Ruy o escudeiro: Conto
Fatima.
«Esse fantasma horrivel, despiedado
«Contra mim acintoso, e conjurado:
«Dês que, do odio seu fructo execrando,
«Te vi ante meus olhos submergida,
«Em vão nas fundas aguas procurando,
«Louco de magoa e dôr, salvar-te a vida,
«Que o barbaro fantasma, oh crime infando! «Com mais que humana força e desmedida «De ti me arrebatou; que Anjo divino
«Protegeu, doce amada, o teu destino?...
«Indelevel lembrança! Instante horrivel
«Em que, de quanto amava separado
«Pelo monstro a meus rogos insensivel,
«Na solitaria margem fui deixado!
«Por toda a parte em meu furor terrivel
«Em vão o procurei desesperado,
«Riu-se o fado de mim, e até est'hora
«Roubou-o á minha sanha vingadora.
«Mas se elle existe acaso entre os viventes, «Se um fantasma não é, parto do averno, «Que a perseguir meus passos innocentes «A ira suscitou do negro inferno;
«Por essas magoas juro tão pungentes
«Que hei soffrido, por meu amor eterno,
«Que saciando n'elle a minha furia,
«Heide lavar a tua, e minha injuria.
FATIMA.
«Ah suspende! mais não digas!
«Sim suspende, oh bem amado,
«Illudido, alucinado,
«Taes blasfemias não prosigas!