Tempo de Tempestade

Andrzej Sapkowski · Capítulo 8 de 31

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Tempo de Tempestade

Capítulo sétimo

 

Wild nights! Wild nights!

Where I with thee,

Wild nights should be

Our luxury!

Emily Dickinson

 

So daily I renew my idle duty

I touch her here and there – I know my place

I kiss her open mouth and I praise her beauty

And people call me traitor to my face.

Leonard Cohen

 

Uma tatuagem em forma de peixe, com listras policromadas, ricamente elaborada, repleta de detalhes maravilhosamente coloridos, adornava os quadris da feiticeira.

Nil admirari, o bruxo pensou. Nil admirari.

•

– Não acredito no que estou vendo! – exclamou Lytta Neyd.

Ele próprio e mais ninguém era culpado pelo que acontecera e pela forma como acontecera. No caminho para a mansão da feiticeira, passou pelo jardim e não resistiu à tentação de cortar uma das flores que cresciam no canteiro de frésias. Lembrava o cheiro que dominava no perfume dela.

– Não acredito no que estou vendo! – repetiu Lytta na porta. Geralt foi recebido pessoalmente por ela. O porteiro corpulento não estava lá, talvez fosse o seu dia de folga.

– Imagino que você veio para me dar bronca por causa da mão de Mozaïk. E me trouxe uma flor, uma frésia branca. Entre, antes que provoque um escândalo e as fofocas se espalhem pela cidade. Um homem com uma flor à minha porta! Nem os mais velhos se lembrariam de algo assim.

Trajava um vestido preto solto, muito fino. O forro era uma combinação de seda e chiffon que ondulava ao menor movimento do ar. O bruxo ficou parado, com os olhos fixados nela, ainda com a frésia na mão estendida, desejando sorrir, mas não conseguindo fazê-lo de forma alguma. Nil admirari, mentalizou outra vez a sentença que lembrara de Oxenfurt, da universidade, exposta na entrada da cátedra de filosofia. Repetira essa sentença em pensamento durante todo o caminho em direção à mansão de Lytta.

– Não grite comigo – pegou a frésia que Geralt segurava entre os dedos. – Consertarei a mão da moça assim que ela chegar, sem causar nenhuma dor. Talvez até lhe peça perdão. E peço perdão a você também, só não grite comigo.

Geralt meneou a cabeça e tentou sorrir novamente, mas não conseguiu. Lytta aproximou a frésia do seu rosto, cravou nele os seus olhos cor de jade e disse:

– Estou curiosa para saber se você conhece a simbologia das flores e a sua linguagem secreta. Você sabe o que diz esta frésia? E tem plena consciência da mensagem transmitida ao oferecê-la a alguém? Ou será que a escolha da flor foi intencional e a mensagem… inconsciente?

Nil admirari.

– Seja o que for, isso não tem importância – aproximou-se, ficando bem junto dele. – Ou você está sinalizando de forma direta, consciente e calculista aquilo que deseja… ou está escondendo os desejos que o seu inconsciente revela. Em ambos os casos, eu lhe agradeço a flor e aquilo que ela transmite. Agradeço e prometo retribuir. Também queria presenteá-lo com esta fitinha. Puxe-a. Coragem.

“O que estou fazendo?”, Geralt pensou, ao puxar a fita trançada que deslizou delicadamente pelos pontos debruados até cair no chão. Foi então que o vestido de seda e chiffon resvalou do corpo de Lytta feito água, ajeitando-se suavemente em volta dos tornozelos dela. Semicerrou os olhos por um momento, pois sua nudez paralisou-o como um repentino clarão. “O que estou fazendo?”, pensou, abraçando seu pescoço. “O que estou fazendo”, pensou, ao sentir o sabor do seu batom coral nos lábios? “O que estou fazendo é algo completamente desprovido de juízo”, refletiu, guiando Lytta com delicadeza em direção à pequena cômoda junto do pátio e posicionando-a sobre o tampo de malaquita.

Cheirava a frésia e damasco, e a mais alguma coisa, talvez a tangerina, ou vetiver.

Ficaram assim um bom tempo. No final, a cômoda balançava bastante. Coral, embora o abraçasse com força, não soltara as frésias dos dedos nem por um momento. O aroma da flor não abafara o cheiro dela.

– O seu entusiasmo me lisonjeia – afastou com força os seus lábios dos lábios dele e só então abriu os olhos – e envaidece. Mas tenho uma cama, sabia?

•

Realmente, Lytta possuía uma cama enorme, espaçosa como o convés de uma fragata. Ela o levou até a cama, e ele a seguiu, desejoso de vê-la. Não olhava para trás. Não vacilou em segui-la, para onde quer que fosse que ela o levasse, sem tirar os olhos dela.

A cama era enorme e possuía um baldaquim. A roupa de cama era de seda e o lençol, de cetim.

Aproveitaram a cama, literalmente, na sua totalidade. Fizeram uso de todas as polegadas do seu espaço, de todos os palmos da roupa de cama, de todas as dobras do lençol.

•

– Lytta…

– Você pode me chamar de Coral. Mas por enquanto não fale nada.

Nil admirari. O cheiro de frésias e damascos, os cabelos ruivos soltos e espalhados sobre o travesseiro.

•

– Lytta…

– Você pode me chamar de Coral, e pode repetir mais vezes aquilo que fez comigo hoje.

•

Uma tatuagem em forma de peixe, com listras policromadas, ricamente elaborada, com detalhes maravilhosamente coloridos, que graças às enormes barbatanas possuía forma triangular, adornava os quadris da feiticeira. Esse tipo de peixe, chamado de acará, costumava ser criado em aquários e piscinas por pessoas endinheiradas e novos-ricos que esbanjavam esnobismo. Por isso Geralt, e não só ele, sempre os associava a ostentação e a uma presunção pretensiosa. Ficou surpreso, então, que Coral tivesse escolhido exatamente essa tatuagem. A surpresa durou pouco, pois rápido veio o esclarecimento. Pela sua fisionomia, Lytta Neyd parecia relativamente jovem. Mas a tatuagem vinha dos tempos da sua verdadeira juventude, dos tempos em que os acarás trazidos do ultramar constituíam uma verdadeira e rara atração. Nessa época, eram poucos os endinheirados, os novos-ricos apenas começavam a enriquecer e poucas pessoas podiam se dar ao luxo de ter um aquário. “Por isso”, Geralt pensou acariciando o acará com as pontas dos dedos, “a tatuagem dela era como uma certidão de nascimento.” E era surpreendente que ainda a mantivesse, em vez de removê-la com magia. “Pois é”, pensou, transferindo as carícias para regiões mais distantes do peixe, “é agradável relembrar os tempos da juventude. Não é fácil se desfazer de uma lembrança como essa, mesmo quando se torna obsoleta e pateticamente banal.”

Apoiou-se sobre o cotovelo enquanto a observava detalhadamente, tentando encontrar em seu corpo outras lembranças, igualmente nostálgicas, mas não achou nada. Não esperava achar, simplesmente queria olhar. Coral suspirou. Claramente entediada com as peregrinações abstratas e pouco objetivas das mãos de Geralt, pegou uma delas e colocou no lugar certo, no seu entender. “Ótimo!”, Geralt pensou, puxando a feiticeira na sua direção e mergulhando o seu rosto nos seus cabelos. Ora, um peixe listrado, como se não houvesse coisas mais importantes dignas de atenção, ou de reflexão.

•

“Talvez os modelos de veleiros”, Coral pensou caoticamente, acalmando com dificuldade a respiração ofegante. “Talvez as figurinhas militares, talvez até a pesca com mosca. Mas o que vale… o que vale de verdade… é a maneira como me abraça.”

Geralt a abraçou como se abraçasse o mundo.

•

Na primeira noite dormiram pouco. Mesmo após Lytta adormecer, o bruxo não conseguia cair no sono. Ela abraçou-o na cintura com tanta força que ele respirava com dificuldade. Cingiu as coxas dele, envolvendo-as transversalmente com a sua perna.

Na segunda noite mostrou-se menos possessiva. Não o segurava nem abraçava com a mesma força da noite anterior. Pelo visto, não receava mais que ele fugisse de manhã.

•

– Você está pensativo. O seu rosto está pesado e soturno. Qual é o motivo disso?

– Estou refletindo sobre… hum… o naturalismo da nossa relação.

– Como?

– Eu já disse, o naturalismo.

– Você, por acaso, usou a palavra “relação”? É surpreendente a amplidão de significados desse termo. Além disso, concluo, com base no que está dizendo, que foi tomado por uma melancolia pós-coito. Realmente, é um estado natural que envolve todos os seres altamente evoluídos. Também estou me sentindo estranhamente nostálgica… Anime-se, bruxo. Estava apenas brincando.

– Você me atraiu… como se atrai um macho.

– O que você disse?

– Você me atraiu como se atrai um inseto, com feromônios mágicos de frésia e damasco.

– Você está falando sério?

– Por favor, Coral, não fique com raiva.

– Não estou com raiva, muito pelo contrário. Pensando bem, devo admitir que você tem razão. Sim, é naturalismo em estado puro. Só que ocorreu exatamente o contrário: foi você que me ludibriou e me seduziu logo à primeira vista. Você efetuou diante de mim, naturalística e animalmente, a dança viril do acasalamento. Você saltava, batia as pernas contra o chão, eriçava a cauda…

– Mentira.

– … você eriçava a cauda e batia as asas como um galo-lira. Piava e cacarejava…

– Não cacarejava.

– Cacarejava, sim.

– Não.

– Sim. Me abrace.

•

– Coral?

– Fale.

– Lytta Neyd… não é o seu verdadeiro nome, não?

– Meu verdadeiro nome era demasiadamente complicado.

– Como assim?

– Então tente pronunciá-lo rapidamente: Astrid Lyttneyd Ásgeirrfinnbjornsdottir.

– Entendi.

– Não acho.

•

– Coral?

– Hein?

– E Mozaïk? Qual a origem do apelido dela?

– Bruxo, você quer saber o que detesto? Detesto perguntas a respeito de outras mulheres, sobretudo quando a pessoa que pergunta está deitada na mesma cama comigo e fica perguntando, em vez de se concentrar naquilo que tem nas mãos. Você não se atreveria a fazer algo assim na cama com Yennefer.

– E eu detesto quando alguém menciona certos nomes, especialmente na hora em que…

– Devo parar, então?

– Eu não disse isso.

Coral beijou-o no ombro.

– Quando Mozaïk ingressou na escola, chamava-se Aïk. Não lembro o seu nome de família. Era um nome estranho, e ela sofria de vitiligo. A bochecha estava salpicada de manchas claras que realmente pareciam um mosaico. Obviamente, logo após o primeiro semestre já estava curada, pois as feiticeiras não podem cometer nenhum tipo de falha. Mas o apelido, de início zombador, permaneceu e num instante deixou de sê-lo. A própria Mozaïk gostou dele. Mas chega de falar nela. Quero que você fale para mim e sobre mim. Agora!

– Agora?

– Sim, fale sobre mim, como eu sou. Sou bonita, não sou? Diga, enfim!

– Bonita, ruiva e sardenta.

– Não sou sardenta. Retirei as sardas com magia.

– Nem todas. Você se esqueceu de algumas e eu as vi.

– Onde você as viu?… Ah, pois é. Verdade. Sou sardenta, então. E o que mais?

– Você é doce.

– Como?

– Doce como um wafer com mel.

– Você, por acaso, está zombando de mim?

– Olhe para mim. Mire nos meus olhos. Você vê neles alguma sombra de falsidade?

– Não, e é isso o que me deixa mais preocupada.

•

– Sente-se na beira da cama.

– Para quê?

– Eu quero lhe dar algo como recompensa.

– O quê?

– Quero lhe dar uma recompensa pelas sardas que você viu naquele lugar. Quero retribuir o empenho e a detalhadíssima… exploração. Quero retribuir e agradecer. Posso?

– Claro que pode.

•

A mansão da feiticeira, como quase todas as outras mansões nessa parte da cidade, tinha um terraço do qual se estendia uma vista para o mar. Lytta gostava de ficar lá sentada observando os navios no ancoradouro com a ajuda de uma poderosa luneta montada sobre um tripé. Geralt não compartilhava muito a sua fascinação pelo mar e tudo que navegava nele, mas gostava de ficar com ela no terraço. Sentava-se próximo, encostado a ela, com o rosto junto de seus ruivos cachos, sentindo o cheiro de frésias e damascos.

– Veja aquele galeão que está lançando âncora – Coral apontou. – Possui uma cruz azul-celeste na bandeira. É o Orgulho de Cintra, decerto navegando em direção a Kovir. E aquela coca é Alke de Cidaris, com certeza leva um carregamento de couros. E ali está Tétis, uma urca de transporte local de

cabotagem, de duzentos * lasts de carga, que opera entre Kerack e Nastrog. E olhe ali Pandora Parvi, uma escuna de Novigrad, um belo navio que está adentrando o ancoradouro. Dê uma olhada na ocular. Você verá…

– Vejo sem a luneta. Sou um mutante…

– É verdade. Havia esquecido. E ali é a galé Fúcsia, com trinta e dois pares de remos, que consegue levar no porão quatrocentos lasts de carga. E aquele esguio galeão com três mastros é o Vertigo, veio de Lan Exeter. E lá, mais distante, com uma bandeira cor amaranto, é o galeão Albatroz da Redânia, que possui três mastros e cento e vinte pés da proa à popa… Veja ali a embarcação de correios Eco içando as velas e zarpando para alto-mar. Conheço o capitão, frequenta a hospedaria de Ravenga quando fundeia aqui. Já ali, veja bem, com as velas hasteadas, está o galeão de Poviss…

O bruxo afastou os cabelos das costas de Lytta. Abriu os colchetes do vestido um por um, deixando à mostra os ombros da feiticeira. Em seguida dedicou toda a atenção a manusear o par de galeões com as velas içadas, galeões inigualáveis e impossíveis de encontrar em qualquer caminho marítimo, ancoradouro, porto ou registro de almirantado.

Lytta não protestou, e não afastava o olho da ocular da luneta. Em certo momento, disse:

– Você está se comportando como um menino de quinze anos, como se você os estivesse vendo pela primeira vez.

– Para mim sempre é a primeira vez. E, para dizer a verdade, nunca fui um menino de quinze anos – confessou.

•

– Sou de Skellige. O mar corre no meu sangue, e eu o amo – disse-lhe depois, já na cama. Enquanto ele permanecia em silêncio, retomou: – Às vezes sonho zarpar sozinha, içar as velas e lançar-me ao alto-mar… Longe, para além do horizonte, só com as águas e o céu em volta, a espuma salgada aspergindo-me, o vento balançando o cabelo com um carinho genuinamente viril. E eu sozinha, completamente sozinha, infinitamente solitária no meio de uma força da natureza desconhecida e inimiga. A solidão no meio do mar desconhecido. Você não sonha com ela?

“Não, não sonho”, pensou. “Eu a tenho todos os dias.”

•

Chegou o dia do solstício de verão, é depois dele a noite mágica, a mais curta do ano, durante a qual brotava a flor de samambaia e as moças nuas, ungidas com língua de cobra, dançavam nas clareiras umedecidas pelo orvalho.

Uma noite curta como um piscar de olhos.

Uma noite louca e iluminada por relâmpagos.

•

De manhã, após o solstício, Geralt acordou sozinho. O café da manhã esperava-o pronto na cozinha. No entanto, mais alguém o aguardava.

– Bom dia, Mozaïk. O tempo está ótimo, não é? Onde está Lytta?

– Hoje você tem um dia de folga – respondeu sem olhar para ele. – Minha inigualável mestra estará ocupada até tarde. Houve um acúmulo de pacientes durante o tempo em que ela se dedicou aos… prazeres.

– Pacientes?

– Ela trata problemas de infertilidade e outras doenças ginecológicas. Não sabia? Então agora já sabe. Tenha um bom dia.

– Não saia ainda. Queria…

– Não sei o que você queria – interrompeu –, mas parece uma má ideia. Seria melhor que você não falasse comigo, que fingisse que não existo.

– Garanto que Coral não a machucará mais. Além disso, ela não está aqui, não está nos vendo.

– Ela vê tudo o que quer ver, bastam apenas alguns encantamentos e um artefato. E não se engane achando que tem alguma influência sobre ela. Para isso, é preciso ter um pouco mais que… – com um movimento da cabeça, apontou para o quarto. – Por favor, peço-lhe que não mencione o meu nome na presença dela, nem que seja sem querer, pois ela fará questão de me lembrar isso. Pode ser daqui a um ano, mas lembrará, com certeza.

– Já que ela a trata assim… você não pode simplesmente ir embora?

– Para onde? – irritou-se. – Para uma manufatura de tecidos? Para ser aprendiz de um alfaiate? Ou direto para um lupanar? Eu não tenho ninguém. Sou ninguém, e sempre serei ninguém. Só ela pode mudar isso. Eu aguentarei tudo… Mas, por favor, não piore as coisas. Na cidade encontrei o seu amiguinho, aquele poeta, Jaskier. Perguntou por você, estava preocupado – disse ao olhar para ele após um instante.

– Você o acalmou? Contou que estou em segurança, que não corro nenhum perigo?

– E por que você queria que eu mentisse?

– Como?

– Você não está seguro aqui. Você está aqui com ela para esquecer o desapontamento causado pela outra. Você inclusive pensa só na outra, mesmo estando junto dela, e ela sabe disso. Mas está jogando o jogo porque está se divertindo. Além disso, você finge muito bem, é muito convincente. Contudo, você já pensou no que pode acontecer quando ela descobrir?

•

– Hoje você também vai dormir na casa dela?

– Vou – Geralt confirmou.

– Já vai fazer uma semana, sabia?

– Quatro dias.

Jaskier passou os dedos nas cordas do alaúde, num espetacular glissando. Olhou em volta da taberna. Tomou um gole da caneca e limpou o nariz manchado de espuma.

– Sei que não é de meu interesse – disse, de uma forma excepcionalmente dura e decidida, incomum para ele. – Sei que não deveria me meter. Sei que você não gosta quando alguém se mete. Mas certas coisas, amigo Geralt, não deveriam ser mantidas em silêncio. Se você quer saber a minha opinião, Coral é desse tipo de mulheres que deveriam carregar sempre etiquetas de advertência à mostra anunciando: “Pode olhar, mas é proibido tocar”, algo parecido com o que se coloca em terrários de zoológicos onde se criam cascavéis.

– Eu sei.

– Ela está brincando e divertindo-se com você.

– Eu sei.

– E você está simplesmente desafogando as mágoas do relacionamento com Yennefer, de quem você não consegue esquecer.

– Sei.

– Por que, então…

– Não sei.

•

À noite passeavam. Ou iam ao parque, ou a um outeiro que se erguia sobre o porto, ou andavam pela Feira das Especiarias.

Algumas vezes visitaram juntos a hospedaria Natura Rerum. Febus Ravenga ficou muito contente. Por ordem dele, os garçons lhes prestavam serviço de primeiríssima qualidade. Geralt finalmente conheceu o sabor do pregado em tinta de choco. E depois o da coxa de ganso ao vinho branco e do pernil de vitela com legumes. Só no início, e por pouco tempo, ficou incomodado com a ostensiva e insistente curiosidade dos outros hóspedes na sala. Depois, a exemplo de Lytta, ignorava-os. O vinho da adega local ajudava muito nisso.

Depois voltavam à mansão. Coral retirava o vestido nos corredores e dirigia-se para o quarto já completamente nua. Geralt seguia-a com os olhos. Adorava olhar para ela.

•

– Coral?

– Pois não?

– Dizem por aí que você sempre consegue ver aquilo que quer ver. Bastam alguns encantos e um artefato.

– Parece que será necessário torcer outra vez a articulação de alguém por aí, para ensinar essa gente a parar de tagarelar – falou erguendo-se sobre o cotovelo e mirando em seus olhos.

– Por favor, peço muito…

– Estava brincando – cortou. Em sua voz não se percebia o mínimo sinal de alegria. Retomou, enquanto ele permanecia calado:

– E o que exatamente você gostaria de ver ou prever? Quer ver quantos anos ainda vai viver? Como e quando vai morrer? Qual o cavalo vencerá o Grande Campeonato de Tretogor? Quem será eleito o hierarca de Novigrad pelo colégio eleitoral? Com quem estará Yennefer neste momento?

– Lytta…

– Posso saber do que se trata?

Contou-lhe sobre o roubo das espadas.

•

Lampejou e, após um instante, um trovão retumbou com estrondo.

A fonte borbulhava silenciosamente, a piscina cheirava a pedra molhada. A menina de mármore petrificou numa pose de dançarina, molhada e cheia de brilho. Coral apressou-se a dar esclarecimentos:

– A estatueta e a fonte não servem para satisfazer o meu gosto por cafonice pretensiosa, nem constituem uma expressão de submissão perante modas pernósticas. Servem a fins mais concretos. A estatueta representa a minha pessoa em miniatura aos doze anos.

– Quem presumiria que você teria uma tão bela desenvoltura!

– É um artefato mágico fortemente ligado a mim. Já a fonte, mais concretamente, a água, serve para as adivinhações. Suponho que você sabe o que é e como funciona a adivinhação, não?

– Tenho apenas uma vaga ideia.

– O roubo das suas armas ocorreu há cerca de dez dias. Para a leitura e análise dos acontecimentos passados, inclusive muito distantes no tempo, a maneira mais eficiente e certeira é usar a oniromancia. Contudo, para poder utilizá-la, é preciso possuir o talento de sonhar, bastante raro, que eu não tenho. Sortilégios ou cleromancias não nos ajudarão muito, assim como a piromancia ou a aeromancia, que normalmente são eficazes quando se procura adivinhar o destino das pessoas, mas é preciso ter posse de algo que pertence a ela, como cabelos, unhas, uma parte da vestimenta ou coisas parecidas. Quando se trata de objetos, como espadas, no nosso caso, elas não funcionam.

Lytta afastou o cacho ruivo da testa e continuou:

– Portanto, resta-nos apenas a adivinhação que, como você certamente sabe, permite ver e prever acontecimentos futuros. Os elementos ajudam, pois a temporada é verdadeiramente tempestuosa. Juntaremos a adivinhação com a ceraunoscopia. Aproxime-se. Segure a minha mão e não a solte. Debruce-se sobre a água e fixe o olhar nela, mas sem tocá-la, de modo algum. Concentre-se. Pense nas suas espadas. Fixe o seu pensamento nelas!

Geralt ouviu Lytta entoar um encantamento. A água da piscina reagia espumando e ondeando fortemente a cada frase da fórmula proferida. Enormes borbulhas começaram a se soltar do fundo.

A água alisou e enturvou-se, depois clareou completamente.

Do fundo, olhos escuros, cor de violeta, observavam. Cachos negros e brilhosos como asas de graúna caíam em abundância sobre os ombros, refletindo a luz como as penas de pavão, serpenteando e ondeando ao mínimo movimento…

– Pense nas espadas. Você deve pensar nas espadas – Coral disse a ele em voz baixa e com malícia.

A água redemoinhou e a mulher de cabelos negros e olhos cor de violeta desapareceu no turbilhão. Geralt suspirou baixinho.

– Pense nas espadas. Não pense nela! – Lytta silvou.

Entoou o encantamento ao clarão de outro relâmpago. A estatueta na fonte resplandeceu com uma luz leitosa e a água acalmou e clareou outra vez. E foi então que ele a viu.

Viu a sua espada, viu as mãos que tocavam nela, e os anéis nos dedos.

Feita de meteorito. Uma espada maravilhosamente equilibrada, o peso da lâmina precisamente em harmonia com o da empunhadura… E viu a outra espada, feita de prata, e as mesmas mãos. Trava de aço chapeada com prata… símbolos rúnicos ao longo de toda a lâmina…

– Vejo as minhas espadas… vejo-as de verdade… – suspirou alto, apertando a mão de Lytta.

– Fique em silêncio… Fique em silêncio e concentre-se – ela disse, dando um aperto ainda mais forte na sua mão.

As espadas desapareceram. No lugar delas, ele viu uma floresta negra e uma superfície pedregosa. Rochas… Uma delas, enorme, alta e esguia, erguia-se sobre as outras… Esculpida pelos ventos, adquirira formas bizarras…

A água espumou por pouco tempo.

Um homem de cabelos grisalhos, de feições nobres, trajando um caftan preto de veludo e um colete dourado de brocado, apoia as duas mãos sobre um púlpito de mogno. – De primeiríssima qualidade – afirma em voz alta. – Algo absolutamente singular, um achado extraordinário, duas espadas de bruxo…

Um enorme gato negro dá uma volta sem sair do lugar e tenta alcançar com a pata o medalhão que balança suspenso sobre ele numa corrente. No oval dourado do medalhão, uma imagem esmaltada de um golfinho nageant azul-celeste.

Um rio passa por entre as árvores, sob o baldaquim de ramos e galhos suspensos sobre a superfície da água. Num dos galhos há uma mulher em pé, imóvel, trajando um longo vestido justo.

A água espumou por pouco tempo e a sua superfície quase de imediato se alisou. Avistou um mar de grama, uma planície sem fim que se estendia até o horizonte. Observou-a de cima, da perspectiva do voo do pássaro, ou do topo de um morro. Da encosta do morro desceu uma série de silhuetas indistintas. Quando viraram a cabeça, viu rostos inexpressivos, com olhos mortos e vazios. De repente, percebeu que se tratava de mortos, era um desfile de cadáveres…

Os dedos de Lytta novamente apertaram a mão de Geralt com a força de tenazes.

Lampejou. Uma brusca ventania puxou os seus cabelos. A água na piscina agitou-se e levantou, espumou e ergueu-se, formando uma onda enorme como uma parede que desabou diretamente sobre eles. Os dois afastaram-se da fonte. Coral tropeçou, mas Geralt a amparou. Um trovão ribombou.

A feiticeira gritou o encantamento e fez um gesto com a mão. As luzes de toda a casa acenderam.

A água da piscina, fervilhante pouco tempo antes, agora estava lisa, calma, agitada apenas pelo pequeno fio de água que corria preguiçosamente na fonte. E, embora minutos antes os dois tivessem sido derrubados por uma enorme onda, não havia neles nenhum vestígio sequer de um pingo de água.

Geralt respirou pesadamente e se levantou.

– Esse final… – murmurou, ajudando a feiticeira a se erguer. – Essa última imagem… O morro e a sequência de… pessoas… Não reconheci… Não tenho a mínima ideia do que poderia ser aquilo…

– Nem eu – ela respondeu com uma voz estranha. – Mas essa visão não era sua. Essa imagem era destinada para mim. No entanto, também não sei o que poderia significar, mas tenho um estranho pressentimento de que não era nada bom.

Os trovões silenciaram. A tempestade afastou-se para o interior.

•

– Toda essa adivinhação dela é charlatanaria – Jaskier repetiu, retesando as cravelhas do alaúde. – Ilusões enganosas para os ingênuos. A força da sugestão, nada mais. Você pensou nas espadas, e então viu as espadas. O que mais você teria visto? Um desfile de cadáveres? Uma terrível onda? Uma rocha com um formato estranho? Aliás, que formato seria esse?

“Parecia uma enorme chave, ou uma cruz heráldica…”, o bruxo pensou.

O trovador ficou pensativo. Minutos depois mergulhou o dedo na cerveja e desenhou algo no tampo da mesa.

– Parecida com esta aqui?

– Hã! Muito!

– Que coisa! – Jaskier bateu as cordas, chamando a atenção de toda a taberna. – Caramba, amigo Geralt! Quantas vezes você me salvou de uma encrenca? Quantas vezes você me ajudou ou me prestou um favor? Inúmeras vezes! Então, chegou agora a minha vez. Acho que posso ajudar você a recuperar as suas famosas armas.

– Como?

Jaskier ergueu-se.

– Senhora Lytta Neyd, a sua mais nova conquista, a quem eu peço desculpas e que volto a considerar como uma excepcional adivinha e uma brilhante clarividente, na sua adivinhação, de modo evidente, claro e indubitável, apontou para um lugar que eu conheço. Vamos até Ferrant imediatamente. Através de suas conexões secretas, você precisa nos arranjar uma audiência e emitir um passe para que você possa sair da cidade pela porta de serviço, para evitar um confronto com essas machonas da casa de guarda. Vamos fazer um passeio, um pequeno passeio, relativamente curto.

– Aonde?

– Eu reconheci a rocha da sua visão. Na terminologia específica, essas formações são chamadas de inselbergs. No entanto, os moradores locais chamam essa rocha de Grifo. Nesse lugar característico, aliás, um sinal, leva à casa de uma pessoa que realmente pode saber algo sobre as suas espadas. O local para onde vamos chama-se Ravelin. Isso lhe diz alguma coisa?

 

* Antiga unidade de medida inglesa que designava peso, massa, volume e número da carga que um

navio podia carregar. (N. do T.)