Submerso

Eduardo Cilto · Capítulo 8 de 11

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Submerso

Capítulo Oito

O sol se põe mais tarde

No lugar em que eu nasci

Onde sonhos vão para morrer

Enquanto se divertem

“Suburbia”, Troye Sivan[10]

— Está ansioso para voltar para casa?

Estou sentado no escritório de Suzana e ela quer saber se estou confortável com a ideia de voltar para o lugar que me fez tão mal algum tempo atrás. — Acho que sim — digo. Pensando bem sobre o assunto, fico realmente curioso para saber como estão as coisas por lá, pois não tenho o mínimo contato com o mundo exterior dentro do Misfit. — Estou com saudade do meu pai. Suzana abre um sorriso.

— Isso é bom, querido! — exclama, começando a anotar algumas coisas em meu relatório. — E conseguiu a pontuação exigida para que a visita seja feita? É claro que ela sabia a resposta: as pessoas que trabalhavam no acampamento controlavam os registros de todas as nossas atividades, quero dizer, quase todas. Eu me lembro de todas as regras que quebrei desde o dia em que cheguei e quase dou uma risada recordando que fiquei assustado quando Laura mostrou a lista de regras do lugar.

— Sim, consegui — respondo. — Passei boa parte das minhas tardes ajudando a limpar o lago, tirei notas boas nas provas e também auxiliei Alma na estufa — conto, orgulhoso, enumerando as coisas que fiz. — Então, já pode começar a arrumar as bagagens — diz ela, em tom suave. — Aliás, tem tomado os remédios que lhe foram prescritos? Faço que sim com a cabeça.

— Que maravilha! Está melhor do que planejávamos. Comprimo os lábios, estranhando a excitação em sua voz. — Provavelmente, esta será a última sessão que teremos antes de você partir para a visita, então, preciso que ouça com atenção o que tenho a dizer. — Suzana ainda fala de maneira gentil, mas o tom alegre diminui. A mãe de Alma junta as mãos e cerra os olhos.

— Quando estiver de volta em sua casa — começa —, peço que não revele os detalhes do acampamento para seus familiares ou amigos. — Pisco duas vezes, digerindo a informação e tentando entender os motivos para ela estar pedindo aquilo. — Estamos enfrentando um período difícil com essa questão do Fantasma e achamos que os responsáveis podem ficar assustados caso descubram o que vem acontecendo no Misfit. — Uma expressão sombria toma seu rosto e a excitação dá lugar à preocupação, revelando que a animação de antes era apenas para mascarar o que estava realmente sentindo. Eu me pergunto se alguém já teria pensado em desistir do acampamento por causa do Fantasma. Apesar de não ter atacado com frequência, ele plantou dúvidas sobre a confiabilidade do Misfit na cabeça dos campistas e abalou as estruturas do acampamento. Poderia ser fatal para a instituição se os responsáveis soubessem que, em vez de ajudar os filhos, o lugar estivesse propiciando um ambiente que os aterroriza.

— Então, este pode ser nosso segredo? — pergunta Suzana, afinando a voz e forçando um sorriso. — Se a situação fugir do controle, você pode não conseguir voltar para o acampamento.

Abaixo a cabeça e encaro o chão, sentindo o peso de seu olhar sobre mim. — E você precisa voltar, não é, Dimitri?

 

Estamos quase em meados de junho e o clima esteve realmente muito gelado nos últimos dias, o que fez com que as atividades no lago fossem suspensas e transferidas para as piscinas aquecidas no ginásio, que eu nunca visitei porque não fazia muita questão de ir até lá. Henrique passa boa parte de seu tempo ali. Prefere nadar nas águas do lago, é claro, mas está desconfortável demais até para ele.

Observo o movimento do acampamento pela janela do quarto e sinto um nó na garganta lembrando o que havia acontecido na praia. Henri e eu não conversamos sobre nossos beijos, e evitar aquela conversa prolonga a minha confusão e o medo de que a amizade possa ser afetada. Na verdade, não acredito que nossa relação possa ficar ruim, mas temo que tenhamos nos precipitado, agindo sem pensar.

Na noite após o beijo, voltamos para o dormitório em silêncio. Ele se deitou na cama de cima como se nada tivesse acontecido e mal tive coragem de responder quando me desejou boa noite.

Parte de mim tinha medo do que acontecia porque nunca tinha sentido algo tão forte e verdadeiro emanando do meu corpo. Era um sentimento arrebatador que me consumia, e não havia uma parte de mim que não se acendesse quando eu me lembrava do toque dos dedos de Henrique. Mas pensar que aquilo era causado por um garoto bagunçava toda a minha cabeça.

Nunca fui preconceituoso, jamais tive problemas em aceitar as diferenças e não sou o tipo de cara que cresceu em uma família perfeita. Meus pais me ensinaram a respeitar e apreciar tudo o que divergia do mundo com que eu estava acostumado. Lembro que certa vez, quando era criança, estava recortando palavras de uma revista qualquer enquanto fazia o dever de casa e passei a encarar a tesoura de uma maneira diferente: olhava para ela e então para meu cabelo no reflexo de suas lâminas. Quando minha mãe chegou à sala, me encontrou com um novo corte de cabelo, totalmente assimétrico e esquisito. Ao contrário do que a maioria das mães faria, a minha mãe não surtou nem brigou comigo, apenas riu. Sua risada preencheu o cômodo inteiro e chamou a atenção de meu pai nos fundos da casa. Quando ele veio ver o que estava acontecendo, me encarou por alguns segundos e repetiu a reação da minha mãe. — Como você vai para a escola agora? — perguntou ele, enquanto retirava a tesoura de meus dedos.

— De carro. — Lembro que respondi, sem entender o que queria dizer. — Do mesmo jeito que fui hoje!

Mamãe voltou a rir, mas sua expressão se suavizou quando se aproximou de mim para pegar os fios de cor escura que sujavam o chão. — Ele está certo, querido — disse ela. — Não há nada de errado com o cabelo dele.

No outro dia, quando as crianças começaram a zombar de mim pelo que eu havia feito, as palavras de minha mãe dizendo que não havia nada de errado comigo ecoavam por minha mente.

Minha mãe estava certa, não havia nada de errado comigo. — Alô, Terra chamando Dimitri.

Paro de observar o acampamento e volto a atenção para dentro do quarto, de onde Henrique me chama, arrancando-me da nostalgia. — Desculpa, não te vi chegar — falo, comprimindo os lábios. — Estou aqui há uns dez minutos — diz, levantando uma das sobrancelhas. — Você está bem?

Sei que juntar as mãos passa a impressão de insegurança, mas não consigo evitar, estalando os dedos conforme as movimento. — Acho que sim — respondo, mas não o encaro. — É só que… tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Henrique fica em silêncio e nossa respiração é a única coisa que consigo ouvir. É estranho como os corpos se comunicam sem que precisemos abrir a boca para falar. As conversas mais significativas tendem a ser aquelas em que mal trocamos palavras porque estamos conectados o suficiente para entender o que a outra pessoa quer dizer.

E entendo sobre o que Henrique quer conversar quando se aproxima de mim, fazendo meu corpo enrijecer.

— Eu sou gay — diz ele, como se estivesse tirando um peso das costas.

— Eu sou gay — diz ele, como se estivesse tirando um peso das costas. Os olhos de Henri encontram os meus e enxergo certa culpa, como se assumir aquilo em voz alta fosse igual a me contar que fez algo errado. — Está tudo bem — digo, mantendo o olhar fixo e o puxando para um abraço. Quando voltamos a nos tocar, sinto a energia fluindo em nós, como se fôssemos condutores elétricos.

— É por isso que meus pais me odeiam — confessa Henrique, com a cabeça apoiada em meu ombro. Sinto suas lágrimas molhando minha camiseta. — Eles me mandaram para cá porque não queriam que o restante da família soubesse o que eu sou. — O garoto treme enquanto fala, e sinto a tristeza fluir de dentro dele. — Eles têm vergonha de mim.

Ouvir aquilo quebra meu coração em mil pedaços. — Não diga isso — disparo, tirando-o de meus braços e passando a segurar seu rosto em minhas mãos, de frente para mim. — Eles não têm vergonha de você. — Então, por que não me aceitam? — Vejo que Henrique se culpa por ser quem é e carrega muita dor. Seus olhos verdes brilham cheios d’água. Demoro a responder.

— Porque o mundo é fodido. — Faço uma pausa. — As pessoas estão tão presas a estereótipos, fantasias e padrões irreais que se deixam cegar. Em vez de aceitarem a realidade como ela é, querem podá-la para que caiba dentro de suas cabeças, para que caiba dentro do que é aceitável. — Não tenho certeza do que estou falando, mas sei que as palavras saem de dentro de meu peito. — Você é do jeito que é e não precisa da aprovação de ninguém para ser. Ao dizer aquelas coisas, percebo que não falava somente para Henrique, mas também para mim.

Não importava o que eu era, eu só precisava ser. Puxo Henrique para perto e o beijo.

O mundo que adormecia desperta e eclode. É como se o relógio estivesse parado aquele tempo todo e os ponteiros voltassem a girar. Henri desliza as mãos para trás de minha cabeça e meu corpo se contrai, reagindo ao seu toque suave. Eu me sinto tão bem que parece que vou explodir. Minha mente se apaga e não consigo pensar em mais nada, todos os medos e inseguranças foram para outro lugar. Só o que sinto é felicidade. Meu coração está mais quente do que nunca e bate tão rápido que mal consigo acompanhar. De um momento para o outro, as músicas voltam a fazer sentido, o sol se torna mais brilhante, certos poemas ficam mais fáceis de entender e as flores florescem sem nem estarmos na primavera.

— Eu ainda não sei o que estamos fazendo. — Separo nossos lábios por um segundo. — Mas espero que, seja o que for, continue. Com os olhos um pouco vermelhos e emocionados, ele sorri.

Com os olhos um pouco vermelhos e emocionados, ele sorri. — Eu também.

Furacão

Chegou assim, sem ser convidado.

Inesperado,

Como visita em dia de semana.

Espalhando calor por onde passava e

sem nem perceber,

Me esquentando.

Intenso como tempestade,

Que deixa seus rastros quando vai embora

Ou como furacão,

Que arrebata tudo consigo.

Mergulho em cada pingo de chuva

como se fosse oceano

e voo no centro do furacão

como se possuísse asas,

Talvez, com você,

Eu realmente as tenha.

 

Caminhar entre os bairros próximos de onde moro depois de alguns meses fora é estranho. Apesar de ter morado a vida inteira ali, eu me senti como um intruso. Voltei para casa no dia anterior, quando José, o mesmo motorista que me levou para o acampamento, vendou meus olhos novamente e me enfiou no carro. Dessa vez, ele falou um pouco mais do que antes, conversando sobre o período que passei no Misfit e querendo saber das minhas experiências e amizades no lugar. Não contei muito mais do que o necessário e dormi pelo resto da viagem. Quando chegamos à minha casa e fui autorizado a tirar a venda, fiquei um pouco inseguro e sem saber o que encontraria dali para a frente. Estar no escuro é uma metáfora e tanto. Assim que abri os olhos e desci do carro, dei de cara com meu pai na porta de casa à minha espera. Senti uma pontada de dor ao vê-lo sozinho encostado no portão. Estava mais magro do que eu me lembro e parecia um pouco abatido.

A primeira coisa que passou por minha cabeça é que eu não deveria tê-lo abandonado. O arrependimento borbulhou em mim e quase desejei ter uma máquina do tempo para poder decidir não ir para o acampamento alguns meses antes, mas conforme fui me aproximando pude enxergar o sorriso sincero em seu rosto. Não importa o que ambos passamos, estamos juntos novamente. — Senti tanto a sua falta! — disse ele, me puxando e me envolvendo em um — Senti tanto a sua falta! — disse ele, me puxando e me envolvendo em um abraço apertado.

— Eu também, pai.

— Você está bem? — quis saber, mas ficou um pouco sem jeito ao lembrar que aquela pergunta comum e habitual poderia ser aplicada de maneira diferente a mim. Fui ao acampamento para melhorar.

— Muito bem — disparei. — Em todos os sentidos possíveis. Meu pai me abraça mais forte.

— E você?

— Por que falar de mim se você está de volta? — ele tentou fugir do assunto e pareceu esconder alguma coisa, o que me deixou um pouco frustrado. O motorista se despediu, deu partida no carro e nos deixou a sós para entrarmos em casa. Desde então, tudo foi como antes, como se eu não tivesse deixado aquele universo familiar para trás e ido ao acampamento para tentar aprender a lidar com a minha personalidade tóxica.

Apesar de ser sábado, meu pai saiu para trabalhar e me deixou sozinho em casa. Estranho, porque ele nunca teve o hábito de trabalhar nos fins de semana, mas como ultimamente eu não estava por perto, não fazia ideia de como era sua atual situação financeira. Antes, eu ajudava um pouco com meu salário da locadora. Durante o café da manhã, encontro algumas cartas de cobrança com valores altíssimos em cima da mesa. Fico aflito, pensando no que posso fazer para ajudá-lo. A primeira e única solução em que pensei foi ligar para meu avô, porque ele tem dinheiro sobrando e sem sombra de dúvida pode ajudar o filho. O único problema é que meu pai não aceitará nem um tostão. É orgulhoso demais para isso, além de apreciar a sua liberdade e independência. Eu preciso pôr um fim nessa relação conturbada dos dois. Apesar de tudo, ainda são uma família, tratando de dinheiro ou não.

Pego o telefone e disco o número do meu avô. A ligação cai direto na caixa postal, mas faço questão de deixar uma mensagem de voz. — Vô, sou eu, Dimitri — começo, após o bip que sinaliza o início da gravação. — Estou ligando para agradecer por ter me colocado no acampamento, tem sido uma experiência e tanto. — Faço uma pausa. — Na verdade, não é apenas por isso — corrijo, respirando fundo. — Meu pai está passando por uma fase difícil e eu gostaria muito que você e ele retirassem essa pedra do meio da relação, porque, apesar de tudo, vocês ainda são uma família e têm um ao outro, é isso que importa. Meu pai pode ser um pouco cabeça-dura, mas aposto que, se você passar a entendê-lo, ele também te entenderá. — Aperto o botão de desligar e coloco o telefone de volta no lugar.

Quem diria que um dia eu tentaria selar um acordo de paz entre meu pai e meu avô? Minha mãe diria, penso.

Vou até o quarto e paro no meio dele, encarando o ambiente. Escolhi deixar minhas coisas no Misfit, então, não precisei desfazer malas ao chegar nem reorganizar nada.

Sem saber o que fazer durante a ausência do meu pai, decido procurar por meu celular. Já não tinha mais o hábito de usá-lo e estranho um pouco quando o encontro em minha gaveta ao lado de algumas meias e cuecas. O aparelho demorou a ligar porque estava sem bateria havia meses, então, o conectei no carregador.

No momento em que a tela se acendeu e o aparelho encontrou o Wi-Fi da minha casa, o celular explodiu em notificações. Eram milhares de mensagens e atualizações de redes sociais que ficaram encobertas por meses sem que ninguém pudesse acessá-las.

Entre as abas, vi descer o nome de Clarissa. Sinto um pouco de medo ao clicar para abrir as mensagens e ver o que ela me enviou. Demo, você faltou a semana inteira, está bem?

Você está doente?

Alô?

Dimitri, por que não está respondendo minhas mensagens? Ligação perdida de Clarissa 6x

Já que não quer atender, vou até sua casa.

…

Seu pai contou que você foi embora por um tempo. Podia ter se despedido.

Onde você está?

Sinto sua falta.

Fecho os olhos e agarro o celular junto ao peito. Por mais que eu tentasse ignorar, é impossível não me sentir culpado por abandonar Clarissa sem nem explicar para onde fui. Foi uma atitude totalmente egoísta e não pensei em como se sentiria ao me ver partir.

Clarissa é uma desajustada como eu. Vive sem saber o que está fazendo com sua vida e não tem muitos amigos, além de mim e Bernardo. Apesar de ralar para manter sua imagem de durona, é uma das pessoas que mais se preocupa com os amigos quando estão em situações difíceis.

Arrependido, corro a ponta dos dedos pelo teclado e aperto o botão de enviar. Ei, está aí?

Não há resposta.

Da mesma maneira, também não há mais tempo a perder. Espero que a bateria do celular chegue pelo menos até a metade e começo a planejar um jeito de encontrar Clarissa. Na correria, minha letra sai totalmente estranha no bilhete que escrevo para meu pai, mas sei que ele não precisa de muito para entender o que quero dizer na mensagem. Colo o post-it avisando que vou sair na porta da geladeira e fecho o zíper da jaqueta de couro até o fim. Saio de casa quando o sol está se pondo. A sensação de sair para o mundo exterior é tão nostálgica que faz os ossos do meu corpo vibrarem. O metrô não está tão cheio, e agradeço mentalmente porque consigo sentar em um dos bancos e olhar São Paulo correr pela janela, um dos pequenos prazeres de viver em uma cidade grande. Gosto de observar o cenário mudando conforme o trem avança sobre os trilhos, ver pessoas diferentes entrando pela porta automática e se enfiando em algum canto, tentando não trocar olhares com as demais. Gosto de ouvir as histórias que contam umas para as outras, como se não tivesse mais ninguém ao redor delas.

O metrô chacoalha e as luzes piscam, o que é típico daquela parte do percurso, mas, apesar de banal, faz com que os olhares dos passageiros se ergam. Um desses olhares cruza com o meu, uma senhora me encara quieta e com atenção. Algo em mim a intriga e não sei o que é. A primeira coisa que penso é que ela devia estranhar meu cabelo colorido, mas lembro que a tinta havia começado a sair algumas semanas atrás, deixando os fios parcialmente naturais. Então, apenas a encaro de volta e, para minha surpresa, ela abre um sorriso com os lábios fechados, revelando as rugas em seu rosto. Fico confuso, sem entender muito bem o motivo de ela estar sorrindo para mim, mas chego à conclusão de que não há motivo para ser tóxico com a senhora, então apenas sorrio de volta. Aquilo me faz pensar em todas as vezes que evitei contato e tratei mal as pessoas apenas por pensar que elas me achavam estranho. Ouço a voz da mulher do metrô anunciando o nome da estação e desço na Consolação, me enfiando em um mar de gente que perambula por aquela parte da avenida Paulista no fim do dia. Eu me esgueiro entre os pedestres, passando pelos feirantes que vendem arte na rua, e começo a descer a rua Augusta, indo em direção ao bar em que Bernardo trabalha. Fico um pouco inseguro de aparecer sem avisar, mas já esperei demais para entrar em contato com meus amigos. Eles merecem saber o que aconteceu comigo. Quando me aproximo da fachada do bar, o segurança pede minha identidade e é como se eu levasse uma rasteira. Não tenho mais documento falso, então, será impossível entrar. Peço desculpas para o segurança e tento dizer que preciso conversar com uma das pessoas que trabalha ali. Ele me encara mantendo a expressão rígida até que finalmente diz que verá o que consegue fazer. Depois de um tempo, vejo Bernardo passar pela porta junto com o segurança. Ele me vê e parece falar algo para o homem, levantando uma das mãos no ar como se dissesse que me conhece. Então vem até mim.

— O que está fazendo aqui? — dispara Bernardo, em um tom que, apesar de revelar surpresa, não foi tão agradável quanto eu esperava. Diante a reação dele, decido ser direto.

— Estou procurando pela Clarissa — respondo. — Por você também, claro. O garoto me observa, cruzando os braços por cima do avental de bartender e levantando as sobrancelhas.

— Clarissa não está por aqui. — Ele faz uma pausa, pensativo. — Para ser honesto, faz dias que não a vejo — continua. — Já não falo tanto com ela desde que decidiu se meter com um pessoal estranho.

— Pessoal estranho?

— Sim, gente estragada — Bernardo explica, passando a falar um pouco mais baixo do que antes. — Que usa drogas e tudo mais. — Nós também já usamos drogas — eu o interrompo, lembrando-o dos tempos em que queríamos desbravar o mundo como se não houvesse consequências. — Não é assim, Demo — adverte. — Eles usam porque são viciados, não porque querem se divertir.

Eu congelo. Pensar que Clarissa poderia estar usando drogas pesadas faz meu estômago revirar. Mesmo que tenhamos errado no passado, nunca fomos longe demais por saber que tínhamos limites, e que o caminho de volta era difícil de trilhar.

— Eu pedi para você ficar de olho nela. — É o que digo para ele quando minha cabeça começa a girar. — Antes de ir embora, te mandei uma mensagem pedindo para você cuidar dela.

Bernardo cerra os olhos, provavelmente, tentando entender o que estava acontecendo comigo. Coloco em minha mente que a imagem que ele tem de mim é a mesma que tinha alguns meses atrás, então, ele ainda me enxergava como o Dimitri descuidado, imprudente e venenoso. — Eu não posso controlar as escolhas das outras pessoas, Demo! — diz, com pesar na fala. — E você sumiu do nada, sabe?!

Ele está completamente certo. Clarissa não precisa de ninguém tomando conta dela. Ela é a garota que socou a cara daquele playboy na última noite em que saímos juntos. Ela jamais faria algo com que não concordasse, mas eu preciso encontrá-la e saber como ela está.

— Sabe onde ela costuma ficar? — Mudo de assunto para o que realmente interessa.

— Acho que tenho ideia.

 

Estou há cerca de quinze minutos em frente ao endereço que Bernardo me passou, reunindo coragem para entrar no prédio que se estende diante de mim. Tive que andar apenas algumas quadras para conseguir chegar, e não precisei pensar duas vezes antes de deixar Bernardo para trás e partir. Tinha esperanças de que ele me acompanhasse, mas sabia que precisava manter o emprego no bar e não podia simplesmente sair quando bem entendesse, então, não liguei quando me desejou boa sorte e deu meia-volta, entrando de volta no estabelecimento. Ouço passos e vozes à distância descendo pela rua, e tento me misturar ao ambiente, como se estivesse acostumado a passear pelo local. Decidido, vou até a fachada e olho ao redor à procura de um porteiro. Não fico surpreso ao descobrir que não existe. Aquele não parece o tipo de lugar que precise de segurança. Puxo a maçaneta e a passagem se abre sem muita dificuldade, revelando correspondências que jamais foram abertas espalhadas pelo chão e deixando claro que o lugar poderia ser considerado como abandonado. Antes de adentrar e subir para os apartamentos, reparo na figura que assombra o canto do ambiente e se apoia no corrimão próximo à escada. O indivíduo me acompanha com o olhar conforme caminho.

— Tá querendo comprar alguma coisa, parceiro? — pergunta, suas características encobertas pela escuridão.

Nego, balançando a cabeça para os lados.

— Então, o que veio procurar? — Eu me assusto quando ele vai até a luz, revelando dentes podres e quebrados ao mexer os lábios. O cara deve ter mais ou menos a minha idade, mas parece cansado e desgastado, a pele é coberta por tatuagens, os olhos esbugalham quando fala e as mãos estão totalmente sujas. — Uma amiga — digo, direto e sem temer sua reação. — Clarissa é o nome dela, conhece?

O jovem assente, o movimento da cabeça faz com que a touca surrada balance. Fico esperando que continue a revelar o que sabe sobre Clarissa, mas o jovem permanece calado e não dá mais nenhuma informação, parecendo pouco interessado em contar onde minha amiga está. Sei que estou em um ambiente hostil, então, não tomo atitudes precipitadas. Devo respeitar o ritmo das pessoas ali, qualquer passo em falso pode ser perigoso.

— Sabe me dizer onde ela está? — Mantenho distância da figura que me encara de longe.

— Até sei, mas preciso de um incentivo para te contar — responde. De forma automática, já sei que quer dinheiro em troca de informação. Tiro a carteira do bolso e percebo que não tenho muito dinheiro, apenas alguns trocados que separei para pagar as passagens de metrô. Tiro uma de vinte e a levanto. — É tudo o que tenho — anuncio, com firmeza. — É pegar ou largar. O jovem se aproxima com tanta rapidez que mal consigo vê-lo deslizar pelo escuro. Quando percebo, ele já está ao meu lado, agarrando o dinheiro com seus escuro. Quando percebo, ele já está ao meu lado, agarrando o dinheiro com seus dedinhos magros e espalhando seu fedor ao meu redor. — Ela está no quarto andar — diz.

— Em qual apartamento?

— Não sei, não sou vidente — retruca, em tom de zombaria. Sinto a raiva chegando, tenho vontade de voar para cima do cara e enterrar meu punho em seu rosto, mas afasto o sentimento e me mantenho no controle. Corro até a escada, deixando o malandro para trás, e me jogo no escuro, sem saber o que está por vir.

Demoro a encontrar Clarissa, não faço ideia de quanto tempo passa exatamente. Perco a noção à medida que bato na porta dos apartamentos e dou de cara com os moradores, que, para ser bem sincero, não parecem estar lidando muito bem com as próprias vidas. Eles se alternam em me perguntar se estou ali para consumir drogas ou me atender de maneira hostil, quase ameaçadora. Quando estou quase desistindo, ouço alguém chamar o nome de minha amiga e vou na direção do som. A porta está escancarada e não me dou ao trabalho de bater na madeira para alertá-los de minha presença, apenas entro. O lugar está imundo, como se não fosse limpo há semanas. As paredes são encardidas e o piso está forrado de jornais, pedaços de comida e sujeira. Clarissa está na sala, deitada no sofá. Sua cabeça pende na beirada do móvel e os cabelos escorrem pelas almofadas, balançando com a brisa que vem da janela. Ela não me vê chegar porque está inconsciente. O desespero me toma por não saber se está passando mal ou apenas dormindo. Vou até ela, coloco os dedos em seu pescoço e sinto que sua pulsação está normal, relaxo os ombros.

— Quem é você? — Ouço alguém dizer às minhas costas. — E que porra está fazendo dentro da minha casa?

Viro e diante de mim encontro a garota mais pálida que já vi na vida. Ela tem a cabeça raspada, e uma maquiagem preta ao redor dos olhos escorre por todo o seu rosto, como aquarela quando se mistura com água. — Eu te fiz uma pergunta — ela reforça, indo até a bancada e sacando um canivete. Sem hesitar, o aponta em minha direção. — Calma. — Levanto as mãos. — Sou amigo da Clarissa. A garota arqueia uma das sobrancelhas, não acreditando muito no que sai de minha boca.

— Isso não te dá o direito de entrar em minha casa sem ser convidado — dispara, fria.

Ela está certa, então, me desculpo.

— Foi mal, estava preocupado com a Clarissa — tento justificar meu erro. — A propósito, meu nome é Demo. — Estendo uma das mãos. propósito, meu nome é Demo. — Estendo uma das mãos. A garota não retribui.

— Demo, não é?! Clarissa chegou a falar de você. — Falou? — pergunto. A garota ainda está com o canivete nas mãos, por isso fico em alerta para qualquer sinal de que possa vir para cima de mim. — Sim — responde, com deboche. — Você é o amigo que a abandonou. — Ela faz uma pausa. — Várias vezes.

Droga, minha fama de péssimo amigo havia se espalhado. — Não foi bem assim, posso explicar.

— É o que vocês sempre dizem — ela me interrompe, se aproximando. — Vêm e vão quando bem entendem e nos deixam como se não tivéssemos valor. — A garota discursa com rancor, fico tenso por um momento e tenho medo do que ela é capaz de fazer.

— É por isso que vim, para pedir desculpas para ela — confesso. A garota ri de maneira sarcástica, debochando de minhas explicações enquanto anda ao meu redor, me cercando como se fosse um leão faminto e eu, um pedaço de carne. Enrijeço os músculos.

— Não precisa ter medo de mim, riquinho — ela zomba —, não vou fazer nada contra você, só quero que vá embora. Se não for, aí, sim, terei de tomar providências quanto a você.

— Já estou de saída — minto; não sairia dali sem conversar com minha amiga. — Clarissa, sou eu — falo em voz alta, tentando acordá-la. — O Dimitri. A garota pálida e sem cabelos revira os olhos.

— Patético! — diz.

Clarissa se move lentamente, acordando aos poucos. Vou até ela e me ajoelho ao seu lado. Minha amiga não parece entender o que está acontecendo e passa os dedos sobre os olhos, pressionando-os para tentar despertar. Quando percebe quem está diante dela, arregala os olhos.

— Demo?! — Ela se espanta, perguntando mais a si mesma do que para mim. Faço que sim com a cabeça.

Ela fica em silêncio, digerindo as informações enquanto me encara. Suas sobrancelhas se estreitam e seu semblante fica tempestuoso. — Vá embora — ordena, a voz trêmula.

— Vim pedir desculpas — arrisco, na esperança de que me deixe ficar. — Não importa. — Clarissa está mais magoada do que achei que estaria. — Apenas suma daqui, como você já fez outras vezes. Não sei o que fazer nem o que dizer. Tenho ideia do que fiz a ela e devo respeitar o momento. Vim atrás de Clarissa para me desculpar, mas ela não quis dar ouvidos, então, não há nada mais que eu possa fazer além de esperar a hora em que ela estiver preparada para me perdoar. Ela não é obrigada a fazer isso, mas queria que o fizesse. Sinto falta da nossa amizade. Obedeço ao pedido, levanto e vou em direção à saída. Ouço a garota de pele pálida dar uma leve risada antes de bater a porta com força atrás de mim.

Desço as escadas devagar, contando degrau por degrau e pensando na conversa que acabei de ter. Tenho que encarar a realidade e assumir que deixei meus amigos de São Paulo para trás, e eles me esqueceram também. É difícil aceitar que não quero ficar sozinho, já estive tanto tempo em minha própria companhia que a ideia me assusta. Penso em Henrique e Alma, me lembrar deles faz com que minha mente se acalme. Eu os carrego comigo, apesar da distância. Na saída do prédio, trombo com o jovem de dentes podres e tatuagens, nossos corpos se esbarram e vou de encontro ao chão. O cara não se desculpa, apenas sai correndo escada acima. Eu o xingo, alto o suficiente para que o prédio todo possa ouvir. Quando levanto, passo a mão no bolso e congelo ao percebo que meu celular não está mais lá. Penso na possibilidade de ter sido roubado durante a colisão. Estou com tanta coisa na cabeça que nem me importo de perder o aparelho, não preciso mais dele, de qualquer jeito. Mesmo a caminho de casa, não sinto como se estivesse voltando para lá. Temo que o tempo que passo visitando a cidade possa atrapalhar minha recuperação e eu volte a ser o que era antes. Penso em ligar para Suzana e pedir para retornar antes, mas desisto. Tenho que encarar as consequências dos meus atos. Perder os amigos talvez seja apenas o carma me atingindo por tê-los feito sofrer de alguma forma no passado.

Após grandes períodos de felicidade, sempre vem a tristeza. Uma vez que você atinge o ápice, o caminho que resta é ir para baixo.