Submerso
Capítulo Onze
Pois somos os mestres de nosso próprio destino Somos capitães de nossas almas
“Lust for Life”, Lana Del Rey[13]
É como se eu estivesse partido ao meio.
Uma parte de mim quer que Henrique vá embora e nunca mais volte e a outra metade quer que ele fique ao meu lado para sempre naquela posição, com minha cabeça aninhada em seu peito.
Cada vez que tento dizer alguma coisa, ele me abraça mais forte. Apesar de não me deixar ser abraçado por ele, também não tenho vontade de afastá-lo de forma brusca.
Minha respiração é turbulenta, insconstante, desesperada. Abro a boca à procura de ar, mas, não importa o quanto tente respirar, não pareço me satisfazer e acabo ficando com tontura.
— Você mentiu — repito, meu nariz e meus olhos ardem, mas ignoro a sensação.
— Calma — ele pede, sussurrando em meu ouvido. Sua voz é suave e o sotaque carioca é tão forte quanto eu lembrava.
Quando sinto o corpo dele me esquentando é que percebo que estou com frio e que meus membros não param de tremer.
— Nunca tive calma, Henrique — respondo, levantando a cabeça e o encarando. Seus cabelos estão bagunçados e ele está vestindo a camiseta branca que já o vi vestir centenas de vezes. Agora, está totalmente amassada pelo contato dos nossos corpos.
Henrique afaga carinhosamente a minha cabeça e assovia uma melodia que reconheço no momento em que chega o refrão. É “Can’t Help Falling in Love”, do Elvis Presley.
— Sabe, sempre gostei dessa música — diz ele, parando de assoviar. — Meu tio costumava colocar para tocar em seu quarto na época em que morei com ele. Sinto uma pontada no coração ao ouvi-lo mencionar o tio. — E, no dia em que contei para ele que gostava de garotos, numa noite chuvosa e solitária, meu tio apenas caminhou até o rádio e apertou o botão do play — conta. — “Like a river flows, surely to the sea / Darling, so it goes somethings
are meant to be”[14], ele cantou para mim. — Por que está me contando isso agora? — pergunto, entredentes. — Porque você precisa entender o motivo pelo qual fiz o que tive de fazer. Congelo. Não sei se devo acreditar assim no que ele me conta, afinal, ele traiu minha confiança antes, não é?! Mordo a ponta da língua e aperto os olhos, na esperança de conseguir controlar as lágrimas.
— Então você realmente é… — É difícil dizer em voz alta. — O Fantasma? Henrique respira fundo, até que assente.
Meu coração se quebra em mais mil pedaços e não tenho forças para continuar fazendo perguntas. Quando tento dizer quaisquer palavras, sou interrompido por meu próprio soluço, como se não tivesse mais voz. Enterro o rosto no ombro dele e o deixo terminar o que tinha para me dizer. — Como já havia dito para você na praia, meu tio foi a única pessoa que realmente se importou comigo na época em que eu mais precisava. Eu estava em um péssimo período e ele praticamente me tirou do chão para me ensinar a amar quem eu era e ter orgulho da pessoa que sou. Por esse motivo, quando ele me contou sobre o que havia passado no acampamento, eu fiquei indignado. — Ele fala como se sentisse o efeito de cada palavra que sai de seus lábios. — Às vezes, ele tinha pesadelos com as lembranças dos meses que passou trancafiado nas mãos do Vladimir, acordava aos gritos no meio da noite e pedia para que eu não ficasse com medo caso o encontrasse perambulando choroso no meio da casa. Mesmo com vários anos de terapia, alguns dias ainda são extremamente difíceis para ele. Pesquisando sobre o passado do meu tio, descobri por acaso que o Misfit havia sido reaberto pelo filho do Vladimir e que ele tentava apagar toda a imagem ruim da família sobre o que havia acontecido anos antes para retornar com os negócios. Mas é impossível querer esconder algo tão terrível, é como tentar varrer um elefante para debaixo do tapete. Minha respiração está voltando ao normal e já não me sinto mais tão enjoado. — Ainda antes de vir para o Misfit, descobri que, apesar de Vladimir ter sido preso, ele não permaneceu em cárcere por muito tempo, porque tinha muito dinheiro. Acabou vivendo a vida como se nunca tivesse causado sofrimento a ninguém — Henrique continua. — E Álvaro, seu filho, estava fazendo tudo o que podia para encobrir o passado do pai. Vim para o acampamento por esse motivo. Já que o sistema deixou o Misfit se reerguer das cinzas sem punições, eu tentaria destruir o acampamento de dentro, assustando os campistas e revelando a verdade para cada um deles.
— Então, seus pais nunca te mandaram para cá por ser gay? — indago. Apesar de entender os motivos, ainda não consigo acreditar que ele mentiu para mim durante tanto tempo, me contando uma versão editada da sua vida. Eu me sinto bem idiota por ter me sentido mal por ele. Fui estúpido, inocente e burro. Quero me soltar dos braços de Henrique e estapear meu rosto para deixar de ser tão tonto, quero tatuar a frase “não confie em ninguém” por toda a minha pele para nunca mais me esquecer disso.
— Não! — exclama. — Quero dizer, sim — corrige, apertando os olhos. — Não via meus pais fazia um tempo, desde que havia ido morar com meu tio. Então, foi ele quem assinou os documentos para me mandar para cá depois que eu lhe contei o que estava planejando — explica. — Todo o resto que te contei era verdade, Demo. Meus pais não me aceitam!
Fico em silêncio, imaginando como seria ser rejeitado pela família e ver o único parente que te acolheu sofrer enquanto as pessoas que o torturaram continuaram livres pelo mundo.
— Diego e Serena me contaram que não foi você que me colocou no lago naquela noite.
Henrique tira minha cabeça de seu ombro e olha bem nos meus olhos. Tento desviar, mas acabo sempre olhando de volta para ele. — Eu parei de trabalhar no meu plano no momento em que você chegou, Dimitri — diz ele, e encaro seus lábios rachados enquanto ele articula as palavras. — No momento em que você entrou pela primeira vez pela porta do quarto, meu mundo inteiro virou de ponta-cabeça e eu não conseguia pensar em nenhuma outra coisa. Descobri que Diego e Serena haviam se transformado em meus seguidores, ou melhor, seguidores do Fantasma, e tentariam fazer as próprias armações para derrubar o Misfit. Foi aí que percebi que as coisas poderiam sair do controle e eu seria o culpado por prejudicar campistas que estão aqui porque realmente precisam de ajuda, então, deixei tudo de lado. — E seu tio?
— Conversei com ele nestas últimas semanas, foi por isso que demorei a voltar — conta. — Falei para ele tudo o que havia acontecido e ele decidiu que tinha sido uma péssima ideia me deixar fazer isso, que era adulto e tentaria resolver da maneira dele.
— É muita coisa para absorver — é o que consigo dizer. Ainda me sinto traído por ele ter escondido tanta coisa de mim, mas, após ouvir sua versão da história, entendo perfeitamente seus motivos. Acho que eu faria qualquer coisa desse tipo caso algo acontecesse com meu pai. Na maioria das vezes, não medimos esforços para ajudar quem amamos e isso só comprova o sentimento, esse querer tão grande que não enxerga limites, embaçando até as barreiras do que é certo e do que é errado.
Desta vez, sou eu quem o abraço mais forte, mas ainda não estou preparado para deixá-lo voltar a minha vida. A linha entre a confiança e o medo de me machucar por confiar na pessoa errada é tênue.
Henrique desarma o corpo e derrete perto de mim, relaxando ao perceber que também estou ficando mais calmo com a situação.
— Preciso de um tempo para pensar — concluo, achando que era a melhor coisa a dizer naquele momento. Minha respiração fica cada vez mais linear enquanto estamos abraçados.
— Você tem todo o tempo do mundo — responde ele. Ficamos em silêncio por algum tempo, apenas sentindo um ao outro. — Nessa volta para casa, conversei com meus pais. — Henrique respira fundo e prende a voz, como se estivesse esperando muito tempo para me contar aquilo. — E o que aconteceu? — pergunto, quase sussurrando. Ele demora a responder e não sei muito bem o que esperar. — Eles continuam achando que preciso arrumar um jeito de “virar hétero” — ele lamenta. — Ainda querem me proibir de ser quem eu sou. — Não entendo por que as pessoas ainda acham que podemos “virar” algo — protesto, me afastando um pouco. — Não faz sentido, você é assim e pronto. — Ele assente. — Você está bem em relação a eles não te aceitarem? — Não — diz ele, e posso ver a frustração em seus olhos. — Mas o mundo é grande demais para deixar de ser quem eu sou por causa de pessoas com mentes tão pequenas.
É estranho como o clima muda em questão de minutos quando se trata de emoções e pessoas. Palavras realmente são poderosas e conseguem reconstruir uma cena inteira. Sentimentos são assim, bons ou ruins: eles vêm para cima de nós como ondas gigantes, sem se importar se seremos capazes de atravessá-las. Simplesmente vêm e nos arrebatam, afogam e chacoalham, nos deixando na beira da praia para que, quando levantarmos, possamos olhar para o horizonte e perceber o mundo de uma maneira diferente.
Eu me levanto ainda meio trêmulo e Henrique também fica de pé. Vou até a pia e escovo os dentes enquanto ele me observa encostado na parede. Tenho coisas para dizer e perguntas a fazer, quero que fiquemos bem novamente, mas precisamos de tempo para voltar ao normal. Não sei quais serão os efeitos dos acontecimentos que recairão sobre nós, mas não quero que as coisas mudem demais.
Quando termino de limpar a boca, começo a sentir um cheiro forte de queimado, o que acho estranho.
— Você tá sentindo esse cheiro?
Antes que Henrique consiga responder, um alarme soa acima de nós, o som se espalha por cada canto do quarto.
Ficamos parados e sem reação, nunca ouvi aquele alarme antes e não faço a menor ideia do que significa. A resposta para minha pergunta vem segundos depois, quando um campista invade o quarto e nos pega de surpresa. O jovem está pálido e parece assustado.
— O acampamento está pegando fogo! Todos estão fugindo — diz ele, ficando — O acampamento está pegando fogo! Todos estão fugindo — diz ele, ficando parado por um momento e então desaparecendo pelo corredor. Com a notícia, meu sistema nervoso parece ficar em alerta novamente, mas tento me controlar para não desabar outra vez.
Agarro o braço de Henrique e o puxo para fora, ele se assusta, mas entende meu desespero e passa a correr comigo. Como o corredor está cheio de campistas, nossa passagem está bloqueada. O cheiro provocado pelo fogo fica cada vez mais forte e começo a entrar em pânico quando vejo a fumaça se espalhando pelo ar. Perco a paciência, empurro algumas pessoas e volto para o quarto, arrastando Henrique. Abro a janela e o mando sair. Ele não espera que eu peça duas vezes, apenas se enfia por lá e vai para o lado de fora. Eu faço o mesmo. O lugar está um caos. Há campistas correndo para todos os lados, gritando à procura dos amigos e alguns até tentando carregar os pertences, deixando cair os objetos no caminho. O ar está pesado e é difícil respirar com tanta fumaça. Por enquanto, estamos seguros, o fogo não chegou perto do dormitório masculino, se alastra para o lado oposto ao do lago, onde começa a floresta. Fico aliviado ao ver que não há ninguém onde o incêndio realmente está acontecendo, agradeço por termos sido avisados antes que o pior pudesse ter ocorrido.
Henrique me tira do lugar e me guia em direção ao casarão principal, por onde precisamos passar para chegar ao estacionamento, mas ele congela momentos antes de entrarmos na fila com os outros jovens que esperavam para sair. — Ditrimi, você percebeu onde o incêndio começou? — A voz dele está tensa. Não preciso responder para saber o que está querendo dizer. Incêndios não começam por acaso, e era possível observar que aquele havia começado especificamente no lugar onde mais queimava: na floresta. Quase desabo no chão ao pensar que os túneis ficavam no meio das árvores e que quando eu saíra correndo de lá, Alma, Diego e Serena permaneceram no lugar.
— Temos que voltar — exclamo, desesperado.
Henri não tenta me impedir, sabe o que está acontecendo e parece tão assustado quanto eu. Enquanto todos correm para a saída, vamos contra o fluxo, esbarrando nos campistas aflitos. Os jovens gritam e fazem perguntas, apontando para as chamas na direção em que estamos indo, mas não paro de correr. De relance, vejo algumas pessoas paradas, como se estivessem apenas esperando que o fogo as alcançasse e as consumisse, sem mais esperanças sobre o futuro. Peço ao universo que alguém apareça para tirá-las de lá antes que seja tarde demais.
O calor é cada vez mais intenso quando nos aproximamos. Mal conseguimos encontrar o caminho para a trilha que leva até os túneis. encontrar o caminho para a trilha que leva até os túneis. Chumaços de folhas queimadas nos acompanham, voando com o vento enquanto caminhamos. Elas grudam no meu rosto e tingem minha pele de preto. Seguro firme a mão de Henrique e ele aperta a minha. Tento ignorar o medo que começa a crescer dentro de mim, mas o som da floresta queimando é alto demais para que eu possa esquecer onde estou.
A poucos metros da escotilha, enxergo um corpo na grama lamacenta. Troco olhares com Henrique e percebo que está tão assustado quanto eu; mesmo assim, corremos para conseguir ver melhor.
É Diego: ele está deitado no chão de barriga para cima, coberto de sujeira, e tem dificuldade para respirar.
— Você está bem? — disparo, temendo a resposta. Ele tenta falar, mas dá início a uma crise de tosse que parece não ter fim. Fico agoniado de assistir a Diego se esforçando para tentar respirar em meio à fumaça asfixiante.
— Ele precisa sair daqui — grita Henrique, agachando, verificando se Diego está bem e o ajudando a se sentar.
Enquanto Henri ajuda o amigo, começo a procurar por qualquer sinal de Alma pelo chão, mas não encontro nada que poderia indicar que esteve por perto. — Onde está Alma? — pergunto, desesperado.
Diego arregala os olhos e engole em seco, tossindo em seguida ao se ajeitar na terra suja.
— Serena — balbucia ele — colocou fogo. — Sua fala é seca e rouca, quase como a daquelas pessoas que fumaram durante a vida inteira. — Alma ainda está nos túneis? — Minhas pernas amolecem ao ouvir o que havia acontecido.
Com difículdade, ele balança a cabeça e assente. Depois disso, fecha os olhos e tomba com a cabeça para o lado.
— Preciso tirá-lo daqui — diz Henrique. Seu rosto está coberto de fuligem, ressaltando os olhos no mar de escuridão e fogo. Começo a caminhar de um lado para o outro para me concentrar e descobrir o que fazer em seguida.
— Não posso ir embora sem Alma! — disparo. Sei que posso estar arriscando a vida ao decidir buscar minha amiga, mas prefiro correr esse risco a viver sabendo que a deixei para trás. — Ela não me deixaria. Henrique assente em silêncio porque sabe que o que estou dizendo é verdade. — Então, irei com você! — responde Henrique, levantando-se. — Não quero ficar longe outra vez.
Antes de descer pela escotilha e entrar nos túneis, eu o beijo uma última vez. Sinto cada parte do meu corpo queimar, não apenas por conta das labaredas do Sinto cada parte do meu corpo queimar, não apenas por conta das labaredas do fogo, mas pelo que sinto por ele.
Passo pela escotilha e piso na escada. Henrique está logo atrás carregando Diego nas costas, o que me deixa apreensivo, porque Henri tem dificuldade em manter o equilíbrio enquanto desloca o pé de degrau em degrau. Minha voz ecoa sem parar gritando o nome de Alma. Quando finalmente chegamos ao fundo, o subsolo está mil vezes mais quente do que o exterior e parece que estou em um forno prestes a explodir. Ainda não há sinais de fogo naquela área, o que me dá a esperança de que minha amiga esteja bem. Por quanto tempo ainda estaremos a salvo? É difícil saber, a estrutura toda pode começar a ruir a qualquer momento.
Mal sinto meus pés tocando o chão enquanto deslizo entre os corredores do túnel. Sei que Henrique está atrás de mim porque ouço seus passos pesados e também consigo ouvir Diego, que, apesar de praticamente desacordado, não para de tossir.
Vou direto para a sala secreta, desejando que Alma esteja onde nos vimos pela última vez. Quando chego, a primeira coisa que percebo é que a porta está fechada. Falo um palavrão alto. Frustrado e irritado, toco a maçaneta para tentar abrir, mas o metal quente queima minhas mãos e me faz recuar. — Está quente demais! — digo para Henrique, erguendo uma das mãos e mostrando a pele vermelha recém-queimada para ele. O garoto me encara com as sobrancelhas levantadas. O suor escorre por sua testa e desce até o pesçoco, molhando a gola da camiseta. Henrique respira com dificuldade, arfando muito enquanto segura o corpo de Diego para não deixá-lo cair.
— Dimitri, é você? — Ouço, vindo de trás da porta de metal. Mesmo com o som abafado, sei que é a voz de Alma. Depois de tantas conversas na estufa, eu a reconheço mesmo a quilômetros de distância.
— Sim, estou aqui — grito, aliviado por finalmente ter encontrado minha amiga. — Você está bem? — continuo, preocupado.
— Não — responde ela, rápido. — Serena me trancou aqui e não consigo sair. — Ela levou a chave com ela?
— Sim, levou.
Fico em silêncio, para não transparecer a insegurança em minha voz. Se não conseguíssemos tirar Alma da sala secreta, ela mal veria o fogo chegar e seria queimada viva sem nem saber o que havia ocorrido do outro lado da porta. Chacoalho a cabeça e expulso aquela imagem da cabeça. Não deixaria isso acontecer de jeito nenhum, daríamos algum jeito. — Ainda está aí? — pergunta ela.
— Sim.
— Sim.
— O que está acontecendo aí fora?
— Serena colocou fogo no acampamento — explico, olhando para Henrique de canto de olho. Ele está com os olhos fixos no chão, assim como eu, provavelmente, pensando em mil e uma maneiras de contornar a situação. — Em todo o acampamento? — pergunta, surpresa. — Meu Deus, isso é horrível, preciso sair daqui! — Sinto seu desespero. É tão triste vê-la naquela situação que quase desabo em lágrimas.
Abaixo a cabeça por alguns segundos para pensar, tentando colocar o cérebro para funcionar, mas não há muito o que fazer. Procuro a chave pelo chão, mas tudo o que encontro é terra e sujeira.
Agarro a maçaneta e a giro algumas vezes, dando trancos para tentar abrir a porta, mas nada acontece. Quando retiro a mão, está ainda mais vermelha e machucada, ardendo com a queimadura. Passo errado, Dimitri, penso. — Machucou muito? — pergunta Henrique.
— Mais ou menos — digo, escondendo a mão para que ele não veja o dano real, mas a mentira não permanece oculta por muito tempo, e ele percebe que estou machucado.
— Precisamos derrubar a porta! — Henrique assume o controle da situação. Ele comprime os lábios e franze o cenho, parece preocupado. Henri ajeita Diego de volta no chão e vem até onde estou parado. — Alma, afaste-se da entrada! — pede.
— O que planeja fazer?
Sem responder, ele se aproxima da porta e a chuta com força. O metal treme, mas não cede. Ele tenta novamente, agora com mais intensidade, mas, assim como antes, nada acontece. Henrique não parece aceitar a resposta que o material lhe dá, então, passa a chutar a porta mais algumas vezes. Ele grita de dor e frustração a cada pontapé que dá sem resultado. — A estrutura da porta foi afetada pelo calor — Henri afirma. — Pode cair se colocarmos força o bastante, não sei se consigo sozinho. Balanço a cabeça, entendendo o que quer dizer.
— Vamos empurrá-la juntos, então — proponho, puxando as mangas da camiseta.
— Quando quiser — diz ele, afastando-se alguns centímetros e posicionando o corpo.
Faço o mesmo e então corremos em direção à porta, colocando toda a nossa força nas laterais do corpo, nos preparando para o impacto. Batemos com violência no metal. Dou um grito de dor ao sentir uma forte pancada nos ossos do ombro, mas a porta ainda não cai e o impacto nos joga de encontro ao chão.
encontro ao chão.
— Vocês estão bem? — pergunta Alma, preocupada. Desta vez, não respondo, pois temo ter deslocado alguma parte do corpo. — Estamos — dispara Henrique, enquanto se recoloca de pé e estende uma das mãos para me ajudar a levantar. Meu ombro dói demais e não consigo me levantar daquela maneira.
— Vou tentar novamente — diz ele.
— Não — interrompe Alma, decidida. — Afastem-se da porta. Com o golpe de vocês, um dos trincos internos rachou e acho que consigo derrubar. Eu me arrasto para o lado contrário e me apoio na parede. Sinto o corpo pulsar com a dor do impacto, mas tento me manter firme por Alma. Henrique também dá alguns passos para trás, mas não se distancia tanto quanto eu. Ouço Alma recuar, reunindo forças, e então começar a correr dentro da sala. Com um único chute, a porta vem a baixo, fazendo a terra tremer e produzindo um estrondo ensurdecedor nos corredores dos túneis. Ignoro a dor no momento em que vejo Alma sair triunfante da sala no meio de tanta poeira. Ela está coberta de suor e areia da cabeça aos pés, mas não hesita em me abraçar quando levanto com dificuldade. Não sei como Alma conseguiu ficar tanto tempo trancafiada naquela sala. Percebo que o lugar está tão abafado que é difícil até para respirar. — Obrigada! — diz ela, em meio às lágrimas.
— Pelo quê? — pergunto. — Você derrubou uma porta de ferro sozinha! — exclamo.
— Por não ter ido embora — diz. Seus lábios tremem e por um instante acho que começará a chorar, mas nada acontece, e ela apenas leva o indicador ao rosto e se mantém firme.
Eu a abraço e digo que tudo ficará bem, na esperança de que conseguiremos sair daquela situação.
— Alma. Você. Está. Viva! — Diego parece ter acordado do desmaio e olha para a minha amiga, dizendo as palavras ainda com certa dificuldade. Henrique corre novamente para perto de Diego e pergunta se quer que o coloque de volta em seus ombros, mas ele rejeita a oferta. Parece ter se recuperado ao menos um pouco, dizendo que consegue nos acompanhar com os próprios pés. Com dificuldade, corremos apressados na direção da escotilha. Chego à escada antes dos outros. Olho para cima e vejo que as chamas já tomaram conta do caminho pelo que passamos para chegar até ali. A escada de ferro se retorce ao entrar em contato com a chama quente e alguns pedaços começam a cair lá de cima. Eu me afasto para não ser atingido. Não existe possibilidade de sair pela floresta.
— Temos que sair pelo lago — disparo, alertando meus amigos de que não — Temos que sair pelo lago — disparo, alertando meus amigos de que não sobreviveríamos caso saíssemos pelo caminho principal. Ficamos nos encarando, trocando olhares de desespero enquanto o som de nossas respirações falhas ecoa pelas paredes e se mistura com o barulho do mundo queimando acima de nós.
— O que estamos esperando? — pergunta Alma, indo em direção à saída do lago e me tirando do transe.
Henrique e eu a acompanhamos com passos rápidos, esperando por Diego às nossas costas. Sinto a camiseta colando em meu corpo com o calor e de repente tenho um mal-estar pelo suor nojento escorrendo em mim. Quando me aproximo da saída, vejo Alma lutando para abrir a segunda escotilha. Torço para que Serena tenha conseguido escapar após ter colocado fogo na floresta, caso contrário, já estará morta.
A saída finalmente é aberta e a água começa a jorrar em nossos pés, a brisa fresca me atinge e a sensação é incrível. Respiro fundo, aproveitando o ar gélido que vem de fora.
— Você primeiro — diz Henrique, me empurrando para que eu fique à sua frente.
— Não — digo, pegando na mão dele. — Vamos juntos! Alma nos observa com olhos brilhantes e certo grau de empatia. Estendo a mão para ela, que a agarra de primeira, formando uma corrente entre ela, Henrique e eu. Sem demorar ainda mais tempo, nos jogamos na água. Abro os olhos em meio à escuridão molhada e não consigo enxergar um palmo à minha frente. A água esfria meu corpo e acalma meu coração. Bato as pernas, me impulsionando para cima, e vou para a superfície. Sou o primeiro a emergir e respiro ofegante, mas tenho a chance de ver cada um de meus amigos aparecendo, flutuando até que estejam parcialmente fora d’água. Juntos, nadamos em direção à terra e nos jogamos no chão para recuperar o fôlego. A grama pinica em minhas costas, mas, em vez de me incomodar, faz com que eu fique grato por ter conseguido fugir dos túneis. Se sinto isso, é porque estou vivo.
— Nós escapamos — comemora Diego ao meu lado, respirando com dificuldade.
— Sim! — responde Henrique, olhando para mim e para Alma. — Mas precisamos sair antes que o fogo chegue até aqui também — alerta, se colocando em pé e me ajudando a levantar. O machucado do ombro começa a pulsar quando me levanto. Alma também fica de pé e auxilia Diego, os dois estão encharcados e molham os lugares por onde passam. Lentamente, caminhamos em direção ao casarão principal, onde ficavam os escritórios de Suzana, Álvaro e Laura. Lá, dezenas de campistas e funcionários escritórios de Suzana, Álvaro e Laura. Lá, dezenas de campistas e funcionários se mantêm amontoados enquanto esperam por sua vez de ir embora. Tiro um último minuto para olhar para trás e ver o acampamento ruir. As chamas estão altas e se alastram tão rápido que conseguiram chegar até os dormitórios. O lugar que foi meu abrigo nos últimos meses se desfaz como se fosse de papel. As madeiras caem e as paredes de concreto se tornam escuras, apagando as histórias ali construídas.
De repente, Alma se separa de nós, correndo em direção à multidão e se misturando entre os campistas. Entendo o que aconteceu quando me deparo com Suzana e Álvaro andando em meio aos jovens. Eles parecem preocupados e deixam de lado a expressão rígida que costumam exibir, estão no meio de outras pessoas sem qualquer distinção de cargos. Nesse momento, não deveria haver qualquer tipo de separação.
Assim que os pais veem Alma, correm para abraçá-la, puxando-a para seus braços e agradecendo por ela estar bem. Apesar de tudo, Alma ainda os ama, e sei que enfrentará todos os problemas que possam aparecer em seu caminho. Agora que o Misfit teve seu fim, a garota finalmente terá a chance de conhecer o mundo e reclamar sua liberdade.
Olho para o garoto loiro ao meu lado e percebo que ele me encara, sorrindo de maneira suave.
Apenas o observo de volta, porque minha mente está ocupada demais pensando no que sinto por ele e é incapaz de formular qualquer outra coisa. — Você é lindo — diz Henrique, acariciando meu rosto. O toque dele faz com que meu corpo todo arrepie e, em seguida, relaxe. Sorrio de volta, olhando para ele e me perdendo na imensidão de seus olhos verdes.
— Eu te perdoo. — Minha voz não sai muito alta nem muito firme, mas é o suficiente para que ele consiga ouvir.
Então, ele derruba uma ou duas lágrimas, que seco delicadamente com os dedos. Ouço sirenes se aproximando e logo depois vejo os bombeiros disparando pelo acampamento para lutar contra o fogaréu. Com experiência e agilidade, começam a apagar o fogo, e a multidão se acalma, deixando o estado de pânico e indo em direção à saída com menos desespero.
No meio das pessoas, tenho um breve vislumbre de Serena, escoltada por José e Laura. Ela está em prantos, descontrolada, provavelmente, será entregue à polícia ou a qualquer lugar onde tenha de lidar com as consequências de seus atos.
Não consigo deixar de sentir pena, porque sei que sua intenção não foi das piores. Quis terminar o trabalho que o Fantasma começou para não deixar que todo o passado cruel do acampamento fosse apagado ou esquecido, mas vingou as pessoas que sofreram da maneira errada e causou ainda mais sofrimento. Dor nunca pode ser solucionada com mais dor.
Passei tanto tempo brigando contra mim mesmo enquanto procurava resultados instantâneos que exterminassem meus medos e acabassem de vez com os problemas que me deixei cegar.
Pela primeira vez na vida, consigo realmente imaginar um futuro em que estou rodeado de pessoas que amo e completamente feliz. Posso estar nessa luta diária. Na verdade, acho que sempre batalharei para me sentir bem. Sei que não é fácil e que a tristeza não irá embora da noite para o dia, mas estou grato por estar vivo para poder continuar.
O ambiente que conhecemos foi derrubado, mas isso não nos destruiu. Seguro com firmeza a mão de Henrique e, em meio à multidão, atravesso o portão de saída, deixando o acampamento para trás.
Você terminou Submerso
Eduardo Cilto
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