Ruy o escudeiro: Conto

Luís da Silva Mousinho de Albuquerque · Capítulo 16 de 20

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Ruy o escudeiro: Conto

Fatima.

«Esse fantasma horrivel, despiedado

«Contra mim acintoso, e conjurado:

«Dês que, do odio seu fructo execrando,

«Te vi ante meus olhos submergida,

«Em vão nas fundas aguas procurando,

«Louco de magoa e dôr, salvar-te a vida,

«Que o barbaro fantasma, oh crime infando! «Com mais que humana força e desmedida «De ti me arrebatou; que Anjo divino

«Protegeu, doce amada, o teu destino?...

«Indelevel lembrança! Instante horrivel

«Em que, de quanto amava separado

«Pelo monstro a meus rogos insensivel,

«Na solitaria margem fui deixado!

«Por toda a parte em meu furor terrivel

«Em vão o procurei desesperado,

«Riu-se o fado de mim, e até est'hora

«Roubou-o á minha sanha vingadora.

«Mas se elle existe acaso entre os viventes, «Se um fantasma não é, parto do averno, «Que a perseguir meus passos innocentes «A ira suscitou do negro inferno;

«Por essas magoas juro tão pungentes

«Que hei soffrido, por meu amor eterno,

«Que saciando n'elle a minha furia,

«Heide lavar a tua, e minha injuria.

 

FATIMA.

«Ah suspende! mais não digas!

«Sim suspende, oh bem amado,

«Illudido, alucinado,

«Taes blasfemias não prosigas!