Resumo elementar de archeologia christã
O crucifixo e a crucificação
Encontram-se tambem, no fim do periodo ogival, dois symbolos da Santissima Trindade, consistindo em figuras geometricas, o triangulo e tres circulos entrelaçados. Na epocha do renascimento, costumavam muito a inscrever n'um triangulo algumas vezes um olho, outras o nome de Jehovah.
O crucifixo e a crucificação
No XIII seculo, epocha designada do soffrimento, ou da realidade, principia-se a representar Jesus Christo na Cruz. O corpo do Redemptor curva-se ou mais depressa retorce-se de uma maneira bastante desagradavel; os braços não ficam na sua posição horisontal, pois as espaduas descem sensivelmente abaixo do ponto de união das mãos, de modo a figurar os esforços naturaes produzidos por um corpo humano suspenso por meio de cravos; os pés sobrepostos afastam-se de pessima posição, muitas vezes mesmo fazem encruzar as pernas; finalmente a cabeça de Christo, moribundo ou sem vida, está quasi sempre inclinada sobre o hombro direito, isto é, para o logar onde se vê a Mãe de Jesus e tambem algumas vezes a personificação da Egreja.
Nas crucificações pintadas e esculpidas do XV e XVI seculo, a cruz do Redemptor e as dos ladrões, muitas vezes bastante altas e de diminuta grossura; assim como a travessa horisontal da cruz do Christo tem um grande comprimento, em quanto que a extremidade que tem o titulo, sobe apenas ao ponto de intersecção das duas travessas.
Desde os primeiros annos do XIII seculo, principiou-se com timidez primeiramente a supprimir o suppedaneum e a pregar á cruz, por meio de um unico cravo, os dois pés sobrepostos do Redemptor; porém, depois de algum tempo, o empreg e a pregar á cruz, por meio de um unico cravo, os dois pés sobrepostos do Redemptor; porém, depois de algum tempo, o emprego de tres cravos veiu a ser quasi tão commum como o de quatro; e nos seculos XIV XV foi o unico empregado.
O Christo crucificado traz ainda a aureola no XIII seculo. A corôa de espinhos, quasí desconhecida antes, apparece de tempos a tempos no XIV seculo. No seculo seguinte encontra-se frequentemente.
No XIII seculo, a representação da crucificação foi ainda algumas vezes reproduzida com todas as personagens e accessorios historicos e allegoricos que acompanhavam precedentemente e que já temos descripto; o mais das vezes, todavia, não se conservam senão alguns. Os que se vêem geralmente são Nossa Senhora e S. João, o sol e a lua. Os dois ladrões, a egreja e a synagoga raro apparecem.
Nossa Senhora e S. João. Durante o periodo roman, Nossa Senhora e o discipulo mais amado são representados com uma attitude de paz, erguendo geralmente os braços para o Redemptor ou occultam o rosto em signal de pezar. No XIII seculo, e mesmo durante uma parte do XIV seculo, conservam esta attitude estavel e digna. Mais tarde, o gesto que se lhe attribue exprime já uma dôr vulgar e natural.
No XV seculo, e algumas vezes já no XIV seculo, os artistas christãos procuram produzir, na alma do espectador, sentimentos de ternura e de compaixão.
Para este effeito representam Nossa Senhora desmaiada nos braços das duas santas mulheres que a amparam. Os exemplos d'este deliquio, encontram-se na Italia desde o XIII seculo.
O Sol e a Lua. Durante o periodo ogival, o Sol é figurado geralmente por um disco radiante, e a Lua por um simples quarto crescente.
A Egreja e a Synagoga. Como já explicámos, a Egreja e a Synagoga eram personificadas, durante o periodo roman, por simples mulheres trazendo os respectivos attributos. Depois do meiado do XII seculo, essas mulheres representavam rainhas. A que symbolisava a Egreja, sempre collocada á direita de Jesus Christo, traz uma corôa, e levanta a cabeça com uma expressão de orgulho; as mais das vezes, tem n'uma das mãos o calix, e na outra uma cruz de haste comprida ou um pequeno modelo de uma egreja.
A Synagoga, pelo contrario, tem uma corôa que lhe pende da cabeça e um estandarte cuja haste se quebrou entre as suas mãos; deixando escapar as taboas da Lei, e tendo os olhos vendados por uma faxa ou por um dragão que se lhe enrosca á roda da testa.
Os dois ladrões. Os ladrões nas mais antigas crucificações, apparecem de tempos a tempos durante o periodo ogival; teem os musculos encolhidos até a contorsão, e as mãos, não pregadas sobre a cruz, mas ligadas ás costas de maneira a deixar passar, pelo centro, a travessa horisontal do instrumento do seu supplicio. No fim do periodo ogival, encontram-se de novo representados os ladrões, principalmente nos retabulos de madeira de obra de talha da escola hollandeza.
Imagem de Nossa Senhora. Nossa Senhora com o Menino Jesus. Durante o periodo ogival, o grupo historico de adoração dos reis magos, que se vê sobre alguns pequenos diptycos ou triptycos, de marfim, onde se vê, ao mesmo tempo, a crucificação e outras scenas tiradas da vida de Jesus Christo. N'esta representação os reis magos trazem sempre na cabeça a coroa real.
No XIII seculo, encontra-se ainda frequentemente Nossa Senhora assentada em uma cadeira ou throno, tendo sobre os joelhos o Menino Jesus, o qual deita a benção com a mão direita e na esquerda tem um livro ou o globo terraqueo.
Já muitas vezes no XIII seculo, e mais tarde quasi sempre, Nossa Senhora está de pé e com o Menino Jesus no braço esquerdo. Durante a primeira parte do periodo ogival, a sua posição é mais ou menos curvada.
Em quanto aos caracteres que apresentam as imagens de Nossa Senhora assentada ou de pé nos differentes monumentos do periodo ogival, pódem-se resumir nos termos seguintes. Nunca o grupo de Nossa Senhora com o Menino Jesus foi mais ideal que no XIII seculo; mal se approxima o XIV seculo, descuida a sua bella composição poetica para adoptar a realidade primeiramente e depois descahir na vulgaridade até á rudeza.
No fim do XII e no principio do XIII seculo, póde-se dizer que Nossa Senhora não apparece já com o Menino Jesus: esta representação seria muito vulgar e Nossa Senhora assemelhar-se-hia a qualquer mãe que tivesse o seu filho ao collo; mas então a Santa imagem o tem junto de si. O Menino Jesus traz o globo do mundo na mão esquerda e deita a benção com a mão direita; além d'isso está completamente vestido, é já crescido, posto que ainda menino; é o Deus-Homem, mais depressa que Homem-Deus. No fim do XIII seculo, Nossa Senhora principia a ser mais do que a guarda de seu Filho como fazem todas as mães mortaes! Jesus está ainda vestido, abençôa trazendo um livro ou um globo; porém o vestuario é menos largo e mais curto, o livro menos volumoso, o globo mais pequeno.
Scenas tiradas da vida de Nossa Senhora. Mencionaremos as tres principaes:
A Annunciação é quasi sempre representada da mesma maneira. Nossa Senhora está de joelhos sobre um genuflexorio no momento em que apparece o Anjo. Entre a imagem e o Anjo está um vaso com a flôr de liz aberta. Muitas vezes S. Gabriel tem n'uma haste esta flôr ou um sceptro; por vezes traz na mão uma bandeirola com a inscripção: Ave Maria. Um raio luminoso cae sobre a cabeça de Nossa Senhora, ou então, o Espirito Santo, sob a fórma d'uma pomba, descança sobre a imagem da Virgem Maria.
A morte de Nossa Senhora é quasi sempre representada da maneira seguinte: Nossa Senhora está deitada sobre um leito rodeada pelo seu Divino Filho e pelos apostolos. Jesus traz no braço a alma de Nossa Senhora, representada por uma creancinha. Os apostolos trazem muitas vezes um livro com figura iconographica.
A coroação de Nossa Senhora faz-se umas vezes por Jesus só, outras por tres pessoas da Santissima Trindade; outras ainda vê-se Nossa Senhora com a corôa na cabeça, sentada sobre o mesmo throno em que está o seu Divino Filho, o qual se lhe abraça ao peito.
Deixariamos incompleta a historia iconographica de Nossa Senhora, não mencionando aqui a Arvore de Jessé, que se vê tantas vezes desde o XII seculo. Jessé adormecido serve de alguma maneira de raiz ao tronco mysterioso, o qual sáe quer do seu peito, quer de sua bocca, quer do seu cerebro. Os ramos d'este tronco separando-se, trazem na extremidade um dos antepassados do Redemptor; no cimo, uma flôr desabrocha e serve de apoio a Nossa Senhora, algumas vezes só, outras tendo nos braços o seu Divino Filho. As mais das vezes a arvore de Jessé complica-se, entre cada ramo está collocado um propheta com um phylateria mostrando a prophecia de que é auctor, e que se refere á vínda de Jesus Christo. Olhando para a extremidade d'esta arvore, mostra com o dedo onde deve repousar o Espirito Santo. No Oriente, não se limitam unicamente a intercalar os prophetas no meio dos ramos, ajuntam-lhe o divino Balaam, e os sabios da Grecia com as suas maximas. O XV e XVI seculos produziram um grande numero de arvores de Jessé.
Os Apostolos e os Evangelistas.—Apostolos. Jesus Christo escolheu doze apostolos á frente dos quaes collocou S. Pedro. Depois da morte do Redemptor, o traidor Judas ficou substituido por S. Mathias. Além d'estes doze apostolos, que constituem a congregação apostolica assim chamada, deu-se tambem o nome de apostolos a alguns outros santos que haviam tomado uma parte activa e vasta na fundação da Egreja christã. Tal foi S. Paulo, convertido milagrosamente no caminho de Damasco, elle o grande promotor da conversão dos pagãos e appellidado, por esta razão, o apostolo dos gentios; taes foram ainda S. Barnabé, S. Lucas e S. Marcos, unicos discipulos, os quaes pelas suas prédicas, e, os dois ultimos tambem, pelos Evangelhos que compozeram, poderosamente contribuiram para a propagação da doutrina de Christo.
Como S. Paulo figura quasi sempre entre os apostolos quando se representam reunidos em numero de onze, resulta que se supprime geralmente um; as mais das vezes é S. Mathias, o successor do traidor Judas, algumas vezes tambem S. Judas ou qualquer outro apostolo.
Até ao XIII seculo, os apostolos, á excepção de S. Pedro e S. Paulo, não tinham nenhum attributo caracteristico pelo qual se podessem distinguir uns dos outros. Representavam-se todos de uma maneira uniforme, com um livro ou um rolo de papel na mão. Depois do XIII seculo, ficam geralmente caracterisados pelos instrumentos presumidos do seu martyrio; porém, como o genero do supplicio que soffreram não é muito bem determinado para todos, torna-se por vezes difficil designar com certeza o nome de alguns d'elles: todavia o que os caracterisa ordinariamente é o seguinte:
S. Pedro traz as chaves ou por vezes a Cruz abatida, instrumento do seu supplicio; S. Paulo, a espada com que lhe cortaram a cabeça; S. João, o calix envenenado do qual saiu a morte sob a fórma de um dragão; Santo André, com a Cruz em fórma de X, e que tem o seu nome; S. Jeronymo, a espada, ou as mais vezes, o bordão e o vestido de peregrino guarnecido de conchas; S. Filippe, a cruz com haste comprida; S. Bartholomeu, um grande cutello do qual se serviram para o esfollar, e algumas vezes tambem uma cruz; S. Matheus, um machado, uma espada ou uma lança; S. Simão, uma serra; S. Judas, uma cruz ou um livro; S. Thiago, um bordão; S. Thomaz, uma grande pedra e por vezes ao mesmo tempo uma lança; finalmente S. Marçal, uma picareta ou um alfange.
Evangelistas. Os Evangelistas continuaram a ser representados da mesma maneira que precedentemente, quer seja com a fórma humana, quer seja pelos symbolos dos quatro rios do Paraizo, quer seja por quatro figuras aladas.
Já indicámos o logar respectivo que devem sempre occupar os animaes symbolicos nos quatro angulos de um quadrado ou nas extremidades dos quatro braços da Cruz. Esta regra ficou em vigor durante o periodo ogival.
Scenas diversas. Seria impossivel indicar, mesmo resumidamente, todas as scenas representadas pelos pintores e esculptores christãos da idade média. Mencionaremos sómente as quatro principaes, e que se veem mais vezes.
O Dia de Juizo. Esta scena encontra-se principalmente: 1.º no principio do periodo ogival, esculpida nos tympanos dos portaes principaes das abbadias, cathedraes, egrejas das parochias e mesmo nas capellas; 2.º no fim do mesmo periodo, pintada na nave principal das egrejas por cima do arco triumphal.
Para dar uma ideia exacta da maneira como esta scena é representada nas principaes cathedraes francezas, faremos a descripção do Dia de Juizo, que se vê no portal central da Sé de Paris. Este assumpto é um dos mais bem compostos. A verga da porta está inteiramente occupada por figuras representando diversos misteres saindo dos seus tumulos, despertadas por dois anjos, os quaes, de cada lado, tangem trombeta. Todas estas personagens estão vestidas; ahi está um papa, um rei, guerreiros, mulheres e um preto. Na zona superior, está ao centro um anjo que peza as almas; dois demonios tentam fazer pender um dos pratos para o seu lado. Á direita de Jesus Christo estão os escolhidos, todos vestidos de compridas vestimentas e coroados. Estes escolhidos são representados sem barba, jovens e risonhos, olhando para Jesus. Á esquerda o demonio empurra uma multidão d'almas agrilhoadas vestidas com os fatos do seu mister. As expressões d'estas figuras são indicadas com superior talento: o terror, o desespero assignalam-se nas suas feições. Na parte superior está, ao centro Jesus Christo, representado semi nu, que mostra as suas chagas; dois anjos em pé, á direita e á esquerda, têem os instrumentos da Paixão; depois, estão de joelhos, implorando o Redemptor, Nossa Senhora e S. João. As curvaturas do portal do lado dos condemnados estão occupadas, na parte inferior, por vistas do inferno, e do lado dos escolhidos, por anjos e patriarchas, entre os quaes se vê Abrahão colhendo as almas no seu regaço; depois os escolhidos em grupos. Esta esculptura tão notavel é da era de 1210 a 1215, e estava inteiramente pintada e dourada. Ha a mesma representação nas cathedraes de Chartres, Amiens, Reims e Bordeus.
O inferno é quasi sempre figurado por uma bocca enorme de monstro lançando chammas, no meio das quaes os démos, armados de grandissimos harpeos, abysmam os condemnados. Por vezes tambem é representado o inferno por uma grande caldeira na qual os démos precipitam as almas dos perversos; e, n'este caso, um demonio armado de um folle activa o fogo da caldeira.
A scena de se pezar as almas faz geralmente parte do Juizo final, e é quasi sempre representada da mesma maneira. O archanjo S. Miguel segura a balança: em um dos pratos está uma alma humana figurada por uma creança nua; emquanto ao outro, com o pezo que deve ter a alma do innocente, afim de ser admittido no paraizo, Satanaz procura que elle se incline para o seu lado. Esta scena, cujo fim era evidentemente inculcar aos ignorantes a ideia de dar conta a Deus depois da nossa morte, está representada nas miniaturas dos manuscriptos, e mesmo nas gravuras em madeira que ornam alguns livros impressos no fim do XV e no principio do XVI seculo.
Missa designada de S. Gregorio. Este assumpto encontra-se muitas vezes nos paineis e nas miniaturas do XV seculo. O Santo papa diz a missa, e Jesus Christo apparece-lhe em vida, em pé sobre o altar, e á roda estão os instrumentos da Paixão. Traz os estigmates nos pés e nas mãos, e deixa saír do lado o sangue da chaga.
Alma humana. Quando os artistas da idade média representam uma pessoa moribunda, indicam sempre a alma do justo que acaba de saír do corpo, por uma creancinha nua trazida nos braços de Nosso Senhor.
Sibyllas. A representação dos prophetas tem-se ás vezes ajuntado ás sibyllas, que se reputa haverem predito o nascimento, a vida, a morte, e a resurreição de Jesus Christo. No XIII seculo, começou-se a fazer figurar em alguns monumentos, principalmente a sibylla do Dies irae.
As doze sibyllas são: 1.ª A Sibylla da Persia, percicae, que tem na mão uma lanterna, porque ella annunciou a vinda do Messias; bastantes vezes o sol brilha por cima da sua cabeça. 2.ª A de Libya, libicae, que tem um brandão acceso e prediz o Redemptor como a luz do mundo. 3.ª A de Delphos, delphicae, que tem na mão uma corôa de espinhos, porque prophetisou as mortificações de Jesus Christo. 4.ª A do Mar Vermelho ou de Erythrea, erythracae, uma das mais celebres, que havia predito a ruina de Troyes; era a prophetisa das vinganças divinas; traz uma espada nua. 5.ª A de Cumas, cumana, egualmente muito citada, tem um presepio, porque annunciou o nascimento de Christo em uma manjadoura. 6.ª A de Samos, samia, traz uma corôa de espinhos como a de Delphos, e um caniço, porque prophetisou a Paixão. 7.ª A Cimmerianna, cimmeria, prophetisou a crucificação, e por esta razão traz uma cruz da paixão. 8.ª A de Tivoli, tiburtina, tem na mão uma vara, por haver annunciado a flagellação do Redemptor. 9.ª A de Phrygia, phrygia, traz uma cruz de resurreição, no cimo da qual fluctuam tres bandeirolas encarnadas. 10.ª A de Hellesponto, hellespontica, tem por attributo uma rozeira florida, ou então uma cruz, porque annunciou algumas circumstancias da Paixão. 11.ª A Europa, europaea, tem u, tem um alfange, porque predisse a degolação dos innocentes. 12.ª Finalmente, a Sibylla Agrippa tem a vara como a de Tivoli.