Tempo de Tempestade

Andrzej Sapkowski · Capítulo 21 de 31

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Tempo de Tempestade

Capítulo décimo quinto

 

Antigamente, nós, as raposas, possuíamos muitos poderes.

Podíamos criar ilusões de ilhas mágicas, mostrar dragões que dançavam no céu a multidões compostas de milhares de pessoas. Conseguíamos criar visões de um exército poderoso que se aproximava dos muros da cidade para que todos os habitantes o vissem da mesma forma, inclusive os mínimos detalhes do equipamento e os símbolos nas bandeiras. No entanto, as inigualáveis raposas dos tempos primordiais, que pagaram pelo seu poder mágico com as suas vidas, eram as únicas que tinham esses poderes. Desde então, as capacidades de nossa espécie diminuíram muito, com certeza por viver permanentemente em meio aos humanos.

Wiktor Pielewin, O sagrado livro do lobisomem

 

– Em que apuros você nos meteu, Caixotão! – irritou-se Javil Fysh. – Que confusão você arranjou para nós! Há uma hora estamos perdidos no meio dos defluentes! Só ouvi falar coisas ruins sobre este pantanal! Aqui desaparecem navios e pessoas! Onde está o rio? E a hidrovia? Por que…

– Cale a boca, diabos! – o capitão enervou-se. – Onde está a hidrovia? No meio do teu cu! É tão sabichão assim? Então, esta é uma oportunidade para você mostrar as suas capacidades! Estamos de novo diante de uma bifurcação! Como devo navegar, cabeção? À esquerda, seguindo a correnteza? Ou talvez ache que devo virar à direita?

Fysh bufou e se virou de costas. Caixotão agarrou as malaguetas da roda do leme e dirigiu a chalupa para o defluente esquerdo.

O moço com a sonda berrou. Após um instante, Kevenard van Vliet gritou também, mas muito mais alto.

– Afaste-se da margem, Caixotão! Mantenha a estibordo! Fique longe da margem! Longe da margem! – berrou Petru Cobbin.

– O que houve?

– Cobras! Não está vendo? Cobraaaas!

Addario Bach xingou.

A margem esquerda estava cheia de cobras. Os répteis serpenteavam por entre os caniços e as algas ribeirinhas, rastejavam sobre os troncos que emergiam da água, pendiam, silvando, dos galhos suspensos sobre a água. Geralt havia reconhecido os mocassins d’água, cascavéis, jararacas, boomslangs, víboras-de-russell, víboras-das-árvores, biútas, víboras-aríetes, mambas-negras e outras que desconhecia.

Toda a tripulação do Profeta fugiu em pânico, afastando-se do bombordo, cada um gritando a seu modo. Kevenard van Vliet foi correndo para a proa e, tremendo todo, agachou-se atrás das costas do bruxo. Caixotão girou a roda do leme e a chalupa começou a virar. Geralt pôs a mão no ombro dele e disse:

– Não. Mantenha como estava. Não se aproxime da margem direita.

– Mas as cobras… cairão sobre o bordo… – Caixotão apontou para o galho do qual se aproximavam, lotado de cobras suspensas que silvavam. – Essas cobras não são reais! Mantenha o rumo e fique longe da margem direita.

Os ovéns da vela grande colidiram com um galho suspenso. Algumas cobras envolveram-se nos cabos e outras, entre elas duas mambas, caíram sobre o convés. Erguendo-se e silvando, atacaram os que estavam agrupados junto do estibordo. Fysh e Cobbin fugiram para a proa. Os rapazes do convés, gritando, lançaram-se para a popa. Um deles pulou na água e desapareceu antes de soltar um grito. O seu sangue redemoinhou na superfície.

– Heteróptera! Ao contrário das cobras, essa é autêntica – o bruxo disse apontando para a onda e para a escura silhueta que se afastava.

– Detesto répteis… detesto cobras – soluçou Kevenard van Vliet, encolhido junto do bordo.

– Não há cobras aqui. Não houve nenhuma cobra aqui. É tudo uma ilusão.

Os rapazes do convés gritavam e esfregavam os olhos. As cobras desapareceram, tanto aquelas que estavam a bordo quanto as da margem. Não havia mais nenhum sinal delas.

– O que… O que foi aquilo? – gemeu Petru Cobbin.

– Uma ilusão. A aguara nos apanhou – repetiu Geralt.

– Como é que é?

– A raposa. Ela está criando ilusões para nos desorientar. Estou tentando descobrir desde quando isso está acontecendo. A tempestade parecia real. Havia dois defluentes, o capitão enxergou bem. Mas a aguara escondeu um dos defluentes atrás de uma ilusão e falsificou as indicações da bússola. Criou também a ilusão das cobras.

– Fabulações de bruxo! – bufou Fysh. – Crendices élficas! Superstições! Está querendo dizer que uma raposa qualquer teria esse tipo de poder, de esconder um defluente e falsificar a bússola? E criar cobras onde não existem? Balela! Garanto que a culpa é destas águas! Fomos intoxicados pela névoa, pelos gases pútridos emitidos pelo pântano miasmático! Foi por isso que tivemos essas visões…

– São ilusões criadas pela aguara.

– Você acha que somos burros? – gritou Cobbin. – Ilusões? Que ilusões? Eram autênticas víboras! Todos vocês viram, não é? Ouviram o silvo? Até senti o fedor delas!

– Era uma ilusão. As cobras não eram verdadeiras.

Os ovéns do Profeta novamente colidiram com galhos suspensos.

– Quer dizer que se trata de um devaneio, não é? Uma ilusão? Esta cobra não é verdadeira – falou um dos moços do convés, estendendo o braço. – Não! Pare!

Uma enorme víbora-aríete que pendia de um ramalho silvou de modo horripilante e o atacou num instante, cravando os dentes no pescoço do marinheiro uma primeira vez, depois outra. O rapaz soltou um grito dantesco, cambaleou, tombou, estremeceu, batendo a cabeça ritmicamente contra o convés. A boca começou a espumar e os olhos ficaram ensanguentados. Quando correram até ele, já estava morto.

O bruxo cobriu o seu corpo com um pano e disse:

– Diabos, gente! Tenham cuidado! Nem tudo aqui é uma ilusão!

– Atenção! – um marinheiro gritou da proa. – Aaaatençãããooo! Um redemoinho adiante! Redemoinho!

O braço morto bifurcava-se outra vez. O defluente esquerdo, aquele para o qual os levava a correnteza, turbilhonava-se e se agitava num forte redemoinho. O turbilhão espumava como uma sopa num caldeirão. No redemoinho giravam, aparecendo e desaparecendo, tocos e galhos e até uma árvore inteira com a copa cheia de galhos. O rapaz do convés que operava a sonda fugiu da proa e os outros começaram a gritar. Caixotão permanecia calmo, imóvel. Girou a roda do leme e dirigiu a chalupa para o tranquilo defluente direito.

– Ufa! – enxugou a testa. – Na hora certa! Estaríamos perdidos se aquele redemoinho tivesse nos engolido, ficaríamos tontos…

– Redemoinhos! – gritou Cobbin. – Heterópteras! Jacarés! Sanguessugas! Não precisamos de ilusões, pois estes pântanos estão cheios de porcarias, de répteis, de todos os tipos de nojeiras venenosas. Foi uma desgraça termos nos perdido por aqui. Aqui, muitos…

– Barcos desapareceram – concluiu Addario Bach, apontando com o dedo. – E deve ser mesmo verdade.

Na margem direita havia destroços de um barco preso no pântano, apodrecido e quebrado, inundado até a amurada, coberto de plantas aquáticas, envolto por trepadeiras e musgos. Observavam-no enquanto o Profeta, carregado pela correnteza fraca, passava por perto.

Caixotão cutucou Geralt com o cotovelo e disse em voz baixa:

– Senhor bruxo, a bússola ainda está descontrolada. De acordo com o ponteiro, mudamos o rumo do leste para o sul. Se não for um ardil da raposa, teremos problemas. Estes pântanos ainda não foram desbravados, mas sabe-se que se estendem ao sul da hidrovia. Portanto, estamos sendo levados para o coração do pantanal.

– Mas estamos à deriva – observou Addario Bach. – Não há vento. Estamos sendo carregados pela correnteza, e a correnteza significa que há uma ligação com um rio, com a hidrovia de Pontar…

– Não necessariamente – Geralt meneou a cabeça. – Já ouvi falar sobre esses braços mortos. A direção da descida da água deles muda, a depender da maré, alta ou baixa. E não se esqueçam da aguara, também pode ser uma ilusão.

Os ciprestes-dos-pântanos ainda cobriam as margens espessamente. Também apareceram os malmequeres-do-brejo, com os caules em forma de bulbosos rizomas. Muitas árvores estavam secas, mortas. Dos seus troncos e galhos esmaecidos pendiam volumosos festões de bromélias do brejo que à luz do sol brilhavam em tons de prata. Nos galhos, as garças, com os seus olhos imóveis, inspecionavam o Profeta enquanto passava.

O marinheiro que estava na proa gritou.

Dessa vez todos a viram. Estava novamente em cima de um ramalho suspenso sobre a água, ereta e imóvel. Caixotão pressionou as malaguetas sem pressa e dirigiu a chalupa para a margem esquerda. De repente, a raposa uivou intensa e incisivamente. Regougou outra vez quando o Profeta passou perto dela.

A enorme raposa correu sobre o ramalho e escondeu-se no mato.

•

– Foi um aviso, um aviso e uma chamada, ou melhor, uma ordem – falou o bruxo após o alvoroço a bordo passar.

– Para soltar a menina – concluiu, sobriamente, Addario Bach. – Claro! Mas não podemos soltá-la, porque está morta.

Kevenard van Vliet gemeu, segurando as têmporas. Molhado, sujo e apavorado, já não lembrava um comerciante que tinha recursos para comprar o próprio barco. Lembrava um pirralho pego roubando ameixas.

– O que fazer? O que fazer? – gemeu.

– Eu sei o que fazer – disse, de repente, Javil Fysh. – Vamos amarrar a menina morta em um barril e jogar para fora do barco. A raposa deixará de nos perseguir para chorar sobre a cria. Assim, ganharemos tempo.

– Que vergonha, senhor Fysh! – a voz do curtidor de súbito endureceu. –

Não é digno tratar um cadáver dessa maneira. É desumano.

– E ela por acaso era um ser humano? Era uma elfa, metade animal. Afirmo que o barril é uma boa ideia…

– Só um completo idiota pode pensar em algo assim, algo que decerto nos traria a total perdição. Não sairemos desta se a vixena perceber que matamos a menina – disse Addario Bach, arrastando as palavras.

– Não fomos nós que matamos a cria – intrometeu-se Petru Cobbin, antes que Fysh, vermelho de raiva, conseguisse reagir. – Não fomos nós! Foi Parlaghy, ele é o culpado. Nós não temos culpa.

– Tem razão – confirmou Fysh, dirigindo-se não a Van Vliet ou ao bruxo, mas a Caixotão e aos rapazes do convés. – Parlaghy é o culpado. Que a raposa vingue-se dele. Vamos metê-lo numa piroga junto com o cadáver e soltá-lo à deriva. Entretanto, nós…

Cobbin e alguns rapazes do convés aceitaram a ideia, soltando um grito animado, mas Caixotão imediatamente reagiu:

– Não permitirei isso!

– Nem eu. – Kevenard van Vliet empalideceu. – O senhor Parlaghy pode ter errado, talvez mereça ser castigado pelo seu ato. Mas abandoná-lo, condenar à morte? Não, não se pode fazer isso.

– A morte dele ou a nossa! – gritou Fysh. – O que escolher? Bruxo, você nos defenderá quando a raposa subir a bordo?

– Defenderei.

Todos silenciaram.

O Profeta Lebioda navegava à deriva, arrastando tranças de algas por entre uma água fétida e borbulhenta. Sentados nos galhos, garças e pelicanos os observavam.

•

O marinheiro na proa deu um grito de alerta. Logo todos começaram a berrar ao ver os destroços de um barco putrefato, coberto de plantas trepadeiras e mato, o mesmo barco que tinham visto fazia uma hora.

– Estamos dando voltas. É um circuito fechado. A raposa nos prendeu numa armadilha – o anão constatou.

– Só temos uma saída: passar por aquilo. – Geralt apontou para o defluente esquerdo e para o redemoinho que turbilhonava nele.

– Por esse gêiser? – berrou Fysh. – Você enlouqueceu de vez? O barco vai se desfazer em pedaços!

– Vai se desfazer ou virar – confirmou Caixotão –, ou o redemoinho nos lançará para o pântano e acabaremos como aquele barco. Olhem esse turbilhão sacudindo as árvores. O redemoinho parece ter uma força tremenda.

– Pois é, mas parece uma ilusão. Acho que é mais uma ilusão da aguara.

– Como assim, parece? Você é bruxo e não consegue detectar isso?

– Detectaria uma ilusão mais fraca, mas estas são excepcionalmente fortes. Contudo, parece que…

– Parece. E se você estiver enganado?

– Não temos outra saída – rosnou Caixotão. – Ou tentamos atravessar o redemoinho ou continuaremos dando voltas…

– Até a morte, uma morte fodida – acrescentou Addario Bach.

•

Os ramalhos da árvore que redemoinhava no turbilhão emergiam a todo momento, como se fossem as mãos de um afogado. A voragem se agitava, girava, avolumava-se, espumava. O Profeta estremeceu e, de repente, ganhou velocidade, levado para dentro do vórtice. A árvore sacudida pelo turbilhão chocou-se contra o bordo, esguichando espuma. A chalupa começou a balançar e girar cada vez mais rápido.

Todos gritavam, cada um a seu modo.

De repente, tudo ficou em silêncio. A água acalmou-se e o espelho d’água alisou-se. O Profeta Lebioda começou a navegar lentamente à deriva, por entre as margens onde cresciam os malmequeres-do-brejo.

– Você estava certo, Geralt – pigarreou Addario Bach. – De fato, era uma ilusão.

Caixotão fixou os olhos em Geralt por longo tempo. Permanecia em silêncio. Por fim tirou a boina, revelando o topo da sua cabeça, ele era calvo como um ovo. Depois falou, com voz rouca:

– Eu iniciei na navegação fluvial a pedido da minha esposa. Ela achava que navegar nos rios era mais seguro do que no mar. E toda vez que eu fosse navegar, dizia que não ficaria mais preocupada.

Colocou a boina de volta, acenou com a cabeça e agarrou as malaguetas do leme com mais força.

– Será que já… será que já estamos seguros? – Kevenard van Vliet gemeu debaixo da cabine de comando. Ninguém respondeu à sua pergunta.

•

A água estava repleta de algas e lemna. Os ciprestes-dos-pântanos começaram a dominar, decididamente, entre as árvores que cresciam nas margens. Os seus pneumatóforos, as raízes que lhes permitiam respirar, algumas chegando à altura de uma braça, emergiam abundantemente do pântano e da água rasa ao longo das ribeiras. Nas ilhotas formadas pelo mato, as tartarugas aqueciam-se ao sol. Os sapos coaxavam.

Desta vez ouviram-na antes de avistá-la. Soltou um uivo alto e agudo, como se estivesse fazendo uma ameaça ou dando um aviso. Apareceu na margem, na forma de raposa, sobre um tronco de madeira derrubado e seco. Uivava, erguendo a cabeça para o alto. Geralt captou tons estranhos no seu uivo. Percebeu que, além de ameaças, havia nele uma ordem, mas não era dirigida a eles.

De repente, a água debaixo do tronco agitou-se e dela emergiu um enorme monstro, todo coberto de escamas verde-amarronzadas em forma de pingentes. Gorgolejou, chapinhou a água e, obedecendo à ordem da raposa, nadou, agitando a água, na direção do Profeta.

– Isso também… isso também é uma ilusão? – Addario Bach engoliu a saliva.

– Não acho. É um vodianoi! – Geralt gritou para Caixotão e para os rapazes do convés. – Ela encantou e soltou o vodianoi contra nós! Croques! Peguem os croques!

O vodianoi emergiu da água junto ao barco. Viram uma cabeça achatada coberta de algas, olhos de peixe esbugalhados e dentes cuneiformes numa enorme boca. O monstro bateu raivosamente contra o bordo uma vez, depois outra, e o Profeta estremeceu. Fugiu quando viu a tripulação munida dos croques. Mergulhou, e logo em seguida emergiu de novo, agitando a água atrás da popa, junto da porta do leme, que ele mordeu com os dentes e puxou até trincar.

– Vai arrancar o leme! – Caixotão berrava, tentando atingir o monstro com o croque. – Vai arrancar o leme! Peguem a adriça! Levantem a porta do leme! Espantem e afastem o maldito do leme!

O vodianoi mordia e puxava o leme, ignorando os gritos e os golpes dos croques. A porta do leme estourou, e um pedaço dela ficou nos dentes do monstro. Ou ele achou que era o suficiente, ou o encanto da raposa perdeu força, pois mergulhou na água e desapareceu.

O uivo da aguara ressoou na margem.

– O que mais? Senhor bruxo, o que mais ela vai fazer conosco? – gritou Caixotão, agitando as mãos.

– Deuses… perdoem-me por não ter acreditado em vós… perdoem-nos por matar a menina! Salvem-nos! – soluçou Kevenard van Vliet.

De repente, sentiram uma brisa no rosto. A carangueja do Profeta, até então suspensa languidamente, esvoaçou e a retranca rangeu.

– O caminho está se alargando! Ali, ali mesmo! Um extenso talvegue, deve ser um rio! Navegue nessa direção, capitão! Para lá! – gritou Fysh da proa.

O leito do rio começou a alargar-se. Atrás da parede verde de caniços, vislumbrou algo que parecia um talvegue.

– Conseguimos! Vencemos! Conseguimos sair do pantanal! – gritou Cobbin.

– Primeiro marco! Primeiroooo marcooo! – berrou o rapaz do convés com a sonda.

– Mantenha o leme virado para a direita! Banco de areiaaaa! – vociferou Caixotão, puxando o timoneiro e executando a própria ordem. A proa do Profeta Lebioda virou para o defluente eriçado com os pneumatóforos.

– Para onde você está nos levando? O que você está fazendo? Navegue na direção do talvegue! Para lá! Para lá! – berrava Fysh.

– Para lá, não! Há um banco de areia! Vamos encalhar! Chegaremos ao talvegue pelo defluente, a água aqui é mais profunda!

Novamente ouviram o uivar da aguara, mas não a viram. Addario Bach puxou Geralt pela manga.

Petru Cobbin apareceu na descida que levava ao pique-tanque de ré. Arrastava pelo colarinho Parlaghy, que mal conseguia ficar em pé. O marinheiro atrás dele carregava a menina envolta numa capa. Os outros quatro ficaram junto deles, formando um muro, de frente para o bruxo. Seguravam machados, aguilhões e ganchos de ferro. O mais alto deles falou:

– Já chega, senhores! Queremos viver. Está na hora de agir!

– Deixem a criança! Solte o comerciante, Cobbin. – Geralt falou, arrastando as sílabas.

– Não, senhor – o marinheiro meneou a cabeça, num gesto de negação. – O cadaverzinho, junto com o mercadorzinho vão para fora do barco. Só assim será possível deter a monstra, só assim conseguiremos fugir.

– Já vocês, não se metam – falou outro com voz rouca. – Não temos nada contra vocês, mas não tentem atrapalhar. Caso contrário, apanharão.

Kevenard van Vliet encolheu-se junto do bordo e soluçou, virando a cabeça. Caixotão também desviou o olhar resignado e cerrou os lábios. Era evidente que não reagiria à rebelião da própria tripulação.

– É isso mesmo, tem razão – Petru Cobbin empurrou Parlaghy. – O comerciante e a raposa morta para fora do barco. É a única salvação para nós. Bruxo, saia do caminho! Prossigam, homens! Levem-nos ao bote!

– Que bote? Aquele? – Addario Bach perguntou com calma.

Curvado no banco do bote, Javil Fysh remava, já a uma boa distância do Profeta, na direção do talvegue. Remava sem parar. As pás dos remos respingavam água e lançavam algas para todos os lados.

– Fysh! Seu canalha! Seu maldito filho da puta! – gritou Cobbin.

Fysh virou-se e dobrou o cotovelo, fazendo o gesto de banana para ele. Em seguida, voltou a remar. Mas não conseguiu chegar longe.

A tripulação do Profeta viu o bote saltar, de repente, sobre um gêiser de água, e um enorme crocodilo emergiu dele. Tinha a boca cheia de dentes eriçados e a sua cauda fustigava a superfície da água. Fysh caiu para fora do bote. Gritando, nadou em direção à margem e parou em um banco de areia arrepiado com as raízes dos ciprestes-dos-pântanos. O crocodilo o perseguiu, mas a paliçada dos pneumatóforos dificultou a caçada. Fysh alcançou a margem e lançou-se com o peito sobre uma pedra que havia nela. No entanto, não era uma pedra. Uma enorme tartaruga-mordedora abriu as mandíbulas e abocanhou o braço de Fysh acima do cotovelo. Ele uivou de dor, sacudiu-se, estremeceu todo, agitando o pântano. O crocodilo emergiu da água e apanhou a sua perna. Fysh berrou.

Por um instante, não era possível saber qual dos répteis dominaria Fysh, se a tartaruga ou o crocodilo. Mas, enfim, os dois conseguiram o seu pedaço. Na boca da tartaruga ficou o braço de Fysh, com um osso branco em forma de porrete sobressaindo da massa ensanguentada. O resto do corpo dele foi levado pelo crocodilo. No espelho d’água agitado surgiu uma enorme mancha vermelha.

Geralt aproveitou o assombro da tripulação. Arrancou das mãos do rapaz do convés o corpo da menina morta e recuou para a proa. Addario Bach estava junto dele, com um croque na mão.

Mas nem Cobbin nem os marinheiros tentaram se opor. Pelo contrário, todos, às pressas, recuaram para a popa. Às pressas, para não dizer em pânico. De repente, os seus rostos empalideceram. Kevenard van Vliet, encolhido junto do bordo, soluçou, escondeu a cabeça entre os joelhos e cobriu-a com as mãos.

Geralt olhou para trás.

Devido à falta de atenção de Caixotão, ou talvez porque o leme danificado pelo vodianoi estivesse avariado, a chalupa foi parar debaixo dos ramalhos suspensos e ficou encalhada em meio aos troncos derrubados. A aguara aproveitou a situação. Saltou para a proa ágil, leve e silenciosamente, em sua forma raposina. Antes, o bruxo a havia visto com o fundo formado pelo céu. Parecia então negra como o breu, mas não era. A sua pelagem era escura e na ponta da cauda tinha uma mancha clara em forma de flor. No entanto, no seu pelame, sobretudo na cabeça, dominava a cor cinza, mais característica das raposas-das-estepes do que das raposas-cinzentas.

Retesou-se, transformando-se numa mulher alta com cabeça de raposa. Tinha orelhas pontudas e o focinho alongado, o qual, quando abria, deixava ver fileiras de caninos brilhantes.

Geralt ajoelhou-se e colocou o corpo da menina cuidadosamente sobre o convés. Depois recuou. A aguara uivou de modo pungente, deu uma pequena mordida com as mandíbulas cheias de dentes e aproximou-se. Parlaghy gritou, agitou as mãos em pânico, soltou-se do aperto de Cobbin, pulou para fora do barco e imediatamente afogou-se.

Van Vliet chorava. Cobbin e os rapazes do convés, ainda pálidos, juntaram-se em volta de Caixotão, que havia tirado a boina.

O medalhão no pescoço do bruxo tremia com intensidade, vibrava, irritava. A aguara, ajoelhada, debruçada sobre a menina, emitia sons estranhos, que não pareciam um ronronar, nem um silvo. De repente, ergueu a cabeça e mostrou os caninos. Roncou surdamente, e os seus olhos fulguraram. Geralt permaneceu imóvel e disse:

– Somos culpados. O que aconteceu foi lamentável. Tomara que nada pior aconteça. Não posso permitir que você machuque essas pessoas. Não permitirei que o faça.

A raposa levantou-se, erguendo a menina. Passou os olhos em todos e, por fim, fixou-os em Geralt.

– Você barrou o meu caminho para defendê-los – disse uivando, mas com clareza, articulando devagar todas as palavras.

Ele não respondeu.

– Carrego a minha filha nos braços. Isto é mais importante do que as suas vidas. Mas foi você quem se dispôs a defendê-los, homem de cabelos brancos. Portanto, um dia voltarei para pegá-lo. Quando você já tiver se esquecido, quando você menos esperar – terminou.

Saltou agilmente para a amurada, de lá para o tronco derrubado, e desapareceu no matagal.

Em meio ao silêncio que pairava, ouvia-se apenas o soluço de Van Vliet.

O vento sossegou, o ar ficou abafado. O Profeta Lebioda, arrastado pela correnteza, libertou-se dos ramalhos e navegou à deriva no meio do defluente. Caixotão enxugou os olhos e a testa com a boina.

O marinheiro que estava na proa gritou. Cobbin gritou. Os outros gritaram.

Subitamente, casas com telhados de palha apareceram por trás do caniçal e do arroz selvagem. Avistaram redes que secavam estendidas sobre varas, a areia amarela da praia, um píer. Um pouco mais adiante, atrás das árvores que cresciam na península, viram o extenso leito de um rio sob o céu azul.

– Um rio! Um rio! Finalmente!

Todos gritavam: “Os moços do convés, Petru Cobbin, Van Vliet”. Só Geralt e Addario não se juntaram ao uníssono.

Caixotão também permanecia calado, pressionando o leme.

– O que você está fazendo? – gritou Cobbin. – Para onde está nos levando? Dirija-se para o rio! Ali! Para o rio!

– Não há como fazer isso – na voz do capitão havia desespero e resignação. – Não há vento. O leme do barco mal obedece e a correnteza está ficando cada vez mais forte. Estamos navegando à deriva, a correnteza está nos afastando e arrastando para os defluentes, de volta para os pântanos.

– Não!

Cobbin xingou e saltou para fora do barco, nadando até a praia.

Todos os marinheiros mergulharam na água, seguindo-o. Geralt não conseguiu deter nenhum deles. Mas Addario Bach, com um poderoso golpe, fez que Van Vliet, que se preparava para saltar, permanecesse sentado. Ele falou:

– Um céu azul. A areia dourada da praia. Um rio. Tudo bonito demais para ser verdade. Então, não pode ser verdade.

De repente, a imagem tremeluziu. E lá onde há um átimo havia casas de pescadores, a praia dourada e o leito do rio atrás da península, o bruxo viu, por um segundo, as teias das bromélias do brejo que pendiam até a superfície da água, suspensas dos ramalhos das árvores secas. Avistou ribeiras pantanosas, eriçadas com os pneumatóforos dos ciprestes-dos-pântanos. O fundo da água negro e borbulhante. Um mar de algas. E um labirinto interminável de defluentes.

Por um segundo viu aquilo que a última ilusão da aguara escondia.

De repente, aqueles que estavam nadando na água começaram a gritar e a se debater nela e, um por um, começaram a desaparecer.

Petru Cobbin emergiu da água, engasgando e vociferando, todo coberto de sanguessugas listradas, gordas como enguias, que rastejavam sobre o seu corpo. Depois submergiu e desapareceu.

– Geralt!

Com um croque, Addario Bach arrastou o bote que restara do encontro com o crocodilo e se aproximara do bordo após navegar à deriva. O anão saltou para dentro dele e assumiu, entregue por Geralt, o ainda torpe Van Vliet.

– Capitão!

Caixotão acenou com a boina.

– Não, senhor bruxo! Não largarei o barco, eu o pilotarei até o porto, aconteça o que acontecer! E, se eu não conseguir, iremos juntos para o fundo! Passem bem!

O Profeta Lebioda navegava à deriva, sossegada e majestosamente. Adentrava um defluente e desaparecia nele.

Addario Bach cuspiu nas mãos, encurvou-se e arrastou os remos. O bote deslizava pela superfície da água.

– Para onde?

– Para aquele talvegue depois do banco de areia. É onde passa o rio, tenho certeza. Entraremos na hidrovia, encontraremos algum navio, ou seguiremos neste bote até a própria Novigrad.

– E Caixotão?

– Conseguirá sair dessa, se for esse o seu destino.

Kevenard van Vliet soluçava. Addario remava.

O céu escureceu. Ouviram um trovão demorado, distante.

– Uma tempestade está se aproximando. Diabos, ficaremos molhados – falou o anão.

Geralt bufou, depois começou a rir, sincera e cordialmente, e contagiosamente. Logo, os dois riam.

Addario remava com movimentos fortes e constantes. O bote deslizava sobre a água feito uma flecha.

– Você rema como se na vida se dedicasse apenas a isso. Pensei que os anões não soubessem navegar, nem nadar… – avaliou Geralt, enxugando as lágrimas vertidas e rindo.

– Você está se deixando levar por estereótipos.