Ruy o escudeiro: Conto

Luís da Silva Mousinho de Albuquerque · Capítulo 6 de 20

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Ruy o escudeiro: Conto

Canto Segundo.

 

A tomar vai Leiria, que tomada

Fôra mui pouco havia do vencido.

C , L , C. 3.º, E. 55.ª

ara unir n'um só leito amantes aguas

Vem o Liz, sobre os seixos murmurando,

O Lena vem, nascido de entre as fraguas;

Em seu curso modesto, alegre, e brando,

Entre a relva mimosa, entre a verdura

Cada qual mollemente serpejando.

Jámais turvou a limfa clara, e pura

O forte remo, a quilha recurvada

Com que a industria mortal dóma a natura; Sómente a braça da arvore quebrada,

A folha que no outomno cahe sem vida

Pelo placido curso foi levada.

Nas margens a aveleira entretecida

Com o espinheiro está de flôr fragante,

A madre silva co'a roseira unida.

No espelho das aguas inconstante

Reflectida balança alta ramagem

De alamo bicolôr, choupo elegante;

Dos vimes, e salgueiros a folhagem,

Molles chorões, as braças incurvando,

Vedam do sol aos raios a passagem.

Alli, na primavera, sussurrando,

Recolhe a abelha o mel por entre as flôres, E a borboleta as beija volitando,

Quando o cantor sublime dos verdores

Da aurora ao despontar, e á tarde canta

Em frente ao brando ninho os seus amores.

A róda leve as aguas alevanta,

Que em canaes variados circulando,

Levam frescura á sequiosa planta;

Em quanto, dos invernos triumfando,

Altos pinheiros sempre verdes frontes

Reunidos se vêem aos ceos alçando

Na encosta, e cumes dos visinhos montes.

No meio d'este valle a natureza

Um penhasco erigiu, morro isolado,

Que das aridas rochas a braveza

Abruptas volve aos raios do sol nado;

Com aridez igual, igual asp'reza

Do occaso, e do sul encara o lado;

Orna-o do norte apenas a verdura

Em mais suave encosta, e menos dura.

Do forte morro ás abas se abrigaram

Da destruida Liria os habitantes,

Quando da natal terra os expulsaram

Dos romanos as armas triumfantes;

Para alli seus penates transportaram,

E da perdida patria sempre amantes,

De Liria ao novo asilo o nome deram,

Que os tempos em Leiria converteram.

De Vandalos, e Godos povoada

Foi depois, gente forte e valerosa,

Que com o tempo tambem cedeu á espada Da sarracena raça bellicosa,

Na epocha em que a terra celebrada

Das Hespanhas sofreu perda affrontosa,

E só cantabrios serros abrigaram

Os que ao jugo africano se escaparam.

Mas alfim vencedor da maura gente,

Affonso, no penhasco edificára

Recinto marcial forte, e potente,

Que de Agostinho aos filhos confiára, Quando do rôto Ismar a ira fremente

No povo e no presidio se vingára,

E unido a Hauzeri, mouro esforçado

Tinha de Affonso os muros conquistado.

Ai! daquelle, que atrevido

Com temeraria ousadia

Do Leão adormecido

Os furores desafia!

O animal irritado,

De crua raiva espumando,

Corre o campo, arrebatado

Morte e ruina espalhando:

Com seus urros espantosos

A bronca serra estremece,

A luz do raio esplandece

Nos seus olhos furiosos.

Força não ha tão potente

Que a carreira lhe embarace,

Que a garra não despedace,

Que não rasgue iroso o dente:

Té que em fim o imigo alcança,

E no côrpo ensanguentado

Partido, e dilacerado,

Séva as iras e a vingança.

Assim de novo a trompa bellicosa

Nos valles retumbava,

Assim de Affonso a gente valerosa

Já de novo se armava,

E as bandeiras, que as Quinas adornavam Os Alferes de novo ao vento davam.

Nobres, e ricos-homens á porfia

Se apromptam sem demóra

A castigar dos mouros a ousadia,

E em lide vencedora

Punir os damnos, com que Ismar irado

Todo o transito seu tinha marcado.

O escudo embraçou p'ra nobre empreza

Pedr'Affonso incansavel,

Ao Rei da crua guerra na aspereza

Consorte inseparavel,

E com elle Ruy para a vingança

Com ardor empunhou a herdada lança.

Moveu-se a gente bellica segura

Na esperança da victoria,

Que a quem temer não sabe a lide dura

Nunca desmente a gloria,

E n'um teso, ao Castello apropinquado

O campo expugnador foi collocado.

De annoso pinheiro,

Que em frente se alçava

Do campo guerreiro,

Nos ramos pousava

Um corvo agoureiro

Que abrindo o rostro infausto, e ás azas dando, Parecia estar os mouros malfadando.

Os de Agar bramaram

Quando alevantadas

Em frente enchergaram

As Quinas sagradas,

E irosos juraram

Illeso conservar o logar forte

Seus muros defendendo até á morte.

Alcaide da gente

Seu brio excitava

Hauzeri valente,

Que a lança empunhava;

Mouro forte e ardente,

Entre os do bravo Ismar um dos primeiros

Denodados, e intrepidos guerreiros.

Com garbo, e presteza

Discorre a muralha,

Dispondo a defeza,

Prevendo a batalha,

O alcaide, e a firmeza

A audacia, e o valor no rosto ostenta

Com que dos seus a galhardia augmenta.

Ao lado de Hauzeri bella apparece,

Piedosa vista em lance tão p'rigoso!

Filha linda qual luz quando amanhece

Ao romper d'alva em dia caloroso,

O turbante, que a frente lhe guarnece

Remata alvo penacho precioso

Em quanto vão os zephiros brincando

Com os anneis sobre os hombros fluctuando.

De seda as calças tem da côr da neve,

Sobre ellas desce a tunica bordada,

Cerulea faixa a cinta circumscreve,

Qual a hastea do lirio delicada,

Cobre o virginal seio a tea leve

Onde a seda co'a lãa fôra tramada,

De vermelhos coraes um fio brando

Do collo airoso a base contornando.

Suaves de Fatima os olhos eram,

Vivos ao mesmo tempo e magestosos,

Quaes unicos os nossos climas geram,

Climas caros ao Sol, climas ditosos;

Olhos, foccos de amor, que n'alma imperam Quer languidos, quer meigos, quer irosos;

Olhos taes, que se pranto derramaram

As mesmas brutas penhas abrandaram.

Nas pudibundas faces reluzia

A viva côr da nacarada rosa,

Que em leve gradação se esvaecia

Pela macia pelle melindrosa;

Virgem, filha gentil do meio-dia,

A côr tinha morena, e tão formosa,

Como a que a luz de um Sol claro e brilhante Communica do prado á flôr fragante.

Da larangeira em flôr com o deleitoso

Aroma o ár da tarde embalsamado

Cede em suavidade ao amoroso

Hálito de seus labios exhalado.

O murmurio do arroio saudoso

Entro meudos seixos derivado,

O meigo sussurrar do brando vento,

Menos magia tem que o seu accento.

Quem viu a vermelha rosa

N'um ramalhete de flôres

De todas a mais formosa

Quer nas formas, quer nas côres:

Quem da noute socegada

No silencioso véo

Viu a lua prateada

Entre as estrellas do céo:

Quem na belleza prestante

Do palacio, ou templo santo

Viu a corinthia elegante

Que remata o molle achanto:

Quem entre a familia leve,

Habitante da espessura,

Viu a pomba côr da neve,

Vivo emblema da candura:

Não viu mais que uma imperfeita

Imagem das maravilhas,

Com que Fatima deleita

Os olhos, do seu povo entre as mais filhas.

Porem, já sequiosos da vingança

Os Christãos se aparelham p'ra peleija.

Em batalhas o Rei divide as lanças,

Marcando a cada uma quem a reja:

P'ra o assalto prescreve sem tardança

De cada Capitão qual dever seja,

A qual compete de ir na frente a gloria,

A qual mais tarde ha de colher victoria.

A aquelle, que no nome, qual no peito

Tem dos fortes a nobre galhardia,

Entrega o grande Affonso satisfeito.

Entre as batalhas, a que a frente guia:

Na mesma linha põe e de igual geito

A que o pendão de Mem Moniz seguia;

Bem como a forte gente, cujo ousado

Valor tem vido a Sousa confiado.

As reservas intrepidas e ardentes,

Onde a lucta attrahir maior perigo,

Viegas com Martim, e outros valentes

Promptos conduzirão sobre o inimigo;

Porem de Pedro Affonso armipotente

Braço e conselho o Rei quer ter comsigo;

Nem desdenha reter junto a seu lado

O Joven Escudeiro denodado.

As trompas guerreiras

O signal entoam,

Ao combatte voam

As bravas fileiras.

Os mouros defendem

Debalde a campina,

Debalde pretendem,

Que os Christãos bradando

Co'a lança arremetem,

A quanto accommettem

Rompendo e prostrando.

Qual da serra alpina

Partiu destacada

A rocha gelada,

Que o valle domina,

E em forças crestando

Na queda espantosa

Co'a massa assombrosa

Vai tudo rompendo;

Assim as batalhas

Aos mouros forçavam,

E em fuga os lançavam

Ao pé das muralhas.

Na rocha escarpada

O mouro confia;

O Christão porfia,

E a rocha é trepada.

Embora, galgando

Por entre os rochedos,

Inteiros penedos

Descendem troando:

As penhas, nas penhas

Caindo, arrebentam;

Heroicas façanhas

Façanhas sustentam;

Setas sibilantes

Cruzam por milhares

Das fundas girantes

Com os tiros nos ares.

Em quanto os archeiros

A morte arremedam,

Mais brava os lanceiros

Já lucta começam,

O escudo, a couraça,

A malha cerrada,

De morte esfaimada

A lança transpassa,

E aos golpes da espada

O elmo partido

No craneo fendido

Lhe franqueia a entrada.

A escada tremente

Á muralha erguida

Já foi erigida

Pela ousada gente;

Do escudo coberto,

Com o ferro empunhado,

Mais de um segue ousado

No ár trilho incerto,

E sobre as ameias

Mais de um temerario,

Entrega ao contrario

O sangue das veias.

A pugna engrandece,

Redobra a fereza,

Do ataque e defeza

A teima recresce.

Já os muros altos

Por todos os lados

Sentem renovados

Continuos assaltos;

Hauzeri no emtanto

Resiste esforçado,

Fero e denodado

Desconhece o espanto;

Tal, já quasi exangue,

Javali ferido

Com o dente buido

Derrama inda o sangue,

E a um tronco acuado,

O collo cerdoso

Revolve animoso

A um, e outro lado.

N'isto o intrepido Affonso, a si chamando

As reservas, que cauto tem poupado,

O decisivo esforço emfim tentando,

Ao assalto as impelle denodado.

Mal das gentes desliga o regio mando O valor tanto a custo sopeado

Armas, clamor de guerra, e tubas soam,

E contra o mouro irrisistiveis voam.

De todos o primeiro ao morro avança

O mancebo Ruy leve, e esforçado,

Os penhascos transpõe sem mais tardança Que a anta o precipicio congelado;

Fere, derriba, e mata a herdada lança,

Foge o mauro tropel desordenado,

Ruy segue qual raio a rôta gente

Pela porta, que aos seus torna patente.

Por ella ruina e morte

Penetra, de horror cercada,

O valor fallece ao forte,

Com a esp'rança abandonada.

Cada qual as armas lança,

Cada qual arrója a espada.

O vencedor na vingança

Irritado se enfurece,

Céva as iras na matança,

A humanidade estremece,

Mas a sanha do soldado

A sua voz desconhece:

Nada p'ra elle ha sagrado,

E na crueza incendido

Se crê pelo ceo armado,

Sobre o infeliz vencido

Julgará infidelidade

Sentir-se compadecido;

Nem o sexo nem a idade

Salva do ferro cruento,

E de horror e crueldade

É o penhasco inteiro um monumento.

O Sol cobriu de horror a clara fronte,

Espessas negras nuvens o toldaram;

As nevoas sobre a borda do horisonte Da roixa côr do sangue se pintaram;

Os córvos carniceiros sobre o monte

Com o faro da atroz prêza esvoaçaram,

E enlutados os ceos, a noute fria

Mais cedo pareceu pôr termo ao dia.

Farto o soldado emfim de crueldade,

Extinctos quasi os miseros vencidos,

Amainou pouco a pouco a tempestade,

Cessaram os clamores, e os gemidos,

Já o Chefe recobra a authoridade

Sem força entre os primeiros alaridos,

E da victoria no seguro goso

Abandonam-se as gentes ao repouso.

Mas Ruy, cujo joven peito encerra

O preceito da Mãi, do Pai legado,

O descanço dos olhos seus desterra,

Vagando no Castello desolado.

De quente sangue vê fumando a terra,

O cadaver encontra abandonado

E o misero, que em mais tyranna sorte

Sem asar de viver lucta co'a morte.

No peito o coração em horror tanto

De Ruy se apertou, a alma sensivel

Viu, a um tempo com dôr, terror e espanto, P'ra quanto não é fera a scena horrivel;

Não podendo suster amargo pranto,

Quasi maldiz victoria tão terrivel,

Fugindo ao quadro atroz por mais não ve-lo Se entranha para o centro do Castello.

Da menagem a torre alli se erguia,

No mais alto do morro alevantada,

Torre rectangular que descobria

Em redor a campina variada,

Lá na alta noute, inda hoje triste pia

Na muralha com o tempo descarnada O infausto mocho, e no seu seio escuro

Se abriga contra a luz morcego impuro.

De vigia servia o cume erguido,

Na parte media as armas se guardavam,

No mais baixo recinto denegrida

Em prisão dura os crimes se expiavam.

Por caracol estreito, e retorcido

Os planos entre si communicavam.

Na masmorra o soldado fatigado

Não tinha a aquelle tempo penetrado.

Na torre entra Ruy, e parecia

Fatidico o instincto que o guiava;

Á medida que o caracol descia

Ancioso seu peito se agitava,

Na escuridão completa se immergia,

Palpando o muro os passos tenteava,

Quando na marcha subito impedido

Sente um corpo cahir, e ouve um gemido.

Estremece o mancebo co'a surpresa;

Mas prompto do repente recobrado,

A mão ao corpo estende, e em vez de asp'reza Sente o tacto macio e delicado

De anneladas madeichas na leveza,

N'um seio feminil brando, agitado;

Mais não hesita, o corpo em braços toma,

Fóra da torre com o fardo assoma.

Mas o corpo que leva entre seus braços

Sem movimento está, e a voz perdida,

Pendem-lhe os membros com o mover dos passos Qual a vide de olmeiro desprendida;

Se o coração, batendo por espaços,

No debil ser não revelára a vida,

O mancebo por certo acreditára

Que da morte os mysterios profanára.

Mais o fardo apertava contra o peito,

Mais do mancebo o peito se agitava.

Parecendo-lhe sentir passo suspeito

Que apoz elle nas sombras caminhava,

A marcha apréssa, e n'um carreiro estreito

Entra a mata, que a um lado a serra brava

Selvatica produz, e na espessura

Mais densa, o fardo põe sobre a verdura.

Qual pasmo sem igual, quando encarando

Aquella, que das trevas arrancára,

Da lua lhe revéla um raio brando

Do peregrino rosto a forma rara;

Quando, no vulto immovel attentando,

Descobre do mancebo a vista avára

As bellezas, que prodiga a natura

De Fatima juntou na formosura.

A pallidez da morte realçava

Merencoria a expressão de seu semblante; Os apagados olhos lhe cerrava

A palpebra de cilias abundante;

Do seio, que opprimido palpitava,

Parecia que um suspiro a cada instante

Ia partir, que o moço a vida déra

Se nos labios gentis o recolhera.

Extatico de pasmo e de surpreza

Jaz Ruy com tal vista captivado,

Sem cogitar de tanta gentileza

Qual seja o miserando infausto estado.

Co'a alma em goso estranho absorta e preza Ficára o moço alli como encantado,

Se na Bella afllicção mais dura e forte

Não parecesse estender o véo da morte.

Contrahiram-se as faces melindrosas.

Os membros delicados se obduraram,

Os labios virginaes, murchas as rosas, Com um moto convulso trepidaram,

De suór frio as gotas abundosas

Pallida a frente, e o collo lhe banharam,

Alevantou-se o seio seu mimoso,

Tomou-se o respirar mais afanoso.

O imprudente Ruy sahe do lethargo

Recobra com o terror o pensamento,

Do abandono da triste se faz cargo

Naquelle transe horrivel de tormento;

Dos olhos lhe rebenta pranto amargo,

A Bella aperta ao peito tão violento

Como quem quer partir com ella a vida,

Ou com ella a existencia ver perdida.

Não foi do moço inutil o transporte,

Que a Bella entre seus braços estreitada;

Ou fosse por que assim o quiz a sorte,

Ou milagre de amor: reanimada,

De subito escapando ás mãos da morte.

Move o collo, ergue a frente debruçada,

Cessa a suffocação, livre respira,

Abre os formosos olhos, e suspira.

Na mesma situação mais de um instante

Um e outro ficaram sem fallar-se;

Elle de puro goso delirante,

Ella como quem busca recordar-se:

Mas breve de Ruy vendo o semblante,

Sentindo entre seus braços estreitar-se,

D'elles se arranca, e em pranto debulhada, Fallando assim, lhe cahe aos pés prostrada.

«Oh tu, quem quer que sejas, se a piedade «Entrada pode ter dentro em teu peito,

«De uma innocente a misera orfandade,

«Desamparo, e miseria tem respeito!

«Sei que cahi na tua potestade;

«Mas antes de sentir o seu effeito

«Morrerei!......» Disse, e as renascidas rosas Pudibunda escondeu nas mãos formosas.

«Que do Deus que nos ouve um raio ardente «Te vingue, e me anniquille neste instante,

«Se um sentimento indigno esta alma sente «De que haja de córar o teu semblante!

«Perde o terror, oh Virgem, tens presente

«Um amigo, um irmão cuja constante

«Ambição será só de obedecer-te

«E contra qualquer perigo defender-te!»

Assim fallou Ruy, e alevantando

A prostrada Fatima, em mil maneiras Foi seu terror primeiro dissipando,