Resumo elementar de archeologia christã

Joaquim Possidónio Narciso da Silva · Capítulo 14 de 53

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Resumo elementar de archeologia christã

Alfaias religiosas

Durante o XI e XII seculo, as grades eram compostas de montantes verticaes mettidos n'uma moldura e encerrando ornatos formados de barras, de secção quadrada ou rectangular; estes ornatos consistem em geral em curvas entrelaçadas.

 

Alfaias religiosas

 

No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas no Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas invasões dos barbaros. Os processos technicos das artes industriaes e mais faceis d'adoptar tinham quasi caído no esquecimento. No imperio do Oriente, pelo contrario, o culto das artes não cessou de prosperar desde Constantino Magno até ao XI seculo inclusivamente, graças á protecção generosa dos imperadores bysantinos. Tambem, logo que se seguiram os primeiros momentos de socego depois das tempestades politicas, pensou-se na Italia e no resto do Occidente em dotar d'alfaias convenientes as egrejas, e basilicas que se acabavam de construir ou de restaurar e para isso foram obrigados a dirigirem-se a Constantinopla tanto para proc No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas no Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas invasões dos barbaros. Os processos technicos das artes industriaes e mais faceis d'adoptar tinham quasi caído no esquecimento. No imperio do Oriente, pelo contrario, o culto das artes não cessou de prosperar desde Constantino Magno até ao XI seculo inclusivamente, graças á protecção generosa dos imperadores bysantinos. Tambem, logo que se seguiram os primeiros momentos de socego depois das tempestades politicas, pensou-se na Italia e no resto do Occidente em dotar d'alfaias convenientes as egrejas, e basilicas que se acabavam de construir ou de restaurar e para isso foram obrigados a dirigirem-se a Constantinopla tanto para procurar os objectos que desejavam como para obter artistas aptos que annuissem a vir trabalhar no Occidente.

Durante muito tempo os artistas verdadeiramente dignos d'este nome, pintores, esculptores, ourives e outros, continuaram a vir de Bysancio, e quando no principio do IX seculo, Carlos Magno quiz decorar com mosaicos e enriquecer com vasos sagrados e outros objectos d'arte o edificio religioso que elle acabára de construir em Aix-la-Chapelle, teve que se dirigir a artistas gregos ou aos discipulos que se haviam formado na Italia, particularmente em Ravenna.

Com os inferiores successores d'este principe, a arte cessou de ter desenvolvimento, retrocedendo tanto na Europa central como na Occidental, ao mesmo estado de barbaria em que se achava antes dos esforços empregados por Carlos Magno para restabelecer o seu progresso.

No fim do X seculo, produziu-se no Occidente um movimento util nos estudos artisticos; os artistas gregos foram ainda aqui, como mais tarde na Italia, os iniciadores que presidiram a este movimento instructivo.

A restauração artistica, começada sob a influencia dos artistas bysantinos, foi extremamente rapida na Allemanha. Desde o fim do X seculo, a escola de Trèves, dirigida pelo bispo Egberto, deu nascimento, no territorio germanico, a muitos outros centros artisticos creados pelos bispos nos seus palacios episcopaes, ou pelos abbades nos seus Mosteiros. Santo Henrique que governou o imperio do Occidente durante o primeiro quartel do XI seculo, foi tambem um dos grandes promotores da restauração artistica na Allemanha.

Os calices ministeriaes conservaram, durante o periodo roman, a mesma fórma que tinham tido anteriormente. A sua decoração é a mesma que a dos calices ordinarios. São munidos d'azas com a fórma de folhagens, ou de dragões e d'outros animaes phantasticos.

Nos medalhões sobre a taça representavam-se scenas da vida do Salvador; nos do pé, as quatro virtudes Cardeaes e assumptos tirados da historia do Velho Testamento; e nos medalhões do nó mostravam-se as personificações dos quatro rios do Paraizo.

As patênas, ordinariamente muito simples, tinham a configuração d'um pires com um esvasamento circular no meio. O fundo interior era liso, com adornos de buril; os bordos, por vezes lavrados em relevos ou gravados ao buril, eram de pequenas dimensões. Encontram-se comtudo algumas patênas da época roman, sobre as quaes abundavam os ornatos e as esculpturas.

Custodias eucharisticas: pyxides e ciborios. Desde o XI seculo que as pombas eucharisticas foram substituidas em geral pelas pyxides, cuja origem alguns auctores reputam ser do V seculo. Dá-se o nome pyxides a pequenas caixas de marfim, d'onyx, d'ouro, de prata ou de cobre esmaltado, nas quaes se guardavam as Sagradas particulas. Suspendiam-se, debaixo do docel do altar, n'uma bolsa de tecido precioso, ou então collocavam-se n'um pequeno nicho aberto em parede proxima do altar.

Durante os primeiros seculos do periodo roman as pyxides de marfim empregavam-se em concorrencia com as pombas eucharisticas de metal.

Consistiam regularmente em pequenas caixas cylindricas, tendo muitas vezes no exterior esculpturas em relevo.

As pyxides do XII e do XIII seculo são ordinariamente de cobre dourado e esmaltado; compõem-se d'uma pequena caixa cylindrica encimada por uma tampa de fórma conica ligada ao cylindro por uma charneira. Muitas d'estas pyxides sairam das officinas dos esmaltadores de Limoges.

As pyxides romans têem algumas vezes um pé, e são em geral tanto umas como outras de pequenas dimensões, por isso que apenas servem para guardar um pequeno numero d'hostias necessarias para dar o Sagrado Viatico aos doentes em perigo de vida.

Todas as pyxides anteriores ao XVI seculo, com raras excepções, têem a tampa ligada ao cylindro por meio de charneira.

Relicarios. Consideraram-se primeiramente como reliquias os restos mortaes dos Santos, porém, hoje têem um sentido mais lato; considerando-se tambem como taes os paramentos e outros objectos usados por elles durante a sua vida mortal. A Egreja professou sempre um grande respeito pelas reliquias, prestando-lhes um culto particular. Em vista d'isto não é para admirar que nos primeiros seculos se fabricasse um tão grande numero e diversidade de relicarios, afim de conservarem estes preciosos thesouros e expôl-os á veneração dos fieis.

Relicarios da verdadeira Cruz. A maior parte dos relicarios que contéem parcellas da verdadeira Cruz foram trazidos do Oriente na época das Cruzadas, ou fabricados na Europa segundo os modêlos bysantinos. São ricamente cravejados de pedraria e d'esmaltes, e têem muitas vezes a fórma de uma dupla cruz chamada cruz do Santo Sepulchro, de Lorrena ou de Caravalla. Como a travessa superior d'esta cruz é menor que a inferior, leva isto a suppôr que o que parece uma repetição dos braços seja simplesmente o titulo da cruz, pelo qual os Gregos e os Orientaes sempre tiveram especial veneração.

Tambem muitas vezes se collocavam as reliquias da Sagrada madeira n'uma cruz com uma simples travessa.

As reliquias da verdadeira Cruz, encerradas n'uma cruzeta, muitas vezes com duas travessas, eram tambem muitas vezes emmolduradas n'uma placa metallica ricamente ornada e fixa sobre um centro de madeira. Estes relicarios, com a fórma d'um pequeno quadro rectangular ou d'um triptyco, eram mettidos em ricos estojos guarnecidos d'esmaltes, filigranas e pedras preciosas.

Não eram só os relicarios da madeira da verdadeira Cruz, que tinham a fórma d'uma cruz com duas travessas horisontaes; os proprios edíficios em que se conservavam estes relicarios eram muitas vezes encimados com uma cruz do mesmo genero. Nas parochias em que os campanarios tinham a dita cruz, eram collocadas sobre os tumulos n'ellas existentes, cruzes de madeira ou de pedra com a mesma fórma.

Urnas. A urna é uma especie d'um cofre dentro do qual são guardadas as reliquias d'um Santo. O emprego das urnas vulgarisou-se desde o XI seculo. Ha-as grandes e pequenas. As grandes urnas têem o feitio d'um pequeno edificio rectangular, com a fórma de telhado de duas vertentes; ha algumas, como a dos Reis Magos em Colonia, que imitam uma egreja com as suas paredes exteriores.

Em geral são cobertas de placas de metal ornadas com filigranas, esmaltes e pedrarias. Christo lançando a benção, sentado ou em pé, só ou no meio de dois Santos, occupa ordinariamente uma das faces extremas, e na outra face a Santissima Virgem entre dois Santos cujas reliquias a urna encerra. As faces lateraes são divididas por arcadas de volta inteira ou abatida, debaixo das quaes se vêem as figuras dos Apostolos ou d'outros Santos; emfim, as vertentes da imitação de telhado são decoradas com baixos relevos. Os esmaltes servem de caixilhos aos differentes assumptos e cobrem tanto as archivoltas como as columnas das arcadas. Ha tambem urnas exclusivamente feitas de placas esmaltadas.

As urnas pequenas, muito triviaes nos seculos XII e XIII, têem a fórma d'um cofre oblongo, coberto com uma tampa semelhante a um telhado de duas aguas. Compõem-se em geral de placas de cobre vermelho, esmaltadas segundo o processo do buril. Tanto as quatro faces da urna, como a tampa são adornadas de figuras e algumas vezes com assumptos completos. Merecem attenção as figuras pela gravura em relevo ou pelo seu modo de execução especial.

Sobre muitas d'estas urnas se vêem em relevo as cabeças e as mãos ou sómente as cabeças; nas mais antigas, em vez de serem simplesmente gravadas, são incrustadas de esmalte.

D'ordinario o trabalho é rude e barbaro e o desenho deixa muito a desejar com relação a correcção.

A tampa é geralmente terminada por uma lamina de cobre recortada em fórma de crista.

Pertencem em geral estas urnas ao trabalho dos esmaltadores de Limoges.

Tambem se têem encontrado urnas romanas de pedra, marfim e mesmo de madeira.

Estatuêtas, bustos, braços, pés, etc. No seculo X, começou-se a collocar as reliquias em estatuêtas, bustos, ou relicarios de metal ricamente ornamentados e imitando a fórma do corpo humano a que ellas haviam pertencido. Assim, quando queriam guardar os ossos d'um pé, ou d'um braço, dava-se ao relicario a fórma de qualquer d'estes dois modelos. Continuaram a usar-se estes relicarios durante os seculos seguintes, tornando-se bastante vulgares.

Urnas de marfim. Encontram-se, com frequencia, nos thesouros das egrejas e nas collecções d'objectos antigos, cofres de marfim cobertos de esculpturas decorativas e legendarias. As que offerecem assumptos religiosos ou alguns signaes de symbolismo christão, e que por consequencia foram executadas para o serviço do culto, são extremamente raras. Isto prova que primitivamente eram destinadas aos usos profanos, por exemplo, para guarda joias. No entanto não é para admirar que se encontrem nas egrejas, pois que umas foram cedidas ás egrejas como obras artisticas offerecidas por bemfeitores generosos; outras, executadas no Oriente, serviram aos cavalleiros cruzados para trazerem as reliquias de Constantinopla e da Terra Santa. As reliquias vindas do Oriente, ficaram encerradas em pequenos cofres, adquiridos por alto preço no Egypto, na Syria e na Asia Menor. Estes pequenos cofres, que sahiam d'officinas musulmanas ou indianas, são regularmente cobertos de figuras geometricas, d'arabescos d'animaes phantasticos e algumas vezes d'inscripções Orientaes.

Frascos de crystal de rocha. D'entre os varios objectos de que os cruzados se serviam como relicarios, para trazerem reliquias para o Occidente, devemos especialmente mencionar os pequenos frascos de crystal de rocha. Estes frascos, cuja altura raras vezes excedia dez centimetros, eram ou muito simples ou com fórmas d'ani. D'entre os varios objectos de que os cruzados se serviam como relicarios, para trazerem reliquias para o Occidente, devemos especialmente mencionar os pequenos frascos de crystal de rocha. Estes frascos, cuja altura raras vezes excedia dez centimetros, eram ou muito simples ou com fórmas d'animaes phantasticos. Muitos estiveram guardados, durante o periodo ogival, em ricos estojos de ouro ou de prata.

Diversos relicarios. Ha-os com diversas fórmas architecturaes imitando, em metal ou em marfim, as principaes partes das egrejas romans, e até mesmo as dos edificios civis.

Corôas suspensas nos altares. Estas corôas conhecidas com o nome de votivas eram por devoção offerecidas a Deus e aos Santos, ou em cumprimento d'algum voto. Já existiam durante o periodo latino; como então, compunham-se de um circulo de metal precioso, muitas vezes adornado com o brilho de pedrarias e de esmaltes. Fabricou-se grande numero d'estas corôas directamente para o serviço dos altares; todavia os antigos chronistas designam-nas tambem muitos como offertas feitas por reis e principes, de corôas d'ouro e de prata e que elles precedentemente cingiam como insignia de realeza.

Corôas para luzes. As corôas para luzes continuaram a usar-se durante o periodo roman e as mais bellas que a idade media nos legou são d'esta época.

Todas estas corôas, guarnecidas de torres e ameias parecem alludir á visão de que falla S. João no capitulo XXI do Apocalypse. Deus me mostrará a santa cidade de Jerusalem, que desceu do Ceu, mandada por Deus... representada por uma alta muralha, franqueada por dôze portas; vendo-se a estas portas dôze anjos, e tendo gravados os nomes das dôze tribus de Israel. As portas ficavam tres ao Oriente, tres ao Norte, tres ao Sul e tres ao Occidente. A muralha tinha dôze socalcos, em que se achavam gravados os nomes dos dôze Apostolos.

Suspendiam-se estas corôas no côro proximo do altar e tambem no ponto de intersecção da nave com o transepte, quando eram muito grandes.

A corôa para luzes de Aix-la-Chapelle tem oito metros de circumferencia; é composta de oito arcos de circulo unindo-se de maneira que formam angulos reintrantes. Estes angulos são guarnecidos de lanternas em fórma de torrinhas redondas havendo, no ponto medio de cada arco de circulo, uma torre quadrada maior. Entre cada torrinha podem ser collocadas tres vellas; como são dezeseis torres, oito quadradas e oito redondas, a corôa póde receber quarenta e oito luzes em todo o seu circuito. Duas inscripções latinas se lêem em tôrno do circulo metallico, indicando a data do XII seculo em que foi dada á egreja de Aix-la-Chapelle pelo imperador Frederico Barba-rôxa.

Cruzes d'altar e para as procissões. Até ao final do XV seculo, não havia distincção alguma entre as cruzes do altar e as procissionarias ou estacionarias. A mesma cruz servia para ambos os fins; collocava-se sobre o altar fixando-a em uma peanha, trazia-se em procissão na extremidade d'uma vara comprida.

As cruzes d'altar romans, ordinariamente de cobre, de prata, ou mesmo d'ouro, têem em geral apenas uma só cruzeta; as mais antigas são de fórma Trina, e cravejadas de perolas ou de variadas pedrarias. Mais tarde, no XI e no XII seculos, são então compostas com a imagem de Christo, sendo os ramos da cruz de desiguaes dimensões, isto é, deixam de ter a fórma Trina.

Grande parte das cruzes d'altar romans são de cobre vermelho adornado com esmaltes entalhados ao buril, outras compõem-se de simples laminas de cobre sobre as quaes se reproduzem em esmalte a imagem do Divino crucificado ou outros symbolos religiosos. Muitas cruzes são formadas de madeira, tendo as duas faces ou só a principal revestidas com placas esmaltadas. A imagem de Christo era representada n'estas cruzes e em alto-relevo. O perizonium, que cobre os rins e a corôa que cinge a cabeça do Salvador, são ordinariamente esmaltados e os olhos representados por fragmentos de vidro azul.

No fim do periodo roman, as peanhas em que se fixavam as cruzes para as collocar sobre o altar eram muitas vezes d'uma riqueza notavel; algumas eram de fórma triangular, a mais geral; e outras tinham quatro faces. Em cada um dos quatro angulos, d'estas ultimas, apresentam um Evangelista escrevendo textos relativos á vida ou á morte do Salvador. Queria-se d'este modo symbolisar a diffusão, pela prédica do Evangelho, da Fé em Jesus-Christo, Redemptor do genero humano.

Candelabros. Os candelabros eram em geral pequenos e terminavam na sua parte superior por uma dirandella ponteaguda. A fórma d'estes candelabros do XII seculo, varía pouco; consta em geral de um pé assente sobre tres patas de leão ou em tres corpos de dragão; um nó de folhagens ou de dragões enroscados; e uma dirandella bastante concava, sustentada por tres ou quatro pequenos animaes phantasticos que se assimilham aos dragões ou aos lagartos com azas.

O contraste que existe entre os pequenos candelabros d'outro tempo e os que actualmente se empregam de excessiva altura, explica-se da seguinte maneira: deram aos candelabros e ciriaes uma tão descommunal altura que obrigaram a substituir as antigas velas de cêra por um cirial simulado e accrescentado com uma vela. Não devemos esquecer que os ciriaes se accendem em homenagem ao Crucifixo ou ao Santissimo Sacramento, e que portanto não devem exceder em altura o tabernaculo. Comprehende-se, pois, a razão por que um candelabro d'altar é maior e mais monumental que outro qualquer de sala.

Candelabros para o Cirio Pascal. Tinham uma altura bastante consideravel.

A ornamentação d'estes candelabros, destinados a sustentar o Cirio Pascal, era analoga á dos candelabros d'altar. N'elles se encontram, tanto no pé como na dirandella, os dragões e os lagartos com azas (geralmente no numero de tres), as folhagens e os florões. Em alguns, tambem se representavam varios personagens e diversos outros assumptos nas facetas do pé.

Candelabros de sete braços. Estes candelabros sempre de bronze, usavam-se desde o periodo roman, e talvez antes. Destinados, sem duvida, a fazer recordar o antigo candelabro dos israelitas, são tambem muito elevados. O pé, o nó e os ramos eram ordinariamente ornados.

Os braços estão collocados, em geral, no mesmo plano, tres de cada lado da haste central e as dirandellas tambem se encontram ao mesmo nivel.

Evangeliarios. Durante o periodo roman, trataram, como até ali, de reproduzir o mais correctamente possivel o texto Sagrado; e continuaram do mesmo modo a transcrever os exemplares de luxo com lettras de ouro sobre velino branco ou côr de purpura.

As Biblias completas e os evangeliarios, isto é, os manuscriptos em que se encerra o texto dos quatro Evangelhos, são em geral ornados com um grande numero de miniaturas representando personagens e assumptos do Novo e Velho Testamentos, e até mesmo alguns factos legendarios. Todavia, nos mais antigos manuscriptos o numero das illustrações é geralmente muito menor que nos do XI e XII seculos. Encontra-se com frequencia, na parte superior de cada Evangelho, a figura do Evangelista, sentado e escrevendo o seu livro.

Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em arcadas sobre columnas, agrupadas ás t Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em arcadas sobre columnas, agrupadas ás tres e ás quatro, sob um arco commum que abrange toda a largura da pagina; em cada arcada lêem-se series de numeros collocados uns debaixo dos outros.

Estas columnatas formam o que se chamam os canhões d'Euzebio ou de concordancia Evangelica. Foram compostas por Euzebio de Cezaréa para facilitar o estudo comparativo dos Evangelhos, e consistem em quadros que indicam, por meio de algarismos escriptos na mesma linha horisontal em duas ou mais arcadas, as citações dos Evangelhos com relação ao mesmo objecto.

São dez: o primeiro indica todos os logares communs aos quatro Evangelhos; o segundo, os que se não lêem senão em S. Matheus, S. Marcos e S. Lucas; o terceiro, o que é referido por S. Matheus, S. Lucas e S. João; o quarto, as passagens comparativas de S. Matheus, S. Marcos e S. João; o quinto, o accôrdo de S. Matheus com S. Lucas; o sexto, de S. Matheus com S. Marcos; o setimo, de S. Matheus com S. João; o oitavo, de S. Lucas com S. Marcos; o nôno, de S. Lucas com S. João; emfim o decimo, sob differentes series, o que cada evangelista escreveu de particular.

Cada Evangelho tem á margem, com tinta preta por ordem numerica, a indicação de todos os versos que o compõem; e inferiormente a cada verso está notado a encarnado o numero do canhão a que se tem de recorrer para encontrar a concordancia.

Capas evangeliarias. Durante o periodo roman as capas dos livros lithurgicos tinham ordinariamente um. Durante o periodo roman as capas dos livros lithurgicos tinham ordinariamente um comprimento dobrado ou triplicado da largura. Comtudo já havia n'essa epoca encadernações que se approximavam sensivelmente da fórma quadrada, que foi a que mais tarde prevaleceu.

As capas dos livros romans são de metal e tambem de marfim; acontecendo muitas vezes reunirem estas duas materias na mesma capa, ou servindo de caixilho a uma placa de marfim quadrada ou rectangular e com relevos metallicos.

Os assumptos que mais trivialmente se encontram sobre as capas dos evangelhos são: 1.º O Salvador, sentado ou de pé, lançando a benção e collocado n'uma aureola oval; 2.º A crucificação de Christo; 3.º A Santissima Virgem com o menino Jesus; 4.º Scenas tiradas da historia do Novo Testamento.

Os symbolos dos Evangelistas occupam quasi sempre os quatro angulos das capas.

Para o fim do periodo roman, tambem frequentemente se empregaram, como capas de livros lithurgicos, placas esmaltadas, oblongas, rectangulares, fabricadas em Limoges, representando a crucificação do Senhor, com as figuras accessorias.

Thuribulos. É provavel que nos primeiros seculos fossem simples vasos com grande diametro e um peso consideravel.

Dos thuribulos anteriores ao XI seculo apenas temos conhecimento pelas pinturas das paredes e pelas miniaturas dos manuscriptos.

São d'uma simplicidade notavel; têem, como todos os que se lhes seguiram, a fórma espheroidal.

No XI e XII seculos apparecem thuribulos mais ricos.

Caldeirinhas d'agua benta portateis. Estas caldeirinhas serviam para levar agua benta aos imperadores, aos reis e outros grandes personagens no momento em que entravam na egreja. Têem a fórma d'um cóne troncado e invertido.

Geralmente são de pequenas dimensões, não excedendo 20 centimetros em altura.

Tambem as ha de marfim e outras de metal. A maior parte tem exteriormente duas ordens sobrepostas de figuras em relevo, representando assumptos religiosos, figuras de Santos ou symbolos.

Pentes lithurgicos. Os padres eram obrigados a pentear os cabellos e a barba antes de celebrar o Officio Divino. O uso dos pentes lithurgicos existiu até ao XVI seculo, e ainda nos nossos dias se emprega o pente na Sagração dos Bispos.

Os pentes lithurgicos são geralmente d'osso ou de marfim e tambem algumas vezes de madeira.

Uns são maiores do que outros; os maiores são guarnecidos com duas ordens oppostas de dentes, tendo uma com mais finissimos dentes. O espaço comprehendido entre as duas ordens de dentes é em geral esculpido. Os pentes de menores dimensões têem apenas uma ordem de dentes, sendo egualmente mais ou menos ricamente esculpidos.

Cadeiras. O uso da cadeira, cathedra, foi durante, muito tempo considerado como uma prerogativa dos Papas, dos Bispos e dos Soberanos temporaes.

No fim do periodo Latino e no começo do Roman, as cadeiras, eram por vezes feitas á imitação da cadeira curúl dos Romanos, a qual era formada de duas dobradiças em fórma de X, entre as quaes assentava um coxim. Os ramos das dobradiças d'esta especie de cadeiras romans são ordinariamente terminados, superiormente, por cabeças d'animaes e inferiormente por patas ou garras; como tambem succede com as cadeiras curúes mais ricamente esculpidas.

As cadeiras romans têem d'ordinario a fórma d'um cofre rectangular, não tendo costas nem tão pouco braços. Adornavam-nas com incrustações de marfim, ouro, prata ou outros metaes; eram estofadas de preciosos brilhantes e damascos. As cadeiras de costas altas são raras.

Baculos pastoraes. Desde os primeiros seculos que os Bispos empunhavam o bastão pastoral como insignia da sua dignidade. Mais tarde foi este privilegio extensivo aos abbades dos grandes mosteiros.

Os bastões pastoraes mais antigos eram de duas fórmas diversas: havia o bastão em fórma de muleta e o bastão em voluta. O primeiro, pela sua similhança com a letra T (a que os gregos chamavam tau) é conhecido pelo nome de bastão ou baculo em fórma de tau. O cabo ou travessa ordinariamente de marfim é todo esculpido.

Os baculos de voluta que ainda hoje existem, datam do XII seculo. A fórma que tinham antes d'esta epocha sabe-se pelas esculpturas, pinturas e miniaturas.

Não nos parece que se encont Não nos parece que se encontrem Bispos empunhando o baculo em monumentos cuja data seja anterior ao ultimo quartel de X seculo.

No seculo XII e até mesmo já durante a ultima metade do seculo XI, é que se começaram a usar os baculos de voluta. São tambem d'esta epocha os bastões de metal ornados de pedrarias d'esmaltes e filigranas.

A voluta de quasi todos os baculos do XII seculo termina por uma cabeça de serpente ou de dragão encimada por uma cruz, ou lutando com o Divino Cordeiro armado com o signal da redempção. As volutas terminando em florão são por emquanto raras n'esta epocha, assim como tambem aquellas que têem representadas scenas historicas.

Attribue-se geralmente aos baculos pastoraes e a todas as suas differentes partes, uma significação symbolica. O baculo representa o bordão do Pastor espiritual; do Bispo na sua diocese e do abbade no seu mosteiro. A haste é recta para recordar ao Prelado a rectidão da governação; a ponteira de metal é o emblema da justa severidade com que deve reprimir os rebeldes, e a voluta recurvada symbolisa a bondade como as almas são attrahidas para o bem pelas consolações. A voluta do baculo voltada para o peito, indica a jurisdicção interna dos Abbades; voltada para fóra, mostra a auctoridade dos Prelados.

Sapatos lithurgicos. Estes sapatos, que desde os primeiros seculos são considerados como uma das principaes insignias dos Bispos e dos Abbades, tinham o nome de sandalias, sandalia, e eram em geral de fórma identica. Constavam d'uma solla de coiro ordinario, d'uma gaspea e de dois quartos.

A gaspea era de coiro e recortada muito profundamente a formar uma especie de lingueta, lingua, e quatro appendices, ligulae, em fórma de orelhas atravez das quaes passavam os cordões. As seis chanfraduras, formadas por estas orelhas, fizeram dar á gaspea o nome de coiro fenestrado, corium fenestratum, por affectarem a fórma de aberturas dos rotulos de janellas.

Tanto a gaspea como os quartos tinham um grande numero de furos, os quaes bem como as chanfraduras da gaspea tinham uma significação symbolica.

As sandalias são guarnecidas, inferiormente, por uma solla e superiormente por um pedaço de cabedal chanfrado ou fenestrado, porque os pés dos prégadores devem ser resguardados inferiormente para se não sujarem nas coisas terrestres conforme as palavras do Senhor—Sacudi o pó de vossos pés—; são descobertos pela parte superior para que lhes seja relevado o conhecimento dos celestiaes mysterios, segundo estas palavras do propheta: «Desvendae-me os olhos e considerarei as maravilhas da tua Lei».

A gaspea e os quartos eram ordinariamente bordados a ouro e seda e até mesmo de pedras preciosas.

Mitras. As mitras de dois bicos eram desconhecidas até ao fim do XI seculo. D'antes os Bispos usavam algumas vezes uma corôa ou grinalda de laminas de metal, cravejada de pedras, debaixo da qual elles punham um barrete pouco elevado ou um pedaço rectangular de seda ou de tela, cujas extremidades, ordinariamente bastante compridas, fluctuavam livremente sobre as costas.

No fim do XI seculo, a cobertura collocada por debaixo da corôa tornou-se mais alta de maneira que formava ou uma especie de touca ponteaguda ou dois lobulos obtusos ou arredondados e pouco tempo depois duas agudas pontas. N'esta mesma epocha foi substituido o circulo de metal por fachas de pergaminho primorosamente pintadas e as extremidades fluctuantes do pedaço de tela por duas fachas compridas e estreitas, que se chamam fanons.

Alfaias preciosas. Tecidos. Durante os primeiros seculos da éra christã, os tecidos de seda apenas se fabricavam no Oriente.

Mas no periodo roman continuou a Europa a mandar vir todos os tecidos preciosos de Constantinopla, da Grecia, da Asia Menor e da Persia.

Comtudo, no seculo IX, os Mouros introduziram a cultura do bicho de seda no Sul da Hespanha, e a começar do seculo seguinte, a pequena cidade de Almeria, situada a pequena distancia de Malaga sobre as costas do Mediterraneo, tornou-se um importante centro de industria de seda, cujos productos da Europa eram procurados.

Em seguida á expulsão dos musulmanos no anno de 1146 ou 1147, as fabricas de seda tambem se desinvolveram muito na ilha da Sicilia, e o commercio de tecidos de seda tornou-se extremamente florescente e prospero, graças aos intelligentes esforços do rei normando Roger, secundado na sua empreza por operarios trazidos da Grecia na escolta d'uma expedição militar. Os tecidos d'ouro e seda, fabricados na celebre manufactura official de Palermo, e conhecida pelo nome de Hotel de Tiraz, foram os mais estimados durante toda a edade média.

Os tecidos do periodo roman, geralmente encorpados e solidos, são uns lisos e outros ornados de desenhos representando animaes, plantas, flôres e fructos, empregados apenas como decoração, sem a menor intenção de symbolismo. Os estofos produzidos pelas fabricas musulmanas, tinham tambem ás vezes inscripções arabes; aquelles cujas decorações consistiam em assumptos biblicos ou symbolos christãos, fabricavam-se em Constantinopla, na Grecia e mais tarde egualmente na Sicilia.

Bordados. Os bordados continuaram a usar-se para reproduzirem assumptos religiosos quer em medalhões quer sobre umas fitas que applicavam ás velas d'altar e aos paramentos sacerdotaes. A arte de bordar fez consideraveis progressos durante o periodo roman. Encontram-se um grande numero de passamanarias inteiramente executada á agulha «acula pictae» no XI e XII seculos.

Os bordados executados durante o periodo roman eram geralmente feitos em seda ou lã fina sobre uma talagarça de tela fina.

Paramentos sacerdotaes. No principio do periodo roman eram ainda desconhecidas as côres lithurgicas, e só se começaram a empregar no IX seculo tomando um certo desinvolvimento nos seculos seguintes, ao mesmo tempo que se fixou o seu symbolismo. A côr branca e a vermelha foram as primeiras adoptadas: aquella, como emblema da innocencia e da candura, servia nas festas do Salvador, da Santa Virgem, dos anjos, dos Santos que não morreram martyres e durante a Paschoa; o vermelho, symbolo da caridade e do heroismo, foi destinado aos martyres bem como ao Pentecostes, festas por excellencia do amor.

No XII seculo duas novas côres vieram augmentar as que já se usavam: o verde, symbolo da esperança, foi empregado aos domingos e nos dias de semana em que se não celebrava festa alguma de Santo e durante o tempo que decorre entre a Epiphania e a septuagesima, entre o Pentecostes e o Advento, o preto, signal de luto, foi reservado para a sexta feira Santa e para os officios funebres.

A principio, o uso d'estas differentes côres era facultativo; porém desde o final do XII seculo e ainda mais durante o seculo XIII, tornou-se obrigatorio.

Mais tarde, tambem se introduziu o uso da côr violeta, symbolisando penitencia, para o Advento, quaresma, temporas e vigilias.

A casula conservou, durante o periodo roman a mesma fórma que até ali havia tido, isto é, a d'uma veste dupla, sem mangas, e caindo livremente á roda do corpo.

As casulas mais ricas eram de seda; cravejadas de pedras, de perolas e bordadas a ouro, prata, seda ou lã, reproduzindo figuras geometricas, flôres, animaes, symbolos e assumptos religiosos. Estes ornatos espalhavam-se muitas vezes por toda a casula; comtudo, d'ordinario, apenas occupavam as bandas verticaes longas e estreitas, chamadas praetestae, listae ou augusti clavi; regularmente são duas, uma na frente e outra na parte posterior. Além do modo decorativo que ellas tinham, estas bandas serviam ainda a um fim util, a de tapar as duas costuras precisas para dar feitio ao paramento. Duas outras fachas, egualmente estreitas, passavam sobre os hombros e vinham terminar nas bandas verticaes do peito e ao meio das costas, figurando, adiante e atraz, uma Cruz em fórma de Y.

Ha casulas antigas que não têem as fachas de juncção que passam sobre os hombros e cuja decoração se resume nas duas fachas verticaes. Algumas vezes tambem estas fachas são substituidas por arvores ou plantas com muitas ramificações.

As casulas de uso diario e as das egrejas mais modestas não eram de seda, materia de um preço excessivo n'essa época, mas sim de lã, tela ou outros tecidos mais baratos.

A estola consiste em uma facha comprida e estreita, de seda, de lã ou de tela, medindo em geral 2m,70 de comprimento sobre 6 a 7 centimetros de largura. Foi a partir do IX seculo, que ella tomou esta fórma e estas dimensões, que se approximam muito das que ainda hoje tem.

As estolas ricas eram ornadas de pedrarias bordadas, e placas de metal cinzeladas e esmaltadas, e terminavam nas pontas por longas franjas.

O manipulo, que d'antes consistia n'uma especie de toalha, com a qual os padres limpavam as mãos e a cara ou purificavam os vasos sagrados, só perdeu a fórma e o destino primitivo, durante o IX seculo, quando se tornou um verdadeiro paramento similhante á estola na fórma, côr e decoração.

A capa conservou, durante o periodo roman, a mesma fórma que tinha antes; especialmente reservada aos chantres e clero inferior, era feita com um tecido ordinario. Os Bispos só raras vezes a vestiam e, por consequencia, não havia capas ricamente decoradas.

A alva era de linho mais ou menos fino e algumas vezes de seda branca. Havia duas especies de alva: as alvas sem ornatos, chamadas albae purae ou simplices, e as alvas guarnecidas, albae paratae ou frisiatae. As primeiras serviam nos dias ordinarios e nas egrejas de segunda ordem; as outras eram usadas pelos Bispos e pelo clero, especialmente nos grandes dias de festa.

A decoração das alvas dos Bispos consistia apenas em certos ornatos em volta do pescoço, nas extremidades das mangas e no bordo inferior; além de duas orlas parallelas verticaes que lembram as augusti clavi dos Romanos, e que descem do pescoço até aos pés, tanto na frente como nas costas.

O cinto era geralmente ornamentado com grande luxo.

Muitos tecidos preciosos se fabricaram com fio d'ouro; tendo a fórma d'uma grande fita de largura entre tres e seis centimetros, podendo-se mui facilmente assentar, em toda a sua largura, perolas, pedrarias, e placas de metal cinzeladas e esmaltadas.

O amicto é composto d'um pedaço de panno quadrado ou rectangular, que o sacerdote põe na cabeça, quando começa a revestir-se, e que depois faz descer sobre o pescoço.

Os amictos eram em geral de panno de linho. No periodo roman tambem os havia de seda, e de fio d'ouro.

No IX seculo começaram os amictos a ter um ornamento, que se conservou em uso durante toda a edade média, e que recebeu o nome de—parura plaga—e tambem, ás vezes o de—praetextae. Este adorno consistia, no seu principio, em uma tira rectangular d'ouro, de renda ou tecido de côr brilhante, que se pregava no bordo superior do amicto, e que formava em torno do pescoço uma especie de rico collar, visivel mesmo depois do sacerdote e os ministros sagrados terem revestido a casula ou a dalmatica. Algumas vezes tambem tinham como adorno perolas e pedras preciosas.

A dalmatica é o paramento sacerdotal para vestir por cima, pertencente ao diacono e sub-diacono. Consistia, durante o periodo roman, regularmente n'uma especie de toga fechada muito comprida, com mangas e uma abertura para passar a cabeça. Duas faixas verticaes d'ouro ou de côr brilhante se applicavam, ás vezes, sobre a toga, prolongando-se até ao bordo inferior.

Do seculo XI em diante appareceram dalmaticas abertas nos dois lados até uma certa altura. Eram muitas vezes guarnecidas de faixas douradas em volta do pescoço, e nos canhões das mangas.