Repensar a Educação
6. Três problemas agravados pelo pedagogismo
6. Três problemas agravados pelo
pedagogismo
Se o pedagogismo fosse uma teoria viável e correta, as escolas
funcionariam melhor do que nunca. No entanto, há três aspectos que
preocupam os educadores e que o pedagogismo agravou ao invés de
solucionar: o impacto da televisão, a violência e a adaptação dos imigrantes
ao novo país.
6.1. O impacto da televisão.
A escola já não ensina tanto como antes, os alunos têm menos tarefas para
fazer em casa e o tempo para seu lazer aumentou, um lazer que preenchem
com televisão e computador. A televisão é agora o pedagogo das crianças.
A televisão é parte de sua vida e configura uma parcela importante de seus
conhecimentos e sua sensibilidade. Vários pesquisadores em comunicação
social destacam que as crianças estão expostas a uma homogeneização
cultural comercial, formando um auditório cativo porque não podem
escolher o que não se oferece97. Todos veem o mesmo, sabem o mesmo,
sentem o mesmo e por isso psicologicamente são parecidos, o que facilita a
tarefa da publicidade. Chegam a ter vidas similares.
Por que os pedagogos não protestam bravamente contra esta influência
massificante e comercial? Uma hipótese é que lhes poderia convir essa
homogeneização emocional e social, ainda que não gostem da violência que
projeta. Talvez também poderia lhes ser útil a violência televisiva porque
apresenta uma visão negativa do mundo fora da sala de aula, o que valoriza
por contraste esse espaço onde se aprende a ser pacífico e igual.
Na América Latina e em outros lugares, as queixas contra a programação
infantil não param. Poderia ser útil analisar a situação venezuelana. As
cadeias de televisão privadas e estatais violam por igual todos os códigos de
ética. A situação se torna dramática quando advertimos sua influência nos
jovens, os futuros cidadãos. Hernández Díaz denuncia a falta de coerência
por parte do Estado para encarar estes problemas 98. Resume as
características da programação em três palavras: violência, sexualidade e
consumismo. Quase não há programa no qual não estejam presentes a
violência e o sexo. Os poucos que se salvam da crítica são alguns
documentários e certos espaços de divulgação científica. O mais leve seria
dizer que a programação é antieducativa – e não somente na Venezuela.
A violência não somente está presente nos programas violentos, mas
também nos anúncios que são exibidos para promovê-los, que reproduzem
as cenas mais duras. Quase sempre são acompanhadas de sonorização muito
alta e ameaçadora. O consumismo está servido quando se permite fracionar
até mais de trinta vezes um filme – “epileticamente” diz Hernández Díaz –
e, além disso, costuma-se aumentar o volume das mensagens publicitárias
para que ninguém se livre delas. Também nestas não faltam elementos de
violência e sexo destinados a captar a atenção de um telespectador já
saturado. A maioria dos programas são importados sem que o venezuelano
seja melhor, que não passa de telenovela e jornais diários, gêneros
televisivos também impregnados de violência e sexualidade e interrompidos
pela publicidade.
Com relação aos programas infantis, Hernández Díaz também não
acrescenta nada bom: mal feitos, banais, cheios de violência e sexualidade.
Há muitos e diferentes tipos de violência presentes:
Violência física: socos, pontapés, explosões, disparos.
Violência verbal: insultos, provocações, desprezos.
Violência psicológica: ameaças, pressões, tortura mental.
Violência moral: chantagens, fraudes, abusos de poder.
Violência sexual: assédio sexual, violação, sadismo.
Na programação infantil estudada por Hernández Díaz predominam a
violência física e a psicológica. Já que a presença constante da violência é
combinada com a quase total ausência de programas educativos ou
culturais, o autor conclui que é um mito falar de programação plural. A
televisão é ruim para as crianças porque a programação é ruim. Além disso,
não somente é ruim pela presença da violência, mas sim porque muitas
vezes o agressor não é castigado, motivo pelo qual a criança pode chegar a
pensar que se deve aceitar a violência e se acostumar com ela. Seria
desejável se a criança pudesse comentar com alguém o que vê, mas isso
ocorre raras vezes e muito menos entre as crianças que mais necessitam. Na
pesquisa de Hernández Díaz, a metade das crianças afirmam que podem ver
televisão o tempo que desejarem. Em muitas casas, a vida familiar é
organizada em torno do horário da televisão, o que induz o menor a
perceber a televisão como um elemento que goza de prestígio. O único fator
atenuante é que se os menores vivem rodeados de apoio familiar ou escolar,
a televisão não será tão nociva como seria se lhes faltasse esse apoio.
Em todos os países são realizadas pesquisas sobre o número de horas que
as crianças assistem televisão em comparação com as horas de escolaridade,
e, em geral, passam mais tempo diante do televisor do que no colégio. A
influência da televisão se acentua quando a jornada escolar é de horário
reduzido e a criança permanece muito tempo dentro de casa assistindo
televisão, como ocorre se o bairro em que vive também é violento. As
crianças crescerão pensando que o mundo é perigoso, violento e ameaçador
e que, além disso, somente existe isso. A influência negativa da televisão
também é percebida nos casos em que os menores permanecem sozinhos
em casa assistindo todo tipo de programas à vontade. A televisão, pois, parece estar “dentro”, dentro da casa, dentro da família, dentro da cabeça da
criança.
Entre muitos intelectuais, continua sendo tradição falar da liberdade de
expressão ou liberdade artística, ambas consideradas como o contrário da
censura. Por um lado, podem falar depreciativamente de “telelixo”, mas,
por outro, não admitem que sejam introduzidos limites à “criatividade
artística”. Esta “liberdade” poderia ser vista a partir da perspectiva dos pais
preferencialmente como um abuso da confiança da sociedade, como uma
conduta antissocial e irresponsável. Por que teríamos que aceitar que certos
adultos destruam a convivência social somente por ganhar dinheiro? A
programação televisiva com frequência é humilhante para todos e destrói o
que Popper denominou de sociedade aberta. Uma sociedade que não sabe
proteger suas crianças e lhes assegurar uma infância construtiva, não tem
futuro.
É curioso que os pedagogos, que se dizem contrários à violência e a favor
da paz e da igualdade, não lutam contra a televisão. Em vez disso, parece
que se interessam mais por promover uma “cultura” infantil ou juvenil
como alternativa à Cultura com maiúscula, a qual se aprende estudando,
lendo e esforçando-se. Pregam que se deve respeitar a criança, mas há uma
confusão entre o respeito à criança como pessoa e o respeito por um gosto
imaturo e, além disso, comercialmente induzido pela televisão. No passado,
a cultura das crianças costumava ser a cultura ensinada na escola aplicada
às diferentes idades, com contos, atividades, canções, rimas e jogos, tudo o
que passava a formar o acervo cultural da criança. Agora, antes de lançar
um programa, os produtores costumam encomendar estudos para sondar a
reação das crianças de diferentes idades, com o objetivo de lhes oferecer um
produto que seja do agrado da maioria. Ou seja, está sendo criada uma
“cultura” comercial que, ao mesmo tempo, responde ao gosto das crianças e
à sua formação. Desaparece a delicadeza, a variação, a lentidão e a amizade
e se impõe a estridência, a atividade sem meta e o gregarismo vazio. Há os que falam de uma violação mental das crianças. Os pais raramente tem
dedicado tempo para refletir sobre tudo isto e não costumam entender o que
está acontecendo. Eles também estão sendo manipulados.
Um sociólogo da cultura, Subirats, aponta que foi com as vanguardas
estéticas do início do século XX que foi preparado o terreno para a
estetização da violência e a aceitação da fragmentação 99. Quando depois
chegou a televisão, com os noticiários que informam sobre cada tema
durante um minuto ou dois, já estava incorporada na sociedade o costume
de aceitar a incoerência e a violência nas quais se baseia a atual lógica
comercial. A aceitação da fragmentação já havia preparado o terreno para o
formato televisivo dos spots publicitários. A estridência na estética e o
niilismo filosófico junto com a fragmentação transformam em muito árdua
a concentração na análise das mensagens e, quando for acrescentado o
glamour da imagem, a televisão se transforma em uma mistura de realidade
e desejo. O telespectador é particularmente receptivo pela imobilidade em
que se encontra. O irracional não é analisado, mas sim entra por
repetição e sedução. Por isso, deixar as crianças sozinhas diante do
televisor é abandoná-las a partir do ponto de vista moral, físico, psíquico e
afetivo.
Na França, foi elaborado um relatório sobre a relação entre a violência, a
televisão e a proteção à criança. O relatório começa por uma definição da
violência: é uma força descontrolada que em seu desejo de dominação e de
destruição deseja ferir a humanidade do ser humano100. O trabalho
demonstra que a televisão pode acostumar os telespectadores à violência,
fazer com que desapareça a inibição perante ela e que desapareça a
sensação de culpabilidade depois de cometer um ato de agressão. O
relatório critica que tenham sido convidados para diferentes programas
delinquentes, algo inaceitável dada a respeitabilidade social que em
principio outorga a aparição em televisão.
Desse modo, o relatório menciona uma mudança importante no cinema
atual e que agora aumentam os exemplos de uma violência sem sentido, não
castigada e apresentada como elemento natural para expressar que é
imposta a lei do mais forte. Outra novidade é que a avalanche de imagens
com conteúdos violentos é incessante. Cena após cena, a agressividade está
onipresente e não poucas vezes carece de sentido. O efeito é parecido ao do
terrorismo porque obriga a conviver com uma violência irracional em meio
à vida cotidiana. Os adultos poderiam não ter levado a sério esta mudança
dentro do gênero cinematográfico, potencialmente muito perigoso para as
democracias. Se os jovens se acostumam e se convencem de que o mal
costuma vencer, como vamos transmitir os valores da democracia? O
Estado moderno e democrático entregou o uso da violência à policia para
que garanta a tranquilidade de todos. Se os cidadãos não confiam nisto,
ocorre que estamos voltando a uma situação pré-moderna.
6.2. A violência na escola
Já se comentou que muitos alunos começam a estudar sem ter concluído
sua socialização primária, sem a preparação que se supunha terminada
antes de começar com a socialização secundária que se recebe na escola. A
ideia de que o igualitário é que todos comecem a estudar na mesma idade
teve como resultado que muitos estudantes acumulam um atraso apreciável
antes de colocar o pé na escola, com o qual a situação costuma se agravar
rapidamente, ainda que a escola freie ao máximo o progresso dos mais
avançados para que sejam alcançados pelos mais lentos. Os alunos que
constatam sua posição precária dentro do grupo reagem de diferente
maneira, mas reagem. Uma possível reação é uma espécie de ódio que é
demonstrado através de uma conduta antissocial, que se traduz em insultos
a seus colegas e professores, vandalismo, absentismo e até incêndios
provocados. O mito do inevitável progresso da sociedade fez com que uma
parte dela tenha fechado os olhos perante esta violência.
O Estado abandona os bairros problemáticos nos quais as tendências
antissociais preencheram o vazio criado por esta suposta liberdade. Deste
modo, há escolas nas quais as máfias locais ditam a lei e nas quais é quase
impossível estudar. Isto não é suficientemente denunciado pelos professores
quando os envolvidos são provenientes de bairros problemáticos que
precisamente seriam favorecidos pelas novas liberdades pedagógicas.
Muitas vezes, os sociólogos da educação descrevem a delinquência como
uma resposta legítima à “exclusão”. Esta mistificação impediu que se
tomassem as medidas cabíveis contra os problemas. Assim, em um período
de expansão econômica sem comparação na história, se chegou à realidade
de escolas nas quais reina a anarquia e a violência. Já Orwell falou da
fascinação do intelectual moderno pela brutalidade e pela luta pelo poder,
e de sua tolerância e até admiração perante o delito. Os intelectuais que
desviarem a atenção das condutas antissociais para enfocá-la na “exclusão”
devem assumir uma parte importante da responsabilidade pelas mudanças
negativas que tem sofrido a sociedade101.
O mito da não responsabilidade dos violentos por sua violência é
baseado no conceito de que são as estruturas sociais as que dariam certas
características aos indivíduos pelas quais não seriam responsáveis. Estas
estruturas “empurrariam” os indivíduos a agir de determinada maneira. Ou
seja, nega-se às pessoas sua autonomia, posto que não decidem: são
empurradas. Na escola, os alunos de classe operária não seriam
responsáveis por seu possível fracasso e, pela mesma razão, os alunos
provenientes da classe alta não teriam nenhum mérito se atingissem um
bom resultado.
Bui Trong estudou o ambiente antissocial que reina em alguns bairros
periféricos na França102. O resultado de seu trabalho foi mostrar que os
problemas costumam se desenvolver conforme certa lógica. Elaborou uma
escala de 7 degraus, demostrando que se pode prever que um bairro que está no nível 2 irá ao nível 3 e depois ao 4 se não for tomada nenhuma
medida. A autora diz que o fato de não obedecer ao professor é um sinal de
que o bairro está a caminho da degradação. O professor é um dos primeiros
representantes da sociedade e não aceitar sua autoridade significa um
primeiro passo para uma conduta antissocial. Em outras palavras, quando o
professor insiste que se deve sentar, parar de falar ou qualquer coisa de
aparência trivial, não está exercendo poder, mas sim defendendo a
sociedade. A convivência no futuro depende da aceitação das regras sociais.
Bui Trong observa também a frequência com a qual os violentos negam ter
cometido uma infração. Nunca costumam admitir nada. Quando agridem
um colega, o mais frequente é que digam que estavam brincando. Assim, o
agredido é convidado a festejar a agressão e a ver o agressor como um
colega. Se o colega acusa o agressor pareceria falta de “humor”.
Os pedagogos costumam rejeitar o uso do uniforme, que interpretam
como um sinal associado a uma ideia tradicional da educação. Nos colégios
públicos, os adultos não se atrevem a opinar sobre a roupa dos jovens, mas
podem ser observados alguns “códigos de vestimenta”, impostos pelos
alunos mais influentes. Em alguns bairros, a pressão está dirigida a usar
roupa de marca, algo que se torna muito caro para os pais. Em outros
bairros, os alunos vão vestidos de maneira agressiva, com toucas, calças
com tachas de metal, com buracos e miniblusas que deixam a barriga à
mostra. Se a escola tolera uma vestimenta de conotação violenta e
antissocial, o que faz é se render diante da cultura comercial imposta pelo
cinema e a televisão e não defender sua missão de promover a cultura do
conhecimento.
Um deputado francês que estudou a violência nos colégios elaborou uma
série de recomendações. Começa dizendo que um ato violento na escola é
uma afronta para toda a sociedade porque a escola é um lugar sagrado para
a sociedade. Por isso, as infrações contra as regras escolares devem ser
castigadas dentro das vinte e quatro horas depois de ter sido cometida. É preciso que a escola e os pais colaborem e se ajudem mutuamente, sob pena
de não poder representar nenhuma autoridade na vida dos jovens. Acredita
que a sociedade deve recordar suas obrigações aos futuros pais: quando um
casal deseja se casar, ou quando a mulher grávida entra em contato com um
médico ou quando se trata de renovar a carta de residência para os
estrangeiros. Se os pais se negarem a comparecer para falar com uma
professora ou diretora de um colégio porque não aceitam a autoridade de
uma mulher, a sociedade deveria lhes mandar outro aviso e, se continuarem
desafiando o Estado, cortar qualquer tipo de subvenção. Em poucas
palavras, deve-se insistir para que os cidadãos colaborem com o Estado103.
O lema atual é que se deve educar em vez de castigar. No entanto, a
tendência a evitar castigos levou a uma cumplicidade com jovens que não
acatam a lei. Desde a escola aprendem que podem agir com total
impunidade, o que aumenta sua arrogância e o desprezo pelas autoridades.
Ao não obrigar os jovens a respeitar a lei, os adultos abandonam a
sociedade em suas mãos, deixando o campo livre para eles. As pessoas que
não conviveram diretamente com este tipo de jovens costumam acreditar
que sempre se pode “falar” com eles, mas o que ocorre é que muitos
desenvolveram uma personalidade antissocial, patológica, na qual já não
cabe o diálogo. Um juiz francês com muita experiência, Fenech, atrai a
atenção sobre dois fatos: a carreira criminal destes jovens começa pela
provocação verbal e, por isso, deve-se reagir com firmeza ante esta atitude.
Se isto não for feito, logo os atos criminosos destes jovens se voltam contra
os bens públicos, e se não se agir com energia contra toda deterioração do
patrimônio comum, tornam-se mais “ambiciosos” ainda104. Não temos
levado suficientemente a sério o fato de que as escolas estão ameaçadas, as
praças públicas, os ônibus e os representantes do bem comum como são os
professores e os agentes da polícia, elementos da vida cotidiana que
associamos a um país desenvolvido.
É grave que tenha intelectuais dispostos a admirar a violência das ruas
em nome da ação direta e da provocação ao Estado e a apresentar os
responsáveis em tom sentimental. Em geral, são os mesmos que não querem
discutir o que fazem estes jovens, mas sim as supostas causas que os levam
a agir como agem. Estes jovens aprenderam a se apresentar como os
representantes de fracos e oprimidos em luta contra um poder muito
superior a eles, a polícia. Tentam provocar a polícia, e se conseguem,
recorrem às leis da sociedade democrática para denunciar a violência
policial.
Quando uma má situação se prolonga, a população vai sendo intimidada,
mas não é certo que não possa ser feito mais nada para reverter as
tendências antissociais. Há alguns anos, em Nova York e em Boston, os
administradores do metrô decidiram melhorar a segurança e, para isso,
decidiram não deixar nunca que um vagão com pichações circulasse105.
Quando os jovens não conseguiram ver sua “obra”, acabaram se
desanimando. Em outra campanha, foi acordado não deixar jamais um vidro
quebrado, trocá-lo em seguida, o que conseguiu transmitir uma sensação de
controle e segurança aos vizinhos. Começou-se a ver a importância do
“contexto” no sentido de que se ninguém comete pequenas infrações,
parece mais grave a infração e todos os cidadãos pensam duas vezes antes
de cometer um ato mal visto.
6.3. A integração dos imigrantes
A integração dos imigrantes e seu respeito pela instituição escolar
constitui um importante teste da coerência e estabilidade de um sistema
educativo. Em particular, a escola compreensiva se mostrou pouco adaptada
aos novos desafios.
Com a introdução pelos anos sessenta e setenta da escola compreensiva,
os países de Europa ocidental queriam fornecer um ponto de partida igual
para alunos procedentes de diferentes ambientes. A base do ensino era o idioma comum. Pensava-se que todos poderiam estudar juntos nas mesmas
condições porque tinham a mesma idade e fundamentalmente eram iguais.
Se vinha algum aluno de outro país, costumava se integrar relativamente
rápido porque um grupo o acolhia sem maiores problemas e o recém-
chegado somente tinha a diferença do idioma.
Desde então, as políticas educativas na Europa ocidental foram mais
longe. Primeiro, foi adotado um “angelismo” escolar que parte do
“axioma” de que todos os alunos querem aprender e estão em condições de
aprender qualquer matéria em qualquer nível sem ter necessidade de
conhecimentos prévios. Mas isto não se corresponde com a realidade e,
como consequência, os grupos escolares foram desestabilizados e o trabalho
docente se tornou mais árduo. Outro “axioma” afirma que se pode integrar
qualquer aluno em qualquer grupo e este lhe ajudará a ser colocado em seu
mesmo nível. No entanto, ocorre que justamente os grupos já não mantêm
um nível previsível e, além disso, já não se trata de integrar um único aluno
com um problema preciso, mas sim que se pretende integrar no grupo
deficientes físicos, alunos com problemas psicológicos e imigrantes de
diferente procedência e nível escolar. Ou seja, estamos muito longe das
primeiras experiências de integração. As novas políticas escolares não
foram demonstradas como viáveis antes de impô-las e colocam o professor
em uma situação que o cansa e desanima. Além disso, a situação dos
professores se vê agravada se os responsáveis lhes pedem que resolvam os
problemas com seu “profissionalismo”. Esta forma de pressionar insinua
que existe uma solução para o professorado suficientemente hábil,
suposição tampouco comprovada.
Os muitos russos, poloneses e armênios estabelecidos na França durante
o período entre as duas guerras mundiais se integraram na sociedade através
da “escola republicana”, igual para todos e com um ensino sistemático que
tinha como eixo a língua francesa. É muito conhecida a ênfase dada a
métodos como o ditado e o comentário de textos. No entanto, nos ano setenta, a escola francesa começou a mudar e também foram outros os
imigrantes, e o resultado combinado destas duas mudanças é o que hoje
preocupa as autoridades e a população.
Para os imigrantes, foi negativo o abandono da ênfase na leitura para
favorecer em seu lugar “projetos transversais”, excursões e atividades “de
iniciação”. Em 80% au bac... et aprés, Beaud relata um estudo
longitudinal106. Durante aproximadamente dez anos, entrevistou as
mesmas crianças em um bairro de imigrantes magrebinos perto de Belfort.
Quando entra em contato com eles pela primeira vez, estão no colégio,
depois os segue até sua passagem pelo ensino médio e depois pela
universidade. O estudo termina quando estão com vinte e cinco anos,
aproximadamente. A primeira coisa que Beaud observa é que estes alunos
transportam ao colégio o ambiente oral de sua casa e da rua, e que, como
são maioria, levam seu estilo ao colégio do bairro. Esses alunos estão à
vontade no colégio, mas Beaud observa que quase não “entraram no mundo
do livro” e que não adquiriram técnicas para estudar. São alunos, mas não
estudam. Leem o menos possível, tentando captar pelo ouvido suficiente
informação para poder completar as tarefas. Desenvolvem uma habilidade
para a negociação maior que para o estudo. Ao chegar ao ensino médio,
comprovam que possuem menos conhecimentos que os alunos de outros
bairros com outras pautas, e estão completamente perdidos quando chegam
à universidade. Apesar de terem passado pelo sistema escolar francês, não
deixaram nunca o ambiente oral da casa e da rua e possuem um vocabulário
restrito. Por isso, é lógico que se queixem de que os professores falem
muito rápido e sejam excessivamente teóricos. Estas crianças se comportam
como se a aprovação dependesse da sorte. Uma consequência de não terem
sido leitores é que não conseguem se ver de fora, não conseguem
estabelecer uma relação objetiva com o mundo.
Um jovem professor em um instituto de formação profissional dos
arredores de Paris percebeu que os alunos mentem para ele de forma
rotineira 107. “Não fiz a tarefa porque tinha que acompanhar minha mãe no
hospital”. “Minha avó faleceu”. “Já entreguei a tarefa. Você deve tê-la
perdido”. Dizem não ter dinheiro para comprar um caderno, mas usam tênis
muito caros. Não gostam de ler as instruções para as tarefas. Em vez disso,
preferem que o professor leia para eles. Somente dominam uma variante da
língua: a gíria de seu bairro. O professor descobre a absoluta ignorância
destes jovens com relação ao mundo fora do bairro, uma ignorância que se
perpetua por causa de seu total desinteresse por estudar. Na realidade, não
são estudantes porque não estudam e tratam os professores como inimigos.
Mentir é um tipo de violência verbal.
Barreau conta com uma ampla experiência com jovens com problemas
sociais 108. Já pelos ano cinquenta e sessenta, costumava organizar
atividades para tirar essas crianças das ruas do centro de Paris. Em sua
época ativa, lembra que estimulava seu amor próprio por pertencerem à
sociedade e se sentirem aceitos e, assim, poder integrá-los em algum
projeto, mas segundo ele, a situação atual é mais difícil porque agora
muitos jovens negam ter laços com a sociedade. Dizem que não são nem
franceses nem argelinos nem devem responder perante ninguém. Para eles,
todos são inimigos.
Brenner reúne em Os territórios perdidos da República textos que
deveriam se transformar em leitura obrigatória para planejadores
escolares 109. Neste livro, fala de distritos nos quais a lei francesa já não
rege, somente se acata a do líder local. Os novos homens fortes dos bairros
falam frequentemente de seus territórios como “liberados”. As mulheres
vivem ali totalmente submetidas à autoridade dos homens e, sobretudo, a de
seus irmãos. Nos colégios e escolas de ensino médio, os estudantes se
negam a ler certos temas de biologia, história ou geografia, para não falar de religião. Afirmam que rejeitam os textos franceses porque “não são de
sua cultura”. Assim, cada aula se transforma em uma ocasião para a
confrontação política e uma interminável discussão sobre se os alunos
permitirão ou não que o professor ensine certo tema. Muitas crianças não
aceitam que uma professora corrija seu exame; há pais que se negam a
comparecer a uma entrevista no colégio se a convocação estiver assinada
por uma professora ou diretora. As crianças cada vez mais tentam saber de
que origem étnica e religiosa é o professor; por exemplo, se o sobrenome é
judeu, se negam que lhes dê aula ou corrija. A França é exemplo de um
sistema escolar famoso por sua boa qualidade, que agora luta com
fenômenos que considerava ter deixado para trás há décadas, para não dizer
meio século ou séculos, como o racismo, o sexismo e o analfabetismo.
O relatório de Stasi propõe que as línguas dos imigrantes sejam cursadas
como qualquer outra língua na escola para evitar que se combine com um
doutrinamento alheio ao currículo escolar 110. Ao mesmo tempo,
recomenda que se exija a assistência obrigatória a todo o currículo e que
seja proibido questionar o direito do professor a ensinar o currículo.
Também propõe que seja proibido fazer proselitismo no interior dos centros
escolares e que se castigue qualquer assédio ou violência de um aluno
contra outro.
Poderia ser dito que a França acompanhou, em termos gerais, uma política
de “laissez-faire” diante destas atitudes antiescolares que, segundo o
Ministério de Educação, poderiam afetar uns dez ou quinze por cento dos
centros. Começaram a ocorrer as primeiras reações, mas por agora somente
para restabelecer a ordem pela via jurídica. Enquanto isso, os alunos que
podem começaram a fugir da educação pública. Os pais estão dispostos a
pagar para proteger em primeiro lugar suas filhas de um ambiente no qual
ficam expostas a um trato humilhante por parte de outros alunos.
Foram citados aqui estudos franceses, mas as experiências são similares
em outros países europeus. O pedagogismo tem como consequência o mal
resultado em qualquer parte, mas em combinação com os problemas de
imigração costuma causar resultados ainda mais negativos, tanto para os
imigrantes como para o país.