Sr. Assassino
Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Quase sem se dar conta de que enfim o carro pegara, se afastara do m eio-fio e chegara ao final do quarteirão, Charlotte só perdeu um pouco da tristeza quando Em afastou-se da j anela, agarrou seu braço e sacudiu-a. Em sussurrou-lhe:
— Papai.
A princípio, Charlotte pensou que Em estava inj ustam ente irritada com ela por ter deixado papai furioso, e estivesse lhe avisando que ficasse calada. Mas antes de poder lançar-se ao com bate com a irm ã, ela percebeu um a excitação de alegria na voz de Em .
Algum a coisa im portante estava acontecendo.
Reprim indo as lágrim as, ela viu que Em j á estava de novo pressionada contra a j anela. Enquanto o carro atravessava o cruzam ento e virava à direita, Charlotte seguiu a direção do olhar da irm ã.
Assim que localizou papai correndo ao lado do carro, soube que era seu pai verdadeiro. O papai atrás do volante — o papai com aquele ar de ódio no rosto, que gritava para as filhas sem nenhum a razão — era um a falsificação. Algum a outra pessoa. Ou algum a outra coisa, talvez com o nos film es, surgindo de um a sem ente de vagem de um a outra galáxia, um dia era apenas um m onte de gosm a feia e no dia seguinte assum ia um a form a parecida com papai. Ela não se sentiu confusa ao avistar os dois pais idênticos, não teve nenhum problem a para saber qual era o verdadeiro, com o um adulto poderia ter, porque ela era um a criança e as crianças sabiam essas coisas.
Acom panhando o carro, quando ele entrou na próxim a rua, apontando a arm a para a j anela do m otorista, papai berrou:
— Ei, ei, ei!
Quando o falso papai percebeu quem estava gritando para ele, Charlotte esticou-se para fora do cinto de segurança, agarrou um pedaço do casaco de Em e puxou a irm ã para fora da j anela.
— Abaixe-se, protej a seu rosto, rápido!
As duas se encostaram , aconchegaram -se um a na outra, protegeram as cabeças com as m ãos.
BAM!
O disparo da arm a de fogo foi o barulho m ais alto que Charlotte ouvira na vida. Cam painhas soaram em seus ouvidos.
Ela quase com eçou a chorar de novo, dessa vez de m edo, m as tinha que ser dura por causa de Em . Nesses m om entos, um a irm ã m ais velha tem que pensar em suas responsabilidades.
BAM!
Quando o segundo tiro explodiu num piscar de olhos depois do prim eiro, Charlotte soube que o falso papai fora atingido, porque ele gritou de dor e praguej ou, cuspindo a palavra com M várias e várias vezes. No entanto, ainda estava em boa form a para dirigir, e o carro pulou para a frente.
Pareciam fora de controle, tom bando para a esquerda, indo rápido dem ais, depois virando com força para a direita.
Charlotte sentiu que iriam bater em algum a coisa. Se não fossem esm igalhadas na batida, ela e Em tinham que estar preparadas para se m over com rapidez quando parassem , tinham que sair do carro e do cam inho para que papai pudesse tratar do falso.
Ela não tinha nenhum a dúvida de que papai poderia tratar do outro hom em . Em bora não tivesse idade para ter lido algum de seus rom ances, ela sabia que papai escrevia sobre assassinos e arm as e perseguições de carro, esse tipo de coisa, de m odo que saberia exatamente o que fazer. O falso ficaria m uito arrependido de ter se m etido com papai; acabaria num a prisão por um tem po m uito, m uito longo.
O carro desviou-se de novo para a esquerda, e no assento da frente o falso fazia sons choram ingados de dor, que lem bravam os gritos de Way ne, o gerbo, na vez em que conseguiu ficar com o pé preso debaixo do m ecanism o de sua roda de exercícios. Mas Way ne nunca praguej ava, claro, e aquele hom em estava praguej ando com m ais raiva que antes, não apenas usando a palavra com M, m as tam bém o nom e de Deus em vão, além de todos os tipos de palavras que ela nunca ouvira antes, m as sabia, tinha certeza de que era linguagem ruim da pior espécie.
Segurando Em com um braço, Charlotte apalpou o cinto de segurança com a m ão livre, procurando o botão de soltar. Achou-o e m anteve o polegar sobre ele.
O carro bateu em algum a coisa, e o m otorista pisou no freio. Eles deslizaram de lado na rua m olhada. A traseira do carro girou para a esquerda, e a barriga dela deu um a volta, com o se estivessem num brinquedo do parque de diversões.
O lado do m otorista de carro bateu forte em algum a coisa, m as não com força suficiente para m atá-los. Ela apertou o polegar no botão e o cinto de segurança recuou. Apalpando a cintura de Em , ela disse:
— Seu cinto, solte o cinto... — e, em um ou dois segundos, encontrou o botão da irm ã.
A porta de Em estava em perrada na coisa contra a qual tinham batido. Elas tinham que sair pelo lado de Charlotte.
Ela puxou Em por sobre seu corpo. Abriu a porta. Em purrou Em para fora.
Ao m esm o tem po, Em a puxava, com o se fosse a pessoa que estava fazendo o salvam ento, e Charlotte quis dizer: Ei, quem é a irmã mais velha aqui?
O falso papai viu ou ouviu que elas estavam saindo. E investiu contra elas por sobre o assento da frente.
— Suas putinhas! — e agarrou o desengonçado chapéu de chuva de Charlotte.
Ela deslizou por baixo do chapéu, passou pela porta, saiu na noite e na chuva, caindo de m ãos e j oelhos no pavim ento. Levantou a vista, viu que Em j á cam baleava na rua em direção à calçada distante, tropeçando com o um bebê que recém aprendeu a andar. Charlotte pôs-se de pé correu atrás da irm ã.
Alguém estava gritando seus nom es.
Papai.
O verdadeiro papai.
* * *
A três quartos de quarteirão de distância, o Buick atingiu um galho de árvore quebrado num a enorm e poça e deslizou levantando um a cortina de espum a.
Marty ficou anim ado com a chance de se aproxim ar, m as horrorizado com o pensam ento do que podia ter acontecido com as filhas. O film e m ental de um a batida de carro não passou por sua m ente de novo; ele nunca parou de passar. Agora parecia prestes a sair de sua im aginação, exatam ente com o as cenas se traduzem em palavras a partir de im agens m entais, só que dessa vez ele estava indo longe dem ais, saltando do m anuscrito, traduzindo-se diretam ente de im aginação em realidade. Marty teve a ideia m aluca de que o Buick não teria perdido o controle se ele não houvesse im aginado isso acontecendo, e que suas filhas m orreriam queim adas no carro apenas porque ele im aginara que isso aconteceria.
O Buick bateu súbita e ruidosam ente contra a lateral de um Ford Explorer estacionado. Em bora o barulho da colisão estrem ecesse a noite, o carro não capotou nem incendiou.
Para espanto de Marty, a porta direita traseira se abriu e as m eninas saíram com o um par de cobras de brinquedo pulando de um a lata.
Pelo que ele podia ver, elas não tinham ferim entos sérios, e Marty gritou para se afastarem do Buick. Mas elas não precisavam de seu conselho. Tinham sua própria agenda e, no m esm o instante, arrastaram -se na rua, procurando proteção.
Marty continuou correndo. Agora que as m eninas estavam fora do carro, sua fúria era m aior que seu m edo. Ele queria m achucar o m otorista, m atá-lo. Não era um a raiva quente, m as fria, a selvageria irracional de réptil que o assustava, ainda que se entregasse a ela.
Estava a m enos de um terço de quarteirão do carro, quando o m otor uivou e os pneus com eçaram a soltar fum aça. O Outro tentava escapar, m as os veículos estavam engatados. De repente, o m etal torturado guinchou, estalou e o Buick com eçou a rasgar-se, livrando-se do Explorer.
Marty preferia estar m ais perto para abrir fogo, de m odo a ter m ais chances de atingir O Outro, m as sentiu que essa era a m aior proxim idade que teria. Parou derrapando, levantou a Beretta, segurando-a com as duas m ãos, trem endo tanto que não conseguia m anter a visão no alvo, xingando-se por sua fraqueza, tentando ser um a rocha.
O recuo do prim eiro tiro j ogou o cano para o alto, e Marty baixou-o antes de dar o segundo tiro.
O Buick se libertou do Explorer e arrem essou-se alguns m etros à frente. Por um m om ento, seus pneus perderam tração no pavim ento escorregadio e giraram no vazio, lançando para trás um borrifo prateado de água.
Ele apertou o gatilho, grunhindo de satisfação quando a j anela traseira do Buick im plodiu e, no m esm o instante, tornou a disparar, m irando o m otorista, tentando visualizar o crânio do bastardo im plodindo da m esm a form a que a j anela, esperando que todos os seus pensam entos se traduzissem em realidade. Quando os pneus agarraram o pavim ento, o Buick afastou-se em disparada. Marty deu outro tiro e m ais outro, apesar de o carro j á estar fora do alcance. As m eninas não estavam na linha de fogo e parecia não haver ninguém m ais na rua chuvosa, m as era irresponsável continuar atirando, j á que ele tinha poucas possibilidades de atingir O Outro. Era m ais provável acertar algum inocente que por acaso passasse na m esm a rua m ais à frente; m ais provável espatifar a j anela de um a das casas próxim as e elim inar alguém sentado diante da televisão. Mas ele não se im portava, não conseguia refrear-se, queria sangue, vingança, o pente vazio, e apertou o gatilho várias vezes até gastar a últim a bala, em itindo prim itivos sons de raiva, totalm ente fora de controle.
* * *
Paige ligou a seta do BMW. O carro deslizou em volta da esquina, quase tom bando de lado antes de ela endireitá-lo de frente para leste na rua transversal.
A prim eira coisa que viu depois de virar a esquina foi Marty no m eio da rua. Estava parado de costas para ela, com as pernas bem abertas, atirando com a pistola contra o Buick que desaparecia.
Ela prendeu a respiração e o coração parou de bater. As m eninas deviam estar no carro que se afastava.
Ela pisou fundo no acelerador, tencionando contornar Marty e alcançar o Buick, bater em sua traseira, tirá-lo da rua, lutar de m ãos lim pas contra o sequestrador, arrancar com os dentes os olhos do filho da puta, fazer qualquer coisa que fosse preciso, qualquer coisa. Então, ela viu as m eninas com suas capas de chuva am arelas na calçada à direita, paradas ao lado de um poste. Estavam abraçadas. Pareciam tão pequenas e frágeis na chuva garoenta e na penetrante luz am arelada.
Paige passou por Marty e puxou o freio de m ão. Abriu a porta e saiu do BMW, deixando os faróis acesos e o m otor funcionando.
Enquanto corria para as m eninas, ouviu sua voz dizer:
— Graças a Deus, graças a Deus, graças a Deus, graças a Deus.
Não conseguia parar de dizer isso, nem m esm o quando se agachou e pegou as duas nos braços ao m esm o tem po, com o se num certo nível acreditasse que as duas palavras possuíssem poderes m ágicos, e que as filhas desapareceriam de seu abraço se ela parasse de cantar esse m antra.
As m eninas abraçavam -na com ferocidade. Charlotte enterrou o rosto no pescoço da m ãe. Em ily estava com os olhos arregalados.
Marty caiu de j oelhos ao lado delas. E ficou tocando as m eninas, sobretudo no rosto, com o se tivesse dificuldade em acreditar que a pele delas ainda perm anecia quente e seus olhos vivos, aturdido ao ver que a respiração ainda saía de suas bocas. Ele disse várias vezes:
— Vocês estão bem , estão m achucadas, estão bem ?
O único m achucado que pôde encontrar foi um a pequena esfoladura na palm a esquerda de Charlotte, feita quando ela m ergulhara do Buick e caíra de m ãos e j oelhos no chão.
A única diferença grande e perturbadora nas m eninas era seu constrangim ento incom um . Estavam tão reprim idas que pareciam hum ildes, com o se tivessem recebido um castigo sério. A breve experiência com o sequestrador as deixara assustadas e contidas. A autoconfiança costum eira poderia levar algum tem po para voltar, talvez nunca m ais fosse tão forte quanto antes. Só por essa razão, Paige queria fazer com que o suj eito do Buick sofresse.
No quarteirão, algum as pessoas haviam saído pelo portão da frente para ver o m otivo daquela com oção — agora que os tiros tinham cessado. Outras estavam nas j anelas.
Sirenes soaram ao longe.
Marty pôs-se de pé.
— Vam os dar o fora daqui.
— A polícia está vindo — disse Paige.
— Foi o que eu quis dizer.
— Mas eles...
— Serão tão m aus quanto da últim a vez, pior.
Ele pegou Charlotte e saiu apressado em direção ao BMW, enquanto as sirenes ficavam m ais altas.
* * *
Lascas de vidro estão aloj adas em seu olho esquerdo. A m aior parte da j anela de vidro tem perado se dissolvera num a m assa pastosa. Não cortou seu rosto. Mas m inúsculos fragm entos estão enterrados em seu tecido ocular, e a dor é devastadora. A cada m ovim ento do olho, o vidro se enterra m ais fundo, causa m ais dano.
Com o seu olho se contrai quando as piores dores o assaltam , ele fica piscando sem querer, em bora sej a um a tortura piscar. Tentando parar com isso, ele coloca os dedos da m ão esquerda sobre a pálpebra fechada, aplicando apenas um a suave pressão. Tanto quanto possível ele dirige só com a m ão direita.
Às vezes tem que deixar o olho contrair-se, porque precisa usar a m ão esquerda para dirigir. Com a direita, ele rasga a em balagem de um a barra de doce, enfiando-a na boca o m ais rápido que pode m astigar. Sua fornalha m etabólica exige com bustível.
Um furo de bala m arca-lhe a testa acim a do m esm o olho. O sulco tem a largura de seu dedo indicador e quase três centím etros de com prim ento. Até o osso. A princípio, sangrou sem parar. Agora o sangue pegaj oso pinga grosso sobre sua sobrancelha e escorre por entre os dedos que ele m antém grudados na pálpebra.
Se a bala pegasse dois centím etros à esquerda, acertaria a têm pora e penetraria no cérebro, j ogando estilhaços de osso para a frente.
Ele tem e os ferim entos na cabeça. Não confia em que possa recuperar-se de danos no cérebro com a m esm a rapidez com que se recupera de outros ferim entos. Talvez não possa se recuperar, em absoluto.
Ele dirige com cuidado, está m eio cego. Com um olho apenas perdeu a noção de profundidade. As ruas encharcadas pela chuva são traiçoeiras.
Agora a polícia tem um a descrição do Buick, talvez até o núm ero da placa. Estarão à sua procura, de m aneira rotineira se não for ativa, e os danos que o carro sofreu no lado do m otorista irão facilitar sua localização.
Ele não está em condições de roubar um outro carro a essa hora. Não apenas está m eio cego, m as tam bém ainda trêm ulo por causa dos ferim entos de bala feitos há três horas atrás. Se for surpreendido no ato de roubar um carro sem ocupantes, ou se encontrar resistência quando estiver tentando m atar outro m otorista, com o aquele cuj a capa de chuva está usando e que por enquanto se encontra tom bado na m ala do Buick, é provável que sej a preso ou ferido com m ais gravidade.
Rodando para o noroeste de Mission Viej o, pouco tem po depois ele atravessa a fronteira com El Toro. Em bora estej a num a com unidade nova, ainda não se sente seguro. Se houver um pedido de captura do Buick, é provável que sej a para todo o condado.
O m aior perigo é ficar em m ovim ento, aum entando o risco de ser visto pelos tiras. Se puder encontrar um lugar recolhido para estacionar o Buick, onde possa ficar em segurança sem ser descoberto pelo m enos até am anhã, ele pode enroscar-se no assento traseiro e descansar.
Ele precisa dorm ir e dar ao corpo um a oportunidade de se recom por. Desde que deixou Kansas City, passou duas noites sem descanso. Em geral, ele poderia perm anecer ativo e em estado de alerta por um a terceira noite, talvez um a quarta, sem nenhum a dim inuição de suas faculdades m entais. Mas o pedágio de seus ferim entos, com binado com o sono perdido e o esforço físico, requer um tem po para a convalescença.
Am anhã ele pega sua fam ília de volta, reclam a seu destino. Já cam inhou durante m uito tem po sozinho na escuridão. Um dia a m ais vai fazer pouca diferença.
Esteve tão perto do sucesso. Durante um breve tem po, suas filhas lhe pertenceram de novo. Sua Charlotte. Sua Em ily.
Ele recorda a alegria que sentiu na saleta de entrada da casa dos Delorio, pressionando os corpinhos das m eninas contra o seu. Eram tão doces. Beij os com suavidade de borboletas em suas faces. Suas vozes m usicais — “papai, papai” — tão cheias de am or por ele.
Ao lem brar do quão perto esteve de tom ar posse perm anente delas, ele fica à beira do choro. Não deve chorar. A convulsão dos m úsculos no olho m achucado aum entará a dor de m aneira insuportável, e lágrim as em seu olho direito o reduzirão à cegueira virtual.
Em vez disso, ele atravessa bairros residenciais de El Toro indo para Laguna Hill, onde as luzes das casas brilham na chuva, escarnecendo dele com im agens de felicidade dom éstica. Ele pensa em com o aquelas m esm as crianças o desafiaram e abandonaram ; esse tem a o tira das lágrim as e o conduz à raiva. Ele não com preende por que suas doces m eninas escolheriam o charlatão em vez do pai verdadeiro, quando m om entos antes o haviam coberto de beij os e adoração. A traição delas o perturba. Corrói suas entranhas.
* * *
Enquanto Marty dirigia, Paige estava sentada no assento traseiro com Charlotte e Em ily, segurando suas m ãos. Por enquanto ela se sentia em ocionalm ente incapaz de soltá-las.
Marty seguia um a rota indireta através de Mission Viej o. No início, m anteve-se afastado o m áxim o possível das ruas principais, conseguindo evitar a polícia. Quarteirão após quarteirão, Paige continuava exam inando o tráfego em torno deles, esperando que o Buick batido surgisse e tentasse forçá-los para fora do pavim ento. Virou-se duas vezes para olhar pela j anela traseira, certa de que o Buick os seguia, m as seus m edos não se concretizaram .
Quando Marty entrou na Marguerite Parkway e se dirigiu ao sul, Paige enfim perguntou:
— Para onde estam os indo?
Ele olhou para ela pelo espelho retrovisor.
— Não sei. Só estam os saindo daqui. Ainda estou pensando em nosso destino.
— Talvez eles acreditem em você dessa vez.
— Não tem a m enor chance.
— As pessoas de lá devem ter visto o Buick.
— Talvez. Mas não viram o suj eito que estava dirigindo. Nenhum a delas pode apoiar m inha história.
— Vic e Kathy devem ter visto o hom em .
— E pensaram que fosse eu.
— Mas agora sabem que não era você.
— Elas não nos viram juntos, Paige. É isso que im porta, droga! Alguém que nos visse j untos, um a testem unha independente.
— Charlotte e Em ily — disse ela. — Elas viram você e o outro ao m esm o tem po.
Marty sacudiu a cabeça.
— Isso não vale. Gostaria que valesse. Mas Lowbock não daria nenhum crédito ao testem unho de crianças pequenas.
— Não tão pequenas — falou Em ily ao lado de Paige, parecendo ainda m enor e m ais j ovem do que era de fato.
Charlotte perm anecia em silêncio, o que não era sua característica. As duas m eninas ainda trem iam , m as Charlotte sofria um acesso de trem ores pior do que Em ily. Estava encostada no corpo da m ãe para se aquecer, com a cabeça enfiada na gola de seu casaco, com o se fosse um a tartaruga.
Marty ligou o aquecedor no ponto m ais alto possível. O interior do BMW deveria estar sufocantem ente quente. Mas não estava.
Até Paige sentia frio. Ela disse:
— Talvez devêssem os voltar e tentar falar sério com eles, m esm o assim .
Marty foi inflexível.
— Querida, não, não podem os. Pense só. Com toda certeza, eles vão tom ar a Beretta. Eu atirei no cara com ela. Do ponto de vista deles, de um a m aneira ou de outra houve um crim e, e a pistola foi usada para com etê-lo. Ou alguém tentou, de fato, sequestrar as m eninas e eu tentei m atá-lo. Ou tudo isso é um em buste para vender livros, para m e colocar m ais alto na lista de bestsellers. Talvez eu tenha contratado um am igo para dirigir o Buick, depois atirei nele com balas de festim , induzi m inhas filhas a m entir e agora estou fazendo outra queixa policial falsa.
— Depois de tudo isso, Lowbock não vai continuar com essa teoria ridícula.
— Não vai? Um a droga que não vai.
— Marty, ele não pode.
Ele suspirou.
— Está bem , está bem , talvez ele não possa, é provável que não possa.
— Ele vai perceber que está acontecendo algo m uito m ais sério — disse Paige.
— Mas tam pouco vai acreditar na minha história, que parece ser m ais m aluca que um a lata tam anho gigante de Planters, adm ito. E se você tivesse lido o artigo da People... Em todo caso, ele tom ará a Beretta. E se descobrir a espingarda na m ala do carro?
— Não há nenhum a razão para ele tom á-la.
— Ele pode achar um a desculpa. Ouça, Paige, Lowbock não vai m udar de opinião a m eu respeito com essa facilidade, nem que as m eninas contem a verdade para ele. Vai desconfiar m uito m ais de m im do que de um suj eito no Buick que ele nunca viu. Se tom ar as duas arm as, ficarem os indefesos. Suponham os que os tiras vão em bora, e aí aquele bastardo, o sósia, entra na casa dois m inutos depois, quando não tiverm os nada para nos proteger.
— Se a polícia continuar não acreditando, se não nos der proteção, não ficarem os na casa.
— Não, Paige, estou falando literalm ente. E se aquele bastardo entrar na casa dois minutos depois que os tiras forem em bora, sem nos dar chance de fugir?
— Não é provável que ele arrisque...
— Ah, é sim , é provável. É provável sim . Ele voltou quase que imediatamente depois que os tiras partiram na prim eira vez, não voltou? Foi direto até a porta da frente dos Delorio e tocou a m aldita cam painha. Parece que ele floresce com o risco. Eu não afastaria a possibilidade de ele invadir a casa enquanto os tiras ainda estão lá, atirando na frente de todo o m undo. Ele é louco, toda essa situação é m aluca e não quero arriscar m inha vida, a sua ou a das m eninas ignorando o que esse cretino pode fazer em seguida.
Paige sabia que ele tinha razão.
Contudo, era difícil e até doloroso aceitar que a situação deles era tão terrível ao ponto de colocá-los além da aj uda policial. Se não podiam receber assistência e proteção oficial, então o governo falhara com eles no dever m ais fundam ental: proporcionar a ordem civil através da aplicação j usta porém estrita de um código crim inal. Apesar da m áquina com plexa na qual eles viaj avam , apesar da m oderna autoestrada na qual rodavam e da rede de luzes suburbanas que cobria a m aior parte dos m orros e vales do sul da Califórnia, essa falha significava que não estavam vivendo num m undo civilizado. Os shopping malls, os elaborados sistem as de trânsito, os fulgurantes centros para a realização de artes, os estádios esportivos, os im ponentes prédios do governo, as m últiplas salas de cinem a, os prédios de escritórios, os sofisticados restaurantes franceses, igrej as, m useus, parques, universidades e usinas nucleares não significavam coisa algum a, a não ser um a elaborada fachada de civilização de tecido fino com toda sua solidez aparente. Na verdade, eles viviam num a anarquia com alta tecnologia, sustentada pela esperança e pela auto ilusão.
O constante zum bido dos pneus do carro fez nascer dentro dela um m edo crescente, um estado de espírito de calam idade im inente. Era um som tão com um , banda de borracha dura girando em alta velocidade sobre o pavim ento, apenas um a parte da m úsica cotidiana da vida diária; m as, de repente, isso era tão agourento quanto o ronco de bom bardeiros se aproxim ando.
Quando Marty virou para sudoeste na Crown Valley Parkway, em direção a Laguna Niguel, Charlotte enfim rom peu seu silêncio.
— Papai?
Paige viu quando ele olhou pelo espelho retrovisor e soube, por seu olhar de preocupação, que ele tam bém estava inquieto com o estranho período de introversão da m enina.
Ele disse:
— Sim , querida.
— O que era aquela coisa? — perguntou Charlotte.
— Que coisa, querida?
— Aquela coisa que parecia com você.
— Eis aí um a pergunta de um m ilhão de dólares. Mas, sej a ele quem for, é apenas um hom em e não um a coisa. É apenas um hom em que se parece um bocado com igo.
Paige pensou em todo aquele sangue no andar de cim a, na rapidez com que o sósia se recuperou dos dois tiros no peito para em preender sua rápida fuga e, pouco tem po depois, voltar, forte o bastante para renovar seu assalto. Ele não parecia hum ano. E a declaração de Marty — ela sabia — nada m ais era que a tranquilização obrigatória de um pai consciente de que, às vezes, as crianças precisam acreditar na onisciência e equanim idade inabaláveis dos adultos.
Após m ais algum tem po de silêncio, Charlotte disse:
— Não, não era um hom em . Era um a coisa. Má. Feia por dentro. Um a coisa fria. — Um trem or sacudiu-a, fazendo com que suas palavras seguintes soassem trêm ulas: — Eu beij ei e disse “eu te am o” para ela, m as era apenas um a coisa.
* * *
O condom ínio de alta classe abrange um a grande quantidade de prédios enorm es, cada qual aloj ando dez ou doze apartam entos. Ele se estende pela propriedade, que se assem elha a um parque, som breada por um a pequena floresta.
As ruas dentro do condom ínio são sinuosas. Todos os residentes dispõem de galpões para carro, com estrutura de sequoia e apenas um a parede nos fundos e o telhado, cada qual com oito ou dez baias. Buganvílias sobem pelas colunas que sustentam cada telhado, dando-lhes um ar de graça, em bora à noite as flores vivas percam a m aior parte de sua cor com a luz azul das lâm padas de segurança a vapor de m ercúrio.
Em toda a propriedade há áreas de estacionam ento não cobertas, nas quais está escrito no m eio-fio branco com letras pretas: ESTACIONAMENTO APENAS PARA VISITANTE.
Num beco sem saída ele encontra um a zona de visitantes que lhe proporciona o local perfeito para passar a noite. Nenhum dos seis espaços está ocupado e o últim o é flanqueado num dos lados por um a cerca de oleandros de 1,50m de altura. Quando ele dá ré no carro e se encaixa no espaço bem encostado na cerca, o oleandro disfarça a batida no lado do m otorista.
Um a acácia teve perm issão para deitar-se sobre a lâm pada de rua m ais próxim a. Seus galhos cheios de folhas bloqueiam a m aior parte da luz. O Buick está quase todo na escuridão.
Não é provável que a polícia atravesse o condom ínio m ais do que um a ou duas vezes até o am anhecer. E, quando o fizer, não vai exam inar placas de carro, m as sim esquadrinhar a propriedade procurando indicações de invasão de dom icílio ou outros crim es em andam ento.
Ele desliga os faróis e o m otor, recolhe o que sobrou de seu estoque de doces e sai do carro para livrar-se dos fragm entos de vidro que estão presos nele.
A chuva j á não cai m ais.
O ar está frio e lim po.
A noite não revela suas intenções. Está em silêncio, com a exceção do tique e plop das árvores que ainda pingam .
Ele passa para o assento traseiro e, com m ovim entos suaves, fecha a porta. Não é um a cam a confortável. Mas ele j á conheceu piores. Acom oda-se na posição fetal, aninhado entre barras de doce em vez do cordão um bilical, coberto apenas pela larga capa de chuva.
Enquanto espera que o sono se apodere dele, pensa de novo nas filhas e em sua traição.
Com o é inevitável, ele se pergunta se elas preferem o outro pai a ele, o falso ao real. É um a terrível possibilidade para ser forçado a explorar. Se for verdade, significa que aquelas que ele m ais am a não são vítim as, com o ele, m as sim participantes ativos no com plô bizantino arm ado contra ele.
É provável que o falso pai sej a clem ente com elas. Perm ite que com am o que querem . Deixa irem para a cam a tão tarde quanto queiram .
Todas as crianças são anarquistas por natureza. Precisam de regras e padrões de com portam ento, caso contrário crescem selvagens e antissociais.
Quando ele m atar o odioso falso pai e recuperar o controle de sua fam ília, estabelecerá regras para tudo e as aplicará estritam ente. O m au com portam ento será punido instantaneam ente. A dor é um a das m elhores professoras da vida, e ele é especialista na aplicação de dor. A ordem será estabelecida na casa dos Stillwater, e suas filhas não com eterão nenhum ato sem prim eiro refletir com sobriedade sobre as regras que as governam .
Claro que no com eço vão odiá-lo por ser tão severo e inflexível. Não com preenderão que ele está agindo no interesse delas.
Contudo, cada lágrim a que suas punições arrancarem será doce para ele. Cada grito de dor será m úsica alegre. Ele será inflexível; sabe que elas acabarão percebendo que ele im põe orientação porque se im porta m uito com elas. Elas o am arão por sua severa preocupação paternal. Elas o adorarão por ele estar proporcionando a disciplina de que precisam — e desej am secretam ente —, m as faz parte de sua natureza resistir.
Paige tam bém precisará ser disciplinada. Ele conhece as necessidades das m ulheres. Ele lem bra de um film e com Kim Basinger, no qual é m ostrado que sexo e desej o de disciplina estão ligados de m aneira inexorável. Ele antegoza a instrução de Paige com prazer especial.
Desde o dia em que sua carreira, fam ília e m em órias lhe foram roubadas — fato que pode ter ocorrido há um ou dez anos, pelo que sabe —, ele viveu sobretudo através dos film es. As aventuras vividas e as dolorosas lições aprendidas em inúm eros cinem as escuros lhe parecem tão reais quanto o assento de carro no qual está deitado agora e o chocolate que se dissolve em sua língua. Ele lem bra ter feito am or com Sharon Stone e com Glenn Close, e que am bas lhe ensinaram o potencial de m ania sexual e traição inerente às m ulheres. Ele lem bra da diversão exuberante que foi o sexo com Goldie Hawn, o êxtase de Michelle Pfeiffer, e excitante urgência suada de Ellen Barkin, quando ele incorretam ente suspeitou que ela era um a assassina, m as assim m esm o espetou-a na parede de seu apartam ento e penetrou-a. John Way ne, Clint Eastwood, Gregory Peck e tantos outros hom ens o haviam colocado debaixo de suas asas, ensinando-lhe coragem e determ inação. Ele sabe que a m orte é um m istério de infinitas com plicações, porque aprendeu m uitas lições conflitantes sobre isso. Tim Robbins m ostrou-lhe que a vida após a m orte é apenas um a ilusão, ao passo que Patrick Sway ze m ostrou-lhe que o além é um lugar alegre tão real quanto qualquer outra parte e que aqueles a quem se am a (com o Dem i Moore) o encontrarão ali quando, m ais tarde, deixarem este m undo. No entanto, Freddy Krueger dem onstrou que a vida após a m orte é um pesadelo terrível do qual se pode retornar para um a alegre vingança. Quando Debra Winger m orreu de câncer, deixando Shirley MacLaine desolada, ele ficara inconsolável, m as alguns dias depois tornou a vê-la, viva novam ente, m ais j ovem e m ais linda do que nunca, reencarnada num a vida nova na qual desfrutava de um novo destino ao lado de Richard Gere. Muitas vezes, Paul Newm an dividiu com ele seu conhecim ento sobre a m orte, a vida, o bilhar, o pôquer, o am or e a honra, por isso ele considera esse hom em um de seus m entores m ais im portantes. Do m esm o m odo, Wilford Brim ley, Gene Hackm an, o velho e robusto Edward Asner, Robert Redford, Jessica Tandy. Com frequência, ele absorve lições bastante contraditórias desses am igos, m as com o j á ouviu algum as dessas pessoas dizerem que as crenças têm valor igual e que não existe um a verdade única, ele se sente confortável com as contradições com que vive.
Ele aprendeu a m ais secreta de todas as verdades não num cinem a público ou no serviço de cinem a pago de um quarto de hotel. Em vez disso, esse m om ento de form idável conhecim ento ocorreu no quarto particular de um dos hom ens que devia m atar.
Seu alvo era um senador dos Estados Unidos. Um a exigência do exterm ínio era fazer com que parecesse suicídio.
Ele tinha que entrar na residência do senador num a noite em que o hom em estivesse sozinho. Estava de posse de um a chave, de m odo que não haveria sinais de entrada forçada.
Após ganhar acesso à casa, ele encontrou o senador num a sala de oito lugares, com som de alta fidelidade e sistem a de proj eção com qualidade profissional capaz de apresentar im agens de televisão, vídeo ou laserdisc num a tela de 1,50m x 1,80m . Era um aposento forrado com veludo, sem j anelas. Havia inclusive um a m áquina antiga de Coca que — ele soube m ais tarde — fornecia a suave bebida na clássica garrafa de vidro de 300m l, m ais um a m áquina de doces estocada com Milk Duds, j uj ubas, passas e outras guloseim as favoritas do cinem a em casa.
Por causa da m úsica do film e, ele não teve dificuldade para rastej ar até chegar atrás do senador e dom iná-lo com um pano em bebido em clorofórm io, que ele tirou de um a sacola de plástico um segundo antes de usar. Ele carregou o político para o andar de cim a, para o ornam entado banheiro do dono da casa; despiu-o e, com delicadeza, levou-o para a banheira cheia de água quente, em pregando o clorofórm io periodicam ente para garantir a inconsciência perm anente. Com um a lâm ina de barbear, fez um corte profundo e perfeito no pulso direto do senador (j á que o político era canhoto, sendo portanto provável que usasse a m ão esquerda para fazer o prim eiro corte), e deixou esse braço afundar na água, que logo depois foi descolorida pelo j orro arterial. Antes de deixar a lâm ina cair na água, ele fez algum as débeis tentativas para cortar o pulso esquerdo, sem fazer um sulco profundo, j á que o senador não teria conseguido segurar a lâm ina com firm eza na m ão direita, depois de haver cortado os tendões e ligam entos j unto com a artéria desse pulso.
Sentado na beira da banheira, m inistrando clorofórm io cada vez que o político gem ia e parecia prestes a despertar, ele com partilhou, com gratidão, da sagrada cerim ônia da m orte. Quando se tornou o único hom em vivo no banheiro, ele agradeceu ao falecido pela preciosa oportunidade de com partilhar da m ais íntim a das experiências.
Norm alm ente ele teria saído da casa depois, m as o que havia assistido na tela de cinem a atraiu-o de volta à sala de proj eção do prim eiro andar. Já vira pornografia antes, no cinem a só para adultos de m uitas cidades, e nessas experiências aprendera tudo sobre posições e técnicas sexuais. Mas a pornografia naquela tela dom éstica era diferente de tudo que ele j á vira, pois incluía correntes, algem as, correias de couro, cintos com botões m etálicos, além de um a am pla variedade de outros instrum entos de punição e repressão. Por incrível que pareça, as lindas m ulheres na tela pareciam ficar excitadas com a brutalidade. Quanto m aior a crueldade com que eram tratadas, m aior era a disposição com que se entregavam ao prazer orgástico; na verdade, m uitas vezes elas suplicavam para ser tratadas com m ais crueldade, violadas com m ais sadism o.
Ele acom odou-se no assento de onde tirara o senador. Fascinado, olhou fixo para a tela, absorvendo, aprendendo.
Quando a fita de vídeo chegou ao fim , um a rápida busca levou-o a um pequeno arm ário em butido — em geral oculto atrás do painel da parede —, que continha um a coleção de m aterial sem elhante. Um assom broso tesouro de fitas, m ostrando crianças envolvidas em atos carnais com adultos. Filhas com pais. Mães com filhos. Irm ãs com irm ãos, irm ãs com irm ãs. Ele ficou sentado horas, até quase o am anhecer, pasm o.
Absorvendo.
Aprendendo, aprendendo.
Para ter se tornado senador dos Estados Unidos, um líder exaltado, o m orto na banheira devia ter sido m uito sábio. Portanto, sua videoteca pessoal conteria, claro, diversos m ateriais de natureza transcendente, refletindo seu singular discernim ento intelectual e m oral, incorporando filosofias com plexas dem ais para serem com preendidas pela m édia do público das salas de cinem a. Que sorte ter descoberto o político sentado na sala de cinem a, e não preparando um lanche na cozinha ou lendo um livro na cam a. Caso contrário, j am ais teria aquela oportunidade de usufruir a sabedoria do arm ário oculto do grande hom em .
Agora, enroscado na posição fetal no assento traseiro do Buick, ele podia estar tem porariam ente cego de um olho, furado e arranhado à bala, fraco e cansado, por um m om ento derrotado, m as não desesperado. Ele tem outra vantagem além do corpo que se recupera de form a m ágica, da energia sem paralelo e dos exaustivos conhecim entos das artes de m atar. Igualm ente im portante, ele possui o que percebe ser a grande sabedoria adquirida nas telas públicas e privadas de cinem a, e essa sabedoria assegurará seu triunfo derradeiro. Ele conhece o que acredita serem os grandes segredos, que as pessoas m ais sábias escondem em arm ários: aquelas coisas de que as m ulheres realm ente precisam ; coisas que elas podem não conhecer, m as que subconscientem ente desej am ; aquelas coisas que as crianças querem , m as não ousam falar. Ele com preende que sua m ulher e filhas acolherão com prazer e florescerão com a extrem a dom inação, rígida disciplina, abusos físicos, subj ugação sexual e até hum ilhação. Na prim eira oportunidade, ele pretende realizar seus desej os m ais profundos e prim itivos, que o tolerante pai falso, ao que parece, j am ais conseguirá; e j untos serão um a fam ília, vivendo em harm onia e am or, com partilhando um destino, unidos para sem pre por sua sabedoria singular, força e coração exigente.
Ele flutua rum o ao sono curador, confiando em acordar com plena saúde e vigor dentro de algum as horas.
A pouca distância dele, na m ala do carro, está o m orto que antes era dono do Buick — frio, rígido e sem nenhum a perspectiva atraente.
Que bom é ser especial, ser necessário, ter um destino.