Sete Anos no Tibet

Heinrich Harrer · Capítulo 3 de 8 · parte 3/3

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Sete Anos no Tibet

Todos os nossos sonhos começam na mocidade.…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

ele. «Talvez nos encontremos em Lassa, disse ele com um sorriso. Tinha-nos falado entusiasticamente das raparigas bonitas e da boa cerveja da capital. A nossa estrada serpenteou até ao topo da cordilheira onde alcançámos a fronteira, mas não existiam postos fronteiriços tibetanos nem indianos. Nada, a não ser os habituais montículos de pedras e bandeiras de oração e o primeiro sinal de civilização na forma de um marco que dizia:

SIMLA 320 KM

Estávamos na índia uma vez mais, mas nenhum de nós fazia tenção de

permanecer muito tempo nesta terra onde um campo cercado de arame farpado nos aguardava.

3 NO TIBETE

Novamente do lado de lá da fronteira — Uma melhor recepção — Gartok, sede de um vice-rei — Mais uma viagem extenuante — Um templo vermelho com telhados dourados — Tradún — Kopp parte para o Nepal.

O meu plano era agarrar a primeira oportunidade e atravessar novamente

a fronteira para o Tibete. Estávamos convencidos de que todas as autoridades que até agora tínhamos encontrado simplesmente não tinham competência para decidir sobre o nosso caso. Desta vez teríamos de abordar alguma autoridade superior. Para tal teríamos de ir até Gartok, capital do Tibete Ocidental, e sede do governador da região.

Caminhámos alguns quilómetros pela grande e muito frequentada rota

comercial até chegarmos à primeira vila indiana, Namgya, onde podíamos ficar sem levantar suspeitas, já que vínhamos do Tibete e não das planícies indianas. Fizemo-nos passar por soldados americanos, comprámos novas provisões e dormimos num albergue público. Então separámo-nos. Aufschnaiter e Treipel desceram a estrada principal que flanqueava o Sutlej, enquanto Kopp e eu conduzimos o nosso jumento para um vale que se estendia para norte, em direcção a uma cordilheira que levava ao Tibete. Conforme os nossos mapas indicavam, primeiro teríamos de passar pelo vale de Spiti, que era habitado. Eu estava muito contente por Kopp se ter aliado a mim pois era um companheiro inteligente, prático e bem disposto e a sua veia de humor berlinense nunca se esgotava.

Durante dois dias palmilhámos a margem do rio Spiti; seguimos então um

dos vales próximos que nos levaria para além dos Himalaias. Esta região não estava bem assinalada no nosso mapa, e ficámos a saber pelos nativos que já tínhamos cruzado a fronteira ao atravessar uma ponte chamada Sangsam. Durante toda esta parte do nosso percurso tínhamos à nossa direita o Riwo Phargyul, um belo pico montanhoso com mais de 6700 metros de altitude, no topo dos Himalaias. Tínhamos entrado no Tibete num dos poucos pontos onde o território tibetano se estende até à cadeia dos Himalaias. Claro que começámos a ficar ansiosos e a imaginar até onde conseguiríamos chegar desta vez. Felizmente ninguém nos conhecia e nenhum funcionário hostil tinha voltado a população contra nós. Quando nos faziam perguntas, dizíamos ser peregrinos a caminho da montanha sagrada de Kailás.

A primeira vila tibetana que alcançámos chamava-se Kyurik, com apenas

duas casas. A seguinte, Dotso, era consideravelmente maior e deparámo-nos com um enorme grupo de monges — mais de cem — procurando troncos de choupo que iriam transportar pela cordilheira até Trashi-gang para serem usados na construção de um dos edifícios do templo. Este mosteiro é o maior da província de Tsurubyin e o seu abade é o funcionário secular mais importante. Quando encontrámos este alto dignatário, começámos a temer que a nossa jornada tivesse um fim prematuro. No entanto, quando nos interrogou, dissemos que éramos os batedores de uma grande expedição europeia que tinha obtido autorização do governo central, em Lassa, para entrar no Tibete. Ele pareceu acreditar e, bastante aliviados, prosseguimos viagem. Enfrentámos uma esgotante escalada até ao topo de uma cordilheira a que os ti-betanos chamam Búd-Biid La e que deve estar a mais de 5500 metros de altitude. O ar era desagradavelmente rarefeito e abaixo do nosso trilho podíamos avistar os picos de gelo de um glaciar vizinho.

No caminho encontrámos alguns bhutías que também seguiam para o

interior. Eram pessoas simpáticas e amigáveis e convidaram-nos para partilhar da sua fogueira e beber uma chávena de chá rançoso. Como tínhamos acampado perto, à noite trouxeram-nos um saboroso prato de espinafres selvagens.

A região pela qual viajávamos era completamente desabitada e durante os

oito dias que se seguiram só encontrámos uma pequena caravana. Tenho uma recordação nítida de uma pessoa que encontrei nesta parte da estrada, um jovem nómada agasalhado com um longo casaco de pele de carneiro e que usava uma trança como todos os homens no Tibete que não são monges. Condu-ziu-nos à sua tenda preta de pele de iaque onde o aguardava a mulher, uma criatura alegre sempre a rir-se. Dentro da tenda encontrámos um tesouro que nos fez água na boca — um pernil de veado. O nosso anfitrião alegremente nos vendeu um bocado da carne por uma ninharia, mas pediu-nos encarecidamente que mantivéssemos segredo da sua caça, pois poderia ficar em apuros. Tirar a vida a seres humanos ou animais é contra os princípios do Budismo e, consequentemente, a caça é proibida. O Tibete é governado por um sistema feudal segundo o qual homens, animais e terra pertencem ao Dalai Lama, cujas ordens são lei.

Descobri que conseguia fazer-me entender por estes companheiros

camponeses, e a sensação de que o meu conhecimento da língua estava a melhorar deu-me um grande prazer. Combinámos ir caçar juntos no dia seguinte e, entretanto, instalámo-nos confortavelmente na tenda do jovem casal. O nómada e a sua mulher foram os primeiros tibetanos bem humorados e amigáveis que conhecemos e nunca os esquecerei. O ponto alto da hospitalidade do nosso anfitrião consistiu em apresentar uma garrafa de madeira com cerveja de cevada, um líquido pastoso que não tinha qualquer semelhança com aquilo a que chamamos cerveja mas que produzia o mesmo efeito.

Na manhã seguinte fomos os três caçar. O nosso jovem amigo tinha uma

arma pré-diluviana de carregar pela boca e num bolso do casaco levava balas de chumbo, pólvora e um pau de fósforo. Quando avistámos o primeiro rebanho de cabras selvagens foi com muito custo que acendeu o fósforo com o auxílio de uma pederneira. Estávamos ansiosos por saber como esta peça de museu iria funcionar. Ouviu-se um estrondo de trovão e quando consegui livrar-me da nuvem de fumo não havia sequer vestígios de cabras. Avistámos então o rebanho que se afastava a galope; antes de desaparecerem por trás de uma crista da montanha, algumas viraram-se e lançaram-nos um olhar de desdém. Só nos restava rir da nossa própria falta de jeito, mas para não regressarmos de mãos a abanar apanhámos algumas cebolas selvagens que crescem por toda a parte nas encostas e que combinam tão bem com a carne de veado. A mulher do nosso amigo parecia estar já acostumada à má sorte do marido nas caçadas. Quando nos viu chegar sem qualquer peça de caça desatou a rir, e os seus olhos rasgados quase desapareciam na sua hilaridade. Tinha preparado cuidadosamente uma refeição com alguma carne que o marido tinha caçado dias antes e agora dedicava-se entusiasticamente a cozinhá-la. Nós assistíamos à operação e ficámos um pouco atónitos quando ela, sem o mínimo constrangimento, tirou a parte de cima do seu manto de pele, em cuja cintura usava um colorido cinto. A pesada pele do manto obstruía-lhe os movimentos e por isso despiu-se até à cintura e continuou as suas tarefas alegremente. Mais tarde encontrámos frequentemente exemplos semelhantes de naturalidade espontânea. Foi com grande pesar que nos separámos deste casal amigável e fi-zemo-nos ao caminho com as nossas barrigas cheias de óptima carne fresca. A medida que prosseguíamos, avistávamos com frequência os vultos negros dos iaques selvagens que pastavam à distância nas encostas das montanhas. A visão destes iaques incitou o nosso burro a tentar a independência: precipitou-se através de um riacho e antes que o pudéssemos alcançar sacudiu do lombo as nossas mochilas. Fomos atrás dele gritando imprecações e conseguimos apanhá-lo. Enquanto nos ocupávamos a secar as nossas coisas numa margem do rio, duas figuras surgiram subitamente no nosso horizonte. Reconhecemos o primeiro imediatamente pelo seu passo regular e lento de montanhista — era Peter Aufschnaiter e um carregador alugado. Poderá pensar-se que tal encontro num lugar destes é inverosímil; mas como só através de certos vales e desfiladeiros é que se pode ultrapassar a cadeia de montanhas, tanto nós como Peter tínhamos escolhido um destes trajectos mais acessíveis. Depois de uma calorosa recepção, Aufschnaiter começou a contar-nos o que lhe tinha acontecido entretanto. A 17 de Junho tinha-se separado de Treipel, que partira para a índia a cavalo, com a intenção de se fazer passar por inglês. Tinha comprado o cavalo com o seu último dinheiro. Aufschnaiter por sua vez tinha estado doente, mas quando recuperou veio atrás de nós. No caminho tinha ouvido algumas das últimas notícias da guerra, que escutámos avidamente embora estivéssemos noutro mundo.

A princípio Aufschnaiter não queria vir connosco para Gartok, pois

acreditava que seríamos novamente expulsos do país e que seria mais sensato seguir directamente para o Tibete central e aí juntarmo-nos aos nómadas. Por fim, prosseguimos todos juntos e Aufschnaiter e eu continuámos juntos durante anos. Se tudo corresse bem, sabíamos que dentro de cinco dias estaríamos em Gartok. Tivemos de atravessar uma outra cordilheira a grande altitude, a Bongru La. Acampar nestes tempos não era nenhum prazer. A 5200 metros as noites eram geladas!

Alguns pequenos incidentes quebravam a rotina. Numa ocasião foi o

espectáculo de uma luta entre dois burros selvagens, dois garanhões que provavelmente disputavam a primazia sobre as éguas da manada. Voavam pedaços de terra e o terreno tremia sob os seus cascos. Os adversários estavam tão concentrados na sua luta que nem repararam nos observadores. Entretanto, as éguas, ávidas de sensações, dançavam em volta e a arena frequentemente desaparecia sob uma nuvem de poeira.

Depois de atravessar duas cordilheiras tínhamos os Himalaias atrás de nós

mais uma vez; e eu estava contente por isso, pois aproximávamo-nos finalmente de regiões mais quentes. Na descida para o vale do Indus encontrámos uma coluna de iaques que transportava lã para a índia.

 

Ficámos admirados pelo tamanho e comprimento destas bestas. Os seus condutores também eram jovens bem constituídos que, a despeito do frio cortante, andavam em tronco nu. Homens e mulheres usavam os seus casacos de pele virados do avesso, com a pele encostada ao corpo, mantendo os braços fora das mangas para não dificultar os movimentos. Os condutores impulsionam os iaques atirando-lhes pedras e usam o mesmo método para os manter nos trilhos. Não pareciam minimamente interessados em nós e prosseguimos o nosso caminho sem interrupções.

Caminhámos durante cinco dias consecutivos ao longo das águas do Indus

antes de chegarmos a Gartok. O cenário era inesquecível. As cores encantavam a vista e eu raramente presenciara todos os tons da paleta tão harmoniosamente misturados. Paralelamente às águas límpidas do Indus havia campos de bórax de um amarelo claro, com os rebentos verdes da Primavera a crescerem por perto (pois nestas regiões a Primavera só chega em Junho). Ao fundo brilhavam os picos de neve.

A primeira vila no lado mais distante dos Himalaias é Trashigang, apenas

algumas casas agrupadas em redor de um convento semelhante a um forte e cercado por um fosso. Mais uma vez encontrámos uma população mal disposta, mas a nossa aparição não os espantou e não nos causaram problemas. Desta vez tínhamos chegado precisamente na época em que os comerciantes indianos afluem a esta região para comprar lã. Não tivemos dificuldade em comprar provisões a esta gente. Aufschnaiter tentou em vão trocar a sua pulseira de ouro por dinheiro. Se tivesse conseguido, poderia ter seguido directamente para o interior do Tibete sem passar por Gartok. Durante toda a nossa marcha fomos repetidamente abordados por tibetauos a cavalo, de aspecto próspero, que perguntavam o que tínhamos para vender. Como não tínhamos criados e conduzíamos um burro de carga, imaginavam que éramos negociantes. Convencemo-nos de que o tibetano, pobre ou rico, é um negociante nato para quem o comércio e a troca são a principal paixão.

Pelas nossas leituras sabíamos que Gartok era a capital do Tibete

Ocidental e sede do vice-rei; os nossos livros de Geografia indicavam que era a cidade mais alta do mundo. Porém, quando finalmente vimos este famoso lugar mal pudemos conter o riso. A primeira coisa que avistámos foram umas poucas tendas de nómadas espalhadas pela imensa planície; de seguida, vimos algumas barracas de tijolo de lama seca. Era isto Gartok. A excepção de alguns cães vadios, não existiam sinais de vida.

Montámos a nossa pequena tenda na margem do Gar-tang-Chu, um

afluente do Indus. Por fim, alguns curiosos aproximaram-se e por seu intermédio ficámos a saber que nenhuma das altas patentes estava na cidade e que só o representante do «segundo vice-rei» nos poderia receber. Decidimos submeter a nossa petição a esta personalidade imediatamente. Ao entrar no seu escritório tivemos que nos baixar pois não havia porta, apenas um buraco na parede na frente do qual pendia uma cortina sebenta. Entrámos para um quarto mal iluminado, com papel colado às janelas. Quando os nossos olhos se acostumaram à escuridão distinguimos um homem de aparência inteligente e distinta sentado como um Buda no chão à nossa frente. Da sua orelha esquerda pendia um brinco com pelo menos quinze centímetros de comprimento, sinal da sua patente. Também estava presente uma mulher que era esposa do funcionário ausente. Atrás de nós comprimia-se uma multidão de crianças e criados que desejavam observar de perto estes peculiares estrangeiros.

Convidaram-nos a sentarmo-nos e ofereceram-nos carne seca, queijo,

manteiga e chá. A atmosfera era cordial e aqueceu-nos o coração e a conversa decorreu de um modo desembaraçado com a ajuda de um dicionário in-glês-tibetano e gestos suplementares. As nossas esperanças aumentavam rapidamente, mas abstivemo-nos de revelar todas as nossas preocupações nesta primeira entrevista. Dissemos que éramos fugitivos alemães e implorámos pela hospitalidade do Tibete neutro.

No dia seguinte, levei ao representante alguns remédios como presente.

Ficou muito satisfeito e pergun-tou-me como usá-los, e eu escrevi algumas indicações. Nessa altura arriscámo-nos a perguntar-lhe se não poderia conceder-nos um salvo-conduto para viajar. Não recusou directamente, mas pediu-nos para aguardarmos o regresso do seu chefe, que estava em peregrinação ao Monte Kailás e que chegaria dentro de alguns dias.

Nesse interregno fizemos uma boa amizade com o representante. Dei-lhe

uma lente que servia para acender fogo, um objecto que no Tibete pode ser muito útil. O habitual presente de retribuição não se fez esperar. Uma tarde, alguns carregadores trouxeram-nos manteiga, carne e farinha. E pouco depois veio o próprio representante, acompanhado por um séquito de criados, para retribuir a nossa visita. Quando viu como as nossas instalações eram rudimentares não conseguiu esconder o espanto pelo facto de haver europeus levando uma vida tão simples.

No entanto, à medida que se aproximava a altura do regresso do seu

chefe, a sua amizade começou a esmorecer e quase abandonou completamente a nossa companhia. A responsabilidade começava a oprimi-lo. De facto, chegou ao ponto de recusar vender-nos provisões; felizmente, porém, havia comerciantes indianos prontos a ajudarem-nos por bom dinheiro.

Certa manhã ouvimos o som de campainhas à distância, à medida que

uma enorme caravana de mulas se aproximava da vila. A frente marchavam soldados seguidos por um enxame de criados masculinos e femininos e a seguir membros da nobreza tibetana, também montados, que víamos agora pela primeira vez. O mais importante dos dois vice-reis, a quem no Tibete chamam Garpõns, estava a chegar. Ele e a sua mulher vestiam esplêndidos robes de seda e carregavam pistolas nos seus cinturões. Toda a vila se reuniu para assistir ao espectáculo. O Garpón deslocou-se solenemente em procissão ao templo para agradecer aos deuses ter regressado são e salvo da sua peregrinação.

Aufschnaiter compôs uma breve carta a solicitar a nossa audiência. Como

não recebemos nenhuma resposta, ao fim da tarde fomos visitar o Garpõn. No essencial a sua casa não era diferente da do representante, mas o interior era mais limpo e de melhor qualidade. O Garpõn é uma autoridade de alta patente e enquanto exerce é investido com o quarto grau na hierarquia da nobreza. É responsável por cinco distritos administrados por nobres dos quinto, sexto e sétimo graus. Durante a sua permanência no cargo usa um amuleto de ouro no cabelo, mas só o pode usar enquanto está de serviço em Gartok. Em Lassa é rebaixado ao quinto grau. Todos os nobres no Tibete são classificados em sete categorias, à primeira das quais apenas pertence o Dalai Lama. Todos os funcionários seculares usam o cabelo apanhado no topo da cabeça; os monges têm a cabeça rapada e a população comum usa trança.

Por fim fomos levados à presença deste potentado. Explicámos-lhe o

nosso caso detalhadamente e ele ou-viu-nos com uma bondosa paciência. Muitas vezes não conseguia disfarçar um sorriso por causa do nosso tibetano deficiente, enquanto os seus servos riam à gargalhada. Esta descontracção acrescentou um certo interesse à nossa conversa e criou uma atmosfera amigável. O Garpòn prometeu estudar cuidadosamente o nosso caso e discuti-lo com o representante do seu colega. No fim da audiência fomos tratados hospitaleiramente e ofereceram-nos chá preparado à moda europeia. Mais tarde o Garpõn enviou presentes às nossas tendas e começámos a ter esperanças num resultado feliz.

A audiência seguinte foi bastante mais formal mas ainda cordial. Tratava-

se de uma reunião oficial normal. O Garpõn sentou-se numa espécie de trono e a seu lado, num banco mais baixo, estava o representante do seu colega. Numa pequena mesa estava uma pasta com cartas escritas em papel tibetano. O Garpõn informou-nos de que só poderia conceder-nos autorização e transporte para chegarmos à província de Ngari. Em circunstância alguma nos seria permitido entrar nas províncias interiores do Tibete. Discutimos rapidamente o assunto entre nós e sugerimos que nos desse autorização para viajar para a fronteira do Nepal. Depois de alguma hesitação prometeu transmitir o nosso pedido ao governo em Lassa, mas explicou que a resposta poderia demorar meses a chegar. Não desejávamos esperar tanto tempo em Gartok. Não tínhamos desistido da ideia de prosseguir para oriente e estávamos ansiosos por continuar a viagem a qualquer custo. Como o Nepal era um país neutro que se situava na direcção em que queríamos ir, considerámos que o resultado das negociações era satisfatório.

O Garpõn convidou-nos então gentilmente para permanecermos alguns

dias como seus convidados, pois era necessário ainda providenciar um guia e animais de carga. Ao fim de três dias os nossos salvo-condutos foram-nos entregues. Estipulavam que a nossa rota deveria passar pelos seguintes lugares — Ngakhyu, Sersok, Mõntse, Bar-kha, Tokchen, Lhõlung, Shamtsang, Truksum e Gyabnak. Determinava também que tínhamos direito a requisitar dois iaques. Uma cláusula muito importante requeria aos habitantes que nos vendessem provisões a preços locais e nos cedessem gratuitamente combustível e criados para as noites.

Estávamos muito contentes por ter obtido tantas facilidades. O Garpõn

convidou-nos para um jantar de despedida durante o qual consegui vender-lhe o meu relógio. Depois pediu a nossa palavra de honra em como não pretendíamos partir para Lassa.

Finalmente, a 13 de Julho despedimo-nos de Gartok e iniciámos a nossa

viagem. A nossa pequena caravana tinha agora proporções decentes: dois iaques e o seu condutor e o meu jumento, que agora estava em boa forma e carregava apenas um bule de chá. A seguir vinha o nosso guia a cavalo, um jovem tibetano chamado Norbu, enquanto nós, os três europeus a pé, formávamos modestamente a retaguarda.

Viajávamos já há quatro semanas. Durante todo o mês seguinte não

passámos por qualquer lugar habitado — apenas campos de nómadas e casas tasam isoladas que funcionam como postos de muda e onde se pode trocar os iaques e encontrar alojamento.

Numa destas tasam consegui trocar o meu burro por um iaque. Fiquei muito orgulhoso com o negócio que assim multiplicava as minhas posses, mas a minha satisfação durou pouco — a besta revelou-se tão teimosa que de boa vontade me livraria dela. De facto, mais tarde tive a oportunidade de a trocar por um animal mais novo e mais pequeno. Também esta criatura me arranjou problemas e só depois de lhe perfurar o nariz com uma argola de madeira de zimbro atada a uma corda é que consegui mantê-lo na estrada. Chamávamos-lhe Armin.

A região pela qual viajávamos há dias tinha uma beleza inigualável. As

vastas planícies apresentavam pedaços de terreno montanhoso com pequenas cordilheiras. Frequentemente tínhamos de passar a vau correntes rápidas de água gelada. Enquanto estávamos em Gartok, ocasionalmente tinham caído aguaceiros de granizo, mas agora o tempo era quase sempre bom e quente. Por esta altura, todos tínhamos longas barbas que ajudavam a proteger—nos do sol. Já não víamos um glaciar há muito tempo, mas quando nos aproximávamos de uma tasam em Barkha avistámos uma cadeia de glaciares que reluziam com o sol. O relevo era dominado pelo pico de Guria Mandhata a 7600 metros; não tão aparatosa, mas bem mais famosa, era a montanha sagrada de Kailás, 900 metros mais abaixo, que se ergue majestosamente isolada, separada da cadeia dos Himalaias. Quando a avistámos pela primeira vez, os nossos tibetanos prostraram-se no chão e rezaram. Para os budistas e hindus esta montanha é o lar dos seus deuses e o maior desejo de todos os devotos é visitá-la como peregrino uma vez na vida. Os fiéis viajam frequentemente milhares de quilómetros para a alcançar e passam anos em peregrinação. Durante a viagem sobrevivem de esmolas e esperam que a sua recompensa seja uma encarnação superior numa vida futura. Estradas de peregrinos convergem para aqui de todos os pontos cardiais. Nos lugares em que é possível avistar a montanha amontoam—se pedras que ao longo dos séculos alcançaram proporções gigantescas, numa manifestação de pureza quase infantil dos peregrinos que, em obediência à tradição ancestral, acrescentam novas pedras ao monte. Nós também gostaríamos de viajar em redor da montanha como fazem os peregrinos, mas o antipático encarregado do posto de muda de Barkha impediu-nos, ameaçando cancelar as nossas regalias de transporte caso não continuássemos o nosso caminho.

Durante dois dias inteiros tivemos os glaciares para admirar. Como

montanhistas, éramos mais fortemente atraídos pelo majestoso Guria Mandhata, espelhado nas águas do lago Manasarovar, do que pela Montanha Sagrada. Montámos as nossas tendas na margem do lago e regalámos a vista com a soberba paisagem desta tremenda montanha que parecia nascer dentro do lago. Este é seguramente um dos locais mais bonitos do mundo. O lago é considerado sagrado e à sua volta encontram-se muitos templos pequenos onde os peregrinos se alojam e se dedicam às suas orações. Muitos destes peregrinos rastejam de joelhos à volta do lago e levam para casa cântaros com água sagrada. Todos eles se banham nas águas geladas. Nós também o fizemos, embora não por devoção. Aqui quase entrei em apuros. Depois de me ter afastado um pouco da margem a nado, caí num local pantanoso donde só consegui sair com enorme esforço. Os meus camaradas não repararam na minha luta desesperada para sair da lama.

Como estávamos adiantados em relação à peregrinação, a maioria das

pessoas que encontrámos eram comerciantes. Também vimos muita gente de aspecto suspeito, pois esta região é o Eldorado dos ladrões, que dificilmente resistem à tentação de atacar os negociantes que frequentam os mercados. O maior mercado da região é Gya-nyima, com centenas de tendas formando um enorme acampamento onde se compra e vende. As tendas dos indianos são feitas de um material barato à base de algodão, enquanto as dos tibetanos são de pele de iaque entrelaçado e tão pesadas que é preciso um ou mesmo dois iaques para as carregarem.

Durante umas horas vagueámos ao longo do lago em direcção a oriente e

sentimo-nos como se estivéssemos num passeio à beira-mar. O nosso deleite com a beleza da paisagem só foi perturbado pelos mosquitos que não nos largaram enquanto não nos afastámos do lago.

A caminho de Tokchen encontrámos uma caravana de aspecto importante.

Era o novo governador distrital de Tsaparang a caminho do seu posto em Lassa. Parámos na berma da estrada e o nosso guia, com quem realmente nunca tínhamos feito amizade, fez uma profunda vénia e pôs a língua de fora em sinal de saudação — um retrato perfeito de subserviência. Explicou a nossa presença: as armas que nos tinham sido apontadas foram afastadas e deram-nos fruta seca e castanhas.

Já não havia vestígios de superioridade europeia nas nossas pessoas.

Vivíamos como nómadas, nos últimos três meses tínhamos dormido principalmente ao relento, e os nossos padrões de conforto eram inferiores aos da população nativa. Independentemente do tempo, acampávamos, cozinhávamos e acendíamos as nossas fogueiras ao ar livre, enquanto os nómadas encontravam abrigo nas suas tendas. Mas se parecia termos decaído na vida, a nossa inteligência não estava embotada e as nossas mentes estavam continuamente ocupadas. Poucos europeus tinham estado nestas regiões e nós sabíamos que tudo o que observávamos poderia ter valor futuramente. Nessa altura ainda pensávamos que iríamos regressar à civilização dentro de algum tempo. Os perigos e esforços comuns tinham— nos unido num estreito laço de camaradagem; cada um conhecia as virtudes e defeitos do outro, e assim conseguíamos ajudar-nos mutuamente em momentos de depressão.

Prosseguimos através de cordilheiras a baixa altitude até chegarmos à

nascente do Brahmaputra, a que os tibe-tanos chamam Tsangpo. Esta região não é apenas de importância religiosa para os peregrinos; é também altamente interessante em termos geográficos pois contém as nascentes do Indus, do Sutlej, do Karnali e do Brahmaputra. Para os tibetanos, que estão acostumados a atribuir um significado religioso e simbólico a todas as designações, os nomes destes rios estão associados aos animais sagrados — o leão, o elefante, o pavão e o cavalo.

Durante a quinzena seguinte seguimos o curso do Tsangpo, alimentado

por diversos afluentes oriundos dos vizinhos Himalaias e que alarga cada vez mais, e quanto maior fica mais tranquila se torna a sua corrente. Agora o tempo mudava constantemente. Num espaço de minutos, congelava-se ou assava-se à luz do sol alternadamente. Tempestades de granizo, chuva e sol sucediam-se rapidamente — uma manhã, ao acordar, encontrámos a nossa tenda enterrada na neve, que em poucas horas derreteu com o sol quente. As nossas roupas europeias eram muito pouco apropriadas para estas contínuas mudanças de temperatura e invejávamos os práticos casacos de pele de ovelha dos tibetanos, atados à cintura e com mangas suficientemente compridas para servirem de luvas.

Não obstante estes inconvenientes, progredíamos, parando sempre que encontrávamos um albergue. De tempos a tempos tínhamos a visão dos Himalaias, cuja beleza natural supera qualquer outra coisa que eu tenha visto. Encontrávamos cada vez menos nómadas e as únicas criaturas vivas que vimos na margem direita do Brahmaputra eram gazelas e onagros. Aproximávamo-nos agora de Gyabnak, o último nome na lista de localidades mencionadas no nosso salvo-conduto. Daqui em diante a autoridade do nosso amigo cessava. A decisão sobre o que fazer em seguida foi-nos retirada, pois no terceiro dia da nossa estadia em Gyabnak chegou um ofegante mensageiro que nos convocou imediatamente para Tradún. Dois funcionários de alta patente queriam ver-nos. Não lamentámos deixar Gyabnak, que era tão pequeno que dificilmente merecia o nome de povoação, pois tinha uma casa, pertencente a uma autoridade monástica da província de Bongpa. A tenda nómada mais próxima estava a mais de uma hora de marcha. Partimos imediatamente e passámos a noite num lugar solitário apenas habitado por burros selvagens.

Hei-de recordar sempre o dia que se seguiu: tive uma das mais bonitas

experiências que já vivi. A medida que caminhávamos avistámos à distância as torres douradas e reluzentes de um templo. Acima delas, resplandecendo sob o sol matinal, erguiam-se tremendas falésias de gelo, e gradualmente apercebemo-nos de que estávamos a olhar para o trio gigante: Dhaulagiri, Annapurna e Manaslu. Como Tradún e as suas torres de filigrana ficavam na extremidade da planície, ainda tínhamos muitas horas para apreciar a paisagem destas imponentes montanhas. Nem mesmo a necessidade de atravessar a vau as águas geladas do Tsachu atenuou a nossa excitação. Era de noite quando entrámos em Tradiin. Sob os últimos raios do sol poente o templo vermelho com o seu telhado dourado assemelhava-se a um palácio de fadas na encosta. As casas dos habitantes, as usuais construções de tijolos de lama, ficavam atrás da colina para as abrigar do vento. Encontrámos toda a população reunida à nossa espera em silêncio. Fomos imediatamente levados para uma casa preparada para nós. Mal tínhamos descarregado a nossa bagagem quando chegaram vários criados que nos convidaram a ir ter com os seus mestres. Acompanhámo—los cheios de expectativa até à casa de dois importantes funcionários.

Caminhámos por entre uma multidão sussurrante de criados até ao interior

de uma sala de generosas proporções onde, no mais alto dos lugares, estava sentado um sorridente e bem alimentado monge e a seu lado, ao mesmo nível, o seu colega secular. Um pouco mais abaixo estavam sentados um abade, a autoridade monástica de Gyab-nak e um mercador do Nepal. O mercador falava algumas palavras em inglês e actuava como intérprete. Tinham preparado um banco com almofadas de forma a que não tivéssemos de nos sentar no chão, de pernas cruzadas como os tibetanos. Ofereceram-nos bolos e chá e o interrogatório foi educadamente adiado. Por fim, pediram-nos para apresentarmos o nosso salvo-conduto e passaram-no de mão em mão, sendo cuidadosamente estudado por todos os presentes. Houve então um momento de silêncio opressivo. Os dois funcionários expuseram as suas apreensões. Seríamos realmente alemães? Era simplesmente incrível que fôssemos prisioneiros de guerra, fugitivos, e muito mais provável que fôssemos ingleses ou russos. Mandaram-nos ir buscar a nossa bagagem, que expuseram e espalharam no chão do pátio para a examinarem cuidadosamente.

A sua maior preocupação era a ideia de que poderíamos ter armas ou equipamento transmissor e foi difícil persuadi-los de que não tínhamos nada disso. As únicas coisas entre os nossos pertences que levantaram suspeitas foram uma gramática tibetana e um livro de História.

O nosso salvo-conduto atestava que queríamos ir para o Nepal. A ideia

parecia agradar aos nossos interrogadores e prometeram ajudar-nos em tudo o que fosse necessário. Disseram que poderíamos seguir no dia seguinte e que atravessando a cordilheira de Korela estaríamos no Nepal em dois dias. Isto não nos servia de modo algum. Desejávamos permanecer no Tibete a qualquer custo e estávamos determinados a não desistir sem oferecer resistência. Implorámos pelo direito ao asilo, martelámos no tema da neutralidade tibetana e comparámos a situação do Tibete com a da Suíça. Teimosamente, mas de forma educada, os funcionários insistiram nas condições impostas pela nossa autorização de viagem. No entanto, durante a nossa temporada no Tibete tínhamo-nos familiarizado com a mentalidade dos asiáticos e sabíamos que era contra as suas regras ceder facilmente. O resto da nossa discussão passou-se na mais perfeita calma. Bebemos chávenas de chá sem conta e os nossos anfitriões informaram-nos de que estavam numa missão de colecta de impostos e que em Lassa não eram pessoas tão importantes como pareciam ser em Tradún. Viajavam com vinte criados e um grande número de animais de carga, e por isso ficava-se com a impressão de que eram, no mínimo, ministros.

Antes de os deixarmos, afirmámos claramente que desejávamos

permanecer em Tradún por mais alguns dias. No dia seguinte, um criado trouxe-nos um convite dos Põnpos — como são chamadas todas as altas individualidades no Tibete — para almoçar com eles. Ofereceram-nos uma maravilhosa refeição de massa chinesa e penso que devíamos parecer esfomeados, a julgar pelas enormes quantidades de comida que empilharam nos nossos pratos. Ficámos muito impressionados com a habilidade com que manejavam os pauzinhos e foi com grande espanto que os víamos apanhar grãos de arroz um a um. A admiração mútua ajudou a criar uma atmosfera amigável e houve muita gargalhada. No fim da refeição a cerveja servida aumentou a alegria do encontro. Reparei que os monges não bebiam.

A conversa encaminhou-se gradualmente para os nossos problemas e

disseram-nos que as autoridades tinham enviado uma carta para o governo central em Lassa com o nosso pedido para permanecer no Tibete. Disseram-nos para escrever uma petição em inglês, que os dois funcionários queriam enviar juntamente com a sua carta. Fizemos isto de imediato e a petição foi anexada à carta oficial que já tinha sido preparada. Foi selada com a devida cerimónia e entregue a um mensageiro que partiu imediatamente para Lassa.

Mal podíamos acreditar na recepção calorosa que recebêramos e na

autorização para ficarmos em Tradiin até que a resposta de Lassa chegasse. A nossa experiência com funcionários inferiores não tinha sido satisfatória, por isso pedimos confirmação por escrito da autorização verbal para residir em Tradiin, o que nos foi concedido. Regressámos às nossas acomodações felizes por tudo ter corrido tão bem. Mal tínhamos chegado quando a porta se abriu e uma autêntica procissão de criados bastante carregados encaminhou-se para o interior. Traziam-nos sacos de farinha, arroz e tsampa, assim como quatro ovelhas já esquartejadas. Não sabíamos quem tinha mandado estes presentes, mas o encarregado que acompanhava os carregadores explicou-nos que tinham sido enviados pelos dois funcionários. Quando tentámos agradecer-lhe, o encarregado declinou modestamente todo o mérito, e ninguém parecia disposto a admitir a acção generosa. Quando nos despedíamos, o afável tibetano disse algo que viria a ser de grande proveito para mim. A pressa dos europeus não tem lugar no Tibete. Temos de aprender a ser pacientes se desejamos alcançar os nossos objectivos.

Entretanto, sentados ali sozinhos apreciávamos os presentes e mal

podíamos acreditar na mudança da nossa sorte. O nosso pedido de permissão para residir no Tibete estava a caminho de Lassa e tínhamos agora provisões suficientes para meses. Como abrigo agora tínhamos um espesso telhado em vez de uma inconsistente tenda, e uma empregada — diabos! nem nova nem bonita — para acender o fogo e ir buscar água. Lamentávamos não ter nada de valor que pudéssemos enviar ao Põnpo em sinal da nossa gratidão. Só nos restavam alguns medicamentos para lhe oferecer, mas esperávamos por uma oportunidade para expressar o nosso agradecimento devidamente. Assim como em Gartok, aqui tivemos ocasião de conhecer a cortesia dos nobres de Lassa, sobre os quais eu tinha lido tantos elogios nos livros de Sir Charles Bell.

Como iríamos ficar meses aqui, fizemos planos para passar o tempo.

Devíamos sem falta fazer expedições às regiões de Annapurna e Dhaulagiri e às planícies do norte. Mas pouco depois recebemos a visita do abade que nos auxiliara a pedido do encarregado. Disse-nos que a nossa permanência em Tradún só fora aprovada na condição de nunca nos afastarmos da cidade mais do que um dia de marcha. Podíamos fazer excursões aonde quiséssemos contanto que voltássemos ao anoitecer. Se não obedecêssemos a estas instruções, seria obrigado a informar Lassa e isso iria sem dúvida prejudicar todo o nosso caso.

 

A aldeia consistia em cerca de vinte casas dominadas pela colina onde se

erguia o convento que apenas abrigava sete monges. As casas da aldeia eram estreitas e amontoadas umas sobre as outras, mas cada casa tinha o seu próprio quintal, no qual armazenavam mercadorias. Todos os habitantes da aldeia estavam de alguma forma relacionados com o comércio ou o transporte; os verdadeiros nómadas viviam espalhados pela planície. Tivemos oportunidade de assistir a vários festivais religiosos, o mais impressionante dos quais foi o agradecimento pelas colheitas. Já tínhamos estabelecido um relacionamento amigável com todos os habitantes e costumávamos medicá-los, com particular sucesso no tratamento de ferimentos e cólicas.