Sr. Assassino
Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Um enorm e motorhome era o único veículo à vista. Estava estacionado próxim o ao prédio de concreto, que abrigava o banheiro público.
— Agora nós estam os bem em cim a dele — Oslett desligou a tela do URAS e colocou a unidade no chão entre seus pés. Tirou o copo de sucção do para-brisas, deixou-o cair sobre o m apa eletrônico e disse:
— Não há dúvida quanto a isso... nosso Alfie está aconchegado nesse porco de estrada. É provável que tenha tirado de algum pobre otário; agora está em fuga com todos os confortos do lar.
Passaram por um a área gram ada com três m esas de piquenique e estacionaram a cerca de três m etros do Road King, no lado do m otorista.
Não havia nenhum a luz acesa no motorhome.
— Não im porta o quão longe Alfie chegou — disse Oslett —, ainda acho que ele vai nos responder bem . Som os tudo que ele tem , certo? Sem nós, ele está sozinho no m undo. Porra, som os com o um a fam ília.
Clocker apagou as luzes e o m otor.
Oslett disse:
— Não im porta em que estado ele estej a, não acredito que vá nos m achucar. Não o velho Alfie. Talvez ele derrubasse qualquer outra pessoa que se m etesse em seu cam inho, m as não a nós. O que você acha?
Clocker saiu do Chevy e pegou o chapéu e o Colt .357 Magnum no assento da frente.
Oslett pegou um a lanterna e a pistola com tranquilizante. A arm a tinha dois canos, superior e inferior, cada qual carregado com um grosso cartucho hipodérm ico. Destinado para uso em zoológicos, não tinha precisão para m ais de quinze m etros, o que j á era bom para o propósito de Oslett, j á que ele não planej ava sair atrás de leões nas estepes.
Oslett ficou agradecido porque a área não estava apinhada de viaj antes. Esperava que ele e Clocker pudessem concluir seu negócio e ir em bora antes que algum carro ou cam inhão saísse da autoestrada e estacionasse.
Por outro lado, quando desceu do Chevy e fechou a porta às suas costas, ficou perturbado com o vazio da noite. Fora o cantar de pneus e o vuup do tráfego da interestadual, que cortava o ar, o silêncio era tão opressivo quanto devia ser no vácuo do espaço sideral. Um bosque de pinheiros altos form ava o pano de fundo de toda a área e, na escuridão sem vento, seus pesados galhos pendiam com o coroas de funeral.
Ele desej ava a algazarra e os zum bidos das ruas urbanas, onde a atividade incessante oferecia distrações contínuas. A com oção propiciava a fuga da contem plação. Na cidade, o lam pej o-tinido-giro da vida diária perm itia que sua atenção se m antivesse eternam ente dirigida para fora, se ele quisesse, poupando-lhe dos perigos inerentes à autoanálise.
Juntando-se a Clocker j unto à porta do m otorista do Road King, Oslett pensava em fazer a entrada m ais furtiva possível. Mas se Alfie estivesse lá dentro, com o indicava especificam ente o m apa eletrônico URAS, era provável que j á soubesse da chegada deles.
Além disso, nos níveis cognitivos m ais profundos, Alfie estava condicionado a responder a Drew Oslett com absoluta obediência. Era quase inconcebível que ele tentasse m achucá-lo.
Quase.
Eles tam bém tiveram certeza de que as possibilidades de Alfie estar apenas ausente sem licença eram quase inexistentes. Estavam errados em relação a isso. Talvez o tem po provasse que estavam errados em relação a outras coisas.
Era por isso que Oslett estava com a pistola com tranquilizante.
E tam bém foi este o m otivo pelo qual não havia tentado dissuadir Clocker de levar o Magnum .357.
Protegendo-se contra o inesperado, Oslett bateu na porta de m etal. Bater na porta pareceu um a m aneira ridícula de se anunciar naquelas circunstâncias, m as ele bateu assim m esm o, esperou vários segundos e tornou a bater, m ais alto.
Ninguém respondeu.
A porta não estava trancada. Ele abriu-a.
A luz am arela das lâm padas do estacionam ento infiltrou-se através do para-brisas de form a a ilum inar a cabine do motorhome. Oslett pôde ver que não havia nenhum a am eaça im inente.
Ele pisou na soleira da porta, inclinou-se para frente e olhou para os fundos do Road King que apresentava um túnel com um a escuridão pulsante tão profunda quanto as câm aras das antigas catacum bas.
— Estej a em paz, Alfie — disse em tom suave.
Esse com ando falado devia ter resultado num a im ediata resposta ritual com o em um a ladainha: Estou em paz, Pai.
— Estej a em paz, Alfie — repetiu Oslett com m enos esperança.
Silêncio.
Em bora Oslett não fosse o pai de Alfie nem um hom em do clero, e não podendo ter portanto um a legítim a pretensão ao grau honorífico, ainda assim seu coração se teria alegrado se ele tivesse ouvido a resposta sussurrada e obediente: Estou em paz, Pai. Essas quatro sim ples palavras, num m urm úrio de resposta, teriam significado que tudo estava essencialm ente bem , que o desvio de Alfie das instruções era m enos um a rebelião do que um a tem porária confusão de obj etivo, e que a farra de assassinatos na qual em barcara era algo que podia ser esquecido e descartado.
Em bora soubesse que era inútil, Oslett tentou um a terceira vez, falando m ais alto que antes:
— Estej a em paz, Alfie.
Com o não recebeu nenhum a resposta da escuridão, ele acendeu a lanterna e entrou no Road King.
Ele não pôde deixar de pensar no desperdício e na hum ilhação de ser ferido de m orte num motorhome estranho, ao longo de um a interestadual na vastidão de Oklahom a, na tenra idade de 32 anos. Um j ovem tão brilhante, um a prom essa tão singular (os acom panhantes do enterro diriam ), com dois diplom as — um de Princeton, outro de Harvard — e um a árvore genealógica invej ável.
Movendo-se para fora da cabine quando Clocker entrou atrás dele, Oslett varreu com o feixe de luz à esquerda e à direita. Som bras cresceram e agitaram -se com o capas negras, asas de ébano, alm as perdidas.
Apenas alguns m em bros de sua fam ília — m enos ainda entre aquele círculo de artistas, escritores e críticos de Manhattan que eram seus am igos — saberiam em que ram o de trabalho ele havia falecido. O resto acharia os detalhes do falecim ento desconcertantes, bizarros, talvez sórdidos, e fofocariam com a exaltação febril de pássaros que cortam um cadáver em putrefação.
A lanterna revelou arm ários com revestim ento de fórm ica. A tam pa de um fogão. Um a pia de aço inoxidável.
O m istério em torno de sua m orte peculiar garantiria que os m itos surgiriam com o recifes de coral, incorporando cada cor do escândalo e da vil superstição, m as deixando sua m em ória com pequena e preciosa tinta de respeito. O respeito era um a das poucas coisas que im portavam para Drew Oslett. Ele vinha exigindo respeito desde que era garoto. Era seu direito nato — não apenas um agradável pingente do nom e de sua fam ília, m as tam bém um tributo que devia ser pago a toda a história e realizações da fam ília, que se corporificavam nele.
— Estej a em paz, Alfie — disse ele nervoso.
Um a m ão, tão branca quanto m árm ore e de aparência sólida, esperava para ser descoberta pelo feixe de luz da lanterna. Os dedos de alabastro estavam caídos no tapete, ao lado da cabine acolchoada do recanto de j antar. Mais alto: o corpo de cabelos grisalhos de um hom em tom bado sobre a m esa m anchada de sangue.
4.
Paige levantou-se da m esa da sala de j antar, foi à j anela m ais próxim a, enviesou as ripas da persiana para am pliar os espaços e olhou para fora, para a tem pestade que dim inuía aos poucos. Olhava para o pátio dos fundos, onde não havia luzes. Não podia ver nada com clareza, exceto os trilhos de chuva no outro lado do vidro, que pareciam pingos de cuspe talvez porque ela quisesse cuspir em Lowbock, direto em seu rosto.
Paige estava com m ais hostilidade do que Marty — não em relação ao detetive, m as sim em relação ao m undo. Em toda sua vida adulta ela havia lutado para resolver os conflitos de infância, que eram sua fonte de raiva. Tinha feito um progresso considerável. Mas diante de provocações com o essa, ela sentia nascer de novo os ressentim entos e a am argura de sua infância, e sua raiva sem direção encontrou um foco em Lowbock, tornando difícil para ela m anter seu hum or sob controle.
Desvio consciente — encarar a j anela, m anter o detetive fora do cam po de visão — era um a técnica com provada para m anter o autocontrole. Conselheiro, aconselha-te a ti mesmo. Reduzir o nível de interação tam bém devia reduzir a raiva.
Ela esperava que isso funcionasse m elhor para seus pacientes do que para ela, porque ainda estava fervendo.
À m esa com o detetive, Marty parecia determ inado a ser razoável e a colaborar. Do j eito que era, Marty se aferraria o tem po que fosse possível à esperança de que o m isterioso antagonism o de Lowbock fosse m itigado. Por m ais furioso que pudesse estar — e estava m ais furioso do que ela j á havia visto —, ainda tinha trem enda fé no poder das boas intenções e das palavras, principalm ente das palavras, para restaurar e m anter a harm onia em quaisquer circunstâncias.
Marty disse para Lowbock:
— Deve ter sido ele que bebeu as cervej as.
— Ele? — perguntou Lowbock.
— O sósia. Ele deve ter passado algum as horas na casa enquanto eu estava fora.
— Quer dizer que o intruso tom ou as três Coronas?
— Joguei o lixo fora ontem à noite. Na noite de dom ingo, de m odo que sei que não foram deixadas vazias no fim de sem ana.
— Esse cara invadiu sua casa porque... com o foi exatam ente que ele disse?
— Ele disse que precisava de sua vida.
— Precisava de sua vida?
— Sim . Ele m e perguntou por que eu roubei a vida dele, quem eu era.
— Quer dizer que ele invadiu isso aqui — disse Lowbock —, agitado, falando m aluquices, bem arm ado... m as enquanto espera que você chegue em casa, decide dar o troco e tom a três garrafas de Corona.
Sem afastar-se da j anela, Paige disse:
— Tenente, m eu m arido não tom ou essas cervej as. Ele não é um bêbado.
— Se você quiser, estou disposto a fazer um teste no bafôm etro — disse Marty. — Se tom ei essa quantidade de cervej a, um a após a outra, o nível de álcool em m eu sangue vai acusar.
— Bem — disse Lowbock —, se fôssem os fazer isso, devíam os ter testado você logo de cara. Mas não é necessário, Sr. Stillwater. Com certeza não estou dizendo que estava intoxicado, que im aginou a coisa toda sob a influência do álcool.
— Então, o que está dizendo? — indagou Paige.
— Às vezes — observou Lowbock — as pessoas bebem com o intuito de tom ar coragem para encarar um a tarefa difícil.
Marty suspirou.
— Talvez eu sej a estúpido, tenente. Sei que há um a dedução desagradável disso que acabou de dizer, m as j uro por m inha vida que não consigo im aginar o que devo deduzir disso.
— Eu disse que queria que você deduzisse algum a coisa?
— Será que não dá para você parar de ser enigm ático e m e dizer por que está m e tratando assim , com o suspeito em vez de vítim a?
Lowbock ficou em silêncio.
Marty pressionou a questão:
— Sei que essa situação é inacreditável, esse negócio do sósia, m as se você m e dissesse de cara as razões pelas quais está sendo cético, tenho certeza de que poderia elim inar suas dúvidas. Bem , pelo m enos eu poderia tentar.
Lowbock não respondeu durante um tem po tão longo que Paige quase virou-se na j anela para olhar para ele, perguntando-se se sua expressão revelaria algum a coisa sobre o significado de seu silêncio.
No final, ele disse:
— Nós vivem os num m undo litigioso, Sr. Stillwater. Se um tira com ete o m ais leve engano ao lidar com um a situação delicada, o departam ento é processado e às vezes a carreira do oficial vai pelo ralo. Isso acontece com hom ens bons.
— O que os processos têm a ver com isso? Não vou processar ninguém , tenente.
— Digam os que um cara atende um telefonem a sobre um roubo que está acontecendo, então responde, cum pre seu dever, encontra-se em perigo com alguém atirando nele, e atinge o crim inoso em legítim a defesa. O que acontece depois?
— Aposto que você pode m e dizer.
— Sabe, a próxim a coisa é que a fam ília do crim inoso e a Organização Am ericana pelos Direitos Civis vão atrás do departam ento por causa de violência excessiva, querendo um a indenização financeira. Querem que o oficial sej a dem itido, até querem levar o pobre otário a j ulgam ento, acusando-o de fascista.
— A coisa fede — disse Marty. — Concordo com você. Hoj e em dia, parece que o m undo virou de cabeça para baixo, m as...
— Se o m esm o tira não responde com força, e algum curioso sai m achucado porque o crim inoso não foi alvej ado na prim eira oportunidade, a fam ília da vítim a processa o departam ento por negligência, e os m esm os ativistas caem em nossos pescoços com o um a tonelada de tij olos, m as por razões diferentes. As pessoas dizem que o tira não apertou o gatilho com a rapidez necessária, porque é insensível em relação à m inoria da qual a vítim a fazia parte, que seria m ais rápido se a vítim a fosse da raça branca, ou então dizem que o tira é incom petente, é covarde.
— Eu não iria querer seu em prego. Sei com o é difícil — com padeceu-se Marty. — Mas nenhum tira atirou ou deixou de atirar em alguém aqui, e não entendo o que isso tem a ver com a situação.
— Um tira pode m eter-se nas m esm as encrencas atirando em crim inosos ou fazendo acusações — disse Lowbock.
— Quer dizer que sua questão é que você é cético quanto a m inha história, m as não dirá o motivo enquanto não tiver prova absoluta de que se trata de besteira.
— Ele nem vai adm itir que é cético — disse Paige em tom am argurado. — Ele não quer assum ir nenhum a posição, de um a m aneira ou de outra, porque assum ir um a posição significa correr risco.
— Mas, tenente — replicou Marty —, com o vam os acabar com isso, com o vou conseguir convencê-lo de que tudo isso aconteceu da m aneira que contei, se você não m e diz por que duvida?
— Sr. Stillwater, eu não disse que duvido.
— Por Deus — exclam ou Paige.
— Tudo que peço — disse Lowbock — é que você dê o m elhor de si para responder às m inhas perguntas.
— E tudo que nós pedim os — retrucou Paige, ainda de costas para o detetive —, é que você encontre o lunático que tentou m atar Marty.
— Esse sósia — Lowbock pronunciou a palavra em tom insípido, sem nenhum a inflexão, que pareceu m ais sarcástico do que se tivesse dito com um a alta risada de escárnio.
— Sim — confirm ou Paige —, esse sósia.
Ela não duvidava da história de Marty, por m ais desvairada que fosse, e sabia que de algum a form a a existência do sósia estava vinculada — e no final das contas explicaria — à fuga do m arido, ao pesadelo esquisito e a outros problem as recentes.
Enquanto ela com eçava a aceitar que a polícia, por algum a razão qualquer, não iria aj udá-los, sua fúria contra o detetive se dissipava. A raiva deu lugar ao m edo, porque ela com preendeu que eles estavam diante de algum a coisa excessivam ente estranha com a qual teriam que lidar sozinhos.
5.
Clocker regressou da parte da frente do Road King para inform ar que as chaves estavam na ignição na posição de ligar, m as que era evidente que o tanque estava vazio e a bateria descarregada. As luzes da cabine não podiam ser acesas.
Preocupado com o fato do feixe de luz da lanterna, visto de fora, parecer suspeito para alguém que estacionasse naquela área, Drew Oslett fez um rápido exam e nos dois cadáveres que estavam no apertado recinto de refeições. Com o o sangue derram ado estava totalm ente seco e duro, ele sabia que o hom em e a m ulher tinham sido m ortos m uitas horas antes. Entretanto, em bora o rigor mortis ainda estivesse presente em am bos os corpos, eles j á não estavam tão rígidos assim ; era evidente que a rigidez atingira um pico e com eçava a se dissipar, com o em geral ocorria entre dezoito e trinta horas depois da m orte.
Os corpos ainda não haviam com eçado a se decom por de m aneira perceptível. O único cheiro ruim vinha de suas bocas abertas — os gases azedos produzidos pela com ida apodrecendo em seus estôm agos.
— A m elhor estim ativa no olhôm etro... é que eles foram m ortos em algum m om ento da tarde de ontem — disse para Clocker.
O Road King estava parado havia m ais de vinte horas ali, portanto pelo m enos um oficial da Patrulha da Autoestrada de Oklahom a devia tê-lo visto em dois turnos separados. A legislação estadual devia proibir o uso das áreas de descanso j unto à estrada com o camping. Não havia fornecim ento de energia elétrica, de água ou bom beam ento de esgoto, o que criava um potencial problem a de saúde pública. Às vezes, os tiras podiam ser com placentes com aposentados com m edo de dirigir num a chuva tão inclem ente quanto a tem pestade que desabara sobre Oklahom a no dia anterior; o plástico da Associação Am ericana de Pessoas Aposentadas na traseira do motorhome podia ter conseguido algum privilégio para aquelas pessoas. Mas nem m esm o um tira sim pático deixaria que ficassem estacionados duas noites. A qualquer m om ento, um carro-patrulha podia parar e alguém bater na porta.
Contrário a com plicar seus j á sérios problem as m atando um patrulheiro de estrada, Oslett afastou-se do casal m orto e fez um a busca apressada no motorhome. Já não estava m ais cauteloso com m edo de que Alfie, desobediente e desarranj ado, m etesse um a bala em sua cabeça. Fazia m uito tem po que Alfie partira dali.
Encontrou os sapatos descartados no balcão da cozinha. Com um a com prida faca de serra, Alfie cortara um dos saltos até expor o circuito eletrônico e a concom itante cadeia de m inúsculas baterias.
Ao olhar para os Rockport e a pilha de lascas de borracha, Oslett estrem eceu com um a prem onição de desgraça.
— Ele nunca soube nada sobre os sapatos. O que daria na cabeça dele para cortá-los?
— Bem , ele sabe o que sabe — disse Clocker.
Na interpretação de Oslett a afirm ação de Clocker significava que parte do treinam ento de Alfie incluía técnicas e equipam ento m oderno de vigilância eletrônica. Portanto, em bora não lhe tivessem dito que estava “rastreado”, ele sabia que um transm issor em m icrom iniatura podia ser reduzido o suficiente para aj ustar-se no salto de um sapato e, recebendo um rem oto sinal de ativação em m icroondas, poderia ter energia suficiente através de um a série de baterias para transm itir um sinal rastreável, durante pelo m enos 72 horas. Em bora não pudesse lem brar quem era ou quem o controlava, Alfie era bastante inteligente para aplicar seus conhecim entos de vigilância em sua própria situação e chegar à conclusão lógica de que seus controladores haviam tom ado precauções prudentes para localizá-lo e segui-lo caso ele se tornasse renegado, m esm o que eles estivessem totalm ente convencidos de que a rebelião não era possível.
Oslett tem ia dar a m á notícia à m atriz em Nova York. A organização não m atava o portador de notícias ruins, sobretudo se seu sobrenom e fosse Oslett. Entretanto, com o principal operador de Alfie, ele sabia que parte da responsabilidade incidiria sobre ele, em bora a rebelião do operativo não fosse culpa sua em nenhum nível. O erro devia estar no condicionam ento fundam ental de Alfie, droga, não em sua m anipulação.
Deixando Clocker na cozinha para ficar de guarda contra visitantes indesej áveis, Oslett fez um a rápida inspeção no resto do motorhome.
Não encontrou nada m ais que o interessasse, exceto um a pilha de roupa descartada no chão do quarto principal, nos fundos do veículo. A luz da lanterna, ele só precisou revirar um pouco as roupas com a ponta do sapato para constatar que era a m esm a que Alfie usava quando em barcou no avião para Kansas City, na m anhã de sábado.
Oslett retornou à cozinha onde Clocker esperava no escuro. Virou a lanterna um a últim a vez para os aposentados m ortos.
— Que zona. Droga, isso não tinha que acontecer.
Clocker referiu-se com desprezo ao casal assassinado:
— Pelo am or de Deus, quem se im porta? Eles não são nada, a não ser a porra de um casal de Klingons.
Oslett não se referia às vítim as, m as ao fato de que agora Alfie era m ais do que um m ero renegado: era um renegado que não podia ser rastreado, colocando assim em risco a organização e todos que dela faziam parte. Ele tinha tão pouca com paixão pelo casal m orto quanto Clocker, não se sentia responsável pelo que havia acontecido com os dois e, na verdade, im aginava que o m undo estava m elhor sem dois parasitas im produtivos, que sugavam a substância da sociedade e im pediam o tráfego com seu pesado lar sobre rodas. Ele não sentia nenhum am or pelas m assas. O problem a básico com o hom em e a m ulher m édios era precisam ente o fato de serem tão médios e de haver tantos deles, tom ando m uito m ais do que davam ao m undo, incapazes de adm inistrar suas próprias vidas de m aneira inteligente, quanto m enos a sociedade, o governo, a econom ia e o m eio am biente.
Mesm o assim , ficou alarm ado com a m aneira com a qual Clocker externara seu desprezo pelas vítim as. A palavra “Klingons” deixou-o intranquilo porque era o nom e da raça de alienígenas que travara guerra com a hum anidade em m uitos episódios de televisão e film es da série Jornada nas Estrelas, antes que os acontecim entos nesse futuro ficcional com eçassem a refletir a m elhoria das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética no m undo real. Oslett achava Jornada um tédio, um a chatice insuportável. Nunca com preendeu por que tantas pessoas tinham tam anha paixão pela série. Mas Clocker era um fã ardente do seriado, intitulava-se im perturbável de “Trekker”, sendo capaz de recitar as tram as de cada film e e episódio j á film ado, e conhecendo as histórias pessoais de cada personagem com o se fossem os am igos m ais queridos. Jornada era o único assunto sobre o qual ele parecia disposto ou capaz de entabular um a conversa; e da m esm a form a que era taciturno a m aior parte do tem po, era tagarela quando se tratava do tem a de sua fantasia favorita.
Oslett tentava garantir que ele nunca surgisse.
Agora, em sua m ente, a tem ida palavra “Klingons” soava com o um alarm e de incêndio.
Com toda a organização correndo risco porque o rastro de Alfie fora perdido, com algum a coisa nova e intensam ente violenta solta no m undo, a viagem de volta à cidade de Oklahom a através de tantos quilôm etros de terra despovoada e sem luz iria ser deprim ente e triste. A últim a coisa que Oslett precisava era ser assaltado por um dos exaustivos m onólogos de Clocker sobre o capitão Kirk, o Sr. Spock, Scotty, o resto da tripulação, e suas aventuras nos distantes recantos de um universo que, no film e, tinha m uito m ais sentido e m om entos de frívolo ilum inism o do que o universo real feito de duras escolhas, feias verdades e crueldade estúpida.
— Vam os dar o fora daqui — disse Oslett, passando por Clocker e dirigindo-se para a frente do Road King. Ele não acreditava em Deus, m as m esm o assim rezou com fervor para Karl Clocker acalm ar-se em seu costum eiro silêncio autocentrado.
6.
Cy rus Lowbock desculpou-se um instante para ir consultar alguns colegas que desej avam falar com ele num a outra parte da casa.
Marty ficou aliviado com sua partida.
Quando o detetive saiu da sala de j antar, Paige deixou a j anela e m ais um a vez sentou-se na cadeira ao lado de Marty.
Em bora a Pepsi tivesse acabado, alguns cubos de gelo tinham se derretido na caneca e ele bebeu a água fria.
— A única coisa que desej o agora é pôr um fim nisso tudo. Nós não devíam os estar aqui, não com esse suj eito solto em algum lugar lá fora.
— Você acha que devem os nos preocupar com as m eninas?
... preciso... minha Charlotte, minha Emily...
Marty disse:
— Acho. Estou m uito preocupado.
— Mas você deu dois tiros no peito do suj eito.
— Eu tam bém pensei tê-lo deixado com as costas quebradas na saleta de entrada, m as ele se levantou e deu o fora. Ou saiu m ancando. Ou talvez tenha desaparecido no ar. Não sei que diabo está acontecendo aqui, Paige, m as é m ais desvairado do que qualquer coisa. E ainda não acabou, de j eito nenhum .
— Se fossem apenas Vic e Kathy tom ando conta delas... m as tam bém tem um tira lá em cim a.
— Se aquele bastardo soubesse onde as m eninas estão, elim inaria o tal tira, Vic e Kathy num m inuto.
— Você o enfrentou.
— Tive sorte, Paige. Apenas um a baita sorte. Ele não im aginava que eu tivesse um a arm a na gaveta da escrivaninha ou que seria capaz de usá-la. Peguei o suj eito de surpresa. Ele não vai deixar isso acontecer de novo. Terá toda a surpresa do seu lado.
Marty inclinou a caneca nos lábios, deixou que um cubo de gelo deslizasse para sua língua.
— Marty, quando você tirou as arm as do arm ário da garagem e carregou-as?
Ele respondeu, com o cubo de gelo na boca:
— Eu percebi que isso chocou você. Fiz isso hoj e de m anhã. Antes de ir ver Paul Guthridge.
— Por quê?
Marty descreveu, da m elhor m aneira que pôde, a curiosa sensação que teve de que algum a coisa estava caindo em cim a dele e iria destruí-lo antes que tivesse um a chance de identificar o que era. Tentou transm itir a m aneira com o a sensação se intensificou, transform ando-se em pânico, até ele ter certeza de que precisaria de arm as para se defender, quase paralisado pelo m edo.
Marty teria ficado em baraçado em contar para ela, teria parecido desequilibrado — se os acontecim entos não tivessem provado a validade de suas percepções e precauções.
— E algum a coisa estava m esm o vindo — disse ela. — Esse sósia. Você o sentiu aproxim ar-se.
— É isso aí. Acho que sim . De algum a form a.
— Mediúnica.
Ele sacudiu a cabeça.
— Não, eu não cham aria assim . Não se você quer dizer um a visão m ediúnica. Não houve nenhum a visão. Eu não vi o que estava vindo, não tive um a prem onição clara. Só isso... essa terrível sensação de pressão, de gravidade... com o num desses brinquedos de um parque de diversões, quando você está girando com m uita velocidade, preso no assento, sentindo o peso de seu peito. Você sabe, j á esteve nesses brinquedos, Charlotte sem pre os adora.
— Sim . Entendo... eu acho.
— Com eçou desse j eito... e ficou cem vezes pior, até que eu m al conseguia respirar. Então, de repente, quando saí para o consultório do m édico, a coisa parou. E, m ais tarde, quando cheguei em casa, o filho de um a égua estava aqui, m as eu não senti coisa algum a quando entrei.
Os dois ficaram em silêncio por alguns m om entos.
O vento lançava bolinhas de chuva contra a j anela.
— Com o ele podia ter a aparência exatam ente igual à sua? — quis saber Paige.
— Não sei.
— Por que ele diria que você roubou a vida dele?
— Não sei, não sei m esm o.
— Estou com m edo, Marty. Quero dizer, tudo é tão esquisito. O que vam os fazer?
— Depois dessa noite, não sei. Mas hoj e à noite, pelo m enos, não vam os ficar aqui. Irem os para um hotel.
— Mas se a polícia não encontrá-lo m orto em algum lugar, então tem os o am anhã... e depois de am anhã.
— Estou quebrado, cansado e sem conseguir pensar direito. Por enquanto, só consigo concentrar-m e em hoj e à noite, Paige. Só vou precisar preocupar-m e com o am anhã quando ele chegar.
O adorável rosto de Paige estava vincado de ansiedade. Desde a doença de Charlotte, cinco anos atrás, ele não a via sequer com a m etade da perturbação que ostentava.
— Eu te am o — disse, pousando a m ão ao lado de sua cabeça.
Paige falou, colocando a m ão sobre a dele:
— Oh, Deus, eu tam bém te am o, Marty, você e as m eninas, m ais do que qualquer coisa, m ais do que a própria vida. Não podem os deixar que nada aconteça conosco, ou com o que tem os em com um . Não podemos.
— Não vam os deixar — disse ele, m as suas palavras soaram tão ocas e falsas quanto a fanfarronice de um garoto.
Ele estava consciente de que nenhum dos dois expressara a m ais leve esperança de que a polícia os protegesse. Não conseguia reprim ir a raiva por causa do fato de a polícia não estar oferecendo nada que se assem elhasse ao serviço, cortesia e consideração que os personagens de seus rom ances sem pre recebiam das autoridades.
Em sua essência, os rom ances de m istérios eram sobre o bem e o m al, sobre o triunfo do prim eiro sobre o segundo e sobre a confiabilidade do sistem a de j ustiça num a dem ocracia m oderna. Eram populares porque garantiam ao leitor que o sistem a costum ava funcionar com m uito m ais frequência do que se im aginava, ainda que a prova da vida cotidiana apontasse para um a conclusão m ais perturbadora. Marty tinha conseguido trabalhar no gênero com convicção e trem endo prazer, porque gostava de acreditar que os órgãos de cum prim ento da lei e os tribunais faziam j ustiça na m aior parte das vezes e só contrariavam isso de m aneira inesperada. Mas agora, na prim eira vez em sua vida em que o procurava pedindo aj uda, o sistem a estava falhando com ele. Essa falha não apenas colocava sua vida em risco — assim com o as vidas de sua esposa e filhas —, m as tam bém parecia colocar em dúvida o valor de tudo que ele havia escrito e o m érito do obj etivo com o qual se envolvera em tantos anos de luta e trabalho duro.
O tenente Lowbock retornou pela sala de estar, m ovendo-se com o se estivesse no m eio de um a sessão de fotografia de m oda da revista Esquive. Carregava um a bolsa de provas de plástico claro, contendo um estoj o preto com zíper, m ais ou m enos da m etade do tam anho de um estoj o de barbear. Colocou a bolsa em cim a da m esa de j antar enquanto tom ava assento.
— Sr. Stillwater, a casa estava trancada com segurança quando saiu hoj e de m anhã?
— Trancada? — disse Marty, perguntando-se para onde estavam indo agora e tentando não dem onstrar raiva. — Estava, m uito bem trancada. Sou cuidadoso com esse tipo de coisa.
— Você parou para pensar na m aneira com o o intruso pode ter entrado?
— Quebrando um a j anela, eu acho. Ou forçando um a fechadura.
— Sabe o que tem aqui dentro? — perguntou, dando um tapinha no estoj o de couro preto dentro da sacola de plástico.
— Receio não ter visão de raios X — disse Marty.
— Pensei que pudesse reconhecer.
— Não reconheço.
— Encontram os isso em seu banheiro.
— Nunca vi isso antes.
— No toucador.
— Vá direto ao assunto, tenente — pediu Paige.
A leve som bra de sorriso tornou a cruzar o rosto de Lowbock tal com o um espírito visitante brilhando por breves m om entos no ar acim a de um a m esa de sessão espírita.
— É um conj unto com pleto de gazuas para fechadura.
— Foi assim que ele entrou? — perguntou Marty.
Lowbock encolheu os om bros.
— Suponho que é isso que esperam que eu deduza.
— Que coisa desagradável, tenente. Nós tem os filhas com as quais estam os preocupados. Concordo com m inha m ulher... vá direto ao assunto.
O detetive reclinou-se sobre a m esa fitando Marty m ais um a vez com seu intenso olhar patenteado:
— Sr. Stillwater, sou tira há 27 anos, e essa é a prim eira vez que encontro um arrom bam ento num a residência particular em que o intruso usou um conj unto profissional de gazuas.
— E daí?
— Eles quebram um vidro ou forçam um a fechadura, com o você disse. As vezes arrom bam com pé-de-cabra um a porta deslizante ou j anela. A m aioria dos arrom badores tem cem m aneiras de entrar... todas elas m uito m ais rápidas do que abrir um a fechadura.
— Ele não era um arrom bador.
— Oh, dá pra notar — disse Lowbock. Afastou-se da m esa, aj eitou-se na cadeira. — Esse cara é m uito m ais teatral do que a m édia dos crim inosos. Ele consegue ser exatam ente igual a você. Declara um a bobaj ada estranha sobre querer sua vida de volta, chega arm ado com a arm a de um assassino de aluguel com rosca para silenciador, usa ferram entas de arrom bador com o um artista holly woodiano no papel de ladrão num film e policial, leva duas balas no peito, m as não se perturba, perde sangue suficiente para m atar um hom em com um , m as sai andando. Esse cara é m uito extravagante, m as tam bém muy misterioso, o tipo de personagem que Andy Garcia poderia interpretar num film e policial ou, m elhor ainda, o tipo que Ray Liotta foi em Os Bons Companheiros.
De repente, Marty percebeu aonde o detetive se dirigia e com preendeu por que se encam inhava para lá. A inevitável estação final do interrogatório devia ter ficado óbvia antes, m as Marty não havia “sacado” porque era óbvia demais. Com o escritor, ele vinha procurando razões m ais exóticas e com plexas para a descrença e hostilidade que Lowbock m al conseguia disfarçar, enquanto o tem po todo Cy rus Lowbock procurava o lugar-com um .
Contudo, o detetive ainda tinha m ais um a surpresa desagradável para revelar. Tornou a reclinar-se para a frente e fez contato de olho de um a form a que deixara de ser um m odo de confrontação eficaz para transform ar-se num tique pessoal tão aborrecido e transparente quanto a frustrante postura hum ilde de Peter Falk, e sua inexorável autodepreciação ao interpretar Colum bo, o pensativo franzir de boca de Nero Wolfe em m om entos de inspiração, o esperto sorriso afetado de Jam es Bond, ou qualquer um dos inúm eros traços com os quais Sherlock Holm es era caracterizado.
— Suas filhas têm anim ais de estim ação, Sr. Stillwater?
— Charlotte tem . Vários.
— Um a estranha coleção de anim ais de estim ação.
Paige disse em tom frio:
— Charlotte não os acha estranhos.
— Você acha?
— Não. Que im portância tem se são estranhos ou não?
— Há m uito tem po que ela tem ? — indagou Lowbock.
— Alguns há m ais tem po do que outros — disse Marty, desconcertado com essa nova virada no interrogatório, m esm o estando convencido de que com preendia a teoria que Lowbock tentava provar.
— Ela gosta dos anim ais?
— Gosta. Muito. Com o qualquer criança. Por m ais estranho que você possa achar que sej am , ela os adora.
Sacudindo a cabeça, afastando-se de novo da m esa, tam borilando com a caneta no caderno de notas, Lowbock disse:
— É m ais um toque extravagante, m as tam bém convincente. Quero dizer, se você fosse detetive e se dispusesse a duvidar de todo o cenário, teria que pensar duas vezes se o invasor m atasse todos os anim ais de estim ação da filha.
O coração de Marty com eçou a afundar dentro dele com o um a pedra atirada procurando o fundo de um a lagoa.
— Oh, não — disse Paige com tristeza. — Não os pobres Whiskers, Loretta, Fred... não todos eles, não?
— O gerbo foi m orto por esm agam ento — disse Lowbock, o olhar fixo em Marty. — O cam undongo teve o pescoço quebrado, a tartaruga foi esm agada debaixo do pé, bem com o o besouro. Não exam inei os outros com esse m esm o cuidado.
A raiva de Marty transform ou-se em fúria m al contida, e ele fechou as m ãos debaixo da m esa porque sabia que Lowbock o estava acusando de ter elim inado os anim ais de estim ação apenas para dar credibilidade a um a m entira elaborada. Ninguém iria acreditar que um pai am oroso pisaria na tartaruga de estim ação da filha e quebraria o pescoço de seu lindo cam undongo com o vil propósito que Lowbock acreditava ter m otivado Marty ; por conseguinte, de m aneira perversa, o detetive supunha que Marty tinha feito isso porque era tão ultraj ante que o exonerava, o toque final perfeito.
— Charlotte vai ficar com o coração partido — disse Paige.
Marty sabia que estava corado de raiva. Podia sentir o calor em seu rosto com o se tivesse passado a últim a hora debaixo de um a lâm pada solar, e sentia as orelhas com o se estivessem em brasas. Tam bém sabia que o tira iria interpretar sua raiva com o rubor de vergonha, um testam ento de sua culpa.
Quando Lowbock revelou novam ente aquele sorriso fugaz, Marty quis dar-lhe um soco na boca.
— Sr. Stillwater, por favor m e corrij a se eu estiver errado, há pouco tem po não teve um livro na lista dos bestsellers de brochura, a reim pressão de um capa dura publicado no ano passado?
Marty não respondeu.
Lowbock não exigiu um a resposta. Agora estava dando voltas.
— E um novo livro que sairá em um m ês, m ais ou m enos, que algum as pessoas acham que pode ser seu prim eiro best-seller de capa dura? E é provável que j á estej a trabalhando num outro livro. Em todo caso, tem um bocado de m anuscritos na escrivaninha de seu gabinete. E acho que depois que conseguir fazer alguns gols em sua carreira, só vai ter que ficar pisando no acelerador para aproveitar a velocidade, por assim dizer.
Com as sobrancelhas franzidas, todo o corpo tenso de novo, Paige parecia estar prestes a entender direito a ridícula interpretação do detetive em relação ao relato do crim e de Marty, a fonte de seu antagonism o. Ela tinha o m au hum or da fam ília; e com o Marty m al conseguia reprim ir-se para não bater no tira, ele se perguntava qual seria a reação dela quando Lowbock explicitasse suas suspeitas idiotas.
— Deve aj udar um a carreira quando seu perfil sai na revista People — continuou o detetive. — E aposto que se o Sr. Assassino se torna alvo de um m atador muy misterioso, então consegue um bocado de publicidade gratuita na im prensa, j ustam ente no ponto de virada crucial de sua carreira.
Paige estrem eceu na cadeira com o se tivesse sido esbofeteada.
Sua reação cham ou a atenção de Lowbock.
— Sim , Sra. Stillwater?
— Você consegue m esm o acreditar...
— Acreditar em quê, Sra. Stillwater?
— Marty não é um m entiroso.
— Eu disse que ele é?
— Ele detesta publicidade.
— Então, o pessoal da People deve ter sido m uito insistente.
— Pelo am or de Deus, olhe o pescoço dele! Está verm elho, inchado, dentro de algum as horas estará coberto de hem atom as. Você não pode acreditar que ele tenha feito isso.
Mantendo um a irritante aparência de obj etividade, Lowbock disse:
— É nisso que acredita, Sra. Stillwater?
Ela falou com os dentes cerrados, dizendo aquilo que Marty não se sentia perm itido a dizer:
— Seu m erda estúpido.
Levantando as sobrancelhas e parecendo ferido, com o se não pudesse im aginar o que teria feito para m erecer tanta hostilidade, Lowbock disse:
— Sra. Stillwater, com certeza percebe que existem pessoas lá fora, um m undo de cínicos, que podem dizer que a tentativa de estrangulam ento é a form a m ais segura de falsificação de um assalto. Quero dizer que cortar um braço ou um a perna seria um toque convincente, m as sem pre há o perigo de um cálculo errado um a artéria cortada, então, de repente, você se vê com um a hem orragia m uito m ais séria do que seria a sua intenção. E quanto aos ferim entos à bala... bem , o risco é m aior ainda, com a possibilidade de a bala ricochetear num osso e penetrar m ais fundo na carne. Além do m ais, sem pre tem o risco de choque.
Paige pôs-se de pé com um m ovim ento tão brusco que derrubou a cadeira.
— Fora daqui.
Lowbock piscou os olhos para ela, fingindo inocência m uito além do ponto que perm itia um retorno.
— Com o disse?
— Fora de m inha casa — exigiu ela. — Agora.
Em bora Marty percebesse que estava j ogando fora a últim a esperança de vencer o detetive e ganhar proteção policial, ele tam bém se levantou da cadeira, tão furioso que chegava a trem er.
— Minha m ulher está certa. Acho que é m elhor você e seus hom ens irem em bora, tenente.
Perm anecendo sentado, porque isso era um desafio aos dois, Cy rus Lowbock disse:
— Vocês querem dizer, ir em bora antes de term inar nossa investigação?
— Isso m esm o — apoiou Marty. — Term inada ou não.
— Sr. Stillwater... Sra. Stillwater... vocês sabem que é contra a lei dar queixa de um crim e falso?