Submerso

Eduardo Cilto · Capítulo 10 de 11

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Submerso

Capítulo Dez

Eu levei meu amor e o destruí

Eu escalei uma montanha e voltei

E eu vi meu reflexo nas colinas cobertas de neve E a avalanche me derrubou

“Landslide”, Fleetwood Mac[12]

O escritório do pai de Alma ficava no segundo andar do casarão principal do acampamento, onde era proibida a entrada de campistas. Porém, como as salas de Suzana e Laura ficavam no mesmo andar, Alma e eu esperamos o horário em que mais adolescentes estavam na parte debaixo para conseguirmos distração e subimos pela escada de emergência sem que nos vissem. O barulho de nossos sapatos no chão de mármore era quase imperceptível; mesmo assim, ainda tomamos cuidado para que ninguém nos ouvisse caminhar. — Siga até o fim — sussurra Alma, indicando que o escritório do pai está atrás da última das inúmeras portas do corredor.

— Você tem certeza de que ele não está lá? — tento falar o mais baixo que consigo. Alma comprime os lábios e faz um bico, pensativa. — Não — diz. — Por isso, irei na frente para conferir. Ela destrava a maçaneta aos poucos, olhando pela fresta da porta para ver se o pai está lá dentro. Quando termina de abrir, sinaliza com a mão que não há ninguém na sala, o que significa que podemos seguir com o plano. Começamos a procurar pelo notebook. Pensamos que estaria na mesa principal do escritório, mas, como não o encontramos, passamos a vasculhar tudo, o que é mil vezes mais arriscado caso alguém entre e nos veja. — Você procura pela esquerda e eu, pela direita — Alma dispara, indo em direção à estante de livros.

Concordo, olhando para os armários de documentos no lado em que eu havia sido designado a procurar. Puxo a primeira gaveta e descubro que está trancada, xingo em voz baixa. Consigo abrir outra, mas me surpreendo ao perceber que está vazia, assim como a terceira gaveta. Chamo Alma e mostro o que encontrei, ou melhor, o que não encontrei. A garota me encara confusa. — Que estranho — diz. — Alguns meses atrás, meu pai comprou armários novos justamente porque disse que não tinha mais espaço para guardar os documentos do acampamento. — Alma começa a abrir cada uma das gavetas e nos damos conta de que não há nada em nenhuma delas. Vou até a estante de livros, começo a retirá-los das prateleiras e empilhá-los na mesa ao lado para ver se o notebook está escondido no espaço atrás deles, mas percebo que há muitas prateleiras e levaria horas até que eu conseguisse retirar tudo sozinho. Então, Alma passa a me ajudar, devolvendo aos seus lugares os livros em que eu já havia mexido. Entre uma prateleira e outra, percebo que ela olha fixamente para o livro que segura nas mãos, a capa é escura e o título o revela como um dicionário da língua portuguesa. — Dimitri, acho que encontrei algo — diz ela, me encarando com as sobrancelhas baixas, tensa.

— O notebook? — pergunto, mesmo sabendo que seria impossível enfiar um aparelho eletrônico daquele tamanho dentro do livro. — Ou outra coisa? — Outra coisa — Alma responde, usando as mesmas palavras que eu. Assim que me aproximo, ela vira o miolo do livro na minha direção e percebo que as páginas estão cortadas no meio para que pudessem guardar coisas ali. Mesmo assim, quando fechado, parece um livro normal no meio de tantos outros.

No esconderijo, me deparo com uma chave, antiga e corroída pelo tempo. Com cuidado, Alma retira a chave do livro e o coloca de volta na prateleira, respeitando a ordem em que tudo estava antes de nossa inspeção. Ouço o barulho de passos no corredor e, sem pensar duas vezes, pego a chave da mão de Alma e a enfio no bolso da calça. Ela me olha com reprovação, mas depois ignora ao lembrar que estaríamos ferrados caso o pai dela nos visse em seu escritório.

Não tenho certeza de se o que ouvi eram realmente passos ou se foi apenas minha cabeça pregando peças, mas não posso arriscar. — Vamos sair daqui — disparo, o coração acelerando. — Sem falar com o Henri? — pergunta Alma, se certificando de que eu não iria me arrepender depois. — Não quer continuar procurando o computador? — É perigoso demais — explico. Não gosto de ficar em estado de alerta o tempo todo, e pensar que alguém pode entrar por aquela porta principal a qualquer segundo me deixa ansioso. — É melhor irmos.

Alma concorda, mas, antes de sair, sugere que devemos terminar de arrumar a bagunça que fizemos. Terminamos de organizar os livros e saímos do escritório. Assim que descemos os degraus, respiramos aliviados. — Droga — desabafo. — Queria ter falado com ele. Alma assente.

— Podemos tentar de novo amanhã — responde, na esperança de conseguir me animar.

— Não sei… — digo. Quero saber quando Henrique irá voltar, mas agora a chave que está em meu bolso não me permite pensar em mais nada. — Talvez. — A chave está com você, não é? — pergunta, e procuro sinais de preocupação — A chave está com você, não é? — pergunta, e procuro sinais de preocupação ou acusação em seu tom de voz, mas não encontro. — Está — respondo, pegando o objeto do bolso e o levando à altura de nossos olhos. — E não consigo tirá-la da cabeça. Acho que devemos testá-la na fechadura dos túneis — disparo. — Pode ser que o computador esteja lá. Sei que as chances de o notebook estar na sala secreta são praticamente nulas, mas não custa tentar. Além disso, preciso descobrir o que há por trás daquela porta e os motivos para o pai de Alma mantê-la de forma tão sigilosa. — Não sei, Demo — retruca ela, mas se interrompe. — Ao mesmo tempo que quero descobrir o que está escondendo, também tenho medo de invadir a privacidade dele.

— Mais do que já invadimos hoje? — ressalto, lembrando que havíamos acabado de entrar no escritório de seu pai. — O que você acha que tem lá embaixo?

— Sei lá, espero que sejam coisas velhas e que ninguém mais usa aqui no acampamento.

— E se for algo maior? Alguma coisa sobre a qual você não faz ideia. Alma franze o cenho.

— Tipo o quê? — pergunta.

Penso em falar do título da matéria que li sobre o avô dela ter sido preso, mas acabo desistindo porque sei que não é muito educado nem agradável falar coisas desse tipo de repente.

— Sei lá, um quarto erótico — brinco, tentando desfazer o clima tenso que eu mesmo criei.

— Que horror, Dimitri! — exclama, cobrindo os lábios com as mãos ao rir. — Não quero nem imaginar esse tipo de coisa.

Começo a rir também. Conversar sobre aquilo com Alma faz com que suas bochechas fiquem vermelhas; certamente, não costumava falar, sequer pensar, sobre o assunto. Alma interrompe a risada e olha por cima de meus ombros, então, acabo ficando tenso. Quando olho para trás, vejo Serena se aproximando, caminhando lentamente pelo corredor com expressão curiosa. — O que não consegue nem imaginar?

Tento colocar a chave de volta no bolso sem chamar a atenção de Serena, mas é tarde demais, ela encara o objeto e levanta uma das sobrancelhas. — Isso é o que estou pensando? — pergunta, a voz fica aguda de excitação. É inútil mentir para Serena porque ela está literalmente de cara com a verdade. Aperto a chave na mão e sinto o metal gelado na pele. Alma me olha com o canto dos olhos e assente, indicando para ir em frente. Respiro fundo.

— Sim, achamos que é a chave da sala dos túneis.

— Sim, achamos que é a chave da sala dos túneis. Serena fica com a boca semiaberta e estende a mão para que eu entregue o objeto, mas não faço o que ela quer.

— Quando é que vamos tentar abrir? — dispara, percebendo que não lhe darei a chave.

— Não sei. Acho mais justo esperar o Henrique voltar. Alma se movimenta desconfortável atrás de mim. — Ele pode demorar semanas para voltar — ressalta minha amiga, o que me deixa surpreso, porque não esperava essa reação partindo dela. — Concordo com Alma. — Serena aproveita para tentar conseguir o que quer a partir da fala de Alma, concordando com o que fala mesmo não gostando dela. — Vamos tentar abrir esta noite, então. — Alma se coloca na minha frente, posicionando-se contra Serena.

— Combinado — concorda a outra.

Quando Serena se dá por satisfeita e vai embora, nos deixando sozinhos no corredor do do casarão, estremeço com a ideia de descer nos túneis mais uma vez.

— Ela sempre conversa comigo com esse tom superior — exclama Alma, irritada. — Vou esfregar na cara dela que eu não tenho nada para esconder. — De onde veio toda essa atitude? — pergunto, admirado. — Sei lá. Só cansei de ser subestimada por ela.

— Gostei.

É bom ver as pessoas de quem gostamos saindo de suas zonas de conforto e enfrentando o mundo. Puxo Alma para perto e passo o braço por cima de seu ombro, e, assim, saímos juntos do casarão.

 

O chão está úmido e há mais goteiras do que nunca ecoando pelas paredes do túnel. Piso em algumas poças de água enquanto caminho em direção à porta secreta e sei que sou parte responsável por aquela semi-inundação, porque abri a saída que dá para o lago na última vez em que estive aqui. Somos um quarteto agora: Serena, Diego, Alma e eu. Os dois primeiros andam atrás de mim, desesperados e inquietos para saber o que há atrás da porta, conversando coisas que não consigo entender.

A chave continua comigo porque não confio em Serena nem em Diego o suficiente para deixar com eles. Apesar de Alma estar comigo, não me sinto totalmente à vontade naquele ambiente. Meus ombros estão enrijecidos e tenho uma dor de cabeça que vai e volta a cada cinco minutos. Sem Henrique, é como se estivesse traindo sua confiança, e é estranho desvendar o mistério sem tê-lo por perto.

por perto.

— Vamos acabar com isso logo de uma vez, cara — exclama Diego, ordenando de maneira rude que eu abra a porta com mais agilidade. Eu me seguro para não revirar os olhos ou soltar um palavrão. — Por que eles ainda não namoram? — brinca Alma, cochichando em meu ouvido a pergunta sarcástica. — Serena e ele combinam tanto em questão de chatice.

Dou um sorriso com o canto dos lábios porque sei que ela ironizou a situação para tentar amenizar o meu nervosismo e acalmar minha ansiedade. Vou até a porta secreta, retiro a chave do bolso e a encaixo na fechadura.Eu me assusto quando a viro e ouço o estalo responsável por destrancar a porta. Atrás de mim, os campistas deixam de respirar por alguns segundos. Num ato de coragem, empurro a porta e ela se abre.

Está escuro lá dentro, então tateio a parede à procura de um interruptor. A sala se ilumina. É um pequeno espaço, pouco maior que meu dormitório. Não vejo nenhuma janela, mas está recheada de armários iguais aos do escritório do pai de Alma. Eu me lembro do que a garota me falou de tarde, que seu pai havia encomendado mais armários para guardar os documentos, e me pergunto se são esses.

Serena e Diego correm para dentro da sala num piscar de olhos. Com Alma, acontece o contrário. Ela está hesitante na soleira da porta e seus grandes olhos encaram o ambiente, parecendo temer qualquer informação que possa encontrar. Eu a chamo, encorajando-a a se juntar a mim, mas ela não se move. Ouço o barulho de uma das gavetas sendo aberta e percebo que Serena já tem em suas mãos alguns papéis. Ela os segura e passa os olhos por cima rapidamente, tentando obter informações que julgue úteis. Diego faz o mesmo do lado oposto da sala. O garoto folheia simultaneamente vários papéis, como se tivesse a capacidade de ler todos ao mesmo tempo.

— Vocês são rápidos — ironizo, mais jogando uma indireta do que tentando elogiá-los.

— Estamos esperando por isso há meses, então, faz sentido estarmos curiosos, não é?! — responde Serena, retoricamente.

— Além disso, acho que até você agiria rápido se percebesse o conteúdo desses papéis. — Diego entra na conversa, estendendo em minha direção uma das pastas repletas de folhas que está segurando. — Veja com seus próprios olhos. Assim que pego os documentos, sinto como se fizesse algo errado, mas, no momento em que meus olhos batem na primeira linha do papel, não consigo mais parar de ler.

“Jovens torturados em acampamento finalmente quebram o silêncio.” É o título.

Pisco os olhos algumas vezes para ter certeza de que não estou lendo errado. — Caramba, isso é pesado! — exclamo, mais para mim mesmo do que para as pessoas que estão ali comigo.

Encaro Alma e me pergunto se fiz a coisa certa ao envolvê-la e aceitar trazê-la. Agora sei do que os papéis tratam, e seu conteúdo pode acabar com a imagem que ela tem da família.

Abro uma por uma as gavetas que ainda não foram abertas e começo a deslizar pelos documentos. Cada um deles conta detalhes sobre os primórdios do Misfit. Dezenas de reportagens, documentos da polícia e depoimentos relatam o que aconteceu com os jovens que estavam no acampamento algumas décadas atrás e o que sofreram nas mãos de Vladimir Lafaiette, avô de Alma. Resumidamente, esta é a história: Vladimir fundou o Misfit no final da década de 1980 para poder ajudar jovens rebeldes, no auge de suas vidas e levando a frase “sexo, drogas e rock’n’roll” como mantra, a se reintegrarem na sociedade. A maioria deles, porém, era colocada ali contra a própria vontade, apenas para que não fizessem nada que pudesse manchar a imagem de suas famílias – muitas, abastadas e pertencentes à classe alta.

No entanto, como foi descoberto mais tarde, a situação saiu do controle quando os jovens começaram a se rebelar ao terem seus direitos de liberdade revogados. Foi aí que Vladimir, em meio à confusão e com medo de ver seu império ruir, permitiu que os profissionais que trabalhavam no Misfit na época castigassem de maneira violenta quem violasse as regras.

Resultado: as agressões acabaram sendo denunciadas pelos próprios funcionários e o acampamento fechou as portas sete anos após a abertura, devendo milhares de reais em indenização aos campistas e com muitos processos nas costas. Então, o pai de Alma decidira reabrir o Misfit anos depois mesmo sabendo que o acampamento carregava uma história tão cruel e pesada em seu passado? — RATOS NOJENTOS! — grita Serena. — Eu sabia que estavam escondendo alguma coisa grave!

— É doentio — concorda Diego, enojado. — Como é que conseguiram varrer essa sujeira toda para debaixo do tapete?

Fico em silêncio, terminando de ler os papéis.

— Sabe o que é mais doentio ainda? — Serena caminha devagar até o meio da sala, seu tom de voz está alterado e consigo sentir o clima pesando. — Ela nos observar como se não soubesse de nada. — Aponta para Alma. Minha amiga não parece tão surpresa com essa atitude, mas sei que não fazia ideia da história por trás do acampamento, caso contrário, teria me contado. Serena, no entanto, nunca gostou de Alma, e descobrir a verdade apenas ressaltou o que sentia.

— Ela não sabia de nada — disparo, entrando no espaço entre as duas.

— Ela não sabia de nada — disparo, entrando no espaço entre as duas. Serena dá uma risada irônica e me fuzila com o olhar. — Dimitri, ela é neta do criador disso aqui! — exclama. — É claro que sabe de tudo!

Alma decide entrar na sala, anda até meu lado e delicadamente segura a minha mão.

— Sei do quê? — pergunta, meio rouca.

Com cuidado, explico lentamente o que acabamos de descobrir sobre o passado do acampamento. Pela expressão de Alma, vejo o mundo dela se esvair diante de seus olhos.

— Além de falsa, também é atriz? — provoca Serena. — Vê se dá um tempo! — retruco.

Alma abre a boca para falar, mas acaba não dizendo nada. — E agora? Como vamos derrubar este lugar?

Enquanto Serena e Diego falam, uma folha caída no chão atrai minha atenção. É um depoimento de um dos ex-campistas que passaram meses trancafiados. A foto da matéria do jornal foi o que prendeu meu olhar: o garoto nela tem cabelos claros, olhos verdes e pele bronzeada. Um arrepio sobe por minha espinha ao perceber a semelhança com alguém que conheço. Agarro a folha e começo a ler à procura de um nome. Não demoro muito a achar: logo abaixo do depoimento, escrito em letras garrafais, está o nome “Álvaro Gomez”, mesmo sobrenome de Henrique. Sei que poderia ser apenas uma coincidência, mas, cada vez que volto a olhar para a foto de Álvaro, mais semelhanças encontro entre aquele jovem torturado e o tio de Henrique na foto do Facebook do garoto. — Naquela noite em que o Fantasma me colocou no lago — começo —, vocês já o ajudavam?

A discussão acaba no momento em que faço a pergunta. Diego e Serena trocam olhares, calados. Começo a ranger os dentes de ansiedade. — Isso foi há meses, por que quer saber disso agora? — Serena tenta se esquivar da pergunta, mas não vou deixá-la fugir do assunto. Estico a folha com a foto do tio de Henrique para que todos possam ver. Eles demoram um pouco para entender, mas, finalmente, chegam à mesma conclusão que eu.

— Não sabíamos o motivo por que ele estava fazendo aquilo — Diego começa. — M-mas ele também nunca deixou claro seus motivos para nós — gagueja, despejando a verdade em cima de mim.

Reparo que o rosto de Serena está completamente vermelho, e ela cerra os punhos após ouvir o amigo confessar o que sabia. — O quê? — pergunto, talvez eu saiba a resposta, mas não quero dizer em voz alta para que não pareça verdade.

alta para que não pareça verdade.

— Henrique é o Fantasma — responde Serena, seca e sem indício de compaixão em sua fala. — Descobrimos na noite em que te colocamos no lago, e, por acaso, sim, fomos nós dois que te enfiamos lá depois de colocar uma coisa na água do seu quarto para fazer você dormir. — Ela aponta para Diego. — Sorry, só queríamos dar um sustinho na coordenação. Você tinha acabado de chegar e defendia o acampamento, não foi nada pessoal.

Meu sangue começa a ferver de raiva. Busco ajuda no olhar de Alma, mas ela está completamente perdida nas próprias frustrações. — Henrique ficou muito bravo depois que descobriu o que fizemos com você e se assumiu como o Fantasma. Antes disso, eu achava que ele era só mais um que apoiava as ações — explica Diego. — Mas não tínhamos a menor ideia do motivo de ele agir daquele jeito. Ele dizia que precisava abrir a sala secreta para conseguir entender.

Sinto como se o mundo estivesse desabando à minha volta, como se um apito fosse colocado no volume máximo em minha orelha. Meu estômago revira como se estivesse fazendo a coreografia mais complicada que existe, me fazendo ter náusesas e achar que posso vomitar a qualquer momento. É como se tivesse entrado de volta em minha bolha, mas ela se fecha cada vez mais e me sufoca, não me deixando fugir. Quero respirar, mas não consigo, e isso me desespera. Minha mente se resume em um monte de rabiscos, um turbilhão de informações e emoções, como se tudo tivesse se transformado em chiado. Sou como uma televisão fora do ar, distante da realidade e bagunçada, sem conseguir captar com clareza qualquer coisa a minha volta. Largo as pastas, que caem no chão. Os papéis voam para todos os lados. Saio correndo da sala e acabo esbarrando em Alma, que me pergunta alguma coisa, mas não consigo responder. Agarro a escada de ferro e subo cambaleando em direção à escotilha; preciso de ar.

Penso no que posso fazer para parar de me sentir mal, mas desisto. Quando finalmente estou fora dos túneis, corro pela floresta e em segundos estou de volta ao meio do acampamento. Sinto os braços doerem e, quando olho para o meu corpo, estou cheio de hematomas, por esbarrar nas árvores no meio do caminho. Entro no dormitório ignorando os olhares em minha direção. Os campistas à minha volta riem, conversam e vivem suas próprias vidas como se fosse apenas uma noite normal. São coadjuvantes, personagens secundários deste filme de terror em que estou preso. Quando chego ao quarto, vou direto para o banheiro e me jogo no chão diante do vaso sanitário. Meu estômago se revira e começo a vomitar, a ardência machuca minha garganta e sinto as lágrimas escorrendo por meus olhos. É como se alguém tivesse chacoalhado minha cabeça e bagunçado tudo o que eu achava saber. Minha mente não consegue assimilar quase nada e só o que ouço saindo de meus lábios trêmulos são lamentações que nem eu mesmo consigo entender.

Do outro lado do quarto, percebo a porta de entrada bater e os passos de alguém correndo em direção ao banheiro, tentando abrir desesperadamente a porta que eu havia trancado. Sinto o medo e a vergonha de ser visto naquela situação, então, me encolho no lado oposto por alguns segundos. Penso em permanecer em silêncio e fingir que estou bem, mas a pessoa está aflita e começa a tentar arrombar a porta.

Ainda deitado no chão e debruçado no vaso sanitário, estico o braço e destravo o trinco.

A primeira coisa que percebo são os olhos verdes me encarando assustados, e tremo por inteiro ao vê-lo outra vez.

Ele está de volta.

Henrique se aproxima e se ajoelha do meu lado. — Você mentiu pra mim — digo, deixando a mistura de dor e raiva fluir por meus lábios.

Então, ele me abraça.