Submerso
Capítulo Seis
Não vou chorar,
Não vou derramar uma lágrima
Enquanto você estiver comigo
“Stand by Me”, Ben E. King[8]
Encontro um envelope preto na minha gaveta logo após chegar da última aula do dia. Henrique não está no quarto, mas sei que foi ele quem colocou. Ele prometeu que me contaria tudo após aquela noite. O papel contém a mesma informação que li noites atrás no convite enviado para Henrique. Devo ir até a floresta durante a madrugada.
É o que tento fazer agora, enquanto evito ser pego pelos coordenadores que redobraram a segurança do acampamento depois de toda a bagunça com os vodus.
Enquanto caminho pela floresta, ouço os grilos fazendo sua serenata, cantando de maneira melancólica como se conhecessem os mais profundos segredos de cada um dos campistas. Eu me assusto quando um trovão explode nas nuvens, gerando um clarão por todo o acampamento. Estamos na época de chuva, mas, mesmo assim, fui pego de surpresa. Respiro fundo e penetro cada vez mais, indo até o ponto onde Henrique e eu fomos parar no outro dia. Desta vez, continuo. Ando até dar de cara com os muros que limitam o lugar. O muro é fino, mas se estende até pouco depois das copas das árvores. Não seria impossível escalar, mas seria perigoso cair de uma altura daquelas.
Decido dar mais umas voltas no lugar, apenas para verificar se Henrique está em algum canto. Estou tão concentrado que mal enxergo por onde ando, meus pés falham e acabo indo de encontro ao chão. Por sorte, uso os braços para me apoiar, fazendo com que a queda não me machuque. Então, me recomponho, confuso e sem entender o que aconteceu. Não costumo cair com facilidade; geralmente, meu corpo obedece a meus comandos físicos. Meus olhos finalmente se acostumam com a escuridão e percebo certa diferença no solo em que acabei de cair. Tateio a grama e a sinto endurecer ao mesmo tempo que esfria, ficando quase tão gelada quanto um bloco de gelo. Começo a estranhar a solidez do chão e, sem enxergar muita coisa, bato algumas vezes na superfície, que produz um barulho oco.
Logo depois, ouço algo se destravar e sou surpreendido quando o chão se abre, revelando uma passagem. Debaixo da tampa de metal, emerge Serena, que me encara com olhar misterioso e parece ter todas as respostas de que preciso. É por isso que, quando manda que eu entre pela escotilha, eu me enfio sem pensar duas vezes.
— Foi você quem colocou o convite nas minhas coisas? — Coloco os dois pés na escada de ferro e desço com a garota, logo depois de ela fechar a escotilha acima de nós.
— Não — responde, seca. — A ideia foi minha, mas foi o Henri que o colocou em suas coisas.
— Para onde estamos descendo? — tenho que perguntar, sem conseguir ver o fim da escada. Estamos indo cada vez mais para o fundo da terra. — Estamos em um dos túneis debaixo do acampamento — explica. Eu paro de me mover por um segundo e a garota pisa em minha mão. Ela se desculpa e volto descer. — Descobrimos esses túneis há alguns meses, parecem estar abandonados há anos.
— Uau! — Fico admirado. — Isso é totalmente Lost. — Totalmente perdido?
— Não — nego, rindo de nervosismo. — A série americana. — Ah! — exclama ela, pouco antes de sacar a lanterna presa à cintura e acionar a luz, iluminando todo o espaço e mostrando que estávamos chegando ao fundo. Quando não há mais degraus para descer, salto em direção ao chão e Serena vem logo atrás de mim. O lugar cheira a mofo e está tão frio quanto na superfície. As paredes são de concreto e me pergunto por que raios há um conjunto de túneis debaixo do Misfit. Deixo Serena tomar a frente e ela segue caminhando por um curto período até que começo a ouvir vozes de outras pessoas ecoando a nossa volta.
Na primeira curva, a passagem se ilumina e seguimos em direção à luz, “a luz no fim do túnel”, afinal. Meia dúzia de lanternas ilumina o centro da sala, umas sobrepostas às outras. Formam uma espécie de “fogueira”, acabando com a escuridão e revelando o rosto de cada pessoa presente. Identifico Henri. Ele está sozinho e se apoia na lateral da parede; seu semblante se ilumina quando me vê, mas percebo uma hesitação. Diego sai de onde está e vem me cumprimentar. Procuro o restante das pessoas e encontro mais uma campista, a adolescente tímida que andava com Serena e com quem nunca troquei uma palavra. Ela me encara com a expressão sonolenta.
Serena vai até o meio e coloca a lanterna junto com as outras. — Podemos dar início à reunião? — pergunta ela. Conforme ela se aproxima da luz, sombras se projetam por todo o ambiente. Não consigo deixar de pensar no que se esconde nas sombras de cada um daqueles campistas. Um pouco desconfortável, me aproximo de Henri. Por seu olhar animado, me pergunto se a ideia de me introduzir na reunião foi dele. — Vocês são o Fantasma? — pergunto em voz alta e os túneis fazem com que a — Vocês são o Fantasma? — pergunto em voz alta e os túneis fazem com que a pergunta ecoe mais um pouco, mesmo depois que fecho a boca. Serena tenta responder, mas é interrompida por Diego. — Não — afirma ele, encarando Serena com olhar de reprovação. — Nós o apoiamos, mas não sabemos o motivo de ele estar fazendo esse caos no acampamento.
— O que precisa saber é que te convocamos porque você descobriu coisas demais para ficar de fora — corta Serena, mas recebe olhar de desaprovação de Henrique. — Também te escolhemos por acharmos que você merece saber das coisas que descobrimos sobre o acampamento.
Sinto um calafrio ao ouvir a última parte. Então, realmente há alguma coisa por trás da imagem de “paraíso perfeito”.
— Como te expliquei, descobrimos os túneis por acaso alguns meses atrás e é através deles que andamos pelo Misfit depois do toque de recolher. — A garota mantém a expressão séria. — Mas temos que tomar cuidado. Não somos os únicos a usá-los.
— Outros campistas? — indago, confuso.
— Não — nega Diego. — Dias atrás, Lorena vinha a nosso encontro quando se deparou com alguém metros a sua frente.
Demoro um pouco para perceber que Lorena é uma das amigas de Serena. A garota magricela e de cabelos ruivos que até então estava quieta passa a explicar o que viu.
— E-eu havia acabado de entrar pela escotilha e descer pela escada. Quando comecei a caminhar pelos túneis, percebi que não estava sozinha — conta, meio tímida. — Estava escuro e graças a Deus eu não trazia a lanterna comigo, senão seria descoberta, mas eu podia jurar que a pessoa que estava ali era o coordenador do acampamento.
— O pai de Alma? — Penso na fotografia em cima da mesa de Suzana, a imagem de Álvaro com os braços ao redor da filha. — O que ele estava fazendo aqui? — Lorena recua, sem saber o que responder. — Ninguém sabe — diz Henri, em tom mais baixo do que os outros por estar ao meu lado.
— Será que não estava apenas descobrindo o lugar, como vocês? — Ele carregava pastas, Dimitri — afirma Lorena, sem jeito. — Eu voltei correndo para a entrada do túnel e fui para o dormitório. Mas voltei ao ponto em que o encontrei no outro dia e acabei encontrando uma sala. — E o que tinha na sala? — pergunto, espantado. — Não sabemos — explica Serena. — Está trancada e não podemos arrombá-la ou o coordenador saberá que alguém entrou lá.
Ficamos em silêncio e penso no que acabei de descobrir. Só o que ouço é o som Ficamos em silêncio e penso no que acabei de descobrir. Só o que ouço é o som da respiração pesada de Henrique perto de mim e o gotejar de água caindo em algum lugar dos túneis.
— É por isso que dissemos a você aquele dia que não podemos confiar na coordenação — finaliza Diego. Observo a maneira como o garoto alto e robusto se comunica. Vejo que está dizendo a verdade e que confia em mim o suficiente para me informar tudo o que seu grupo descobriu, mas, ao mesmo tempo que estou digerindo as coisas, me pergunto se não estão passando dos limites e procurando defeitos onde não há nada de errado. É difícil saber em quem confiar quando sei que estou cercado de pessoas que têm motivos para serem colocadas no acampamento.
— E o que vocês vêm fazendo desde que se reuniram? — Não sei por que, mas temo um pouco a resposta.
— Nós investigamos — responde Diego de modo paciente. — E planejamos maneiras de ajudar o Fantasma a provocar os coordenadores — complementa Serena, levando as mãos à cintura como se estivesse orgulhosa de contar aquilo.
Henrique revira os olhos.
— Sabe a pegadinha dos vodus? — pergunta Serena, carregando um sorriso malicioso no rosto. — Bom, fomos nós!
— Aquilo foi… pesado. — É o que sai de meus lábios. Eu me lembro do boneco vodu que deveria representar Alma e cerro os punhos. Fico com um pouco de raiva por descobrir quem foram os autores daquela pegadinha e preciso de um tempo para saber o que penso sobre isso. Minha respiração começa a pesar e os pensamentos se aceleram; por um momento, temo estar perto de surtar, mas me acalmo quando sinto a mão de Henri pousar em meus ombros. Eu o encaro e me pergunto, se ele sabe que esse ato me ajuda a desestressar, ele sorri de volta e balança a cabeça negativamente, como se explicasse que não concorda com a maneira como os outros agiram. Sinto o corpo relaxar.
— Preciso de ar — digo a Henrique.
Ele assente e diz que me acompanhará até o dormitório, mas, no momento em que pegamos uma das lanternas no centro do ambiente, ouvimos a escotilha se abrir. O grupo inteiro troca olhares desesperados com a surpresa. — Apaguem as lanternas — sussurra Serena, tentando manter a calma. — Precisamos nos esconder.
Faço o que ela pede e desligo a luz. Estremeço. Não conheço os túneis como o restante do grupo e sei que, se me perder, as chances de esbarrar com a pessoa que acabou de entrar pela escotilha são grandes. Passo a tatear as paredes à procura de algum canto em que seja possível me enfiar, mas a busca não traz resultados. O som de meu coração batendo acelerado parece tão alto quanto o barulho do sapato de quem escorrega entre os degraus de metal da escada. — Segure a minha mão. — Ouço Henrique sussurrar em meu ouvido, sem conseguir enxergar. — Conheço uma saída que nos levará para perto do lago. Hesito, mas decido confiar nele e tateio seu corpo à procura de sua mão. No momento em que finalmente a encontro, ele entrelaça os dedos nos meus, juntando nossas palmas com força. Enrubesço. Agradeço mentalmente por estar tão escuro, porque provavelmente me sentiria desconfortável em olhar para ele enquanto nossas mãos estão unidas. Henrique não diz mais nada e não percebo nenhum sinal de incômodo. Resolvo deixar o desconforto de lado, afinal, ele está apenas me ajudando a sair do túnel sem arrumar problemas. Meu colega de quarto anda sorrateiramente, puxando minha mão e me guiando na escuridão. Ouço os outros caminhando atrás de nós, mas não faço ideia de se deixamos alguém para trás.
Andamos cerca de dez minutos até chegarmos à saída alternativa que Henrique disse conhecer. O ar parece ficar cada vez mais gélido e o solo abaixo de nós, um pouco lamacento. Apesar de estar muito tenso, não ouço mais barulhos da pessoa que havia entrado pela escotilha. A caminhada até ali me fez ter noção da extensão dos túneis e também me deixou curioso para saber mais sobre eles. — Espero que todos aqui saibam nadar — diz Henrique, destrancando as fechaduras do lado de dentro da segunda escotilha. — Essa saída leva direto para baixo do píer.
Quando meu colega de quarto abre a portinhola, litros e litros de água instantaneamente invadem o túnel. Henrique grita para irmos em direção à porta e eu congelo. Diego e Serena passam correndo ao meu lado e somem pela saída; ouço o som de seus corpos indo de encontro à água do lago. Henri me encara assustado e sem entender o motivo de eu não ter saído com os outros. Ele ainda mantém a porta aberta, e sei que, se continuar desse jeito, os túneis ficarão cheios d’água.
— Não sei nadar — digo alto o suficiente para que ele consiga ouvir. — Eu sou o próximo, não se preocupe — diz ele, decidido. — Não deixarei que nada aconteça a você.
Respiro fundo, reunindo coragem, e corro porta afora. Caio na água gelada. O mundo novamente escurece e meu corpo flutua no vazio, mexo meus membros tentando voltar à superfície, mas sei que é inútil, nunca tive uma relação muito boa com a água. Apenas relaxo e me permito abrir os olhos dentro do lago. Durante um segundo, não vejo nada, em outro, percebo o corpo de Henrique imergir alguns metros atrás de mim. No primeiro momento, ele mergulha de maneira desesperada, mas mantendo a mesma graciosidade que sempre teve em seus movimentos. Sua expressão se suaviza quando seu olhar cruza com o meu. Ainda prendendo a respiração, aceno para ele, formando algumas bolhas de ar ao balançar a mão. Mal termino de acenar e Henrique já está nadando à minha volta, emanando energia com sua presença. Ele aponta para a parte inferior de seu corpo e sinaliza para que eu me movimente do mesmo jeito que ele, batendo as pernas e abrindo os braços. Faço o que ele ensina e, para minha surpresa, começo a ir em direção à superfície. Henrique sorri e acabo sorrindo também, pois estou feliz de ele ter me ensinado a emergir em vez de simplesmente me carregar para cima. Porém, antes de subir totalmente e sair da água, noto algo estranho acontecendo dentro de mim. Não sei dizer se a sensação é efeito da falta de ar, mas sinto um frio na barriga, como se milhares de borboletas estivessem voando em seu interior. Dou de ombros e subo até a superfície, ignorando o sentimento. Fora d’água, respiro fundo e encho os pulmões de ar. As borboletas continuam batendo as asas.
— Demo, tem alguma coisa acontecendo com você? Alma passou o dia fazendo essa pergunta, desde que pisei na sala de aula até o momento em que a acompanhei até a estufa para ajudá-la a cuidar das flores. — Já falei que está tudo bem. — Tento parecer convincente. — É só que… — Ela começa hesitante. — Você está meio aéreo e com cara de quem precisa de mais algumas horas de sono. — Alma comprime os lábios, preocupada.
Procuro meu reflexo nos vidros da estufa e concluo que ela tem razão, estou um lixo. Meus olhos parecem menores que de costume e tenho olheiras gigantes, o que piora a situação.
A verdade é que mal dormi depois dos acontecimentos nos túneis. Além de ter que digerir toda a informação que os amigos de Henrique me contaram, fiquei preocupado por só ter visto Serena e Diego saindo pela escotilha. O alívio veio quando esbarrei com Lorena durante o café da manhã. Agradeci mentalmente por tudo ter acabado bem, mas confesso que fiquei curioso para ouvir sobre como ela havia escapado. Teria de perguntar para Henrique depois, bem depois, porque, falando nele, eu o evitava desde o episódio no lago. Eu me lembro de sua mão se entrelaçando à minha com as lanternas apagadas e de um arrepio subir por minha espinha. Não sei se quero voltar a sentir o que senti debaixo d’água. Pensar nisso me amedronta.
— Você está lidando bem com as coisas por aqui? — Alma me afasta de meus pensamentos.
— Sim — confirmo cabisbaixo, enquanto ela rega umas flores amarelas. — Sabe, Demo, já vi muitas pessoas falhando em suas jornadas no acampamento, porque não aceitam a ajuda que é dada e se perdem mais do que já estavam perdidas antes de chegarem, então, fico feliz de você estar se encontrando. — Ela sorri.
— Eu também.
É difícil para quem está no processo de mudança perceber que está realmente melhorando e entender a pessoa que é, então, não consigo deixar de ficar feliz com o comentário. Mesmo que não seja verdade, é bom ter alguém que acredita em meu potencial e enxerga os resquícios de luz dentro de mim. — Como você ainda não enlouqueceu se está sempre cercada de adolescentes rebeldes? — pergunto em tom de brincadeira, mas nós dois sabemos o que quero dizer.
Ela ri.
— Sabia que me sinto mais normal aqui dentro do que em qualquer outro lugar do mundo? — responde. — Não acho que as pessoas sejam ruins, só fizeram escolhas ruins quando estavam sob pressão.
— Então, você acha que o mundo é feito de pessoas boas? Mesmo as que cometeram crimes merecem um espaço no céu?
— Não. Quero dizer, estou falando sobre os adolescentes que chegam ao acampamento. São pessoas que foram mal entendidas de alguma maneira — explica Alma. — Mal interpretadas, mal ouvidas, mal educadas e mal julgadas — acrescenta. — Sei que é meio ingênuo, mas faz sentido para mim. — É bonito. — Sorrio para ela. — Eu admiro esse seu jeito de ver o mundo. — Acredito que todo mundo deveria ter uma chance. Caminho até Alma e surpreendo a nós dois envolvendo-a em um abraço. Mesmo não sendo muito fã dessas coisas, senti que deveria abraçá-la depois de ela abrir o coração e me explicar sobre sua visão de mundo. — Já se apaixonou alguma vez na vida? — Não sei por que pergunto, mas, quando vejo, a frase já saiu de meus lábios. — Prometo que é a última coisa que pergunto.
Vejo a pele negra de Alma enrubescer e percebo que questioná-la sobre paixão enquanto a abraçava pode tê-la feito pensar que eu estava mandando um tipo de indireta. Então, me afasto e dou uma risada.
— Aliás, é só uma pergunta normal, não quer dizer… você sabe… — tento me explicar.
Apesar de ainda estar um pouco vermelha, ela também começa a rir. — Calma, Demo, eu entendi! — Ela esconde o sorriso com a mão. — Mas não, nunca me apaixonei — confessa. — Acho que é como nos livros, sabe?! nunca me apaixonei — confessa. — Acho que é como nos livros, sabe?! Franzo o cenho, um pouco confuso, mas sei o que ela está tentando me dizer. — Sabe quando o Gus vê a Hazel pela primeira vez no grupo de ajuda a pacientes com câncer e os dois automaticamente se sentem conectados sem nunca terem se visto antes? — pergunta Alma, fazendo referência aos personagens de A culpa é das estrelas, de John Green. — Sei — confirmo, assisti à adaptação desse livro na locadora milhares de vezes no ano em que o filme foi lançado. — E esse primeiro contato já é o suficiente para que ela aceite visitar a casa dele, mesmo sabendo que ele pode ser um tipo de psicopata.
— SIM! — Ela se anima. — Acho que se apaixonar deve ser semelhante a isso, saltar no escuro sem saber onde vai cair, confiando na intuição e no que a pessoa te faz sentir.
— Cara, nós somos profundos — brinco.
— Total!
Volto a ajudar Alma a cuidar das flores, as rego e adubo da maneira que ela me ensinou.
Logo terminamos os afazeres no lugar e passamos a andar pelo acampamento. A caminho de nossos alojamentos, perto da margem do lago, avistamos Henri sentado no píer. Ele não está na água, resolveu apenas ficar observando os outros campistas nadarem. Alma acena para ele, que retribui. Mantenho as mãos coladas ao meu corpo.
— Por que você está fora do lago? — pergunta Alma quando nos aproximamos. — Acho que estou ficando resfriado — responde ele, a voz um pouco rouca. Se não soubesse o que tinha acontecido na noite passada, eu provavelmente acabaria acreditando naquela mentira.
— Se precisar de analgésicos, procure minha mãe — avisa a garota, enquanto coloca as mãos no bolso da calça e pega o celular que, provavelmente, vibrava. — Falando nela, acabou de me mandar uma mensagem dizendo que quer me encontrar neste exato momento — explica. — Henri, queria conseguir conversar mais com você, sempre somos interrompidos.
Meu colega de quarto ri e assente, mas parece pensativo. — Então, Demo e eu estamos querendo ir até a praia no fim de semana. Quer nos acompanhar e me atualizar sobre o que anda acontecendo na sua vida? — propõe ele, coçando a cabeça com uma das mãos. — O quê? — questiono, confuso com o que acabo de ouvir. Quando é que havíamos discutido sobre ir até a praia? Sinto uma tensão entre nós, mas torço para que seja apenas coisa da minha cabeça. Apesar de parecer meio maluco e instintivo, passar um tempo com Henrique e Alma longe dos outros campistas pode ser uma boa ideia para tentar entender o que está acontecendo entre nós.
Alma olha para mim e, apesar de parecer analisar minha expressão mais do que o necessário, acaba aceitando o convite.
— Vou ver se consigo autorização com a minha mãe. Henrique se espanta.
— Você não pode contar para ela, teríamos que ir escondido! Alma começa a gargalhar.
— Eu sei, bobo. Eu estava brincando — explica, piscando um dos olhos. — A parte legal de morar a vida toda aqui é que conheço bem o lugar e sei como sair escondido.
Fito o rosto de Henrique e nossos olhares se encontram; sei que ele está pensando a mesma coisa que eu. Chegava a ser até um pouco irônico ouvi-la dizer aquilo depois que descobri sobre os túneis que se escondiam por debaixo de todo o Misfit.
Ela se despede com um abraço e me deixa a sós com Henrique. Não sei se a tensão que sinto é real ou imaginária, mas estar ao lado dele já não é mais como antes.
— Precisamos conversar sobre o que aconteceu ontem! — diz ele, finalmente. Meu coração dispara e posso senti-lo pulsar por cada canto do meu corpo. — Alma sabe dos túneis — afirma em voz baixa, convicto do que está dizendo. Levo alguns segundos para entender sobre o que ele está falando e percebo que não estava se referindo ao contato de nossas mãos. Fico aliviado e ao mesmo tempo meio frustrado.
— Claro que não sabe — retruco. — Ela me contaria. — Será?
Não sei o que responder. Sei que confio em Alma, e não acredito que saiba da existência dos túneis, mas também confio em Henrique, e sei que ela está envolvida na organização do lugar, que esconde algo de seus campistas. — Ontem, ouvimos alguém descer pela escotilha, certo?! — começa Henri. — Quando fugimos, a única pessoa que não veio junto foi a Lorena, então, fui procurá-la hoje de manhã em seu dormitório e descobri que, em vez de fugir, ela ficou escondida nas sombras até conseguir ver quem havia entrado nos túneis. — E quem era? — pergunto com medo da resposta. — Alma.