Submerso

Eduardo Cilto · Capítulo 7 de 11

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Submerso

Capítulo Sete

Pegue minha mão

Tome minha vida inteira também,

Porque eu não consigo evitar

Me apaixonar por você

”Cant Help Falling in Love”, Elvis Presley[9] A brisa gélida que vem do mar sopra os fios do meu cabelo e faz com que os pelos do meu braço se arrepiem. Apesar de não estar com tanto frio, fecho o zíper do casaco e respiro fundo, aproveitando a maresia. Quando eu era criança, não gostava muito de ir à praia. Eu me lembro das inúmeras vezes que meus pais desceram a serra comigo só para ficarmos dentro de casa, porque eu me negava a chegar perto do mar. Naquela época, eu acreditava que a qualquer momento uma onda gigante se formaria, carregando consigo tudo e todos com quem me importava. O medo foi substituído pela curiosidade, a ânsia de saber o que se escondia dentro de todo aquele azul. O oceano era tão gigante e misterioso que me fascinava. As coisas que me fascinam também me amedrontam.

— O que você tem aí na mochila? — pergunta Alma para Henri, enquanto vamos em direção à areia.

— Resumidamente, tudo o que nos deram para comer no jantar durante os últimos dias — responde meu amigo. Alma o olha intrigada. — Algumas frutas, barras de cereal e pacotes de bolacha roubados de outros campistas desatentos. — Um piquenique e tanto! — ironizo. Fazer um piquenique na praia havia sido ideia de Henrique, então, ele tinha se encarregado de recolher os alimentos para que pudéssemos fazer o que planejávamos.

— Poderia ser pior. — Ele dá de ombros. — Poderíamos ter um piquenique sem comida.

Rimos.

Chegar à praia não foi tão difícil. Na verdade, foi até mais fácil do que eu esperava. No momento em que passamos pela lateral do acampamento e entramos na trilha da floresta que nos levaria até a orla, nos deparamos com os seguranças, cujo trabalho é manter os campistas dentro do Misfit. Então, Henri e eu nos esgueiramos por trás dos homens, enquanto Alma foi até eles a fim de distraí-los com a ideia de que estava ali a mando dos pais. Alma chegou de mansinho, arrastando as sandálias na trilha de barro, sujando as beiradas do vestido marrom toda vez que dava alguns passos. Um dos seguranças, provavelmente uns dez anos mais velho que ela, teve o semblante iluminado quando a avistou chegar e perguntou o que a trazia até aquela parte do acampamento. Alma arriscou, dizendo que a mãe havia perguntado se os seguranças tinham visto alguma coisa incomum durante as últimas noites em seus turnos, e eles balançaram a cabeça, negativamente. Enquanto Alma mentia, Henrique sorria ao meu lado, escondido entre os troncos das árvores. — Ela é uma boa mentirosa — comenta.

Levanto uma das sobrancelhas e o encaro, interpretando a frase como uma acusação.

— Que foi? — pergunta baixinho. — Comentei isso muito cedo? Reviro os olhos. Alma termina de conversar com os seguranças e diz que precisa ir até o final da trilha para verificar se consegue identificar alguma irregularidade. Os guardas se entreolham e, apesar de Alma não transparecer, sabem que ela está meio tensa.

— Tudo bem, pode ir — diz um deles, afinal.

Alma agradece e passa por debaixo da cancela que separa a trilha do restante do Misfit. Henrique e eu voltamos a andar por dentro da mata, camuflados pelas inúmeras árvores e moitas que cobrem o lugar.

Alguns metros depois, Alma se junta a nós e voltamos a caminhar juntos. — Você é boa! — elogia Henrique, sorrindo para ela. — Obrigada, você deveria andar mais comigo — agradece ela, dando uma piscadela e retribuindo o sorriso. — Posso te ensinar algumas coisas. A maré está alta e não nos aproximamos demais da água. Vamos a um rochedo a alguns metros do mar, que nos proporciona a visão do oceano e de boa parte da praia, totalmente deserta.

— Em que parte do país estamos? — pergunto. Até então, não havia tocado nesse assunto com nenhum de meus amigos.

Henrique senta na rocha e ajeita o corpo, deixando os pés ao ar livre na ponta da pedra.

— Parte do país? — repete, franzindo as sobrancelhas. — Estamos em São Paulo, Demo.

Olho para Alma, esperando confirmação, mas ela não diz nada. — Por que acha isso?

— Quando vim do Rio de Janeiro até aqui, não me trouxeram de avião nem demorou muito também — comenta Henri. — E você é de São Paulo, não é? Faço que sim com a cabeça.

— Já percebeu que a maioria dos campistas e dos coordenadores tem sotaque paulista? — pergunta.

Eu realmente não tinha notado aquele detalhe. Acho que por estar acostumado com o sotaque da minha região, não lembrei que, se estivesse em um estado com o sotaque da minha região, não lembrei que, se estivesse em um estado diferente, o jeito de falar também mudaria.

— Meu palpite é que estamos no litoral norte de São Paulo — arrisca Alma, finalmente falando alguma coisa. — A água é quase clara e não é tão quente quanto no resto do país, tem quase o mesmo clima da capital. — A garota falava com pausas, como se nunca tivesse dito aquilo em voz alta. — Seu celular não tem gps? — dispara Henrique, eufórico e desconfiado. Alma hesita, levando uma das mãos ao bolso onde estava o celular. — Sim — responde, abaixando o olhar. — Mas está desativado… — Pausa. — Eu poderia ativar, se quisesse, mas nunca senti necessidade. — Você passou todos esses anos aqui e não quer saber onde está exatamente? — pergunto. É meio surreal ouvir isso.

A garota desliza a mão pelo cabelo e respira fundo. — Se eu soubesse, teria a ideia de querer descobrir o mundo lá fora, e não posso fazer isso — explica. — Por que sentir vontade de algo que sei que não poderia ter?

Ficamos os três em silêncio, apenas ouvindo o som das ondas quebrando abaixo de nós, batendo contra as paredes da rocha.

— Alguém está com fome? — Henrique acaba com o clima tenso que havia se instalado tirando um pacote de bolachas recheadas de dentro da mochila e nos entregando. — A conversa ficou dramática do nada — brinca. Alma sorri de lado, pegando uma bolacha e a levando aos lábios. — Claro que ficou dramática, tipo, somos nós, campistas de um acampamento para desajustados — ironizo.

Comemos algumas coisas que Henrique havia levado, nada que pudesse realmente nos alimentar, mas também não nos deixaria passar fome durante o tempo em que ficaríamos na praia. Quando ficamos satisfeitos, Alma sugere descermos até a areia e entrarmos na água, o que anima Henrique, fazendo-o aceitar a proposta na mesma hora.

— Acho que vou ficar apenas olhando. — Tento me manter fora da brincadeira, está um pouco frio demais para me molhar. Meus amigos me encaram com olhar de julgamento, mas dão de ombros. Sei que não me obrigariam a fazer algo que eu não quisesse.

Eu os acompanho até o fim da praia, onde as ondinhas se desenrolam e umedecem a areia. Lá, Henrique e Alma tiram as roupas e eu aproveito para tirar os sapatos.

Eu me surpreendo ao ver que, debaixo do vestido rodado, Alma veste um maiô levemente decotado e vermelho, com estampa de bolinhas pretas que lembram uma joaninha. A cor do maiô contrasta perfeitamente com sua pele, deixando-a mais bonita do que nunca. Apesar de mostrar boa parte do corpo, ela curiosamente não parece estar envergonhada, e sim bem confortável com a presença de dois garotos ao seu lado.

Henrique também a observa, surpreso com a escolha da vestimenta. Ele tira a camisa e fica de sunga, como de costume. Eu me pergunto se ele sempre usa roupas para nadar ou se às vezes veste cueca por baixo das calças. Aquele pensamento faz todos os pelos de meu corpo arrepiarem, então, afasto os olhos de Henrique na tentativa de que ele não perceba que estou envergonhado. — Está todo arrepiado, Demo — diz Henrique, chamando minha atenção. — Se estiver com frio, pode vestir minha camiseta. — Sorri. — O-obrigado — respondo, sem jeito.

— Por Deus, Dimitri, você não sabe disfarçar mesmo, não é?! — diz ela baixinho, perto de mim. Então, se vira para Henrique e pergunta: — Vamos entrar?

Eles estão nadando há cerca de vinte minutos e eu os observo se divertirem ao longe, dando risadas cada vez que uma onda grande vem e os dois são engolidos por ela. Entre uma e outra braçada, eles conversam e acenam para mim. Não consigo deixar de sentir curiosidade.

Aos poucos, molho os pés e sinto o líquido frio em contato com meus calcanhares. Fecho os olhos e me permito desejar ir até eles. Senti aquela sensação muitas vezes depois que voltei do hospital pela primeira vez. Era familiar observar certas coisas à distância e me privar de determinados sentimentos com medo das consequências, me preocupando com o bem-estar do meu pai e dos meus amigos e esquecendo por completo o que a falta daquelas experiências me faria. Tenho uma teoria de que cada um de nós está dentro de sua própria bolha, sobrevoando e observando o mundo através das finas camadas de sabão, como paredes criadas por nós mesmos para nos proteger do desconhecido. No entanto, conforme crescemos, a bolha fica cada vez mais apertada e nos falta espaço, conforto e ar. Em busca de libertação, estouramos as bolhas e em queda livre chegamos à realidade, sem jamais conseguirmos voltar. Afinal, uma vez que você estoura uma bolha, ela deixa de existir. O mesmo acontece com os limites que colocam para você. No momento em que me dou conta, tiro a camiseta e a água está na altura de meus joelhos, molhando totalmente minha calça. O medo de entrar no oceano permanece, mas não é maior que a vontade de estar perto de meus amigos. Vou mais fundo.

Alma e Dimitri me encaram surpresos e acompanham com os olhos meu trajeto até eles.

— Mudou de ideia, é? — pergunta Alma, vindo até mim e me abraçando. — A água está gelada, mas logo se acostuma. — Ela tenta me tranquilizar ao ver meu corpo tremer. — Henri disse que você não sabe nadar. — Ele me ensinou algumas coisas, mas não sou tão bom quanto ele — afirmo com dificuldade, os lábios tremendo.

— Segura minha mão e não solta, tudo ficará bem — propõe a garota, juntando nossas mãos debaixo da água.

Sorrio para ela em gratidão.

Henrique flutua ao nosso lado e balança com o movimento das ondas, mexendo os braços para se manter na superfície. Sinto a mão quente de Alma contra a minha no ambiente gelado e meu peito pesa ao ver Henrique sozinho do outro lado.

Sem pensar muito, estendo a mão livre para meu amigo e ele a agarra. — No três… — Coloco-me em posição de mergulho. Juntos fazemos a contagem regressiva e nos jogamos de cabeça para dentro do oceano.

A água congela meu rosto e sinto todo o corpo acordar, como energia que corre pelas entranhas de um robô há muito tempo desligado. Mesmo com os olhos semicerrados, sou capaz de ver meus amigos ao meu lado, entre as milhares de bolhas de ar que se formam ao nosso redor.

Com um pouco de dificuldade, abro totalmente os olhos e os vejo: Alma e Henrique juntaram as mãos, nos ligando e formando um círculo. A pressão se choca contra meus ouvidos, mas não me incomoda tanto. É interessante ver o mundo por aquele ângulo. Nada acima de nós parece existir ou sequer importar. Submerso, tudo é quieto e pacífico, posso jurar que até o tempo passa mais devagar quando estamos lá, em câmera lenta, como se estivéssemos em nosso próprio universo ou em nossa própria bolha. Henrique está sorrindo e seus olhos verdes estão mais claros do que nunca, enquanto os cachos de Alma se desprendem e dançam ao seu redor, como se possuíssem vida. Por um segundo, penso em minha mãe e a imagino nadando conosco. Em minha cabeça, eu a vejo usando um grande vestido branco, os olhos se fundindo com o oceano de tão azuis, sua imagem reluz com os raios de sol que atravessam a superfície e o pensamento desaparece. Alma e Henri me puxam para cima e emergimos em busca de ar. Mesmo sem fôlego, acho que nunca me senti tão bem quanto lá embaixo. Está começando a escurecer quando voltamos para a areia, então, Henrique decide fazer uma fogueira com os galhos que catou nas redondezas. Alma está um pouco relutante, com medo de que vejam a fumaça e nos encontrem. Não me importo muito. A verdade é que mal me lembro que ainda estamos no acampamento. Aliás, estávamos no Misfit para melhorar, não era?! Agora, me sentia melhor do que em qualquer outro momento da minha vida, não poderiam me castigar por algo que faz com que me sinta tão bem. Visto a camiseta. Ela está seca, mas minha calça continua molhada, é impossível que o frio não me alcance. Vou até a fogueira e sento perto dela, tentando me esquentar. Alma e Henrique se aproximam e se acomodam cada um de um lado. Ela encosta a cabeça em meu ombro e descansa com os olhos fechados. Vejo as mãos de Henri se movendo disfarçadamente em direção à minha e finjo não perceber quando seus dedos entram em contato com a parte de cima de minha mão. O frio vai embora e as borboletas estão de volta. — Alma? — Henri corta o silêncio e chama a atenção da amiga, que abre os olhos e responde ao chamado. Tenho certeza de que ela consegue ver a mão de Henrique em cima da minha, mas não demonstra estranhamento. — Sim?

— Posso te perguntar uma coisa que talvez pareça meio estranha? — pergunta ele. Pela maneira que fala, percebo que repassou aquelas palavras mentalmente milhares de vezes antes de realmente dizê-las.

— Acho que pode — responde insegura e desconfiada. Sinto o estômago revirar, porque tenho ideia do que está por vir. Puxo a mão.

— Você disse conhecer bem o acampamento… — começa, tomando cuidado. — Costuma andar por ele durante a madrugada?

A garota demora a responder, franzindo as sobrancelhas e recolhendo o corpo. — Não… — afirma ela, abaixando o tom da voz. — Durmo cedo. Henri respira fundo e expira.

— Estou perguntando porque uma amiga minha disse que a viu andando por aí depois do toque de recolher em lugares um pouco perigosos e… — Pausou. Pronto, uma vez dito, não há como voltar atrás. — E eu estava me perguntando se o que ela viu era realmente verdade.

— Andar pelo acampamento durante a madrugada é proibido — ela dispara, fugindo da pergunta.

— Estar aqui na praia também é proibido, mesmo assim, estamos aqui — rebate Henrique, firme, deixando-a sem saída. — Você estava nos túneis? Aperto os olhos, tentando me acalmar e não me intrometer na conversa, apesar de estar cem por cento envolvido. Sinto o coração bater mais rápido enquanto Alma demora a responder. Quero que ela negue, que não faça ideia do que ele está falando e que tudo aquilo não passe de uma mentira. — Estava — murmura de cabeça baixa.

O céu está escuro e a luz que chega até nós vem da fogueira no centro. As chamas bruxuleiam e iluminam parte do rosto de Alma, refletindo a cor laranja em seus olhos marejados.

em seus olhos marejados.

Eu me pergunto se ela já conhecia os túneis, se sabe suas origens ou se tem ideia do que está atrás da porta trancada lá embaixo. Tudo parece meio confuso agora que sei que Lorena não estava mentindo e que foi realmente Alma quem ouvimos descer pela escotilha à noite.

Eu defendi Alma com unhas e dentes quando Serena e Diego tentaram me alertar sobre ela, jamais passaria por minha cabeça que não estivesse sendo sincera comigo. Tento não criar teorias, mas me sinto extremamente bobo ao pensar que a aproximação de Alma nos primeiros dias possa ter sido algo planejado, friamente calculado pelos coordenadores para um objetivo final que eu ainda não entendo.

— Por que não me contou antes? — Abro a boca pela primeira vez desde que havíamos sentado.

Alma funga e tenta secar com os dedos as lágrimas que brotam, mas eles estão cheios de areia e ela acaba secando no tecido de seu vestido. — Eu não sabia como, Dimitri! — ela se justifica. Não digo nada, dou o tempo para ela se recompor e dizer o que tem para falar. — Mas não fazia a menor ideia de que havia túneis debaixo do Misfit — explica. Parece genuíno, mas as palavras que Henrique disse mais cedo ressoam em minha cabeça.

“Ela é uma boa mentirosa.”

— E o que estava fazendo lá? — continuo.

— Seguindo você — assume.

Suas palavras confundem não só a mim, mas também ao Henrique. Ficamos sem saber como reagir à revelação.

— Me preparava para dormir quando o vi de relance passando por minha janela — conta. — Já era tarde e o toque de recolher havia sido dado, então, estranhei quando você passou.

Alma respira fundo e se coloca em pé, virada para o mar. — Aí, saí escondida do quarto e o segui, mantendo distância. — Sua voz está trêmula. — Não te chamei porque não sabia o que você faria, fiquei com medo de você tentar fazer alguma coisa contra você mesmo. — Ela vira o rosto para mim e me encara. — Sabe, alguma besteira.

Abaixo a cabeça e encaro a areia.

— Fui atrás de você até o momento em que o vi sumir pela escotilha, então, esperei algum tempo para me certificar de que não havia mais ninguém ali e entrei também.

Fico aliviado ao ouvir o lado de Alma sobre o acontecimento que ambos havíamos vivenciado. Sabia que ela podia estar mentindo, mas minha intuição dizia que contava a verdade e eu queria com todas as forças que não estivesse apenas me enrolando. Henrique relaxa os ombros e se deixa cair de costas na areia, sei que também acreditou nas palavras de Alma. Levanto com calma, vou até minha amiga e a abraço. — Desculpe por duvidar de você. — Sinto sua pele fria encostando na minha. — Mesmo que por um segundo.

— Tudo bem, eu deveria ter contado antes.

Sinto Henrique chegar por trás e se juntar ao abraço, nos esquentando. Quando faz isso, Alma estremece um pouco. Tenho medo de que a discussão tenha quebrado alguma coisa na nossa amizade.

— Também preciso pedir desculpas! — diz ele, arrependido. Alma dá um sorriso amarelo e assente.

— Estamos bem — comenta, mas se desvencilha do abraço. — Meninos, preciso subir para o acampamento antes que os seguranças estranhem tanta demora e venham me procurar. — Apesar de termos descoberto o que Alma fazia nos túneis e termos nos entendido, acho que ela ainda precisa de um tempo sozinha para pensar sobre as coisas. — Vocês sobem comigo? Henrique e eu nos entreolhamos, precisamos conversar a sós sobre o que tinha acabado de acontecer.

— Agora, não — digo. — Com o céu escuro, é fácil nos escondermos na trilha, acho que não teremos problemas.

Alma dá outro sorriso amarelo.

— Então, boa sorte! — Pega as sandálias na areia e as calça. — Obrigada pelo convite, adorei passar o dia com vocês!

— Também adoramos — Henrique e eu respondemos em coro enquanto observamos Alma caminhar e ir ficando cada vez menor, sumindo na entrada da trilha.

Olho para cima e percebo como a lua está grande, tão amarela e cheia que até parece feita de queijo. Fazia tempo que eu não olhava para um céu tão limpo. Com o campo de visão livre por conta do mar, consigo contar cada uma das estrelas sem dificuldade alguma.

— Conversa difícil, não é?! — Passo as mãos pelo cabelo. — Nem me fale — confessa Henrique. — Me senti bem mal depois de descobrir que ela estava apenas seguindo você.

— Eu também.

Meu colega de quarto arrasta os pés e joga um pouco de areia nos meus de propósito. Eu o encaro e reviro os olhos.

— Então, perdeu o medo da água, é?!

— Acho que sim — respondo, sem muita certeza. — Mas por enquanto vou me limitar a entrar somente quando estiver com outras pessoas. — Pauso. — limitar a entrar somente quando estiver com outras pessoas. — Pauso. — Especialmente com Alma e você. — Fico corado. Por um momento, me sinto envergonhado por estar com o rosto vermelho, mas, quando o encaro, vejo que ele também está.

Contenho um sorriso.

— Seu cabelo está desaparecendo.

Demoro um tempo até entender que ele está falando sobre a cor. Eu quase nem lembrava que havia tingido o cabelo pouco antes de chegar ao acampamento. — Está, mesmo? — pergunto curioso.

— Sim — afirma, chegando perto de mim e olhando os fios do meu cabelo de perto. — Boa parte da raiz está preta, enquanto o azul desbotou completamente. — Henrique bagunça meu cabelo com a mão e sinto como se fosse derreter com seu toque.

— É porque estou melhorando psicologicamente, então, ele está voltando ao natural — brinco.

Ele me fita com as sobrancelhas erguidas e o rosto inclinado e solta uma gargalhada.

— Por que pintou? — questiona, ainda rindo.

— Estava cansado de olhar no espelho e ver a mesma pessoa todos os dias — respondo, sem muito sentimentalismo. Não estava muito a fim de estragar o momento revelando para ele a história de como havia parado no Misfit. — Também já me senti assim.

— É, acho que todos já nos sentimos.

Com o cair da noite, os grilos saem de seus esconderijos e passam a cantarolar, contrastando com o vibrar das árvores e o quebrar das ondas. Está ficando tarde, mas não quero voltar para o acampamento, e peço mentalmente para que Henrique também não queira, já que não faz o menor sentido ficar aqui sem ele. Eu me censuro por meus pensamentos. Não posso continuar assim. Ou será que posso?

— No que está pensando? — pergunta ele, provavelmente observando minha expressão.

— Em casa — minto, tentando parecer realista. — Fico me perguntando o que estão fazendo agora que estou longe. — Alma ficaria orgulhosa de me ver mentir tão bem. — Você não pensa na sua casa? — Desvio o foco da conversa para ele.

O garoto demora a responder e me arrependo de ter feito a pergunta por lembrar que não faço a menor ideia do motivo de Henrique estar no acampamento. — Evito pensar — diz, os olhos fixos no horizonte. — Não tenho uma boa relação com meus pais.

Automaticamente, sinto culpa pesando por ter trazido o assunto à tona. Foi Automaticamente, sinto culpa pesando por ter trazido o assunto à tona. Foi egoísta de minha parte evitar falar sobre mim e manipular o rumo da conversa para que o foco fosse ele.

— Sinto muito! — Eu baixo o olhar. — Não deveria ter falado sobre isso, foi burrice minha.

— Não foi nada. — Sua voz é suave, quase tão calma quanto a brisa matinal. — Henrique senta na areia, desvia o olhar para mim e bate com a mão no chão, me convidando para sentar ao seu lado.

Faço o que ele pede e me ajeito na areia úmida, com apenas alguns centímetros de distância entre nós. Tento ignorar a sensação de estar perto dele, mas é difícil. É como se fôssemos dois polos de um ímã. Não faço ideia de se ele também é capaz de sentir essa energia dançando a nossa volta, mas em minha cabeça enfio a ideia de que ele não percebe nada de diferente rolando entre a gente. — Cresci num ambiente tóxico, sempre cercado de falsidade e falta de respeito — ele começa a contar, os olhos verdes encaram os meus como se eu tivesse a chave para abrir a porta dos segredos guardados dentro dele. — Apesar de terem boas condições financeiras, meus pais são extremamente intolerantes. Nunca me opus às ações de meus familiares porque nunca tinham me atingido. Eu o ouço com atenção, sem dizer muita coisa porque sei que, provavelmente, não contara aquilo para muita gente. Ele está abrindo seu coração comigo e isso me deixa eufórico para entender o que se passa em seu peito. — Até o dia em que não aguentei e deixei tudo para trás. Minha cabeça estava uma bagunça e eu passava a maior parte do tempo dentro da piscina, porque fora dela minha vida era como uma bomba-relógio prestes a explodir — ele continua a narrar a história, agora com os olhos marejados. — Contei para minha mãe tudo o que eu estava sentindo: sobre estar confuso e não conseguir lidar com aquilo sozinho. Ela disse que eu precisava de ajuda, e eu realmente precisava, mas não do tipo de ajuda que ela queria que eu tivesse. Estendo o braço e o posiciono em seus ombros, confortando-o em seu desabafo. — Então, passei a morar com um tio que me ajudou a entender as coisas, digo, não por completo, mas, ao menos, tentou — explica. — Dormi na casa dele durante algumas semanas até que meus pais decidiram se posicionar sobre minha situação e acabaram me jogando nesse acampamento. — Então, tecnicamente, você está trancafiado no Misfit enquanto quem realmente tem problemas são seus pais? — pergunto, digerindo tudo o que ele me contou.

— Basicamente.

— E o acampamento te ajudou a melhorar de alguma maneira? — É estranho que eu tenha curiosidade sobre isso, até porque nunca cheguei a falar com Henrique sobre as sessões dele com Suzana. Acho que pensava que falar sobre problemas pessoais com outros campistas era antiético. — Ajudou — conta o garoto, estreitando os olhos. — Mas confesso que, ultimamente, tenho voltado a me sentir confuso. — Quando isso voltou a acontecer? — pergunto, transmitindo preocupação na voz. — Quando seus pais vieram te procurar?

— Não — responde, firme. — Desde que te vi pela primeira vez. Meu coração dispara ao ouvir a frase e as borboletas em meu estômago reaparecem de vez, batendo as asas com mais força do que nunca. Estou tão nervoso que mal consigo pensar. Nunca me falaram nada assim, pelo menos, não alguém com quem eu me importasse. Passei tanto tempo reprimindo desejos e afastando pensamentos que é difícil assimilar que o garoto ao meu lado acaba de dizer que eu o fazia se sentir confuso quanto aos seus sentimentos. O que ele não sabe é que ele também desorienta meus sentimentos. Na verdade, sempre fui muito perdido quando se trata de sexualidade. Nunca me senti atraído pelas pessoas da mesma maneira que meus amigos. Sou um enigma para mim mesmo. Sem saber o que fazer ou responder, eu o encaro em silêncio, contemplando o quanto é bonito. Seu cabelo ainda está um pouco molhado e cai sobre a testa, deixando-o com um visual rebelde. Ao olhá-lo tão de perto, posso ver cada detalhe de seu rosto, como as marcas de sol em sua pele, as olheiras em torno de seus olhos ou a barba por fazer que cresce aos poucos, planejando levar embora a cara de menino que ainda tem.

Desço o olhar até sua boca.

Sinto um formigamento subir dentro de mim e não faço ideia de onde ele veio, mas sei o que devo fazer.

Sem pensar duas vezes, puxo Henrique para perto de mim e junto seus lábios aos meus. O efeito é instantâneo. Meu corpo inteiro pega fogo e sei que ele vivencia a mesma coisa. Consigo sentir o desejo queimando através de seu beijo. Aos poucos, ele fica confortável com a minha presença e se acostuma com meu toque, suavizando os movimentos e encontrando o nosso ritmo. De repente, todas as minhas dúvidas desaparecem e não consigo pensar em mais nada. Só o que resta é a vontade de ficar entrelaçado com Henrique para sempre. Levo a mão ao rosto dele e o acaricio. Sinto a barba quase inexistente pinicando na palma da mão e essa sensação faz meus pelos arrepiarem, como se sua pele me eletrizasse. Ele desce as mãos e agarra minha cintura, o que me faz perder os sentidos por alguns segundos e aumenta minha vontade de continuar beijando, então, o puxo para mais perto.

Henri é quente e seu corpo parece estar em chamas. Gosto da sensação, me traz paz e até certa comodidade, como se eu pudesse dormir aninhado em seus braços.

braços.

Mesmo com os olhos fechados, sei que estão marejados, e não entendo o motivo. Henrique me impacta de maneiras às quais nem meu corpo sabe como reagir. Afasto um pouco nossos lábios à procura de oxigênio e ele aproveita para fazer o mesmo.

O céu troveja, nos avisando que logo começará a chover. Não encaro Henrique porque não sei como lidar com o que acabou de acontecer, então, coloco a cabeça em seu ombro e fico ali por um tempo, sentindo a quentura de seu pescoço e respirando seu cheiro. Apesar de ele ter passado o dia na água comigo, posso jurar que sinto seu perfume.

Quando me sinto confortável novamente, ergo a cabeça e finalmente o vejo. Seus olhos reluzem e me transmitem confiança e tranquilidade, coisa que jamais esperei que fosse descobrir nos olhos de outro garoto. Mas a vida tem maneiras estranhas e interessantes de nos surpreender, e eu aprecio isso. Apesar das gotas frias de chuva que começam a cair em meu rosto, sinto como se tivesse o sol inteiro dentro de mim, aceso pela faísca que saiu daquele beijo e que, apesar de pequena, foi suficiente para incendiar meu corpo inteiro Encosto o rosto no de Henrique e sorrio. Ele também abre um sorriso. Nossos lábios voltam a se encontrar.