Submerso
Capítulo Um
Há uma casa em New Orleans,
a chamam de “Sol Nascente”
E tem sido a ruína de muitos pobres garotos,
E Deus, eu sei, sou um deles
“The House of the Rising Sun”, The Animals[2] O cheiro forte da química penetra minhas narinas e faz com que meus olhos ardam quando o líquido azul-celeste escorre pelo meu rosto. É como se aquela velha parte de mim estivesse simbolicamente partindo, desgrudando de minha alma e descendo pelo ralo do chuveiro. Um destino infeliz para algo que havia moldado quem eu era, mas as coisas ruins sempre desciam pelo esgoto e, naquele momento, eu me considerava ruim por inteiro. A voz de Eric Burdon, vocalista do The Animals, sai do alto-falante do celular e ricocheteia por cada canto do banheiro enquanto fecho o registro, puxo uma das toalhas no boxe e com ela envolvo a cintura. Caminho até o gabinete com cuidado, meus pés estão encharcados e corro o risco de escorregar, algo que causaria ainda mais drama e preocupação em casa. Mesmo uma queda no banheiro pode fazer com que a situação volte a sair do controle. O espelho acima do gabinete está embaçado pelo vapor quente que dança ao meu redor, então, o esfrego até vislumbrar meu reflexo. O garoto do outro lado me encara com estranhamento, parecendo ter caído de cabeça em um tonel de tintura azul. É estranho, embora interessante, não reconhecer a si mesmo à primeira vista. Com o cabelo ainda molhado, deslizo os dedos pelos fios e sinto que a textura está diferente, áspera. Provavelmente, fiz alguma coisa errada enquanto tentava seguir os passos de um tutorial qualquer de tingimento com o qual esbarrei na internet. Ao menos tive a sorte de chegar ao tom desejado: safira na raiz e azul-celeste se espalhando pelo comprimento. Nunca liguei muito para cabelo, mas, quando pensei no que estava ao meu alcance para mudar minha aparência e que pudesse fazer eu me sentir ao menos um pouco melhor, o cabelo foi o que veio à mente. Perdi as contas de quantas vezes me peguei encarando meu reflexo, inconscientemente desejando ser outra pessoa. Meu antigo eu não existia mais, e não fazia sentido permanecer com a aparência de antes.
Três batidas na porta me trazem de volta à realidade. Meu pai está me chamando e não consigo entender o que diz por causa da música alta. Espero alguns segundos até passarem meus versos favoritos de “The House of the Rising Sun” e pauso a canção.
— O que houve, pai? — grito, ainda encarando o espelho. — Nada de mais, Dimitri. — A resposta vem em seguida, a entonação preocupada. — Só checando se está tudo bem, você está aí há quase duas horas. Droga. Nem vi o tempo passar. É claro que ele ficaria preocupado, tinha vários motivos para isso.
— Já estou saindo. Eu me distraí ouvindo música. Dou uns pulinhos em cima do tapete para que a água escorra e abro a porta. Encontro meu pai encostado na parede do corredor. A expressão se altera no exato momento em que ele me vê; seu olhar vai do meu rosto direto para meu cabelo.
— Sei que é estranho, mas juro que é uma coisa menor do que parece — tento explicar, coçando a sobrancelha. — Acho que não há nada de mais em querer mudar.
Meu pai continua calado, mas através de seus olhos percebo que há milhares de perguntas borbulhando em sua mente. Eu o conheço bem o suficiente para saber que ele jamais tentaria me censurar ou diria algo que me deixasse mal. — F-ficou bem diferente — diz, finalmente, forçando um sorriso. — Moderno. Acho engraçado como os adultos usam o adjetivo “moderno” para o que não conseguem compreender ou simplesmente não aprovam. — É, eu também gostei. — Sorrio de volta.
Passo por ele e vou para o quarto, onde dou de cara com a maior quantidade de roupas sujas espalhadas pelo chão que qualquer cômodo poderia suportar. Crio uma nota mental dizendo para dar um jeito naquela bagunça, mesmo sabendo que provavelmente não farei isso tão cedo. Abro o guarda-roupa e procuro o uniforme que devo usar no trabalho. Não demoro a achar, porque é a única camiseta branca em meio a tantas peças escuras. A frase “O que quer assistir hoje?” como estampa também é um fator que auxilia na identificação. Eu trabalho durante meio período em uma das últimas locadoras de filme de São Paulo. Há cerca de dez anos, locadoras pareciam promissoras e havia uma em cada esquina, porém, com a pirataria e a ascensão dos serviços de streaming, os clientes aos poucos desapareceram e os negócios despencaram, o que levou muitas à falência.
Acho que tive sorte em trabalhar em uma das que continuaram funcionando. Poderia ter sido contratado por ser apaixonado por filmes, mas a verdade é que foi só porque eu ainda não tinha completado dezoito anos e isso fazia com que não fosse tão errado me pagar menos de um salário mínimo. Não preciso levar muita coisa para o trabalho, apenas vis-to o uniforme, pego uma jaqueta e deslizo pelos corredores de casa. Meu pai não está à vista, mas ouço o som de água caindo e deduzo que está no banho. Grito, avisando que estou de saída, mas não há resposta.
A locadora fica a poucas quadras de casa e sempre vou caminhando. A noite ainda não caiu e as pessoas tomam conta das ruas. Percebo olhares curiosos por causa do meu cabelo, mas não me incomodo porque o julgamento de desconhecidos não me afeta. Encaro de volta, e as pessoas logo desviam o olhar. A maioria das que encaram não consegue ser encarada. Avisto meu local de trabalho, o pequeno comércio associado a um posto de gasolina na esquina de duas avenidas. Atravesso a rua, destranco a porta e entro. O badalar do sino sobre o umbral avisa que cheguei. Geralmente, não tenho muito o que fazer. Durante a semana, o movimento é quase inexistente. De vez em quando, uns idosos aparecem à procura de um ou dois filmes antigos e acabo trocando umas palavras ou indicando títulos recentes que eles provavelmente não conheceriam por falta de acesso àquelas informações. Então, quando termino de organizar a pilha de devoluções e atualizar a tabela de empréstimos no computador, me jogo no assento reclinado atrás do balcão e dou play no último filme devolvido, Laranja mecânica, um dos meus favoritos. A ideia de assisti-lo novamente me deixa um pouco mais animado. Adoro toda a ironia e rebeldia que o protagonista representa. Perto da metade do filme, recebo uma ligação da minha chefe, querendo saber se as coisas estão sob controle. Ainda com o celular na mão, vejo que há mensagens não lidas no grupo dos meus amigos; os nomes Clarissa e Bernardo dançam na tela, mostrando que os dois mandam mensagens a todo vapor. Subo a conversa para ler e entendo a agitação: estavam combinando de se encontrar com a galera. Sinto uma pontada de vontade de encontrá-los, mas lembro que não posso me meter em confusão. Escrevo a mensagem rejeitando o convite e envio.
Segundos depois, meu celular escurece e o rosto pálido de Clarissa aparece na tela. Está me ligando.
— O que você quer? — pergunto, sem enrolação. Ouço Clarissa suspirar do outro lado da linha.
— Quero você — dispara a voz rouca e recheada de sarcasmo. — No nosso passeio, claro.
Reviro os olhos, mas confesso que deixo escapar um sorriso. Provavelmente, ela percebe; dá para perceber esse tipo de coisa.
— Não dá, estou no trabalho.
— Nos encontraremos na saída do metrô daqui a uma hora — avisa, como se eu tivesse concordado com a ideia. — Esteja lá.
Antes que eu tenha a chance de argumentar, ela desliga.
Jogo o celular no balcão e observo as cenas do filme que ainda passa sem prestar muita atenção. Minha mente viaja com o que pode acontecer se eu concordar com as ideias de meus amigos. Sei que nossas saídas são sempre muito divertidas, mas também trazem o pior e o melhor de mim. Confiro as horas e calculo a distância de onde trabalho até o centro da cidade, o ponto de encontro. Se eu saísse naquele momento, conseguiria chegar lá. Eles esperariam por mim, mesmo que me atrasasse um pouco. Encaro a rua através da vitrine. O céu começa a escurecer, mas ainda há pessoas caminhando pela calçada. Nenhuma delas nota a locadora. Falta pouco para o fim do meu turno e sinto vontade de sair daquele tédio e me divertir. Faz tanto tempo que não saio com eles que mal me lembro para onde fomos. Recordo apenas da sensação de independência que senti quando encostei a cabeça no travesseiro para dormir.
Que se dane!, pensei, antes de desligar a televisão, apagar as luzes e ir até o expositor de bebidas para disfarçadamente pegar uma garrafa de cerveja, escondendo-a na jaqueta. Não acredito que minha chefe sentirá falta da bebida na próxima vez que aparecer na locadora, mas tiro uma nota de cinco reais do bolso e a coloco dentro do caixa pouco antes de trancá-lo. Assim que apago as luzes e abaixo as grades de aço que protegem a loja, digito o número do telefone de casa. Meu pai atende no segundo toque e seu tom de voz indica que acordou com a ligação. Aviso que só voltarei na manhã seguinte. Ele pergunta o motivo e acabo mentindo, dizendo que vou dormir na casa do Bernardo. Meu pai concorda e pede para que eu tome cuidado. Ele conhece bem a mim e a meu amigo e talvez saiba que estou mentindo. Sabe que não somos do tipo que dorme um na casa do outro. Desejo boa noite e o ouço dizer que me ama, então, digo o mesmo, ainda sem saber muito bem o que significa. Desligo o celular e caminho em direção ao ponto do ônibus que me levará para o metrô.
A primeira coisa que sinto quando desembarco e caminho para a saída é a sensação de liberdade. Toda vez que venho para este lado da cidade, sinto como se fosse um pouquinho mais aceito. Não há uma explicação racional. Acho que é porque as pessoas que transitam por aqui a essa hora da noite também parecem ter uma aura meio bagunçada. Mentes bagunçadas se reconhecem com facilidade.
Uma garota magricela e desajeitada está encostada na parede encardida de uma loja qualquer à frente da saída do metrô. Seus cabelos loiros estão tão bagunçados quanto suas roupas e, quando ela me vê, abre um sorriso. — Está atrasado, gato — diz Clarissa, colocando o cigarro na boca. — Ou talvez você é quem esteja adiantada — respondo, indo em sua direção. — Tudo depende do ponto de vista.
Tudo depende do ponto de vista.
— Nem tente me enrolar com sua filosofia barata — retruca, enquanto fuma e observa a fumaça se dissipar perto do meu rosto. — Mas agradeço por aparecer. — Acho que senti falta de sair com vocês — digo, com dificuldade. — “Acha”? — pergunta Clarissa, com ironia. — Eu sei que você morreu de saudades de nós.
— Onde está Bernardo? — arrisco perguntar, ignorando o comentário. Clarissa sorri, retira o cigarro da boca e o segura perto dos meus lábios, para que eu fume também. Sem pensar muito, abocanho o cigarro e percebo que é um daqueles mentolados. Puxo a fumaça e sinto o ar quente descer até os pulmões. — Sempre tentando mudar de assunto, não é, Demo? — pergunta ela, de maneira retórica. — Bernardo estava impaciente e acabou indo direto para o bar em que trabalha enquanto eu te esperava, mas vejo que você veio preparado — acrescenta ao olhar para baixo e observar a garrafa de cerveja que eu segurava. Confirmo, sem especificar qual de suas afirmações está correta. Descarto o cigarro no intuito de deixar as mãos livres, retiro o lacre da garrafa e a entrego para Clarissa, que se mantém apática durante a maior parte do tempo. Toma um longo gole direto do gargalo e faz questão de que eu assista ela beber. Quando termina, ficamos em silêncio, observando a cidade se movimentar, como se fôssemos fantasmas urbanos.
— Sabe que você poderia ter me ligado e pedido ajuda, não é?! — Clarissa começa. Não conheço muito aquele lado frágil dela, então, fico intrigado. Faço que sim com a cabeça, sem dizer uma palavra, pego a cerveja de sua mão e a levo à boca. O líquido ainda está gelado, apesar de estar fora do expositor há algum tempo. Sinto o gosto amargo dentro de mim e o engulo sem saborear demais. Acho que nunca me acostumarei a esse gosto. — O mundo é um lugar complicado. — Finalmente, tenho coragem de dizer, dando alguns passos para trás e desviando o olhar para o céu escuro. — Situações complicadas nos tornam complicados. Tomo mais um gole da cerveja e a entrego a Clarissa. Prometo que aquelas são as últimas gotas de álcool que consumirei naquela noite, mas sei que não sou muito bom em cumprir minhas próprias promessas. Com um sorriso amarelo e ainda meio tonto, escapo daquela maré de tensão em que ela havia nos colocado e começo a andar. Minha amiga me acompanha com o olhar e entende que quero que me siga. Sinto os pulsos arderem, mas ignoro a sensação porque o álcool corre em meu organismo e faz com que me sinta como se eu fosse o dono daquele universo embaçado que gira ao meu redor. Posso ter ficado inativo por algum tempo, mas, como um animal que acorda após meses em hibernação, eu estava de volta e sabia que lideraria meus amigos naquela noite como se nunca os tivesse abandonado. É no caos que minha mente se esvazia e meus pensamentos se encontram.
Caminhamos em silêncio por alguns minutos até que sou capaz de enxergar a fachada do bar em que combinaram de se encontrar. Estou tão distraído olhando para o letreiro que não vejo uma garota vindo em minha direção e acabamos nos esbarrando. Eu a faço cair. Peço desculpas e a ajudo a se levantar. — Está tudo bem! — diz ela, enquanto tira os fios do cabelo loiro do rosto e me encara com os olhos mais verdes que já vi na vida. — Não foi nada. Clarissa chama minha atenção e diz para entrarmos; quando me viro para a garota, ela já está a alguns metros de mim, caminhando em direção a um hotel qualquer na rua. Dou de ombros e volto para a entrada do bar. O segurança me barra na porta, me olha dos pés à cabeça e pede para que eu mostre os documentos. Não hesito em colocar a mão no bolso traseiro da calça e puxar a carteira para encontrar o documento falso que fiz alguns meses antes para casos como este. Entrego a identidade e ele me encara. Percebo que o homem observa meu cabelo na foto e então volta o olhar na minha direção. — Está liberado, Dimitri — diz ele, tentando ser educado ao abrir espaço para que eu pudesse passar.
Pego o documento de volta e sorrio em agradecimento. Clarissa está logo atrás de mim e é sua vez de comprovar que é maior de idade, mesmo que não seja. Assim como eu, ela não tem muitos problemas com o segurança, está acostumada a se meter em lugares nos quais não é autorizada a entrar. Meus amigos são assim, irrefreáveis.
Num piscar de olhos, Clarissa vem para o meu lado e se arrasta para perto do balcão.
Olho ao redor na esperança de encontrar Bernardo, mas não consigo reconhecer ninguém por causa da iluminação fraca do bar. Costumo reclamar quando não enxergo direito o chão, mas essa luz torna o ambiente mais aconchegante. Eu até gosto deste lugar… A primeira vez em que estive aqui foi quando Bernardo completou dezoito anos e descolou o emprego de barista. Na mesma semana, chamou todos que conhecia e serviu rodadas de drinques terríveis feitos por ele quando ainda estava em treinamento.
Deixo a nostalgia de lado e caminho na direção de minha amiga, que se aconchega no banco duro do balcão e rói ansiosamente as unhas à espera de que alguém a atenda.
— Onde está o Bernardo? — pergunta Clarissa para a garçonete quando a moça passa por nós.
— No estoque — responde ela, após piscar algumas vezes. — Quer que eu o chame?
Tento dizer que não é necessário, mas Clarissa faz que sim com a cabeça e pede para a mulher lhe dizer que ela precisa falar com ele sobre algo urgente, o que não é verdade. A garçonete dá meia-volta e desaparece ao passar pela porta. Clarissa vira na minha direção e me sopra um beijo. Apesar de revirar os olhos, não consigo conter um sorriso de lado.
— Você não tem jeito, mesmo — digo.
Saco o celular para ver se há alguma mensagem do meu pai, mas a tela de notificações está vazia, o que significa que, até agora, a noite está indo bem. Deslizo o dedo pelo aparelho e entro no Instagram. A primeira postagem que aparece quando a linha do tempo atualiza é uma foto de Bernardo. Ele encara a câmera com uma expressão pouco espontânea enquanto segura o celular de frente para o espelho. Apago a tela quando percebo certa movimentação onde momentos antes a garçonete havia desaparecido e vejo a silhueta de Bernardo emergir da porta. Clarissa se agita ao meu lado e se ajeita no banco, apoiando os braços no balcão enquanto Bernardo veste o avental escuro do uniforme. Quando o garoto se depara conosco, abre um sorriso.
— Finalmente vocês chegaram! — diz, levantando as sobrancelhas e dando um beijo na bochecha de Clarissa. — Aliás, qual é o assunto urgente que você precisa falar comigo? — pergunta para ela.
— Que assunto? — Ela começa, mas pausa ao perceber que o olhar da chefe de Bernardo paira sobre os dois. — Ah, aquele assunto… — e não diz mais nada, parecendo extremamente travada.
— Você deixou cair a chave de casa quando passou na locadora hoje de manhã e viemos devolver — minto sem hesitar, elevando a voz para que todos possam ouvir.
Meus dois amigos me encaram, e acho que acertei na mentira, porque a chefe se afasta segundos depois, nos deixando a sós.
— Que surpresa ver você aqui! — diz ele, se aproximando e estendendo a mão. Aperto sua mão e sorrio. — Não esperava te ver tão cedo. Você está melhor? — Melhor do que nunca — respondo, mas não tenho muita certeza do que estou dizendo.
De relance, vejo que Clarissa assiste atentamente à cena, então, tento parecer confiante. Bernardo franze o cenho e sei que está procurando entender o que eu realmente queria dizer, mas disfarça a expressão após perceber que nossa amiga nos observa.
— Então, esta data é perfeita! — Ele comemora, esticando o braço e afagando minha cabeça por cima do balcão. O garoto me encara por alguns segundos e noto que está observando a nova cor de meus cabelos. — Não gostei muito — diz, torcendo os lábios.
— Obrigado, invejo sua sinceridade — retruco, ironicamente.
— Obrigado, invejo sua sinceridade — retruco, ironicamente. — Não é bem não gostar — começa ele —, mas acho que azul é uma cor melancólica.
— É, acho que sim… — Dou de ombros.
Sei exatamente o que o meu amigo está pensando e o que o fez não gostar da cor do meu cabelo. Atribuo a reação ao fato de que, na última vez em que nos vimos, eu estava preso a uma cama de hospital durante um dos piores momentos da minha vida e ele não podia me ajudar em nada. — Então, querem algo para beber? — pergunta ele, tentando mudar de assunto e nos tirar do buraco de tensão em que ele mesmo nos colocou. — Está falando sério? Perguntar isso para mim é a mesma coisa que perguntar para um peixe se ele consegue nadar — diz Clarissa, ironizando. — O mesmo de sempre, gatinha?
— Com certeza — responde ela. Quando Bernardo vira para abrir a geladeira às suas costas, Clarissa olha em minha direção e dá uma piscadela. — Não precisa me agradecer por te livrar daquele climão! — sussurra. — Aqui está — diz o garoto, colocando uma garrafa de cerveja na frente de Clarissa, que agarra a bebida e dá um grande gole. — Demo, peguei uma para você também!
Sorrio em agradecimento, porque, apesar de estarmos numa fase complicada da amizade, Bernardo ainda consegue tirar um ou dois sorrisos de mim. Tomo um longo gole da cerveja e percebo que já estou meio tonto. Não bebo há algum tempo e nesta noite estou na segunda cerveja. Dou de ombros. Estou em um lugar seguro e as chances de algo ruim acontecer são mínimas. Tento prestar atenção em Clarissa e Bernardo conversando sobre alguma coisa que aconteceu no período em que eu estava fora, mas logo me distraio com a televisão no fundo do bar. Vejo que está passando Juventude transviada e me animo com a ideia de assistir ao filme, mas, justo quando James Dean começa a se interessar pela personagem de Natalie Wood, ouço a voz de Clarissa se elevando e mudando do tom casual para o irritado. — Vê se me erra! — diz ela.
Deixo o filme para trás e volto a prestar atenção no que acontece perto de mim. O balcão está novamente vazio e não há sinal de Bernardo. Provavelmente, teve de voltar ao estoque e terminar o que deveria fazer, deixando minha amiga sozinha. Para Clarissa, acostumada a passar boa parte do tempo em sua própria companhia, aquilo não seria incômodo algum; o problema era que logo ao seu lado alguns homens a cercavam, tentando puxar assunto de forma meio invasiva. Acompanho a cena e aos poucos me aproximo. Clarissa não gosta que eu me intrometa em seus assuntos, mesmo que seja para ajudá-la em momentos como este. Ela diz que sabe se cuidar muito bem sozinha e que não precisa de homem este. Ela diz que sabe se cuidar muito bem sozinha e que não precisa de homem nenhum para salvá-la de outro. Então, fico por perto e apenas observo. — Ei, princesa — diz, maliciosamente, o garoto que a cerca.— Não precisa se fazer de durona pra mim! — Ele parece ser alguns anos mais velho do que eu e, pelo modo como se veste, ostentando marcas e com um grande relógio dourado no pulso, julgo que tenha dinheiro.
Clarissa franze o cenho e levanta o dedo do meio para ele. A meia dúzia de amigos do playboy troca olhares e dá risadinhas, o que o deixa irritado. Certamente, está acostumado a ter tudo o que quer. Clarissa lhe dá as costas e volta para a sua bebida, fingindo que eles não estão ao seu lado. — A loirinha tá se achando demais! — diz o playboy para os amigos, forçando um riso nervoso. — Se você soubesse quem eu sou, não me esnobaria desse jeito — afirma, voltando a se aproximar e colocando uma das mãos na lateral das costas dela.
— Quem é você? — pergunta Clarissa hesitante, sem olhar para trás. — Olha só, então você sabe começar uma conversa sem ser rude — ele ironiza, aumentando a proximidade dos dois. — Sou dono de uma das startups mais bem-sucedidas da região. — Enquanto o playboy se gaba, na certeza de que a está conquistando, Clarissa sorri de maneira gentil, mas percebo que seus punhos estão cerrados.
— Nossa! — exclama ela. — Você deve ser muito importante, mas acho que deveria desistir da sua empresa e investir no ramo de aparelhos auditivos, pois claramente precisa de um, afinal! Em momento algum falei para que se aproximasse.
Sem retrucar, o playboy retira as mãos da cintura de Clarissa e se afasta um pouco, parecendo desistir de tentar contato. Sinto a tensão se dissipar no ar. Mas, assim que dou mais alguns passos e chego perto de minha amiga, ouço o playboy dizer bem alto para os amigos, em tom de piada. — Ela nem é tão bonita assim, deve ser uma dessas feministas que se acha a gostosona ou alguma merda do tipo.
Em um pulo Clarissa vai até o playboy, e é tão rápida que ele não a vê chegar por trás e meter um chute bem no meio de suas pernas. O cara se contorce de dor e, quando percebe quem o atingiu, começa a gritar vários palavrões direcionados a minha amiga. O bando de homens a encara boquiaberto, mas não faz nada para ajudar o amigo. Quando percebo, estou gargalhando com a cena. — Ele mereceu — grito para Clarissa, que, embora não pareça acreditar no que acabou de fazer, ainda exala confiança.
— O que foi que você disse? — retruca um dos amigos do playboy, caminhando em minha direção.
— Falei que ele mereceu — repito, sem hesitar. — Não se deve sair por aí achando que o mundo é seu.
— Também não se deve sair por aí falando o que quer — diz o homem, perto o bastante para que eu veja a cor clara de seus cabelos e sinta o cheiro de álcool que exala de sua boca. — Você não tem medo?
— De quem? Você? — pergunto precipitadamente, e me arrependo assim que as palavras pulam de minha boca, porque lembro que não devia me meter em confusões. — Quero dizer, só disse que não é certo sair por aí fazendo o que ele fe… — Antes que eu seja capaz de concluir a frase, sou atingido pelo punho do homem, bem no meio do rosto.
O mundo fica escuro por alguns segundos e sinto o nariz doer. A dor logo é substituída por irritação. A adrenalina corre em minhas veias e sei que vou me arrepender do que estou prestes a fazer. Quando abro os olhos, esqueço que estou no meio do bar e recuo um pouco, reunindo forças. Assim que me recomponho, cerro os punhos e invisto contra o estômago do cara, que tenta desviar em vão. Sem intervarlo, ataco novamente, dessa vez contra seu queixo. Meus dedos doem e o sangue escorre por minha pele. Não sei se estou ferido ou se o machuquei a ponto de ele sangrar, mas estou irritado demais para parar. Quando levanto o outro braço, pronto para dar um novo golpe, minha mão congela no ar.
— Calma, Dimitri. — Bernardo está de volta ao ambiente e segura meus braços com força, me contendo para que eu não volte a brigar. — Não vale a pena — sussurra em meu ouvido.
Minha respiração está pesada e minha mente gira, mas volto ao normal em poucos segundos. O bar inteiro me encara em silêncio, e até mesmo o playboy que se contorcia de dor se colocou de pé para me observar. Então, vejo o cara com quem eu estava brigando e me dou conta do que acabei de fazer. Seu rosto está totalmente vermelho e escorre sangue de sua boca. Ele me olha assustado. Droga.
— Vamos sair daqui antes que a coisa fique séria! — anuncia Clarissa, se aproximando e me puxando na direção da saída. Mas a chefe de Bernardo se coloca em sua frente poucos passos depois.
— Ninguém sai daqui antes de a polícia chegar — diz a chefe, irritada. — Aliás, posso checar os documentos de vocês mais uma vez? Ouço o barulho da sirene do carro de polícia cada vez mais perto do bar e estremeço.
— Você não consegue se manter fora de confusão não é, Dimitri? — Apesar de tenso, Bernardo soa sarcástico, e posso jurar que está lutando para não sorrir. — Na verdade, a confusão é que não consegue se manter longe de mim.