Ruy o escudeiro: Conto

Luís da Silva Mousinho de Albuquerque · Capítulo 7 de 20

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Ruy o escudeiro: Conto

Canto Terceiro.

Com gestos, com palavras verdadeiras.

N'um penedo que cobre o musgo brando

A Virgem se assentou, co'as lisongeiras

Expressões de Ruy cobrando alento,

Sentiu raiar a esperança em seu tormento.

 

FIM DO SEGUNDO CANTO.

CANTO TERCEIRO.

Onde está aquella imagem pura, e bella

Artificio divino entre nós raro?

Onde aquelle olhar brando, que tão caro

Me foi, e o resplendor de hua e outra estrella

F , S , 15.º

 

FATIMA

 

avalleiro, se é verdade

«O que acabas de dizer,

«Na minha triste orfandade

«Só tu me podes valer.

«Não buscarei disfarçar-te

«Qual é minha condição,

«De tudo vou informar-te,

«Ou sejas sincero, ou não.

«Nas terras da Andaluzia

«Mouro altivo me gerou,

«Cujo nome e valentia

«Longe a fama propagou.

«De seu braço o nobre Ismar

«Conhecendo a fortaleza,

«D'estes muros confiar

«Quiz a guarda e a defeza.

«Do Téjo a margem deixada,

«Onde outra arce regia,

«Mandou-me vir malfadada

«Para a sua companhia.

«Sobre o perigo a que me expunha

«Saudade lhe déra antolhos,

«Que elle em mim seu prazer punha,

«Que eu era a luz dos seus olhos!

«Nascendo perdi a Madre,

«Que em seu seio me formou;

«Mas achei tudo no Padre

«Que amoroso me creou.

«Quer na tregoa socegado,

«Quer na fadiga guerreira,

«Jámais fui d'elle apartada,

«Antes sempre a companheira.

«Quando, ainda tenra infante,

«Nos campos o acompanhava,

«Sobre o cavallo possante

«Um captivo me tomava;

«E quando em forças crescida

«Quiz-me elle mesmo ensinar

«A tomar nas mãos a brida,

«Os ginetes a domar.

«Ora correr me fazia,

«Dado ao venatorio trato,

«O gamo, que parecia

«Nadar nas pontas do matto;

«Ora..... Mas ha! que aproveita

«Recordar carinho seu?....

«Minha desgraça é perfeita,

«Já não vive o Padre meu!

«Não vive; que se vivêra

«Por certo que a filha cára

«O seu braço soccorrêra,

«E a todo o custo a salvára!

«Hauzeri meu Padre é morto!...

«Cavalleiro, ah por piedade,

«Se desejas dar conforto

«Á minha dura anciedade,

«Corre ao campo da batalha,

«Ao posto o mais arriscado,

«Lá na torre, ou na muralha

«Acha-lo-has traspassado.

«Do seu escudo brilhante

«Aro de ouro em torno gira,

«De ouro e purpura o turbante

«Tem por tope uma saphira:

«É seu alfange pendente

«De rico talim bordado,

«Obra da filha, e presente

«Destinado a melhor fado!

«Corre, corre, cavalleiro,

«Se tens de mim compaixão,

«Se teu peito é verdadeiro,

«Se te doe minha afflicção:

«Busca o cadaver querido,

«Faze-o á filha entregar;

«Que eu possa o sangue espargido

«Com o triste pranto lavar:

«Que eu possa triste e mesquinha

«Dar seu corpo á terra dura,

«E de quanto caro eu tinha

«Expirar na sepultura!»

Assim a Virgem moura se exprimia,

Mais de um suspiro as vozes lhe cortava,

E o pranto, que dos olhos lhe corria,

Da linda face as rosas lhe banhava.

O mancebo dos labios seus pendia Que no ardor de servi-la se abrazava,

E mal ella acabou, aos pés prostrado,

D'esta sorte lhe volve transportado:

«Por piedade, anjo de graça,

«Mitiga a acerba afflicção

«Que a alma me despedaça,

«Que me parte o coração.

«Salvarei, pois o desejas,

«Esses despojos presados;

«E se ao furor das peleijas,

«Foram seus dias poupados,

«Verás teu pai a teu lado,

«Oh bella, n'um curto instante:

«Feliz de adoçar teu fado

«O teu extremoso amante!»

No semblante da Virgem peregrina

Rubor vivo a taes vozes apparece;

Qual ao raiar da aurora purpurina

A viva côr nas nuvens resplandece;

Em seu peito porem, que a dôr domina,

A surpreza de prompto se esvaece,

Com gesto firme, e com solemne accento

Confirma assim do moço o nobre intento.

«Cavalleiro generoso,

«Segue o proposito teu.

«Se o ceo para mim piedoso

«Salvo tem o Padre meu,

«Se ve-lo, abraça-lo ainda

«Eu dever a teu cuidado

«Pela gratidão infinda

«Terás meu peito ligado;

«Mas se o Padre, vivo, ou morto,

«Me não fôr restituido,

«Não busques p'ra mim conforto,

«Meu fado ha de ser cumprido.

«Jámais Fatima opprimida Desenganado de que em vão procura,

«Escrava de um vencedor,

«A tal extremo abatida

«Servirá sob um senhor;

«Que antes de ver-me aviltada

«Saberei da abjecta sorte,

«Da condição exasperada,

«Achar allivio na morte.»

«Não por certo, exclama o moço

Prompto o corpo alevantando,

«Se teu mal prevenir posso,

«Eu vôo já ao teu mando.

«Alenta o peito formoso,

«Minóra tanta afflicção,

«Confia no ceo piedoso,

«Angelica perfeição;

«Que aqui pela chamma ardente,

«Que n'este peito ateaste,

«Juro, que ante o Sol nascente

«Verás esse que choraste.»

Diz, e qual parte a pedra sibilante

Da volteada funda despedida,

De Fatima veloz parte o amante,

Obedecendo á ordem recebida,

De penhasco em penhasco salta avante,

Desdenhando escolher senda seguida,

Chega ao Castello, ao campo de batalha,

Ás torres, á mortifera muralha.

Uma vez, outra vez corre o recinto;

Mas em vão, com o empenho não atina.

Cada corpo examina em sangue tinto,

Busca de balde, e em buscar se obstina;

É mais forte o amor do que o instincto,

Entre as scenas de horror, entre a ruina

Só Fatima divisa e seu tormento,

Suffoca amor todo o outro sentimento.

Volve Ruy ao centro do Castello,

Com um facho acceso desce á cella escura D'onde ha pouco arrancára o fardo bello;

Interroga os soldados, a armadura

De Hauzeri lhes descreve; mas de ve-lo

Nenhum lhe dá signaes; exasperado

Volta outra vez ao campo ensanguentado.

Na pesquiza injucunda em vão porfia,

Inutil tedio! infructuosa lida!

Nem novas nem signaes achar podia,

Nenhuns ha de Hauzeri morto, ou com vida. No emtanto com o raiar de novo dia

Era a Lua no brilho amortecida,

E as estrellas mais proximas do oriente

Se engolfavam na luz do Sol nascente.

Do mancebo o valor succumbe á ideia

Da exasp'ração do ser idolatrado;

Fatima de antemão de afflicção cheia

Contempla em todo o peso de seu fado.

Por ve-la anhella; mas ve-la receia,

Receia o seu pesar exasperado,

Vacilla, treme; mas amor o excita

E da matta na senda o precipita.

As muralhas transpõe, na brenha escura

Já seus tremulos passos avançavam,

Receio, impaciencia, horror, ternura

Em tropel dentro n'alma lhe luctavam;

Tanto mais progredia na espessura

Tanto mais seus transportes se exaltavam,

Os pensamentos se lhe confundiam,

E convulsos os membros lhe tremiam.

Fóra de si, sem tino, e delirante

Chega emfim ao logar onde deixára

O prodigio de amor, cujo semblante De todo o ser antigo lhe mudára......

Mas, oh pungente dôr! funesto instante!

É deserto o penedo..... a forma rara

Se esvaeceu na sua ausencia breve,

Qual com o romper do dia o sonho leve.

Ligeira barca, que a favor do vento,

Em demanda da praia desejada,

Vai rapida cortando o salso argento,

Deixando apoz a esteira prolongada,

Perde o impulso, a força, o movimento,

Em banco ignoto subito encalhada:

Tal fica aniquilado, immovel, quedo

O surpreso Ruy ante o penedo.

Mas depois, prolongando um doce engano, Luctando ainda contra a desventura,

Pela Moura clamando, o moço insano

Discorre aquem e alem pela espessura;

Porem o infausto, extremo desengano

Não pode recusar, quando a verdura,

Já pelo Sol nascido alumiada,

Se lhe antolha deserta, abandonada.

«Tudo perdi, desgraçado,

Exclama o moço insensato,

«Só n'esta alma o seu retrato

«Dura com fogo gravado!

«Chamma horrivel me devóra,

«Fogo intenso, fogo interno!

«Tu foges impia e traidora,

«Deixas em meu peito o inferno!

«Como?... com quem?... para onde!...

«Serpe em meu seio esquecida!

«Que valle, ou que serra esconde,

«Perversa, a tua fugida?.....

«Juro pela fé sagrada,

«Que de meus avós herdei,

«Que em tua raça odiada

«Meu tormento vingarei!

«Dos teus no perfido sangue

«Este ferro hei de ensopa-lo,

«De teu pai no corpo exangue

«Hei de a teus olhos crava-lo!

«Salvei-te a vida, e meus dias

«Daria por defender-te,

«Mal teu desejo enuncias,

«Prompto vôo a obedecer-te.

«Volvo de amor transportado,

«De puro extremo incendido;

«Sou trahido, abandonado,

«Enganado, escarnecido!......

«Nem se quer um monumento

«Restará de opprobrio tanto;

«Nem tu, oh musgoso assento,

«Nem tu, oh viçoso manto.

Isto diz... Desatinado

Prostra co'a espada a verdura.

Fere fogo o aço temp'rado

Percutindo a pedra dura.

Qual cão, de raiva atacado,

Distilando a baba impura,

Tinto em sangue o olho ardente,

Té na pedra imprime o dente;

Ou qual o touro insofrido,

A crú jogo abandonado,

Ardente dardo incendido

Tendo no corpo cravado,

Salta, brame, urra, e pungido

Do fogo sempre ateado,

Em corcovos accommette,

E contra a têa arremette:

Tal o moço furioso

Musgo, relva, arbustos, flores,

Prostra, arranca, impetuoso

Nada poupa em seus furores;

Té que emfim com gesto iroso

Volve espaldas aos verdores,

E do sitio triste, e infausto

Se arranca de força exhausto.

Affonso, em tanto, em pompa respeitosa

Dos ministros de Deus marcha cercado

Á capella da Virgem gloriosa,

Que no forte Castello havia alçado.

Segue-o dos seus a turba numerosa

Exultando por ver desagravado

Do insulto agareno o logar santo

Com o christão sacrificio sacrosanto.

Já tinham descendido a curta escada,

Que ao pavimento interno conduzia,

Da porta o cume agudo transpassado

Onde esculptado o Trino Deus se via;

Co'a sagrada aspersão tinham mundado

Do sacro pavimento a lagem fria,

Em canto baixo e triste repetido

Psalmo do Rei profeta arrependido.

O merencorio som no templo escuro

Vagaroso, e solemne resoava,

Á piedosa effusão de um zelo puro

Devota a multidão se abandonava;

Quando Ruy com passo mal seguro

Do Castello nos muros penetrava E levado da lugubre harmonia

Na Capella entre os mais se confundia.

Neste mesmo momento o Celebrante

Ante o altar sagrado reverente

Se inclinava, e o povo circumstante

Baixava até á terra humilde a frente.

A tal vista o mancebo delirante

Seu barbaro furor desmaiar sente,

Sente expirar a raiva, e a fereza,

Trocar-se a ira em luto e em tristeza.

Os musculos contractos se relaxam,

A frente, hirta até alli, no peito inclina,

Sobre os olhos as palpebras se abaixam,

O fogo abrazador cede e declina.

Não de outra sorte as plantas vigor acham

Do orvalho na frescura matutina,

Como adoça ao mancebo o horrendo estado A pompa augusta, o cantico sagrado.

Tal quando arrebatado, e possuido

De furias infernaes, castigo horrendo,

O do povo de Deus primeiro ungido,

Co'espirito das trévas combatendo,

Fora de si, convulso, enfurecido,

Se estava entre agonias debatendo,

Da harpa de David a melodia

Seu soffrimento acerbo adormecia.

Findou porem a pompa veneranda,

Os canticos, e os ritos terminaram;

E em alas logo de uma e outra banda

Do vestibulo as gentes se formaram;

Ao pio vencedor que os rege e manda

Mil triumfaes applausos elevaram;

E em marcha triumfal, dos seus seguido,

É Affonso ao Alcacer conduzido.

Alli chegado, próve na defeza

Dos muros novamente conquistados,

Para que nem por força, nem surpreza

Possam mais ser dos mouros retomados.

Confia defender-lhe a fortaleza

Ao valor de Monteiro, e seus soldados,

Em vez de Payo, que perdido a havia

De Theotonio co'a gente a quem regia.

Mas já n'aquelle tempo o Prior Santo,

Que tal era o pensar n'aquella idade!

O baculo depondo, e o sacro manto,

Alliando a vingança co'a piedade,

Entre os mouros fizera estrago tanto

Em despique da perda da Cidade,

Que em Arronches, por elle aos seus rendida, Fôra de Affonso a lei reconhecida.

Ao tempo em que entre os sabios conselheiros O Rei a paz e a guerra discutia,

E ao longo das muralhas os guerreiros

Folgavam da conquista na alegria;

Ruy, a joven flôr dos escudeiros,

Monta o cavallo, que da Andaluzia

Aos corceis os mais bellos fôra inveja

Do manejo na pompa, ou na peleija.

Mas não sustenta o moço a redea leve

Co'a costumada e dextra gentileza,

Que ao soberbo animal motos prescreve

Que lhe dobram as graças e a belleza,

Deixa-a pender no collo airoso e breve,

E submergido em lugubre tristeza,

Sair faz ao acaso o bruto bello

Pela primeira porta do Castello.

O bruto a mão usada não sentindo

Co'a frente baixa o trilho proseguia,

Tardo no passo, o collo distendido, Partir do damno as magoas parecia;

Abandonado a si, não conduzido,

Do Lena para a margem progredia;

No sitio onde hoje sua perenne fonte

Transpõe o passageiro sobre a ponte.

O quadrupede docil, como esp'rando

A lei de seu senhor na fresca borda

Um momento parou, e o moço olhando

Com torvos olhos, como quem acorda

De sonho ingrato, e á rasão tomando,

Móres penas reaes sente, e recorda,

Distrahido lhe affaga o collo, e clina,

E para a dextra a leve redea inclina.

Não longe do logar onde se achava

Graciosa a corrente se torcia,

Alli viçosa a margem se adornava

Das plantas, que o remanso mais nutria,

Com graça ao lado opposto se elevava

Um mamillo gentil, donde surdia

Um fio de agua clara murmurando

Qual rôla entre a verdura suspirando.

A curta elevação faz que se aviste

D'alli do valle ameno a gentileza,

Ondulado terreno em frente existe

D'onde o cultura tem banido a asp'reza,

Alternada co'a vinha alli subsiste

A pallida oliveira, e a riqueza

Da loura Ceres; fecha o quadro bello

Do ceo sobre o azul negro o Castello.

Aqui pára Ruy e desmontando

A um ramo o corcel liga, e lentamente

Vai a placida fonte procurando

Onde só gemer possa livremente;

Mas junto um peregrino vê, tomando

A simples refeição, na herva jacente Seu pobre alforje está desenvolvido,