Sr. Assassino
Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
— Já lhe disse um m ilhão de vezes que não levou.
— O que você sabe? Você tem apenas sete anos.
Em ily suspirou.
— Ele disse pra gente que estava bem , na cozinha, quando m am ãe achou que estava ferido.
— Ele estava coberto de sangue — irritou-se Charlotte.
— Ele disse que não era dele.
— Não lem bro disso.
— Eu lem bro — disse Em ily em tom enfático.
— Se papai não levou um tiro, então quem levou?
— Talvez um ladrão.
— Não som os ricos, Em . O que um ladrão iria querer em nossa casa? Ei, talvez papai tenha atirado na Sra. Sanchez.
— Por que atirar na Sra. Sanchez? Ela é só a faxineira.
— Talvez ela tenha ficado louca de raiva — disse Charlotte, e essa possibilidade exerceu um a enorm e atração sobre sua sede de dram a.
Em ily sacudiu a cabeça.
— Não foi a Sra. Sanchez. Ela é sim pática.
— As pessoas sim páticas ficam loucas de raiva.
— Não ficam .
— Ficam .
Em ily cruzou os braços no peito.
— Diga um a.
— A Sra. Sanchez.
— Fora a Sra. Sanchez.
— Jack Nicholson.
— Quem é ele?
— Você sabe, o ator. Em Batman ele era o Coringa e ficou totalm ente m aciçam ente louco de raiva.
— Então, talvez ele sem pre sej a totalm ente m aciçam ente louco de raiva.
— Não, às vezes ele é sim pático, com o naquele film e com a Shirley MacLaine. Ele era um astronauta e a filha da Shirley ficou m uito doente e descobriram que estava com câncer, ela m orreu e Jack foi tão doce e sim pático.
— Além disso, não é dia da Sra. Sanchez — disse Em ily.
— O quê?
— Ela só vem nas quintas-feiras.
— Ora, Em , se ela ficou louca de raiva, não saberia que dia é hoj e — replicou Charlotte, contente com sua resposta que fazia perfeito sentido. — Talvez ela tenha saído de um asilo de pirados, ande por aí pegando trabalhos de faxina, depois, às vezes, quando enlouquece de raiva, ela m ata a fam ília, assa todo m undo e com e na j anta.
— Você é esquisita — disse Em ily.
— Não, ouça — insistiu Charlotte num sussurro urgente. — — Com o Hannibal Lecter.
— Hannibal o Canibal! — ofegou Em ily.
Nenhum a das duas tivera perm issão para ver o film e — que Em ily insistia em cham ar de A Sirene dos Inocentes — porque m am ãe e papai acharam que não tinham idade suficiente, m as elas ouviram sobre ele de outras crianças da escola que haviam visto em vídeo um bilhão de vezes.
Charlotte pôde ver que Em ily j á não estava tão segura quanto à Sra. Sanchez. Afinal de contas, Hannibal o Canibal tinha sido um m édico que ficara louco de raiva e m ordia os narizes e coisas das pessoas, de m odo que, de repente, a ideia de um a faxineira louca de raiva fez um bocado de sentido.
O Sr. Delorio entrou na sala de estar para abrir a cortina das portas deslizantes de vidro e exam inar o pátio dos fundos, bastante ilum inado. Segurava um a arm a na m ão direita. Nunca antes carregara um a arm a.
Deixando a cortina cair de volta, afastando-se da porta de vidro, ele sorriu para Charlotte e Em ily.
— Vocês estão bem , m eninas?
— Sim , senhor — disse Charlotte. — O program a é m uito bom .
— Precisam de algum a coisa?
— Não, obrigada, senhor — disse Em ily. — Só querem os assistir ao program a.
— É um ótim o program a — repetiu Charlotte.
Quando o Sr. Delorio saiu da sala, tanto Charlotte quanto Em ily viraram -se para observá-lo até ele desaparecer de vista.
— Por que ele tem um a arm a? — perguntou Em ily.
— Para proteger a gente. E você sabe o que isso significa? Que a Sra. Sanchez ainda deve estar viva e solta, procurando alguém para com er.
— Mas e se o Sr. Delorio for o próxim o a ficar louco de raiva? Ele tem um a arm a, nós nunca poderíam os fugir dele.
— Não sej a boba — disse Charlotte, m as depois percebeu que era tão provável um professor de educação física enlouquecer quanto um a faxineira. — Ouça, Em , sabe o que fazer se ele ficar louco?
— Ligar para nove-um -um .
— Você não teria tem po para isso, sua boba. Portanto, o que você tem que fazer é chutar ele no saco.
Em ily franziu as sobrancelhas.
— Hem ?
— Não lem bra do film e de sábado? — perguntou Charlotte.
Mam ãe tinha ficado perturbada com o film e a ponto de fazer queixa ao gerente do cinem a. Ela quis saber com o um film e podia receber um a censura “livre para todas as idades, com acom panham ento dos pais” com a linguagem e violência que exibia, e o gerente disse que era um film e livre com acom panham ento dos pais, o que era m uito diferente.
Um a das cenas que aborreceu m am ãe foi a cena em que o m ocinho se livrava do bandido chutando-o entre as pernas. Mais tarde, quando alguém perguntou ao m ocinho o que o bandido desej ava, o m ocinho disse: “não sei o que ele desej ava, m as o que ele precisava era de um bom chute no saco”.
Charlotte havia notado, de cara, que esse estilo aborrecera a m ãe. Mais tarde, ela poderia pedir um a explicação e a m ãe lhe daria. Mam ãe e papai acreditavam que deviam responder, de m aneira honesta, a todas as perguntas de um a criança. Mas, às vezes, era m ais excitante tentar saber a resposta por conta própria, porque então era um a coisa que ela sabia, que eles não sabiam que ela sabia.
Em casa, ela exam inou o dicionário para ver se havia um a definição de “saco” que explicasse o que o m ocinho fizera com o bandido, e tam bém explicasse por que sua m ãe ficara tão triste com a coisa. Quando viu que um dos significados da palavra era a gíria obscena para “testículos”, investigou essa m isteriosa palavra no m esm o dicionário, aprendeu o que pôde, depois entrou no gabinete de papai, com andar leve e furtivo, e usou sua enciclopédia m édica para descobrir m ais. Era um a coisa m uito estranha. Talvez m ais do que ela queria com preender. E explicou o m elhor que pôde para Em . Mas Em não acreditou em nenhum a palavra e, com o era evidente, logo esqueceu o assunto.
— Que nem no film e de sábado — Charlotte lem brou-a. — Se as coisas ficarem m uito ruins e ele pirar, chute ele entre as pernas.
— Ah, sim — Em disse ainda com dúvidas. — Chuto ele nos ticlos.
— Testiclos.
— Era ticlos.
— Era testiclos — insistiu Charlotte com firm eza.
Em ily encolheu os om bros.
— Sej a com o for.
A Sra. Delorio entrou na sala de estar enxugando as m ãos num pano de prato am arelo. Usava um avental sobre a saia e blusa. Cheirava a cebolas que estava cortando; com eçava a preparar a j anta quando elas chegaram .
— Meninas, estão prontas para outra Pepsi?
— Não, senhora — disse Charlotte. — Estam os bem , obrigada. Vendo o program a.
— É um ótim o program a — declarou Em ily.
— Um de m eus favoritos — disse Charlotte.
— É sobre um m enino com ticlos e todo m undo fica dando chutes nele — acrescentou Em ily.
Charlotte quase bateu na cabeça da fedelha.
Franzindo a testa, confusa, a Sra. Delorio ficou olhando da televisão para Em ily, e de Em ily para a tevê.
— Ticlos?
— Pickles — Charlotte disse, fazendo um inútil esforço para dissim ular.
A cam painha da porta tocou antes que Em pudesse fazer m ais estrago.
A Sra. Delorio disse:
— Aposto com o são seus pais — e saiu apressada da sala de visita.
— Cabeça de ervilha — disse Charlotte para a irm ã.
Em ily fez um a careta.
— Você só está braba porque m ostrei que tudo era m entira. Ela nunca ouviu dizer que m eninos têm ticlos.
— Psiu!
— Aí está — disse Em ily.
— Fedelha.
— Nagra.
— Isso nem é um a palavra.
— É se eu quiser.
A cam painha da porta tocou e tocou, com o se alguém estivesse encostado nela.
* * *
Vic olhou pela lente olho-de-peixe para o hom em na varanda da frente. Era Marty Stillwater.
Ele abriu a porta, dando um passo para trás a fim de que o vizinho pudesse entrar.
— Meu Deus, Marty, parecia um congresso de policiais lá do outro lado. Por que tudo aquilo?
Marty fitou-o intensam ente por um m om ento, sobretudo para a arm a na m ão direita, depois pareceu ter tom ado algum a decisão e piscou os olhos. Molhado de chuva, a pele parecia vítrea e com um branco tão artificial quanto o rosto de um a figura de porcelana. Parecia em briagado, encolhido, com o alguém que se recupera de um a doença grave.
— Você está bem , Paige está bem ? — perguntou Kathy entrando na saleta atrás de Vic.
Hesitante, Marty atravessou a soleira da porta e se deteve na saleta de entrada, sem entrar o suficiente para perm itir que Vic fechasse a porta.
— O que foi? — perguntou Vic. — Está preocupado em não m olhar o chão? Você sabe que Kathy m e acha um bagunçado sem esperança, por ela tudo na casa teria que brilhar. Entre, entre.
Sem entrar, Marty desviou o olhar de Vic e olhou para a sala de estar, depois para a escada. Usava um a capa de chuva preta abotoada até o pescoço, e ela era grande dem ais para ele, o que era parte do m otivo pelo qual parecia encolhido.
Quando Vic com eçava a achar que ele tinha ficado m udo pelo choque, Marty disse:
— Onde estão as m eninas?
— Elas estão bem — assegurou Vic. — Estão em segurança.
— Preciso delas — disse Marty. Sua voz não estava m ais roufenha com o antes, m as sim inexpressiva. — Preciso delas.
— Bem , pelo am or de Deus, m eu chapa, será que não dá para você entrar o tem po suficiente para nos contar o que...
— Preciso delas agora — disse Marty. — Elas são m inhas.
Vic Delorio percebeu que, afinal de contas, não era um a voz inexpressiva, m as sim controlada, com o se Marty estivesse engolindo a raiva ou o terror ou algum a outra em oção forte, com m edo de perder o autocontrole. Ele trem ia um pouco. Parte da chuva na testa podia ser suor.
Kathy disse, avançando na saleta:
— Marty, o que está errado?
Vic estava prestes a fazer a m esm a pergunta. Em geral, Marty Stillwater era um suj eito fácil de se lidar, relaxado, de riso rápido, m as agora estava rígido, estranho. O que quer que tivesse acontecido com ele naquela noite deixara m arcas profundas.
Antes que Marty pudesse responder, Charlotte e Em ily apareceram no final do corredor, onde ele se abria para a sala de estar. Devem ter colocado a capa de chuva no m inuto em que ouviram a voz do pai. Estavam abotoando-se quando saíram .
A voz de Charlotte trem eu quando ela disse:
— Papai?
Ao avistar as filhas, os olhos de Marty se encheram de lágrim as. Quando Charlotte falou com ele, Marty deu outro passo para dentro, de m odo que Vic pôde fechar a porta.
As m eninas passaram correndo por Kathy, Marty caiu de j oelhos no chão da saleta de entrada e as crianças voaram em seus braços com força suficiente para derrubá-lo. Enquanto os três se abraçavam , as m eninas falaram de im ediato:
— Papai, você está bem ? Ficam os com tanto m edo. Você está bem ? Eu te am o, papai. Você estava todo suj o de sangue. Eu disse para ela que não era o seu sangue. Foi um ladrão, foi a Sra. Sanchez ela ficou doida, o carteiro ficou doido, alguém ficou m aluco, vocês estão bem , m am ãe está bem , j á acabou, m as por que as pessoas sim páticas de repente ficam loucas de raiva? — Na verdade, os três falavam ao m esm o tem po, porque Marty continuou falando enquanto elas faziam perguntas:
— Minha Charlotte, m inha Em ily, m inhas filhas, eu am o vocês, am o m uito, não vou deixá-los roubar vocês de novo, nunca m ais — ele beij ou-lhes os rostos, as testas, abraçou-as com força, aj eitou-lhes os cabelos com as m ãos trêm ulas e, no geral, com portou-se com o se houvesse passado anos sem vê-las.
Kathy sorria e, ao m esm o tem po, chorava em silêncio, cobrindo os olhos com um pano de prato am arelo.
Vic im aginava que a reunião era com ovente, m as não estava tão com ovido quanto sua m ulher, em parte porque Marty parecia e falava de m aneira peculiar; não estranha com o seria de se esperar da parte de um hom em que acaba de brigar com um invasor em sua casa — se foi isso, de fato, o que aconteceu —, m as apenas... bem , apenas estranho. Esquisito. As coisas que Marty dizia eram um tanto quanto esquisitas:
— Minha Em ily, Charlotte m inha, tão m im osa com o no retrato, m inha, ficarem os j untos, é o m eu destino.
Seu tom de voz tam bém era incom um , trêm ulo e urgente dem ais para um a provação que talvez j á tivesse acabado — com o a partida da polícia indicava, sem dúvida —, m as tam bém afetado dem ais. Dram ático. Dram ático em excesso. Ele não estava falando de m odo espontâneo, parecia estar interpretando um papel no palco, fazendo força para se lem brar da coisa certa a dizer.
Todo o m undo dizia que as pessoas criativas eram estranhas, sobretudo os escritores, e quando Vic conheceu Martin Stillwater esperava que o rom ancista fosse excêntrico. Mas Marty desapontara nesse aspecto; ele era o vizinho m ais norm al e dotado de bom senso que se poderia esperar ter. Até agora.
Marty pôs-se de pé e segurou as filhas:
— Tem os que ir em bora — e virou-se na direção da porta da frente.
— Espere um instante, Marty, m eu chapa — disse Vic —, você não pode sair daqui assim , quando estam os tão curiosos.
Marty soltara Charlotte apenas o tem po suficiente para abrir a porta. Ele agarrou-a de novo e o vento entrou assobiando na saleta, chocalhando o bordado em oldurado de pássaros azuis e flores de prim avera pendurado na parede.
Com o o escritor saiu sem dar nenhum a resposta a Vic, este olhou de soslaio para Kathy e viu que sua expressão havia m udado. Lágrim as ainda brilhavam em suas faces, m as os olhos estavam secos e ela parecia intrigada.
Então não sou só eu, ele pensou.
Ele saiu e viu que o escritor j á estava na varanda da frente, dirigindo-se para a calçada na chuva lançada pelo vento, segurando as m ãos das m eninas. O ar estava gelado. Sapos cantavam , m as suas canções eram irreais, frias e m etálicas, com o o som triturante de engrenagens num a m áquina congelada. O som deles fez Vic querer voltar para dentro, sentar-se diante da lareira e tom ar um bocado de café quente com conhaque.
— Que droga, Marty, espere um m inuto!
O escritor girou, olhou para trás, com as m eninas aninhadas em seus lados.
— Som os seus am igos — disse Vic —, querem os aj udar. Não im porta o que estej a errado, querem os aj udar.
— Você não pode fazer nada, Victor.
— Victor? Cara, você sabe que odeio “Victor”. Ninguém m e cham a assim , nem m esm o m inha querida m ãe de cabelos grisalhos, se souber o que é bom para ela.
— Desculpe... Vic. Só estou... estou com m uita coisa na cabeça. — Com as m eninas a reboque, ele tornou a descer para a calçada.
Um carro estava estacionado no final da calçada. Um Buick novo. Parecia adornado com j oias na chuva. O m otor funcionava. As luzes acesas. Ninguém dentro.
Precipitando-se da varanda para a tem pestade, que j á não era m ais o aguaceiro de antes, m as ainda era forte, Vic alcançou-os.
— É seu carro?
— É — disse Marty.
— Desde quando?
— Com prei hoj e.
— Onde está Paige?
— Nós vam os encontrá-la. — O rosto de Marty estava tão branco quanto o crânio oculto dentro dele. Ele trem ia visivelm ente, e seus olhos pareciam estranhos ao brilho da lâm pada da rua. — Ouça, Vic, as crianças vão ficar ensopadas até os ossos.
— Sou eu que vou ficar ensopado — disse Vic. — Elas estão de capa de chuva. Paige não está lá na casa?
— Já saiu — Marty olhou preocupado para a casa do outro lado da rua, onde ainda havia luzes acesas nas j anelas do prim eiro e segundo andar. — Nós vam os encontrá-la.
— Está lem brado do que m e disse...
— Vic, por favor...
— Eu quase esqueci do que você m e disse, e então, quando você com eçou a cam inhar para a calçada, eu m e lem brei.
— Vic, tem os que ir em bora.
— Você m e disse para não dar as crianças a ninguém se Paige não estivesse j unto. A ninguém . Está lem brado do que disse?
* * *
Marty levou duas enorm es m alas para a cozinha, no andar de baixo.
A Beretta 9m m Parabellum estava enfiada sob o cós da calça. Fazia um a pressão desconfortável em sua barriga. Ele usava um suéter de lã com padrão de rena que escondia a arm a. A j aqueta de esqui verm elha e preta estava com o fecho aberto, de m odo que ele pudesse sacar a pistola com facilidade, apenas deixando a bagagem cair.
Paige entrou na cozinha atrás dele. Carregava um a m ala e a espingarda Mossberg cano 12.
— Não abra a porta externa — disse Marty, ao passar pela pequena porta de ligação entre a cozinha e a garagem escura.
Não queria que a porta de dois vãos ficasse aberta enquanto carregavam o carro, porque então se tornaria um ponto de vulnerabilidade. Pelo que sabia, O Outro podia ter rastej ado de volta quando os tiras foram em bora e talvez estivesse lá fora naquele exato m om ento.
Paige seguiu-o até a garagem e acendeu os painéis fluorescentes do teto. Os tubos com pridos piscaram , m as não acenderam de im ediato porque os starts estavam ruins. Som bras saltaram e giraram nas paredes, entre os carros, nos caibros abertos.
Torturando seu pescoço m achucado, Marty girou a cabeça sem querer em direção aos fantasm as saltitantes. Nenhum deles tinha um rosto, m uito m enos um a cara igual à dele.
As lâm padas fluorescentes acenderam . A dura luz branca, fria e insípida com o um sol de m anhã de inverno im pôs um a parada súbita nas som bras dançantes.
* * *
Ele está a poucos m etros do Buick, segurando firm e as m ãos das m eninas, tão perto de fugir com elas. Sua Charlotte. Sua Em ily. Seu futuro, seu destino, tão perto, um a proxim idade tão exasperante.
Mas Vic não para. O cara é um sanguessuga. Segue-os durante todo o traj eto desde a casa, com o que esquecido da chuva, tagarelando sem parar, fazendo perguntas, um bastardo introm etido.
Tão perto do carro. O m otor funcionando, os faróis acesos. Em ily num a das m ãos, Charlotte na outra, e elas o am am , o am am de fato. Elas o beij aram e abraçaram lá na saleta de entrada, tão felizes em vê-lo, suas m enininhas. Elas conhecem seu pai, seu pai verdadeiro. Se ao m enos puder entrar no carro, fechar as portas e partir, elas serão suas para sem pre.
Talvez ele possa m atar Vic, o bastardo abelhudo. Então, seria tão fácil fugir. Mas ele não tem certeza se pode fazer isso.
— Você m e disse para não dar as crianças a ninguém , se Paige não estivesse j unto — diz Vic. — A ninguém . Está lem brado do que disse?
Ele encara Vic sem pensar num a resposta que não fosse elim inar o filho da puta. Mas está com fom e de novo, trêm ulo e fraco dos j oelhos, com eçando a desej ar as barras de doce no assento da frente, açúcar, carboidratos, m ais energia para os reparos pelos quais ainda está passando.
— Marty ? Está lem brado do que disse?
Ele não tem um a arm a, o que em geral não seria um problem a. Foi bem treinado para m atar com as m ãos. Talvez até tenha forças para fazer isso, apesar de seu estado e do fato de Vic parecer bastante resistente para enfrentar um a briga.
— Achei estranho — diz Vic —, m as você m e disse, disse inclusive para eu não entregá-las a você se Paige não estivesse j unto.
O problem a é que o bastardo tem um arm a. E está desconfiado.
Segundo após segundo, toda esperança de fuga vai se desintegrando, sendo lavada pela chuva. As m eninas ainda estão segurando suas m ãos. Ele as agarra com firm eza, sim , m as elas estão prestes a deslizar e ele não sabe o que fazer. Ele olha boquiaberto para Vic, a m ente girando, tão im pedido de dizer algum a coisa quanto esteve im pedido de escrever algum a coisa, quando sentou-se no gabinete e tentou com eçar um livro novo.
Mover-se, mover-se, confrontar, desafiar, lutar elevar a melhor.
Repentinam ente ele percebe que, para enfrentar esse problem a e levar a m elhor, precisa agir com o um am igo, do m esm o j eito que os am igos se tratam e conversam entre si nos film es. Isso atenuará toda suspeita.
Um rio de lem branças de film es corre em sua m ente, e ele flui j unto com elas.
— Vic, por Deus, Vic, eu... eu disse isso? — Ele im agina ser Jim m y Stewart, porque todo o m undo gosta e confia em Jim m y Stewart. — Não sei o que estava dizendo, devia estar fora de m im com todas essas preocupações. Por Deus, acontece que... acontece que fiquei com um m aldito m edo m aluco por causa de todo esse negócio que está acontecendo, um a loucura.
— O que está acontecendo, Marty ?
Receoso m as ainda gracioso, hesitante porém sincero, Jim m y Stewart num film e de Hitchcock:
— É com plicado, Vic, tudo é... tão m aluco, inacreditável, eu m esm o não acredito nem na m etade. Levaria um a hora para contar a você, e eu não tenho um a hora, não tenho um a hora, não senhor, não agora, com certeza não. Minhas filhas, essas crianças, estão em perigo, Vic, e Deus m e livre se algum a coisa acontecer a elas. Eu não iria querer viver.
Ele pode ver que suas novas m aneiras estão tendo o efeito desej ado. Em purra as m eninas nos poucos passos que faltam para o carro, confiando que o vizinho não vai detê-los.
Mas Vic os acom panha, chapinhando num a poça d’água.
— Você não pode m e contar alguma coisa?
Ele abre a porta traseira do Buick, introduz as m eninas no interior e se vira para Vic m ais um a vez.
— Estou envergonhado por dizer isso, m as sou eu que as coloco em risco. Eu, seu pai, por causa do que faço para ganhar a vida.
Vic parece perplexo.
— Você escreve livros.
— Vic, sabe o que é um fã obsessivo?
Vic arregala os olhos, depois aperta-os quando um a lufada de vento arrem essa gotas de chuva em seu rosto.
— Com o aquela m ulher e Michael J. Fox alguns anos atrás.
— É isso, está certo, com o Michael J. Fox. — As duas m eninas j á estão no carro. Ele bate a porta. — Só que é um cara que está nos incom odando, não um a m ulher m aluca, e hoj e à noite ele foi longe dem ais, invadiu a casa. Ele é violento, tive que m achucá-lo. Eu. Im agine você, eu tendo que m achucar alguém , hem , Vic? Agora estou com m edo de que ele volte e preciso levar as m eninas para longe daqui.
— Meu Deus — diz Vic totalm ente engabelado pela história.
— Pois bem , isso é tudo que tenho tem po para lhe contar, Vic, mais do que tenho tem po para contar, portanto você... basta você... volte para dentro de casa, antes que pegue um a pneum onia m ortal. Ligarei dentro de alguns dias, contarei o resto.
Vic hesita.
— Se puderm os fazer algum a coisa para aj udar...
— Vá agora, vá. Agradeço pelo que j á fez, m as a única coisa que pode fazer agora para aj udar é sair da chuva. Olhe para você está ensopado, pelo am or de Deus. Vá, saia da chuva para que eu não tenha que m e preocupar com você caindo doente de pneum onia por m inha causa.
* * *
Paige j untou-se a Marty na traseira do BMW onde ele deixara as sacolas no chão, e arriou a terceira m ala e a Mossberg. Quando abriu e levantou a tam pa da m ala, ela viu as três caixas lá dentro.
— O que são?
— Coisas de que podem os precisar — disse ele.
— Com o o quê?
— Explicarei depois. — Ele coloca a bagagem na m ala.
Com o só cabiam duas das três m alas, ela disse:
— As coisas que coloquei nas m alas são necessárias. Pelo m enos um a caixa tem que sair.
— Não. Vou colocar a m ala m enor no assento traseiro, no chão, debaixo dos pés de Em ily. Em todo caso, os pés dela não chegam ao chão.
* * *
Na m etade do cam inho para casa, Vic olha para trás em direção ao Buick.
Ainda bancando Jim m y Stewart:
— Vá, Vic, vá agora. Lá está Kathy na varanda; tam bém vai pegar sua pneum onia, se vocês não entrarem agora, os dois.
Ele se vira, dá as costas para o Buick e só volta a olhar para a casa quando chega na porta do m otorista.
Vic está na varanda com Kathy, longe dem ais agora para im pedir sua fuga, com ou sem a arm a.
Ele acena para os Delorio, que acenam em resposta. Entra no Buick atrás do volante, com a capa de tam anho exagerado form ando um fardo em torno dele. E bate a porta.
No outro lado da rua, em sua casa, as luzes estão acesas no andar de cim a e de baixo. O im postor está lá dentro com Paige. Sua linda Paige. Ele não pode fazer coisa algum a em relação a isso, não por enquanto, não sem um a arm a.
Quando se vira para olhar o assento traseiro, vê que Charlotte e Em ily j á se afivelaram no cinto de segurança. São boas m eninas. E tão engraçadinhas com suas capas de chuva am arelas e chapéus de vinil da m esm a cor. Mesm o no retrato não estavam tão graciosas assim .
As duas com eçam a falar, Charlotte prim eiro:
— Papai, aonde vam os, onde conseguim os esse carro?
Em ily diz:
— Onde está m am ãe?
Antes que ele possa responder, elas disparam um a im piedosa salva de perguntas:
— O que aconteceu, em quem você atirou, m atou alguém ?
— Foi a Sra. Sanchez?
— Ela ficou m aluca com o Hannibal o Canibal, papai, ela ficou pirada m esm o? — perguntou.
Espiando através da j anela do lado do carona, ele vê os Delorio entrarem na casa e fecharem a porta da frente.
— Papai, é verdade? — pergunta Em ily.
— É isso, papai, é verdade o que disse ao Sr. Delorio, com o aconteceu com Michael J. Fox, é verdade? Ele é bonito.
— Tratem de ficar caladas — ele diz, im paciente. Engrena a m archa do Buick, aperta o acelerador. O carro resiste, porque ele esqueceu de soltar o freio de m ão. Ele solta, m as o carro dá um solavanco para a frente e m orre.
— Por que m am ãe não está com você? — pergunta Em ily.
A excitação de Charlotte está aum entando, e o som das vozes delas o deixa tonto:
— Puxa, você está com a cam isa cheia de sangue, com certeza deve ter atirado em alguém, é noj ento m esm o, peso pesado.
A necessidade de com ida é intensa. Suas m ãos trem em tanto que as chaves fazem barulho quando ele tenta dar a partida de novo. Em bora dessa fez a fom e não vá ser tão trem enda com o da vez anterior, ele só conseguirá andar alguns quarteirões antes de ser dom inado pela necessidade de com er os doces em barra.
— Onde está m am ãe?
— Ele deve ter tentado atirar em você prim eiro, ele tentou atirar em você prim eiro, tinha um a faca, isso seria assustador, um a faca, o que ele tinha, papai?
O m otor de arranque range, o carro estrem ece, m as o m otor não pega, com o se estivesse afogado.
— Onde está m am ãe?
— Você brigou m esm o com ele só com as m ãos, tirou um a faca dele ou algum a outra coisa, papai, com o pôde fazer isso, você sabe karatê, sabe?
— Onde está m am ãe? Quero saber onde está m am ãe.
A chuva bate no teto do carro. Bate no capô. O m otor afogado enlouquece qualquer um porque não responde: ruuuuum-ruuuuum-ruuuuum. Os lim padores do para-brisa batendo, batendo. De um lado para o outro. De um lado para o outro. Socando sem parar. Vozes de m eninas no assento traseiro, um barulho cada vez m ais agudo. Com o o estridente zum bido de abelhas. Buzz-buzz-buzz. Tem que se concentrar em m anter a m ão trêm ula com firm eza na chave. Dedos suados e espasm ódicos ficam deslizando. Com m edo de supercom pensar, talvez quebrar a chave na ignição. Ruuuumm-ruuuuuum. Morto de fom e. Preciso com er. Preciso dar o fora daqui. Tum pe. Pangue. Um m artelar incessante. A dor ressuscita em seus ferim entos quase curados. Dói respirar. Droga de m otor. Ruuuum. Não pega. Ruuuuum-ruuuuwn. Papai-papai-papai-papai-papai, buzzzzzzz.
Da frustração à raiva, da raiva ao ódio, do ódio à violência. A violência às vezes aplaca.
Ansioso para bater em algo, qualquer coisa, ele gira no assento, olha fixo para as m eninas, grita para elas:
— Calem a boca, calem a boca, calem a boca.
Elas ficam espantadas. Com o se ele nunca antes houvesse falado com elas dessa m aneira.
A m enor m orde os lábios, não consegue suportar olhar para ele, vira o rosto para a j anela.
— Quietas, pelo am or de Deus, fiquem quietas!
Quando vira o rosto para a frente de novo e tenta dar a partida no carro, a m ais velha explode em lágrim as com o se fosse um bebê. Os lim padores de para-brisa batem , o m otor de arranque tritura, o m otor afogado, a batida constante da chuva, e agora o choro lam uriento dela, tão agudo, desagradável dem ais para suportar. Ele grita com ela, sem palavras, alto o bastante para abafar o choro e todos os outros barulhos por alguns instantes. Ele considera a possibilidade de passar para o assento traseiro, onde está a m aldita coisinha chorosa, fazê-la parar, bater, sacudir, apertar a m ão em seu nariz e em sua boca até ela não poder fazer m ais som algum , até ela enfim parar de chorar, parar de se debater, apenas parar, parar — e, de repente, o m otor explode, pega, ronrona docem ente.
* * *
— Volto logo — disse Paige enquanto Marty colocava a m ala no chão, atrás do assento do m otorista do BMW
Ele levantou a vista a tem po de ver que ela se dirigia para a casa.
— Espere, o que está fazendo?
— Vou apagar todas as lâm padas.
— Ao diabo com isso. Não volte lá.
Foi um m om ento de ficção, saído direto de um rom ance ou film e, e Marty o reconheceu com o tal. Tendo feito as m alas, tendo chegado até o carro, tão perto de escapar ilesos, eles retornariam à casa para com pletar um a tarefa não essencial, confiantes em sua segurança, e de algum a form a o psicopata estaria lá dentro, ou Porque havia retornado enquanto eles estavam na garagem , ou porque ele havia sido bem -sucedido ao se esconder em algum nicho bem disfarçado enquanto a polícia fazia a busca no local. Eles andariam de quarto em quarto, apagando as luzes, deixando que a escuridão se espalhasse pela casa — então, o sósia se m aterializaria, um a som bra saída das som bras, brandindo um a enorm e faca de açougueiro tirada do arm ário de instrum entos da cozinha, golpeando, espetando, m atando um deles ou os dois.
Marty sabia que a vida real não tinha o colorido extravagante da ficção m ais agitada, nem a m etade da m onotonia do rom ance acadêm ico m édio — e era m enos previsível que am bos. Seu m edo de voltar à casa para apagar as luzes era irracional, produto de um a im aginação fértil dem ais e da predileção do rom ancista por esperar o dram a, a m aldade e a tragédia em cada assunto hum ano, em cada m udança de tem po, de plano, de sonho, de esperança ou lance de dados.
Mesm o assim , eles não iriam voltar à m aldita casa. De m aneira nenhum a, porra.
— Deixe as luzes acesas — ele disse. — Tranque, levante a porta da garagem , vam os pegar as crianças e dar o fora daqui.
Talvez Paige houvesse vivido com um rom ancista o tem po suficiente para sua im aginação ser corrom pida, ou talvez tenha se lem brado de todo o sangue no corredor do andar de cim a. Por algum a razão, ela não protestou que deixar tantas luzes acesas seria um desperdício de eletricidade. Ela apertou o botão para ativar o elevador Genie, e com a outra m ão fechou a porta da cozinha.
Enquanto Marty batia e fechava a m ala do BMW, a porta da garagem parou de correr. Com um estrépito final, ela acom odou-se na posição de plena abertura.
Ele olhou para a noite chuvosa lá fora, a m ão direita buscando a coronha da Beretta em sua cintura. Sua im aginação ainda estava encrespada, e ele estava preparado para ver o indom ável sósia vir pela estradinha de carro.
Em vez disso, o que ele viu foi pior do que qualquer im agem conj urada por sua im aginação. Havia um carro parado no outro lado da rua, diante da casa dos Delorio. Não era o carro dos Delorio. Marty nunca o vira antes. Os faróis estavam acesos, em bora o m otorista estivesse tendo dificuldade para ligar o m otor, que se sacudia e sacudia. Apesar de o m otorista ser apenas um a form a escura, a pequena oval pálida de um rosto de criança era visível na j anela traseira, olhando para fora. Mesm o a distância, Marty teve certeza de que a m enininha do Buick era Em ily.
Junto à porta de ligação com a cozinha, Paige procurava desaj eitadam ente as chaves da casa nos bolsos de sua j aqueta de veludo cotelê.
Marty estava dom inado por um choque paralisante. Não conseguia gritar para Paige, não podia m exer-se.
No outro lado da rua, o m otor do Buick pegou com um a tosse tísica, depois rangeu com força e tom ou vida. Nuvens de fum aça cristalizada se elevaram do escapam ento.
Marty só percebeu que rom pera a paralisia e com eçara a se m over depois que chegou do lado de fora da garagem , no m eio da estradinha de carro, correndo a toda velocidade pela chuva fria em direção à rua. Sentia-se com o se houvesse sido m ovido por telecinesia, fazendo dez m etros num a m inúscula fração de segundo, m as o que acontecia era que, operando por instinto e puro terror anim al, seu corpo estava à frente de sua m ente.
A Beretta estava em sua m ão. E ele não se lem brava de tê-la tirado da cintura.
O Buick afastou-se do m eio-fio e Marty virou à esquerda para segui-lo. O carro m ovia-se devagar, porque o m otorista ainda não percebera que estava sendo seguido.
Em ily ainda podia ser vista. Seu rosto assustado estava agora pressionado com força no vidro. Ela olhava direto para seu pai.
Marty se aproxim ava do carro, a três m etros do para-choque traseiro. Então, o Buick acelerou, afastando-se dele, m uito m ais rápido do que Marty podia correr. Seus pneus cortavam as poças com borbulhas e borrifos coados.
Com o um a passageira num a gôndola de Caronte, Em ily estava sendo transportada não ao longo de um a rua, m as sim atravessando o Rio Estige, em direção à terra dos m ortos.
Um a onda negra de desespero caiu sobre Marty, m as seu coração com eçou a bater com m ais ferocidade do que antes, e ele encontrou um a força que não im aginava ter. Ele correu com m ais ím peto do que antes, chapinhando nas poças, os pés m artelando o pavim ento com o um a britadeira, j ogando os braços, a cabeça abaixada, os olhos sem pre na presa.
O Buick dim inuiu a velocidade no final do quarteirão. E parou por com pleto no cruzam ento.
Ofegando, Marty alcançou-o. Para-choque traseiro. Para-lam a traseiro. Porta traseira.
O rosto de Em ily na j anela.
Agora ela olhava para ele.
Seus sentidos estavam tão aguçados pelo terror que era com o se ele tivesse tom ado drogas que alteravam a m ente. Marty estava alucinadoram ente consciente de cada detalhe das gotas de chuva no vidro entre ele e a filha — suas form as curvas e pendulares, as tristes espirais e fragm entos de luz das lâm padas da rua refletidas em suas superfícies trêm ulas — com o se cada um a dessas gotas tivesse im portância igual a de qualquer outra coisa do m undo. Do m esm o m odo, ele via o interior do carro não com o um borrão escuro, m as sim com o um a elaborada tapeçaria dim ensional de som bras em incontáveis m atizes de cinza, azul, preto. Além do rosto pálido de Em ily, no intricado tricô de lusco-fusco e brilho, havia um a outra figura, um a segunda criança: Charlotte.
O carro com eçou a se m over de novo, no exato m om ento em que ele chegou na porta do m otorista e estendeu a m ão para a m açaneta. O Buick virou à direita, atravessando o cruzam ento.
Marty deslizou e quase caiu no pavim ento m olhado. Recuperou o equilíbrio, agarrou a arm a com firm eza e se arrastou atrás do Buick, que j á virava na rua transversal.
O m otorista olhava para a direita, sem saber que Marty estava à sua esquerda. Ele estava vestido com um casacão negro. Apenas sua nuca era visível na j anela lateral riscada de chuva. Seu cabelo era m ais escuro do que o de Vic Delorio.
Com o o carro ainda rodava devagar enquanto com pletava a volta, Marty alcançou-o de novo, respirando com dificuldade, os ouvidos cheios do forte tam borilar de seu coração. Dessa vez ele não estendeu a m ão para a porta, porque talvez estivesse travada. Ele desperdiçaria o elem ento surpresa se tentasse. Levantou a Beretta e m irou na nuca do outro.
As crianças podiam ser atingidas por um tiro de ricochete, por vidro voando. Ele tinha que arriscar. Caso contrário, elas seriam perdidas para sem pre.
Em bora houvesse poucas possibilidades de que o m otorista fosse Vic Delorio ou algum outro inocente, Marty não poderia apertar o gatilho sem saber com certeza em quem estava atirando. Ainda m ovendo-se paralelo ao carro, ele gritou:
— Ei, ei, ei!
O m otorista girou a cabeça para olhar pela j anela.
Marty olhou para seu próprio rosto no final do cano de sua pistola. O Outro. O vidro à sua frente parecia um espelho am aldiçoado, no qual seu reflexo não estava confinado num a m ím ica precisa, m as sim livre para revelar em oções m ais pérfidas do que alguém gostaria que o m undo visse; quando confrontou-se com ele, o rosto que parecia vidro contraiu-se com ódio e fúria.
Assustado, o m otorista deixara o pé escapar do acelerador. Por um breve m om ento o Buick dim inuiu de velocidade.
Não m ais que um m etro até a j anela. Marty disparou duas balas. Um pouco antes do estrondo ressoante do prim eiro disparo ecoar num a infinidade de superfícies m olhadas da noite lavada pela chuva, Marty pensou ter visto o m otorista j ogar-se para o lado e para baixo, ainda segurando o volante pelo m enos com um a das m ãos, tentando tirar a cabeça da linha de fogo. O cano brilhou e vidro espatifado obscureceu o rosto do bastardo.
Enquanto a segunda bala explodia perto da prim eira, os pneus do carro rangeram . O Buick disparou para a frente, com o um cavalo bravo que explode para fora de um portão de rodeio.
Marty correu atrás do carro, que se afastou dele com um a contracorrenteza de ar turbulento e fum aça de escapam ento. O sósia ainda estava vivo, talvez ferido, m as ainda vivo e determ inado a fugir.
Disparando na direção leste, o Buick com eçou a pender para o lado errado da rua de duas pistas. Nessa traj etória, iria bater no m eio-fio e cair no gram ado de alguém .
Em seu traiçoeiro olho da m ente, Marty im aginou o carro chocando-se no m eio-fio em alta velocidade, sendo atirado para o ar, rolando, batendo em um a das árvores ou na lateral de um a casa, incendiando-se, com as filhas presas num caixão de aço em cham as. No canto m ais som brio de sua m ente, ele até pôde escutá-las gritando enquanto o fogo cauterizava a carne em seus ossos.
Então, enquanto Marty o perseguia, o Buick girou de volta à pista do centro, sua própria pista. Ainda m ovia-se rápido, rápido dem ais, e ele não tinha nenhum a esperança de alcançá-lo.
Mas corria com o se corresse pela própria vida, com a garganta com eçando a arder de novo enquanto ele respirava pela boca aberta, o peito doendo, agulhas de dor lancetando ao longo de suas pernas. Sua m ão direita segurava a coronha da Beretta com tanta força que os m úsculos do braço latej avam do punho ao om bro. E a cada passo desesperado, os nom es de suas filhas ecoavam em sua m ente num grito não externado de perda e sofrim ento.
* * *
Quando seu pai gritou para elas calarem a boca, Charlotte ficou tão m agoada com o se ele a tivesse esbofeteado, pois em seus nove anos nada do que dissera e nenhum a proeza que tinha feito j am ais o deixaram tão furioso. No entanto, ela não com preendia o que o enraivecera, porque tudo que fizeram foram algum as perguntas. Foi inj usto ele ralhar com ela; e o fato de em sua m em ória ele nunca ter sido inj usto só acrescentava ferroada em sua reprim enda. Ele pareceu ter ficado furioso com ela, apenas por ela ser ela m esm a, com o se de repente algum a coisa em sua própria natureza causasse repulsa e desgosto nele, o que era um pensam ento insuportável porque ela não podia m udar quem ela era, e talvez seu pai j am ais a amasse de novo. Ele j am ais conseguiria retirar o olhar de raiva e ódio de seu rosto, e ela j am ais conseguiria esquecer enquanto vivesse. Tudo m udara entre eles para sem pre. Tudo isso ela pensou e com preendeu em um segundo, antes m esm o de ele term inar de gritar e de ela ter caído no choro.