o

fato para que os que estudaram menos não se sintam desvalorizados. Antes, além dos títulos universitários, o número de anos de experiência costumava

ser um mérito importante ao solicitar um posto docente, mas agora tudo isso

conta cada vez menos. O professor tampouco deve reclamar “o privilégio”

de ensinar os grupos para os quais se preparou. De certo modo, até é lógico,

pois se conta pouco o conteúdo para o aluno, por que contaria para o

professor?

 

Na formação docente, insiste-se na teoria de simplificar e tornar o ensino

divertido, ou seja, em agradar os alunos São poucos os professores que

preparam um curso lendo estudos de especialistas a fim de transmitir uma

versão mais exata possível do tema. Além disso, os novos professores já são

produto dos mesmos métodos que agora aplicam a seus alunos, ou seja,

estudaram os temas de maneira fragmentária, desconexa, com escassa base;

acostumaram-se a justapor, não a organizar nem hierarquizar nem priorizar

os diferentes aspectos do tema. Tampouco praticaram muito a expressão

escrita. Durante os anos de formação, os futuros professores se queixam

ante seus professores, dizendo que não “precisam” de mais conhecimentos

além do que seus alunos lhes irão pedir. Por exemplo, no diploma francês

para professores, o CAPES25, foram introduzidas mudanças que são

voltadas para uma menor exigência de conhecimentos transmitidos em

forma escrita e maior ênfase na comunicação oral com o grupo 26. Tudo isto

lembra o ensaio de Arendt em que nos adverte que uma educação sem

ensino se transforma em uma retórica vazia, moralizante27.

 

Dois sociólogos franceses, Rayou e Van Zanten, acabam de publicar uma

pesquisa realizada entre professores jovens, com o objetivo de examinar sua

atitude diante da profissão escolhida28. Nem os sociólogos nem tampouco

os jovens professores se referem às grandes mudanças introduzidas no

mundo da educação. Por exemplo, não mencionam que os alunos não

aprendem a ler da mesma maneira que antes. Estes professores jovens se

queixam que as crianças não interiorizaram comportamentos próprios do aluno, ainda que tenham feito, por exemplo, doze anos, que fazem o que

realmente lhes dá vontade em todo momento, que não funcionam

aceitavelmente nem com os pais, nem com seus colegas de grupo, nem com

o professor. O único dado politicamente interessante que estes sociólogos

reúnem é que todos os profissionais docentes, os novos e os experientes,

consideram um fracasso a escola compreensiva. Um professor entrevistado

se queixa que seja pedido aos professores que adaptem a matéria ao grupo e

se pergunta se não seria melhor que se adaptasse o colégio à população. Os

professores que levam muitos anos em exercício dizem que o colégio

funcionava melhor antes da introdução da aprovação automática. Antes, os

alunos sabiam que tinham que fazer um esforço para poder passar ao ano

seguinte. Agora, culpa-se o professor se o aluno não aprendeu o suficiente

para acompanhar o nível de seu curso. O resultado é a arrogância e o

relaxamento. Os professores jovens consideram que a violência é o reflexo

lógico da dificuldade do aluno de aprender e da chateação própria do que

não entende. A propósito da violência no colégio, os professores jovens

descobriram que segue um esquema relativamente fixo: tudo começa com

uma provocação; depois veem os insultos seguidos de ameaças de vingança

e, como último passo, a violência física. Este professorado critica a atuação

das autoridades dentro de seu campo e não confia nem na formação docente

nem na administração dos colégios, somente se concentra em sobreviver

dentro desse sistema.

 

Desde sempre, a metodologia, ou seja, como ensinar certa matéria a

determinados alunos, é uma parte importante da formação da equipe

docente porque o que faz necessariamente um professor é olhar o plano de

estudos (ou o livro de texto baseado no plano de estudos), pensar em seu

grupo e nos conhecimentos prévios do grupo, pensar em sua própria

experiência docente, contrapesar os prós e contras de diferentes métodos e

depois preparar um programa. Não é a mesma coisa ensinar inglês a alunos

de seis anos, de onze, de dezesseis ou de vinte e seis. O professor decidirá falar somente em inglês ou misturá-lo, com a própria língua, usar ou não

termos gramaticais, e quais livros ou artigos utilizar e como será feita a

avaliação do que foi aprendido. Escolherá enfoques, número de horas que

devem ser dedicadas a cada parte, materiais e exemplos, tudo isso para ser o

mais eficaz possível. Mas atualmente o aluno que escuta, lê e escreve é

apresentado na formação de professores como um aluno passivo. Nos

cursos de formação docente, ouve-se dizer que dar aula é entediar os

alunos, aplicar exames, desconfiar deles.

 

Em uma pesquisa sobre a natureza da aprendizagem, Säljö fala de quatro

níveis de compreensão29. O nível mais baixo consiste em poder

mencionar algum dado isolado. O nível seguinte presume saber mencionar

mais dados. O próximo nível requer mencionar dados importantes e mostrar

como se relacionam uns com outros, e o nível mais alto se caracteriza pela

capacidade para explicar como estão estruturados os dados, separando

claramente os conceitos dos exemplos. Pois bem: pesquisas como esta

foram utilizadas para desacreditar a aprendizagem básica, ridiculizando a

aprendizagem elementar dos dados básicos para fomentar a ideia de que é

possível pular a partir do início “diretamente” para um nível mais

elevado30.

 

3.3. Exemplos de bom ensino

 

Durante as últimas décadas, a profissão docente sofreu uma transformação

de tal grau que é difícil reconhecê-la. Antes de continuar com as

observações sobre a deterioração da educação atual, poderiam servir de

exemplos alguns casos de professores que alcançaram resultados

extraordinários combinando o treinamento linguístico, lógico e social dos

alunos. Utilizaremos exemplos que incluem o ensino a imigrantes e que

contrastam com algumas práticas atuais que serão descritas mais adiante.

Os exemplos a seguir têm como objetivo recordar o que pode chegar a ser

feito a partir da profissão docente.

Até a década de setenta, a escola francesa mostrou muita confiança em

sua capacidade de integrar as crianças vindas de diferentes camadas da

população, incluindo os imigrantes. Barth estudou de perto como se ensina

no primário francês, descobrindo a enorme importância para os alunos dos

métodos de ensino utilizados por uma professora31. O resultado de sua

pesquisa mostra que uma professora que ensina, por exemplo, o triângulo,

não somente deve “dizer” como se define esta figura geométrica, mas

também estabelecer com clareza na mente dos estudantes como se trabalha

com um conceito. Deve falar dos três “lados” e três “ângulo” mostrando

triângulos misturados com quadrados, retângulos e figuras amorfas, para

pedir aos alunos que identifiquem os triângulos e que digam o que

transforma certa figura em um triângulo. Também deve misturar triângulos

com outras formas, cores, tamanhos e materiais e pedir aos alunos que

reconheçam quais são triângulos e o porquê. Se este método for seguido, os

alunos não somente aprendem o que é um triângulo, mas também como se

trabalha com conceitos. É um exemplo de um método de trabalho que

desenvolve ao mesmo tempo a linguagem e o pensamento.

 

Barth menciona outros exemplos. Quando se pede aos alunos para que

escrevam algo simples como uma comparação entre a vida do campo e da

cidade, deve-se levar em consideração que uma criança não entende

necessariamente o tipo de contraposição em que a tarefa é baseada. Por

isso, é conveniente demonstrar na lousa como estruturar uma comparação.

A criança tem que entender que não basta dizer que ele, pessoalmente,

prefere a cidade. Tampouco é suficiente contar que uma vez fez uma

excursão ao campo e foi picada por vespa. Para que esta tarefa seja

realizada de maneira bem-sucedida, é necessária uma comparação pelo

menos entre três elementos similares do campo e da cidade. Barth ressalta

que se ninguém explicar, os estudantes não sabem que isto é o que se espera

deles. Sobretudo, vão mal as crianças que não podem esperar ajuda em sua

casa. Nota-se claramente que se os pais possuem um alto nível educativo – mesmo que falem outra língua – podem explicar perfeitamente a seu filho

como realizar a tarefa, mas se são acumulados os fatores como um novo

idioma e um baixo nível cultural, o aluno somente dispõe da ajuda da

professora para se sobressair no âmbito do ensino primário.

 

Os Estados Unidos são a terra da imigração por excelência, e também

neste país a escola foi a via de integração e ascensão social para imigrantes

vindos do mundo inteiro. Como se sabe, nos Estados Unidos há agora um

intenso debate sobre a qualidade do ensino. A experiência que será relatada

aqui é famosa na área da matemática. Mostra como a qualidade do ensino

sempre foi o fator chave do êxito dos imigrantes.

 

Um inspetor escolar em New Hampshire, Benezet, observou no final dos

anos vinte que os alunos daquela área eram muito fracos em matemática e

que tinham um vocabulário sumamente pobre para raciocinar 32. O inspetor

inventou um projeto no qual os alunos do nível primário e médio deviam

aprender ao mesmo tempo a usar a linguagem e a raciocinar na área do

pensamento quantitativo. O enfoque enfatizava a estimativa de quantidades

e a realização de cálculos mentais antes de dar início à parte formal da

matemática. O inspetor temia que os pais não lhe permitissem realizar sua

experiência em distritos com muita tradição escolar e, por isso, escolheu

escolas situadas em bairros de imigrantes.

 

Um problema típico entre os apresentados por Benezet era o seguinte:

Três barcos saem ao mesmo tempo de Boston para ir a Portland, a uma

distância de 120 milhas. Um realiza o trajeto em 10 horas, outro em 12

horas e o terceiro barco precisa de 15 horas; quanto tempo é necessário para

que os três barcos cheguem a Portland? Os alunos “prejudicados” por um

ensino rotineiro começavam a somar as cifras sem pensar, enquanto que as

crianças que haviam seguido o treinamento de Benezet acertaram todos já

no ensino primário.

Outro problema que os alunos de Benezet tinham que resolver era o

seguinte: Um pau está cravado em um reservatório. A metade do pau não se

vê porque está escondida no barro do fundo do reservatório. Os dois terços

restantes do pau se divisam através da água e a parte que aparece por cima

da superfície da água mede um pé; quanto mede o pau?

 

Na avaliação realizada alguns anos mais tarde, as crianças que tinham

participado do experimento obtiveram resultados brilhantes comparados

com outros grupos similares. O nível de raciocínio dos grupos

experimentais também estava muito acima do dos outros grupos. Para poder

demonstrar as mudanças realizadas nos alunos, o inspetor levou um

estenógrafo às salas de aula e assim pode reunir tanto a linguagem como o

raciocínio. Como mais outro experimento, o inspetor leu perante o grupo

experimental as respostas que havia reunido no mesmo colégio cinco anos

antes, tratava-se de um grupo composto pelos “irmãos mais velhos” dos

alunos atuais. Os alunos do grupo experimental riram repetidamente ao

ouvir como pensavam os alunos dos anos anteriores, tão óbvios que lhes

pareciam os erros. Ao mesmo tempo, o grupo experimental havia

desenvolvido uma linguagem mais variada e precisa que os ajudava a

raciocinar. O grupo de filhos de imigrantes havia utilizado cento e quarenta

adjetivos diferentes, enquanto que o grupo anglófono de controle somente

utilizou quarenta.

 

Uma das experiências mais positivas realizadas na Suécia em relação com

a educação de filhos de imigrantes foi um projeto para fomentar a leitura

em um grupo de vinte e quatro crianças de doze nacionalidades diferentes,

em Rinkeby, um bairro nos arredores de Estocolmo conhecido por hospedar

quase unicamente refugiados 33. As heroínas desta história são duas

professoras suecas de aproximadamente sessenta anos e uma bibliotecária

em torno de quarenta, também sueca, que, quase sem apoio oficial e como

parte de seu trabalho diário, fizeram com que seu grupo experimental, após permanecer quatro anos no programa, superasse em língua e matemática a

média não somente de outros grupos compostos por crianças de outra língua

materna, mas também a média dos grupos compostos por crianças suecas.

 

As professoras começaram a trabalhar com o grupo quando os alunos

estavam em seu ano pré-escolar, aos seis anos, em 1994. Durante o ano pré-

escolar leram contos às crianças; foram acostumadas a estar em salas de

aula cheias de livros atrativos; animaram as crianças a contar suas

experiências e escreveram estas pequenas histórias em grandes blocos de

papel, relendo-as outras vezes. Alunos mais avançados foram visitar os

alunos do grupo experimental. Pouco a pouco, ao longo do ano, as

professoras conseguiram despertar o interesse das crianças pelas letras e as

palavras completas e assim muitas delas conseguiram aprender a ler nesse

ano que era de “preparação à leitura”.

 

No primeiro ano escolar, os alunos estudaram as letras uma por uma e

aprenderam a escrevê-las corretamente. Cada dia liam: em voz baixa, em

voz alta e de dois em dois. Contavam-se histórias, desenhavam ilustrações e

realizavam improvisações baseando-se em cenas dos livros.

 

No segundo ano, um dos temas escolhidos foi Alfons Aberg, personagem

de livros muito populares de uma autora sueca. As crianças leram,

discutiram, escreveram resumos, fantasiaram-se como as personagens dos

contos, representaram cenas para os pais e para as crianças de um grupo

pré-escolar, e finalmente, Gunilla Bergstrom, a autora do livro em pessoa,

foi visitá-las.

 

Outro dos temas do segundo ano foi proporcionado por um livro para

crianças sobre vinte e quatro rainhas e reis suecos. Já que havia

precisamente vinte e quatro crianças no grupo, cada criança pode encarnar

um monarca. Leram a apresentação de “seu” rei ou rainha no livro e depois

buscaram mais dados e finalmente colocaram em cena a história dos reis da

Suécia, vestindo todos uma coroa de papel dourado e uma capa elegante, dizendo por exemplo: “Eu sou Gustavo III e vivo no palácio de Estocolmo”.

Foram também ao palácio real para saber como viviam os reis e também a

um museu etnográfico para ver como viviam os pobres.

 

No terceiro ano, o tema central foi a obra de Astrid Lindgren, autora sueca

de literatura infantil imensamente querida e respeitada por todos os suecos.

Seus livros são mais longos e complicados que os de Gunilla Bergstrom e,

por isso, levou muito tempo para os alunos lê-los, resumi-los, ilustrá-los e

representar cenas tiradas deles. Os alunos puderam visitar dois parques

temáticos sobre o mundo de Astrid Lindgren e os lugares nos quais tinham

sido rodados alguns dos filmes baseados em suas obras. Em um vídeo que

foi realizado sobre o projeto, várias crianças declaram que gostariam de ser

escritoras. Ao final do terceiro ano, muitas crianças tinham lido entre

quatrocentas e quinhentas obras34.

 

As professoras também colaboraram com o grupo Os filhos de Abraão

para aumentar a tolerância religiosa entre os alunos. Algumas destas

crianças vêm de áreas de fortes tensões religiosas e pedem urgentemente

respeito por sua própria religião sem estar preparadas para tolerar a religião

de outros alunos.

 

Tudo isso ocorreu em sueco. As professoras tiveram cuidado para

pronunciar lentamente e articular bem, confeccionando, além disso,

numerosas imagens para ilustrar visualmente as explicações. Assim como

outras crianças de origem estrangeira na escola sueca, os alunos do grupo

que tivessem interesse também podiam ter aulas de sua língua materna

durante aproximadamente sessenta minutos por semana, aulas que não

foram incluídas no projeto experimental. Em um teste de língua e

matemática para todos os alunos de dez anos da capital, este grupo superou

muitos alunos de bairros acomodados procedentes de lares em que se fala a

língua sueca.

Uma das professoras resume os êxitos do projeto dizendo que os livros e

as experiências na sala de aula ofereceram aos alunos uma plataforma

cultural para a convivência.

 

Antes do projeto, os alunos não tinham quase nada em comum, nem a

língua nem os conteúdos culturais. Agora vimos exemplos de como resolver

conflitos e de como colaborar e quase não há tensões entre eles, tudo isso

em um ambiente que costuma ser conflituoso. Os alunos não apresentaram

problemas de conduta nem de aprendizagem ou de dislexia. Não houve

necessidade de intervenção de nenhum especialista em apoio escolar. Sabe-

se que as crianças que começam a ler cedo costumam se transformar em

bons leitores. Para resumir, os bons resultados deste projeto incluem o êxito

escolar, a identificação positiva com a escola sueca e com as professoras,

uma socialização e um desenvolvimento psicossocial excelentes.

 

Estas professoras se formaram na antiga escola de professores, que

concentrava o esforço de todos para que as crianças dominassem a

lectoescrita durante os primeiros anos. A formação das novas professoras,

entretanto, está atualmente nas mãos de psicopedagogos que se interessam

mais por compreender os problemas dos alunos do que por seu progresso

escolar. O sucesso do projeto de Rinkeby questiona a validez desta última

perspectiva.

 

Os professores suecos possuem grande liberdade para organizar o

trabalho, motivo pelo qual estas professoras não cometeram nenhuma

infração formal, simplesmente não basearam seu experimento nos métodos

recomendados “desde cima”. Fortemente centradas na aprendizagem,

colocaram menos ênfase nos aspectos formais da “autonomia”, da

“democracia escolar” ou da influência dos pais. Contaram que encontravam

os alunos do projeto na escola muito antes de começar a jornada escolar,

contentes, lendo, algo que deveria encher de felicidade todo educador, mas

não tem sido assim. O sucesso deste projeto mostra que o modelo oficial, muito caro certamente, com professoras de educação especial, psicólogos e

uma ênfase na cultura de origem do aluno, não parece ser o melhor,

entretanto, um programa centrado na lectoescrita se torna ideal para todos

os alunos, sejam suecos ou estrangeiros. O projeto sugere que o essencial é

a boa preparação dos professores e o trabalho intenso com as crianças, e

não as reuniões dos professores com diferentes especialistas. Em resumo,

parece que os especialistas em pedagogia e os políticos que os escutaram se

equivocaram, além dos linguistas que projetaram programas afastados do

comprovadamente eficaz.

 

Ao comparar casos como os de Barth, Benezet e Alleklev e Lindvall,

presume-se que o que é melhor para os filhos de imigrantes também é para

os alunos autóctones e que a política escolar que foi adotada atualmente em

muitos países não é a adequada para obter qualidade no sistema escolar.

 

3.4. Como reformar um sistema educativo?

 

A Finlândia se transformou em 2004 em grande notícia no mundo da

educação porque no relatório PISA, uma comparação entre os resultados da

educação em diferentes países da OCDE, a Finlândia veio a ser uma das

nações bem-sucedidas, ficando próxima dos países bem posicionados em

educação como Singapura, Coreia do Sul e Taiwan35. Os finlandeses

atribuem seus bons resultados aos seguintes fatores: os mestres e

professores possuem uma boa preparação acadêmica; as mães possuem um

alto nível de educação e ajudam a seus filhos com as tarefas; a família

costuma apoiar a equipe de professores; o sistema escolar tem metas claras;

o Estado investiu e continua investindo na educação de forma constante e

os grupos de aprendizagem não são muito numerosos. A Finlândia não teve

que fazer nenhuma reforma educacional porque tampouco havia

introduzido a nova e problemática pedagogia que será explicada em outro

capítulo.

A Grã Bretanha possui outra história, mais parecida com a de outros

países ocidentais 36. Foi uma das primeiras nações em introduzir a escola

compreensiva com o objetivo de democratizar a sociedade depois da

segunda guerra mundial. A meta era reduzir diferenças entre as classes

sociais baseando-se na língua como o fator comum a todos os alunos. No

entanto, ao mesmo tempo uma série de mudanças sociais dificultou o

desenvolvimento harmônico da escola compreensiva. Houve imigração a

partir de outros países da Commonwealth radicando-se, sobretudo, nas

grandes cidades industriais. Ao ser iniciada a desindustrialização, o

fechamento de estaleiros, instalações de indústria pesada, minas e a

indústria têxtil, a classe operária e os imigrantes recentes foram os mais

afetados. Tendências modernas, como a ruptura familiar e as drogas,

agravaram os problemas. Em meados dos anos sessenta, o absentismo e os

conflitos na sala de aula fizeram com que muitas escolas já não

conseguissem que seus alunos passassem na prova final aos dezesseis anos.

 

Em 1988, o Governo decidiu fazer uma reforma geral da educação

obrigatória como parte de uma reforma mais ampla que abrangia o setor

público. A lei ERA, Education Reform Act, inclui várias mudanças, sendo

a mais importante a introdução de um plano de estudos nacional. Um

aspecto significativo desta lei consiste em especificar para cada disciplina e

cada ano o que deve aprender o aluno, como por exemplo, saber multiplicar

cifras de dois dígitos ou saber conjugar os verbos regulares no presente em

tal ou qual grau. Além disso, decide-se realizar testes de língua e

matemática aos sete, onze e quatorze anos para saber se o aluno progride de

maneira normal e se a escola está cumprindo com o objetivo de fazer com

que o educando aprenda. Os testes permitem controlar se a escola utiliza

bem o dinheiro público e se assume sua responsabilidade perante a

sociedade. O terceiro elemento central é um exame externo aos dezesseis

anos para que os alunos decidam se querem se formar em cinco ou em mais

disciplinas, algumas das quais podem ser escolhidas pelo próprio aluno. Se o estudante desejar, pode ser examinado em uma ou várias disciplinas em

algum ano antes ou depois. Enfatiza-se que nenhum jovem deixe a escola

obrigatória sem um certificado de graduação escolar. As notas são

outorgadas por comissões avaliadoras e não pelo professor que ensinou o

aluno, para evitar que este exerça influência sobre o professor e obtenha

uma nota que não lhe corresponde. Já não está nas mãos do Governo a

redução de exigências a fim de poder mostrar o quão bem vai o sistema

educativo sob o partido no poder. Nos países pouco acostumados aos

exames poderia parecer muito “duro” que os alunos tenham que se

submeter a um exame, mas é uma maneira de assegurar notas comparáveis

entre estudantes de diferentes escolas, ou seja, proporcionar a eles um

tratamento justo.

 

Outra característica da reforma é que tudo é público. O aluno, os pais ou

os políticos, todos podem comparar o plano de estudo com os

conhecimentos do aluno individual. Os resultados nas provas e exames são

igualmente públicos e todo mundo pode comprovar o nível dos

conhecimentos obtidos em certo colégio. Além disso, há uma inspeção,

Ofsted, que visita cada escola uma vez a cada seis anos. Os relatórios da

inspeção também são públicos e podem ser consultados na internet. Estes

relatórios são sumamente precisos e transmitem observações claras, como

“os livros de história estão muito velhos e devem ser trocados”, “há poucos

programas de computador em biologia” ou “a média do ensino de francês

para os alunos do último ano é baixa”.

 

A reforma também possui um aspecto econômico. Os colégios podem

optar por mais independência. O conselho de administração pode tomar

decisões sobre a construção de novos edifícios, sobre o fato de se os

estudantes devem usar uniforme ou não, sobre a contratação de professores

etc.

Ao mesmo tempo em que se implantava a reforma, surgiu uma iniciativa

para levar auxílio aos habitantes de zonas desfavorecidas, em especial no

centro das grandes cidades, onde há muitos imigrantes e trabalhadores sem

emprego. Foram criados alguns City Technology Colleges, umas escolas

experimentais, especializadas em tecnologias, focadas em ajudar os alunos

a “não perder oportunidades”. Estas escolas admitem os alunos de toda a

escala de aptidões para mostrar que se conseguem passar nos exames com

boas notas, não é por descender de famílias cultas, mas sim porque a escola

emprega bons métodos de ensino. As escolas, por sua vez, costumam

elaborar planos de estudos locais mais detalhados ainda que o plano

nacional. Os pais se comprometem a ajudar seus filhos a estudar se

conseguirem uma das vagas tão solicitadas. As escolas costumam mandar

com frequência relatórios para casa com o objetivo de avaliar como cada

aluno evolui. Ao mesmo tempo, há um cuidado esmerado voltado ao bem-

estar do estudante e a todos são oferecidos um tutor. As escolas oferecem

atividades pela tarde e é costume organizar conjuntos musicais e equipes

esportivas para estreitar laços entre os estudantes.

 

Estas escolas tiveram um resultado extraordinariamente positivo e os

alunos mais beneficiados foram provavelmente os filhos de imigrantes ou

de famílias sem tradição escolar. Por isso se entende que o Partido

Trabalhista tenha continuado a reforma depois de ganhar as eleições em

1997. A educação é utilizada como instrumento de reforma social dos

grupos com mais problemas, e este grupo político foi o suficientemente

pragmático para não desmantelar tudo o que foi feito pelo Governo anterior,

mas sim aprofundá-lo e chegar mais longe. Agora, o plano proposto é

transformar todas as escolas compreensivas em escolas “especiais”, que é

como são chamadas estas instituições reformadas que escolhem uma

disciplina como motor da mudança. Essa disciplina especial é algo que é

acrescentado ao plano de estudo comum para todos, e não é

necessariamente de índole tecnológica, pode estar voltada a ciências empresariais, línguas, arte ou esporte. A ideia fundamental é que

professores e alunos se entusiasmem com uma disciplina e induzam os

demais. Os planos são ambiciosos e a Inglaterra se propõe a transformar a

maioria de suas escolas antes de 2010. As reformas atuais também

abrangem um novo centro de capacitação para diretores e nova formação

para os professores. Há programas para alunos precoces e outros de apoio

para os alunos com problemas de conduta.

 

O caminho escolhido pelos ingleses poderia ser resumido dizendo que

consiste em projetar exigências muito precisas para todos. A particularidade

é que o Governo também tenta fazer com que tudo não fique somente nas

palavras, o qual beneficia em primeiro lugar os alunos, que sem esta

reforma continuariam vendo escolas “à deriva” nas grandes cidades 37.

 

Em um estudo especializado sobre o ensino em grupos com alta presença

de imigrantes, Clegg diz que é mais importante para eles que para outros

alunos contar com um professor bem formado que se interesse por eles e

que realmente dê aula38. Já que para estes alunos é mais difícil de aprender,

por seu escasso vocabulário, precisam de mais dedicação e explicações

mais precisas. É sumamente importante para eles que a sala de aula esteja

tranquila porque necessitam prestar mais atenção que os outros alunos para

aprender. Para eles, é imprescindível contar com um bom professor que lhes

ajude a desenvolver a riqueza e a precisão do vocabulário. Quase o mesmo

mencionam alguns autores especialistas nas necessidades dos alunos

deficientes 39. Em outras palavras, ter aulas sistemáticas com professores

bem formados não é uma exigência elitista.

 

A conclusão destas experiências em diferentes países foi que o êxito

escolar dos imigrantes é baseado nos mesmos elementos que o êxito das

outras crianças: um ensino de boa qualidade intelectual e linguística,

realizado por mestres e professores preparados e dedicados ao seu ofício,

dentro de um sistema escolar com metas claras, que aceite como normal as avaliações públicas que beneficiam a todos e especialmente os filhos dos

imigrantes. É óbvio que continua custando esforço dar uma boa orientação

ao ensino dos imigrantes e, em grande parte, a presença de um segundo

idioma influenciou no fato do tema ser visto como basicamente linguístico.

Na pesquisa sobre os resultados escolares entre filhos de imigrantes está

praticamente ausente a discussão sobre a qualidade do ensino e se toma

como ponto de partida uma pedagogia rotineira, apática.

 

Resumindo, uma educação de qualidade para os filhos dos imigrantes

somente pode ser obtida elevando o nível para todos. Os colégios deveriam

se transformar em lugares de aprendizagem intensiva para todos. As

professoras de Rinkeby e o inspetor escolar Benezet em New Hampshire

mostraram o caminho. A conclusão é que o importante para os filhos de

imigrantes é poder adquirir uma linguagem rica e diversificada somada à

capacidade de pensar eficazmente. Os dois aspectos se desenvolvem juntos

com a aprendizagem das diferentes áreas de conhecimento que são

estudadas mais ou menos a partir dos dez anos de idade. Os alunos

precisam da linguagem e de entrar no mundo do livro para se acostumar

com a objetividade que ela fomenta. A leitura lhes permite ver o mundo a

partir do ponto de vista de outras pessoas, outras situações, outros países e

outras épocas históricas. Assim aprendem a ver-se a si mesmos com mais

objetividade, algo fundamental para a convivência democrática.

 

Através da aquisição da leitura e dos conhecimentos básicos, o educando

é introduzido na autodisciplina, que lhe permitirá dirigir sua vida pelo

caminho que desejar. Já não estará à deriva nem se deixará influenciar por

qualquer pessoa de seu ambiente. Terá tido uma primeira boa experiência da

sociedade que lhe servirá como fundamento para uma futura atitude

positiva para com seus cidadãos.

 

Por tudo isso, a conclusão é que o bom ensino enfatiza o conhecimento e

a linguagem e, ao mesmo tempo, mantém a ordem, desautorizando todo tipo de violência física ou verbal.