Sr. Assassino
Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
— Nós não dem os queixa de um crim e falso — replicou Marty.
— A única falsificação nessa sala é você, tenente — disse Paige. — Você sabe que é contra a lei se fingir de oficial da polícia?
Teria sido satisfatório ver a cor de raiva no rosto de Lowbock, ver seus olhos se fecharem e seus lábios enrij ecerem com o insulto, m as sua serenidade perm aneceu furiosam ente inabalável.
Quando se levantou devagar, o detetive disse:
— Se as am ostras de sangue retiradas no tapete do andar de cim a forem , digam os, apenas sangue de porco ou de vaca, ou qualquer coisa parecida, o laboratório conseguirá determ inar a espécie exata, claro.
— Conheço os poderes analíticos da ciência forense — assegurou-lhe Marty.
— Ah, sim , é verdade, você é um escritor de m istérios. Segundo a revista People, costum a fazer m uita pesquisa para criar seus rom ances.
Lowbock fechou o bloco de anotações e prendeu a caneta dentro dele.
Marty esperava.
— Em suas várias pesquisas, Sr. Stillwater, você aprendeu a quantidade de sangue que há num corpo hum ano, digam os num corpo m ais ou m enos de seu tam anho?
— Cinco litros.
— Ah. Está correto — Lowbock colocou o bloco de anotações em cim a da sacola de plástico que continha o estoj o de couro com as gazuas de fechadura. — Em sua suposição, porém um a suposição bastante educada, eu diria que há entre um e dois litros de sangue coagulado no tapete do andar de cim a. Entre 20 e 40 por cento de todo o estoque do seu sósia, m ais para 40 por cento, a m enos que eu estej a errado. Sabe o que eu esperaria encontrar com essa quantidade de sangue, Sr. Stillwater? Eu esperaria encontrar o corpo de onde o sangue veio, porque realm ente exige im aginação supor que um suj eito com esse ferim ento grave consiga fugir do cenário do crim e.
— Eu j á lhe disse que tam bém não consigo entender.
— Muy misterioso — disse Paige, colocando nessas duas palavras um a m edida de escárnio idêntica ao tom zom beteiro com que o detetive usara antes.
Marty decidiu que havia pelo m enos um a coisa boa nessa confusão: a m aneira com o Paige não duvidara dele em nenhum instante, m uito em bora a razão e a lógica dem andassem dúvida: a m aneira com o ela estava a seu lado agora, feroz e resoluta. Em todos aqueles anos em que haviam estado j untos, ele nunca a am ara m ais do que naquele m om ento.
Pegando o caderno de anotações e a sacola de prova Lowbock disse:
— Se ficar provado que o sangue do andar de cim a é hum ano, isso vai suscitar todos os tipos de questões, exigindo que term inem os a investigação, m esm o que vocês prefiram livrar-se de nós. Na verdade, qualquer que sej a o resultado do laboratório, vocês terão notícias m inhas de novo.
— Nós sim plesm ente adorarem os vê-lo de novo. — A sutileza desaparecera da voz de Paige, com o se de repente ela deixasse de ver Lowbock com o um a am eaça e não pudesse deixar de vê-lo com o um a figura côm ica.
Marty sentiu-se contagiado pela atitude dela e percebeu que, tanto no seu caso com o no dela, a súbita hilaridade som bria fora um a reação à tensão insuportável da últim a hora. Ele disse:
— Claro, dê um a passada aqui de novo.
— Farem os um a bela xícara de chá — disse Paige.
— E bolinhos.
— Pãezinhos.
— Bolo de chá.
— E, claro, traga sua m ulher — sugeriu Paige. — Nós som os indulgentes. Adoraríam os conhecê-la, m esm o que ela sej a de um a outra espécie.
Marty teve consciência de que Paige estava perigosam ente próxim a de um a risada alta, porque ele próprio tam bém estava. Sabia que o com portam ento dos dois era infantil, m as precisou de todo seu autocontrole para não continuar zom bando de Lowbock durante todo o traj eto até a porta da frente, conduzindo-o com piadas da m esm a form a que o professor von Helsing forçaria o conde Drácula a se retirar, brandindo um crucifixo diante dele.
Estranham ente, o detetive ficou desconcertado com a frivolidade dos dois com o antes não ficara com sua raiva ou com a insistência séria de que o invasor era real. Um a dúvida visível apoderou-se dele, e por um m om ento pareceu que ele iria sugerir que os três se sentassem para com eçar de novo. Mas a dúvida era um a fraqueza que ele não conhecia, e Lowbock não conseguiu sustentá-la por m uito tem po.
A incerteza logo cedeu lugar à sua conhecida expressão convencida:
— Nós vam os levar a Heckler e Koch do sósia, e tam bém suas arm as, claro, até você apresentar a papelada que requisitei.
Por um terrível m om ento, Marty teve certeza de que eles haviam encontrado a Beretta no arm ário da cozinha e a espingarda Mossberg debaixo da cam a no andar de cim a, bem com o todas as outras arm as, deixando-o indefeso.
Mas Lowbock relacionou as arm as e m encionou apenas três:
— A Sm ith and Wesson, o Korth 38 e o M16.
Marty tentou não aparentar o alívio.
Paige distraiu Lowbock dizendo:
— Porra, tenente, quando é que você vai sair?
Enfim , o detetive não pôde im pedir que seu rosto se contraísse de raiva.
— Sra. Stillwater, claro que pode apressar-m e se repetir o pedido na presença de outros dois oficiais.
— Sem pre preocupado com esses processos — disse Marty.
— Ficarei feliz em fazer esse favor, tenente — replicou Paige. — Gostaria que eu expressasse o pedido na m esm a linguagem que acabei de usar?
Marty nunca a tinha ouvido falar a palavra “porra”, a não ser em circunstâncias íntim as — o que significava que, em bora disfarçada pelo tom de voz brando e pelos m odos frívolos, sua raiva era tão forte com o antes. O que era bom . Depois que a polícia fosse em bora, ela iria precisar da raiva para atravessar a noite. A raiva aj udaria a m anter o m edo em xeque.
7.
Quando ele fecha os olhos e tenta im aginar a dor, pode vê-la com o um a filigrana de fogo. Um a linda passam anaria lum inosa, incandescente com som breados verm elhos e am arelos, se estende de seu pescoço latej ante até as costas, envolve seus lados, dá laços e nós intricados no peito e na barriga.
Ao visualizar a dor, ele consegue perceber m elhor se o seu estado está m elhorando ou piorando. Na verdade, sua única preocupação é a rapidez de sua recuperação. Fora ferido em outras ocasiões, em bora não de form a tão grave com o essa, e sabe o que deve esperar; a continuação da deterioração seria um a experiência totalm ente nova e alarm ante para ele.
A dor fora violenta durante um ou dois m inutos depois que ele fora alvej ado. Ele sentira com o se um feto m onstruoso houvesse despertado dentro dele e estivesse escavando seu cam inho para fora.
Por sorte, ele tem um a singular tolerância para a dor e sabe extrair coragem do conhecim ento de que a agonia logo é reduzida a um nível m enos paralisante.
No m om ento em que ele sai cam baleando pela porta dos fundos da casa e se dirige para o Honda, o sangram ento para por com pleto e suas pontadas de fom e tornam -se m ais terríveis do que a dor de seus ferim entos. Seu estôm ago dá nós, desata com espasm os, m as no m esm o instante dá um outro nó, apertando e afrouxando com violência, de m aneira repetida, com o se fosse um punho ávido capaz de agarrar o alim ento de que precisa desesperadam ente.
Ao se afastar da casa no carro, através de torrentes cinzentas no auge da tem pestade, sua voracidade se torna tão dolorosa que ele com eça a trem er de privação. Não são apenas trem ores de necessidade, m as sim terríveis estrem ecim entos que fazem seus dentes baterem . As m ãos crispadas m arcam um a tatuagem entorpecida sobre o volante, e ele m al consegue segurá-lo com firm eza suficiente para controlar o veículo. Ele tem convulsões com os acessos de respiração ofegante, lam pej os de calor se alternam com os de frio, e o suor que j orra em seu corpo é m ais gelado do que a chuva que ainda encharca seus cabelos e roupas.
Seu extraordinário m etabolism o lhe dá grande força, m antém alto seu nível de energia, liberta-o da necessidade de dorm ir todas as noites, perm ite que se cure com rapidez m ilagrosa e, em geral, é um a cornucópia de suas bênçãos físicas, m as tam bém lhe faz exigências. Mesm o num dia norm al, ele tem um apetite form idável, o bastante para dois lenhadores. Quando se nega o sono, quando está ferido, ou quando qualquer outra dem anda incom um é feita a seu sistem a, a sim ples fom e logo se transform a num a necessidade ! voraz, e a voracidade aum enta de im ediato para um a horrenda j com pulsão de alim ento que expulsa todos os outros pensam entos de sua m ente, forçando-o a um consum o devastador de qualquer coisa que possa encontrar.
Em bora o interior do Honda estej a à m ercê de em balagens vazias de alim ento — envoltórios, pacotes e sacolas de todos os tipos — não há nenhum a guloseim a escondida no lixo. No trecho final entre as m ontanhas San Bernardino e as planícies do condado de Orange, ele havia consum ido febrilm ente cada m igalha que restava. Agora havia apenas m anchas secas de chocolate e m ostarda, finas cam adas de óleo brilhante, gordura, borrifos de sal, nada suficientem ente fortificante para com pensar a energia de que ele necessitava para buscar e lam ber na escuridão.
No m om ento em que localiza um restaurante fast food com um a j anela de serviço, no centro de suas entranhas há um vácuo gelado do qual ele parece estar se dissolvendo, tornando-se cada vez m ais oco, m ais frio, com o se seu corpo se consum isse para se restaurar catabolizando duas células para cada um a que cria. Ele quase m orde a própria m ão num a tentativa frenética e desesperada de aliviar as fortes pontadas de fom e. Ele se im agina arrancando com os dentes pedaços da própria carne e engolindo com avidez, chupando seu próprio sangue quente, qualquer coisa para m itigar seu sofrim ento — qualquer coisa, não im porta o quão repulsiva possa ser. Mas ele se reprim e porque, na loucura de sua fom e não hum ana, está convencido de que não há nenhum a carne sobre seus ossos. Sente-se vazio ao extrem o, e acredita que pode dissolver-se em m ilhares de fragm entos sem vida no m om ento em que seus dentes cortarem a pele frágil e, assim , espatifarem a ilusão de substância.
O restaurante é um a filial do McDonald’s. O m inúsculo alto-falante do intercom unicador no posto de pedidos fora exposto a suficientes anos de sol de verão e frio de inverno, de form a que o cum prim ento do balconista invisível é trêm ulo e abafado pela estática. Confiante de que sua voz cansada e trêm ula não parecerá estranha, o m atador pede com ida suficiente para saciar o pessoal de um escritório pequeno: seis cheeseburgers, Big Macs, batatas fritas, dois sanduíches de peixe, dois m ilk-shakes de chocolate — e Cocas grandes, porque seu m etabolism o acelerado, se não for abastecido, conduz rápido tanto à desidratação com o à inanição.
Ele está num a fila com prida de carros e o avanço para a j anela da entrega é lento. Ele não tem outra escolha a não ser aguardar, porque com as roupas m anchadas de sangue e a cam isa rasgada à bala não pode entrar num restaurante ou num a m ercearia para pegar o que precisa, a m enos que estej a disposto a atrair um bocado de atenção.
Na verdade, em bora os vasos sanguíneos tenham sido reparados, os dois ferim entos à bala no peito ainda não foram inteiram ente curados devido à escassez de com bustível necessário aos processos m etabólicos. Esses buracos sugadores, nos quais pode enfiar o dedo m ais grosso a um a profundidade perturbadora, causariam m ais com entários do que a cam isa ensanguentada.
Um a das balas o atravessou por com pleto, saiu pelas costas à esquerda da espinha. Ele sabe que o ferim ento da saída é m ais largo do que os buracos do peito. Quando se recosta no assento do carro, ele sente as bordas denteadas se alargarem .
Teve sorte porque nenhum dos proj éteis perfurou seu coração. Isso talvez o detivesse para sem pre. Isso e um tiro na cabeça capaz de espatifar o cérebro são os únicos ferim entos que ele tem e.
Quando chega na j anela da caixa, ele paga o pedido com o dinheiro que pegou de Jack e Frannie em Oklahom a m ais de 24 horas atrás. A j ovem da caixa pode ver seu braço quando ele lhe estende o dinheiro, por isso o m atador faz força para reprim ir os fortes trem ores que poderiam despertar sua curiosidade. Ele m antém o rosto afastado; com a noite e a chuva, ela não pode ver seu peito devastado nem a agonia que contorce suas pálidas feições.
Na j anela de entrega, seu pedido chega em várias sacolas brancas que ele em pilha no desordenado assento a seu lado, conseguindo desviar o rosto tam bém desse em pregado. Ele se utiliza de toda sua força de vontade para im pedir-se de rasgar as sacolas e devorar a com ida no m esm o instante em que a recebe. Ele conserva clareza de m ente suficiente para perceber que não deve fazer um a cena bloqueando a pista de retirada.
Estaciona no canto m ais escuro do estacionam ento do restaurante, desliga os faróis e os lim padores de para-brisa. Quando olha no espelho retrovisor, seu rosto parece tão descarnado que ele com preende que perdeu vários quilos na últim a hora; os olhos estão fundos e parecem rodeados por borrões de fuligem . Ele escurece ao m áxim o as luzes do painel, m as deixa o m otor funcionando porque, em seu atual estado debilitado, precisa aquecer-se no ar quente do aquecedor. Ele está envolto em som bras. A chuva que corre no vidro brilha com a luz refletida dos anúncios de neon, e subj uga o m undo noturno em form as m utantes, ao m esm o tem po que o protege de olhares indiscretos.
Nessa caverna m ecânica, ele volta à selvageria e, durante algum tem po, é algum a coisa m enos hum ana, rasgando a com ida com im paciência anim al e enfiando-a na boca m ais rápido do que pode engolir. Sanduíches, pães e batatas fritas se desintegram em seus lábios e seus dentes e deixam um a ram pa crescente de entulho orgânico em seu peito; a Coca e o m ilk-shake pingam em sua cam isa. Ele se sufoca várias vezes, j ogando com ida no volante e no painel, m as não para de com er com o um lobo, com a m esm a urgência, soltando sons sôfregos sem palavras e grunhidos baixos de satisfação.
O frenesi de com ida se traduz num período de recolhim ento entorpecido e silencioso m uito sem elhante a um transe do qual ele desperta em dados m om entos com três nom es nos lábios, sussurrados com o um a prece:
— ... Paige... Charlotte... Emily...
Ele sabe por experiência que, nas horas antes do am anhecer, sofrerá novos acessos de fom e, em bora não tão devastadores e obsessivos quanto o que acabara de suportar. Algum as barras de chocolate ou latas de linguiça vienense ou pacotes de cachorro-quente — dependendo da sua necessidade de carboidratos ou proteínas — garantirão a suspensão das pontadas.
Ele poderá concentrar sua atenção em outras questões críticas, sem preocupar-se com distrações de natureza fisiológica. A m ais séria dessas crises é a escravização perm anente de sua esposa e filhas por parte do hom em que roubou sua vida.
— Paige... Charlotte... Emily...
Lágrim as obscurecem sua visão quando ele im agina a fam ília nas m ãos daquele odioso im postor. Elas são tão preciosas para ele. São sua única riqueza, sua razão de existir, seu futuro.
Ele lem bra a adm iração e a alegria com que explorou a casa, perm aneceu no quarto das filhas e tocou na cam a em que ele e sua m ulher fazem am or. No m om ento em que viu seus rostos na foto em cim a da escrivaninha soube que eram seu destino e que, em seu abraço de am or, encontraria o fim da confusão, da solidão e do desespero quieto que o incom odava.
Tam bém lem bra nitidam ente do prim eiro confronto surpreendente com o im postor, o choque e a consternação de sua m isteriosa sem elhança, o diapasão e o tim bre de sua voz perfeitam ente iguais. De im ediato ele com preendeu, porque o suj eito pôde entrar em sua vida sem ninguém se dar conta.
Em bora a exploração da casa não tivesse revelado nenhum a inform ação que explicasse as origens do im postor, ele se lem brou de certos film es que poderiam dar respostas quando tivesse um a oportunidade para revê-los. As duas versões de Vampiros de Almas, a prim eira estrelada por Kevin McCarthy, a segunda por Donald Sutherland. A refilm agem de John Carpenter de A Coisa, m as não a prim eira versão. Talvez até O Planeta Vermelho. Bette Midler e Lily Tom lin num film e cuj o título ele não conseguia lem brar. O Príncipe e o Mendigo. Luar Sobre Parador. Deve haver outros.
Os film es têm todas as respostas para os problem as da vida. Graças aos film es, ele aprendeu tudo sobre rom ance, am or e a alegria da vida em fam ília. Na escuridão das salas de exibição, passando o tem po entre os assassinatos, fam into de sentido, ele aprendera a necessitar do que não tinha. E a partir das grandes lições dos film es, ele poderia, num dado m om ento, deslindar o m istério de sua vida roubada.
Mas prim eiro tinha que agir.
Essa é outra lição que aprendeu nos film es. A ação tem que vir antes do pensam ento. Nos film es, raras vezes as pessoas se sentam para m editar sobre a situação em que se encontram . Por Deus, elas fazem algum a coisa para resolver até seus piores problem as; ficam em m ovim ento, m ovem -se sem parar, procurando resolutam ente o confronto com aqueles que se opõem a elas, travando luta de vida ou m orte com seus inim igos, e sem pre vencem , desde que tenham determ inação suficiente e sej am j ustas.
Ele é determ inado.
Ele é j usto.
Sua vida foi roubada.
Ele é um a vítim a. E sofreu.
Ele conheceu o desespero.
Ele suportou os m aus-tratos, a angústia, a traição e a perda com o Om ar Sharif em Doutor Jivago, com o William Hurt em O Turista Acidental, com o Robin William s em O Mundo Segundo Garp, Michael Keaton em Batman, Sidney Poitier em No Calor da Noite, Ty rone Power em O Fio da Navalha, Johnny Depp em Edward Mãos de Tesoura. Ele é um a das m uitas pessoas brutalizadas, desprezadas, tiranizadas, incom preendidas, enganadas, rej eitadas e m anipuladas que vivem na tela prateada e que se portam heroicam ente diante das aflições devastadoras. Seu sofrim ento é tão im portante quanto o deles, seu destino tão glorioso, sua esperança de triunfo tão grande quanto a deles.
Esse conhecim ento o com ove profundam ente. Ele é arrebatado por soluços com trem ores, chorando não de tristeza, m as sim de alegria, dom inado por um sentim ento de posse, de fraternidade um senso de hum anidade com um . Ele tem fortes vínculos com aqueles cuj as vidas ele com partilha nos cinem as, e essa gloriosa epifania o m otiva a levantar-se, m over-se, m over-se, confrontar, desafiar, lutar e levar a m elhor.
— Paige, estou indo buscá-la — diz por entre lágrim as.
Ele abre a porta do m otorista e sai na chuva.
— Em ily, Charlotte, não vou traí-las. Contem com igo. Confiem em m im . Morrerei por vocês, se for preciso.
Joga fora o lixo de sua glutonaria, dá a volta até a traseira do Honda e abre o porta-m alas. Encontra um a chave de roda que, num a extrem idade , tem um pé-de-cabra para soltar calotas e, na outra ponta, um a chave de porca. Seu peso e equilíbrio são satisfatórios.
Ele retorna ao assento da frente, desliza para trás do volante e coloca a chave de roda em cim a do lixo perfum ado que abarrota o assento a seu lado.
Quando vê na m em ória a foto de sua fam ília, ele m urm ura:
— Morrerei por vocês.
Ele está se curando. Quando explora os buracos de bala no peito, só consegue enfiar o dedo até a m etade da profundidade que antes conseguia penetrar.
No segundo ferim ento, seu dedo encontra um a m assa dura e sulcada que podia ser um chum aço de cartilagem deslocada. Mas ele logo percebe que se trata da bala de chum bo que não o atravessou. Seu corpo a está rej eitando. Ele escarafuncha e puxa até que a bala deform ada sai com um barulho úm ido, e ele a j oga no chão.
Em bora saiba que seu m etabolism o e poderes de recuperação são extraordinários, ele não se vê com o sendo diferente de outros hom ens. Os film es lhe ensinaram que todos os hom ens são extraordinários de um a m aneira ou de outra. Alguns exercem um m agnetism o poderoso sobre as m ulheres, que não conseguem resistir; outros possuem um a coragem além dos lim ites; outros, cuj as vidas Arnold Schwarzenegger e Sy lvester Stallone retrataram , podem cam inhar através de um a chuva de balas sem ser atingidos e vencer um com bate corpo-a-corpo com m eia dúzia de hom ens ao m esm o tem po ou em vertiginosa sucessão. A rápida convalescença parece m enos excepcional quando com parada à habilidade com um dos heróis da tela, que passam incólum es pelo próprio inferno.
No resto da pilha de com ida, ele pega um sanduíche frio de peixe, devora-o com seis grandes m ordidas e sai do McDonald’s. E com eça a procurar um shopping mall.
Com o se trata do sul da Califórnia, ele logo encontra o que procura: um extenso com plexo de loj as de departam ento e de especialidades, com seu telhado com posto de m ais folhas de m etal que um navio de guerra, paredes de concreto arm ado tão form idáveis quanto as defesas de um a fortaleza m edieval, cercado por centenas de m etros de pavim ento ilum inado por lâm padas. A im placável natureza com ercial do lugar é disfarçada por fileiras e aglom erados de árvores, loureiros indianos, salgueiros e palm eiras, com o um parque.
Ele atravessa infinitas filas de carros estacionados até localizar um hom em de capa de chuva, que sai correndo do mall carregando duas sacolas de com pras cheias. O com prador para atrás de um Buick branco, coloca as sacolas no chão e procura as chaves para abrir a m ala.
Há um a vaga disponível a três carros do Buick. O Honda, que esteve com ele todo o traj eto desde Oklahom a, j á durou m ais do que devia. Deve ser abandonado ali.
Ele sai do carro com a chave de roda na m ão direita, segurando-a pela ponta e m antendo-a encostada à perna para não cham ai atenção.
A tem pestade com eça a perder um pouco de sua força. O vento está dim inuindo. Nenhum relâm pago corta o céu.
Em bora a chuva não estej a m enos fria que antes, ele a acha m ais refrescante que congelante.
Enquanto se dirige para o mall — e o Buick branco —, ele vigia o im enso estacionam ento. Pelo que pode ver, ninguém o observa. Nenhum dos carros agrupados ao longo dessa fileira se encontra em processo de partida: nenhum farol, nenhum rolo revelador de fum aça de escapam ento. O carro em m ovim ento m ais próxim o está a três filas de distância.
O com prador encontrou as chaves, abriu a m ala do Buick e guardou a prim eira das duas sacolas. Ao se curvar para pegar a segunda sacola, o estranho tom a conhecim ento de que não está m ais sozinho; gira a cabeça, olha para trás e para cim a de sua posição curvada a tem po de ver a chave de roda descendo sobre seu rosto, no qual um a expressão de alarm e m al teve tem po de se form ar.
É provável que o segundo golpe fosse desnecessário. O prim eiro j ogou fragm entos de ossos faciais no cérebro. De qualquer m odo, ele torna a golpear o com prador inerte e silencioso.
Joga a chave de roda na m ala aberta. Ela atinge algum a coisa com um tinido abafado.
Mover-se, mover-se, confrontar, desafiar, lutar elevar a melhor.
Sem perder tem po olhando em volta para verificar se continua sem ser observado, ele pega o hom em no pavim ento m olhado à m aneira de um halterofilista que inicia um levantam ento de halteres. Deixa o cadáver cair na m ala, e o carro balança com o peso m orto.
A noite e a chuva dão o pouco de cobertura de que ele precisa para tirar a capa de chuva do cadáver oculto na m ala aberta. Um dos olhos m ortos olha fixam ente enquanto o outro rola solto na órbita, e a boca está congelada num uivo de dentes quebrados que nunca foi dado.
A capa que ele veste por cim a de suas roupas m olhadas fica um pouco larga e alguns centím etros com prida nas m angas, m as é adequada por enquanto. Ela cobre as roupas m anchadas de sangue, rasgadas e suj as de com ida, deixando-o apresentável, que é a única coisa com que se preocupa. Ela ainda está quente com o calor do corpo do com prador.
Mais tarde ele se livrará do cadáver e am anhã com prará roupas novas.
Agora tem m uito o que fazer e bem pouco tem po para realizar o que deve ser feito.
Ele pega a carteira do m orto, que contém um agradável m aço grosso de notas. Joga a segunda sacola de com pras em cim a do cadáver, bate a tam pa da m ala. As chaves estão balançando na fechadura.
No Buick, perdendo tem po com os controles do aquecedor, ele se afasta do mall.
Mover-se, mover-se, confrontar, desafiar, lutar elevar a melhor.
Com eça a procurar um posto de gasolina, não porque o Buick precise de com bustível, m as sim porque precisa encontrar um telefone público.
Ele lem bra das vozes na cozinha, enquanto se contorcia em agonia no m eio das ruínas do corrim ão da escada. O im postor em purrava Paige e as m eninas para fora da casa, antes que pudessem chegar na saleta de entrada e ver seu verdadeiro pai lutando para se erguer sobre as m ãos e os j oelhos.
— ... leve-as para o outro lado da rua, para Vic e Kathy...
E segundos depois, ouviu um nom e m ais útil ainda:
— ... para a casa dos Delorio...
Em bora sej am seus vizinhos, ele não consegue lem brar de Vic e Kathy Delorio ou m esm o da casa deles. Esse conhecim ento lhe foi roubado j unto com o resto de sua vida. Entretanto, se tivessem um telefone registrado, ele seria capaz de encontrá-los.
Um posto de serviços. O em blem a azul da Pacific Bell.
Mesm o enquanto dirige para o lado da cabine de telefone com parede de plexiglas, consegue ver vagam ente o grosso catálogo preso por um a corrente.
Deixa o m otor do Buick ligado e atravessa um a poça em direção à cabine. Fecha a porta para acender a luz do teto e, com m ovim entos frenéticos, folheia as Páginas Brancas.
A sorte está com ele. Victor W Delorio. A única anotação com esse nom e. Mission Viej o. Sua própria rua. Bingo. Ele m em oriza o endereço.
Corre ao posto para com prar doces em barra. Vinte. Barras de Hershey com am êndoas, 3 Musketeers, Mounds, chocolate branco Crunch da Nestlé. Seu apetite está saciado por enquanto; não precisa dos doces agora — m as a necessidade vai surgir logo.
Paga com o dinheiro vivo que pertence ao m orto na m ala do Buick.
— Sem dúvida que você tem um dente doce — diz o em pregado.
No Buick de novo, saindo do posto de serviços para o tráfego, sente m edo por sua fam ília que, sem querer, perm anece escrava do im postor. Podem ser levadas para um lugar distante onde ele não possa encontrá-las. Podem ser m achucadas. Ou até m ortas. Qualquer coisa pode acontecer. Ele apenas viu a foto delas e apenas com eçou a reconhecê-las; no entanto, podia perdê-las antes de ter um a oportunidade de beij á-las de novo ou de dizer o quanto as am ava. Tão inj usto. Cruel. Seu coração bate com ferocidade, reavivando parte da dor que fora extinta há pouco nos ferim entos recém -fechados.
Oh, Deus, ele precisa de sua fam ília. Precisa segurá-las nos braços e ser abraçado em resposta. Precisa confortá-las e ser confortado e ouvi-las dizer seu nom e. Ao ouvi-las dizer seu nom e, ele será alguém de um a vez por todas.
Acelerando em frente a um sinal de trânsito que m uda do am arelo para o verm elho, ele fala alto para as filhas, num tom de voz que trem e de em oção:
— Charlotte, Em ily, estou indo. Tenham coragem . Papai está indo. Papai está indo. Papai. Está. Indo.
8.
O tenente Lowbock foi o últim o tira a sair da casa.
Na varanda da frente, enquanto as portas dos carros do esquadrão eram batidas na rua atrás dele e os m otores eram ligados, ele se virou para Paige e Marty para obsequiá-los com m ais um sorriso de vida curta e quase im perceptível. Era evidente que estava sem disposição para se lem brar da raiva bem controlada que no final j ogaram em cim a dele.
— Virei vê-los tão logo consiga os resultados do laboratório.
— Não pode ser logo? — disse Paige. — Tivem os um a visita tão encantadora, que sim plesm ente não podem os esperar pela próxim a vez.
— Boa noite, Sra. Stillwater — cum prim entou Lowbock e virou-se para Marty. — Boa noite, Sr. Assassino.
Marty sabia que era um a infantilidade fechar a porta na cara do detetive, m as na verdade tam bém foi m uito gratificante.
Paige colocou a corrente de segurança no lugar enquanto Marty encaixava a fechadura de cavilha m orta:
— Sr. Assassino?
— Foi com o m e cham aram no artigo da People.
— Eu ainda não vi.
— Bem na m anchete. Oh, espere só até ler. O artigo m e faz parecer ridículo: Marty Stillwater, o-velho-fantasm agórico-o-velho-assustador, extraordinário punguista de livros. Por Deus, se por acaso Lowbock tivesse lido esse artigo hoj e, eu não o culparia por pensar que tudo isso não passou de um golpe de publicidade.
Ela disse:
— Ele é um idiota.
— Trata-se de um a m aldita história im provável.
— Eu acredito nela.
— Eu sei. E te am o por isso.
Ele beij ou-a. Ela abraçou-o, m as por breves m om entos.
— Com o está sua garganta? — perguntou ela.
— Vou sobreviver.
— Aquele idiota pensa que você se sufocou.
— Não fiz isso. Mas é possível, im agino.
— Pare de ver o lado dele. Você m e deixa louca. E agora? Não devíam os sair daqui?
— O m ais rápido que puderm os — ele concordou. — E não voltarem os enquanto não entenderm os que porra significa tudo isso. Você pode fazer algum as m alas contendo o básico para todos nós durante alguns dias?
— Claro — ela respondeu, j á se dirigindo para a escada.
— Vou dar um pulo na casa de Vic e Kathy, ver se está tudo bem por lá, depois volto para aj udá-la. E, Paige... a Mossberg está debaixo da cam a em nosso quarto.
Enquanto com eçava a subir a escada, passando por cim a dos escom bros em lascas, ela disse:
— Está bem .
— Enquanto estiver fazendo as m alas, tire a arm a e coloque-a em cim a da cam a.
— Farei isso — disse ela, j á tendo subido um terço da escada.
Marty achou que não a im pressionara o bastante com a necessidade de precaução extra.
— Leve-a para o quarto das m eninas.
— Está bem .
Falando em tom bastante brusco para detê-la, com a dor envolvendo seu pescoço quando j ogou a cabeça para trás na tentativa de encará-la, ele disse:
— Droga, estou falando sério, Paige.
Ela olhou para baixo, surpresa, porque ele nunca usava aquele tom de voz.
— Está bem . Ficarei com ela por perto.
— Ótim o.
Ele se dirigia ao telefone da cozinha, e j á havia chegado na sala de j antar, quando ouviu Paige gritar no segundo andar. Com o coração batendo tão forte que só conseguia respirar em staccato, Marty voltou correndo para a saleta de entrada, esperando vê-la agarrada pelo Outro.
Paige estava parada no topo da escada, horrorizada com as repulsivas m anchas no tapete que ela via pela prim eira vez.
— Quando ouvi sobre isso, não pensei... — ela olhou para Marty. — Quanto sangue. Com o ele conseguiu... sair andando?
— Ele não poderia se fosse... apenas um hom em . É por isso que tenho certeza de que voltará.
— Marty, isso é um a loucura.
— Eu sei.
— Meu bom Deus — disse ela, m enos num sentido profano do que num a prece, e correu para o quarto dos donos da casa.
Marty regressou à cozinha e tirou a Beretta do arm ário. Em bora ele m esm o tivesse carregado a pistola, retirou o pente, exam inou-o, recolocou-o no lugar e soltou um a bala na câm ara.
Notou um a grande quantidade de im pressões suj as de pés em todo o chão de laj otas m exicanas. Muitas ainda estavam úm idas. Nas últim as duas horas, os policiais ficaram entrando e saindo na chuva e era evidente que nem todos haviam tido a consideração de enxugar os pés j unto à porta.
Em bora soubesse que os tiras haviam estado ocupados e tinham coisas m elhores a fazer do que se preocupar em ficar lim pando a casa, as im pressões dos pés — e a desconsideração que representavam — pareciam ser um a violação quase tão profunda quanto o assalto do Outro. Um ressentim ento surpreendentem ente intenso despertou em Marty.
Enquanto sociopatas se espalhavam pelo m undo m oderno, o sistem a j udicial operava com a prem issa de que o m al era gerado sobretudo pela inj ustiça social. Os assassinos eram considerados vítim as da sociedade com a m esm a certeza com que as pessoas que eles roubavam ou m atavam eram suas vítim as. Pouco tem po antes, um suj eito fora solto de um a prisão da Califórnia após cum prir seis anos por haver estuprado e assassinado um a m enina de onze anos. Seis anos. A m enina, claro, ainda estava tão m orta quanto antes. Esses ultraj es eram agora tão com uns que a história teve pouca cobertura da im prensa. Se os tribunais não protegiam inocentes de onze anos, e se o Congresso e o Senado não decretavam leis para forçar os tribunais a protegê-los, então não se podia contar com j uízes e políticos para proteger alguém em algum lugar a qualquer m om ento.
Mas, droga, pelo m enos se esperava que os tiras o protegessem , porque os tiras estavam na rua o dia inteiro, no m eio da confusão, e sabiam com o o m undo era de fato. Os grandes “m araj ás” em Washington e as em inências alm ofadinhas nos tribunais haviam se isolado da realidade com altos salários, infinitos adornos e gordas pensões; viviam em condom ínios fechados com segurança privada, m andavam os filhos para escolas particulares — e perdiam contato com o dano que causavam . Mas os tiras não. Os tiras eram trabalhadores, colarinho azul. Hom ens e m ulheres de trabalho. Em sua função, viam o m al todos os dias; sabiam que o m al estava tão dissem inado na classe alta quanto na m édia e na pobre, sabiam que a sociedade tinha m enos culpa do que a natureza im perfeita da espécie hum ana.
Supunha-se que a polícia fosse a últim a trincheira de defesa contra a barbárie. Mas se ficasse cínica em relação ao sistem a que devia defender, se acreditasse que era a única que ainda se im portava com a j ustiça, deixariam de se im portar. Quando você precisasse da polícia, ela faria seus testes forenses, preencheria grossos form ulários da papelada para agradar a burocracia, espalharia a suj eira em seu assoalho antes lim po e iria em bora sem sequer ter sim patia.
Parado na cozinha, segurando a Beretta, Marty sabia que ele e Paige constituíam agora sua últim a trincheira de defesa. Não havia ninguém m ais. Nenhum a autoridade m aior. Nenhum guardião do bem -estar público.
Ele precisava de coragem , m as tam bém da im aginação de rédeas soltas que ele em pregava ao escrever seu livros. De repente, ele parecia estar vivendo num rom ance noir, naquele reino am oral onde tinham lugar as histórias de Jam es M. Cain e Elm ore Leonard. A sobrevivência nesse m undo som brio dependia do pensam ento rápido, da ação ligeira, da extrem a crueldade. Tudo isso dependia a m aior parte das vezes da capacidade de im aginar o pior que a vida poderia apresentar e, ao im aginar, estar preparado e não surpreso.
Sua m ente estava vazia.
Ele não sabia para onde ir, o que fazer. Arrum ar as m alas e dar o fora da casa, sim . Mas e depois?
Em bora adorasse as obras de Cain e Leonard, seus próprios livros não eram tão noir assim . Eles celebravam a razão, a lógica, a virtude e o triunfo da ordem social. Sua im aginação não o conduzia rum o a soluções cuidadosas, à ética situacional ou ao anarquism o.
Vazia.
Preocupado com sua capacidade de lutar quando tanta coisa caía em cim a dele, Marty pegou o telefone da cozinha e ligou para os Delorio. Quando Kathy atendeu no prim eiro toque, ele disse:
— Aqui é Marty.
— Marty, você está bem ? Vim os que todos os policiais foram em bora e o oficial daqui tam bém partiu, m as ninguém nos esclareceu a situação. Quero dizer, está tudo bem ? O que é que está acontecendo?
Kathy era um a boa vizinha e sua preocupação era autêntica, m as Marthy não tinha intenção de perder tem po relatando tudo pelo qual havia passado, tanto com o sósia quanto com a polícia.
— Onde estão Charlotte e Em ily ?
— Assistindo televisão.
— Onde?
— Bem , na sala de estar.
— Suas portas estão trancadas?
— Estão, claro, acho que sim .
— Tenha certeza. Verifique. Você tem um a arm a?
— Um a arm a? Marty, o que é isso?
— Você tem um a arm a? — ele insistiu.
— Não acredito em arm as. Mas Vic tem um a.
— Ele está com ela agora?
— Não. Ele...
— Diga a ele para carregar a arm a e ficar com ela até eu e Paige poderm os passar aí para pegar as m eninas.
— Marty, não estou gostando disso. Eu não...
— Dez m inutos, Kathy. Pegarei as m eninas em dez m inutos ou m enos, o m ais rápido que puder.
Ele desligou antes que ela pudesse responder.
Correu ao andar de cim a até o quarto de hóspede que funcionava às vezes com o escritório de Paige. Era ela que fazia a contabilidade da fam ília, acom panhava o talão de cheques e cuidava do resto de seus assuntos financeiros.
Na gaveta de baixo à direita da escrivaninha de pinho havia arquivos de recibos, faturas e cheques cancelados. A gaveta tam bém continha seu talão de cheques e cadernetas de conta de poupança presas por um elástico, que Marty retirou. Ele colocou tudo no bolso do paletó.
Sua m ente j á não estava m ais vazia. Ele havia pensado em algum as precauções que devia tom ar, em bora fossem febris dem ais para serem consideradas um plano de ação.
Em seu gabinete, foi ao arm ário em butido e, às pressas, escolheu quatro cartões de papelão de pilhas de trinta a quarenta caixas do m esm o tam anho e form a. Cada qual continha vinte livros de capa dura. Ele só pôde levar dois de cada vez até a garagem . Colocou-os na m ala do BMW, estrem ecendo com a dor no pescoço, acentuada pelo esforço.
Ao entrar no quarto do casal após sua segunda viagem corrida até o carro, depois de passar pela soleira, ele se deteve subitam ente ao avistar Paige pegando a espingarda e virando-se para ficar de frente para ele.
— Desculpe — disse ela quando viu quem era.
— Você agiu certo — disse ele. — Já j untou as coisas das m eninas?
— Não, estou acabando aqui.
— Vou com eçar com as coisas delas — disse ele.
Seguindo a trilha de sangue para o quarto de Charlotte e Em ily, passando pela parte do corrim ão quebrado na galeria, Marty olhou de relance para a saleta de entrada no andar de baixo. Ainda esperava ver um m orto caído nas laj otas rachadas.
9.
Charlotte e Em ily estavam afundadas no sofá da sala de estar dos Delorio com as cabeças encostadas. Fingiam estar absortas num a estúpida com édia de televisão sobre um a fam ília estúpida, com seus filhos e parentes estúpidos, fazendo coisas estúpidas para resolver um problem a estúpido. Enquanto elas pareciam ligadas no program a, a Sra. Delorio ficava na cozinha preparando a j anta. O Sr. Delorio ou andava de um lado para o outro, ou parava diante das j anelas da frente, observando os tiras lá fora. Ignoradas, as m eninas tiveram a chance de trocar sussurros tentando im aginar o que acontecia em casa.
— Talvez papai tenha levado um tiro — Charlotte preocupou-se.