Submerso
Capítulo Nove
Eu ando em uma estrada solitária
A única que eu sempre conheci
Não sei até onde vai
Mas é lar para mim e eu ando só
“Boulevard of Broken Dreams”, Green Day[11] “Desde 1989, o Acampamento Misfit abriga e ajuda centenas de jovens que necessitam de um tempo longe de tudo para encontrar a si mesmos. Garotos e garotas adolescentes desfrutam de um ambiente tranquilo que os habilita a retornar a uma vida saudável e contribuir positivamente com a sociedade.” É o que diz na página principal do site oficial do acampamento. Decidi aproveitar que tenho acesso à internet no notebook do meu pai para pesquisar sobre o lugar e ver se consigo descobrir alguma coisa relacionada aos túneis ou até mesmo à organização, para acabar de uma vez por todas com as dúvidas que Serena, Diego e o Fantasma colocaram em minha cabeça. “Por quase três décadas, nosso grupo de profissionais tem alcançado o sucesso ajudando jovens a se reintegrar por completo, educando-os, acompanhando-os e tirando-os dos maus costumes. Até mesmo os casos mais difíceis, envolvendo adolescentes rebeldes, trouxeram resultados positivos no acampamento. Cuide de quem você ama, ligue para nós e um de nossos profissionais irá até você!” A interface do site é inteiramente verde-musgo e contém informações sobre a criação do acampamento na década de 1980, sob o comando dos avós de Alma. Aparentemente, o negócio foi passado de pai para filho. No menu, há abas com alguns depoimentos de ex-campistas contando as experiências maravilhosas que tiveram no Misfit. A localização do acampamento não está disponível em lugar algum. Na categoria “SOBRE NÓS”, diz-se que não é possível saber onde o Misfit se localiza por questões de privacidade e segurança, além de atrapalhar a imersão dos campistas.
Fora isso, não há nada de interessante naquela página, nem mesmo fotos do território do acampamento. O máximo que encontro são descrições breves das atividades e das áreas em que são realizadas.
Jogo o nome do acampamento no Google e não obtenho resultado diferente do que encontrei no site oficial, apenas as mesmas informações inúteis e positivas sobre o lugar. Volto à página e copio o nome do fundador do Misfit: “Vladimir Lafaiette”. Quando pressiono o botão e atualizo a busca a partir do nome, vou descendo a página de busca e, lá perto do fim, um dos resultados prende minha atenção.
“MILIONÁRIO É SENTENCIADO E CONDENADO POR COMANDAR ESQUEMA QUE ENVOLVIA AGRESSÃO E VIOLÊNCIA CONTRA MENORES.”
Clico no título desesperadamente, como se minha vida dependesse do que estava escrito naquela matéria. O endereço demora a carregar e, quando penso que as informações vão aparecer, uma mensagem dizendo que aquele conteúdo não está mais disponível pisca na tela. Sem saber o que fazer, aperto F5 inúmeras vezes na esperança de que talvez seja apenas um erro momentâneo e a página acabe carregando normalmente, mas isso não acontece. Tento continuar procurando matérias que falem sobre Vladimir, mas é como se aquele homem não tivesse existido. Os resultados sempre me levam a páginas em branco.
Preciso falar com Henri sobre o que descobri.
Logo no Facebook e tento procurar por ele, mas percebo que não faço a menor ideia de qual seja seu sobrenome nem mesmo se ele tem perfil naquela rede social. Meu estômago revira ao pensar que, caso Henri não volte para o acampamento depois das “férias”, talvez eu nunca mais o veja. Eu me desespero. Passo a tentar lembrar qualquer coisa que possa me ajudar a encontrá-lo. Penso em todas nossas conversas desde que nos conhecemos, procurando possíveis detalhes que posso ter deixado passar enquanto estava ao seu lado. Estou quase deslogando quando lembro que, uma vez, ele disse a Alma que era tão viciado em natação que chegou a fazer parte de um grupo do esporte. Devo ter entrado em praticamente todas as páginas sobre natação existentes no território carioca e quando desço uma delas, lá está ele, posando em cima do pódio de uma competição de que participou, segurando o troféu. Henrique está bem mais novo na fotografia, o corpo, nem de longe tão definido como da última vez que o vi e os traços, infantis. Tinha provavelmente uns quinze anos. Ao seu lado está um homem loiro de meia-idade, vestindo uma camisa polo verde. Parece uma versão mais velha de Henrique. Passo o mouse sobre a imagem e não encontro nenhuma marcação de perfil. Murmuro um palavrão. Clico para ver quem curtiu a foto e comemoro: “Henrique Gomez”. Sem hesitar, entro no perfil do garoto e envio solicitação de amizade.
O pedido é aceito cinco minutos depois e o barulho de notificação apita na tela, avisando que havia uma nova mensagem.
Que surpresa maravilhosa!
Como me achou?
Se te contar, terei que te matar.
Idiota. Tento encontrar seu perfil desde que cheguei em casa, mas sou péssimo com tecnologia.
com tecnologia.
Como você está?
Sobrevivendo.
E você?
Com saudades.
Sorrio ao ler a frase, também sinto falta dele e sei que, se estivesse comigo, me ajudaria a lidar melhor com as coisas. Deixo a saudade de lado apenas por alguns segundos e lembro o motivo de tê-lo procurado na rede social: mostrar o que tinha encontrado sobre o Misfit. Envio o print do título da matéria sobre Vladimir e aguardo que ele termine de ler.
Nossa… agressão?
Será que Alma sabe alguma coisa sobre isso?
Não faço ideia.
Talvez saiba, é o avô dela.
A mensagem “Henri está digitando” aparece e permanece na janela de conversa por algum tempo, depois some, como se ele tivesse apagado o que escrevia.
Acha que é a isso que o Fantasma se referia quando disse para não confiarmos nos coordenadores do acampamento?
Por que ele sabe que tem algo que não estão nos contando? Parece história de seriado da Netflix.
Realmente, parece mesmo.
Estou pensando em algum seriado para responder à piada de Henrique quando ouço a campainha tocar. Eu me levanto do sofá para atender, mas meu pai sai da cozinha e vai em direção à porta. Quando gira a chave no trinco e puxa a maçaneta, vejo Clarissa parada na soleira, cabisbaixa com as mãos no bolso do moletom.
Preciso ir.
Também estou com saudade.
Sinto falta dos seus beijos.
Termino de digitar rapidamente e fecho o computador, deixando-o de lado e encarando Clarissa.
— Podemos conversar? — pergunta. Ela não está usando maquiagem, então, consigo ver as olheiras debaixo de seus olhos.
— Não só podemos como devemos — respondo. O olhar do meu pai vai de Clarissa até onde estou e ele deduz, pelo clima, que precisamos de um pouco de privacidade, então, caminha de volta para a cozinha. Mesmo com meu pai longe, eu a levo até o quarto e fecho a porta, para que nada do que conversarmos no cômodo possa ser ouvido por ele. — Antes do que você tem para me dizer — começo. — Quero me desculpar por — Antes do que você tem para me dizer — começo. — Quero me desculpar por ter sido tão idiota com você. Foi puro egoísmo ir embora sem nem me despedir, sendo que sempre fomos amigos. — As palavras fluem naturalmente, sem dificuldade alguma. — Pronto, agora você pode me xingar, me odiar e me esmurrar do mesmo jeito que fez com aquele cara no bar. Clarissa ri, não de maneira exagerada ou como se achasse graça no que acabei de dizer, mas dá um sorriso que demonstra que aceitou o pedido de desculpas. — Você foi mesmo um idiota — diz, franzindo o cenho. — E eu com certeza te daria um soco se eu não estivesse de ressaca — ironiza. — Já que cumpriu sua obrigação de pedir desculpa, também preciso me desculpar por ter te expulsado do apartamento no fim de semana.
— Não precisa.
— Preciso, sim — reforça. — Você foi idiota de me deixar para trás e eu fui mais imbecil ainda por não te dar a chance de se explicar. Foi por isso que vim até aqui, para saber o seu lado da história.
Sento na cama, respiro fundo e começo a contar tudo o que aconteceu desde o dia em que causamos a confusão no bar. Conto sobre a ida ao acampamento, sobre Alma, Suzana e até as aparições do Fantasma. Fico um pouco nervoso ao mencionar Henrique e revelar para ela que estava me relacionando com o garoto, mas digo de uma vez. Quando termino, Clarissa está com as duas sobrancelhas arqueadas.
— Caramba! — exclama. Estou um pouco receoso com a reação dela sobre o que contei. — Então, quer dizer que, apesar das coisas ruins, você ainda arrumou um gostoso para dar uns pegas? — E começa a rir, me encarando com olhar malicioso.
Sinto meu rosto corar.
— Cala a boca! — respondo, brincando. — Eu te conto sobre algo supersério e é assim que você reage?
Clarissa dá de ombros.
— É o que importa, bebê! — diz. — Agora, sem brincadeiras, fico feliz que você esteja feliz — confessa, me puxando para um abraço. — Mas, da próxima vez, me avise antes de sumir, nem que seja apenas um “fui”. — Prometo que te manterei informada. Aliás, quem era a garota careca e ranzinza no apartamento?
Clarissa me fuzila com os olhos.
— Não fale assim dela — repreende. — O nome dela é Ágata e ela é forte pra cacete. — Pausa, esperando que eu conserte o que acabei de falar. — Acho que é a garota mais forte que conheço.
— Ela pareceu realmente forte com o canivete na mão — brinco, lembrando do acontecido. — Fiquei com medo de levar um golpe, sério. — Claro que não, ela só machuca quem merece. — Clarissa para de falar, olha para mim e reflete. — Ah, é, você merecia, então, fez certo de ficar com medo — zomba, rindo da minha cara.
Reviro os olhos.
— Mas me deixe perguntar… — ela começa, mas sei que não precisa de minha autorização para perguntar o que quer saber. — Então, quer dizer que você é gay?
— Estar apaixonado por outro garoto me torna gay? Clarissa me encara e ergue as mãos, como se a resposta fosse óbvia. — Não sei — digo, sem muita convicção.
— Você é confuso, Dimitri.
Levanto uma das sobrancelhas e fecho os olhos. Eu sei.
— A propósito, posso dormir na sua casa hoje? — pede Clarissa, tirando os sapatos e se jogando em minha cama, que estava bagunçada com cobertores. — Pode — sorrio com o canto dos lábios. — Passei tanto tempo dormindo no mesmo quarto que o Henrique que me desacostumei a dormir sozinho, é legal que você esteja aqui.
— Vocês dormem no mesmo quarto? MEU DEUS, você precisa me contar tudo, mesmo.
Antes de explicar todos os detalhes sobre Henri para Clarissa, vou até a porta para avisar a meu pai que ela irá passar a noite conosco. Ao puxar a maçaneta, dou de cara com ele passando pelo corredor e me assusto. — Clarissa vai dormir aqui — digo meio tenso depois de vê-lo tão perto do meu quarto.
— Tudo bem — diz ele, seguindo em direção à sala e demonstrando indiferença. — Boa noite, pessoal!
Minha amiga agradece e grita de volta, desejando boa noite para ele também. Já eu fico quieto, pois só consigo me perguntar se ele ouviu a conversa com Clarissa sobre o que está acontecendo entre mim e Henrique.
A luz fraca da sala não ilumina muito bem o ambiente. Como acordei bem mais cedo do que estou acostumado, estou um pouco sonolento e disperso. É madrugada e finalmente chegou o dia de retornar para o acampamento. Por incrível que pareça, me sinto confortável em pensar que estou voltando. Claro que é difícil deixar as pessoas que amo para trás outra vez, mas, pelo menos, agora é como se tivesse me despedindo da maneira correta, como deveria ter feito da primeira vez. Meu pai muda de canal na televisão e atrai minha atenção, sentado ao meu lado. Ele também espera ansioso pela chegada do carro que virá me buscar.
— Não tem mais nada que preste na televisão atualmente — murmura, ainda apertando os botões.
Concordo, balançando a cabeça.
— Acho que é porque quase ninguém mais assiste à televisão. — Dou de ombros. — Os jovens têm coisas mais interessantes para ver on-line. Meu pai me encara com um olhar malicioso e percebo a ambiguidade do que acabei de dizer, acabo rindo.
— Aposto que têm, mesmo — diz ele, também rindo. Decido aproveitar aquele momento de descontração para tentar pela última vez saber realmente como ele está lidando com as coisas, já que foge do assunto todas as vezes.
— Pai, está tudo bem com as coisas aqui em casa? — Acabo soando um pouco mais preocupado do que gostaria.
— Esses dias, assisti a uma série muito interessante sobre crianças órfãs, já assistiu, filho?
Sei o que ele está fazendo. Está fingindo não ouvir o que acabei de perguntar. — Você tem falado com o meu avô? — pressiono; não vou desistir. Meu pai respira fundo e me olha com o canto dos olhos, praticamente levantando bandeira branca.
— Não. Não nos falamos desde o dia em que você foi para o acampamento — responde, calmo. — Não há mais o que conversar com ele, Dimitri, queria que você entendesse.
— Não, não consigo entender — retruco. Sei que meu avô foi uma pessoa distante com meu pai, mas eles deveriam ao menos tentar se entender. — E se… eu morresse?
— Não seja bobo — ele me repreende, franzindo as sobrancelhas. — Não, sério — continuo —, se eu não estivesse mais aqui, você ficaria sozinho pra sempre e sem família nenhuma? — Dizer aquelas palavras me machuca um pouco, mas preciso que ele entenda o que quero dizer. — Aposto que a vovó sente sua falta e você nem ao menos tenta voltar a ter contato com eles. Meu pai abaixa a cabeça e larga o controle da televisão no sofá. — Acho que você está certo. — Suspira. — Mas é impossível lidar com ele, Dimi.
— Ao menos, tente, então — peço. — Mesmo que você não se sinta confortável, o vô está pagando as despesas do acampamento e fazendo bastante coisa por mim — continuo. — Não acho que seja uma pessoa ruim. Ele assente, fechando lentamente os olhos, como se estivesse pensando sobre o Ele assente, fechando lentamente os olhos, como se estivesse pensando sobre o assunto.
— O senhor ainda não respondeu à primeira pergunta — eu o lembro, comprimindo os lábios. — Como estão as coisas por aqui? Encontrei algumas cobranças atrasadas espalhadas pela casa.
Meu pai ri.
— Você soa exatamente como seu avô — diz, brincando. — Sim, tenho contas altas, mas, continuo trabalhando para pagá-las e não me importo. Tudo tem solução.
Ainda não dou o assunto por encerrado, mas, quando tento voltar a falar sobre a relação do meu pai com meu avô, ouço um carro buzinar lá fora. Minha carona de volta ao acampamento chegou.
Eu me levanto e meu pai me abraça tão carinhosamente que me sinto como uma criança outra vez. Fecho os olhos e imagino mamãe ali conosco, me abraçando também. Cuide dele até eu voltar, peço a ela em pensamento. — Onde quer que sua mãe esteja, está orgulhosa de você, filho — diz, como se soubesse o que estou pensando. — Nós dois estamos. Eu me lembro da noite em que achei que meu pai tivesse ouvido minha conversa com Clarissa e não posso deixar de pensar que está dizendo isso em referência àquilo; o abraço com ainda mais força.
Quando saio, ainda está escuro.
O carro que me levará ao Misfit está parado e tem a porta do carona aberta, para que eu embarque.
— Então, acho que é isso — digo ao meu pai.
— Volte logo — responde ele. — E volte para ficar — continua. Mesmo tentando evitar ao máximo, vejo as lágrimas brotando em seus olhos. Caminho até o carro sem carregar coisa alguma, nem malas, nem sacolas. E estou prestes a entrar quando ouço alguém gritando meu nome no fim da rua. Cerro os olhos para enxergar a origem da gritaria e vejo Clarissa e Bernardo correndo desesperados em minha direção.
— Espere! — grita Bernardo, quando os dois estão se aproximando. Enfio a cabeça dentro do carro e peço ao motorista para esperar. Ele apenas gesticula “ok” com a mão.
— Que surpresa ver você aqui! — digo eufórico, caminhando até Bernardo e estendendo a mão para cumprimentá-lo. — Não esperava vê-lo tão cedo. — Não poderíamos deixar que você fosse embora outra vez sem se despedir — responde, buscando ar enquanto fala.
— Eu avisei que você estava indo embora hoje. — Clarissa chega segundos depois, também ofegante de tanto correr.
— Então, quer dizer que vocês voltaram a conversar normal? — pergunto, desconfiado.
Clarissa revira os olhos e Bernardo levanta uma das sobrancelhas. — Contanto que ela não envolva os novos amigos dela em nossos assuntos — responde, hesitante.
— Cala a boca — briga Clarissa. — Você nem os conhece. — Eles parecem ter saído de Skins para a vida real. — Entro no meio dos dois. Bernardo solta uma gargalhada. Clarissa resiste um pouco, mas acaba rindo também.
— Parecem, mesmo — assume, fingindo-se de irritada. O motorista buzina novamente, atrapalhando nossa conversa. — Acho que isso significa que devo ir, não é? — ironizo, apontando para o carro.
Bernardo se aproxima e me abraça, sinto o cheiro forte do seu perfume e penso em todas as vezes que aquele mesmo cheiro me fez ter pensamentos que não conseguia entender muito bem na época. Depois de beijar Henrique, tudo havia se encaixado.
— Se cuida, Demo — diz, se afastando.
— Valeu.
Clarissa está chorando, mas nada escandaloso demais ou dramático. As lágrimas passam por sua maquiagem e escorrem negras, manchando seu rosto. — Vem cá. — Eu a puxo para um abraço apertado. — Você é incrível. — Eu sei — diz ela, fungando.
— Se cuida, tá?! — peço, olhando no fundo dos seus olhos. — Juízo! Ela assente.
Aceno para meu pai uma última vez e sorrio para cada uma daquelas pessoas. Meu coração se aquece e entro no carro, onde já encontro a venda. O motorista liga o motor e começo a colocá-la, mas, antes de encaixá-la totalmente, vejo o carro do meu avô virando a esquina.
— Você precisa colocar a venda, Dimitri — ordena o motorista. Vibrando com a imagem do meu avô chegando e indo ao encontro do meu pai, cubro os olhos e tudo volta a ficar escuro.
— Sabia que a flor de lótus era um símbolo meio importante para o povo do Egito? — pergunta Alma, abaixando o livro sobre jardinagem e revelando o rosto.
— Quê? — devolvo, confuso.
— Sim — ela continua —, eles gostavam dela porque simbolizava a ressurreição, uma vez que todas as noites ela se recolhia e submergia, para no dia seguinte desabrochar linda e pura novamente.
— Não, eu quis dizer, por que você está me contando isso? Alma fecha o livro e caminha até onde estou sentado, andando cuidadosamente para não pisar nas plantas da estufa.
— Porque, além de ser uma informação extremamente interessante, achei que fosse te animar um pouquinho — explica, se ajeitando ao meu lado. — Você parece tão distraído e desanimado depois que voltou da visita. — Impressão sua — digo, mesmo sabendo que não é verdade. — Sempre que você vem para a estufa, fica com essa expressão pensativa — ela brinca. — Você chegou a detalhar para minha mãe como foi a sua visita? — Sim — minto. Não era como se eu estivesse mentindo completamente. Depois que voltei precisei conversar com Suzana e contar tudo o que tinha acontecido durante o tempo que passei em casa, mas após descobrir que havia, de fato, algo que a coordenação estava escondendo, passei a evitar me abrir demais com a acompanhadora. — Já percebeu que sempre me pergunta se estou falando com ela?
— Porque me preocupo — responde, diretamente. — Você está assim porque ele ainda não voltou, não é?!
Quanto a isso, Alma estava certa. Henri ainda não havia voltado da visita e, apesar de me manter calmo na maior parte do tempo, eu começo a ficar com medo de que ele não retornasse. Não que eu vá piorar sem sua presença ou algo do tipo, porque minha melhora não depende dele, mas é bom tê-lo ao meu lado enquanto lido com as coisas com que ainda não sei muito bem como lidar. — Sim — respondo, mantendo o olhar baixo. — Estou com saudade dele e tenho medo de que não volte — revelo, olhando para ela. Alma desvia o olhar e pigarreia, o que estranho um pouco. — Ele vai voltar! — afirma, sem jeito. — Já foi confirmado. Coloco-me em pé, surpreso.
— Como assim, “confirmado”?
— Eu simplesmente sei — diz, dando de ombros. Alma está escondendo alguma coisa. Continuo encarando enquanto ela levanta e pega novamente o livro que estava lendo momentos antes, tentando escapar da minha pergunta.
— Alma, como você sabe que o Henrique está voltando? A garota suspira, relaxando os ombros.
— Eu meio que vi no sistema — confessa, franzindo as sobrancelhas. — Você o quê???
— Vi no sistema — repete, agora mais confiante sobre o que está contando, mas ainda carregando certa culpa no olhar. — Quando você chegou e o Henri não tinha retornado, fiquei preocupada — explica. — Então, entrei no computador do meu pai escondido e busquei pelo nome de Henrique até encontrar um e-mail do tio dele que dizia que ele precisaria de um pouco mais de tempo em casa até conseguir voltar para cá — diz ela, ficando em silêncio à espera de minha resposta.
Droga. Se Henri estava com o tio, então, certamente, alguma coisa deu errado em relação aos pais dele. O que será que havia acontecido? Estremeço ao pensar nele sendo rejeitado pela própria família e tendo que lidar com as crises sozinho. Fico desesperado.
— Preciso do seu celular — disparo.
— Você sabe que não posso entregá-lo pra você, Demo — responde ela, desanimada. — Eu já quebrei regras demais.
Ela tem razão. Se Alma não se sente confortável fazendo aquilo, eu não deveria de jeito nenhum pressioná-la, é completamente errado. — Tudo bem, obrigado — termino, comprimindo os lábios. — Vou tentar falar com ele de outra maneira.
Começo a caminhar em direção à saída, pensando na possibilidade de implorar para que Suzana me dê autorização para entrar no Facebook e mandar uma mensagem para Henrique, mas sei que aquilo seria quase impossível. — Ei, Demo — Alma chama, me fazendo parar. — Mesmo se entregasse o celular pra você, não teria internet para conversar com ele. Concordo com a cabeça. É completamente compreensível; não quero que Alma se sinta culpada por algo que não está em seu alcance. — Fique tran… — tento responder, mas ela me interrompe. — Mas sei de um lugar onde tem internet — confessa, dando um sorrisinho de lado. — Só porque eu não posso quebrar mais regras, não significa que não possa te ajudar a quebrar algumas.