Tempo de Tempestade

Andrzej Sapkowski · Capítulo 29 de 31

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Tempo de Tempestade

Interlúdio

 

Doze dias mais tarde

 

A fonte murmurejava baixinho, a piscina cheirava a pedra molhada. Cheiravam as flores e a hera que cobria as paredes do pátio. Cheiravam as maçãs numa travessa sobre o tampo de mármore da mesinha. Transpiravam dois copos com vinho fresco.

Duas mulheres estavam sentadas à mesa. Eram duas feiticeiras. Se por acaso estivesse perto delas alguém sensível em termos de arte, cheio de imaginação e que conseguisse elaborar alegorias líricas, não teria problemas em apresentá-las. Lytta Neyd, de cabelos com matizes de um ruivo fulgurante, trajava um vestido que combinava tons de vermelho e verde, e parecia um pôr do sol em setembro. Yennefer de Vengerberg, de cabelos escuros, usava uma veste em branco e preto e lembrava uma manhã de dezembro. Yennefer interrompeu o silêncio:

– A maioria das mansões vizinhas tombou e está em ruínas ao pé da falésia. A sua está intocada. Não caiu nem uma telha dela. Você tem sorte, Coral. Acho que deveria comprar uma rifa.

– Os sacerdotes não chamariam isso de sorte – Lytta Neyd sorriu. – Diriam que se trata da proteção dos deuses e das forças celestiais. Os deuses protegem os justos e guardam os virtuosos, premiam a decência e a justiça.

– Claro, premiam, mas quando querem e se estão por perto. À sua saúde, amiga.

– À sua também, amiga. Mozaïk, encha o copo da senhora Yennefer. Está vazio.

– Quanto à mansão – Lytta seguiu Mozaïk com o olhar –, ela está à venda. Estou vendendo-a porque… preciso me mudar. A aura de Kerack deixou de me servir.

Yennefer ergueu as sobrancelhas. Lytta não a deixou esperar. Falou com uma ironia que mal se podia perceber:

– O rei Viraxas começou o seu governo promulgando decretos verdadeiramente soberanos. Primo, o dia da coroação foi decretado feriado nacional, um dia livre de trabalho no reinado de Kerack. Secundo, foi proclamada a anistia… para os presos que cometeram crimes, mas os presos políticos continuarão na prisão, sem direito a visitas ou a troca de correspondências. Tertio, foram aumentadas em cem por cento as tributações e as taxas portuárias. Quarto, num período de duas semanas, todos os inumanos e mestiços que prejudicam a economia do país e tiram as vagas de trabalho de todos os humanos de sangue puro terão que deixar Kerack. Quinto, em Kerack está proibida a prática de qualquer tipo de magia sem o consentimento do rei e não é mais permitido que os mágicos tenham a posse de terras ou imóveis. Os feiticeiros residentes em Kerack precisam se desfazer de seus imóveis e conseguir uma concessão, ou deixar o reinado.

– Um grandioso gesto de gratidão – Yennefer bufou. – Correm boatos de que foram os feiticeiros que entronaram Viraxas, que organizaram e financiaram a sua volta e o ajudaram a tomar o poder.

– Os boatos estão certos. Viraxas terá que retribuir a ajuda do Capítulo, por isso mesmo está aumentando os tributos e conta com a confiscação dos bens dos inumanos. O decreto afeta a mim mesma, nenhum outro feiticeiro em Kerack tem casa aqui. É a vingança de Ildiko Breckl, uma retaliação pela ajuda médica prestada às mulheres daqui, que os conselheiros de Viraxas consideraram imoral. O Capítulo poderia fazer pressão no que diz respeito a esse assunto, mas não vai fazer isso. Não se contentou com os privilégios comerciais, as ações no estaleiro e nas companhias marítimas. Está negociando as ações subsequentes e não pensa na possibilidade de enfraquecer a sua posição. Portanto, considerada como persona non grata, serei obrigada a emigrar à procura de novos pastos.

– Mas acho que você fará isso sem grandes problemas, pois a situação política atual não proporciona a Kerack muitas chances de obter o título de “o mais agradável lugar ao sol”. Você venderá esta mansão e comprará outra, talvez nas montanhas de Lyria. As montanhas lyrianas estão na moda. Muitos feiticeiros mudaram para lá. É um lugar bonito e os impostos são razoáveis.

– Não gosto das montanhas, prefiro o mar. Não estou preocupada, com a minha especialização será fácil encontrar algum refúgio. Há mulheres por toda parte, e todas precisam de mim. Beba, Yennefer. À sua saúde!

– Você está me incitando a beber, mas você mal toca os lábios no copo. Você está bem de saúde? Não está com aspecto saudável.

Lytta suspirou de uma maneira dramática.

– Os últimos dias têm sido difíceis. Um golpe palaciano, essa tempestade horrível, ah… Além disso, este enjoo matinal… Eu sei que passará depois de três meses, mas ainda faltam dois meses inteiros…

Em meio ao silêncio que pairou, foi possível ouvir o zumbido de uma vespa que sobrevoava a maçã. Coral rompeu o silêncio:

– Ha, ha… Eu estava brincando. Que pena que você não pode ver seu rosto.

Te peguei! Ha, ha.

Yennefer olhou para cima, para o topo do muro coberto de hera, e fitou-o por um longo tempo. Lytta retomou:

– Te peguei, e aposto que começou a imaginar coisas. Tenho certeza de que logo você associou o meu estado abençoado a… Não faça essa cara, não faça essa cara. Você deve saber da notícia, o boato se espalhou como as ondas em círculo sobre a água. Mas fique tranquila, não há nem um pouco de verdade nos boatos. As minhas chances de engravidar são iguais às suas, nada mudou com relação a isso. As minhas relações com o bruxo estavam baseadas apenas em negócios, em questões profissionais, mais nada.

– Hum…

– O povo adora boatos. Veem um homem acompanhado de uma mulher e logo inventam um caso amoroso. O bruxo, confesso, visitava-me com frequência. E confesso também que éramos vistos juntos na cidade. No entanto, tratava-se apenas de negócios.

Yennefer pôs o copo na mesa, apoiou os cotovelos sobre o tampo, juntou as pontas dos dedos, formando uma espécie de telhado com as mãos, e mirou a feiticeira ruiva nos olhos. Lytta tossiu levemente, mas não baixou os olhos ao falar:

– Primo, eu nunca faria isso com uma amiga. Secundo, o seu bruxo não se interessou nem um pouco pela minha pessoa.

– Será mesmo? – Yennefer ergueu as sobrancelhas. – Será mesmo? E que explicação você daria para isso?

– Talvez ele tenha deixado de se interessar por mulheres mais maduras, independentemente da aparência delas, talvez prefira as verdadeiramente jovens – Coral sorriu levemente. – Mozaïk! Venha cá. Olhe só, Yennefer! Um broto de juventude e, até pouco tempo atrás, de inocência.

– Ela? Ele com ela? Com a sua aluna? – irritou-se Yennefer.

– Por favor, Mozaïk, conte-nos sobre o seu caso amoroso. Estamos curiosas. Adoramos casos amorosos. E histórias de amor infelizes. Quanto mais infelizes, melhor.

– Senhora Lytta… por favor… – A moça, em vez de corar, empalideceu como um cadáver. – A senhora já havia me castigado por aquilo… Quantas vezes se pode punir alguém pelo mesmo delito? Não me ordene…

– Conte!

– Deixe estar, Coral – Yennefer meneou a mão. – Não a perturbe. Além disso, não estou muito interessada.

– Não acredito muito nisso. – Lytta Neyd sorriu maliciosamente. – Mas tudo bem, vou poupá-la. Realmente, já havia dado uma punição a ela, desculpei-a e permiti que continuasse os estudos. As confissões que balbuciava já não me divertem mais. Resumindo: apaixonou-se pelo bruxo e fugiu com ele. E ele, quando se entediou, simplesmente a deixou. Um dia ela acordou sozinha. Os lençóis haviam esfriado e o amante sumiu sem deixar rastro. Partiu porque precisava. Sumiu, dissipou como a fumaça. E tudo o vento levou.

Embora parecesse impossível, Mozaïk empalideceu ainda mais. As suas mãos tremiam.

– Deixou flores, um pequeno buquê de flores, não é? – Yennefer falou baixinho. Mozaïk ergueu a cabeça, mas não respondeu.

– Flores e uma carta – Yennefer repetiu.

Mozaïk permanecia calada, mas corava cada vez mais.

– Uma carta… – disse Lytta Neyd, examinando a moça. – Você não me falou nada sobre a carta, não havia mencionado nada disso.

Mozaïk cerrou os lábios.

– Então foi por isso – Lytta concluiu, aparentando calma. – Foi por isso que você voltou, embora soubesse que podia receber uma punição severa, muito mais severa do que aquela que acabou recebendo. Foi ele quem mandou você voltar. Se não fosse por isso, você não voltaria.

Mozaïk não respondeu. Yennefer também permanecia calada, enrolando um cacho escuro do cabelo no dedo. De repente, ergueu a cabeça, fixou o olhar nos olhos da moça e sorriu.

– Foi ele quem mandou você voltar para mim – disse Lytta Neyd. – Mandou que você voltasse, embora soubesse o quanto eu poderia castigá-la. Admito que não esperava que ele fizesse isso.

A fonte murmurejava, cheirava a pedras molhadas. Cheiravam as flores e a hera.

– Surpreendeu-me com isso, não esperava que fosse capaz de fazer algo assim – repetiu Lytta.

– Porque você não o conhecia, Coral, você não o conheceu nem um pouco – Yennefer respondeu com calma.