Submerso
Capítulo Quatro
É um novo amanhecer,
É um novo dia,
É uma nova vida pra mim
e estou me sentindo bem
“Feeling Good”, Nina Simone[6]
A primeira semana no Misfit passa mais rápido do que espero. Os dias seguintes ao acontecimento da pichação são estranhos porque ninguém sabe como reagir. Henrique disse que, durante o tempo em que esteve ali, nada como aquilo havia acontecido. Claro que a coordenação recebia milhares de reclamações de pais e campistas insatisfeitos, mas ninguém jamais tinha feito algo tão drástico ou dramático.
Devido às investigações para descobrir o autor da pichação, não tenho boa parte das aulas que deveria ter. Agradeço mentalmente, porque assim consigo mais tempo para me adaptar, conhecer o lugar e também as pessoas. Torno a ver Alma algumas vezes durante as refeições, mas não conseguimos trocar muitas palavras além de “olás” e afins. A garota parece sempre ocupada demais em suas tarefas e me sinto culpado por roubar seu tempo.
Quanto ao meu colega de quarto, geralmente, conversamos antes de dormir, cada um em sua cama, até pegarmos no sono. Nossas programações são diferentes, então, acaba sendo difícil conciliar o tempo.
Confesso que estou um pouco ansioso e apreensivo. Uma celebração de boas-vindas aos novos campistas está para acontecer. Visto uma camisa sem estampa, querendo entender um pouco mais sobre como funciona o lugar. Demoro um tempinho para descobrir como chegar à clareira onde acontece a celebração. A festa começou e os campistas já brilham com excitação. Apesar do amontoado de pessoas, identifico Henrique facilmente no meio de seus amigos. O garoto veste uma camisa social escura e conversa animadamente com uma menina de longos cabelos negros e lisos. Penso em ficar quieto em meu canto e sondar o ambiente em vez de interagir, mas Henrique me vê e grita: — Gente, esse é o Demo — ele me apresenta, passando os braços por cima de meu ombro. — É o cara que divide o quarto comigo. — Demo? Tipo demônio? — pergunta a garota que conversava com Henrique. — Quase isso. — Levanto uma das sobrancelhas. — É como meus amigos costumam me chamar.
— Interessante — responde ela, sugando pelo canudo um pouco de suco. —
Meu nome é Serena, então, entendo de nomes diferentes — conclui, enquanto dá uma piscadela.
— Eu acabei de presenciar um flerte? — pergunta o outro amigo de Henrique, em tom de brincadeira. — Você mal conhece o menino e já está dando em cima dele, Serena?
— E desde quando sou de perder tempo, Diego?! — retruca a garota, aos risos. — Se quiser, estou totalmente disponível para perder um tempo com você — solto, entrando na brincadeira, mas com um tom de voz que deixa claro que estou apenas caçoando.
Os três me encaram, surpresos com a resposta.
— Você é saidinho, né?! — pergunta Serena, meio que afirmando. — Adorei. Dou um sorriso para ela e para Diego, negando com a cabeça e indicando que estava apenas tentando ser engraçado.
— O que vocês costumam fazer aqui para se divertir? — mudo de assunto. O grupo demora a responder, mas, depois de pensar um pouco, Henrique sai à frente:
— Além das atividades do acampamento, acho que não faço nada. Serena ri.
— Tipo, literalmente “nada”, mesmo, né?! — rebate ela, com ironia. — Henri passa a maior parte do tempo nas aulas de natação. — É verdade? — pergunto a ele, surpreso. — Você pratica natação? Por que não me contou antes?
Henrique confirma meio constrangido por ser o centro das atenções. — Você deveria aparecer por lá qualquer dia — convida. Penso no que dizer por alguns segundos. Confessar que não sabem nadar é algo que as pessoas contam durante uma conversa amigável? Acho que não. Decido ainda não me abrir desse modo.
— Com certeza, irei — minto. Droga, se ele se lembrasse do convite, teria que inventar uma desculpa para furar o compromisso. Não sei por que, mas sinto uma pontinha de vontade de nadar com Henrique. Acho que estou realmente precisando de amigos.
Com o canto do olho, vejo Alma se aproximar.
— Ei, Dimitri, parece que fez alguns amigos por aqui — diz ela, adentrando a roda e cumprimentando as outras pessoas. Não sei se Alma as conhece ou se está apenas sendo educada.
— É o que parece. — Abro um sorriso.
— Ele fez, sim, querida! — exclama Serena, levantando uma das sobrancelhas e sorrindo de maneira intimidadora. — Ótimos amigos, na verdade. Acho que todos percebemos a mudança repetina de clima diante da resposta grosseira de Serena, porque ficamos em silêncio, o que deixa Alma um pouco grosseira de Serena, porque ficamos em silêncio, o que deixa Alma um pouco sem jeito.
— Ah, isso é muito bom — afirma a garota, tentando manter a cabeça erguida e criando uma barreira invisível para que não pudéssemos perceber que havia sido atingida. — Acho que nos vemos por aí!
Alma se vira e caminha na direção de onde tinha vindo. — Ei, Alma — grita Henrique. — É Alma, certo?! — É, sim — responde intrigada, dando meia-volta para ver o que o garoto tinha a falar.
— Você deveria aparecer na aula de natação, qualquer dia desses — diz ele, simpático e transmitindo confiança na voz. — Podemos arrastar o Dimitri para dentro do lago também, acho que será divertido. Alma demora a responder, parecendo considerar o convite. Provavelmente, se pergunta se aquilo é algum tipo de piada de mau gosto ou se Henrique está apenas a chamando para um passeio amigável.
— Estou livre nessa sexta à tarde — diz, finalmente, comprimindo os lábios. — Então, está combinado! — Henrique finaliza. Ótimo, agora que Alma e meu colega de quarto marcaram planos para a minha sexta sem me consultar, todas as minhas desculpas para não ir até as aulas de natação vão por água abaixo. Que ironia! Quando Alma está longe o bastante para não ser capaz de ouvir a conversa, a primeira coisa que faço é tentar entender o que tinha acabado de acontecer. — Por que você falou daquele jeito com ela? — pergunto, um pouco irritado. Serena não tinha o menor direito de se intrometer em minhas relações com outras pessoas daquele jeito.
Ela e Diego trocam olhares como se pedissem autorização um ao outro para conversar sobre algo que só os dois sabiam.
— Você sabe que ela é filha do coordenador do Misfit, não é? — a garota começa.
— Sei — minto. — O que isso tem a ver com a gente? — Na verdade, não temos nada contra ela — afirma Diego, coçando o queixo com uma das mãos. — Mas, depois da pichação dizendo para não confiarmos neles, meio que passamos a tomar cuidado com esse pessoal da coordenação. Henrique está desconfortável, seu rosto cora e não sei se está se sentindo mal porque seus amigos estão sendo idiotas quanto a Alma ou se está ficando bravo. — Isso é besteira — diz ele, firme, mas tentando não soar agressivo. — Vocês nem sabem sobre o que essa pichação está falando e, até onde sei, pode ser até um trote bobo dos campistas querendo colocar medo nos novatos. Eu me mantenho calado porque, ao contrário de Serena e Diego, sei que devo fechar a boca quando estou no meio de desconhecidos. Também não tinha achado nada legal assistir à ceninha de Serena contra Alma. Nunca gostei de pessoas que fazem prejulgamentos. Decido manter distância da garota, mesmo que seu veneno não tenha sido destilado em minha direção. Henrique diz que precisa ir ao banheiro e não retorna. Depois de mais de meia hora puxando assuntos genéricos com seus “amigos”, decido inventar que vou ao banheiro também, mas acabo andando pela festa à procura de Alma, para conversar sobre o que tinha acontecido. Não a vejo em lugar algum. Quando começo a ficar entediado, resolvo voltar para o dormitório. Mesmo sem ter aproveitado muito da festa, não vejo motivos para continuar lá, já que meus dois únicos colegas desapareceram sem deixar vestígios. Sem me despedir de Serena e Diego, faço a caminhada até o quarto em silêncio, me lembrando de cada detalhe da noite. Viro a maçaneta e espero encontrar Henrique deitado na cama de cima, mas sua cama está perfeitamente arrumada, da mesma maneira que havia deixado antes de sair de manhã. Apago as luzes, tiro o sapato e fico deitado esperando o sono chegar. Assim como Henrique, o sono só chega depois das três da manhã.
— Você está de sunga? — pergunta Henrique na sexta-feira à tarde, enquanto caminhamos na direção do lago.
— Não tenho sunga. — Dou de ombros.
— Para de inventar desculpas — retruca ele. — Tenho uma ou outra de reserva, posso te emprestar se você quiser!
— Dividir quarto é uma coisa, mas sungas… — Pauso para rir. — Isso seria bem estranho.
— Você é quem sabe, cara.
Depois do que rolou na outra noite, mal tive tempo para conversar com ele ou perguntar o motivo de ter chegado tão tarde naquele dia. Aliás, era contra as regras do acampamento ficar andando pelo lugar depois das dez da noite, então, não fazia ideia de como ele tinha burlado o sistema. No dia seguinte, acordo com o barulho do chuveiro enquanto Henrique toma banho e se prepara para suas atividades. O garoto sai num pulo e trocamos poucas palavras. Por essa razão, concordo em acompanhá-lo na natação naquela sexta-feira: quero tentar conhecer um pouco mais do meu colega de quarto e limpar a minha imagem com Alma.
Apesar de aceitar ir até o lago, não faço a menor ideia de como Henrique espera que entremos na água com o clima frio que começou a nos rondar nos últimos dias. O mês de abril está começando, mas a temperatura já está baixa o suficiente para deixar o lago quase deserto. Cair naquela água é pedir para conseguir um resfriado. Quando chegamos perto de onde a aula acontecerá, reparo que alguns campistas, como Henri, não ligam muito para o frio e se arriscam a nadar. O professor que acompanha a atividade é um senhor alto, robusto, com cavanhaque estilo anos 1980. Ele veste roupas vermelhas de salva-vidas, passa uma imagem de rígido e mandão, mas é totalmente o oposto, pois mal consegue dar ordens aos adolescentes. Henrique diz que é desse jeito na maior parte do tempo. Os campistas podem fazer tudo o que quiserem na natação, contanto que não passem dos limites de profundidade do lago. Meu colega de quarto aprecia essa liberdade.
— Será que Alma vem nos encontrar? — mudo de assunto. — Acho que sim — responde ele, parecendo não se importar em deixar a conversa sobre sungas para trás. — Ela é misteriosa, sabia?! — Como assim?
— Estou falando sério. — Ergue as sobrancelhas e passa a caminhar mais devagar, uma vez que estamos quase na beirada do lago. — Me surpreendi quando ela aceitou sair comigo. — Pausa. — Digo, com a gente. Ela quase nunca sai de perto da mãe.
— Mas vocês já se falaram antes, não é? — Acho que ele não vai se importar de responder algumas coisas sobre seu passado, então, não me sinto desconfortável ao perguntar mais.
— Algumas vezes, nada muito concreto — explica. Alma foi tão bondosa e gentil comigo ao me apresentar o acampamento em meu primeiro dia. É estranho pensar que ela se esconde do resto dos campistas. Será que tem a ver com o fato de ela ser filha dos donos? — Talvez ela só seja meio tímida — suponho.
— Sim, talvez… — diz Henrique, tirando a regata e a jogando no chão de madeira do píer. — Quero conhecê-la melhor.
É a segunda vez que o vejo sem camisa depois do dia em que nos conhecemos. Sua pele é bronzeada e cobre cada parte de seu corpo como se fosse delicadamente bordada por cima dos músculos. Eu me pergunto se ele costumava fazer musculação antes de vir para o acampamento ou se alcançou aquele físico apenas nadando. Percebo que estou olhando demais para ele quando seu olhar se encontra com o meu por alguns segundos, então, desvio. Isso quase sempre acontece quando estou observando algo ou alguém. Minha tendência é continuar encarando e absorvendo cada detalhe que a cena me apresenta, mas, às vezes, esqueço que não sou invisível e que as pessoas não costumam olhar umas para as outras mais do que o necessário. Acabo sempre me colocando numa situação embaraçosa.
Não sei se foi pelo fato de Henrique ter me flagrado enquanto eu o analisava, Não sei se foi pelo fato de Henrique ter me flagrado enquanto eu o analisava, mas ele acaba pulando no lago sem sequer tirar o short para nadar de sunga. No momento em que salta, seu corpo é engolido pela água e some de vista, afundando em meio às ondas verde-escuras com bolhas de ar que se formam depois do salto.
Quando volta à superfície, os fios de cabelo loiro estão ensopados e ganham uma coloração mais escura. Os lábios tremem, denunciando o quanto a água está fria. É quase como se estivesse sem roupa no frio europeu. Vê-lo desse jeito me lembra da cena final de O iluminado, quando o personagem se encontra totalmente congelado no meio de um labirinto cercado de neve. — Sua vez de pular — diz ele, animado, batendo os braços contra a água. — Nunca — respondo de primeira.
Henrique me lança um olhar de reprovação e revira os olhos. — Você está morrendo de frio, por que eu deveria entrar aí também? — Porque é fazendo besteiras que você acaba criando amizades — ele responde, mas para e pensa. — Era uma pergunta retórica? — Era. — Sorrio. — Mas tudo bem, depois dessa sua resposta filosófica, não tem nem como argumentrar contra.
Henrique comemora.
— Mas só vou colocar o pé — aviso, me dando por vencido. Abaixo e sento no píer, me ajeitando para ficar numa posição que faça com que meus pés fiquem na água. No momento em que meus dedos tocam o lago, meu corpo inteiro se arrepia. A água está muito mais gelada do que eu esperava. O professor apita desesperadamente e grita para que um garoto que ultrapassou o limite de profundidade volte para onde é permitido ficar. O menino demora a entender, mas acaba retornando para perto de nós. O lago novamente fica em silêncio e só o que ouço é o som da minha respiração e o barulho da água fluindo.
Henrique mergulha e eu o observo. Seus movimentos são precisos, e, cada vez que ele emerge, sua boca se abre em busca de oxigênio. Fico curioso para saber qual seria a sensação de mergulhar.
É engraçado como certos pensamentos surgem na minha mente de maneira tão natural. Afasto a possibilidade de entrar no lago, porque provavelmente afundaria para sempre no momento em que caísse na água, como uma âncora. É irônico me comparar com esse objeto porque, na minha atual situação, sou exatamente como uma âncora, indo cada vez mais fundo. — Ei, menino azul. — Ouço. — Sobre o que está pensando? Eu me assusto com a voz de Alma surgindo atrás de mim. — Estava me perguntando como alguém consegue entrar na água nesse frio. — Bom, não dizem que o frio é psicológico? — brinca. — Não que eu acredite — Bom, não dizem que o frio é psicológico? — brinca. — Não que eu acredite nisso, até porque, do contrário, eu estaria vestindo maiô. Alma usa um de seus vestidos rodados de cores claras, o que revela que ela não tem a menor intenção de entrar na água.
— Uau, ele realmente sabe nadar. — Alma se admira ao observar Henrique e depois tira as sandálias para se juntar a mim no píer. — Quem diria que o próximo Michael Phelps estaria escondido em um acampamento para problemáticos?! — brinco, mas me arrependo da piada logo depois, porque Alma não parece achar graça. — Desculpe, não pensei muito antes de falar.
— Não, tudo bem. — Sua resposta deveria me tranquilizar, mas sua expressão neutra me faz pensar que não se sentiu muito confortável com o que eu disse. — Só é estranho vê-lo falar de si mesmo desse jeito. Você não deveria rotular as pessoas que estão aqui.
Peço desculpas novamente e fico em silêncio, pois sei que ela está certa. Droga, Dimitri, por que você tem de ser tão sem papas na língua às vezes? — Alma, você está aqui! — Meu colega de quarto comemora ao ver a garota ao meu lado. Agradeço mentalmente por ele não ter ouvido o que eu tinha acabado de dizer sobre as pessoas do Misfit.
— Claro que vim — responde entusiasmada. — Você achou que eu furaria um compromisso? Jamais.
— Parece que também não vai entrar no lago, não é?! — Henrique nos olha com a sobrancelha levantada, julgando de uma maneira extremamente engraçada. — Mas não culpo vocês, estou congelando! — confessa, nadando até o píer e saindo da água.
As gotas escorrem de seu corpo e nos molham um pouco. Fingimos nos importar, o que o incentiva a pular e chacoalhar a cabeça em nossa direção para nos molhar ainda mais. Quando para de rir e de se mexer como um maluco, Henrique se senta ao nosso lado.
— Onde aprendeu a nadar tão bem? — pergunta Alma, curiosa. A garota desamarra um prendedor de cabelo no pulso, junta os cachos com as mãos e os prende em um coque acima da cabeça.
— Tenho uma piscina em casa e cresci dentro dela. Acho que meus pais até se surpreenderam quando virei um adolescente, e não um tritão — brinca. — Eu passava todo meu tempo livre nadando. Cheguei até a integrar um grupo de natação no Rio de Janeiro.
— Uau! — exclama Alma, erguendo as sobrancelhas. — Entendo. Também tenho meus pequenos vícios. — A garota sorri de volta. — Gosto de flores, qualquer tipo de flor! Desde rosas até petúnias, vermelhas e azuis, da mais bonita até a mais exótica. Me perco durante horas na estufa! — Aqui tem uma estufa? — Henrique e eu perguntamos juntos. — Sim, é engraçado que poucos campistas saibam — confessa. Mas até que gosto que seja desconhecida, porque se tornou meu cantinho. Espero que Alma revele a localização da estufa, mas ela não diz mais nada. — E você, Dimitri, o que faz para matar o tempo? — Henrique me encara, curioso. Apesar de dormirmos no mesmo quarto, sabemos poucas coisas um sobre o outro.
— Gosto de música. — Faço uma pausa para pensar no que mais eu gosto de fazer. — De filmes, também, nada que demande muito talento. — Comparados ao que os dois faziam, meus hobbies parecem insignificantes. — Vamos fazer uma brincadeira! — propõe Alma, um pouco mais animada do que estava segundos atrás. — Quando eu contar até três, cada um de nós deve dizer seu filme favorito em voz alta!
Concordamos.
— Um, dois, três…
— A culpa é das estrelas — diz a garota. — As vantagens de ser invisível — ouço Henrique dizer, misturando a voz com as outras.
— Laranja mecânica — falo.
Os dois se entreolham e passam a carregar um olhar malicioso. — Eu tinha certeza de que você era hipster! — caçoa Alma. — Com esse cabelo azul, não tem nem como negar — completa meu colega de quarto. Reviro os olhos.
— Não é tão hipster assim. — Saio em minha defesa, mas me interrompo. — Tá bom, é sim. — Assumo, rindo. — Mas os de vocês também são filmes bem hipsters!
— Eu A-M-O As vantagens de ser invisível! — exclama Alma para Henri. — O livro também é incrível. Posso te emprestar se quiser. — Obrigado, mas não sou muito de ler.
Observo os dois conversando e me pergunto se aquilo é o que consideram “flerte” ou se estão apenas sendo amigáveis um com o outro. Não me surpreenderei se vierem a ter algo no futuro. É interessante analisar as pessoas. Por um segundo, a ideia dos dois como um casal me incomoda, mas atribuo o sentimento ao fato de eu estar me sentindo desconfortável e excluído da conversa.
O escritório de Suzana é uma cópia quase idêntica do de Laura: simples, rústico e formal. A única diferença é a decoração, que conta com objetos pessoais da mulher responsável por me acompanhar durante meu tempo no acampamento. Olho ao redor reparando com mais atenção e percebi que, sobre a mesa, há uma fotografia antiga de Alma, segurando um buquê de rosas nas mãos, apontando-o para a câmera. Ao lado dela, está um homem alto e elegante, trajando um terno cinza e com cabelos bem cortados. Apesar de estar diferente nos dias atuais, reconheço que é Álvaro. Ele sorri e tem os braços ao redor da menina. Abaixo da mensagem, talhado na moldura, lê-se “Feliz Dia das Mães!”. — São meu marido e minha filha — explica Suzana, percebendo meu interesse na foto.
Não sei se ela tem ideia de que andei conversando com Alma, além daquele primeiro dia no acampamento.
— Sua família é linda! — elogio, sorrindo para ela. — Obrigada — responde. Sua voz é calma e macia. Sinto uma pontada no peito porque reconheço que lembra um pouco a de minha mãe. — Dimitri, está se adaptando bem ao acampamento?
— Estou — digo, procurando palavras para descrever minha experiência até o momento. — É um lugar muito bacana.
— Isso é bom — observa. — Sente falta de casa? Reflito sobre a pergunta. Eu não definiria o que estou sentindo como saudade, está mais para certa curiosidade em saber como meus amigos e minha família estão lidando com as coisas uma vez que eu não estou por perto. Com certeza, sinto falta de meu pai, de Clarissa e de Bernardo, mas o sentimento não é forte e não o deixo aflorar.
— Um pouquinho, mas é ótimo descobrir as coisas em um lugar novo — respondo, enfim. Confesso que estou um pouco tímido, calculando cada palavra antes de falar, pois tenho medo das reações e interpretações da acompanhadora. Suzana assente.
— Sinto que está inseguro enquanto conversa comigo. Vamos lá, Dimitri, preciso conhecer mais você! — Ela me incentiva a falar. — É bom ter alguém para conversar, garanto que se sentirá alguns quilos mais leve. Eu me mantenho em silêncio, fitando o chão. A frase pichada na parede durante a semana anterior é tudo em que consigo pensar: não confiem neles. Começo a transpirar e minha respiração fica irregular.
— Por que você está aqui?
Suzana me encara, a expressão é amigável e ela parece ser compreensiva. Não deve ser uma pessoa ruim. Afinal, ela criou Alma, e a garota é uma das pessoas mais gentis e incríveis que eu conheço. Então, quais são os motivos para que eu me esconda tanto atrás desta máscara? Estou aqui para ter acompanhamento para superar o que me aflige e me impede de ser feliz. Será que não seria capaz de colocar tudo para fora e me permitir ser ajudado? Apesar de querer desabafar e contar minha história para a mulher, não me sinto pronto. Sei que terei de falar, mais cedo ou mais tarde, mas não será agora. — Preciso ir — anuncio, pulando da cadeira e correndo em direção à porta. Quando estou saindo, ouço Suzana dizer:
— Tudo no seu tempo, não há motivos para forçá-lo. Volte quando quiser, é sempre bem-vindo aqui!
Chego ao alojamento pouco antes de o sol se pôr. Minha cabeça gira com os acontecimentos do dia. Estava muito feliz por ter ido ao lago de manhã, mas a sensação de que devia ter contado tudo para Suzana me indomoda. No corredor, a caminho do quarto, esbarro em Diego, que derruba os cadernos que carrega. Eu não o via desde o dia da festa, então, agacho para ajudá-lo e reparo no pequeno envelope preto entre as folhas de um dos cadernos. Ele me agradece, mas evita puxar conversa, apenas acena com a cabeça e corre para o quarto, batendo a porta com força e fazendo um grande barulho. O dia não está fácil para ninguém, penso.
— O que aconteceu? — Henrique se espanta quando entro em nosso quarto. — Você está com uma cara horrível!
Não respondo e continuo parado na porta. Ele se aproxima, com seu andar todo desajeitado, e, para a minha surpresa, me envolve em um abraço. Fico sem saber o que fazer e mantenho as mãos junto ao meu corpo, sem abraçá-lo de volta. Quando o garoto se afasta, está rindo da minha reação. — Você com certeza precisava desse abraço — brinca. — O primeiro acompanhamento é sempre difícil.
Acho que deve ser verdade. Vou até a cômoda e bebo um pouco de água da garrafa que fica sobre o móvel. Retiro o toca-fitas da mochila e aperto play, me aconchegando no edredom da cama.
— Já vai dormir? — pergunta Henrique, me acompanhando com os olhos. Ele está realmente me estranhando naquela noite.
— Foi um dia longo.
A música “Feeling Good”, de Nina Simone, ressoa nos fones de ouvido e fecho os olhos, tentando acalmar a tempestade que começa dentro de mim. “It’s a new dawn/ It’s a new day / It’s a new life/ For me / And I’m feeling good.”
Acho que também me sinto assim, Nina, penso, pouco antes de dormir. Já adormecendo, pergunto-me se Henrique esqueceu a janela aberta antes de ir para a cama, porque começo a sentir o corpo frio durante o sono. Estico o braço à procura do edredom, mas estranho quando minha mão volta totalmente molhada. Abro os olhos e meu coração para: estou no centro do lago. Não faço a menor ideia de como cheguei até ali, mas flutuo sobre a água em cima de um colchão inflável. Está escuro e não vejo ninguém no píer, a alguns metros de mim. Penso em mergulhar e ir até a terra firme, mas desisto porque provavelmente acabaria me afogando. Retiro os fones de ouvido e começo a gritar por ajuda. Faço aquilo por alguns minutos, mas ninguém aparece. Perco o controle do meu corpo e ele passa a tremer exageradamente, não sei se de frio ou de medo.
Temo que eu seja forçado a entrar na água e começo a pensar em maneiras de mover o colchão. Tento remar com as mãos, mas não parece adiantar muito, serve apenas para me deixar cada vez mais molhado. Xingo em voz alta. Volto a pedir ajuda, estou ficando desesperado e sinto a garganta arranhar. Finalmente, começo a ver a penumbra de pessoas chegando ao longe, tento balançar os braços para que me vejam, mas não tenho certeza de que é suficiente para que me identifiquem ali no meio do nada. Então, me levanto com dificuldade e o colchão treme embaixo de mim. Ouço gritarem por meu nome, mas não consigo identificar de quem é a voz.
Cerro os olhos para tentar enxergar e balanço mais os braços. Com um passo em falso, acabo desequilibrando o corpo e caindo do colchão. A água me engole e é como se eu tivesse caído em um buraco negro, gelado e profundo. Tento me manter na superfície, mas é impossível, afundo ainda mais. Respiro e meus pulmões ardem, está tudo tão frio que mal sinto as pernas. Não serei capaz de aguentar por muito tempo, não importa quanto eu tente, estou cada vez mais cansado e continuo sendo puxado para baixo. Fecho os olhos e deixo que meu corpo afunde.
Quando minha cabeça submerge e o mundo escurece, penso em meus pais. — Estou com ele. — Estou tonto quando ouço as palavras do garoto. Ele segura em minha cintura e tenta com dificuldade me puxar de volta para a superfície. Quando ele me arrasta para o píer, as pessoas que nos esperam me puxam para cima e perguntam se estou bem. Não consigo responder, até porque não faço a menor ideia de como estou me sentindo, sou um poço de confusão. — Eu acordei lá. — Solto em meio à respiração. — Não foi de propósito. — Não se preocupe com isso, sabemos que não. — Vejo o rosto de Henrique se acender no meio de outros rostos desconhecidos. Ele está ensopado e claramente em choque. Por que está tão molhado? Foi ele quem me tirou da água? Agradeço mentalmente por suas habilidades na natação.
— Sabem? — pergunto, sem entender.
— Sim — responde, tenso. — A pessoa que te colocou lá nos deixou um bilhete assumindo o feito.