Repensar a Educação
2. A educação na família
A família é o grupo social dentro do qual a criança aprende que a vida
humana se baseia na interdependência e no intercâmbio, o nexo da
criança com o mundo, uma estrutura de pertença. Um bebê de dez dias
reconhece o cheiro de sua mãe. Em pouco tempo reconhece também a voz
materna e a melodia da linguagem de seus parentes. Além disso, é a família
que lhe proporciona seus primeiros prazeres sociais como o sorriso, as
brincadeiras e os mimos. Quando começam a lhe dirigir alguma
advertência, exigência e amor vão juntos. Em suma, a aprendizagem na
família é tão forte não somente por ser a primeira, mas também porque nela
se combinam as necessidades básicas como a comida e a pertença social, e
porque tudo se faz de modo ao mesmo tempo direto e indireto. Se a
experiência for positiva, a criança aprende a confiar nos outros.
O bebê aprende do calor do corpo dos pais, das vozes que ouve, das
palavras que sua mãe lhe dirige ao trocar suas fraldas e dar-lhe de comer, de
cada experiência vital. Desenvolve a compreensão de como são as relações
sociais antes de poder participar verbalmente delas e aprende a entender o
que é o intercâmbio verbal inclusive antes de poder falar. Aprende a pedir, a
esperar e a mostrar sua gratidão com um sorriso ou um murmúrio de
satisfação. Aprende a contar com os outros e, em breve, a se comportar de
tal maneira que sua conduta facilite a convivência com os demais. Foi
observado que bebês de seis meses já podem perceber a necessidade de
ajuda de outro bebê, ou seja, são conscientes da existência de um mundo
social.
Se a mãe manejar o bebê com calma e sem sobressaltos, a confiança do
pequeno aumenta graças à competência desta para cuidá-lo. Não haverá
necessidade de desenvolver “técnicas” como o choro ou o grito para chamar a atenção. É o primeiro exemplo de como aprendemos indiretamente. Se a
mãe impor um horário para as refeições e o sono, o bebê aprenderá a
adquirir um ritmo e terá fome na hora da refeição e sono na hora de dormir.
Não protestará quando chegar a hora do banho porque “sabe” que é normal
que lhe deem banho e aprenderá a considerá-lo agradável. Depois de alguns
anos, a criança dominará as regras de higiene básicas: escovar os dentes, se
vestir, etc., e fará tudo isto sem que lhe custe nada porque terá aprendido a
fazê-lo sem pensar nisso, mecanicamente. Isso é o que conseguem os bons
costumes, hábitos benéficos que não custam reproduzir porque foram
adquiridos e são utilizados de forma quase automática. O que nossos pais
nos oferecem com os bons costumes é o início da capacidade de nos
autogovernar em beneficio de nós e do grupo, para permitir ao mesmo
tempo que nossa atenção e nossa força de vontade possam ser voltadas para
outras tarefas cada vez mais complexas e significativas.
No entanto, para que a criança aprenda a ir dormir na mesma hora, os pais
devem adaptar seu próprio horário a esta necessidade. Devem estar em casa,
ter dado jantar à criança e talvez ter desenvolvido o costume de ler um
conto para que ela tome conhecimento que já terminou o dia e começou a
noite. É impossível que a criança aprenda bons costumes se os pais não
possuem bons costumes como pais. Quando eles fazem com que a criança
se adapte às pautas de conduta da família, incluem a criança no mundo
social da família e da sociedade. De modo que exigir é incluir. Não exigir é
abandonar a criança, com o conseguinte perigo de que se transforme em um
marginalizado. Quando os pais contam com o fato da criança se adequar ao
exigido, a estão preparando para a vida. A criança aprende a confiar nos
adultos e a se deixar guiar por alguém que sabe mais que ele, exatamente da
mesma maneira em que ocorria nos grupos humanos primitivos.
A família ensina a criança a cuidar de seu corpo e a se relacionar com o
mundo através de seus atos e da linguagem, algo que se resume na
expressão de socialização primária e que forma a base sobre a qual se constrói a educação escolar, a socialização secundária. Os colégios possuem
atualmente mais problemas que antes porque em muitas famílias a
socialização primária não é realizada de maneira satisfatória e por isso a
escola deve realizar duas tarefas ao mesmo tempo: a socialização primária e
a secundária. Supõe-se que somos “bons” se toleramos a má conduta das
crianças e jovens, mas o certo é que devemos ensiná-los o quanto antes o
que não aprenderam e é muito o que devem aprender: desde se vestir e
recolher seus brinquedos, até conversar e saber esperar sua vez. Claro que
nem os pais nem a própria criança costumam ver isto como
“aprendizagem”. São coisas que simplesmente se desenvolvem. Se a
criança possui como modelo pais organizados ou irmãos mais velhos
disciplinados e os ama e admira, tentará imitá-los por amor. O processo de
educação será desenvolvido sem que nem pais nem filhos o vejam como
algo programado ou enervante.
Mas o que acontece se por algum motivo estas previsões falham? Então,
deve-se organizar a situação de maneira consciente, explicando à criança
qual é a conduta que se espera dela, mostrando-lhe exatamente como deve
agir, deixando que pratique e o elogiando quando consiga realizar a tarefa
prevista corretamente. Às vezes, deve-se subdividir a tarefa em partes
pequenas e combinar cada parte da demonstração com uma explicação
detalhada. No entanto, sempre é uma desvantagem não ter aprendido certas
coisas no lar desde muito pequeno. Ter que aprender o que outros já sabem,
sem perceber lhe tira a energia que deveria dirigir a outras aprendizagens.
Posto que a educação de uma criança é “artesanal”, com uma expressão
de Savater, o resultado dependerá necessariamente da qualidade do
artesão2. Todas as crianças aprendem de seus pais, mas, conforme o nível
de desenvolvimento deles, poderão aprender mais ou menos. A condição
humana se caracteriza assim por certa “injustiça”, que é a outra face da moeda que determina nossa necessidade de sermos incluídos em um grupo
humano.
O que é aprender a conviver? É aprender o jogo de dar e receber, a base
de toda a vida social. Na conversa, deve-se participar, mas não falar todo o
tempo; contestar as perguntas, mas sem brusquidão; se interessar pelos
outros, mas sem insistência; saber emprestar os brinquedos; saber se
entreter sozinho quando não estão os amigos e os adultos estão ocupados;
não exigir ser o centro das atenções em todo momento; não destroçar
brinquedos nem objetos da casa ou do colégio; aprender a obedecer os
adultos se disserem que se deve parar de brincar por algum motivo. Muitas
crianças de quatro ou cinco anos interiorizaram as regras da convivência no
sentido aqui descrito. Pois bem, uma criança não socializada, que não
respeita as regras de convivência, que, de modo geral, age de forma egoísta,
terá problemas; não será querido por seus colegas, que o evitarão para que
não destrua o que estão construindo ou interrompa a brincadeira com
comentários depreciativos. Uma criança, assim, iniciará sua vida social com
a ideia de que “os outros” são seus inimigos. Às vezes, se isola e vive em
um mundo de fantasia; talvez reaja com uma depressão infantil; pode ser
que se forme em sua mente a ideia de que os outros são fracos e somente
ele é forte e comece a ver seus colegas como desprezíveis e a tratá-los com
crueldade. Não aceitará como válido seu pedido para respeitar as regras ou
as decisões dos adultos. Já que, como qualquer ser humano, necessita de
companhia, o mais provável é que busque a outros como ele, outras
crianças também mal inseridas na sociedade. Entre estas crianças, também
existem regras sociais, mas que nem sempre são ajustadas às da sociedade.
Elas também precisam ser membros de algum grupo e estão prontas para
aceitar um líder negativo para não ficarem fora de toda vida social.
2.1. Os pais
Os filhos precisam não somente de proteção e comida, mas também de
modelos e educação. Talvez possamos retomar o título de um livro recente,
Hijo, aquí estoy [Filho, aqui estou], para enfatizar a importância de estar
presente, constantemente presente, na vida dos filhos, não como criados
nem banqueiros, mas sim como um ponto de referência sobre como se deve
viver a vida 3. Sobretudo, os filhos se fixam na maneira de conduzir nossas
relações com os demais e em primeiro lugar dentro da família. Uma
maneira de entender o papel de pai e mãe é por analogia com outros papéis
profissionais. Os pais são os líderes da família. Devem assegurar o bem de
todos os membros do grupo e escutar a todos, ter um plano de
desenvolvimento a longo prazo para a família e coordenar seus esforços.
Em geral, as pessoas dedicam muito esforço para terem uma boa formação
profissional, mas poderiam precisar se formar também como pais. Se a
educação dentro da família consiste em grande parte em criar bons
costumes na criança e em despertá-la para a vida social, estas intervenções
podem ser melhoradas se for observado o êxito de outros pais4. Esta
aprendizagem é social e ao mesmo tempo familiar. Quando agora são
mencionados os bons resultados do ensino em países como Taiwan e
Finlândia, costuma-se falar de três fatores: bons professores, um constante
investimento por parte da sociedade e um apoio familiar ao aluno em cada
momento.
Temos atualmente uma geração de pais que frequentemente se sente
sobrecarregada pela tarefa de educar seus filhos e que inclusive, às vezes,
sente medo deles. Ao mesmo tempo, os pais interpretam a imagem da
escola como opressão, motivo pelo qual se deixou de existir a solidariedade
natural entre pais e professores, o qual afeta a autoridade normal que
necessitam ambas as partes para sua tarefa educacional. Estamos em uma
situação historicamente nova porque muitos pais pertencem a uma geração
que foi educada “livremente”, o qual, com frequência, significa quase não
terem sido educados, e agora se enfrentam com o desafio de terem que educar a próxima geração. Em nenhuma ocasião histórica sobreviveu um
grupo que não tenha sido capaz de formar a geração que lhe sucedia.
O filósofo inglês Russell escreveu há muitos anos um livro sobre a
felicidade e, curiosamente, ao falar sobre o bem do indivíduo, chega a
recomendar o mesmo que costumam aconselhar as religiões e as doutrinas
éticas 5. Para Russell, a falta de felicidade tem relação com uma visão não
realista da existência, com uma ética irrealista e com maus costumes. Ser
feliz implica em se ocupar não tanto de si mesmo e sim pensar nos outros e,
além disso, desenvolver interesses não ligados à situação pessoal e que
ajudem a criar um equilíbrio psicológico e ampliem o mundo do indivíduo.
A felicidade não “chega”, não “bate à porta”, como se costuma dizer nas
canções românticas. A felicidade é criada e cada um tem que criar a própria.
O laço entre o trabalho, a aprendizagem e a felicidade presume, segundo
Russell, que somente se alcança a felicidade utilizando a própria capacidade
plenamente, e não existe grande êxito sem um trabalho persistente,
absorvente, difícil, um esforço que deixa pouca energia para a diversão. Por
isso, deve-se adquirir desde a infância a capacidade para suportar uma
vida em parte monótona e ocasionalmente, inclusive, rotineira. Tudo isso,
porque simplesmente não há outro modo de chegar à felicidade. Os pais que
oferecem muitos prazeres a seus filhos sem pedir-lhes em troca nenhum
esforço, os acostumam mal. Ao contrário, acredita Russell, os prazeres
excitantes e que quase não exigem um esforço, devem ser escassos. Em sua
opinião, a formação de um caráter moral depende de ter adquirido costumes
virtuosos. Por isso, é espantoso o fato de não se ter estudado tanto a
coragem moral e intelectual como o físico.
Outra observação de Russell se centra na influência das práticas
psicológicas. Temos que aceitar a responsabilidade de nossos atos. Pensar
que “os outros” são responsáveis pelos fatos que influenciam nossa vida somente leva à infelicidade. É um mau costume usar expressões como “é
necessário” ou “deve-se” em vez de “eu decidi fazer isto e aquilo”.
Na verdade, foram transcendentais as mudanças na vida familiar há
meio século. As mães de família trabalham fora de casa em todos os países
ocidentais. As autoridades fomentaram a criação de creches e se diz que é
bom para a criança se acostumar a estar em grupo. Pode ser verdade se a
creche for regida de acordo com critérios pedagógicos e não somente for
um “estacionamento para crianças”, mas se por motivos econômicos as
creches admitirem muitas crianças, é menos seguro que constituam um
ambiente positivo para elas. Há crianças frágeis que precisam de mais
tranquilidade que outras crianças por diferentes motivos. A mudança social,
que ofereceu mais opções para a mulher, talvez tenha se transformado em
mais estresse para os filhos. Nem todos os costumes introduzidos na
sociedade moderna foram igualmente positivos para todos.
Os que estudam atualmente o estresse entre os jovens mencionam como o
fator número um de influência o divórcio dos pais, mas também são
apontados como fatores desestabilizantes a mudança de professores, de
amigos e de lugar de residência. As crianças reagem com ansiedade, com
dores de cabeça, de estômago e com insônia. Também influencia
negativamente a permanência em ambientes barulhentos. Quando o estresse
dura muito tempo se expressa tipicamente pela apatia ou a agressividade.
Segundo os médicos, as crianças e adolescentes precisam de estruturas
previsíveis na vida para não se sentirem ameaçados pelo caos. Até uma
idade bastante avançada precisam do apoio de seus pais. A alegria, o
otimismo e a bondade podem ser aprendidas e fazem parte dos bons
costumes dos jovens. Pode-se aprender a desfrutar do bom e dos laços
afetivos com os demais.
O psicólogo Silveira destaca que a falta de disciplina, ou seja, o escasso
interesse por “instalar” bons costumes na criança, acarreta uma série de
problemas6. A disciplina é a base do futuro equilíbrio mental do jovem
porque pré-dispõe para a responsabilidade. Os bons costumes, além disso,
estão relacionados com a aceitação de limites; um jovem que não entende o
conceito de limite se torna insolente e insuportável. Silveira denuncia como
uma ideia falsa a alternativa entre educar a criança com carinho ou com
disciplina. É necessário combinar as duas coisas. Menciona técnicas
clássicas em psicologia para melhorar a atitude dos jovens, por exemplo,
ignorar as condutas negativas e elogiar as positivas. Destaca que as crianças
aprendem rápido e se, pelo contrário, não lhes for ensinado a se controlar, o
resultado são filhos frustrados, propenso ao desencanto, desorganizados
mentalmente e em sua conduta. Também é facilmente perceptível que
bastantes jovens se sentem eticamente desorientados, comportando-se
muitas vezes como tiranos com seus próprios pais.
Deve-se acostumar as crianças a somente fazer uma coisa por vez.
Deixar que os filhos comam e assistam televisão ou que, por exemplo,
escutem música e leiam aumenta o bombardeio de sensações, dificultando
primeiro a concentração e depois o relaxamento. Após suportar a atividade
frenética, precisam de sedativos para dormir. O conselho do psicólogo é que
antes de dar pílulas a um jovem, deve ser comprovado se uma mudança no
modo de vida poderia resolver o problema. Se forem diminuídas as horas de
televisão e computador e se forem aumentadas as de atividades ao ar livre e
o sono, o jovem pode não precisar de medicação. Os pais podem ajudar o
jovem a encontrar e manter uma atitude serena e sem estresse tentando
fazer com que haja tranquilidade e ordem na casa.
A liberdade atual dos adultos em matéria de separações e divórcios
implica em um grande estresse para os filhos. As crianças e jovens estão
ocupados o tempo todo em crescer e se desenvolver e as separações
costumam envolvê-los nas lutas de poder entre os pais. Ter que ser
testemunha da má opinião que um pai tem ou expressa do outro incide negativamente no filho, que se sente descender de uma pessoa considerada
pouco respeitada ou admirada pelo pai ou a mãe. Os filhos das mães
solteiras podem crescer com a imagem de terem sido abandonados por seu
pai ou de terem um pai irresponsável, um pai que talvez nem sequer teve
interesse em conhecê-los. Às vezes, as ideias sobre o pai são puras
fantasias, mas não por isso deixam de influenciar poderosamente na vida
psíquica de sua descendência. Muitos filhos de divorciados encontram
maneiras de chantagear os pais aproveitando-se de seu peso na consciência
e remorsos e de seu desejo fervoroso de serem queridos pelo filhos. É
péssima aprendizagem para uma criança ver que pode manipular o seu
educador.
Outro fator, consequência do anterior, é que cada vez mais os filhos são
testemunhas das tentativas dos pais por “captar” o seu par e, a partir do
ponto de vista de um adolescente, ao ocorrer isto, os pais deixam de ser
plenamente adultos para retroceder a uma situação de adolescente inseguro
semelhante a de seu filho. Por isso, em um momento vital de grande
transcendência, no qual o jovem sente mais insegurança que antes, de
repente descobre que nem sequer os pais estão onde devem estar como
modelos a imitar ou superar porque deixaram de contar como elementos de
estabilização emocional, apresentando-se eles mesmos como instáveis, com
a vida mal resolvida7.
O desemprego – sobretudo paterno – aparece como outro fator
desestabilizador para o filho. Se o pai está ansioso e duvida de seu valor,
transmite a ideia de não ter controle sobre a sua vida. Em vez de se mostrar
como alguém em quem o filho pode se apoiar, pode dar a impressão de que
ele necessita de ajuda e compreensão. É ainda pior se o pai, além de
transferir suas ansiedade para sua família, dar mau exemplo a seu filho,
assistindo televisão a qualquer hora e bebendo em excesso, fazendo com
que o filho perca a confiança em poder criar um bom futuro.
Outro psicólogo, González Duro, especialista sobre vícios, também coloca
em primeiro lugar na educação o ensino dos bons costumes e a
responsabilidade. Um vício não é uma doença, mas sim um mau costume 8.
Em geral, os viciados em diferentes vícios não querem ser curados porque
desejam continuar com o vício, mas sem suas consequências negativas. O
paciente costuma preferir que se fale de seu vício como sendo uma doença
porque assim se sente menos responsável. Entre os que trabalham em
serviços sociais, é frequente defender a opinião de que nestes casos não é
conveniente separar os filhos dos pais, o qual pode levar a situações nas
quais o jovem se transforma em “pai de seu pai”. Os filhos tentam ocultar o
abuso de álcool ou droga diante de olhares curiosos de vizinhos, familiares
ou representantes da autoridade; aprendem a mentir para proteger seus pai,
chegam a falsificar sua assinatura nos papéis que devem apresentar na
escola, sendo frequente a busca no colégio por outros alunos que se
encontrem na mesma situação que eles. Uma situação similar apresenta o
caso dos pais com doenças mentais ou com conduta irresponsável por
outros motivos. O que faz uma criança quando os pais gastam todo o
dinheiro de casa na primeira semana do mês e depois não sobra nada para
sobreviver, ou se, de repente, os pais começam a gritar ou a quebrar os
móveis da casa, um cônjuge bate no outro e nos filhos?
Uma tendência menos conhecida, a qual deveríamos prestar mais atenção,
é o fato de que alguns filhos podem chegar a intimidar e coagir suas mães.
Entre outros especialistas, um psicólogo alemão, Wyrwa, denuncia a ideia
idílica de que as crianças são sempre inocentes, boas e desvalidas9. Ao
contrário, há também crianças egoístas e diretamente cruéis. Muitos filhos,
sobretudo filhos únicos de pais separados, frequentemente de classe média e
alta, transformam suas mães em suas escravas. Com gritos e prantos,
negando-se a colaborar com a mãe ou com a professora, obrigam aos que os
rodeiam a lhes obedecer. É inútil tentar apelar para sua razão. Não lhes falta
nada com relação à inteligência, mas não gostam de respeitar a vontade de outra pessoa. Veem que suas mães sofrem sem que isso altere seu
comportamento porque não querem perder os privilégios e a comodidade
que conseguiram com seu mau comportamento. Se esta situação não for
corrigida, a vida das mães se transforma em um inferno, e os filhos, em
inadaptados. Uma vez adultos, não vão poder trabalhar em equipe nem se
dar bem com seu par. A situação poderia ser denominada como vício
psicológico, e para sair dele existem cursos para “desprogramar” e depois
“reprogramar” tanto as mães como os filhos.
Um juiz de menores de Granada menciona que os casos de delinquência
mais difíceis de tratar costumam ser aqueles relativos a algumas crianças de
classe média e alta porque estes jovens não se enxergam como delinquentes,
ainda que tenham delinquido. Estão tão acostumados a poder fazer o que
querem sem consequências que não entra em suas cabeças que a sociedade
não aceite sua conduta 10. O que o juiz reitera é que “deve-se impor
limites”.
2.2. A psicologia pedagógica há meio século
Uma tese fundamental do presente livro é que a crise atual da educação
está relacionada com a introdução no mundo da educação de algumas ideias
errôneas em nome do progresso da ciência. Nas linhas que seguem, vamos
folhear algumas obras de psicologia de meio século atrás, escolhidas ao
acaso. Curiosamente, são baseadas em observações que, ao contrário de
muitos manuais recentes, se apoiam na reflexão teórica.
Temos tendência a nos esquecer da maturidade, acredita o psicólogo
americano Overstreet11. A meta da educação deveria ser um adulto
maduro, capaz de levar adiante sua própria vida e a de sua família de uma
maneira produtiva. A maturidade é alcançada em contato com novos
conhecimentos e novas situações práticas. As tendências atuais na educação
são voltadas aos alunos em seu aspecto de imaturos, reclamando que a
escola se adapte à falta patente de maturidade, em vez de prepará-los para um futuro como adultos maduros. Os jovens de nossos dias obtêm de
herança um rico acervo cultural composto de literatura, filosofia e religião,
mas muitos deles são tão imaturos que recusam por comodidade esta
riqueza cultural sem chegar a saber sequer o valor daquilo que não
entendem. É imaturo por parte de um indivíduo se negar a aprender para
não ter que “aguentar” ninguém como “professor”. É imaturo por parte de
uma sociedade querer se aproveitar dos resultados da ciência, negando-se a
fomentar as condições nas quais se pode desenvolver a ciência. Se os pais
são imaturos, é difícil que eduquem bem os seus filhos. São bastantes as
crianças, infelizmente, que não possuem acesso em sua casa a diálogos
interessantes, e sim unicamente ao recebimento de ordens, falatórios ou
queixas.
O laço entre indivíduo, família e sociedade é que se não apoiamos por
todos os meios a maturidade dos cidadãos, colocamos em perigo a
democracia, destaca Overstreet. Se os adultos possuem o voto, mas não se
informam bem com relação às alternativas que lhe são oferecidas, não se
comportam como adultos maduros. Poderíamos nos transformar em
prisioneiros da falta de maturidade política. Um exemplo de imaturidade é o
costume de sempre culpar os outros. É interessante que este psicólogo
menciona os meios de comunicação – tão influentes – como âmbitos que se
nutrem da imaturidade dos cidadãos: os jornais, a rádio, o cinema e a
publicidade. Segundo ele, os jornais vivem das catástrofes; a rádio, da
mediocridade; o cinema, das emoções imaturas; e a publicidade, de desejos
irreais. O que os meios de comunicação oferecem às pessoas maduras?
Em um livro de Norman sobre as crianças com atraso mental, comenta-se
que estes costumam ser precisamente imaturos12. É frequente que estes
alunos sejam a origem de conflitos que possuem uma clara relação com sua
inteligência. Possuem problemas para se concentrar, possuem um
desempenho melhor se o professor está presente todo o tempo na classe, se há poucas crianças, se há grande distância entre os bancos, se não há
objetos na classe que os distraiam da tarefa nem tampouco janelas que
revelem um cenário interessante. Estas crianças menos dotadas costumam
ter problemas de lectoescrita e precisam praticar a leitura e a escrita e
exercitar sua memória. Com o objeto de proteger sua autoestima, costumam
afirmar que os conhecimentos não são importantes e desvalorizar os
professores e os alunos que conseguem melhores resultados. Estas
características podem se tornar mais perceptíveis se a criança se sentir em
desvantagem perante os outros alunos do grupo.
Outro psicólogo, Wernstedt, afirma que, apesar da escola não ter
necessariamente que divertir as crianças, deve se adaptar a suas
possibilidades reais e sempre é aconselhável reservar um tempo para a
brincadeira e o lazer. Em sua opinião, os jovens não devem fazer sempre o
que querem, mas é preciso que os adultos os levem a sério e se mostrem
dignos de sua confiança. Os adultos também devem despertar neles
interesses positivos. Além disso, constata que as crianças preferem as
matérias que contêm narrações como a história e a religião, talvez porque
aprender através da narração é o mais parecido com os contos aos quais já
estão acostumados 13. Menciona também a importância dos instintos e da
vontade. A criança pequena aprende uma longa série de noções básicas
imitando ou reagindo sem entender o porquê. O educador acostuma a
criança a associar uma ideia de prazer com o que é bom para ele e ao
contrário. Já muito antes de ter uma capacidade para raciocinar, aprendeu as
bases da convivência humana. Os pais utilizam a imitação e a
sugestibilidade para começar a preparar a criança para a vida social.
Portanto, parte da educação consiste em encaminhar a criança até um uso da
vontade para alcançar metas boas. Assim, o trabalho do educador é
fortalecer e formar a vontade de alcançar boas metas. A direção na qual
essa vontade está voltada é uma parte importante na personalidade do ser
humano. Essa disposição psíquica será essencial para a personalidade. A criança aprenderá a dirigir sua energia em direção das metas que quiser
alcançar. Aprenderá também a moderar seu desejo de exercer um poder
sobre outras pessoas e, em vez disso, levará em consideração os desejos dos
demais.
Outro autor, Lilius, propõe que as crianças iniciem o estudo da
lectoescrita em idades variadas, conforme a maturidade de cada um 14. Se
uma criança ainda não pode manter fixa a atenção em uma tarefa por certo
período e não desenvolveu a inteligência o suficiente para começar a ler,
não gostará de ir ao colégio. Acredita que é um exagero dizer que as
crianças e jovens gostam sempre de aprender. Muitas vezes, o novo gera
preguiça ou medo. Também destaca que os poderes de observação e
conclusão de muitas crianças são limitados. As crianças de baixa
ascendência cultural costumam frequentar o colégio com um vocabulário
muito limitado que depois condiciona sua aprendizagem. Podem ter tido
experiências muito limitadas e poucas conversas com pessoas adultas. Este
psicólogo sustenta também que a aprendizagem dos instrumentos formais
do desenvolvimento intelectual deve ser realizada, mesmo se os alunos não
gostarem muito.
Outro psicólogo, Billing, destaca a importância de uma criança aprender a
não usar a agressividade e a destrutividade porque assim descartará essas
opções e buscará outras 15. Destaca também que a escola não levou a sério
as diferenças de maturidade e de aprendizagem entre os alunos e quase
nunca se refere a um fato bem conhecido: a grande desigualdade de
maturidade entre meninas e meninos e que esta é mais perceptível dentro do
grupo dos meninos que entre o das meninas. Por isso, questiona o costume
de juntar muitas crianças de pouca idade em uma creche. O barulho
atrapalha não somente os adultos, como também as crianças que, além de
serem muito pequenas, não são capazes de colaborar. Podem incomodar e atrapalhar uns aos outros, transformando a jornada em um acúmulo de
conflitos criado pelo ambiente.
Em resumo, os autores destes textos afirmam que quando as observações
não são censuradas pelo politicamente correto, são observadas perceptíveis
diferenças nas respostas das crianças, pois nem todos são igualmente
maduros em certa idade; que as creches podem não ser ideais para todas as
crianças; que o uso de bons modelos na educação é fundamental, e que se
deve insistir no esforço para obter êxitos.