Ruy o escudeiro: Conto

Luís da Silva Mousinho de Albuquerque · Capítulo 10 de 20

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Ruy o escudeiro: Conto

Romeiro.

Onde existe?...... O atrevimento

Quem te deu de pergunta-lo

Venha de sangue sedento

Em proprio, e armado indaga-lo;

Que á face do firmamento

Eu juro que hei de ensina-lo

A não juntar a ousadia

Á mais baixa covardia!

ROMEIRO.

Por Christo! não te enfureças

Escudeiro generoso,

P'ra que a verdade conheças

Traz-me acaso venturoso.

As apparencias são essas,

Mas em caso duvidoso

Quem a apparencias se afferra

Muitas vezes troca e erra.

Attenta no que te digo

Que quem partiu me dictou:

--Tu me salvaste de um p'rigo

A que o padre me guiou,

Fujo-te, o padre é quem sigo,

Foi elle quem te espiou,

Quem te seguiu á espessura

Da noute na sombra escura.

Mal par'o buscar te apartaste

O Padre me appareceu,

Tu enganado ficaste

Só elle o engano teceu;

Mas se acaso te agastaste

Com este proceder meu

Sabe que maior desgraça

Do que a tua em mim se passa.

Essa, que p'ra sempre grata

Te prometteu jurou ser,

Bem longe de ser ingrata,

Vai muito além do dever;

Amor a consume, e a mata,

E se t'o ousa dizer

É com a esperança perdida

De mais t'o dizer na vida.

Distancia, muralha armada

E das seitas o rancôr

Com barreira triplicada

Circumdam a sua dôr:

De saudades definhada

Triste victima de amor

Será de Fatima a sorte

Suspirar até á morte.--

Assim carpindo a formosa

Ouvi, que nunca enganou,

Essa cuja voz piedosa

Liberdade me alcançou,

Ouvi-lhe a queixa afanosa

Que puro amor lhe arrancou.

Ah! possa Deus por ti mandar-lhe um dia

A paz no ceo, na terra a alegria.»--