Submerso
Capítulo Dois
Mas em seus sonhos, quaisquer que sejam
Sonhe um pouquinho comigo
“Dream a Little Dream of Me”, Mama Cass Eliot[3] — NO QUE VOCÊ ESTAVA PENSANDO?!?
Do sofá, acompanho meu pai andar histericamente de um lado para o outro na sala de estar, enquanto dispara um milhão de perguntas às quais não sei muito bem como responder.
Quando a polícia chegou e levou todos para a delegacia, senti como se levasse um balde de água fria na cara. Nunca imaginei que a situação tomaria aquela dimensão. Tentei argumentar com os policiais, explicando tudo o que havia acontecido antes, mas eles pararam de ouvir assim que descobriram que eu havia entrado no lugar portando uma identidade falsa. Então, passei o percurso inteiro dentro da viatura pensando nas consequências de meus atos, mas o que mais me incomodava era que eu não me arrependia de ter feito o que fiz. O arrependimento geralmente vem antes de um período de maturidade, no qual você entende que o que fez foi errado e decide não seguir mais com as atitudes recriminadas, mas eu não conseguia me sentir desse jeito justamente porque não achava que o que eu tinha feito era errado. O cara havia começado a briga, eu apenas me defendi. A partir daí, o resto era história. Quando percebi, meu pai já estava sentado ao meu lado no banco de uma delegacia às quatro da manhã, esperando, totalmente apreensivo, para saber o que os policiais decidiriam sobre a minha situação. Depois de algumas horas, fomos informados de que o playboy e os amigos tinham desistido de prestar queixa sobre a agressão. Se fizessem BO, provavelmente, parte da culpa recairia sobre eles, então, pegaram seus egos feridos e foram embora, me deixando sozinho para lidar com os problemas dos documentos falsos. Meus amigos também partiram bem antes de mim. Bernardo deu um rápido depoimento sobre o que viu naquela noite, mas logo foi liberado; Clarissa se safou das consequências quando alegou que tinha perdido a identidade, fazendo com que a culpa ficasse com o segurança, que a deixou entrar. Não faço ideia de onde a garota enfiou o documento falso, mas ninguém conseguiu encontrá-lo.
No fim das contas, meu pai conseguiu convencer os policiais de que eu era “apenas uma criança” e que não sabia o que estava fazendo, do que eu não discordava totalmente, uma vez que minha cabeça era uma confusão na maior parte do tempo. Os policiais concordaram em me liberar com a condição de que meu pai me vigiasse vinte e quatro horas por dia para que eu não me metesse mais em confusão. Isso nos traz de volta à cena atual, na sala de estar de nossa casa, onde meu pai me encara esperando resposta para sua pergunta — Aquele idiota foi quem começou a briga — digo, tentando usar o fato como desculpa. — Eu não queria machucá-lo… — Pauso. — Tanto. Meu pai me observa em silêncio, mas continua dando alguns passos e balançando o corpo de um lado para o outro. Percebo que alguma coisa o incomoda, além da irritação e da preocupação comigo, porque ele congela em alguns momentos, com uma das mãos nos cabelos escuros, como se aquilo fosse ajudá-lo a pensar com mais clareza.
— Me desculpe. — Fico meio envergonhado e mantenho o olhar fixo no chão. — Não era minha intenção.
— Nunca é sua intenção, não é, Dimitri? — Quando as palavras saem de sua boca, não consigo distinguir se ele quis ser grosseiro ou se apenas lamenta a situação. — Sei que é difícil, mas você precisa se esforçar mais para lutar contra isso.
Sinto como se um elefante subisse em meus ombros. Aquele era um dos meus pontos mais sensíveis, porque era difícil que as pessoas entendessem ou simplesmente acreditassem que era impossível equilibrar algumas coisas com tanta facilidade. O meu “defeito” estava em um lugar muito mais distante, onde eu não tinha controle.
Só havia uma pessoa capaz de compreender o que acontecia comigo nesses momentos, e esse alguém já não estava mais ao meu alcance para me dar conselhos.
— Sei que sente falta de sua mãe — continua meu pai, se aproveitando do meu silêncio. — Eu também sinto, todos os dias. Quando abro os olhos, me pego procurando por ela na cama.
— Queria que ela estivesse aqui — confesso, mordendo os lábios para não ficar muito emotivo. Já estava cansado de chorar todas as noites pela perda da minha mãe, não precisava fazer isso na frente do meu pai. Acho que não consigo esconder muito bem as emoções, porque ele baixa a guarda, destruindo toda a máscara de irritação que havia vestido desde que saímos da delegacia, vem em minha direção, se senta ao meu lado e me envolve nos braços.
— Estou desapontado com você, mas esse sentimento não chega nem perto do quanto estou preocupado com o que está tendo de lidar sozinho. Andei conversando com seu avô…
— Desde quando você fala com o vô? — pergunto, confuso, me desvencilhando do abraço.
do abraço.
— Não conversamos muito, filho. — Ele aperta os lábios. — Só em tempos especialmente difíceis.
Aquela era uma confissão que eu não esperava ouvir tão cedo. Sabia que uma hora chegaria, mas não imaginava que o contato entre meu pai e meu avô estava tão próximo. Apesar de eu não gostar muito de conversar sobre isso, acho que é necessário.
Acontece que venho de uma família que tem muita grana, e, quando digo isso, não é do tipo que dá para comprar um carro de presente quando alguém completa dezoito anos, mas sim do tipo que compra mansões e helicópteros. Meu avô imigrou da Itália quando ainda era pequeno; na época, os pais dele foram convidados a vir para o Brasil para coordernar um grande negócio automotivo. Parecia muito lucrativo, mas eles não faziam ideia de que sua administração transformaria o negócio em uma das empresas mais bem-sucedidas do país. Os anos se passaram e meu avô acabou herdando toda a fortuna, vivendo a própria vida e criando os filhos com todo o conforto que o dinheiro poderia dar. Só que meu pai nunca foi do tipo que gosta de esbanjar, sempre preferiu ser um cara simples e discreto. Minha mãe dizia que era por isso que se davam tão bem, suas almas combinavam. Quando papai anunciou que se casaria, meu avô logo propôs passar o comando da empresa para ele, para que desse continuidade ao legado. Mas meu pai queria seguir o próprio rumo, caminhar com os próprios pés, viver uma vida simples. A única coisa de que precisava era da minha mãe e do seu amor.
— Estivemos conversando… e ele acha que chegou a hora de darmos um passo à frente em relação a ajudar você.
Pisco algumas vezes à espera de uma explicação, mas meu pai continua me olhando como se eu devesse entender o que ele estava dizendo. — É por isso que voltaram a se falar? Para falar de mim? — Meu pai não responde. — Já tenho acompanhamento profissional — afirmo. — Faço visitas ao psicólogo toda semana, lembra?
— Mesmo assim não parece adiantar muito, não é?! — Seu olhar sobe para meu cabelo e depois volta para o meu rosto. Sinto as bochechas corando, mas também sei que o que ele diz é verdade. Mesmo com o acompanhamento do psicólogo, ainda acabo tendo momentos ruins. Esta é a pior parte: não saber se você está bem até acontecer algo que o joga contra a parede e o quebra em mil pedaços.
Sem ter muito o que contestar, concordo com a cabeça. — Seu avô me contou sobre um lugar que fica a algumas horas daqui — explica com cuidado. — Se não me engano, o nome é “Acampamento Misfit”. Eles são qualificados para cuidar de casos como o seu.
qualificados para cuidar de casos como o seu.
— A algumas horas daqui? É algum tipo de reabilitação ou internato? Meu pai coça a cabeça por alguns segundos, refletindo antes de responder. — Reabilitação é uma palavra pesada — corrige. — Acho que preferem o termo “acampamento”.
— Não. Acampamento é um lugar aonde as pessoas vão para se divertir. — O sofá range quando salto e fico de pé no meio da sala. — Um centro de reabilitação para garotos desajustados não me parece o lugar mais feliz para passar as férias.
— Penso que um tempo longe possa lhe fazer bem — retruca. — E não é uma reabilitação.
— Não sei como me sinto sobre isso, preciso de tempo para pensar. — Caminho na direção do meu quarto, deixando meu pai para trás. — Na verdade, você não tem tanto tempo para decidir… — Eu o ouço dizer meio sem jeito.
Não bato a porta nem demonstro qualquer sinal de irritação. Quando viro a chave na tranca, o mundo automaticamente para de girar, e é como se eu tivesse acabado de entrar em um buraco negro que anula qualquer coisa que eu venha a sentir, como se meus sentimentos fossem som no espaço. Após apagar as luzes, retiro as camadas de roupa com que estou vestido e me jogo no ninho de cobertores que é minha cama. O lençol de seda entra em contato com a minha pele e isso me acalma. De certa forma, me traz conforto e ajuda a levar embora toda a exaustão daquele dia. Em dias como aquele, não me sinto eu mesmo. É como se, de tempos em tempos, outra pessoa assumisse o controle da minha mente e eu passasse a observar a vida através de uma janela. Estou nulo, não há sentimentos bons, sequer vontades. A angústia domina meu peito e sobe até a garganta, fazendo com que meu sistema nervoso aja como se eu estivesse em uma situação de risco. Meu estômago revira e sinto as lágrimas brotando, mas me seguro para não deixar que escorram. No celular, vejo minhas fotos sorrindo e não reconheço aquela pessoa. Sou apenas uma sombra do que fui no dia anterior, como se minha personalidade se desassociasse sem motivo aparente e eu caísse num poço vazio e sem fim.
Olho para o lado e fito o velho toca-discos em cima do criado-mudo. Eu o encontrei no dia em que mamãe o retirou do sótão para jogá-lo no lixo. Ela disse que não o usava havia anos e que tinha perdido praticamente todos os discos de vinil que escutava na adolescência. Sempre admirei a beleza de coisas antigas, então, acabei arrastando a vitrola para o quarto e encontrando um lugar para ela. Depois da morte da minha mãe, passei a sentir a presença dela de diversas maneiras. Certa vez, caminhando, senti o cheiro doce de seu perfume passeando comigo. Em outra noite, um canal da TV a cabo transmitiu um de seus filmes favoritos e parei o que estava fazendo para tentar encontrar alguma coisa dela na pequena tela. Até ouvir a melodia que saía do toca-discos era algo que me trazia aquela sensação reconfortante, como se ela nunca tivesse partido. Aperto o botão de ligar e a agulha começa a riscar o único disco que restou da coleção. Quando gira, “Dream a Little Dream of Me” sai dos alto-falantes e toca repetidamente até que eu adormeça. Sonho que estou no colo da minha mãe e que ela, enquanto acaricia meus cabelos, diz que a nova cor combina comigo.
Não presto muita atenção nas aulas que tenho no dia seguinte. Na verdade, o colégio é a coisa que menos me importo de deixar para trás. Sempre foi a parte cansativa do meu dia, e não porque tivesse de lidar com babacas praticando bullying ou problemas com notas, mas porque achava uma enorme perda de tempo ter que passar várias horas fazendo tarefas que não agregavam valor diretamente em minha vida. Digo, é sério que alguém realmente acha que forçar adolescentes a copiar várias linhas do texto de um livro fará algo além de causar calos nos dedos?
Olho para a fileira ao lado e vejo Clarissa. Seu celular está em suas mãos, estrategicamente coberto pelo caderno, e suas pernas estão esticadas sobre a cadeira da frente, numa posição que parece confortável, mas que com certeza não é adequada ao ambiente escolar. Deixo minha amiga em paz durante toda a manhã, mas, quando o alarme toca, anunciando que o período de aulas acabou, vou até ela e a convido para irmos embora juntos. Clarissa não se opõe à ideia e dá de ombros enquanto joga o único caderno dentro da mochila. — Foi mal por ter amarelado ontem e te deixado sozinho — diz ela. Apesar de ficar meio chateado com a atitude na hora, não sei se realmente me importo, então apenas concordo com a cabeça. Se alguma coisa aconteceu e não pude fazer nada mais para alterar o que passou, devo deixar para trás e esquecer. Sei que me agarrar a lembranças ruins só me faz mal. Clarissa foi mais esperta que eu naquele momento e soube escapar das consequências de seus atos. Se eu tivesse a chance, faria o mesmo.
— Tanto faz — respondo. — Você fez o que era melhor para você. Clarissa me observa de canto de olho enquanto saímos da escola e andamos pela calçada.
Estávamos em meados do mês de março, então o clima era bem agradável. O calor infernal de começo do ano já havia ido embora e a brisa que nos atingia nos fins de tarde era um pouco mais fresca, o que nos permitia voltar para casa andando e aproveitar a pequena caminhada. A cena familiar de caminhar por aquelas ruas com Clarissa me faz esquecer por alguns segundos tudo o que havia mudado em minha vida nos últimos meses, mas o farfalhar das folhas das árvores me empurra de volta à realidade e faz com que eu pense no “acampamento” em que minha família quer me trancafiar por algum tempo. Penso se devo contar para ela, mas estremeço com a ideia. Como eu mesmo mal tenho opinião formada sobre o Acampamento Misfit, decido continuar caminhando em silêncio.
Estou quase chegando quando, ao me despedir de minha amiga, a pego de surpresa, envolvendo-a em um abraço. Não tenho a intenção de fazer com que aquilo pareça uma despedida, mas é o que aparenta ser. — Está carente, Demo? — Apesar do tom irônico, ela não me afasta, e entrelaça os braços em minha cintura para pouco depois encerrar o ato de maneira desconfortável. Clarissa me encara com seus olhos negros e as pálpebras borradas de maquiagem escura; então, franze o cenho, confusa com o que tinha acabado de acontecer. Mesmo estranhando, não diz uma palavra. Desvia o olhar para o fim da rua, como se nada tivesse saído do roteiro da nossa amizade. — Uau — exclama. — Seu pai ganhou na loteria? Aperto os olhos e percebo que ela está se referindo ao Porsche vermelho novinho em folha estacionado na frente da minha casa. — Não… — interrompo-me, parecendo tão surpreso quanto ela. — Aquele é o carro do meu avô.
— Não sei o que tá rolando, mas, pela cara que fez, te desejo boa sorte! — É tudo o que diz antes de me beijar delicadamente na bochecha e se despedir com passos apressados.
Continuo imóvel, reunindo coragem para descobrir o motivo da visita do meu avô. Antes mesmo de destrancar a fechadura e empurrar a porta, ouço vozes masculinas conversando em um tom nada amigável na parte de dentro. Identifico a voz do meu pai, que é sempre a pessoa mais calma no ambiente. Ele consegue se manter pacífico mesmo quando discute com alguém. Contesta tranquilamente algum assunto que havia começado antes de eu chegar. Meu avô logo rebate, como se nem o tivesse ouvido, e passa a reclamar de sua postura em minha criação. Ele o acusa de ser liberal quanto minhas atitudes e alega que, se tivessem permitido a participação dele na vida do neto, as coisas não teriam saído do controle.
Cerro os punhos ao ouvi-lo dizer aquilo. Apesar de respeitar meu avô e de conhecer o histórico problemático que tem com o próprio filho, sabia que ele jamais deveria falar daquele jeito com meu pai. Todos havíamos passado por momentos difíceis e ainda estávamos sensíveis em relação à qualquer assunto que pudesse envolver a família. É impossível manter um castelo de cartas de pé quando algumas peças da base estão danificadas. Você pode tentar ignorar o quanto quiser, mas, querendo ou não, uma hora a construção inteira virá abaixo. Giro a maçaneta de uma vez, propositalmente fazendo um grande barulho ao abrir a porta da frente. Os dois homens na sala trocam olhares e rapidamente me encaram, surpresos.
— O que meu avô está fazendo aqui? — pergunto desconfiado, mesmo já sabendo a resposta.
— Que recepção peculiar! — exclama meu avô, antes que meu pai pudesse responder ao que lhe perguntei. — Parece que você realmente precisa reaprender a ter boas maneiras.
— Na verdade, ele já estava de saída — diz meu pai, decidido. Vovô o encara, franzindo a sobrancelha, claramente atônito por ser expulso daquela casa de maneira tão brusca e direta, e tentando entender sua reação. — Estou? — pergunta, criando um clima ainda mais tenso. Meu pai assente.
— Depois, não diga que não o avisei — responde o velho, em tom de alerta. Não consegui decifrar o significado daquelas palavras, que provavelmente se referiam a algo que os dois conversavam antes de eu chegar para ouvi-los por trás da porta.
A expressão de meu pai continua a mesma depois do alerta, visivelmente incomodado com a presença do meu avô no mesmo ambiente que eu. — Bom, se você insiste — começa, mas interrompe a frase com um pigarro, e depois me puxa para um abraço forçado e sussurra em meu ouvido: — Se concordar com o acampamento, me ligue. — O velho estava tão próximo que o cheiro de sua colônia fez meu nariz coçar.
Antes de nos deixar sozinhos na sala, vovô disfarçadamente me entrega um cartão com seu número de telefone, o que julgo dramático demais, pois tenho seu contato salvo na agenda do celular e ele deve saber disso. Quando o velho atravessa a porta e desaparece, ouço o ronco quase imperceptível do motor de seu carro luxuoso ao ser ligado e depois ao se afastar na rua. Meu pai respira aliviado e percebo que seus ombros, antes rígidos, relaxam, enquanto ele reclina no sofá e apoia a cabeça nas mãos. — Quanto da conversa você ouviu? — pergunta, desanimado. — Não muito — disfarço. — Ouvi o suficiente para não gostar do jeito com que o vô falou com você.
— Sinto muito por ter ouvido aquilo — lamenta ele, me olhando nos olhos. A imagem calma que tenho de meu pai perde força e passo a ter uma visão mais frágil.
Vê-lo envergonhado me faz ter vontade de procurar meu avô e confrontá-lo, mas o sentimento de revolta rebate em mim como um bumerangue, causando efeito contrário. Sinto uma pontada de culpa pelo que aconteceu, afinal, meu avô veio por minha causa.
— Não liguei muito, já ouvi coisas piores. — Não consigo transmitir muita verdade. — Você está bem?
— Na verdade, não muito — responde baixinho. Seus dedos tamborilam no apoio do sofá enquanto ele calcula cuidadosamente as próximas palavras. — Você quer mesmo ir para o acampamento?
Comprimo os lábios, a pergunta me faz refletir. Quando um indivíduo afirma que quer algo, a vontade corre dentro dele, queimando para conseguir o que anseia – como quando somos crianças e passeamos felizes com nossos pais até vermos um daqueles doces caros. Por algum motivo, aquele pedaço de açúcar cria dentro de nós um desejo imenso, então, agora, não sei muito bem como responder àquela pergunta, porque não sei mesmo se desejo ir para o acampamento. Sei que a ideia de finalmente não sentir mais toda aquela pressão e culpa dentro de mim me atrai, mas não tenho certeza de se aquele é o caminho que desejo. É difícil enxergar uma parede completa quando ainda mal colocamos o primeiro tijolo para construí-la.
Olho para meu pai e pela primeira vez reparo em como o tempo o estava afetando fisicamente. Os cabelos que sempre foram muito pretos agora apresentavam fiozinhos brancos saltando em todas as direções. As olheiras aparentes eram sinais claros de noites maldormidas e as roupas mal passadas indicavam que ele quase não tinha tempo para fazer as tarefas básicas da casa. Era injusto que, além de lidar com os próprios problemas, ainda tivesse de se preocupar com o filho problemático e rebelde.
— Acho que é melhor se eu for — respondo finalmente, com calma. Meu pai respira fundo.
— Tem certeza? — murmura. — Será difícil não ter você em casa. — Sim, acho bom tirarmos um tempo para nós mesmos. — Tento acalmá-lo. Não que eu acredite cem por cento no que digo, mas, às vezes, temos de nos demonstrar otimistas para apaziguar o coração de quem é importante para nós. Vê-lo cansado daquele jeito me faz sentir como se meu peito estivesse sendo esmagado. Apesar de fisicamente insigni-ficante, sinto o cartão do meu avô pesar em meus dedos, como se eu segurasse trezentos quilos em um dos punhos. Aperto o cartãozinho e o papel raspa em minha pele. Aquele pequeno objeto poderia virar minha vida de ponta-cabeça. Fico tentado a correr para o telefone e implorar para que meu avô me tire de casa e permita que meu pai finalmente se liberte do fardo que era cuidar de mim; por outro lado, isso só pioraria sua situação em relação ao próprio pai. Tenho a impressão de que minha garganta começa a se fechar. Meu emocional está além dos limites e as lágrimas ameaçam cair, como se meu corpo fechasse as comportas porque sabe que as águas da represa estão prestes a ficar mais turbulentas, ameaçando levar tudo abaixo. — Dimitri, você está bem? — A voz de meu pai me traz de volta para a realidade.
— S-sim — minto, respirando fundo e devagar, tentando controlar a tremedeira, que já começa a se espalhar pelo corpo.
Papai me conhece bem demais para saber quando não estou bem, e me observa atento, como se dissesse a si mesmo: “Aguente firme!”. Vê-lo fazer isso sem perceber quebra mais alguns cacos dentro de mim. — Na verdade, preciso apenas me acalmar. — Tiro a mochila das costas e a jogo no tapete, perto de meus pés. — Você poderia buscar algo para eu beber? — peço.
Meu pai prontamente se levanta do sofá e caminha em direção à cozinha. Assim que some do meu campo de visão, pego o celular e disco com dificuldade o número de telefone. O mundo a minha volta gira e meu coração dispara. — Aceito a sua ajuda. — É a primeira coisa que digo quando a voz rouca do meu avô me cumprimenta pelo alto-falante.