Ruy o escudeiro: Conto
Fim do Quarto Canto.
«Aparta-te de mim, antes que iroso
«Pelas expressões tuas indiscretas
«Me leve o sangue a extremo perigoso!
«Ao zelo que por mim, por ella affectas
«Prestes pôe termo, foge pressuroso,
«Deixa-me, oh velho insano, ao meu destino, «Poupa-me algum funesto desatino!
Immovel, qual rochedo, o velho Ermita
Do mancebo os transportes escuitava,
A compaixão, que seu penar lhe excita,
No gesto enternecido se mostrava.
Pallida, e sem alento a moça afflicta
Aos ceos os lindos olhos levantava,
Como quem do poder soberano e forte
Submissa, e resignada espera a sorte.
N'isto do batel mouro percutida
É a barca do remo abandonada:
N'agua mergulha a borda, compellida
Do veleiro batel pela pancada.
Aquella vê Ruy, que lhe era vida,
No rio desparecer precipitada,
Grita, lança-se ao rio a soccorre-la,
Mergulha em vão, em vão quer recolhe-la.
Mas o braço do Ermita mysterioso
Fatima sobre as aguas amparando
Longe a leva do amante impetuoso,
Que em vão a está nas aguas procurando, Clama ao batel dos mouros pressuroso,
E a filha de Hauzeri prompto entregando,
Volve a Ruy, arrastra-o da corrente,
E desparece á vista em continente.
FIM DO QUARTO CANTO.