Ruy o escudeiro: Conto
Romeiro.
Onde existe?...... O atrevimento
Quem te deu de pergunta-lo
Venha de sangue sedento
Em proprio, e armado indaga-lo;
Que á face do firmamento
Eu juro que hei de ensina-lo
A não juntar a ousadia
Á mais baixa covardia!
ROMEIRO.
Por Christo! não te enfureças
Escudeiro generoso,
P'ra que a verdade conheças
Traz-me acaso venturoso.
As apparencias são essas,
Mas em caso duvidoso
Quem a apparencias se afferra
Muitas vezes troca e erra.
Attenta no que te digo
Que quem partiu me dictou:
--Tu me salvaste de um p'rigo
A que o padre me guiou,
Fujo-te, o padre é quem sigo,
Foi elle quem te espiou,
Quem te seguiu á espessura
Da noute na sombra escura.
Mal par'o buscar te apartaste
O Padre me appareceu,
Tu enganado ficaste
Só elle o engano teceu;
Mas se acaso te agastaste
Com este proceder meu
Sabe que maior desgraça
Do que a tua em mim se passa.
Essa, que p'ra sempre grata
Te prometteu jurou ser,
Bem longe de ser ingrata,
Vai muito além do dever;
Amor a consume, e a mata,
E se t'o ousa dizer
É com a esperança perdida
De mais t'o dizer na vida.
Distancia, muralha armada
E das seitas o rancôr
Com barreira triplicada
Circumdam a sua dôr:
De saudades definhada
Triste victima de amor
Será de Fatima a sorte
Suspirar até á morte.--
Assim carpindo a formosa
Ouvi, que nunca enganou,
Essa cuja voz piedosa
Liberdade me alcançou,
Ouvi-lhe a queixa afanosa
Que puro amor lhe arrancou.
Ah! possa Deus por ti mandar-lhe um dia
A paz no ceo, na terra a alegria.»--