Resumo elementar de archeologia christã

Joaquim Possidónio Narciso da Silva · Capítulo 36 de 53

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Resumo elementar de archeologia christã

Capellas funereas, tumulos, campas, lanternas dos defunctos e cruz de cemiterio

Confessionarios. Os confessionarios em que o confessor fica separado do penitente por uma rotula, foram desconhecidos durante o periodo ogival. N'essa epocha, o confessor collocava-se, para ouvir as confissões, em uma poltrona ou nas cadeiras do côro, e o penitente ajoelhava deante d'elle. A recordação d'esta maneira de se confessar foi conservada nas miniaturas, paineis e gravuras do XV seculo.

Foi proximo do final do XVI seculo que os confessionarios com rotula foram introduzidos na Belgica.

 

Capellas funereas, tumulos, campas,

lanternas dos defunctos e cruz de cemiterio

 

Capellas funereas. Estas capellas funereas eram construidas isoladas nos cemiterios durante o periodo ogival. São raras em quasi todos os paizes. Não ha nenhuma na Belgica nem em Inglaterra. Em França vêem-se algumas nos cemiterios bretões, e existe uma muito notavel, do XV seculo, em Avioth nas Ardennes francezas. É na Austria que são mais communs.

Tumulos apparentes. O uso de encerrar os cadaveres nos sarcophagos e pôl-os sobre o solo ficou completamente abandonado no norte da Europa desde o XIII seculo.

Na Inglaterra, Belgica, Allemanha, e nas provincias septentrionaes da França, os tumulos apparentes do periodo ogival são cenotaphios, consistindo em socos de cantaria com massiços de alvenaria postos sobre uma sepultura subterranea, tendo a effigie do finado. Compõem-se geralmente, como no XIII seculo, de um sóco ou macisso coberto de uma grande lousa, sobre a qual está deitada a estatua do defuncto. Este estendido sobre uma cama ricamente disposta, apresentando todas as insignias de sua dígnidade: os bispos e os abbades trazendo mitra e baculo; os reis e principes, a corôa e o sceptro; os cavalleiros, o seu escudo e a sua armadura. Os pés dos bispos e dos ecclesiasticos, e em certos paizes tambem dos seculares, apoiam-se contra um dragão ou um monstro phantastico; os dos clericaes, principes e nobres, contra um leão, symbolo de coragem, e mesmo, ás vezes, como para as damas tendo os pés sobre um rafeiro, emblema da fidelidade conjugal. Pequenas figuras de anjos agitam thuribulos, sustentando tochas ou almofadas em que descança a cabeça do personagem. Depois do XIII seculo, os anjos com thuribulos tornaram-se raros. Durante muito tempo, a effigie do finado não apresenta nenhum dos caracteres da morte.

No XIII seculo e ainda no principio do XIV seculo, as estatuas deitadas têem os olhos abertos e reproduzem os gestos e as attitudes dos personagens vivos. Sómente depois do XIV seculo o defuncto principia a ser representado morto ou adormecido, com os olhos fechados.

Muitas vezes, columnatas reunidas por arcaduras são dispostas em roda do sóco, no qual estão assentes; algumas vezes, mas, raramente, as arcaduras são vasadas, e a estatua deitada do finado occupa o logar do sóco supprimido.

Os cenotaphios do periodo ogival são geralmente de pedra, poucas vezes de cobre ou de outro metal. Os tumulos de pedra têem quasi um metro de altura, em quanto que os sepulchros de metal, que se conservam até ao presente têem apenas 50 centimetros acima do solo; todavia o unico de metal que possue a Sé de Braga tem maior altura.

Para evitar o estorvo nas egrejas, não se permittia, salvo raras vezes, erguer-se um cenotaphio. Na capella-mór admittia-se o tumulo do fundador ou de um bemfeitor distincto, collocando os dos outros personagens de distincção nas capellas que cercam os lados do côro e da nave principal. Estes monumentos apresentavam muitas vezes uma decoração de pinturas e dourados. Alguns ficavam encostados á parede e dentro de um grande nicho sob fórma de arcadura ogival; outros, e era o maior numero, ficavam separados em todos os seus lados.

As campas com gravuras a traço tornaram-se vulgares desde o XIV seculo. Muitas têem sido conservadas até ao presente, não obstante o grande numero de causas de destruição, ás quaes têem ficado expostas desde seis seculos. A maior parte estão ornadas de imagens do finado, debaixo de arcaduras trilobadas do feitio de docel, muito simples e sustentado por columnatas. Quasi sempre vê-se uma mão deitando a benção, symbolo de Deus, sahida do cimo da ogiva; e anjos agitando thuribulos occupam os seguintes da arcadura. Sobre as campas dos bispos, dos abbades e dos padres, vê-se tambem, algumas vezes, aos dois lados do personagem, clerigos, ou anjos de pequeno tamanho, segurando em velas accesas.

Muito antes do XIII seculo, as campas têem, bastantes vezes ainda, como durante o periodo roman, a forma de um trapezio, isto é, são mais estreitas do lado dos pés. A inscripção que quasi sempre têem, forma geralmente o contorno exterior da pedra, menos geral do que o emmoldurado de ogiva; principia por uma cruz a inscripção e quasi no fim do XIII seculo, ajuntam já por vezes, aos quatro angulos, os emblemas dos evangelistas collocados nos quadrilobos.

As campas dos tumulos do XIII seculo que não têem um emblema, um symbolo ou um escudo com armarias, são bastante raras na Belgica.

Sobre as campas do XIV seculo, a effigie do finado continua a ser collocada debaixo de uma arcadura, poucas vezes trilobada, porém não durante os primeiros annos. Sómente esta arcadura é muito mais carregada de detalhes architectonicos do que precedentemente, taes como ridentes, crochetes, florões, pinaculos e rosaes; além d'isso, as arcaduras principiam a não ser sustentadas por columnatas com base e capitel, mas sim por pés-direitos do feitio de contra-fortes ornados de pinaculos e nichos, nos quaes se vêem pequenas figuras de homens.

Quando uma unica campa cobre uma sepultura dupla ou tripla, as arcaduras estão reunidas no numero de duas ou tres, e contéem, cada uma, sua effigie. O leão, o cão e os outros symbolos, que acompanham quasi sempre as estatuas deitadas dos cenotaphos, se vêem tambem sobre as campas do XIV seculo. Estas são geralmente de fórma rectangular, e não têem o feitio de um trapezio. Os anjos incensadores e ceroferários não se vêem excepcionalmente a começar do XVI seculo.

As arcaduras e o contorno com curvas em rampa que formam o remate caracteristico dos moldurados do XIV e XV seculos, são regularmente substituidos no XV seculo por docéis, representados em perspectiva e muitas vezes compostos de ogivas inflexas com desenhos complicados; os pinaculos, os nichos, as rosaceas flammejantes se multiplicam sobre todo o moldurado; além d'isso, os arcos-butantes apparecem para ligar os docéis aos contrafortes.

Será bom notar que os moldurados das campas do XIV e do XV seculos apresentam a maior similhança com as decorações do mesmo genero que se vêem nas vidraças pintadas contemporaneas.

Como no XIII seculo, a inscripção apparece no XIV e no XV seculos sobre a borda da campa e está inscripta entre duas linhas parallelas. Nos angulos formados pela intersecção d'essas quatro linhas se vêem quadrilobos com os emblemas dos evangelistas, ou tambem algumas vezes, desde o começo do meiado do XIV seculo, as armarias; acontece mesmo que a inscripção está, além d'isso, interrompida pelo escudo da armaria sobre os seus lados mais compridos.

Já explicámos que, quando são applicados para ornar os quatro angulos de um quadrado ou de um rectangulo, os symbolos dos evangelistas põem-se, pelo menos, até ao XIII seculo, da maneira seguinte: o homem alado no angulo superior á esquerda do espectador; a aguia á direita, o leão no angulo inferior á esquerda e o novilho á direita. No XIV seculo, houve uma mudança; desde esta epocha, vê-se quasi geralmente a aguia no angulo superior esquerdo, e o homem alado no angulo superior direito. É ali tambem o logar que estes symbolos occupam sobre as campas.

Os caracteres das campas que acabamos de indicar por cada seculo do periodo ogival, não são de tal maneira proprios como os que são mais proximos da epocha indicada. Pelo contrario, acontece muitas vezes, principalmente na Belgica, que as campas do XV seculo apresentam ainda, por assim dizer, os caracteres que não se está acostumado a encontrar n'outra parte nas campas do seculo precedente. Não é raro tambem achar campas do XIII, XIV e XV seculos, nas quaes o ornamento architectural seja moderado de detalhes, ou inteiramente os supprimiram.

Em França quasi sempre e algumas vezes na Belgica, as carnes, em vez de serem imitadas a traço, são represeutadas por embutidos de marmore ou de metal.

Tumulos chatos de cobre. Durante o periodo ogival, introduziu-se o uso do cobre ou de laminas de latão sobre as quaes as linhas do desenho são feitas a traços gravados bastante fundos, estando cheios com uma substancia rezinosa de côr preta e de tom mate. Essas largas linhas pretas se destacam perfeitamente sobre a superficie brilhante do metal brunido ou adamascado, até mesmo dourado, cujo reflexo luzidio é muitas vezes realçado pela armaria colorida em esmalte da composição da campa, a qual fica solidamente fixa na grossura do cobre. Devido a estas qualidades, os tumulos lizos em cobre contribuiam admiravelmente, assim como o pavimento e as vidraças pintadas, para a decoração das egrejas. É na Inglaterra e Flandres que têem sido mais communs durante toda a idade media.

Os tumulos chatos de cobre podem dividir-se em duas classes. A primeira, de maior numero, comprehende as laminas de cantaria, quer de marmore ou de gres, nas quaes a figura do finado fica recortada em silhoeta na lamina de metal, assim como differentes ornatos; as armarias, emblemas, inscripções em feitio de fita, gravadas sobre tantas peças distinctas, ficam embutidas e arrebitadas separadamente nos entalhes correspondentes da pedra, designados casements pelos auctores inglezes. A segunda classe parece ter sido menos numerosa, porém contém especimens mais bellos e preciosos. Acham-se comprehendidos n'ella os monumentos que apparecem debaixo do aspecto de grandes placas de cobre, d'uma só peça, mas que, na realidade, são muitas vezes compostas de muitas laminas ajustadas, das quaes com grande habilidade ficam disfarçadas as juntas na profundura dos traços. A figura do finado, geralmente de grandeza do natural, representa-se de pé ou deitada.

Os tumulos de latão consistem em grandes laminas soltas, não destinadas a ser embutidas nas laminas de pedra, e que formam por si um todo completo; foram communs na Belgica durante todo o periodo ogival; o seu uso continuou, em certos sitios, até o XVII seculo. Na Allemanha e igualmente no Norte da França tiveram acceitação. Sobre as laminas, não sómente a figura do finado, como tambem os accessorios symbolicos e de decoração que lhe servem, foram executadas da mesma maneira que sobre as pedras das campas gravadas. Todavia, a composição do assumpto é regularmente mais superior, e a execução mais esmerada que das outras; os mais insignificantes detalhes do vestuario, os docéis do remate, as pequenas figuras dos anjos e dos santos que os ornam muitas vezes assim como os pés-direitos, todas as partes, em uma palavra, são feitas com fidelidade, com arte e com delicadeza. Além d'isso, o fundo sobre o qual se destaca a effigie do finado, em logar de ser lizo e sem ornato, como sobre as pedras das campas gravadas, é regularmente adamascado, isto é, coberto de ornatos differentes imitando os desenhos que apresentam certos estofos orientaes; esses desenhos assemelham-se aos que se vêem á roda dos personagens nas vidraças pintadas do XIV seculo. São compostos de folhas do trevo, de quatro folhas, folhagens, côres matizadas, figuras de animaes, gritos de guerra, ou com divisas muitas vezes repetidas. Parece mesmo por vezes no XV e no XVI seculo, que os detalhes architectonicos desapparecem completamente para dar logar aos fundos adamascados. Finalmente, uma particularidade que apresentam ainda as laminas de cobre funereas do XV e do XVI seculo, vem a ser que as phylactéres se veem muito mais frequentemente que sobre as pedras das campas. Chama-se phylactéres a bandeirolas compridas e estreitas, saindo da boca das personagens ou estão seguras nas suas mãos, e sobre as quaes está inscripta uma oração, uma divisa ou uma sentença.

Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI seculo. Além dos cénotaphos, das campas e dos tumulos chatos de latão, erigiam-se tambem, nos XV e XVI seculos, pequenos monumentos funereos de pedra ou latão, encaixados na face da parede proxima do logar da sepultara. Estes monumentos curiosos encontram-se, não só no interior das egrejas, mas tambem nos claustros das cathedraes, collegiaes e mosteiros. Compõe-se regularmente d'um epitaphio, por cima do qual se vê um assumpto religioso, por exemplo, a SS. Trindade, a flagellação, a crucificação ou qualquer scena da Paixão. Muitas vezes tambem se vê Nossa Senhora com o Menino Jesus. O finado está regularmente representado ao lado da scena principal, de joelhos em oração e por vezes acompanhado do santo da sua devoção, o qual fica em pé por detraz d'elle e parece recommendal-o á clemencia Divina; sobre a bandeirola saindo da boca na direcção da scena principal, lêem-se frequentemente as palavras que é natural dirigir a Deus ou aos santos, por exemplo: Qui potes, oro, rei, Christe, mementa mei, e O mater Dei, memento mei.

A scena religiosa está esculpida em relevo ou gravada a traço. Quando feita em alto relevo, vê-se quasi sempre em um nicho ogival, aberto na grossura da parede, e o epitaphio inscripto na parte inferior do nicho, sobre uma pequena chapa de latão, de marmore ou de pedra.

Nos baixos relevos e nas pedras gravadas a traço, o assumpto e o epitaphio são geralmente collocados sobre uma unica pedra; ora n'uma, ora n'outra occupa a maior parte. A scena é coberta por um docél servindo de remate; algumas vezes, comtudo este docel não apparece.

Não obstante as mutilaçõ Não obstante as mutilações lamentaveis que lhe causaram os iconoclastas, estes monumentos merecem chamar a attenção, não sómente dos archeologos, mas tambem dos artistas e sobretudo dos esculptores.

Serviram-se tambem de monumentos similhantes para perpetuar a fundação praticada por generosos bemfeitores. Na parte superior d'uma pedra ou de uma placa de latão, vê-se uma scena religiosa, diante da qual está de joelhos o fundador muitas vezes acompanhado do santo da sua devoção. Uma inscripção commemorativa da fundação substitue o epitaphio, o qual nos monumentos funereos se vê por baixo da scena. Algumas vezes sómente apparece uma simples inscripção gravada sobre uma pedra ou lamina de cobre.

Lanternas dos defunctos. Dá-se o nome de lanternas dos defunctos e pharol de cemiterio, a columnas ou pyramides ôcas que se collocavam n'outro tempo nos cemiterios. Este pequeno monumento tinha no cimo um pavilhão vasado, no qual se suspendia de noite uma lampada accesa com o fim de lembrar aos caminhantes que orassem pelos defunctos e para lhes indicar a presença da casa de Deus.

Cruz de cemiterio. Erguiam tambem, nos cemiterios, grandes cruzes de pedra durante o periodo Roman, ajuntavam-lhe, poucas vezes, a imagem de Christo; porém do começo do XIII seculo, essa imagem vê-se quasi sempre acompanhada de Nossa Senhora e do Menino Jesus, postos no revesso da cruz, ou encostados á columna que serve para a sustentar. Outras vezes, e isso é mais seguido, a cruz fica entre a imagem de Nossa Senhora sem o Menino e a de S. João. As hastes que forma a columna ou o pilar sobre os quaes está assente a cruz, são geralmente postas sobre um sóco mais ou menos alto, tendo na sua base um pequeno altar.