Ruy o escudeiro: Conto
Ruy.
«Esse, que acusas de morte
«Só nas aguas me salvou,
«Só elle me confortou
«Na tyranna, adversa sorte.
«Se ainda conservo a vida,
«Se inda me estás contemplando,
«Ao Ancião venerando
«Minha existencia é devida.
RUY.
«Como?... Aquelle que arrancar-te
«Ousou a meu peito amante,
«Que em magoa e dôr incessante
«Me fez continuo chorar-te,
«Da tua lei o inimigo,
«Da tua raça execrado,
«Pôde aliviar teu fado,
«Protector para comtigo!....
FATIMA.
«Prodigios o ceo clemente,
«Que meus olhos desvendou,
«Por esse mesmo operou,
«Que blasfemas imprudente!
«Desde o momento horroroso,
«Em que de ti separada,
«De quanto amava affastada
«Fui no caso lastimoso.
«A taça da desventura
«Misera esgotar devia, «Nem já o pranto, allivio aos desgraçados, «Os olhos meus vertiam,
«Trazendo-me cada dia
«Nova dôr, nova amargura.
«Mal de Cintra o alto muro
«Me recebeu malfadada,
«Foi minha alma transpassada
«Dos golpes pelo mais duro.
«Soube que o Padre querido
«Tão digno do meu amor,
«Ao despeito, á magoa, á dôr
«Tinha infeliz succumbido.
«Inda bem me não feria
«Este golpe acerbo, amaro,
«Que do meu unico amparo
«Se apagára a luz do dia;
«De Hauzeri o irmão restante
«Que affavel me agazalhára,
«Que por filha me adoptára
«Viu chegado o ultimo instante.
«Solitaria, abandonada,
«Sem amigos, sem parentes,
«De amor nas chammas ardentes
«Por mór tormento abrazada,
«Ignorando se vivia
«O só ser que ainda amava,
«Se o jurado amor guardava,
«Se em outras chammas ardia,
«Succumbi, em vão luctando
«Contra tanta desventura,
«E aos golpes da sorte dura
«Senti a força expirando:
«Nem já ais, nem suspiros, que exhalados «As penas alliviam,
«Soltar podia. Opressos, suffocados
«Minha alma consumiam
«Em silencio os tormentos, morta a esperança «De poder minha sorte ter mudança.
«Uma noute em que só de horror cercada «Ao pezo de meus males succumbia
«De pura luz me vejo rodeada
«Igual á que no ceo precede o dia.
«De espanto e de terror sobresaltada,
«Quando convulso o corpo meu tremia,
«No centro do clarão o proprio vejo
«Que ás aguas me arrancára lá no Téjo.
«Era o mesmo; porém mais magestoso
«Ora de mim se vinha aproximando;
«Qual um astro celeste e radioso
«Brilhava o seu semblante venerando,
«Um aroma suave e precioso
«Estavam suas vestes exhalando,
«Na mão tinha uma Cruz resplandecente
«Co'a imagem do seu Deus n'ella pendente.
«Co'a voz a um tempo grave, meiga, e branda, «Com aspecto sereno, e enternecido,
«Disse: Victima triste e miseranda
«Até agora de um fado endurecido,
«Um Deus Clemente, oh filha, a ti me manda; «Um Deus, a quem um ai, um só gemido
«De verdadeira dôr, de penitencia
«Move com os peccadores á clemencia.
«Surge da magoa horrivel que te oprime,
«Cobra força, renasça o teu alento, «Pela esperança do dom alto e sublime
«Com que o ceo quer sarar teu soffrimento. «Fructo innocente de expiado crime
«Serás da pena qual da culpa isento,
«Em ti meu sangue não será contado
«Entre aquelle, que o ceo tem rejeitado!
«Uma filha, ai de mim! eu tive outr'ora,
«Como tu a formára a natureza;
«Tinha ella então, como tu tens agora,
«Esse dote funesto da belleza.
«Uma chamma tyranna, abrazadora
«Illudiu da sua alma a singelleza,
«Ligou-a o nó de amor, e da desgraça
«Ao inimigo audaz da propria raça.
«Aos braços de Hauzeri, de amor levada, «Funesto effeito das paixões ardentes,
«Cuidando ser feliz, foi desgraçada
«Victima das angustias mais pungentes.
«O Deus, o Pai, a Patria abandonada
«Á misera continuo são presentes,
«O roedor remorso, a magoa dura
«Lhe foram escavando a sepultura.
«Chegado da infeliz o ultimo instante,
«Odios, malquerenças, queixas expiraram, «Paterno pranto, com o do esposa amante «Da morte o leito unidos lhe regaram.
«Resignados os olhos seus brilhantes
«Pela ultima vez aos ceos se alçaram,
«Um suspiro exhalou, cuja piedade
«As iras aplacou da Divindade.
«Fructo infeliz de amor, e de fraqueza
«Junto à Mãi expirante tu jazias,
«Por ti fallava ainda a natureza,
«Tu só na terra a alma lhe prendias. «Tomou-te entre seus braços com viveza, «Tu que a trama cortáras de seus dias,
«E com a voz, cortada já da morte,
«Assim fallou ao Padre e ao Consorte.
«Padre, se ingrata filha, angustia e dores, «Por premio a teu amor só sube dar-te
«Neste fructo infeliz de meus ardores
«Possas ter quem se empenhe em consolar-te, «E tu, por quem soffri tormento e dores
«Sem uma hora se quer cessar de amar-te, «Consente que ella entregue ao pai que imploro «Possa rogar por mim ao Deus que adoro.
«Assim fallou a triste, e resignada
«O golpe recebeu da dura morte,
«Partiu do erro a alma já purgada
«A repartir nos ecos do justo a sorte.
«Mas de Hauzeri em vão a prenda amada «Reclamei, em memoria da Consorte;
«Arrancar-lha não pude, e separado
«Fui desde então p'ra sempre do teu fado.
«Supplicas, pranto, rogos, ameaças
«Para salvar-te estereis empregando,
«Fui no ermo chorar minhas desgraças
«Aos ceos dos ceos a causa confiando,
«Continuo sobre ti de Deus as graças
«Com penitentes lagrymas chamando.
«Até que a Deus tocou minha agonia,
«Deus que benigno a salvação te envia.
«Em quanto fallava
«A cruz me estendia;
«E a dôr que a pungia
«Na alma abrandava;
«Do Deos que invocava
«Tocar-me sentia,
«Já menos soffria
«Já mais me animava,
«E quando acordava
«E a mim me volvia
«Achava-me o dia
«Outra do que estava,
«Livre da interna lucta, e na bonança
«Começando a antever a luz da esperança.
«A celeste vizão reproduzida
«Cada noute a minha alma soccorria,
«Cada noute na fé santa instruida,
«O santo Avô mais firme me fazia.
«A antiga exasperação, o tedio a vida
«Em merencoria dôr se convertia,
«Dissera-me feliz, se a um sentimento
«Conseguisse esquivar meu pensamento.