Ruy o escudeiro: Conto

Luís da Silva Mousinho de Albuquerque · Capítulo 19 de 20

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Ruy o escudeiro: Conto

Canto Sexto.

Tal está morta e pallida Donzella,

Seccas do rosto as rosas, e perdida

A branca e viva côr co'a doce vida.

C , L ., C. 3.º, E. 134.ª

 

oberbo ondeia a crina fluctuante

De Ruy o ginete bellicoso,

Atravez da floresta segue ovante

No accelerado trote pressuroso.

Excita o nobre bruto o ledo amante,

Vivo obedece o animal fogoso

Á redea, ha tanto tempo abandonada,

Que outra vez com vigor sente empunhada.

Seguindo vai o nobre aventureiro

Transportado de goso e de alegria

A direcção do campo, que o guerreiro

Povo de Christo alevantado havia.

Doce aspecto, risonho e lisongeiro, Em vez da dôr, lhe exalta a fantezia,

Todo quanto carpira, quanto amára

A fortuna propicia lhe entregára.

Do ginete nas ancas assentada

Levar se deixa de Hauzeri a filha,

Entregue a amor, e por amor guiada,

Suave esperança nos seus olhos brilha.

O rosto lindo, a fórma delicada

Da natura primor, e maravilha,

A pár do Cavalleiro armado e forte,

Realisam Cyprina com Mavorte.

Sob o braço da Bella, que o estreita,

O coração do moço arde e palpita,

Elle o sente, ella o palpa, e satisfeita

Partilha o goso, que innocente excita.

Se ella suspira, elle o suspiro aceita,

Se olha-la intenta, ella o olhar lhe evita,

Pejando-se que lêa o terno amante

Nimia expressão de amor em seu semblante.

Assim o bosque frondoso

Vão prestes atravessando,

Um silencio deleitoso

Bella, e amante guardando.

Silencio, que amor prefere

Á mais ardente expressão,

Que no fundo da alma fere,

Que transpassa o coração;

Que identifica, que enlaça

Os que a mesma idéa prende,

Que a compaixão, que a desgraça,

Que amor, que a ternura entende.

Silencio não avalia

Alma mesquinha, apoucada,

Que sempre placida e fria

Do sacro fogo é privada.

Em silencio a natureza

Vê rolar no immenso espaço

Dos orbes a redondeza

Que impelliu do Eterno o braço,

Em silencio a vaga ondosa

Rola no lago profundo,

Séria a noute magestosa

Envolve em silencio o mundo.

Em silencio o vate absorto

Antes de pulsar a lira

Recebe o influxo e conforto

Do talento que o inspira.

Em silencio meditando

Alcança o sabio a verdade,

Vai-se um silencio mirrando

O filho da adversidade.

Silencio da alma nascido,

Caracter do sentimento,

Tu es o grau mais subido

Ou do goso, ou do tormento.

Atraz deixam o bosque, e as claras fontes. Que atravez a verdura vem manando,

Co'a varia crista dos erguidos montes,

Que se está sobre as nuvens desenhando, Tingem-se de côr varia os horisontes

Co'extremo sol nas aguas mergulhando,

Os monotonos cumes apparecem

Que com o calmoso estio se encalvecem.

Ficava-lhes da parte, donde o dia

Mais refulgente vibra os esplendores,

A Arrabida, entre as nevoas, que tingia

O sol cadente de purpureas côres,

Com o ramo descendente, que estendia

Pelos equoreos campos bolidores,

Do Téjo e Sado as fozes separando

Com o Cabo do Espichel que vai formando.

Não longe, e como filho da montanha,

Ficava de Palmella o cume erguido,

Ao longe dominando na campanha,

Ao perto sobre o valle, enriquecido

Pela filha gentil de terra estranha,

Que ora alli sobre o ramo seu florido

Ostenta a um tempo a flôr, e os pomos de ouro, De perfume e frescura almo thesouro.

Jazem-lhe á dextra as aridas campinas

Onde com o vento a loura messe ondeia,

Calcareas e basalticas collinas

Onde a arvore a vista não recreia,

Mais longe as em que a limfa cristalina

Hoje em prisão marmorea se encadeia,

Roubada aos campos, á verdura, ás flores, P'ra alegrar de Lisboa os moradores.

Em frente se lhe antolha o pico altivo

Co'as naturaes collumnas enfeixadas,

Columnas que formára o fogo activo

Nas epochas remotas e apartadas,

Em que inda o touro, o cervo fugitivo

Não pasciam nos campos co'as manadas; Mas só nadantes monstros habitavam

Mares, que até aos serros se elevavam.

Logo as nuvens rompia mais distante

De Monte-junto a molle alevantada, Monte-junto, que a lomba culminante

Une a Minde ao nordeste prolongada;

As aguas dividindo, que ao levante

Vem buscar a planicie, que regada

É pelo Téjo, das que ao mar salgado

Directas vão correr no opposto lado.

Do sol quasi submerso os derradeiros

Raios as eminencias só douravam,

Das fontes e dos valles os ligeiros

Vapores os contornos desenhavam;

Sobre as nevoas os cumes dos outeiros

Quaes ilhas sobre o mar se alevantavam, E as aves com a ultima harmonia

Davam o extremo adeos ao claro dia.

Na belleza da scena que os rodeia

Fatima nem Ruy não attentavam,

Amor as faculdades lhe encadeia,

Ao delirio de amor se abandonavam.

Qual forte olmeiro a branda vide enleia,

Tal a bella e mancebo se estreitavam;

É elle o seu apoio, o seu sustento,

É ella de Ruy só pensamento.

Continúa o silencio dos amantes

Nos vivos sentimentos engolfados,

Nada sôa nos valles circumstantes

Mais que do bruto os passos compassados; Só lá dos valles nos cazaes distantes

Ladrar se ouvem os cães, sôar dos gados Monotonos chocalhos tangedores,

Com o debil som das gaitas dos pastores.

De um fraco ribeiro,

Que a calma escaceia,

Que na fralda ondeia

Do arido outeiro,

Cortava o carreiro

O leito escabroso:

O solo ondoloso

Alli se abatia,

E a senda descia

Ao váo pedragoso.

Ao pé da torrente,

Gosando a frescura,

De um chôpo a verdura

Ornava a corrente;

Da lua nascente

A luz estorvando,

A sombra alongando

Na estreita passagem,

Co'a verde folhagem

A senda toldando.

O corcel, que excita

O bellico amante,

Na marcha prestante

Um momento hesita;

Logo a orelha fita

E o trote accelera,

Ruy, que o modéra,

O fogo percebe

Que o bruto concebe

Na batalha féra.

Com o braço valente

A lança endereça,

Preme o bruto, e á préssa

Transpõe a corrente.

«Cinge estreitamente,

«Bella, o teu consorte,

«Que seu braço forte,

«Por ti animado,

«Do mais esforçado

«Desafia o córte.»

Fatima obedece,

Seu seio palpita....

N'isto uma voz grita

A Bella estremece;

No grito conhece

A aravia expressão,

Que no coração

O sangue lhe esfria.

Fugir quereria;

Mas tenta-lo é vão.

Quem vem lá?... Com voz alta e sonorosa Na arabia lingua um mouro perguntava,

Brandindo a ferrea lança temerosa

O corcel co'as espóras despertava;

Com haste igual de sangue sequiosa

Outro mouro apoz elle se mostrava:

Ruy, que os vê, e em seu valor confia;

«Christo e ElRei Affonso:» respondia.

Diz. O ginete arremeça,

Salta o bruto ardente e forte,

Co'a lançada vôa a morte

Do mouro a cotta atravessa.

Espadana o sangue infido,

De um só golpe a alma vôa,

Cahe o mouro, e com o ruido

Das armas o valle atrôa.

Torce a redea o Cavalleiro

Contra o segundo inimigo;

Mas menos forte o guerreiro

Encarar não ousa o perigo:

Do ginete á ligeireza

Da vida confia o preço,

Parte, vôa, e com destreza

Vibra a lança de arremeço.

Parte a hastea sibilando,

O fado dirige o tiro,

Cahe Fatima, e ao golpe infando

Responde um longo suspiro.

Ella cahe, ella suspira,

No seu seio palpitante

Um covarde ferro aspira

O sangue da doce amante.

Ruy no peito a sustenta

Mudo, louco, exasperado,

Nelle o olhar Fatima attenta

Quasi da morte apagado.

Fitta nelle os olhos lindos

Onde amor lucta co'a morte:

«Os meus dias estão findos,

«Adeus suave consorte!

«Amei-te mais do que a vida

«Desde esse primeiro instante

«Em que a ti fui submettida

«Por teu braço triunfante;

«Nem a crença, que então tinha,

«Nem a ausencia, nem meu fado,

«D'esse amor, essencia minha,

«Haveriam triumfado.

«Nenhum poder sobre a terra

«De Ruy me apartaria,

«Na ausencia, na paz, na guerra

«Fatima tua seria!.....

«Mas Deus não quiz que embebido

«Em doce paixão terrena,

«O premio de um escolhido

«Fosse corôa tão pequena:

«Não quiz esse Deus clemente

«Que a dita nos deslumbrasse,

«Que o nosso amor innocente

«Sobre a terra se gozasse.

«Nasci de um crime, e no crime

«Involuntario educada,

«Esse Deus, sua Lei sublime,

«Foi por mim aos pés calcada:

«Tarde conheci seu nome,

«E quando a Elle voltei

«Um peito, que amor consome,

«Imperfeito lhe votei.

«Do sangue meu a abundancia

«Possa expiar, oh Senhor,

«Os erros da minha infancia,

«O excesso do meu amor!

«Eu vejo a mãi, que me estende

«Desde o ceo amantes braços,

«Ella a alma me desprende

«Dos terrenos embaraços.

«Eu vôo, oh esposo, eu vôo

«Ao seio da Divindade

«Jà seu hymno eterno entôo

«Nos umbraes da Eternidade.

«Só d'alli, oh doce amante,

«P'ra sempre a dôr se desterra;

«Lá te aguardo, que um instante

«Vive o homem sobre a terra!

«Mas ah, se a vida me déste

«Quando á morte me arrancaste,

«Deva-te a vida celeste

«Aquella que tanto amaste.

«Derrama, á pressa, derrama

«Nesta fronte a agua da vida

«Que a seu seio Deus me chama,

«Em breve por ti seguida.»

Disse. Uma força invencivel

Deus infunde ao moço ardente.

Desce, e no elmo terrivel

Toma a agua da corrente.

Chega. Derrama-a na frente

Da Virgem agonisante.

Ella a sente, e ternamente

Une ao peito a mão do amante.

Apertou-a contra o seio,

A elle os olhos voltou,

Um suspiro aos labios veio

Exhalou-o, e expirou.

Dizem que junto ao ribeiro

Doces cantos se escutaram,

Que na noute almo luzeiro

Os pastores contemplaram.

Na seguinte madrugada.

Vindo ao sitio os guardadores,

Viram a terra escavada

Coberta de frescas flôres.

Sobre ellas um vulto annoso

Candidas roupas trajando,

N'um vôo ao ceo pressuroso

Alva pomba contemplando.

Dizem mais: que os que souberam

O caso digno de chôro,

Áquella torrente deram

O nome de Rio Mouro.

Que Ruy na sepultura

Longo tempo suspirára,

Deposta a nobre armadura,

Que do martyr Pai herdára;

Que alfim do pranto exhauridos

Os olhos seus se seccaram,

E seus ais, e seus gemidos

Para o Senhor se voltaram.

Que do ceo a queixa ouvida,

Com balsamo de alta espr'ança

Lhe sarou Deos a ferida,

Lhe mandou da alma a bonança.

De Cintra no ermo escabroso

No serro o mais retirado,

Além do monte viçoso

Monserrate ora chamado,

Dois penhascos se elevavam

Que immensa louza cobria,

E uma caverna formavam

Que ao ponente a porta abria;

Alli, dos homens remoto,

Dos seus proprios ignorado,

Ruy sob um nome ignoto

Terminou mistico fado.

Alli do nascer da aurora

Té ao ultimo fulgor

Entoava em voz sonora

Os hymnos ao Creador.

Das plantas da penedia,

Dos fructos do agreste monte,

Sua comida fazia,

Bebida lhe dava a fonte.

Assim consumiu seus annos

Á solidão consagrados,

Té que, cumpridos seus fados,

Poz Deus um termo a seus damnos.

Partiu-se de entre os humanos

Sua alma candida e pura,

Os anjos a sepultura

Entre as penhas esconderam,

E as memorias se perderam

Da sua triste aventura.

Longo tempo abandonada

Jazeu a selvagem gruta,

Do lobo, e raposa astuta

Foi longo tempo habitada.

Té que a prole sublimada

Do ultimo lume do Oriente

Um asylo penitente

No serro agreste erigiu,

E de novo alli se ouviu

O louvor do Omnipotente.

Os annos correram,

Que tudo mudando

Volvem derribando

O mesmo que ergueram;

Da suave amante

Perdeu-se a memoria,

Esqueceu-se a gloria

Do Joven brilhante.

No castello antigo

Berço a seus amores

Môchos piadores

Só tem seu abrigo;

Selvagem verdura

C'o a hera lustrosa

Da muralha annosa

Cobrem a structura:

De um lado inda a selva

Se mostra virente,

Matiza inda a relva

Do Lena a corrente,

Inda o musgo brando.

Vestindo os penedos,

S'ta nos arvoredos

Amor convidando;

Mas já não lastima

O echo das fragoas

Da triste Fatima

As pena, e as magoas.

Do Téjo na borda

Ind'hoje aos salgueiros

O batel co'a corda

Prendem os remeiros,

A humida esteira

Tranquillos sulcando,

Vem inda remando

De noute as bateiras,

Mas da Moura linda,

Do Guerreiro amante,

No bronco habitante

A memoria é finda.

De Cintra a viçosa

As frescas torrentes

Vem inda fluentes

Á selva frondosa,

Das aves ainda

Na matta sombria

A doce harmonia

Com o dia não finda,

Sua doce frescura,

Suas limpidas fontes,

Seus farpados montes

De altiva structura,

Sua luz clara e pura,

Seu ceo azulado,

Seu mar empolado,

Que o tempo venceram,

Memoria perderam

Do Pár desgraçado.

Tu só, tu, fantesia inseparavel

Das margens do meu Téjo, e seus verdores, Tu, ceo da patria, ceo incomparavel,

Que n'alma, qual no campo, espalhas flôres: Só tu resuscitaste o lamentavel