Resumo elementar de archeologia christã
Capitulo V
Summario.—Noções preliminares—Diversas fórmas de ogiva—Origem da ogiva e do estylo ogival—Periodo de transição do estylo Roman ao estylo Ogival— Caracteres d'Architectura Ogival—Observações geraes—Plano e disposição das egrejas—Systema de construcção—Materiaes e apparelhos de construcção— Esculptura monumental—Fachadas—Adros—Portaes—Pinturas—Janellas—
Rosaes—Caixilhos de janellas e vidros—Vidraças pintadas—Pilares, columnas e columnasinhas—Bases de columnas—Capiteis—Caxorros e misulas—Arcadas e arcaduras—Triforium—Cornijas—Platibandas—Abobadas—Arcos butantes—
Contrafortes—Gargulhas—Nichos e Docel—Madeiramentos—Telhados—Torres e campanarios—Pavimentos—Labyrintho—Pinturas das paredes—Cruzes de consagração—Altares—Tabernaculos—Cadeiras de côro—Separação do Altar-mór—Pulpito e confissonarios—Capellas funereas, tumulos, campas, Cruzes de Cemiterio—Pias Baptismaes—Pias de agua benta—Engradamentos—Orgãos— Alfaias religiosas—Calices e patenas—Custodias—Thuribulos—Relicarios— Corôas para luzes—Cruzes de altar e de procissão—Castiçaes—Estantes— Instrumentos de paz—Moldes para Hostias—Baculos—Mitras—Vestimentas sacerdotaes—Abbadias e Mosteiros—Egrejas—Claustros e Refeitorios—Sala de Capitulo—Dormitorios—Casa para hospedes—Celleiros—Prisão—Cartuxa— Hospitaes—Iconographia—O Nimbo—O Crucificado—Os Apostolos e os Evangelistas—O Dia de Juizo—Sibyllas.
Periodo Ogival
O estylo ogival, tambem chamado gothico, foi usado desde o meiado do XII seculo até ao principio do XIV. Chama-se ogival, porque differe de todos os outros estylos que o precederam, pelo emprego da ogiva. Os allemães chamam-lhe ás vezes—estylo em arco bicudo. As janellas, as arcadas, os vãos das portas, n'uma palavra, todas as aberturas são regularmente terminadas por arcos em fórma de ogiva. Devemos acrescentar que a denominação de Gothico, dada ao estylo da idade media, é uma especie de ironia da época da renascença, pois que o estylo ogival nada tem de commum com os Gôdos. Foi o italiano Vasari quem primeiro empregou este epitheto como synonimo de barbaro!
Diversas fórmas de ogiva. Chama-se ogiva toda a figura formada por dois ou mais arcos de circulo, cortando-se segundo um certo angulo.
Expliquemos, segundo a ordem chronologica, as principaes fórmas da ogiva:
Ogiva obtusa. Chamada tambem Roman, quando termina superiormente em bico, muitas vezes quasi se confunde com o arco de volta inteira. Os dois arcos que a formam, têem os centros muito proximos; algumas vezes mesmo tão perto um do outro que é necessario um attento exame para distinguir o bico pouco sensivel que o distingue do arco de volta inteira.
A ogiva com esta fórma encontra-se muito frequentemente nos edificios do principio do periodo ogival, reapparecendo mais tarde, já no fim do mesmo periodo, nos monumentos dos ultimos annos dos seculos XV e XVI.
Ogiva aguda ou lanceta. É formada por dois arcos cujos centros estão situados além da corda que une as suas duas extremidades inferiores da volta do berço.
Tem o nome de Lanceta pela sua semelhança com o instrumento de cirurgia d'este nome.
Ogiva equilatera. É aquella cujos centros se acham nos dois extremos da corda, e na qual podemos por consequencia inscrever um triangulo equilatero. Tambem se dá a esta ogiva o nome de ogiva traçada de terceiro ponto.
A ogiva alteada é aquella cujos arcos se prolongam inferiormente, sendo formados por dois ramos verticaes e parallelos abaixo da linha dos centros. Encontra-se muitas vezes no fundo do côro das grandes egrejas.
As tres fórmas de ogiva acima descriptas empregaram-se durante os seculos XII e XIII.
A ogiva de terceiro ponto é a que tem os centros dos arcos situados no terceiro ponto da linha dos centros ou corda, e está dividida em tres partes eguaes. Chama-se effectivamente ogiva de terceiro ponto, por isso que se colloca a ponta do compasso no terceiro dos pontos de divisão da corda.
É para notar que muitos auctores, aliás muito recommendaveis, não mencionam a ogiva formada por arcos cujo centro se encontra a um terço da corda; a razão d'isto é porque consideram a ogiva equilateral como de terceiro ponto.
Esta ogiva começou a apparecer no fim do XIII seculo e generalisou-se bastante nos seculos XIV e XV.
A ogiva inflexa descreve-se por meio de raios partindo de quatro pontos e produzindo duas curvas junto á corda e duas outras curvas em sentido inverso no vertice.
O extradorso d'esta ogiva bem como o da fórma seguinte é convexo na parte inferior e concavo na superior.
A ogiva em fórma de chaveta apenas differe da precedente por ser mais achatada.
Estas duas ultimas fórmas usaram-se durante os XV e XVI seculos.
A ogiva inflexa serve muitas vezes de coroamento a um arco de terceiro ponto, durante a primeira metade do seculo XV, ou em chaveta, durante a segunda metade do seculo XV e principio do XVI.
A ogiva formada meia convexa e meia concava é traçada como a ogiva em chaveta, com raios que partem de quatro centros differentes, mas inversamente; o extradorso do arco é concavo inferiormente e convexo no vertice. Encontra-se esta ogiva, ainda que raras vezes, em alguns monumentos dos seculos XV e XVI.
O arco Tudor, assim chamado, porque tomou o nome dos reis, que estavam no throno de Inglaterra na epoca em que o seu uso se generalisou n'este paiz; é formado por quatro arcos cujos centros se acham todos dentro do espaço da ogiva. Ha uma fórma mais aguda, que é a que se vê em monumentos inglezes de uma grande parte do seculo XV; a outra forma mais abatida só foi empregada no fim do XV seculo, e no principio do XVI. Os inglezes chamam á primeira, arco de quatro centros, e á segunda arco abatido. Ha ainda muitas fórmas intermediarias entre estes dois extremos.
Origem da ogiva e do estylo ogival. Os archeologos não concordam uns com outros sobre a origem da ogiva. A opinião que parece mais provavel, attendendo a que os monumentos do Oriente exerceram certa influencia sobre a introducção da ogiva na architectura da Europa no meiado do XII seculo, considera como um producto do genio Occidental a applicação logica e systematica da ogiva nas construcções executadas no Occidente desde essa epoca. A ogiva appareceu na Europa poucos annos depois da primeira cruzada.
É possivel que esta forma architectonica fosse como outras muitas cousas, introduzida no Occidente pelos cavalleiros cruzados, quando regressaram das suas longiquas expedições. Empregada a ogiva no principio como pura phantasia e como um novo modo de ornamentação, quer para formar os vãos das portas e janellas, quer para decorar as arcadas, as paredes lisas e por baixo das cornijas, tornou-se mais tarde o ponto de partida para o bello estylo da architectura cujo nome se ligou ao XIII seculo e cujo desenvolvimento methodico pertence exclusivamente á Europa Occidental.
Este estylo rapidamente attingiu um subido gráo de perfeição, devido ás numerosas egrejas parochiaes, collegiaes, monasticas e cathedraes, que foram fundadas, construidas ou reconstruidas e augmentadas nos seculos XIII e XIV.