Submerso

Eduardo Cilto · Capítulo 3 de 11

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Submerso

Capítulo Três

Sonhe com a minha volta, quando eu

não vou ter que te deixar sozinha e com o

momento em que eu não vou ter que dizer adeus

“Leaving on a Jet Plane”, John Denver[4] O percurso até o acampamento é confuso e quase não consigo identificar o que acontece à minha volta. Só sei que estou em um carro que cheira a baunilha e que a venda que tapa meus olhos aperta um pouco minhas orelhas. Não sei dizer qual das duas coisas me incomoda mais.

Horas depois de ligar para meu avô e dizer que eu concordava em partir, uma figura alta e robusta bateu em minha porta, identificando-se como o responsável designado a me levar até o lugar. Estranhei de início, porque não achei que seria escoltado até o acampamento como se fosse um presidiário, mas depois, enquanto meu pai assinava um dos papéis que autorizavam minha ida, passei os olhos entre as linhas e entendi que o profissional foi até minha casa para que eu não soubesse a localização do lugar, pois, uma vez que tivesse acesso à informação, poderia organizar uma fuga.

— Os pacientes costumam fugir? — pergunto para o motorista. É a primeira vez que abro a boca nas últimas horas.

Ele não responde, mas sei que consegue me escutar, afinal, ouço suas mãos deslizando pelo volante.

— Digo, deve ter algum motivo para terem escrito aquilo no contrato — continuo, tentando chamar a atenção do cara. — O lugar é tão ruim assim? O motorista dá um longo suspiro.

— Na verdade, não é nada ruim — responde finalmente, abaixando a guarda. — A maior parte dos campistas realmente gosta de estar lá. — Então, por que estou vendado? — Apesar da aparente simpatia do motorista, sou direto e não tento mascarar minhas dúvidas. — Eu disse que a maior parte dos campistas gosta de estar lá. — Pausa. — Não falei que todos gostam.

Fico em silêncio refletindo sobre a resposta. Será que eu conseguiria me acostumar com a vida longe de tudo?

Pouco antes de sair de casa, fui instruído a deixar para trás qualquer aparelho eletrônico que pudesse fazer contato com o mundo. Celulares, computadores e tablets estavam fora da lista de itens permitidos nas redondezas do acampamento. Uma vez lá dentro, estaria isolado do mundo. Então, depois de muita procura, consegui encontrar no porão o antigo toca-fitas da minha mãe e o trouxe comigo; pelo menos, não ficaria tão longe de tudo enquanto estivesse no lugar.

No momento em que fui obrigado a deixar o celular, escrevi uma mensagem rápida, de maneira instintiva, para Bernardo, dizendo que ficaria fora por algum tempo, e pedi que mantivesse os olhos em Clarissa nesse período. Também escrevi para minha chefe, explicando que não trabalharia mais na locadora, mas que havia adorado o tempo que passei lá. Não consegui visualizar a resposta de nenhuma mensagem, pois tive que pegar a mala, me despedir de meu pai e partir logo depois.

O motorista parece perceber que fiquei reflexivo após nossa pequena conversa e passa a contar algumas histórias de campistas que saíram alegando que o período em que estiveram lá tinha sido um dos melhores de suas vidas. Apesar de balançar a cabeça em concordância, não acredito muito nas palavras que saem da boca do homem. Por mais que seja necessário, é difícil acreditar em pessoas que são treinadas para fazer com que me sinta bem. Além de me levar até o acampamento, fazer eu me sentir sentir bem é um dos deveres daquele cara. Sei que a viagem está quase no fim quando a velocidade do carro diminui e começo a ouvir o barulho dos pneus rolando com dificuldade na lama. Não faço ideia de se ainda estou em São Paulo nem quantas horas levaram para chegar até ali. A venda em meus olhos, o silêncio e a essência enjoativa de baunilha me fizeram perder a noção do tempo.

O carro para de maneira sutil e sinto que o veículo é estacionado. Levo uma das mãos até o rosto, tentando me livrar da venda, mas o motorista pecebe e alerta que ainda não devo tirá-la. Ouço o cara abrir a porta da frente e descer do carro. Fico esperando dentro do automóvel e o nervosismo faz aqueles segundos parecerem mais demorados que a viagem inteira. Minhas mãos começam a suar e as limpo na calça, o frio na barriga é intenso e tenho dificuldade para controlar a respiração. Agradeço ao universo quando o motorista abre a porta para mim e me autoriza a descer. Sinto que estava prestes a enlouquecer com a espera. — Preciso da minha mala — falo.

— Será entregue para você amanhã, precisamos verificá-la para ver se é segura — responde com firmeza, me guiando enquanto caminho às cegas em direção ao desconhecido.

Tento usar os cinco sentidos para identificar o máximo de detalhes que consigo: o canto alto dos grilos indica que já anoiteceu e que estou em um espaço aberto; sinto que o chão sob meus pés é macio e molhado, possivelmente, grama; o vento que bate em meu rosto e bagunça meus cabelos é frio e úmido, o que me faz pensar que não estou tão longe do mar ou até de algum lago.

Quando meus passos se firmam, a superfície fica rígida e o vento não sopra mais, sou liberado a tirar a venda.

Apesar de estar extremamente curioso, continuo com a faixa nos olhos. Não quero que as pessoas do acampamento pensem que têm total controle sobre mim. — Eu disse que você já pode ver onde está — repete o motorista, sem entender. A primeira coisa que vejo quando retiro a venda é a cara de uma senhora à minha frente, e dou um pulo de susto com sua presença. — Está tudo bem? — pergunta ela, inclinando a cabeça e me encarando com olhos cor de mármore através dos óculos.

— S-sim — respondo, meio sem jeito.

A senhora sorri de maneira fria e profissional, apenas para passar a impressão de que está tudo bem. O cabelo dela balança pouco acima dos ombros e a franja milimetricamente cortada muda de posição quando fecha o sorriso e volta à expressão séria.

— José — chama ela, olhando para o motorista atrás de mim. — Você está liberado. Obrigada por trazer o garoto.

José assente, dá uma piscadela para mim e caminha em direção à porta. Aproveito sua saída para dar uma olhada no cômodo em que me encontro. O lugar não é muito grande nem tem janelas. Pela mesa de madeira no centro e as estantes abarrotadas de livros nas laterais, julgo estar em uma espécie de escritório.

— Seja muito bem-vindo, Dimitri — cumprimenta a senhora, tirando minha atenção do ambiente e trazendo de volta para si mesma. — Sente-se, por favor. — Apesar de ser um pedido, a frase soa como ordem. Comprimo os lábios, balançando a cabeça, sinalizando que estou de acordo, e me acomodo na cadeira. Ao me sentar, tenho que me controlar para não juntar as mãos no colo, esse velho hábito passa a impressão de insegurança, e transparecer estar vulnerável perto daquela senhora tão autoritária não é algo que desejo. — Meu nome é Laura Diamante e, além de sua anfitriã no acampamento esta noite, também faço parte da coordenação, junto com o dono, o senhor Álvaro Lafaiette — explica. A voz de Laura é rouca. — Você sabe o motivo de estar aqui?

— Sei — afirmo.

— Ótimo. Nós também! — diz ela, quase sem esperar para ouvir minha resposta inteira, o que me pega de surpresa. — Sua família nos contou tudo de que precisamos saber de início, mas o que realmente importa é o que iremos analisar durante suas primeiras semanas aqui no acampamento. Acreditamos que, com sua contribuição, conseguiremos alcançar o objetivo em conjunto e trazer qualidade de vida para você novamente.

Bom, pelo menos ela estava indo direto ao ponto e havia me poupado de todo aquele discurso meloso e dramático sobre o tratamento que a maioria dos psicólogos fazia quando eu agendava a primeira consulta. Sem contar que eu não aguentava mais ter que preencher fichas e testes que mediam como eu havia me sentido nas últimas semanas. Ponto positivo para o acampamento que não era reabilitação.

— Dito isso, temos certas regras por aqui que você é obrigado a seguir. — Laura abre uma das gavetas da mesa, retira uma folha e me entrega. — É de extrema importância que você siga fielmente e respeite tudo o que está escrito. Passo os olhos pelo papel e dou início à leitura.

 

REGRAS DO ACAMPAMENTO MISFIT

 

Proibições:

Não é permitido sair dos alojamentos designados após as vinte e duas horas. O (a) campista não deve questionar os métodos aplicados. Não é permitido contrariar ou se opor aos profissionais do acampamento. O (a) campista não pode receber visitas de parentes sem autorização prévia da diretoria.

Não é permitido usar substâncias ilícitas, como álcool, drogas ou cigarros, no perímetro do acampamento.

É extremamente proibido o contato com o mundo exterior sem autorização dos conselheiros.

 

Obrigações:

É obrigatório frequentar as aulas nas manhãs de todos os dias da semana. O (a) campista deve manter o alojamento no mesmo estado em que o encontrou ao chegar.

O (a) campista deve zelar pela paz do ambiente, sem prejudicar o estado de outros campistas.

É obrigatório comparecer a todas as aulas e sessões de acompanhamento durante o período no acampamento.

O (a) campista estará sujeito a punição caso não cumpra as regras. — Sei que nossos métodos podem parecer um pouco rígidos, mas acredito que se acostumará com o decorrer das semanas. — Sinto os olhos de Laura sobre mim, a expressão se mantém dura e difícil de ler. Aperto os braços da cadeira, ainda querendo não transparecer insegurança.

— Não preciso me acostumar — digo, de maneira ríspida. — Não estou à procura de um novo lar.

A conselheira levanta uma das sobrancelhas e dá um sorriso de canto da boca, parecendo não estar nem um pouco surpresa com a resposta. É altamente provável que a maior parte dos novos campistas chegue com a mesma atitude rebelde, tentando, assim como eu, dar a impressão de que está no controle. Faço uma nota mental para tomar cuidado com minhas atitudes nos próximos encontros com Laura e me forço a me lembrar também do motivo real por que estou no lugar. Mesmo desconfiado, é preciso encarar a situação como realmente é e, quanto mais eu relutar, mais tempo serei obrigado a permanecer no tratamento.

— Presumo que esteja cansado da viagem e com fome. Laura está certa. A última coisa que comi foi um pedaço de maçã no almoço. Todo o estresse antes da viagem tirou meu apetite. — Um pouco — confesso.

A senhora de cabelos grisalhos levanta com dificuldade e indica que devo fazer o mesmo. Apenas obedeço.

— Irei acompanhá-lo até o dormitório provisório para que você possa descansar. — Ela segura a maçaneta e abre a porta. — Mandei Suzana preparar sua refeição e colocá-la no quarto.

— Suzana? — pergunto, questionando-me se deveria reconhecer o nome. — Sim, uma senhora adorável que trabalha conosco e que também ficará responsável por acompanhá-lo durante seu tempo aqui! — responde Laura, e as marcas da idade surgem em seu rosto quando esboça um sorriso. — Você a conhecerá amanhã. Ela será responsável por te apresentar o lugar — conclui, deslizando lentamente para o lado de fora.

A caminhada até o dormitório é quieta e constrangedora, não me atrevo a falar nada. Não é fácil interagir com estranhos, ainda mais se essas pessoas forem profissionais em analisar friamente todas as minhas reações. A parte em que caminhamos não é tão bem iluminada e não consigo enxergar muito por onde passo. Estreito os olhos, tentando focar a visão e definir o lugar onde passarei os próximos meses, mas o máximo que vejo além da trilha de pedra abaixo dos meus pés e do verde das árvores misturado ao céu escuro é o casarão de onde saímos, que fica para trás. Alguns passos depois, chegamos ao dormitório. Laura explica que, nos momentos iniciais, eu ficarei em um quarto separado dos outros campistas. Após o período de adaptação, serei obrigado a ficar no dormitório público junto aos outros garotos. Dou de ombros, não me importo muito de ter que lidar com outras pessoas morando no mesmo ambiente que eu. Não é tão difícil assim ignorá-las e criar meu espaço pessoal. Com pouca habilidade, a senhora destranca a porta e dá um passo para o lado para que eu possa entrar. Assim que entro no quarto, o cheiro de madeira velha alcança meu nariz e me faz espirrar. Apesar de antigo, o lugar não parece ser tão ruim. Há uma escrivaninha colada à parede e, do outro lado, uma pequena cômoda escura. No meio do quarto, está a pouco convidativa cama de solteiro, suficiente para que eu possa descansar nos primeiros dias. Vou até o meio do dormitório e finjo dar mais uma olhada nas coisas, só para enrolar e não dizer para Laura: “Já vi onde vou dormir, vá embora e me deixe sozinho”. — Bom, agora que se encontrou, vou deixá-lo descansar — diz ela, a voz calma. — Espero que aproveite o jantar. — Ela acrescenta, apontando para a bandeja em cima da escrivaninha.

— Obrigado. — Tento abrir um sorriso.

Ficamos nos encarando vergonhosamente por alguns segundos até que Laura recolhe os braços, se despede e fecha a porta, me deixando sozinho pela primeira vez no dia.

Ando até a escrivaninha e meu estômago ronca ao ver a comida que prepararam para mim: pedaços de carne de frango grelhada, salada de tomate e um pouco de arroz. Devoro a refeição em poucos minutos e deito na cama por falta do que fazer. Geralmente, eu escovaria os dentes ou leria alguma coisa, mas nada disso foi possível porque minha mala estava sendo inspecionada e só chegaria no outro dia. Minha visão escurece enquanto olho fixamente o teto branco do quarto, imaginando como seria o resto da semana. Acordo assustado. Alguém bate desesperadamente na porta e só percebo que dormi porque a luz do sol entra pelas frestas da cortina e indica que já é de manhã. Saio da cama em um pulo e deslizo os dedos pelo rosto e pelos cabelos, na esperança de me ajeitar e ficar um pouco mais apresentável. Quando finalmente abro a porta, um par de olhos gigantes está a minha espera. Uma adolescente. — Você tem sono pesado, cara. — Ela comprime os lábios. — Que horas são? — pergunto um pouco desnorteado. — Cedo o bastante para que fique com sono durante o resto do dia — responde, simpática. — Eu sei do que estou falando! — Ela começa a bocejar. — Seu nome é Suzana? — questiono, lembrando que na noite passada Laura disse que Suzana me apresentaria o lugar.

— Não — responde. — Ela não pôde vir porque estava ocupada. Meio que sou uma Suzana temporária.

Aproveito o silêncio para observá-la. A garota com certeza é mais nova do que eu e ainda carrega um olhar infantil nos olhos. Seu rosto começa a ganhar um eu e ainda carrega um olhar infantil nos olhos. Seu rosto começa a ganhar um formato mais adulto, a voz é macia e delicada. Por sua aparência, julgo que tenha uns quinze anos.

— Que foi? — pergunta a garota, franzindo o cenho ao perceber que estou olhando atentamente para ela. — Droga! — exclama, rindo um pouco. — Esqueci que sou uma completa estranha para você. Resumindo, meu nome é Alma e minha missão de hoje é apresentar todas as maravilhas do acampamento para você.

— Seu nome é Alma? — Ignoro tudo o que ela havia falado sobre conhecer o acampamento. — É um nome bem legal.

— Não tão legal quanto Dimitri — retruca, piscando um dos olhos. — Vamos andando. Hoje o dia será longo e já estamos atrasados. — Só preciso escovar os dentes. Confiscaram minha mala e não tive como escovar de manhã.

— Meu Deus, que distraída! Aqui estão suas coisas — diz, meio estabanada, enquanto tira da bolsa uma escova de dente novinha e um tubo de creme dental e entrega em minhas mãos.

— Ah, valeu — agradeço. — Onde fica o banheiro? — Posso te levar até lá, digo, se não for desconfortável para você. — Tudo bem, você é a minha guia afinal, não é?! — Tento parecer amigável, a garota não parece merecer minha antipatia matinal. Caminhamos juntos até o banheiro e finalmente consigo escovar os dentes. O espaço é comunitário, dividido por todos os garotos do acampamento. Enquanto eu me ajeito, alguns meninos entram e saem rapidamente, mas nenhum deles troca uma palavra comigo. Talvez todos acordem com o mesmo humor que eu e prefiram ficar em isolamento total, o que seria bem bacana, pois me fariam um favor.

— Está pronto?

Alma me espera encostada na parede do lado de fora, inquieta. Estala os dedos e passa as mãos no cabelo volumoso e enrolado.

Faço que sim com a cabeça e acabo dando um sorriso meio sem jeito. Caminhamos juntos, desviando dos adolescentes de cara amassada no percurso, e encontramos a saída do corredor que nos leva para o espaço ao ar livre. É a primeira vez que visualizo a parte exterior do acampamento e a paisagem é incrível. O que mais me chama a atenção, no entanto, não são as pessoas, nem sequer as construções a minha volta, mas o grande lago no centro do terreno. Alguns campistas estão nadando, provavelmente em alguma atividade sugerida pela coordenação.

— Não vou mostrar tudo para não te entediar, acho melhor você se aventurar pelo acampamento e descobrir sozinho, porém… — Alma pausa, virando-se pelo acampamento e descobrir sozinho, porém… — Alma pausa, virando-se para mim, e andando de costas. — Preciso te apresentar o básico. Com os braços erguidos e voltando a andar normalmente, a garota aponta para a grande construção à direita do lago.

— Este é o dormitório dos meninos e, bem, como o próprio nome diz, é aqui que dormem.

— Isso foi esclarecedor — brinco.

— Provavelmente, vão te colocar em um quarto novo esta noite, espero que seja sortudo e tenha um colega de quarto legal — diz ela. — Cara, a primeira garota com quem dividi o quarto roncava tão alto que parecia que ela pilotava uma moto na cama.

— Temos apenas um colega de quarto? — pergunto. — Achei que ficaríamos todos juntos em um só.

— Sim. — Ela ergue uma sobrancelha. — A coordenação diz que companhia durante seu tempo aqui pode fazer toda a diferença. Concluo que nos dão colegas de quarto justamente para supervisionarmos uns aos outros. Não pergunto mais nada para Alma e a deixo prosseguir com a apresentação. No resto do percurso, ela me apresenta alguns dos lugares essenciais que eu provavelmente terei de visitar todos os dias: banheiros espalhados pelo espaço, refeitórios, espaços de lazer e algumas das inúmeras salas, onde acontecem desde aulas normais até aulas de música. — É bem diferente do que eu esperava! — Fico admirado. — Sim — Alma confirma. — A metodologia aqui é bem diferente das dos outros lugares que ajudam os adolescentes a relaxar. É como se fosse um mundo novo para você esquecer o antigo e seus problemas. Apesar do discurso positivo, sinto uma pontada de insegurança em sua voz. — Acho que é onde o pessoal lá de fora quer que eu esteja neste momento. Alma assente. Ninguém havia me dito nada, mas talvez seja proibido perguntar demais sobre a vida de cada um, ou talvez só não seja considerado legal, mesmo, uma vez que todos estão ali para aprender a lidar com algo do passado. — Então, para onde vamos agora que o tour terminou? — Espero que ela me libere para voltar para meu quarto provisório e aproveitar os últimos momentos de privacidade.

— A maioria dos campistas está em aula agora, então, não tem muito para fazer — responde a garota de cabelos enrolados. — Mas como já é quase horário de almoço… — Alma para e confere o relógio. — Acho que podemos ir para o refeitório.

Meu estômago ronca em reação à palavra “almoço” e percebo que estou realmente com fome, então, balanço a cabeça e dou meu melhor sorriso.

O resto do dia passa voando, com um turbilhão de novas informações sendo jogadas em minha cara. Quase não tenho tempo de pensar sobre o que está acontecendo no mundo exterior, e esse deve ser o intuito do lugar, nos distrair tanto a ponto de esquecermos que há um universo fora dos muros. Alma me guia até o refeitório e fazemos nossa refeição, composta de grãos com salada e carne grelhada. Não é tão ruim. Depois, ela passa o restante da tarde me explicando outras regras do acampamento, apesar de não estarem no manual das regras. Alma também me conta que posso voltar para casa no meio do ano, mas que a organização havia criado um projeto para que o campista pudesse sair, e ele deveria cumprir algumas tarefas e participar de certas atividades para merecer. Fora isso, havia a avaliação das pessoas que acompanhavam a gente para saber se realmente estávamos prontos para voltar ao mundo que deixamos para trás. A ideia de ir para casa já na metade do ano me amedronta um pouco, mas acho que é só porque acabei de sair e não quero simplesmente voltar sem mudanças e fazer meu pai pensar que não há jeito para mim. Porém, queria vê-lo em breve. Não sei se aguentaria ficar tanto tempo sem contato. Depois que perdi minha mãe, ele é toda a família que me restou.

Segundo Alma, sempre que fizer uma boa ação no acampamento, participar de alguma aula que não seja obrigatória ou cooperar com certa atividade proposta, os pontos serão somados ao meu nome e, caso eu consiga chegar aos cem pontos no final do semestre, estarei pronto para voltar para casa. Isso me parece justo. Influencia os campistas a manter o sistema do acampamento funcionando e todo mundo sai ganhando.

Quando o sol vai embora e a noite chega trazendo ventos fortes e nos fazendo arrepiar com o frio típico daquela estação, as pessoas que ainda passeavam ao ar livre voltam para seus dormitórios ou se aconchegam em algum lugar fechado. Então, sem ter muito o que fazer, Alma me leva para falar com Laura, que, com a mesma cara rígida e sem expressão de antes, confirma que minhas coisas já foram transferidas para o dormitório novo. Ao me entregar o papel com as informações do quarto, a coordenadora dá o sorriso mais falso que eu já vi na vida, então, a parabenizo mentalmente pela atuação e saio para desbravar o desafio de dormir em mais um lugar desconhecido. — Espero que eu tenha sido uma boa guia turística! — fala Alma quando estamos próximos do dormitório dos garotos.

— Foi a melhor que poderia ser — respondo. — Mas não tive tantas guias assim, então, não levaria minha opinião muito em conta — brinco. Alma ri.

— Bom, caso precise de alguma coisa, estarei sempre por aqui para te ajudar a se encontrar no acampamento.

Alma está com frio. Ela fica se mexendo ao mesmo tempo que mantém as pernas Alma está com frio. Ela fica se mexendo ao mesmo tempo que mantém as pernas unidas e os braços cruzados. Tem cara de quem prefere o verão. — Posso te fazer uma pergunta? — solto, meio sem jeito. — Com certeza — diz ela, mas franze o cenho e pausa para pensar. — Quer dizer, depende da pergunta — corrige. — Uma vez, um novato me perguntou em seu primeiro dia se era permitido ter relações com outros campistas e, logo em seguida, me veio com um “você está solteira?”.

Enrubesço.

— Não — disparo —, nada a ver com esse tipo de pergunta. — Pela primeira vez desde que cheguei, me vejo genuinamente dando uma risada. Alma também parece achar a lembrança engraçada, porque continua sorrindo. — Então, está autorizado a me perguntar.

Retomo o fôlego e paro de rir.

— Há quanto tempo você está aqui? — questiono, sem saber se minha pergunta a ofenderia de alguma maneira.

— Certo… Estou aqui desde os dez anos.

— Nossa, é bastante tempo. — Levanto as sobrancelhas, surpreso ao ouvir aquilo. — Praticamente passou a vida inteira aqui dentro. Alma parece um pouco desconfortável com a minha reação. Seus braços se descruzam e ela junta as mãos, com aparente insegurança. Não dou continuidade à conversa e a deixo decidir se quer falar sobre ou se prefere deixar o assunto morrer.

— Sim, mas a verdade é que… — Alma começa a falar, mas é interrompida pelo som de uma música que, no começo, pensei estar vindo de algum dos inúmeros alto-falantes espalhados pelo acampamento, mas logo depois percebi que vinha direto de seu bolso. Pelo toque inicial, achei que fosse uma música da Taylor

Swift, provavelmente “You Belong with Me”[5]. Alma rapidamente tira um smartphone do bolso, o leva até a orelha e se afasta alguns centímetros de mim, indo para debaixo de uma das árvores próximas. — Oi, mãe — eu a ouço dizer. Tento não prestar atenção na conversa, mas é difícil não ficar curioso para saber o que está rolando. Ao perceber meu estranhamento, ela abaixa o tom de voz e não consigo mais entender o que diz. Estranho bastante o fato de Alma ter um celular, então, passo a olhar para os lados para me certificar de que ninguém está nos observando, pronto para nos punir de alguma maneira.

A garota volta a passos lentos e não sabe muito bem onde pisar. Está um pouco constrangida e parece até incomodada com a situação que acaba de acontecer. — O que foi isso? — pergunto, confuso.

Ainda que um pouco tensa, Alma dá de ombros e ergue o celular com uma das mãos.

mãos.

— O que rola é que, bom, tenho alguns privilégios por ser parente do pessoal que ajuda no acampamento — explica, meio desconfortável. — Você acabaria sabendo uma hora ou outra, então…

— Isso quer dizer que você não está aqui porque é como eu, tipo, psicologicamente maluca e perturbada? — retruco, direto. Sei que não foi uma maneira muito educada de reagir à situação, mas meus velhos hábitos são mais fortes do que eu. Alma morde os lábios, pensando no que responder. — Perdão. Não era minha intenção ser grosseiro — tento corrigir, me lembrando de respirar fundo e sentir o ar fluindo dentro de mim para acalmar os pensamentos. — Estou aqui porque tenho meus motivos para estar — responde a garota de uma vez, mas evitando contato visual. — Na verdade, todos temos. Aliás, a ligação foi para me avisar de que preciso voltar para o meu quarto. — Tudo bem — concordo, sem saber muito bem o que dizer. — Obrigado por hoje, foi bem legal!

— Não precisa agradecer, também gostei — diz, já começando a se afastar. — Até amanhã. — Pausa. — Acho que nos encontraremos novamente amanhã. — Espero que sim — respondo. — Até!

Em silêncio, eu a acompanho se distanciar. Quando já está a algumas dezenas de metros, ela para e vira para mim.

— Aliás, adorei o seu cabelo! — grita ao longe, a voz chega quase inaudível por causa do barulho do vento nas árvores e do som das águas fluindo no lago. Sorrio e faço sinal de saudação levando uma das mãos até a testa, como os soldados nos filmes. Se não me engano, é continência, o nome do gesto. Penso que Alma deve ter estranhado, porque nem eu sabia de onde tinha tirado a ideia de fazer aquilo, mas, para minha surpresa, ela acaba retribuindo com a mesma saudação. Nós nos encaramos por alguns milissegundos e nos viramos para fazer nossos caminhos até os quartos.

Enquanto ando, retiro do bolso o papel que Laura me entregou com as informações de onde eu iria dormir e vou até a entrada do dormitório. O lugar não está totalmente vazio, então esbarro com alguns campistas que conversam por ali. Tento não parecer um peixe fora d’água, mas é difícil me misturar com as pessoas quando ninguém me conhece e todos me encaram curiosos para saber o que estou fazendo neste território. Apenas levanto a cabeça e encaro os que me olham.

O dormitório é um espaço amplo e até um pouco aconchegante. Assim que entro, dou de cara com uma sala onde vejo algumas poltronas e prateleiras recheadas de livros. Olho ao redor e percebo que não há tomadas nas paredes, o que explica o fato de a televisão, no centro de tudo, estar desligada.

— E aí, cara. Tá tudo bem? — Ouço alguém perguntar quando saio da sala e sigo por um corredor com iluminação fraca e papel de parede parecido com os que colocam em hotéis, mas não respondo com entusiasmo, apenas concordo com a cabeça e sigo procurando o quarto: 21B.

Encontro o número após a única curva do corredor. De frente para a porta, reflito sobre o que devo fazer, mas acabo simplesmente pigarreando de maneira exagerada, sinalizando para qualquer pessoa que pudesse estar lá dentro que eu estava entrando, e viro a maçaneta.

Quando entro, sou surpreendido por uma cortina de vapor quente, e não preciso pensar muito para perceber que a pessoa que divide o quarto comigo está tomando banho. Fico admirado por saber que temos banheiro ali dentro. Achei que dividiríamos aquele em que eu havia escovado os dentes pela manhã, mas agradeço por ter pelo menos essa privacidade. Fecho a porta e reparo que o quarto em si não é tão diferente daquele em que que eu havia dormido na outra noite. É de um tamanho razoável e parece abrigar duas pessoas com facilidade. O único problema é que a cama em que tenho que dormir é um beliche e o garoto no banho já ocupou a parte de cima.

Reparo que minha mala está encostada ao lado da cama e penso em abrir e verificar se a coordenação retirou alguma coisa, mas a preguiça fala mais alto e resolvo deixar para depois.

Os móveis, que ocupam boa parte do cômodo, são de madeira rústica e de grande porte. Dou de ombros até lembrar que eu provavelmente terei de dividir espaço com o cara, que naquele exato momento passa a assoviar uma melodia que me lembra “Leaving on a Jet Plane”, do John Denver. Será estranho conviver com alguém no mesmo ambiente que eu, mas, bom, tenho de me acostumar com aquela vida de uma maneira ou de outra. Ouço o registro do chuveiro se fechar e a água parar de escorrer, fico tenso. Nunca liguei muito para conhecer pessoas novas. Acho que porque geralmente são passageiras em minha vida e não sou obrigado a lhes dar muita atenção, mas, desta vez, eu terei de conviver diariamente com aquela pessoa. O cara está prestes a sair pela porta do banheiro, então, resolvo garantir que ele tenha certeza da minha presença no quarto e pigarreio novamente, desta vez, ainda mais forte. Quando finalmente sai, ele está rodeado do vapor do banho e tem cheiro de xampu de uva. O garoto não parece amedrontado por mim. Na verdade, a julgar pelo sorriso que abre em seu rosto, parece até animado em me ver.

— Cara, finalmente colocaram alguém neste quarto! — A voz é rouca e estranhamente grossa para alguém de sua idade. Eu me pergunto se ele fumava antes de vir para o acampamento. — Meu nome é Henrique, muito prazer. —

Ele se apresenta, estendendo a mão. Percebo que não é de São Paulo, pois seu sotaque é arrastado e seus “s” têm som de “x”, como os das pessoas que vivem no Rio de Janeiro. — Eu te daria um abraço de boas-vindas, como faço com a maioria dos meus amigos, mas, como não te conheço, você poderia acabar estranhando.

Estendo a mão para Henrique.

— Além de que te abraçar saindo do chuveiro seria bem esquisito, porque ainda estou vestindo a toalha — diz meu colega de quarto, enquanto ri da própria observação.

— Posso sair do quarto para você se trocar, se quiser — respondo, soltando a mão dele e já caminhando para sair.

— Não precisa — dispara, indo até a cômoda e abrindo as últimas gavetas para retirar as roupas. — Acho que vou ter que me acostumar a me trocar direto no banheiro, mas tá tudo bem!

— Beleza — digo, mas tanto faz, na verdade.

Eu o observo enquanto caminha de volta ao banheiro. O cara é um pouco mais alto do que eu e o tom de seu cabelo fica entre o loiro claro e o escuro. Sua pele é como a minha, só um pouco mais bronzeada, com algumas marcas de expressão pelo rosto.

Não espero o garoto voltar para conversar, deito na cama de baixo. O colchão não é tão macio, mas também não difere muito do que eu tinha em casa. Meu corpo relaxa e percebo que estou cansado, não apenas fisicamente, mas psicologicamente. Alma estava certa quando disse que o dia seria longo. Pensar na garota me deixa animado e me faz desejar poder conversar um pouco mais com ela.

Antes de Henrique voltar, estreito os olhos para que pense que estou dormindo. Ainda não me sinto confortável para conversar. Gosto da energia que ele transmite, e não me parece ser uma pessoa ruim ou difícil de lidar, mas, apesar de a calmaria ter se instalado dentro de mim, uma voz em minha cabeça ainda ecoa dizendo para tomar cuidado com as pessoas, afinal, ninguém está ali apenas para desfrutar do lugar e tirar férias: todos carregamos demônios nas costas. O ambiente parece amigável, mas eu me sinto como uma daquelas plantas carnívoras que se fecha totalmente quando algo as toca. A diferença é que as plantas tornam a se abrir, independentemente de quantas vezes se fecham; já eu, não.

Pouco tempo depois, pego no sono ouvindo a respiração suave de Henrique em sua cama.

Não faço ideia de quanto tempo fiquei desacordado, mas abro os olhos assustado ao ouvir ruídos na área externa do alojamento. A luz ainda está apagada e Henrique se mantém deitado. Espio pela janela e percebo a movimentação. Há meninos e meninas em frente ao dormitório masculino encarando o que penso ser a entrada do lugar. Com cuidado, saio do quarto e vou ao corredor em direção à saída; alguns campistas também caminham sonolentos e curiosos para saber o que está acontecendo. Está escuro e, ao me aproximar de onde se encontra a multidão, reconheço a voz de Laura, a coordenadora. — Está tudo sob controle! — grita, irritada, tentando espantar os campistas. — Voltem para seus quartos.

Ao seu lado, um homem alto e com presença marcante, talvez o dono do acampamento, ajuda Laura a tentar apaziguar o que quer que esteja acontecendo. Levo um tempo até conseguir me enfiar no meio dos jovens e poder visualizar o que olhavam para entender o que era aquilo tudo. Quando minha visão finalmente clareia, compreendo o discurso de Laura. A parede lateral do dormitório havia sido utilizada como tela de pintura para um ato de rebeldia transcrito em forma de mensagem feita em tinta azul. A frase escorria com a tinta ainda fresca e prendia a atenção de cada pessoa ali presente. No meio da multidão, encontro Alma vestindo pijama de moletom. Ao lado dela, está uma mulher alta, de pele negra e com expressão firme. Parece uma versão mais velha de Alma e, pelo modo como apoia as mãos nos ombros da menina, julgo que seja sua mãe.

Laura e o dono do Misfit voltam a gritar para que todos retornem aos alojamentos, mas, desta vez, fazem algumas ameaças, então, caminho às pressas para dentro do domitório. Encontro Henrique no meio do corredor e o puxo de volta para o quarto.

— O que aconteceu? — pergunta, confuso, enquanto fecho a porta. — Alguém pichou a parede do dormitório — explico. — Uma mensagem ou algo do tipo.

— O que escreveram?

Respiro fundo e começo a falar o que vi.

— Estava escrito… — Pauso — “NÃO CONFIEM NELES!”