Sete Anos no Tibet

Heinrich Harrer · Capítulo 3 de 8 · parte 2/3

Páginas do PDF

Sete Anos no Tibet

Todos os nossos sonhos começam na mocidade.…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Estava livre!

O silêncio era total. Apesar da minha excitação, não consegui suster o riso

ao pensar que Marchese, de acordo com o nosso plano, continuava a insultar-me enquanto o guarda florestal nos vigiava da sua cama em frente à nossa janela.

Contudo, eu tinha que prosseguir e, na minha pressa, corri de encontro a

um rebanho de ovelhas. Antes de poder retroceder, um cão pastor aferrou-se aos fundilhos das minhas calças e não largou enquanto não arrancou um pedaço. Fugi dali aterrorizado, mas logo descobri que o caminho era demasiado íngreme e assim tive de recuar e contornar o rebanho de rastos até encontrar outro caminho. Pouco depois da meia-noite tive de admitir que me perdera novamente. Mais uma vez fui obrigado a retroceder, ofegante, alguns quilómetros. As minhas deambulações já me tinham custado quatro horas e já raiava a luz do dia. Ao transpor uma curva avistei um urso a uma distância de cerca de dezoito metros. Felizmente afastou-se, sem aparentemente ter reparado em mim.

Quando já era dia claro escondi-me outra vez, embora a área não

revelasse quaisquer sinais de presença humana. Eu sabia que antes de chegar à fronteira com o Tibete deveria encontrar uma vila após a qual se encontrava a liberdade. Caminhei durante toda a noite seguinte e gradualmente comecei a estranhar o facto de ainda não ter alcançado a fatídica vila. Segundo os meus apontamentos, situava-se na margem oposta do rio e estava ligada à margem de cá por uma ponte. Ocorreu-me que poderia ter passado por ela, mas consolei-me com a ideia de que uma vila dificilmente podia passar despercebida. E assim prossegui a minha caminhada, descuidado, mesmo depois do dia raiar.

Ao contornar um amontoado de pedregulhos deparei que estava no meio

das casas de uma vila diante da qual um aglomerado de aldeões gesticulava. O lugar estava erroneamente indicado no meu mapa; e como por duas vezes me tinha perdido durante a noite, os meus perseguidores tiveram tempo para me ultrapassar. Fui imediatamente cercado e intimado a render-me, após o que me conduziram para uma casa e me ofereceram de beber.

Aqui encontrei pela primeira vez autênticos nómadas tibetanos, que

entram na índia com os seus rebanhos de ovelhas e cargas de sal e regressam carregados com cevada. Ofereceram-me chá tibetano com tsampa, a principal comida deste povo e que veio a ser a base da minha alimentação durante anos. O meu primeiro contacto com ela afectou o meu estômago de forma desagradável.

Passei duas noites nesta vila que se chamava Nelang, ponderando

vagamente a ideia de outra tentativa de fuga, mas estava muito cansado e abatido para pôr os meus pensamentos em prática.

Em comparação com os meus esforços anteriores, a viagem de regresso parecia um passeio turístico. Não tinha de carregar a mochila e era muito bem tratado. No caminho encontrei Marchese, que o guarda florestal convidou para o seu hungalow privado. Fui convidado a ficar com eles. E qual não foi o meu espanto quando uns dias depois trouxeram dois outros fugitivos, membros da nossa companhia no campo de prisioneiros de guerra — Peter Aufschnaiter, meu camarada na expedição a Nanga Par-bat e um tal padre Calenberg.

Entretanto, tinha começado a ocupar a minha mente com planos para mais uma fuga. Fiz amizade com um guarda indiano que cozinhava para nós e que me parecia inspirar confiança. Entreguei-lhe os meus mapas, a bússola e o dinheiro, pois sabia que seríamos revistados antes de sermos readmitidos no campo e que seria impossível introduzir estas coisas connosco. Disse então ao indiano que voltaria na Primavera seguinte para recolher os meus pertences. Ele deveria pedir uma licença em Maio e aguardar o meu regresso, o que prometeu cumprir solenemente. Portanto, agora tínhamos de regressar ao campo e só a minha determinação em evadir-me novamente me permitiu suportar a amargura da minha decepção.

Marchese continuava doente e não podia caminhar, por isso deram-lhe um cavalo. Outra agradável interrupção foi a recepção pelo Marajá de Tehri-Garwhal, que nos tratou da forma mais hospitaleira. Retomámos então à nossa reclusão de arame farpado.

Este episódio da minha fuga tinha deixado uma marca visível na minha pessoa, que se revelou quando tomei banho numa nascente de água quente. Descobri então, que o meu cabelo caía às mãos-cheias. A tintura que eu tinha usado para o meu disfarce indiano era certamente perniciosa.

Como resultado da minha depilação involuntária e de todos os esforços

por que passara, os meus camaradas no campo tiveram dificuldade em me reconhecer quando cheguei.

1 Sahib — patrão, senhor. A população nativa refere-se assim ao indivíduo

de raça branca. (N. do T.)

 

2 FUGA

 

Uma encenação arriscada — Sigo a mesma estrada — O Tibete não aceita estrangeiros — Retomamos a nossa peugada — De volta à índia.

«A sua fuga foi bastante ousada. Lamento ter que o punir com vinte e oito

dias, disse o coronel inglês à nossa chegada ao campo. Eu tinha gozado trinta e oito dias de liberdade e agora tinha que passar vinte e oito confinado à solitária. Era a medida disciplinar normal para os casos de fuga. No entanto, como o inglês encarava de forma desportiva a nossa arriscada iniciativa, fui tratado com menos rigor do que o habitual.

Quando terminei de cumprir o meu castigo, ouvi dizer que Marchese tinha

tido o mesmo destino numa outra parte do campo. Mais tarde tivemos oportunidade de conversar sobre as nossas experiências. Marchese prometeu ajudar-me na minha próxima tentativa, mas não pensava em participar. Comecei imediatamente a fazer novos mapas e a retirar conclusões da experiência da fuga anterior. Estava convencido de que a próxima tentativa seria bem sucedida e estava determinado a ir sozinho desta vez.

Ocupado com os meus preparativos, o Inverno passou rapidamente e

quando chegou a altura de nova fuga eu estava bem equipado. Queria começar mais cedo desta vez, de forma a passar pela vila de Nelang enquanto ainda estivesse desabitada. Como não contava recuperar as coisas que tinha deixado com o indiano, abasteci-me de novo com aquilo de que mais precisava. Uma comovente prova de camaradagem foi a generosidade dos meus companheiros que, apesar da sua escassez de meios, não pouparam dinheiro na sua contribuição para o meu equipamento.

Eu não era o único prisioneiro de guerra que tencionava evadir-se. Os

meus dois melhores amigos, Rolf Mage-ner e Heins von Have, estavam também empenhados nos seus preparativos de fuga. Ambos falavam inglês fluente e tencionavam abrir caminho através da índia até à frente, na Birmânia. Von Have já tinha escapado há dois anos atrás com um companheiro e quase alcançara a Birmânia, mas fora capturado mesmo antes da fronteira. Durante uma segunda tentativa o seu amigo sofrera um acidente fatal. Outros três ou quatro reclusos, dizia-se, planeavam fugir. Finalmente, reunimo-nos os sete e decidimos efectuar uma evasão em simultâneo, com base no facto de que as fugas individuais bem sucedidas aumentavam a vigilância dos guardas e à medida que o tempo passava era cada vez mais difícil escapar. Se a fuga colectiva resultasse, uma vez fora do campo cada um de nós poderia seguir o seu rumo. Peter Aufschnaiter, que desta vez fazia equipa com Bruno Treipel, de Salzburgo, e dois companheiros de Berlim, Hans Kopp e Sattler, tencionavam, como eu, escapar para o Tibete.

A nossa hora-zero estava fixada para as duas da madrugada de 29 de Abril

de 1944. O nosso plano era disfarçarmo-nos de brigada de reparação do arame farpado. Estas brigadas de trabalho eram uma presença habitual devido à existência de formigas brancas que constantemente devoravam os numerosos postes de madeira que sustentavam as vedações e que tinham de ser continuamente substituídos. Estes grupos de trabalho eram constituídos por indianos e por um supervisor inglês.

A hora combinada encontrámo-nos numa pequena barraca na vizinhança

de um dos corredores de arame farpado menos vigiados. Aqui, peritos em maquilhagem que havia no campo transformaram-nos num instante em indianos. Have e Magener receberam uniformes de oficiais ingleses. Nós, os «indianos, tínhamos as cabeças rapadas e usávamos turbantes. Não obstante a seriedade da situação, não conseguíamos conter o riso quando olhávamos uns para os outros. Parecíamos mascarados a caminho de um Carnaval. Dois de nós carregavam uma escada, que na noite anterior tinha sido colocada num local sem vigilância junto à vedação de arame. Tínhamos também subtraído uma longa bobina de arame farpado e pendurámo-la num poste. Os nossos haveres estavam escondidos debaixo das nossas túnicas brancas e embrulhados em trouxas, o que não parecia estranho, pois os indianos carregam sempre coisas consigo para onde quer que vão. Os nossos dois «oficiais ingleses comportavam-se de forma muito real, carregando rolos de plantas debaixo dos braços e exibindo as suas bengalinhas. Já tínhamos feito um buraco na vedação através do qual nos esgueirávamos agora, um a um, para a passagem não vigiada que separava os diferentes sectores do campo. O portão principal distava cerca de duzentos e oitenta metros daqui. Não atraímos atenções e só parámos uma vez quando o major-sargento passou pelo portão na sua bicicleta. Os nossos «oficiais escolheram esse momento para examinarem de perto o arame. Em seguida, atravessámos o portão sem que os guardas pestanejassem sequer. Era reconfortante vê-los cumprimentarem-nos educadamente e, obviamente, sem suspeitarem de ninguém. O nosso sétimo homem, Sattler, que tinha saído da sua camarata bastante atrasado, chegou depois. Tinha o rosto preto e balançava energicamente um balde de alcatrão. As sentinelas deixaram-no passar e ele só nos alcançou depois do portão.

Assim que saímos do campo de visão dos guardas desaparecemos no meio

do mato e livrámo-nos dos nossos disfarces. Por debaixo das nossas túnicas indianas usávamos roupa de caqui, o nosso traje habitual para sair. Des-pedimo-nos uns dos outros com poucas palavras. Have, Magener e eu corremos juntos durante alguns quilómetros e depois separámo-nos. Escolhi a mesma rota da última vez e desloquei-me o mais rápido que podia, de forma a interpor a maior distância possível entre mim e o campo até à manhã seguinte. Desta vez estava determinado a não abdicar da minha decisão de viajar de noite e dormir de dia. Não! Não podia pôr em risco esta oportunidade. Os meus quatro camaradas, cujo objectivo era também o Tibete, deslocavam-se em grupo e tinham a audácia de utilizar a estrada principal que conduzia ao vale do Ganges via Mussoorie. Eu considerava isso demasiado arriscado e segui o meu percurso anterior através dos vales do Jumna e do Aglar. Durante a primeira noite devo ter passado a vau o Aglar pelo menos umas quarenta vezes. Seja como for, quando amanheceu encontrava-me precisamente no mesmo lugar que no ano anterior me levara quatro dias a alcançar. Feliz por estar livre, sentia-me satisfeito com a minha proeza, embora estivesse coberto de arranhões e hematomas e tivesse gasto as solas de um par de ténis novos numa só noite devido ao peso da carga.

Escolhi o meu primeiro acampamento diurno entre dois barrancos na

margem do rio, mas mal tinha pousado as minhas coisas surgiu um bando de macacos. Quando me avistaram começaram a atirar-me torrões. Distraído pelo barulho que faziam, não me apercebi de um grupo de trinta indianos que corria pela margem do rio em minha direcção. Só notei a sua presença quando já estavam perigosamente próximos do meu esconderijo. Até hoje, não sei se eram pescadores ou se andavam em busca de fugitivos. De qualquer forma, mal podia acreditar que não me tivessem visto, pois na sua corrida passaram apenas a alguns metros de mim. Suspirei de alívio novamente, mas tomei o incidente como aviso e permaneci no meu abrigo sem me mexer até escurecer. Durante toda a noite segui o curso do Aglar e fiz um bom progresso. O meu próximo acampamento decorreu tranquilamente e pude revigorar—me com um bom sono. Ao aproximar-se a noite, comecei a ficar impaciente e abandonei o acampamento cedo de mais. Tinha caminhado apenas algumas centenas de metros quando deparei com uma mulher indiana junto a uma nascente. Ela gritou assustada, deixando cair a bilha de água e correndo em direcção às casas próximas. Eu não estava menos assustado do que ela e fugi do trilho para uma ravina que tive de escalar a pique; embora soubesse que ia na direcção certa, este expediente representava um penoso desvio que ia atrasar-me várias horas. Tive que escalar a Nag Tibba, uma montanha com mais de três mil metros de altitude, que nas suas regiões cimeiras é deserta e coberta por uma densa floresta.

Enquanto prosseguia aos saltos, à luz da aurora, dei por mim frente a

frente com o meu primeiro leopardo. O meu coração praticamente parou pois eu estava indefeso. A minha única arma era uma faca longa que o ferreiro do campo tinha feito expressamente para mim. Transportava-a embainhada numa vara. O leopardo estava num ramo grosso, quatro metros ou mais acima do chão, pronto para saltar. A uma velocidade relâmpago pensei qual seria a melhor atitude e então, disfarçando o meu medo, prossegui firmemente o meu caminho. Não aconteceu nada, mas durante longo tempo tive uma peculiar sensação na retaguarda.

Até aqui eu vinha seguindo o cume da Nag Tibba e agora encontrava

finalmente a estrada de novo. Não tinha ido longe quando tive outra surpresa. No meio do trilho estavam alguns homens deitados — a ressonar! Era Peter Aufschnaiter e os seus três companheiros. Sacudi-os para que acordassem e dirigimo-nos todos para um local abrigado onde recapitulámos as experiências que tínhamos vivido no caminho. Estávamos todos em boa forma e convencidos de que conseguiríamos alcançar o Tibete. Depois de passar o dia na companhia dos meus amigos custou-me muito prosseguir sozinho à noite, mas mantive-me fiel à minha decisão. Na mesma noite cheguei ao Ganges. Estava em fuga há cinco dias.

Em Uttar Kashi, a cidade-templo que mencionei na minha primeira fuga,

tive de correr para me salvar. Ao passar por uma casa, dois homens saíram e começaram a correr atrás de mim. Corri desenfreadamente através dos campos e rastejei até ao Ganges, escondendo-me entre dois enormes montes de seixos. Tudo estava calmo e ficou claro que eu tinha escapado aos meus perseguidores; mas só após um longo período me atrevi a sair para o luar. Nesta fase era um prazer para mim viajar ao longo de um percurso que me era familiar e a minha felicidade perante um progresso tão rápido fez-me esquecer o pesado fardo que carregava. E verdade que os meus pés estavam em muito mau estado, mas pareciam recuperar durante o meu descanso diurno. Frequentemente dormia dez horas ininterruptas.

Finalmente cheguei à quinta do meu amigo indiano, a quem eu tinha

confiado o meu dinheiro e posses no ano anterior. Estávamos agora em Maio e tínhamos combinado que ele esperaria por mim à meia-noite em qualquer dia do mês. Propositadamente, não me dirigi directamente à casa, e antes de mais nada escondi a minha mochila, já que uma traição não estava totalmente fora de causa.

A Lua brilhou em cheio sobre a casa da quinta e por isso escondi-me na

escuridão do estábulo e num sussurro chamei duas vezes pelo nome do meu amigo. A porta abriu-se e o meu amigo saiu a correr, atirou-se ao chão e beijou-me os pés. Lágrimas de alegria corriam-lhe pela face. Conduziu-me a um quarto separado da casa, em cuja porta estava pendurado um enorme cadeado. Acendeu uma tocha de madeira de pinho e abriu um baú de madeira. Lá dentro estavam as minhas coisas, cuidadosamente costuradas em sacos de algodão. Profundamente comovido pela sua lealdade, desempacotei as coisas e dei-lhe uma recompensa. O leitor pode imaginar como apreciei a comida que então me pôs à frente. Pedi-lhe para me arranjar provisões e um cobertor de lã antes da noite seguinte. Ele prometeu-me fazê-lo e além disso ofereceu-me um par de ceroulas e um xaile de lã feito manualmente.

No dia seguinte, dormi numa mata nas proximidades e à noite fui buscar

as minhas coisas. O meu amigo ser-viu-me uma revigorante refeição e acompanhou-me durante parte do caminho. Subnutrido como era e com dificuldade em acompanhar o meu passo, ofereceu-se para carregar parte da minha bagagem. Pouco depois mandei-o regressar, e depois da mais calorosa das despedidas encon-trei-me novamente sozinho.

Já devia passar um pouco da meia-noite quando deparei com um urso no

meio do caminho, em pé sobre as patas traseiras e a rosnar-me. Neste local, o som da corrente do Ganges era tão alto que nenhum de nós tinha ouvido o outro a aproximar-se. Com a minha lança rudimentar apontada ao seu coração, recuei passo a passo com os meus olhos fixos nele. Ao dobrar a primeira curva do caminho acendi rapidamente uma fogueira e com uma vara em chamas que brandia à minha frente fui ao encontro do meu inimigo. Mas ao ultrapassar a curva encontrei o caminho, desimpedido pois o urso tinha desaparecido. Camponeses tibetanos disseram-me depois que os ursos só são agressivos durante o dia. De noite têm medo de atacar.

Já caminhava há dez dias quando cheguei à vila de Ne-lang, onde no ano

anterior o destino tinha destruído as minhas esperanças. Desta vez era um mês mais cedo e a vila continuava desabitada. Mas qual não foi a minha alegria ao encontrar lá os meus quatro companheiros do campo de prisioneiros! Tinham-me ultrapassado enquanto permaneci com o meu amigo indiano. Instalámo-nos numa casa vazia e dormimos toda a noite. Infelizmente Sattler estava doente por causa da altitude; sentia-se miseravelmente e declarou-se incapaz de suportar qualquer esforço. Decidiu regressar, mas prometeu que só se entregava ao fim de dois dias para não pôr em causa a nossa fuga. Kopp, que no ano passado tinha entrado no Tibete por este mesmo trajecto com o lutador Krâmer, juntou-se a mim.

Contudo, demorámos sete longos dias de marcha até alcançarmos a

passagem que forma a fronteira entre a índia e o Tibete. A nossa demora deveu-se a um cálculo mal feito. Depois de deixar Tirpani, um acampamento de caravanas bem conhecido, seguimos o mais oriental de três vales, mas tivemos que admitir que nos tínhamos perdido. Para sabermos onde estávamos, Aufschnaiter e eu escalámos o topo de uma montanha donde esperávamos obter uma boa visão do outro lado da região. Daqui avistámos o Tibete pela primeira vez, mas estávamos demasiado cansados para apreciar a paisagem, e a uma altitude de quase 5500 metros sofríamos com a falta de oxigénio. Para nossa grande decepção, concluímos que era necessário retornar a Tirpani. Aí chegados, descobrimos que a passagem que procurávamos estava apenas a uma centena de metros. O nosso erro tinha-nos custado três dias e causado um profundo desencorajamento. Tivemos que cortar as nossas rações e duvidávamos da nossa capacidade de aguentar até alcançarmos a próxima localidade.

A partir de Tirpani o nosso caminho subia suavemente por pastos verdes

atravessados pela corrente de um dos pequenos afluentes do Ganges. Este riacho, que uma semana antes exibia uma turbulenta e ensurdecedora corrente que se precipitava pelo vale abaixo, serpenteava agora suavemente através dos campos. Em poucas semanas, toda a região ficaria verde e os numerosos locais de acampamento, reconhecíveis pelas pedras chamuscadas, faziam—nos imaginar as caravanas que durante o Verão atravessavam as cordilheiras da índia para o Tibete. Um rebanho de cabras selvagens passou à nossa frente. Ligeiras como camurças, em breve desapareceram da nossa vista sem terem notado a nossa presença. Como os nossos estômagos se lamentavam! Teria sido maravilhoso cozer uma na nossa panela, permitindo-nos assim, pelo menos uma vez, saciar a nossa fome. À entrada do desfiladeiro acampámos na índia pela última vez. Em vez da saborosa refeição de carne com que tínhamos estado a sonhar, cozinhámos sobre umas pedras quentes uns insípidos bolos com o resto da nossa farinha misturada com água. O frio era cortante e a nossa única protecção contra o vento gelado da montanha que varria o vale era uma parede rochosa.

Por fim, a 17 de Maio de 1944 encontrávamo-nos no cume da cordilheira

de Tsangchokla. Pelos nossos mapas sabíamos que a altitude era de 5250 metros.

Pois aqui estávamos nós, na fronteira entre a índia e o Tibete, a meta dos

nossos sonhos há tanto tempo acalentados.

Pela primeira vez, experimentámos uma sensação de segurança pois

sabíamos que nenhum inglês nos poderia prender aqui. Não sabíamos como os tibetanos nos iriam receber, mas como o nosso país não estava em guerra com o Tibete esperávamos uma recepção hospitaleira.

No cume do desfiladeiro erguiam-se pedras amontoadas e bandeiras de

oração que os budistas devotos dedicavam aos seus deuses. Estava imenso frio mas descansámos por um longo bocado e avaliámos a nossa situação. Praticamente não conhecíamos a língua e quase não tínhamos dinheiro. Acima de tudo, estávamos famintos e tínhamos de encontrar algum lugar habitado o mais rapidamente possível. Mas, tanto quanto nos era possível ver, só havia montanhas desoladas e vales desertos. Os nossos mapas assinalavam vagamente a presença de aldeias nesta região. O nosso objectivo final, conforme mencionei, eram as frentes japonesas — a milhares de quilómetros de distância. A rota que tencionávamos seguir conduzia primeiro à montanha sagrada de Kailás e daí, ao longo do curso do Brahmaputra, até nos levar ao Tibete Oriental. Kopp, que estivera no Tibete no ano anterior e fora expulso, achava que as indicações no nosso mapa eram razoavelmente precisas.

Depois de uma acentuada descida chegámos ao curso do Optchu, onde

descansámos a meio do dia. Falésias rochosas pendiam sobre ambos os lados do vale como num canyon. O vale era completamente desabitado e só um poste de madeira indicava a ocasional presença do ser humano. O outro lado do vale consistia em encostas de xisto que teríamos que escalar. Escureceu antes de atingirmos o planalto e acampámos sob um frio gélido. Durante os últimos dias, o nosso combustível tinha sido a vegetação que encontrávamos nas encostas. Como não havia vegetação, tivemos que usar esterco de vaca conseguido a muito custo.

Antes do meio-dia seguinte alcançámos a nossa primeira vila tibetana,

Kasapuling, com apenas seis casas. O lugar parecia completamente deserto e quando batemos às portas não houve sinal de vida. Descobrimos então que todos os aldeões estavam ocupados a semear cevada nos campos vizinhos, sempre de cócoras e semeando grão a grão com a velocidade e regularidade de máquinas. Olhámos para eles com sentimentos possivelmente semelhantes àqueles que Colombo experimentou quando encontrou índios pela primeira vez. Será que nos iam receber como amigos ou inimigos? Ainda não tinham reparado em nós. Os gritos de uma velha que mais parecia uma bruxa foram o único som que ouvimos. Não eram dirigidos a nós, mas aos bandos de pombos selvagens que mergulhavam para se alimentarem dos grãos recém-semeados. Até ao anoitecer, os camponeses mal se dignaram olhar-nos e por isso acampámos perto de uma das casas; quando regressaram dos campos ao anoitecer, tentámos negociar com eles. Oferecemos-lhes dinheiro por uma das suas ovelhas ou cabritos mas eles não se mostraram inclinados a negociar. Como o Tibete não tem postos de fronteira, toda a população é mentalizada para hostilizar os forasteiros, existindo severas penalidades para quem vender alguma coisa a um estrangeiro. Como estávamos famintos e não tínhamos nenhuma hipótese, só nos restava intimidá-los. Ameaçámos tomar um dos animais à força caso não o vendessem livremente — e como nenhum de nós parecia fraco, este método de argumentação resultou, já era noite cerrada quando nos venderam por um preço exorbitante o mais velho dos bodes que conseguiram encontrar. Sabíamos que estávamos a ser chantageados mas condescendemos, pois queríamos conquistar a hospitalidade deste país.

Esquartejámos o bode num estábulo e só à meia-noite nos pudemos atirar

à carne semicrua.

Passámos o dia seguinte a descansar e a observar as casas mais de perto.

Eram de pedra, com telhados planos aonde a lenha era posta a secar. Estes tibetanos não podem ser comparados com os do interior, que viemos a conhecer depois. O intenso tráfego de caravanas no Verão corrompeu-os. Achámo-los sujos, de pele escura e olhar fugidio, sem vestígios da alegria característica da sua raça. Iam para o seu trabalho diário mal humorados e percebia-se que se tinham estabelecido nesta região estéril somente para ganharem bom dinheiro com os produtos que vendiam às caravanas. Estas seis casas na fronteira, como pude confirmar mais tarde, formavam a única vila destituída de convento.

Na manhã seguinte deixámos este lugar pouco hospitaleiro sem qualquer

impedimento. Estávamos agora bem restabelecidos e o humor berlinense de Kopp, que durante os últimos dias se tinha apagado, pôs-nos a rir novamente. Atravessámos os campos para descer a colina em direcção a um pequeno vale. Na subida do outro lado, a caminho do planalto seguinte, sentimos mais do que nunca o peso das nossas mochilas. Esta fadiga física era principalmente causada por uma reacção ao desapontamento que esta terra, há tanto tempo sonhada, nos causara até ali. Tínhamos sido forçados a passar a noite numa desagradável espécie de depressão no terreno que mal nos protegia do vento.

No início da nossa viagem tínhamos atribuído tarefas específicas a cada

membro do grupo. Recolher água, acender fogueiras e fazer chá representavam trabalho pesado. Todas as noites esvaziávamos as nossas mochilas para nos protegerem as pernas do frio. Nessa noite, quando sacudi a minha houve uma pequena explosão. Os meus fósforos tinham-se incendiado com a fricção — uma prova de como o ar no alto planalto tibetano era seco.

Às primeiras luzes do dia examinámos o lugar onde tínhamos acampado.

A depressão no terreno devia ser obra do homem, pois era circular e tinha paredes perpendiculares. Talvez originalmente fosse armadilha para animais selvagens. Atrás de nós erguiam-se os Himalaias com a Kamet, uma perfeita pirâmide de neve, e os inacessíveis despenhadeiros desta região montanhosa. Descemos a montanha através de uma espécie de formação de loesse e por volta do meio-dia chegámos à vila de Dushang. Mais uma vez encontrámos pouquíssimas casas e uma recepção tão inospitaleira como a que tivéramos em Kasapuling. Foi em vão que Peter Aufschnaiter demonstrou o seu conhecimento da língua, adquirido durante anos de estudo, e a nossa gesticulação fracassou igualmente. Contudo, pela primeira vez observámos um autêntico templo tibetano. Buracos negros perfuravam as paredes de terra e sobre uma cumeada avistámos as ruínas de gigantescos edifícios. Centenas de monges devem ter vivido aqui outrora. Agora havia apenas alguns que viviam numa casa mais recente, mas nunca se mostraram. Num terraço diante do mosteiro estavam alinhados túmulos assinalados a vermelho.

Algo deprimidos, regressámos à nossa tenda, que para nós representava

um pequeno lar no meio deste mundo interessante mas estranhamente hostil.

Quando chegámos a Dushang também não havia autoridades a quem

pudéssemos pedir autorização para permanecer ou viajar. Mas esta omissão em breve seria rectificada pois os oficiais já vinham no nosso encalço. No dia seguinte, retomámos a nossa marcha, com Kopp e eu na dianteira e Aufschnaiter e Treipel um pouco mais atrás. Subitamente ouvimos o tilintar de campainhas: dois homens montados em póneis aproximaram-se, e no dialecto local intimaram-nos a voltar para a índia pelo mesmo caminho por que viéramos. Sabíamos que era inútil argumentar e assim, para sua surpresa, simplesmente os empurrámos da nossa frente. Felizmente não recorreram às armas, com certeza convencidos de que também nós estávamos armados. Depois de mais algumas débeis tentativas para nos atrasar, afastaram-se, e foi sem qualquer obstáculo que alcançámos a povoação seguinte, que sabíamos ser a sede de um governador local.

A região que percorremos nesse dia era árida e deserta, sem quaisquer

sinais de vida. O seu ponto central, a pequena cidade de Tsaparang, só era habitada durante os meses de Inverno e quando fomos à procura do governador ficámos a saber que ele estava a fazer as malas para se mudar para Shangtse, a sua residência de Verão. O nosso espanto não foi pequeno ao descobrir que ele era um dos homens armados que tínhamos encontrado no caminho e que nos mandara retroceder. A sua atitude não foi portanto amigável e foi difícil persuadi-lo a ceder-nos um pouco de farinha em troca de medicamentos. O pequeno estojo medicinal que eu trazia na minha mochila foi a nossa salvação na altura e frequentemente veio a ser de grande utilidade.

Por fim, o governador mostrou-nos uma gruta onde poderíamos passar a

noite, avisando uma vez mais que teríamos que abandonar o Tibete pela estrada por onde tínhamos vindo. Recusámo-nos a acatar as suas ordens e tentámos explicar-lhe que o Tibete era um Estado neutro e que nos deveria oferecer asilo. Mas a sua mente não conseguia assimilar esta ideia e ele não era suficientemente competente para tomar uma decisão, mesmo que tivesse compreendido. Por isso propusemos-lhe que a decisão ficasse a cargo de uma autoridade de alta patente, um monge cuja residência oficial ficava em Thuling, a oito quilómetros dali.

Tsaparang era realmente uma curiosidade. Eu tinha aprendido nos livros

que estudara no campo de concentração que a primeira missão católica no Tibete tinha sido fundada aqui, em 1624. O jesuíta português António de Andrade tinha formado uma comunidade católica e dizia—se que tinha construído uma Igreja. Procuramos os seus vestígios mas não conseguimos encontrar quaisquer sinais de construção católica. A nossa própria experiência fez—nos perceber como terá sido difícil ao padre António estabelecer aqui a sua missão.

No dia seguinte, caminhámos até Thuling para apresentar o nosso caso ao

monge. Lá encontrámos Aufschnaiter e Treipel, que tinham seguido uma rota diferente. Juntos fomos visitar o Abade do Claustro, que afinal era a autoridade que procurávamos, mas constatámos que era insensível aos nossos pedidos de permissão para prosseguir a nossa caminhada para oriente. Dispôs-se apenas a vender—nos mantimentos se concordássemos em voltar para Shangtse, que ficava no caminho de regresso à índia. A única hipótese era concordar pois já não tínhamos comida.

Havia também um funcionário secular em Thuling mas achámo-lo ainda

menos afável, pois repeliu as nossas tentativas de nos aproximarmos dele e chegou ao ponto de instigar o povo contra nós. Tivemos que pagar caro por um bocado de manteiga rançosa e outro de carne cheia de vermes. Umas poucas almôndegas de fígado custaram-nos uma rupia. A única lembrança agradável que levámos de Thuling foi a imagem do templo com os pináculos dourados do telhado a brilharem ao sol e as águas do Sutlej que corriam em baixo. Este é o maior mosteiro no Tibete ocidental mas tem um aspecto muito abandonado; e segundo ouvimos dizer, apenas vinte dos anteriores duzentos e sessenta monges permanecem ali.

Quando finalmente prometemos voltar para Shangtse, deram-nos quatro

jumentos para carregar a nossa bagagem. No início estranhámos o facto de nos deixarem ir sem nenhum guarda, apenas acompanhados pelo dono dos jumentos; mas cedo chegámos à conclusão de que no Tibete o método de supervisão mais simples é proibir a venda de provisões a estrangeiros que não tenham salvocondu-to.

A presença dos burros não tornou a viagem mais agradável. Levámos uma

hora a cruzar o Sutlej, porque os animais estavam muito cansados. Tínhamos de os incitar continuamente de forma a chegar à próxima vila antes do anoitecer, um lugar chamado Phywang e com poucos habitantes; mas ao olhar para a encosta da colina vimos, como em Tsaparang, centenas de grutas.

Passámos a noite aqui. Shangtse ficava a um dia de viagem. No dia

seguinte, durante o caminho apreciámos as mais gloriosas paisagens dos

Himalaias, para nos compensar de certa forma do terreno lamacento por

onde conduziríamos os animais. Nesta parte do trajecto, encontrámos

pela primeira vez o kyang, uma espécie de burro selvagem da Ásia

Central cujos movimentos graciosos encantam os viajantes. Tem

aproximadamente o tamanho de uma mula e aproxima-se para observar

quem passa — e então dá meia-volta e afasta-se num trote muito

elegante. O kyang alimenta-se de erva e não é incomodado pelos

habitantes. O seu único inimigo é o lobo. Desde a primeira vez que os vi,

estes animais selvagens parecem-me um símbolo de liberdade.

Shangtse era outro lugarejo com apenas meia dúzia de casas construídas

com tijolos de lama seca e cubos de turfa. Achámos a vila tão pouco

hospitaleira como as outras. Aqui encontrámos o antipático funcionário

de Tsaparang, que se tinha mudado para as suas instalações de Verão. De

forma alguma nos permitiria prosseguir para o interior do Tibete, mas

deu-nos a opção de viajar via Tsaparang ou de seguirmos a rota ocidental,

através da cordilheira de Shipki, para a índia. Só se concordássemos com

um destes trajectos é que ele consentiria em vender-nos provisões.

Optámos pela rota de Shipki, porque era uma região nova para nós e

tínhamos esperança de encontrar uma saída. Por agora podíamos comprar

manteiga, carne e farinha na quantidade que quiséssemos. Mas sentíamo-

nos deprimidos com a desanimadora perspectiva de acabar atrás do arame

farpado mais uma vez. Treipel detestava o Tibete e estava pronto a

desistir de quaisquer futuras tentativas de permanecer nesta terra

lamacenta.

Passámos quase todo o dia seguinte a satisfazer o nosso apetite. Também

actualizei o meu diário e cuidei dos meus tendões inflamados pelas marchas forçadas durante a noite. Estava determinado a correr qualquer risco para evitar ser novamente capturado e Aufschnaiter partilhava da minha opinião. Na manhã seguinte, ficámos a conhecer o verdadeiro carácter do governador. Tínhamos cozinhado a carne numa panela de cobre e Aufschnaiter deve ter ficado ligeiramente intoxicado pois sentia-se muito mal. Quando pedi ao governador que nos deixasse permanecer mais uma noite, mostrou mais má vontade do que nunca. Discuti com ele violentamente, o que parece ter resultado, pois consentiu em fornecer um cavalo a Aufschnaiter, pondo também dois iaques à nossa disposição para carregarem a bagagem.

Era o meu primeiro contacto com o iaque, a besta de carga habitual no

Tibete e que só vive a grandes altitudes. Esta espécie de boi de pêlo comprido necessita de muito treino antes de poder ser utilizado e as fêmeas são consideravelmente mais pequenas que os machos e produzem um excelente leite.

O soldado que nos acompanhava desde Shangtse trazia consigo uma carta

que era o nosso salvo-conduto e isto dava-nos direito a comprar os mantimentos de que precisássemos. Também nos permitia, a cada paragem, trocar os nossos iaques sem pagar nada.

Durante o dia o tempo era agradavelmente quente, mas as noites eram

gélidas. Passámos por várias vilas e grutas habitadas, mas a população pouca atenção nos dispensava. O nosso condutor de animais, oriundo de Lassa, era simpático e amigável para connosco e apreciava pavonear-se pelas vilas. Achámos a população menos desconfiada, sem dúvida por influência do nosso salvocon-duto. Enquanto palmilhávamos o distrito de Rongchung, demo-nos conta de que seguíamos a rota de Sven Hedin e eu, que era um grande admirador deste explorador, mantinha as suas descrições ainda bem vivas na minha mente. O terreno que atravessávamos permanecia inalterado. Continuávamos a ultrapassar planaltos, a descer profundos vales e a escalar penosamente do outro lado. Estas ravinas eram tão estreitas que se poderia falar de um lado para o outro, mas levavam-nos horas a atravessar. Este permanente sobe-e-desce duplicava a distância da nossa jornada e era enervante, e assim cada um permanecia em silêncio com os seus próprios pensamentos. Não obstante, progredíamos e não precisávamos de nos preocupar com comida. A certa altura, quando nos ocorreu mudar de ementa, tentámos a nossa sorte na pesca. Depois de experimentar em vão com o anzol, despimo-nos e chapinhámos nos límpidos riachos da montanha, tentando apanhar o peixe à mão. Mas eles pareciam ter melhor ocupação do que acabar na nossa panela.

Aproximámo-nos gradualmente da cadeia dos Hima-laias e,

lamentavelmente, da fronteira com a índia. A temperatura tinha subido pois já não estávamos tão alto. Era precisamente aqui que o Sutlej iniciava a sua travessia dos Himalaias. As vilas nesta região pareciam pequenos oásis e à volta das casas existiam pomares de damasqueiros e hortas com vegetais.

Onze dias depois de deixarmos Shangtse, chegámos à vila fronteiriça de

Shipki. Estávamos a 9 de Junho — já vagueávamos pelo Tibete há mais de três semanas. Havíamos visto muito e tínhamos aprendido de forma amarga que a vida no Tibete não era possível sem um visto de residência.

Passámos mais uma noite no Tibete, romanticamente acampados sob

damasqueiros cuja fruta, infelizmente, ainda não estava madura. Consegui comprar um burro por 80 rupias sob o pretexto de que precisava de um animal para carregar a minha bagagem na índia. No interior do Tibete nunca teria conseguido isto, mas próximo da fronteira era diferente e eu sabia que uma besta de carga era absolutamente essencial para concretizar os meus planos com sucesso.

O homem dos burros separou-se de nós aqui e levou os seus animais com

Continuar: parte 3 de 3