Ruy o escudeiro: Conto
Hymno.
Em seguida á do Rei se distinguia
Tenda semi-real, que alli plantára
Heroe, cujo valor não desmentia
O sangue da Borgonha, que o formára;
Pedro Affonso, a quem déra a luz do dia
Amor, que o hymineo não consagrára,
Digna estirpe de Henrique, e em obras suas Galardão do cuidado ao aio Fuas.
No circumstante campo, vasto, aberto,
Que inda ha dois sóes medroso, e trepidante Víra a furia cruel, conflicto incerto
Do Sarraceno em lanças abundante
Contra o Christão, que anima o Chefe experto, E no Deus de seus pais a fé constante,
Trombetas, e ataballes uns tangiam,
Outros em novo canto assim diziam.
HYMNO.
Vai fugindo o Sarraceno
Mais prompto do que avançou,
Que todo o poder terreno
Por Christo desbaratou
O braço aos perros fatal
De Affonso de Portugal.
Cada um dos Cavalleiros,
Que por Christo ao campo vem,
Cem dos infieis guerreiros
Na peleja ante si tem;
Mas tudo cede ao real
Affonso de Portugal.
Cinco Reis de infieis mouros
Contra os de Christo vieram,
D'elles teve Affonso os louros,
As costas a Affonso deram,
Deu Deus esforço immortal
A Affonso de Portugal.
Sobre o campo da victoria,
Onde Christo lhe appar'ceu,
E pr'a o escudo em memoria
As proprias Chagas lhe deu,
Ao throno alcemos real
Affonso de Portugal.
Este Heroe, que Deus ajuda
Tome a nossa vassallagem:
Sempre ao povo seu acuda
Ou Elle, ou sua linhagem:
Seja pr'a sempre real
A coroa de Portugal.
Sempre entro nós haja Rei
Natural de nossa terra,
Que na paz conduza a grei,
E que a defenda na guerra,
Qual o primeiro real
Affonso de Portugal.
Em quanto uns assim cantam dos soldados, Vão outros pelo campo divagando:
Estes colhem despojo inda espalhado,
Aquelles secco matto vão cortando;
Ascende ao ár o fumo, que enrolado
Das accezas fogueiras vem manando,
Onde est'outros preparam o alimento
Dos membros lassos próvido sustento.
Já o Sol menos ardente
Para o ponente descia,
Temperando a calma do dia
A fresca brisa nascente,
No occaso reluzente,
De ouro e de purpura ornado,
Guarnece o ceo azulado
A orla de nevoa espessa,
Novo dia que arremessa
Pintando um dia acabado.
Tinha chegado
A hora amena,
Nos nossos climas
Tão suave, tão doce, e tão serena,
Hora, que em tempos
De paz dourada,
Dos lavradores
É tão presada;
Quando termina
Do dia a lida,
Quando o descanço
Restaura a vida.
Sopra da tarde
Grata frescura
Reanimando
Murcha verdura.
Vem o novilho,
Já libertado
Do duro jugo,
Pascer no prado.
Sobem dos campos
Os segadores.
Ledos cantando
Ternos amores.
Gentil mancebo,
Que amor encanta,
Ao som das córdas
As penas canta,
Em quanto em giros
Linda pastora
Co'a dança leve
Mais o namora, Hora sem par, em que o cadente dia
Traz repouso, ternura, e alegria!
Pedro Affonso no emtanto, em cujo peito
A pár da intrepidez móra a piedade,
Guerreiro sem igual, Christão perfeito,
Vai demandando a erma soledade
Do provecto Ermitão, asilo estreito
Onde fugindo as pompas, e a vaidade,
A Deus e á penitencia consagrára
O venerando velho a vida cára.
N'uma colina, apenas exalçada
Sobre a vasta planicie calorosa,
Uma exigua Capella era elevada
N'aquella idade barbara, e piedosa:
Do velho Ermita a cellula acanhada
Jazia ao lado, uma sobreira annosa,
Co'a larga rama o tecto protegia,
E do profano olhar a defendia.
Ante a porta do sacro monumento
Com toscos páus estava retratado
O sacrosanto lenho do tormento,
Em que o Filho de Deus fôra pregado:
Dentro sculptado via-se o momento
Em que o Corpo sem vida, reclinado
Da Mãi nos braços, vai, qual creatura.
O Creador baixar á sepultura.
Alli da noute na primeira vela
P'ra o Rei, do sacro livro possuido,
A campana soou, que o tempo assella
Do celeste Emissario promettido,
P'ra que em luz, que a do Sol mais clara e bella Fosse Christo por elle percebido,
Promettendo-lhe a coroa, e a victoria
Da sua estirpe, e do seu povo a gloria.
Naquelle instante o velho venerando,
De giolhos aos pés da Cruz alçada,
Estava o fim do dia consagrando,
Como do dia consagrára a entrada.
Raros alvos cabellos fluctuando
Se viam sobre a frente despojada;
E a barba, que lhe o vento sacudia
Em ondas, sobre o peito lhe descia.
Na piedosa oração todo engolfado
Estava o santo velho por tal sorte,
Que nem sequer sentiu chegar-lhe ao lado, Do Escudeiro seguido, o Varão forte.
Pedro Affonso parou, seu peito, armado
De audacia contra os perigos, contra a morte, Toca a vista do Ermita por tal geito,
Que não sabe se é medo, se respeito.
Mas o moço Escudeiro, que o seguia
Bem diversa impressão experimentava,
Do Ermita a quietação, quasi a apathia Da sua alma c'o estado contrastava;
Em seu peito um volcão latente ardia,
Dos desejos no pelago nadava,
Estava n'essa idade, em que o repouso
É não só mal; mas mal o mais penoso.
Ruy era o seu nome. Á luz viera
Sob o tecto paterno junto ao Douro;
Seu Pai, no nome igual, a vida dera
Com Henrique pugnando contra o mouro.
Jámais paterno affago conhecera,
Que a triste viuvez, envolta em chôro
Ruy, unico bem que lhe restára,
No berço filho posthumo embalára.
Unica flôr, que lhe esmaltasse a vida,
A mãi no tenro filho cultivava,
Nelle a imagem do pai, reproduzida,
Embellezada ainda, idolatrava.
No Joven desde a infancia alma atrevida
Namorada da gloria se mostrava,
Com coração ardente, e generoso,
E a um tempo amante, meigo, e carinhoso.
Indole a tudo prompta, a tudo ousada
No porte do mancho transluzia:
Na estatura esbelta, e levantada
Co'a ligeireza a robustez se unia:
Sobre a frente morena, e dilatada
A negra liza comma lhe descia,
Nos olhos vivos, e de côr escura
Temperava o fogo bellico a ternura.
Não era lindo, não, que expressão tanta
Destroe a symetria da lindeza;
Porem mais do que o lindo arrastra, encanta, Interessa, move, e a attenção tem presa.
Sem ter severo olhar, que o riso espanta,
Séria a sua expressão, toca em tristeza, Trasborda n'ella uma alma forte e ardente,
Que tudo póde ser, salvo indiff'rente.
Tal era formado
No vulto, e nas cores,
Que era a Marte asado,
Era asado a amores.
Qual brilha entre as flores
O cravo fragrante,
Tal elle prestante
Entre os mais brilhára,
Ou tal se elevára
Entre os companheiros,
Como nos outeiros
O olmo alteroso
Sobre o bosque ergue o cume alto, e frondoso.
No patrio tecto, desde o berço vira
Do nobre pai o escudo pendurado,
A cota, que inimigo ferro abrira,
Inda tinta do sangue não vingado.
Mil vezes entre pranto á mãi ouvira
Contar paterna gloria e triste fado,
Mil co'a infantina mão tocado havia
A herdada lança, que ha brandir um dia.
Entre memorias taes do patrio dano
Do filho de Ruy crescera a idade;
Volvido haviam já anno apoz anno
Conduzindo o vigor da mocidade,
Quando a mãi, que respeita como arcano
Do extincto Esposo a ultima vontade,
No dia em que seu lucto revivia
Ao filho bem amado assim dizia.
«Martyr da fé Christãa teu Pai na guerra
«Pela Cruz deu a vida peleijando;
«Fatal golpe o prostrou na propria terra,
«Que para Christo andava conquistando.
«Ah! se lá donde o summo bem se encerra «Elle, oh filho, nos vê, ver-me-ha chorando, «Dar-te o preceito, que houve do Consorte «Quando a alma entregou nas mãos da morte.
«Alli fica, me disse, aquella lança,
«Que só de infiel sangue foi manchada,
«Alli deixo esse escudo por herança,
«Esse elmo, essa cota, e essa espada:
«Se o summo Deus tiver de nós lembrança, «E que um filho haja em ti, oh bem amada, «Meu nome lhe darás, e essa armadura
«Sob a qual encontrei a morte dura.
«Dar-lhe-has esta Cruz. Isto dizendo
«Do peito a separou por vez primeira,
«E o braço, já sem força, a custo erguendo, «Aos labios a levou por derradeira.
«Dir-lhe-has, que se a paz acho morrendo
«A esta insignia a devo verdadeira,
«Devo-a de Christo á fé, que a vida guia,
«Que ensina a fallecer sem agonia.
«Dize-lhe que a conserve ao peito unida,
«Que ao lado seu cinja a paterna espada,
«Aquella p'ra o guiar á eterna vida,
«Esta p'ra ser a seu Senhor votada;
«Que indomito na pugna asp'ra e renhida,
«A fraqueza respeite desarmada;
«Que preze a honra; fuja da cobiça,
«E da moleza vil, que o vicio atiça.
«Assim fallou teu Pai.... e a penetrante
«Ferida em rouxo sangue se esvaia.
«Sumiu-se a voz no peito palpitante,
«Aos olhos se apagou a luz do dia:
«Soou da minha dita ultimo instante, «Já d'esta alma a ametade não vivia;
«Mas dentro de meu seio palpitava
«Penhor, que a ficar viva me obrigava.
«Vivi, a força achei, que me vigora
«No maternal amor, oh filho amado,
«Cáro penhor de um laço, doce outr'ora;
«Mas roto, quando apenas estreitado!
«A ti mancebo, a ti pertence agora
«Restituir-me aquelle que hei chorado,
«Se, como espero, em ti vir renascida
«A virtude d'essa alma ao ceo subida.
«Da tua infancia os dias acabaram,
«Já teus membros tem força e tem destreza, «Aquelles, que o esposo me roubaram,
«Saibam que não fiquei só, sem defeza.
«Sangue vil minhas veias não herdaram,
«Nem coração sugeito a tal fraqueza,
«Que ao filho de Ruy estorve a gloria
«De ter por Deus, e pelos seus victoria.»
De Ruy a viuva, assim fallando,
Do muro antigo as armas desprendia,
E os humidos olhos enchugando,
O filho de Ruy d'ellas cobria.
O mancebo, de nobre ardor córando.
Com respeito a armadura recebia,
Que já na dura guerra exp'rimentada,
Fôra do pai com o sangue consagrada.
Um captivo entretanto apparelhava
O bruto ardente, que se apraz na guerra,
Que impaciente o freio mastigava,
Co'a vigorosa mão cavando a terra;
Já armado sobre elle cavalgava
Quem do ninho paterno se desterra,
A procurar do mundo as aventuras,
Gratas a poucos, para tantos duras.
Da triste mãi os olhos macerados
Por largo espaço a marcha lhe seguiram;
Ao perde-lo porem entre os silvados
De uma nevoa de pranto se cobriram.
Seus animos, do filho sustentados,
Ao arrancar-se d'elle sucumbiram.
Sentiu a triste, a dôr, magoa, anciedade,
Que só conhece a maternal saudade.
Segue no emtanto o moço a varia estrada
Que o Mondego do Douro distanceia,
Na terra, dos Beroens Beira chamada,
Onde o Vouga entre as serras serpenteia,
Do Bussaco transpõe serra elevada,
E bem depressa a vista lhe recreia
Valle ameno, co'as flores e a verdura
Que nutre do Mondego a limfa pura.
De risonha colina no vertente,
Que o rio carinhoso em baixo lava,
A cidade Conimbrica é jacente,
Que então de espesso muro se cercava;
N'ella ajuntando estava armada gente
Affonso, que attacar apparelhava
O agareno Ismar chefe animoso
Do transtagano mouro bellicoso.
Era Affonso acompanhado
D'esse Irmão, de Henrique filho
Cavalleiro de alto brilho,
Por Dom Fuas educado.
Fuas era aparentado
De Ruy com os ascendentes,
E o sangue de seus parentes
No Joven reconhecendo,
Seus destinos protegendo,
Por escudeiro o ligou
A Pedro, que o aceitou,
E entregando-lhe a lança,