Tempo de Tempestade
Capítulo quarto
E o que é a cidade, senão o povo?
William Shakespeare, Coriolano
Justo no fim da feira lotada havia uma banca montada descuidadamente com tábuas, e quem atendia era uma vovozinha. Usava chapéu de palha, era rechonchuda e estava corada feito uma fada madrinha de um conto de fadas. Na parte de cima da banca havia um letreiro: “Proporciono felicidade e alegria,
acompanhadas de um picles de brinde.”* Geralt parou, tirou algumas moedas do bolso e ordenou soturnamente:
– Vovó, encha o copo até a metade com felicidade.
Inspirou o ar, engoliu com ímpeto, expirou. Enxugou as lágrimas que a aguardente fizera verter dos seus olhos.
Estava livre. E zangado.
Curiosamente, soube de sua libertação por uma pessoa conhecida, alguém que conhecia de vista. Era o mesmo jovem precocemente careca que ele vira ser expulso das escadas da hospedaria Natura Rerum e que, como havia descoberto, era escrivão judicial.
– Você está livre, a fiança foi paga – o jovem careca lhe informou, entrelaçando e desentrelaçando os magros dedos manchados de tinta.
– Quem pagou?
A informação era confidencial, o escrivão careca negou-se a dizer quem tinha sido. Recusou-se também, com a mesma grosseria, a devolver o saquitel confiscado em que havia dinheiro em espécie e cheques bancários pertencentes a Geralt. As propriedades que pertenciam ao bruxo, afirmou acrimoniosamente, tinham sido tratadas pelas autoridades como cautio pro expensis, caução às custas processuais, e sujeitas às penalidades previstas.
Não fazia sentido, nem havia propósito em discutir isso. Geralt devia estar contente de ter recebido de volta os pertences que carregava nos bolsos na hora da sua detenção. Eram bens pessoais de pouco valor e uma pequena quantia em dinheiro, tão pequena que ninguém interessou-se em roubá-lo.
Contou as moedas que sobraram e sorriu para a vovozinha.
– Mais meio copo de felicidade, por favor. Sem picles.
A aguardente da vovozinha tornava o mundo muito mais belo. Geralt sabia que aquela sensação passaria num instante, e apressou o passo. Tinha alguns assuntos para tratar.
Plotka, a sua égua, por acaso passou despercebida pelo tribunal e não foi reconhecida como um dos bens de cautio pro expensis. Estava lá onde ele a havia deixado, na baia da cavalariça, bem tratada e alimentada. O bruxo não poderia deixar algo assim passar, sem reconhecimento, independentemente de sua condição material. Sobrou um punhado de moedas de prata que ele havia conseguido ocultar num esconderijo costurado na sela. O cavalariço ganhou algumas e ficou pasmo com a generosidade.
O horizonte sobre o mar escurecia. Pareceu a Geralt ter avistado lá faíscas de relâmpagos.
Antes de entrar na casa de guarda, encheu os pulmões com ar fresco, só por precaução. Não adiantou nada. Naquele dia, as guardas deviam ter comido mais feijão do que habitualmente. Muito, muito mais feijão. Talvez fosse domingo.
Umas estavam comendo, como de costume, outras jogavam dados. Quando o viram, levantaram-se e o cercaram.
– Vejam só quem veio nos visitar. É o bruxo. Finalmente apareceu – disse a comandante, aproximando-se dele.
– Estou partindo. Vim buscar os meus pertences.
– Só com a nossa permissão – outra guarda cutucou-o com o cotovelo, aparentemente sem querer. – Caso permitamos, o que você nos dará em troca? Você vai ter que se redimir, irmão! Redimir! Ei, meninas, o que vamos pedir para ele fazer? O que terá que fazer?
– Beijar a bunda pelada de cada uma de nós!
– E dar uma lambidinha! Uma lambidinha bem molhadinha!
– Ora! Cuidado, hein! Ele pode nos contaminar com alguma doença!
– Mas ele precisa nos proporcionar algum prazer, não é? – disse outra, pressionando o peito duro como uma rocha contra ele.
– Que cante uma música! Mas a melodia vai ter que seguir este tom! – falou outra, peidando veementemente.
– Ou este! O meu é mais vibrante! – disse outra, soltando um flato ainda mais alto.
As outras damas morriam de rir.
Geralt conseguiu abrir caminho, procurando não fazer uso excessivo de força. Nesse momento, a porta do armazém dos depósitos se abriu e apareceu o indivíduo de capa parda e boina. Era o depositário, chamado de Gonschorek. Escancarou a boca ao ver o bruxo e balbuciou:
– É o senhor? Mas como é possível? As suas espadas…
– Pois sim. Minhas espadas. Pode devolvê-las.
– Ora… Ora… Mas não estão comigo! – Gonschorek engasgou, segurando o peito e respirando com dificuldade.
– Como?
– Não estão comigo… Alguém as levou… – o rosto de Gonschorek enrubesceu e contraiu-se numa dor aparentemente paroxística.
– O quê? – Geralt sentiu uma raiva fria tomar conta dele.
– Le… vou…
– Como assim, levou? – Agarrou o depositário pelas lapelas. – Quem as levou, diabos? Droga, como isso pode ter acontecido?
– O comprovante…
– Pois é! – Sentiu um aperto de ferro no ombro. A comandante da guarda puxou Geralt, afastando-o de Gonschorek, que engasgava.
– Pois é! Mostre o comprovante!
O bruxo não o tinha com ele. O comprovante do guarda-volumes havia ficado em seu saquitel, confiscado pelo tribunal como caução às custas processuais e às penalidades previstas.
– O comprovante!
– Não o tenho. Mas…
– Não tem o comprovante, então ficará sem o depósito – a comandante não permitiu que terminasse. – Não ouviu Gonschorek dizer que alguém levou as espadas? Vai ver que foi você mesmo que as levou e agora está dando uma de joão sem braço. O que você quer ganhar com isso? Não vai conseguir. Suma daqui.
– Não sairei até que…
A comandante, sem afrouxar o aperto, puxou Geralt e o virou de frente para a porta.
– Vá se foder.
Geralt evitava bater numa mulher. No entanto, não tinha nenhum tipo de escrúpulo perante alguém que possuía ombros de pugilista, barriga redonda como um tender, canelas das pernas que pareciam um discóbolo e além de tudo peidava como uma mula. Afastou a comandante e executou, com toda a força, o seu golpe preferido, o gancho de direita, acertando-a na mandíbula.
As outras guardas ficaram pasmas, mas só por um segundo. Antes que a comandante desabasse sobre a mesa, sujando tudo com feijão e o molho de páprica que respingava para todos os lados, elas já haviam se lançado sobre ele. Esmagou o nariz de uma e golpeou outra com tanta força que os seus dentes trincaram. Usou o Sinal de Aard contra duas guardas que, feito bonecas, tombaram sobre o suporte para alabardas, derrubando todas as armas e provocando um impressionante estrondo.
Foi acertado na orelha pela comandante empapada de molho. A outra guarda, aquela de peito duro, agarrou-o por trás num abraço de urso. Deu uma cotovelada tão forte nela que soltou um uivo. A do nariz esmagado foi golpeada no plexo solar e caiu no chão. Geralt ouviu-a vomitando. Outra ainda, acertada na têmpora, bateu com o osso parietal contra um poste, vacilou e, logo em seguida, seus olhos embaçaram.
Contudo, quatro delas continuavam em pé. E a vantagem de Geralt chegara ao fim. Foi atingido na parte de trás da cabeça e logo depois na orelha. Em seguida, levou uma pancada no sacro. Uma guarda passou a perna nele e, quando caiu, outras duas desabaram sobre ele, esmagando-o, socando-o. As restantes não paravam de chutá-lo.
Conseguiu eliminar uma das que o esmagavam com uma cabeçada aplicada no rosto dela, mas de imediato outra o prensou. Era a comandante, reconheceu-a pelo molho que escorria do seu corpo. Com um soco executado de cima, atingiu os seus dentes. Geralt cuspiu sangue diretamente nos olhos dela.
– Faca! Me deem uma faca! Vou cortar os ovos dele! – a comandante berrou, sacudindo a cabeça rapada.
– Não precisa de faca! Vou arrancá-los com os meus próprios dentes! – outra gritou.
– Parem! Ponham-se em sentido! Que confusão é esta? Já disse: em sentido!
Uma voz potente que impunha obediência penetrou o turbilhão da batalha e controlou as guardas, que acabaram soltando Geralt. Levantou-se com dificuldade, um pouco dolorido. A visão do campo de batalha animou-o. Olhou com satisfação para a sua obra. A guarda prostrada junto da parede já havia aberto os olhos, mas não estava em condições de se sentar. Outra, inclinada, cuspia sangue e apalpava os dentes. Outra ainda, aquela com o nariz esmagado, tentava se levantar, mas não conseguia, pois escorregava na poça formada pelo próprio vômito, composto principalmente de feijão. Das seis guardas, apenas três conseguiam manter-se em pé. Por isso o resultado poderia ser considerado satisfatório para Geralt, até porque, se não fosse pela intervenção, ele próprio teria sofrido graves lesões e talvez nem conseguisse se erguer sozinho.
A intervenção partiu de um homem de feições nobres, vestido ricamente, com ar de autoridade. Geralt não o conhecia. Contudo, conhecia muito bem o seu companheiro, um homem garboso que usava um chapéu pomposo ornamentado com uma pena de garça, de cabelos loiros até o ombro ondulados a ferro. Trajava um gibão cor de vinho e uma camisa com babados de renda. Andava acompanhado do seu inseparável alaúde e exibindo o seu indissolúvel e insolente sorriso na boca.
– Salve, bruxo! E o seu rosto, o que houve com ele? Me dá vontade de rir só de olhar para a sua cara amassada!
– Salve, Jaskier. Também estou contente em vê-lo.
O homem de feições nobres apoiou as mãos na cintura e falou:
– O que está acontecendo aqui? E aí? Andem, rápido! Quero o relatório regulamentário, agora!
A comandante agitou a cabeça, tirando o resto do molho dos ouvidos, e apontou para Geralt num gesto incriminador:
– É ele! É ele o culpado, excelentíssimo senhor promotor! Foi ele que nos provocou, importunou e depois começou a nos agredir. Tudo por causa de algumas espadas depositadas como caução. Ele nem apresentou o comprovante para tê-las de volta. Gonschorek pode atestar. Eita, Gonschorek, por que você está se encolhendo aí no canto? Você se cagou, por acaso? Ande, levante essa bunda, diga ao excelentíssimo senhor promotor… Gonschorek, o que você tem?
Bastava apenas olhar para adivinhar o que Gonschorek tinha. Nem era preciso examinar o seu pulso, bastava apenas olhar o rosto dele, pálido como cal. Gonschorek estava morto. Estava simplesmente morto.
•
– Senhor de Rívia, abriremos um inquérito – disse Ferrant de Lettenhove, o promotor do tribunal real. – Precisamos fazer isso. O senhor está prestando uma queixa formal e movendo uma ação legal, e assim determina a lei. Inquiriremos todos que tinham acesso aos seus pertences enquanto ficou detido e no tribunal. Prenderemos os suspeitos…
– Os de sempre?
– Como?
– Nada, deixe estar.
– Pois sim. A questão certamente será resolvida e os culpados pelo roubo das espadas serão responsabilizados. Isso se realmente houve um furto. Garanto que, mais cedo ou mais tarde, o mistério será resolvido e a verdade será revelada.
– Preferia que fosse mais breve – o bruxo não gostou muito do tom da voz do promotor. – A minha existência depende das minhas espadas, sem elas não posso exercer o meu ofício. Tenho consciência de que a minha profissão é malvista por muitas pessoas, que têm uma imagem negativa de mim, por causa de preconceito, superstição, pela xenofobia. Espero que isso não tenha influência sobre o inquérito.
– Não terá, aqui prima o Direito. – Ferrant de Lettenhove respondeu secamente.
Depois de os serviçais terem levado o corpo do falecido Gonschorek, todo o arsenal e o cacifo foram revistados, a mando do promotor. Como era de esperar, não acharam nenhum vestígio das espadas do bruxo. A comandante da guarda, que continuava zangada com Geralt, apontou um prego no qual o falecido prendia os comprovantes de depósito realizados. Entre eles logo foi encontrado o comprovante do bruxo. A comandante virou as folhas do livro de registro para, em seguida, enfiá-lo na cara dele. Apontando triunfalmente, disse:
– Aqui está o recibo de entrega. Assinado, preto no branco: Gerland de Ríbia. Não falei que o bruxo esteve aqui e levou as suas espadas? E agora está recorrendo a mutretas, certamente para conseguir ganhar uma indenização! Foi por sua culpa que Gonschorek esticou as pernas! Encolerizou-se por causa dessas atribulações e teve uma apoplexia fulminante.
Nem ela nem as outras guardas queriam confirmar que tinham visto Geralt recebendo as armas de volta. A desculpa era que sempre havia alguém andando por lá, e elas estavam ocupadas, alimentando-se.
Gaivotas sobrevoavam em círculos o telhado do tribunal, soltando terríveis gritos. O vento afastou do mar e direcionou para o sul a nuvem que pressagiava uma tempestade. O sol apareceu.
– Queria avisar antecipadamente que minhas espadas estão imbuídas de fortes poderes mágicos. Apenas os bruxos podem tocar nelas. Qualquer outra pessoa que fizer isso perderá as suas forças vitais. Essa perda se manifestará pelo deterioramento das forças masculinas, ou seja, a impotência total e permanente – disse Geralt.
– Levaremos isso em consideração – o promotor acenou com a cabeça. – No entanto, peço que por enquanto não saia da cidade. Estou disposto a deixar de lado a confusão que provocou na casa de guarda, porque lá brigas ocorrem com frequência, já que as senhoras guardas se deixam levar pelas emoções com grande facilidade. E como Julian, ou seja, o senhor Jaskier, afiança, tenho certeza de que o seu processo no tribunal terá um desfecho feliz.
– Meu processo no tribunal trata unicamente de assédio, de perseguições causadas por preconceito e desprezo… – o bruxo disse, semicerrando os olhos.
– Examinaremos as provas e a ação será tomada com base nelas – o promotor interrompeu-o. – Assim determina a ordem pública. A mesma graças à qual o senhor está solto, sob fiança, portanto em liberdade condicional. Senhor de Rívia, o senhor deveria respeitar essas condições.
– Quem pagou a fiança?
Ferrant de Lettenhove recusou friamente revelar a identidade do benfeitor do bruxo. Despediu-se e dirigiu-se para a entrada do tribunal, acompanhado dos serviçais. Jaskier só esperava por isso. Mal saíram da praça e entraram numa ruela, revelou tudo o que sabia.
– Uma verdadeira série de contratempos e de adversidades, companheiro Geralt. Quanto à fiança, quem a pagou foi a tal de Lytta Neyd, conhecida entre os seus como Coral, pela cor do batom que usa. É uma feiticeira que serve a Belohun, o monarcazinha local. Todos se perguntam por que ela fez isso, já que também foi por causa dela que prenderam você.
– O quê?
– Estou lhe dizendo. Foi ela que o denunciou. Isso não surpreendeu ninguém, todos sabem que os feiticeiros não simpatizam muito com você. E, de repente, a surpresa foi que uma feiticeira, do nada, pagou a fiança e o tirou da masmorra onde você ficou preso por causa dela. Toda a cidade…
– Todos? Toda a cidade? O que você está dizendo, Jaskier?
– Estou usando metáforas e perífrases. Não finja que não sabe, você me conhece bem. Claro que não é “toda a cidade”, mas apenas alguns bem informados que pertencem aos círculos de confiança dos governantes.
– E você também, por acaso, pertenceria a esses círculos de confiança?
– Isso mesmo. Ferrant é meu primo, é filho do irmão do meu pai. Vim aqui visitá-lo, como se visita um parente, e soube do que aconteceu com você. Intercedi imediatamente em seu favor, não duvide disso. Garanti a sua honestidade. Contei sobre Yennefer…
– Estou agradecido, do fundo do meu coração.
– Poupe-me de seu sarcasmo. Tive que contar sobre ela para o meu primo saber que a feiticeira local está achincalhando e denegrindo você por causa de inveja e desprezo e que toda essa acusação é falsa, pois você nunca se rebaixa ao nível de cometer malversações financeiras. Graças à minha intercessão, Ferrant de Lettenhove, o promotor real, o fiscalizador da lei da mais alta patente, já está convencido da sua inocência…
– Não foi a impressão que tive – afirmou Geralt. – Pelo contrário, percebi que duvida de mim, tanto no que diz respeito às supostas malversações, quanto ao desaparecimento das espadas. Você ouviu o que ele disse sobre as provas? Para ele, são um fetiche. Uma denúncia seria a prova das malversações, e a assinatura de Gerland de Ríbia no registro seria a prova da falsificação do roubo das espadas. Ainda por cima, ele fez aquela cara quando me avisou para não sair da cidade…
– Você está julgando-o injustamente – Jaskier rebateu. – Eu o conheço melhor do que você. Para ele, o fato de eu interceder em seu favor é mais valioso do que uma dúzia de provas inúteis. E o avisou com razão. Por que você acha que nós dois, ele e eu, fomos até a casa de guarda? Para impedir que você fizesse mais besteiras! Você diz que alguém está incriminando-o e fabricando provas falsas? Não ofereça a esse fulano uma prova incontestável, ou seja, a fuga.
– Talvez você tenha razão – Geralt concordou. – Mas o meu instinto me diz outra coisa. Eu deveria fugir daqui antes que me cerquem por completo. Primeiro a detenção, depois a caução, logo em seguida as espadas… O que é que vão inventar agora? Diabos, sem a espada eu me sinto como… como um caracol sem a concha.
– Acho que você está preocupado demais. Ora, não há lojas por aqui? Esqueça aquelas espadas e compre outras novas.
– E se alguém tivesse roubado o seu alaúde, adquirido, pelo que me lembro, em circunstâncias bastante dramáticas? Você não estaria preocupado? Esqueceria? Compraria um novo na primeira loja da esquina?
Jaskier apertou o alaúde instintivamente com as mãos e passou os olhos em volta, assustado. Nenhum dos transeuntes parecia um potencial ladrão de instrumentos musicais, tampouco parecia ter algum interesse por um alaúde ímpar.
– Pois é, entendo – suspirou. – Entendo. O meu alaúde, assim como as suas espadas, é único e insubstituível. Além disso… você disse o quê? Que as suas espadas estão enfeitiçadas? E que provocavam uma impotência mágica?! Diabos, Geralt, só agora que você diz isso? Eu passava tanto tempo na sua companhia, e essas espadas estavam ao alcance da minha mão, às vezes até mais próximas! Droga, agora está tudo claro, agora entendo… ultimamente tenho tido certas dificuldades…
– Fique sossegado. Essa história da impotência é mentira. Inventei isso na hora pensando que o boato se espalhe e o ladrão fique com medo…
– Se ficar com medo, com certeza afogará as espadas em esterco líquido, e você nunca mais as terá de volta – falou o trovador, ainda levemente pálido. – É melhor você contar com meu primo Ferrant. Ele é promotor aqui faz anos, possui um exército inteiro de xerifes, agentes e espiões. Você verá, acharão o ladrão num instante.
– Se ele ainda estiver aqui… – o bruxo rangeu os dentes. – Pode ter sumido enquanto eu estava na cadeia. Qual é mesmo o nome daquela feiticeira que provocou a minha detenção?
– Lytta Neyd, apelidada de Coral. Imagino o que você está planejando, meu amigo, mas não sei se é a melhor ideia. Trata-se de uma feiticeira, bruxa e mulher em uma só pessoa, ou seja, uma espécie estranha que não se deixa conhecer de forma racional e que pensa e age de acordo com princípios e mecanismos incompreensíveis para os homens comuns. Nem preciso explicar isso, você bem sabe como é, pois possui uma riquíssima experiência no assunto… Que barulho é esse?
Andando à toa pelas ruas, os dois chegaram a uma pequena praça na qual ressoavam batidas ininterruptas de martelos. Descobriram que lá funcionava uma enorme oficina de tanoeiro. Junto da rua, debaixo de um telhado, havia pilhas uniformes de aduelas de madeira sazonada. Dali eram carregadas por rapazolas descalços e postas nas mesas. Lá fixavam-nas em bancos de tanoeiro especiais e aparavam com raspilhas. As aduelas aparadas passavam para outros artesãos que, em pé, escarranchados, com as pernas mergulhadas na serragem até a altura dos tornozelos, juntavam-nas sobre longas bancadas. As aduelas prontas eram entregues aos tanoeiros, que as pareavam. Por um instante, Geralt ficou observando a maneira de dar formato a uma vasilha apertando com sofisticadas prensas e grampos parafusados, tudo imediatamente consolidado com a ajuda de arcos de ferro marretados sobre o barril. As enormes caldeiras nas quais os tonéis passavam para tomar forma expiravam baforadas de vapor. Dos fundos da oficina, do quintal, vinha o cheiro de madeira tostada no fogacho, no qual se vergavam os barris antes das etapas seguintes de processamento.
– Sempre que vejo um barril fico com vontade de beber cerveja. Vamos lá, depois da esquina há um boteco agradável – convidou Jaskier.
– Vá sozinho. Eu vou visitar a feiticeira. Acho que sei quem é, já a havia visto antes. Onde posso encontrá-la? Não faça caretas, Jaskier. Ao que parece, ela é responsável pelo primórdio e pelas primícias dos meus problemas. Não vou esperar o desenrolar dos acontecimentos, vou até ela e perguntarei pessoalmente. Não posso ficar parado aqui, nesta cidadezinha, até porque estou sem dinheiro.
– Para isso acharemos uma solução. Eu lhe prestarei ajuda financeira… – o trovador disse orgulhosamente. – Geralt? O que está acontecendo?
– Volte aos tanoeiros e me traga uma aduela.
– O quê?
– Busque uma aduela. Rápido.
A rua foi interditada por três fortões mal lavados, todos com cara de bandido e barba por fazer. Um deles, que tinha ombros tão largos que parecia quadrado, segurava na mão um taco chapeado, grosso como a cabrilha de um cabrestante. Outro, trajando uma samarra, com o forro virado do avesso, carregava um cutelo e um machado presos à cintura. O terceiro, moreno como um marinheiro, carregava uma longa faca com aspecto ameaçador. O quadrado falou:
– Ei, seu cagão de Rívia! Como você se sente sem as espadas nas costas? É como se estivesse de bunda pelada virada contra o vento, não é?
Geralt não entrou na conversa. Esperou. Ouviu Jaskier discutindo com o tanoeiro por causa da aduela.
– Você está sem as suas espadas, seu mutante, seu bruxo canalha e peçonhento – prosseguiu o quadrado, que, dos três, nitidamente possuía a melhor oratória. – Ninguém teria medo de um canalha desarmado! Sem as espadas, vira apenas um verme ou uma lampreia. Nós esmagamos esse tipo de criaturas nojentas com nossos sapatos para que jamais se atrevam a adentrar nossas cidades e misturar-se com pessoas decentes. Seu réptil, você não sujará as nossas ruas com o seu muco viscoso! Porrada nele, companheiros!
– Geralt! Tome aí!
Pegou no ar a aduela jogada por Jaskier, esquivou-se do golpe do taco, deu um soco na lateral da cabeça do quadrado, fez uma pirueta, acertou o cotovelo do bandido de samarra, que gritou e soltou o cutelo. Foi golpeado pelo bruxo na parte posterior do joelho e caiu, derrubado. Em seguida, Geralt passou junto dele, batendo na sua têmpora com a aduela. Sem esperar o bandido cair e sem interromper o movimento, mais uma vez esquivou-se do taco do quadrado e atingiu os seus dedos que agarravam o pau. O quadrado uivou de dor e deixou a arma cair. Em seguida, Geralt golpeou-o na orelha, nas costelas e na outra orelha. Depois atingiu-o com ímpeto na virilha. O quadrado caiu no chão, assumindo o formato de uma bola, enrolando-se, encolhendo-se, apoiando a testa no solo.
O esbelto, o mais ágil e mais rápido dos três, dançou em volta do bruxo. Passando a faca habilidosamente entre as mãos, atacou de joelhos flexionados, cortando transversalmente. Geralt esquivava-se dos golpes sem grande esforço. Afastava-se e esperava até o oponente estender o passo. Quando isso aconteceu, rebateu a faca com um golpe impetuoso da aduela, cercou o agressor com uma pirueta e acertou-o no osso parietal. Ele caiu de joelhos, e o bruxo golpeou-o no rim direito. O esbelto uivou e estirou-se, e foi então que Geralt feriu-o abaixo da orelha, no nervo chamado pelos médicos de nervo facial. O bruxo, ao se erguer em pé sobre o homem que se engasgava e sufocava de tanto gritar, observou:
– Poxa, isso deve ter doído.
O bandido de samarra tirou o machado de trás da cintura, mas permaneceu ajoelhado, sem saber o que fazer. Geralt esclareceu as suas dúvidas, desferindo-lhe um golpe na nuca.
Os serviçais da guarda municipal aproximavam-se correndo pela ruela, afastando os curiosos que se concentravam em volta deles. Jaskier os acalmava, mencionava os seus contatos com pessoas importantes, explicava fervorosamente quem era o agressor e quem agira em autodefesa. O bruxo chamou o trovador por meio de gestos e disse:
– Assegure que os canalhas sejam presos. Convença o seu primo promotor a fazê-los falar. Ou eles próprios estão envolvidos no roubo das espadas, ou foram contratados por alguém. Sabiam que eu não tinha como me defender, por isso se atreveram a me assaltar. E devolva a aduela aos tanoeiros.
– Tive que comprar essa aduela – Jaskier confessou. – E fiz bem. Pelo visto, você é bom em manejar uma aduelazinha. Você deveria sempre carregar uma com você.
– Vou visitar a feiticeira. Será que devo levar a aduela?
– No caso da feiticeira – o trovador franziu o cenho –, você realmente precisaria de algo mais pesado. Por exemplo, um mourão. Um filósofo conhecido meu dizia: “Quando for ao encontro de uma mulher, não se esqueça de levar”…
– Jaskier.
– Tudo bem, eu lhe explicarei como achar a mágica. Mas, antes disso, se me permitir que eu lhe dê um conselho…
– Fale.
– Tome banho antes de ir e procure um barbeiro.
* Na Polônia há um costume de tomar vodka pura acompanhada de um picles e linguiça. (N. da T.)