Submerso
Capítulo Cinco
Estive pensando demais,
Me ajude
“Ride”, Twenty One Pilots[7]
— Do que você se recorda? — Ouço.
Um breve eco de realidade chega até mim. Mal reconheço a pergunta, de tão distante que parece vir.
— Apenas o que já contei — respondo. — Nada mais. — Eu me encolho, sentindo-me inútil.
Suzana me chamou em sua sala para conversar, sabendo que eu precisaria de ajuda depois do ocorrido. Os dias passam a ser mais longos na minha cabeça e por algumas noites retiro os cadarços do tênis pouco antes de dormir e amarro um dos pulsos à cama, com medo de acordar novamente no lago. Eu estou quebrado.
— Não faço ideia de como fui parar na água. — Não aguento mais responder a essa pergunta.
— Não há necessidade de reforçar isso, sabemos que não foi ideia sua. Eles realmente sabem. A pessoa que me colocou para flutuar naquele colchão deixou um bilhete para a coordenação dizendo o local exato onde eu estaria naquela noite. Apesar de ter coragem de alertá-los sobre mim, não foi capaz de se identificar.
— Posso ver o bilhete? — peço, mas meu tom sai como uma ordem. É meu direito entender o que está acontecendo.
Suzana parece um pouco relutante, mas acaba cedendo. Abre uma das gavetas de sua mesa, retira o que pedi e me entrega.
No exato momento em que meus olhos encaram o papel, vejo os dizeres pintados com a mesma tinta azul que havia manchado a parede de meu dormitório. Não há dúvida de que a pessoa que fez a pichação semanas atrás foi a mesma que me colocou no lago.
Devolvo o papel, tremendo.
Começo a transpirar pelas mãos e o mundo a minha volta parece um pouco mais turvo. A preocupação se instala no fundo da minha mente, porque faz tempo que não me sinto daquele jeito. O que aconteceu no lago e o bilhete acabam sendo um gatilho. Não posso deixar aquela sensação me dominar de novo, preciso de ajuda, e o jeito mais fácil para começar a buscar é abrir o jogo com Suzana. Ao mesmo tempo, estou cansado de me expor e de vomitar um milhão de palavras ao vento sem conseguir entender o que acontece comigo. Quero gritar meus sentimentos, colocá-los para fora de maneira física, como se fossem fumaça escura se dissipando pelo ambiente, tornando negro e denso o lugar todo. Talvez, se eu despejasse meus demônios, eles desaparecessem com o confronto. Quero sangrar metaforicamente, sujar todas as paredes à volta com a dor, ser capaz de visualizar o que está dentro de mim para tentar entender e interpretar como se fosse uma obra de arte nojenta, só para depois aprender a limpar tudo da maneira correta. Fecho os olhos, respiro fundo e me ajeito na cadeira, pouco confortável. — Minha mãe se foi há alguns meses — conto, a voz trêmula. — Eu era apegado demais a ela. Sua morte me deixou devastado, e parei de comer, de sair de casa e até levantar da cama parecia a tarefa mais difícil do mundo naquela época. — Desvio o olhar para não encarar Suzana. — Vivia com os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar, me corroendo e apagando quem eu era, até o dia em que cansei de sofrer. Passei a sair com meus amigos quase todas as noites, fiz da rua uma extensão da minha casa e do trabalho. Bebia sempre que podia, fumava alguns cigarros e arrumava confusão com qualquer um que ousasse me criticar. Tudo isso para preencher o vazio que se instalou dentro de mim após a morte da minha mãe. Em uma manhã, ao chegar em casa depois de uma dessas noites, desabei no chão do banheiro, o mármore frio me fazia tremer enquanto eu me debruçava enjoado e enojado diante da privada tentando tirar o álcool do meu corpo. Não adiantava nada tentar fugir da tristeza se aquilo era tudo o que restava em mim. Coloquei na cabeça que eu era o problema e, enquanto vivesse naquele corpo, naquela vida, as coisas sempre seriam daquele jeito.
— E o que aconteceu depois? — pergunta ela, com a voz cheia de empatia. — Tentei cortar os pulsos.
Alma me leva para conhecer a estufa do acampamento, a que chamei carinhosamente de “Estufa da Alma”, porque ninguém mais fala sobre esse lugar. A estufa fica no meio das árvores, atrás das quadras de esporte, bem afastada de todo o resto.
Descobri que o lugar era usado antigamente como sala de aula para uma das matérias escolares. Depois, foi desabilitado porque os campistas não tinham tanto interesse no que lhes era ensinado. Reparo primeiro nas paredes de vidro cobertas por uma porção de trepadeiras, que correm pelas laterais e pelo teto quase formando um tipo de “ninho verde”. Não consigo deixar de pensar que, se o acampamento fosse uma escola de bruxaria, como em Harry Potter, as aulas de herbologia com certeza aconteceriam aqui. Também noto as fileiras de flores diante de mim, o caminho repleto de rosas, petúnias, girassóis e diversas outras flores que eu não fazia a menor ideia de como se chamavam. — É lindo aqui! — falo, admirado.
Alma concorda. Ela está poucos metros a minha frente e anda de costas, analisando minhas reações.
Respiro fundo e sinto o aroma da combinação das flores. É suave, doce e refrescante. Me lembra um pouco o cheiro de quando costumava trocar os lençóis da cama e eles sempre estavam perfumados com um produto de limpeza que simulava aquele odor.
Alma vai até uma fileira recheada de rosas cor-de-rosa e, com cuidado, corta o Alma vai até uma fileira recheada de rosas cor-de-rosa e, com cuidado, corta o caule de uma e a estende para mim.
— Amizade — fala, sorrindo. O sol reluz através dos vidros e ilumina suas costas. — Digo, algumas pessoas dizem que a rosa cor-de-rosa significa amizade.
— Rosas têm significado?
— Todas as flores têm, na verdade.
Eu me aproximo, pego a rosa da mão dela e a levo até o nariz, mas acabo espirrando. Alma ri e eu também.
— E como você sabe de tudo isso?
— Tenho muito tempo livre, já que fico trancafiada no acampamento a maior parte dos meus dias. — Apesar de ela parecer tratar o assunto de maneira cômica, percebo que há certa melancolia em sua fala. — Então, acabo lendo o que posso sobre o que tenho interesse.
— O que significa essa aqui? — Aponto para uma flor perto de mim. Alma faz uma careta e torce os lábios, como se estivesse abrindo as gavetas de arquivos em sua cabeça para encontrar o nome.
— É uma violeta. Simboliza lealdade e simpatia. — UAU, você já pode trabalhar para a National Geographic — brinco. Ela ri.
— Imagine só? Seria meu sonho trabalhar com uma coisa que amo tanto. — Aposto que você seria a melhor do ramo.
Alma fica com as bochechas coradas ao ouvir o elogio, mas logo volta ao normal. Então, pega as ferramentas e começa a cuidar das plantas. Ela as apara, rega e semeia os espaços vagos de algumas fileiras. Eu apenas a observo, encostado em uma pilastra.
— Você está bem? — pergunta ela, depois de um tempo, quebrando o silêncio. — Depois daquela confusão no lago e tudo mais? Dou de ombros.
— Acho que sim, um pouquinho curioso e quebrado ao mesmo tempo — confesso. — Mas só preciso de um tempo para me recuperar. Alma assente e continua o que fazia antes.
Era estranho e ao mesmo tempo gostoso responder àquela pergunta de modo tão sincero.
— Como é ter minha mãe como sua conselheira? — É interessante. Ela não insiste muito para que eu fale demais, gosto disso. — Mamãe valoriza confiança antes de qualquer outra coisa — reflete Alma. Ela lembra um pouco a mãe, não só na aparência física, mas no modo suave de conversar comigo.
— Ela me prescreveu alguns comprimidos também — confesso, sem ter muita certeza de que deveria falar sobre aquilo com minha amiga. Mas desejava poder conversar abertamente com alguém, e queria que Alma fosse a pessoa. — Para que me ajude a não sair surtando por aí.
Alma desvia o olhar para mim e me encara com empatia. — Isso é bom, Demo! — Sorri. — Muito bom.
Quando Suzana me passou os comprimidos, depois de analisar meu histórico com os outros profissionais com quem eu já havia me consultado, fiquei um pouco envergonhado, porque achava que, uma vez que os tomasse, estaria assumindo que o que eu tinha era realmente um problema e que não conseguiria exterminar os sentimentos ruins sozinho. Temi que a química apagasse parte de quem eu era, mas então olhei para os pulsos, me lembrei do que tinha acontecido na última vez que recusei os medicamentos e aceitei que aquele era o jeito correto de lidar com as coisas.
— Ei, não queria que você fosse embora, mas acho que vai se atrasar para a aula — diz Alma, conferindo o horário no único celular do acampamento. Droga, eu esqueci que a aula começaria em poucos minutos. — Obrigado por ter me trazido aqui. — Dou uma piscadela para minha amiga e levo comigo a rosa cor-de-rosa que havia me dado. — E por me lembrar da aula — brinco.
— Volte sempre que quiser!
Deixo Alma para trás e sigo para a aula. Odeio cálculos e me considero a pessoa mais leiga quando o assunto é matemática, por isso, o professor mandou que eu me juntasse a Henrique caso não conseguisse realizar o exercício que passou. Nem preciso dizer que foi o que aconteceu.
— Sabia que uma hora ou outra seu defeito apareceria! — diz Henri, quando coloco a cadeira perto dele.
— O quê?
— Seu defeito — explica ele. — O motivo de você estar aqui nesse acampamento.
— Você acha que meu motivo para estar aqui é não ser bom em matemática? — pergunto baixinho e franzindo o cenho.
— Até agora não vi nada de estranho em você, então, isso é tudo o que tenho para acreditar. — Ao contrário de mim, Henri não tenta falar baixo, e o professor nos lança um olhar de reprovação.
Reviro os olhos com a brincadeira do garoto. Eu me pergunto se ele chegou a ver o frasco de comprimidos na minha mala. Provavelmente, nem imagina que tomo aqueles medicamentos. Eu me encolho de constrangimento ao pensar em Henrique descobrindo sobre meu passado, mas depois lembro que todos estamos aqui por algum motivo. Qual seria o motivo de Henri? — No que você tem dificuldade nesse exercício? — pergunta ele. — Em tudo, os números dançam em minha cabeça cada vez que tento fazer uma equação.
Ele ri.
— Dançam tipo axé, samba ou… já sei! — brinca Henri. — Dançam Lorde, né?! Você tem muita cara de quem ouve Lorde.
— Idiota — eu o xingo, em tom de brincadeira.
Henrique tenta me explicar como fazer os exercicíos e, mesmo que eu me distraia facilmente a cada segundo, ele não desiste até que minha atividade esteja completa.
— Muito obrigado! — agradeço, enquanto escrevo meu nome na folha. — Você é um ótimo tutor, mesmo que eu continue odiando exatas. — E você é um péssimo aluno, mas continuo gostando de você. Não sei o motivo, mas sinto meu estômago congelar ao ouvir aquela frase: “Continuo gostando de você”. Isso queria dizer que ele gostava de mim? Era bom saber que as pessoas estavam se acostumando com a minha presença. — Você precisa de pontos para conseguir a visita no fim do semestre, não é?! — Henrique me pergunta e eu faço que sim com a cabeça. — Meu treinador perguntou se não conheço ninguém que ajude a limpar as laterais do lago. Alguns campistas costumam poluir o lugar e sempre precisamos de uma limpeza por lá.
— Eu topo! — digo de primeira.
— Legal, podemos ir juntos depois da aula — comemora. A ideia de acompanhar Henrique naquele dia me anima, e, de quebra, eu ainda ganhei pontos para conseguir a quantidade necessária para a visita semestral. Alma disse que eu precisaria de cem pontos, e eu tinha acumulado vinte por concordar em tomar os medicamentos que Suzana havia passado, então, não faltava muito para alcançar meu objetivo.
— Antes que eu me esqueça, alguém te falou mais alguma coisa sobre a pessoa que anda aprontando pelo acampamento? — pergunto ao meu colega, que ele fica meio receoso ao entrar no assunto.
— Nada ainda.
Todos estão um pouco curiosos para descobrir quem é a pessoa que me colocou no meio do lago. O problema é que, quem quer que seja, foi esperto o suficiente para cobrir a lente das câmeras de vigilância durante as estripulias, ficando invisível diante da coordenação, quase como um fantasma. Aliás, foi assim que as pessoas passaram a chamá-lo: Fantasma.
— Bom, espero que logo descubram a identidade dele. — Fecho o caderno e seguro o estojo. — Laura e Álvaro mal conseguem dormir por causa desse seguro o estojo. — Laura e Álvaro mal conseguem dormir por causa desse problema, é inadmissível para eles que isso aconteça no acampamento. — Ouvi dizer, mesmo. Enfim. — Henrique se levanta da cadeira. Ele é apenas alguns centímetros mais alto, mas sinto como se fosse muito maior do que eu. Talvez os músculos definidos pela natação passem essa impressão. — Vamos? — Sim — concordo e começo a arrumar minhas coisas também. Limpar os arredores do lago não é tão difícil, é até mais fácil do que fazer as coisas na locadora em que costumava trabalhar. Na maior parte dos dias, tudo fica limpo, e acabo observando os outros campistas em suas atividades. Às vezes, paro para ver Henrique nadando e para bater papo com ele, em outras, assisto aos grupos jogando futebol nas quadras, mas na maior parte do tempo fico recostado sob as árvores, terminando os deveres que os professores passam. Estudar no acampamento é diferente de estudar no meio do caos que é minha vida em casa. O tempo parece não existir, tudo é mais calmo e não tenho tantas coisas em que pensar. Claro que ainda há preocupações em minha cabeça, como os ataques do Fantasma e as minhas crises quando me deparo com um de meus gatilhos, mas as sessões de acompanhamento com Suzana e os comprimidos que ela prescreveu estão me ajudando a aprender a lidar com as coisas.
Estou no dormitório e acaba de escurecer. As gotas de chuva batem na janela. Henri chegou há pouco tempo da natação e está no chuveiro. Estou quebrando a cabeça para resolver as equações da tarefa de matemática, mas é quase impossível que eu consiga concluir os exercícios. Eu me pergunto quanto tempo Henrique ainda vai demorar para sair do banho para que eu possa pedir ajuda, mas também penso que posso incomodá-lo, porque ninguém gosta de ficar bancando o professor.
Sem pensar mais, vou até a mochila dele e abro o zíper, atento ao barulho do chuveiro. Encontro o caderno e vou passando as páginas à procura da tarefa que quero copiar. Sei que é errado fazer isso, mas Henrique não se importaria se descobrisse e eu acabarei contando para ele.
Em meio às divisórias, encontro o mesmo envelope preto que vi nas coisas de Diego no outro dia. Estremeço.
O que vocês estão fazendo?, me pergunto em pensamento. Abro o envelope e encontro um papel em branco. No verso, descubro o que julgo ser um horário e também um local.
3h – Sob a terra
A água do chuveiro para de cair e devolvo o cartão ao lugar. Então, guardo com cuidado o caderno de Henri na bolsa.
Meu colega de quarto aparece quando já estou de volta à cama, fingindo tentar resolver as equações de matemática. Ele pergunta amigavelmente se preciso de ajuda e minto dizendo que estou quase terminando. Henri vai até a mochila, permanece mexendo nela por alguns segundos, pega o caderno e o joga perto de mim.
— Compare as respostas para ver se você fez da maneira certa! — diz, sorrindo. Sinto uma pontada de culpa por ter invadido a privacidade dele, mas dói ainda mais quando abro a página em que o cartão estava escondido e percebo que não está mais ali.
Henrique está escondendo alguma coisa, e descobrirei o que é. Desde os primeiros dias, me acostumei a colocar os fones no ouvido e dormir escutando música. De alguma maneira, conseguia me sentir perto de casa e todo aquele ritual acalmava meu corpo. Esta noite, infelizmente, estou tão cansado que acabo adormecendo sem música alguma. No meio da madrugada e com sono frágil, ouço Henrique descer da cama e passar pela porta do quarto, quase tão silencionamente que eu poderia jurar que seus pés eram feitos de plumas. Quando ele desaparece, me coloco de pé, calço os sapatos, visto o moletom e me esgueiro atrás dele. Minha mente dispara quando lembro que deixei passar o horário em que deveria tomar meus medicamentos, mas tento não pensar nisso. Temendo ser visto, me distancio alguns metros de Henri, tomando cuidado para que ele não perceba que o sigo. Mesmo que esteja escuro e as chances de me ver sejam quase inexistentes, o medo ainda me acompanha. Observando Henrique passar por vários lugares do acampamento e seguir em direção à floresta, começo a estranhar seu caminho. Sei que o lugar não é muito visitado pelos campistas e que até os coordenadores evitam ir para lá. Não há nada para ver ou fazer.
Apesar de confuso com o percurso, decido continuar seguindo os passos dele. O acampamento está quieto. Sei que todos devem estar dormindo ou sufocando os pensamentos em seus dormitórios. Eu me pergunto até que ponto os limites do lugar permitem que os campistas cheguem. Sei que há muros, mas não sei exatamente a extensão do local. Por um segundo, Henrique olha para trás, e sinto meu corpo congelar. Por sorte, estou perto das árvores e consigo me misturar ao ambiente. Prendo a respiração e só solto quando ele dá de ombros e volta a caminhar, adentrando a floresta.
Piso na mata e meus sapatos afundam na lama. Ignoro e me mantenho atento às mudanças do percurso de Henrique. Está escuro e me guio apenas pelas sombras, que me enganam e brincam com meus sentidos. Posso ouvir ruídos de animais ou talvez apenas insetos escondidos em meio às árvores. Eu me pergunto se há motivo para temê-los ou se faço bem ao ignorá-los. No meio desse pensamento, percebo que meu colega parou de se mover e olha fixamente em outra direção. Ele solta um palavrão baixinho e se joga no chão, sujando todo o corpo de lama. Não demoro a entender o motivo, pois logo em seguida ouço passos cada vez mais perto e, mesmo à distância, reconheço José, o moço que havia me levado até o acampamento. Ele segura a lanterna em uma das mãos e parece saber que algumas pessoas estavam fora de seus dormitórios naquela noite. Sem pensar duas vezes, faço a mesma coisa que Henrique e me jogo no chão, um pouco enojado ao sentir a lama tocar minha pele.
Começo a me sujar, cubro praticamente o corpo inteiro e percebo que fico cada vez menos visível, me camuflando e sumindo no chão escuro. José vai caminhando e chega bem perto de onde Henri está deitado. A tensão do garoto paira no ar e sinto como se meu coração fosse sair pela boca. O que aconteceria se nos pegassem fora do dormitório após o toque de recolher? Será que seríamos expulsos? Talvez, quem sabe, proibidos de voltar para casa durante o tempo de visita? Se saísse ileso daquela situação, teria de lembrar de perguntar para Alma se alguém já foi pego quebrando as regras do lugar. Aos poucos, José se afasta de Henrique, que corre para outro lugar, dando sequência a sua jornada. Xingo baixinho, porque o vigia agora está perto de mim e, apesar de provavelmente estar apenas fazendo uma ronda no acampamento, fico com medo de que esteja à minha procura. Afasto a preocupação assim que José some de vista no meio da escuridão e me coloco de pé, ignorando toda a sujeira colada ao corpo. Tento localizar Henrique, mas não o encontro de maneira alguma.
Volto a caminhar com cautela. Sei que estou indo cada vez mais fundo na floresta e tenho noção dos perigos que posso encontrar caso continue. Confesso que a dúvida sobre a minha segurança me deixa animado, como quando costumava sair com meus amigos pelas ruas de São Paulo em busca de confusão. Sinto as veias do corpo pulsarem, ouço o palpitar do coração em meu ouvido, fecho os olhos e me misturo à floresta. Esqueço o que estava fazendo e viajo de volta para meus dias obscuros, poucos meses antes. Em minha cabeça, ouço a voz de Clarissa me chamando para beber. Ela não faz por mal, está tão perdida quanto eu, procurando solução para curar todos as feridas de sua alma, buscando a felicidade em coisas infelizes. Vejo os olhos de meu pai pairando nas sombras, cheios de lágrimas após o enterro da esposa. Ele tenta me trazer para perto. Sou tudo o que restou para ele, mas o afasto porque machuca demais estar com ele e não ter minha mãe ao meu lado. Recordo de lábios em meu pescoço, mãos em minha cintura e ouço promessas feitas ao vento, as lembranças me chacoalham, assustam, confundem e me jogam de volta para a realidade. Caio de joelhos na grama molhada, sinto o corpo tremer e sei que se não voltar ao dormitório para me aquecer vou acabar adoecendo. Percebo que estou chorando quando as lágrimas se fundem com a garoa fraca que começou a cair, me sinto idiota por ter me enfiado no meio da mata sozinho e me penalizo por ter me esquecido de tomar os comprimidos que Suzana havia me dado. Será que ela havia feito o certo ao me confiar aquele frasco de remédio? Não deveria ter dado a mim, deveria ter me forçado a ir ao seu consultório todos os dias para tomá-los. Não sou capaz de manter meus pensamentos em ordem, quem dirá manter uma rotina. Fico parado por tempo indeterminado, não faço ideia se passam segundos ou vários minutos, e só levanto quando me dou conta de que não estou mais sozinho.
Henrique está ao meu lado, os cabelos molhados pela chuva. A luz do luar finalmente passa pela copa das árvores e ilumina suas costas. Ele me olha e em sua expressão vejo um misto de pena e confusão. Ele hesita, mas se aproxima e toca meu rosto, limpando minhas lágrimas. Viro o rosto, envergonhado. — Você me seguiu, não é?! — pergunta ele, sabendo a resposta. Fico calado, penso em negar, mas sei o quanto seria inútil tentar mentir após ser pego naquela situação. Henrique franze o cenho e coloca as mãos em minha testa, seu semblante tomado por preocupação.
— Demo, você está fervendo de febre! — exclama, assustado. Ele tira a jaqueta jeans suja de lama e a coloca em mim. Eu lhe agradeço, mantendo o olhar baixo. — Vou te levar para o dormitório. — Noto um pouco de irritação em seu tom; sei que está frustrado por descobrir que eu o seguia. — Por que você estava com o aquele envelope no caderno? — A frase sai direto de meus lábios e o choca. — O que você veio fazer aqui? Henrique treme, vejo com clareza através de seus olhos que seu cérebro trabalha para encontrar uma resposta, mas não tenho certeza de que o que ele dirá será a verdade.
— É complicado — afirma.
— Me explique.
Ele abre os lábios como se fosse me dizer, mas os fecha logo em seguida, pensativo.
— Era um convite — revela.
Estou prestes a fazer mais perguntas quando o som estridente de sirenes irrompe quebrando o silêncio ensurdecedor do acampamento. O primeiro pensamento que passa por minha cabeça é que fomos descobertos pela coordenação e que o alarme toca para sinalizar nossa queda. A próxima coisa que faço é correr. Minhas pernas se movem tão rapidamente que mal sinto o chão embaixo de mim e, no caminho, esbarro com alguma coisa pendurada entre as árvores que vem de encontro ao meu rosto. Não identifico o que é por conta da escuridão, mas sei que me machuca. Quando levo a mão ao rosto, sinto gotas de sangue entre os dedos. Volto a correr, com dificuldade: a mesma coisa que me atingiu acabou se enroscando em um de meus pés. Henrique está às minhas costas e correndo junto comigo. Ele chama baixinho por meu nome em meio à respiração entrecortada. Quando me alcança, segura um de meus braços e gentilmente me puxa para os limites do acampamento, fora da floresta, nos levando para os fundos de um dos dormitórios. Escondidos e em segurança, ele coloca as duas mãos sobre meus ombros.
— Não estão procurando por nós! — afirma Henri. Os olhos estão arregalados, mas, mesmo assustado, percebo que ele não está mentindo. — Olhe — ele aponta.
Respiro fundo e olho na direção que ele indica.
A primeira coisa que vejo são os postes de luz piscando, fazendo com que o centro do acampamento fique parecendo um pisca-pisca gigante. A segunda coisa que percebo é que a coordenação já está andando pelo lugar. Eu os enxergo em vários pontos, indo na direção de onde eu e Henrique havíamos acabado de sair. Os campistas também parecem ter acordado com a confusão. Muitos saíram dos dormitórios e se espalharam, eufóricos.
Retomando o fôlego, olho para Henrique e pergunto se devemos nos esconder, ele ignora a pergunta ao perceber o corte em meu rosto. — Você está sangrando.
— Não foi nada — respondo.
Lembro como me machuquei e tento ver se o que me atingiu ainda está enroscado em meus pés. Para a minha surpresa, encontro um cordão em meio ao cadarço do meu tênis e o puxo. Quando chega ao fim, vejo uma espécie de boneco de palha amarrado a ele. Estremeço ao perceber que é um daqueles bonecos associados ao vodu, de palha e gravetos, como os que apareciam no filme A bruxa de Blair.
Olho com atenção para onde acabamos de sair e percebo que aquele boneco não era um soldado em missão solitária: viera com todo o exército. Amarrados entre as árvores, na entrada da floresta, dezenas de vodus pairam sobre as cabeças das pessoas que observam curiosas a cena assustadora. Ouço gritos de pavor e também algumas risadas. Os coordenadores já nem tentam mais apaziguar o caos que se instala no acampamento.
É explícito que a situação saiu do controle. O Fantasma havia atacado novamente.
Os pelos do meu corpo se arrepiam quando aperto o boneco que me atingiu e passo a reparar em seus detalhes, buscando algum significado. Sei que vodus geralmente servem para simbolizar pessoas ou colocá-las como alvo. Desesperado, busco algum símbolo, olhando atentamente cada detalhe do objeto até que enfim encontro o que procuro em uma das extremidades. Especificamente onde deveria ser uma das mãos, uma pequena flor está amarrada entre os fios de palha.
Lembro do dia em que acompanhei Alma à estufa e sinto como se tivesse levado um soco no estômago. Encaro Henrique esperando sua reação, e ele desvia o olhar, incomodado.
— O papel em seu caderno — começo. — Era um convite para quê?