Tempo de Tempestade

Andrzej Sapkowski · Capítulo 26 de 31

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Tempo de Tempestade

Capítulo décimo sétimo

 

Pague um tapa com um tapa, escárnio com escárnio,

destruição com destruição, acrescidos de juros! Olho por olho, dente por dente, quatro vezes pior, cem vezes pior!

Anton Szandor La Vey, Bíblia satânica

 

– Na hora certa! – disse soturnamente Frans Torquil. – Você chegou bem na hora de ver um espetáculo. Começará em breve.

Estava deitado na cama, de costas, pálido como uma parede de cal, com os cabelos molhados pelo suor e colados na testa. Vestia apenas uma camisola simples de linho, que Geralt logo associou à vestimenta fúnebre. A coxa esquerda, desde a virilha até o joelho, estava envolta numa atadura ensopada de sangue.

Uma mesa foi colocada no meio do cômodo e coberta com um lençol. Um indivíduo de baixa estatura, que vestia um caftan preto sem mangas, depositava ferramentas sobre a mesa, sucessivamente, uma após outra: facas, fórceps, cinzéis, serras.

– Só me arrependo de uma coisa – Torquil rangeu os dentes. – De não ter conseguido apanhar os filhos da puta. Essa foi a vontade dos deuses, isso não me foi predestinado… e jamais será.

– O que aconteceu?

– O mesmo, diabos, que em Teixos, Cornada e Pinheiros, só que de uma forma um pouco incomum, no confim da floresta, não numa clareira, mas na estrada de terra batida. Assaltaram um grupo de viajantes. Mataram três. Sequestraram duas crianças. Tive sorte de estar por perto com a minha unidade. Logo começamos a persegui-los, mantendo curta distância deles. Eram dois fortões enormes como touros e um corcunda desajeitado, e foi o corcunda que atirou contra mim com uma besta.

O condestável cerrou os dentes e, com um gesto curto, apontou para a coxa enfaixada.

– Ordenei aos meus subalternos que me deixassem e perseguissem aqueles indivíduos. Não obedeceram, diacho. Em consequência, os outros fugiram. E eu? O que adiantou ter me salvado, se a perna será amputada? Preferia morrer lá, caralho. Mas, antes que os meus olhos se fechassem, queria ver pelo menos aqueles tipos dependurados na forca, agitando as pernas. Os cagões não obedeceram à ordem e agora estão lá, sentados, passando vergonha.

Os subalternos do condestável ocupavam o banco posicionado junto da parede e todos estavam com cara de poucos amigos. Acompanhava-os uma idosa enrugada, que trazia uma coroa de flores na cabeça que não combinava nem um pouco com o seu cabelo branco, da mesma forma que ela não combinava com os seus acompanhantes.

– Podemos começar – disse o indivíduo que trajava o caftan. – Coloquem o paciente sobre a mesa e amarrem bem com os cintos. Os outros, saiam da sala.

– Podem ficar – rosnou Torquil. – Preciso ter certeza de que estão olhando, assim terei vergonha de gritar.

– Um momento. – Geralt retesou-se. – Quem disse que a amputação é necessária?

– Fui eu. – O indivíduo de negro também se retesou. E, para mirar Geralt nos olhos, precisou erguer muito a cabeça. – Sou o cirurgião Luppi, o médico particular do oficial de justiça de Gors Velen, um enviado especial. Após examinar a ferida, constatei que está infeccionada. É preciso amputá-la, não há nenhuma outra solução.

– Quanto você cobra pelo tratamento?

– Vinte coroas.

– Tome aqui, trinta coroas. – Geralt tirou da braguilha três moedas de dez coroas. – Pegue as suas ferramentas, faça a sua mala e volte para o oficial de justiça. Se ele perguntar, pode dizer que o paciente está melhorando.

– Mas não posso…

– Faça a sua mala e vá embora daqui. Qual destas palavras você não entendeu? E a senhora pode ficar aqui sozinha. Tire as ataduras.

– Ele me proibiu de tocar no ferido – falou a idosa, apontando para o médico. – Supostamente por eu ser curandeira e bruxa. Ameaçou me denunciar.

– Ignore-o. De qualquer forma, ele já está saindo.

A senhora, que Geralt logo percebeu tratar-se de uma benzedeira, obedeceu. Começou a retirar a atadura com cuidado. Torquil meneava a cabeça, silvava, reclamava baixinho.

– Geralt… O que você está inventando? O médico disse que não tinha jeito… É melhor perder a perna do que a vida.

– Porra nenhuma. Não é nada melhor. E agora cale a boca.

A ferida tinha um aspecto repugnante. Mas Geralt já havia visto piores.

Tirou do saquitel o estojo com os elixires. O cirurgião Luppi, já com a maleta feita, observava e meneava a cabeça, e observou:

– As decocções de nada servirão. Não adiantará a magia de enganação, nem as artimanhas de medicastro. Charlatanice, só isso. Como médico, tenho que protestar…

Geralt virou-se e olhou para ele. O médico saiu apressadamente e tropeçou na soleira da porta.

– Preciso de quatro homens aqui. – O bruxo destampou o frasco. – Segurem-no. Cerre os dentes, Frans.

O elixir derramado na ferida espumou intensamente, e o condestável gemeu de modo penetrante. Geralt esperou um momento e derramou outro elixir na ferida, que também espumou, além de silvar e fumegar. Torquil gritou, sacudiu a cabeça, retesou-se, virou os olhos e desmaiou.

A anciã tirou uma vasilha da trouxa e extraiu dela um punhado de uma pomada verde. Passou uma camada grossa sobre um grande pedaço de pano dobrado e cobriu a ferida com ele.

– Confrei! – adivinhou Geralt. – Compressa de confrei, arnica e calêndula. Muito bem, vovozinha, muito bem. Precisaríamos também da erva-de-são-joão e casca de carvalho…

– Olha lá, hein – interrompeu a vovozinha sem levantar a cabeça, debruçada sobre a perna do condestável. – Vai querer me ensinar herbalismo, hein? Filhinho, eu já fazia tratamentos com ervas quando você ainda vomitava papinha na sua babá. E vocês, galalaus, afastem-se, estão encobrindo a luz. Além disso, fedem demais. Precisam trocar as grevas de vez em quando. Saiam daqui. Andem, por acaso não falei para vocês saírem?

– Será preciso imobilizar a perna, colocá-la entre longas talas…

– Não me ensine, por favor. E você também vá para fora. O que você ainda está fazendo aqui? O que está esperando? Um agradecimento por ter cedido, generosamente, os seus medicamentos mágicos de bruxo? Quer que ele prometa que para sempre, até o fim da vida, se lembrará do seu gesto?

– Quero fazer uma pergunta a ele.

– Jure, Geralt, que você os apanhará, que não os poupará… – Frans Torquil falou inesperadamente.

– Vou dar-lhe algo para dormir e abaixar a febre, está delirando. E você, bruxo, saia, por favor, e espere lá fora.

Não precisou esperar muito. A vovó saiu, ajeitou a saia e a coroa de flores entortada. Sentou-se junto dele, sobre a terra amontoada ao longo do casebre. Esfregou um pé contra o outro: eram incrivelmente pequenos. Ela disse:

– Está dormindo, e parece que sobreviverá, se a ferida não infeccionar, pft, pft. O osso vai se recompor. Você salvou a perna dele com os seus feitiços mágicos. Permanecerá manco para sempre, e acho que nunca mais montará um cavalo, mas é melhor ter duas pernas do que só uma, he, he.

Enfiou a mão debaixo do colete bordado, tirou de lá um estojo de madeira e abriu. Sentiu um cheiro ainda mais intenso de ervas. Depois de hesitar por um momento, ofereceu-o a Geralt.

– Quer?

– Não, obrigado. Não uso fisstech.

– Já eu… eu uso, sim, de vez em quando – A benzedeira inspirou a droga pelo nariz, primeiro por uma narina, depois pela outra. – Faz um efeito filho da puta. Esclarece a mente. É bom para a longevidade e para a beleza. Basta olhar para mim.

O bruxo olhou. A vovó enxugou o olho lacrimejante e fungou.

– Agradeço-lhe ter cedido o medicamento de bruxo para Frans. Não vou esquecer. Sei que vocês costumam guardar bem as suas decocções. E você ofereceu a ele sem refletir, embora possa fazer falta para você em caso de necessidade. Não tem medo de que isso aconteça?

– Tenho.

Virou a cabeça de perfil. Realmente, deve ter sido uma mulher bonita, mas muito tempo atrás.

– E agora, fale: o que você queria perguntar para o Frans?

– Não importa. Ele está dormindo e eu preciso ir.

– Fale.

– Monte Cremora.

– Devia ter falado logo. O que você quer saber sobre essa montanha?

•

O casebre ficava bastante distante da vila, junto do paredão da floresta que começava logo atrás da cerca do pomar repleto de macieiras carregadas de frutos. O restante não era muito diferente de uma fazenda tradicional. Havia os elementos clássicos que compunham uma fazenda: estábulo, telheiro, galinheiro, algumas colmeias, hortas de legumes e um monte de adubo. Da chaminé erguia-se um filete de fumaça clara e cheirosa.

As galinhas do mato que corriam junto da cerca de madeira avistaram-no primeiro, alarmando as redondezas com uma algazarra infernal. As três crianças que brincavam no quintal correram para o casebre. Uma mulher apareceu na porta. Era alta, tinha cabelos claros e usava um avental sobre o vestido simples. Aproximou-se e desmontou da sela.

– Bom dia! – cumprimentou. – O proprietário está em casa?

As crianças, todas meninas, rodearam a mãe, segurando o seu vestido e o seu avental. A mulher olhava para o bruxo, sem demonstrar nem um pouco de simpatia, o que não era de estranhar, pois o cabo da espada que ele carregava sobre seu ombro estava bem visível, assim como o medalhão no pescoço e as tachas nas luvas que ele nem sequer escondia, pelo contrário, exibia.

– O proprietário – repetiu. – Isto é, o senhor Otto Dussart. Tenho um assunto para tratar com ele.

– Que assunto?

– Pessoal. Ele está?

Ela fitava-o em silêncio, com a cabeça levemente inclinada para o lado. Na avaliação dele, era do tipo rústico e poderia ter entre vinte e cinco e quarenta e cinco anos. Uma estimativa mais precisa era impossível na caso da maioria das camponesas.

– Ele está?

– Não.

– Então vou aguardar até que ele volte – lançou as rédeas da égua sobre a cerca.

– Ele pode demorar.

– De qualquer maneira, esperarei. Mas, para ser sincero, preferiria esperar num cômodo, e não sentado junto da cerca.

A mulher fitou-o por um momento, ele e o seu medalhão.

– Entre, seja bem-vindo – falou, enfim.

– Aceitarei o convite, obedecerei à lei da hospitalidade – respondeu usando uma fórmula costumeira.

– Obedecerá, embora esteja armado, portando uma espada – ela repetiu, arrastando as sílabas.

– A minha profissão requer isso.

– As espadas ferem. E matam.

– A vida também. E o convite, está valendo?

– Entre, por favor.

Como era comum nesse tipo de casebres, entrava-se neles por um vestíbulo escuro e abarrotado. A sala era um cômodo espaçoso, claro e limpo. Apenas as paredes perto da cozinha e da chaminé tinham vestígios de fumaça. As outras, brancas, estavam revestidas de tapeçarias. Em toda parte havia diversos utensílios domésticos, maços de ervas, tranças de alho e coroas de pimentões. Uma cortina tecida separava a sala do quarto. Cheirava a cozinha, isto é, a repolho.

– Sente-se.

A dona da casa ainda permanecia em pé, amassando o avental. As crianças sentaram-se junto do fogareiro, em um banco baixo.

O medalhão no pescoço de Geralt tremia com força e sem parar. Agitava-se debaixo da camisa do bruxo como um pássaro preso. A mulher falou, aproximando-se da cozinha:

– Deveria ter deixado essa espada no vestíbulo. Não é considerado de boa educação sentar-se à mesa armado. Só os facínoras fazem isso. Você por acaso é um facínora?

– Você sabe bem quem eu sou, e a espada permanecerá onde está. Só para avisar.

– Avisar o quê?

– Que os atos impensados têm consequências graves.

– Aqui não há nenhum tipo de armas, então…

– Está bem, não tente me convencer – interrompeu grosseiramente. – O casebre e o quintal de um camponês têm um arsenal. Muitos já perderam a vida ao serem acertados com uma enxada, sem mencionar os manguais e os forcados. Já ouvi falar de um homem que foi morto com uma batedeira de manteiga. Quando se quer ou precisa, pode-se machucar com qualquer objeto. E, já que estamos falando nisso, deixe em paz essa panela com água quente e afaste-se da cozinha.

– Não tinha más intenções – a mulher falou rápido, mas mentindo, era evidente. – E não é água quente, mas sopa de beterrabas. Queria lhe oferecer…

– Obrigado, mas não estou com fome. Portanto, não toque na panela e afaste-se do fogão. Sente-se aí, junto das crianças. Vamos esperar calmamente até o seu esposo chegar.

Permaneceram sentados em silêncio, interrompido apenas pelo zumbido das moscas. O medalhão de Geralt tremia.

– Preciso tirar a panela com o repolho do forno – a mulher interrompeu o silêncio grave. – Preciso tirá-la e mexer, senão vai queimar.

– Ela vai cuidar disso – disse Geralt, apontando para a menor das meninas.

A menina ergueu-se devagar, fitando-o debaixo da franja cor de linho. Pegou um forcado com um longo cabo e inclinou-se na direção das portas do forno. De repente, lançou-se sobre Geralt feito uma felina. Pretendia cravar o forcado no pescoço dele e, dessa forma, pregá-lo na parede, mas ele se esquivou, puxou o cabo e derrubou-a sobre o chão. A menina começou a transformar-se antes de cair.

A mulher e as outras duas meninas já tinham se transformado. Eram três lobas: uma loba-cinzenta com dois filhotes fêmeas, todas com os olhos ensanguentados e os caninos à mostra. Elas lançaram-se num salto sobre o bruxo. Ao saltar, separaram-se, à maneira lupina, atacando-o de todos os lados. Geralt esquivou-se, empurrou o banco contra a loba e rebateu os filhotes com golpes dos punhos protegidos pelas luvas rebitadas com prata. Elas ladraram e caíram sobre o chão, mostrando os caninos. A loba mãe uivou de forma selvagem e saltou novamente.

– Não! Edwina! Não!

Caiu sobre Geralt, pressionando-o contra a parede, mas já na sua forma humana. As meninas, transformadas, afastaram-se imediatamente e agacharam-se junto do forno. A mulher, ajoelhada aos seus pés, fitava-o com um olhar envergonhado. Não sabia se ela se envergonhava do ataque ou do fato de ter sido malsucedido.

– Edwina! Como pôde fazer isso? O que deu em você? – estrondeou um homem barbudo e alto, com as mãos na cintura.

– É um bruxo! – bufou a mulher, ainda de joelhos. – Um facínora com uma espada! Veio atrás de você! Assassino! Fede

a sangue!

– Cale-se, mulher. Eu o conheço. Perdoe, senhor Geralt. Está tudo bem com o senhor? Perdoe. Ela não sabia… pensou que um bruxo…

Parou e olhou inquietamente. A mulher e as meninas concentraram-se em volta do forno. Geralt juraria que ouvia um rosnar baixinho.

– Não aconteceu nada, não guardo mágoa, mas você chegou na hora certa, não errou nem por um instante – disse.

– Sei disso – o barbudo tremeu visivelmente. – Sei, senhor Geralt. Sente-se, sente-se à mesa… Edwina, traga a cerveja!

– Não, é melhor conversarmos lá fora, Dussart, quero trocar uma palavra com você.

No meio do quintal havia um gato pardo. Ao ver o bruxo, fugiu e se escondeu no meio das urtigas.

– Não quero estressar a sua mulher, nem as suas filhas – Geralt falou. – Além disso, tenho um assunto para discutir entre nós. Trata-se de um favor.

– O que desejar, é só falar – o barbudo retesou-se. – Atenderei qualquer desejo seu, se puder fazê-lo. Tenho uma dívida com o senhor, uma grande dívida. Devo a minha vida ao senhor, pois me poupou aquela vez. Devo ao senhor…

– A mim, não, a você próprio e ao fato de que, mesmo com a sua forma lupina, você permaneceu humano e nunca fez mal a ninguém.

– É verdade, não fiz. Mas o que adiantou? Os vizinhos começaram a suspeitar de alguma coisa e por isso logo chamaram um bruxo, embora, coitados, precisassem poupar cada centavo para contratá-lo.

– Pensei em devolver-lhes o dinheiro – admitiu Geralt. – Mas isso poderia levantar suspeitas. Garanti, com a minha palavra de bruxo, que livrei você do feitiço de lobisomem e que você está completamente livre da licantropia, completamente normal. Um feito assim tem um custo. As pessoas só pagam por aquilo em que acreditam. Aquilo que é pago, torna-se real e legal. Quanto maior o preço, mais real e mais legal.

– Sinto calafrios quando me lembro daquele dia. – Dussart empalideceu, apesar do bronzeado. – Quase morri de medo quando o vi com a lâmina de prata. Pensei que aquela era a minha derradeira hora. Tinha ouvido várias histórias sobre bruxos assassinos que gostam de tortura e de sangue. Mas o senhor mostrou-se um homem justo e bom.

– Não vamos exagerar. Mas você escutou o meu conselho e mudou de Guaamez.

– Tive que fazê-lo – Dussart disse de modo soturno. – Em Guaamez, as pessoas pareciam acreditar que eu estava livre do feitiço, mas o senhor tinha razão ao dizer que um ex-lobisomem não tem vida fácil junto às pessoas. Mostrou-se verdadeira a constatação de que, para as pessoas, é mais importante aquilo que se era do que aquilo que se é. Por isso foi preciso sair de lá, ir para uma terra estrangeira, onde ninguém me conhecia. Caminhei muito, até que, enfim, cheguei aqui, e foi aqui que conheci Edwina…

– É raro dois teriantropos formarem um casal – Geralt meneou a cabeça –, e mais raro ainda terem filhos. Você é sortudo, Dussart.

– Pode acreditar – o lobisomem sorriu, mostrando os dentes. – As filhas estão lindas, estão desabrochando. E eu com Edwina somos como duas gotas de água. Viveremos juntos até o fim dos nossos dias.

– Ela percebeu imediatamente que eu era um bruxo e estava pronta para se defender. Você não vai acreditar, mas ela planejava me atacar com a sopa de beterrabas quente. Ela também deve ter ouvido os lobisomens contarem histórias de bruxos sanguinolentos que gostam de torturas.

– Perdoe-a, senhor Geralt. E, quanto à sopa, em breve a provaremos. Edwina prepara uma extraordinária sopa de beterrabas.

– Talvez seja melhor eu não abusar da hospitalidade – o bruxo meneou a cabeça. – Não quero assustar as crianças, tampouco deixar a sua esposa nervosa. Para ela, continuo sendo um facínora com uma espada. Não adianta esperar que ela logo logo se desarme em relação a mim. Disse que eu fedia a sangue. Entendo que foi uma metáfora.

– Não muito. Sem mágoas, senhor bruxo, mas o fedor de sangue que exala é terrível.

– Não tenho contato com sangue há…

– Eu diria que há umas duas semanas – concluiu o lobisomem. – É um sangue coagulado, sangue morto, o senhor deve ter tocado em alguém ensanguentado. Percebe-se também um sangue anterior a esse, de um mês atrás, um sangue frio. O sangue fala. O senhor mesmo verteu sangue, de uma ferida, um sangue vivo.

– Estou impressionado.

– Nós, lobisomens, temos um olfato um pouquinho mais sensível do que os humanos – Dussart endireitou-se orgulhosamente ao falar.

– Sei disso – Geralt sorriu. – Sei que o olfato dos lobisomens é uma verdadeira maravilha da natureza. Por isso mesmo vim aqui pedir-lhe um favor.

•

– Musaranhos – farejou Dussart. – Musaranhos, isto é, sórex. E ratos-cegos, muitos ratos-cegos. Fezes, muitas fezes, principalmente de marta. E de doninha. Mais nada.

O bruxo suspirou, depois cuspiu. Não disfarçava a frustação. Era a quarta caverna, e Dussart não tinha farejado nada além de roedores e predadores que caçam roedores, e uma abundância de fezes pertencentes a ambos.

Passaram para outra abertura escancarada na parede rochosa. Ao pisarem, as pedras rolavam debaixo dos seus pés e caíam sobre a encosta. O terreno era íngreme, e eles andavam com dificuldade. Geralt já tinha começado a sentir cansaço. Dussart, dependendo do terreno, transformava-se num lobo ou mantinha a forma humana.

– Uma ursa com os filhotes – olhou para outra gruta e fungou o nariz. – Estava aqui, mas já foi embora, não está mais. Há marmotas, musaranhos e morcegos, muitos morcegos. Um arminho, uma marta, um glutão. E muitas fezes.

Outro buraco.

– Um furão, está no cio. Há também um glutão… não, são dois, um casal de glutões.

– Uma fonte subterrânea, a água é levemente sulfurosa. Gremlins, um grupo inteiro, por volta de dez espécimes. Alguns anfíbios, provavelmente salamandras… morcegos…

Uma enorme águia desceu da borda de um penhasco e ficou sobrevoando, dando voltas e gritando. O lobisomem ergueu a cabeça, olhou para os cumes das montanhas e para as nuvens escuras que vinham deslizando detrás delas.

– Uma tempestade se aproxima. Que verão é este que não há um dia sem uma tempestade?… O que fazemos, senhor Geralt? Outro buraco?

– Outro buraco.

Para chegar a ele, precisavam passar por uma cachoeira que caía de uma rocha lisa, íngreme, relativamente pequena, mas grande o suficiente para molhá-los completamente. As rochas cobertas de musgo eram escorregadias como sabão. Dussart, para conseguir movimentar-se de alguma forma, transformou-se em lobo. Geralt, após escorregar perigosamente seguidas vezes, xingou e convenceu-se de que o melhor era atravessar o difícil trecho de quatro. “Que sorte que Jaskier não está aqui, senão teria descrito tudo isto numa balada.” Um licantropo em sua forma lupina na frente e, atrás dele, um bruxo de quatro. As pessoas teriam uma baita diversão.

– Um grande buraco, senhor bruxo – farejou Dussart. – Grande e profundo. Nele há trols das montanhas, cinco ou seis trols adultos, e morcegos. Há muitas fezes de morcegos.

– Vamos para o buraco seguinte.

– Trols… os mesmos trols que encontramos antes. As cavernas estão interligadas.

– Um urso, um filhote de urso. Estava lá, mas foi embora, há pouco tempo.

– Marmotas, morcegos, filostomídeos.

O lobisomem pulou para trás, assustado, ao se aproximar da caverna seguinte.

– Górgona – suspirou. – No fundo da gruta há uma enorme górgona. Está dormindo. Além dela, não há mais nada lá dentro.

– Não me surpreende – murmurou o bruxo. – É melhor nos afastarmos, e em silêncio, senão pode acordar…

Foram embora, olhando nervosamente para trás. Aproximavam-se bem devagar das grutas seguintes, por sorte distantes do refúgio da górgona, cientes de que todo cuidado era pouco. No entanto, a cautela revelou-se desnecessária. Nos outros buracos nada havia escondido em seus abismos além de morcegos, marmotas, ratos, ratos-cegos e musaranhos, e montes de fezes.

Geralt estava cansado e resignado. Dussart também. Mas era preciso manter a postura, e em nenhum momento demonstrou desânimo, nem na fala, nem nos gestos. O bruxo, porém, não tinha dúvidas. O lobisomem não acreditava no êxito da operação. De acordo com o que Geralt sabia, e que foi confirmado pela benzedeira, no monte Cremora, na íngreme parte oriental, havia muitas cavernas. E, realmente, eles encontraram inúmeras delas. No entanto, era evidente que Dussart não acreditava ser possível farejar e achar a caverna certa, a passagem subterrânea para o interior do complexo rochoso da Cidadela.

Para piorar, relampejou, e trovejou, e começou a chover. Geralt sentia uma vontade daquelas de cuspir, soltar um palavrão e anunciar o fim da empreitada, mas conseguiu se conter.

– Prossigamos, Dussart. Outro buraco.

– Às ordens, senhor Geralt.

De repente, junto de outra abertura escancarada na rocha, a ação, exatamente como num romance fraco, sofreu uma reviravolta.

– Morcegos… morcegos e… um gato – anunciou o lobisomem, farejando.

– Um lince? Ou um gato selvagem?

– Um gato, um simples gato doméstico – Dussart endireitou-se.

•

Otto Dussart olhava com curiosidade para os frascos com os elixires, e para o bruxo que os tomava. Observava as mudanças que ocorriam na aparência de Geralt, e os seus olhos se abriam de admiração e temor. Falou:

– Não me peça, por favor, para entrar nessa gruta com o senhor. Sem mágoas, mas não farei isso. Só de pensar no que pode haver lá dentro, sinto medo e fico todo arrepiado…

– Nem passou pela minha cabeça pedir isso a você. Volte para casa, Dussart. Volte para sua esposa e suas filhas. Você me prestou um favor, fez aquilo que pedi, não posso exigir mais nada de você.

– Aguardarei… aguardarei até que saia de lá – o lobisomem prometeu.

– Não sei quando conseguirei sair de lá, nem mesmo se conseguirei sair – Geralt ressaltou, ajeitando a espada nas costas.

– Não fale assim. Aguardarei… aguardarei até o anoitecer.

•

No fundo da caverna havia uma grossa camada formada pelo guano dos morcegos. Os barrigudos morcegos orelhudos pendiam reunidos em cachos, agitando-se e pipilando languidamente. De início, a distância entre o teto e a cabeça de Geralt era grande, e ele conseguia andar com relativa rapidez e facilidade pelo fundo plano. No entanto, logo isso mudou. Ele teve que começar a se curvar cada vez mais, até ser obrigado a deslocar-se de quatro e, por fim, a rastejar.

Em certo momento parou, decidido a voltar, pois com a falta de espaço corria o risco de ficar preso. Mas ouviu o murmúrio de água e sentiu um sopro de ar frio no rosto. Consciente de que estava se arriscando, passou pela fenda e respirou aliviado quando ela começou a alargar-se. De repente, o corredor virou um declive pelo qual escorregou para baixo, caindo diretamente no leito de um córrego subterrâneo que aparecia debaixo de uma rocha e desaparecia debaixo da outra localizada do lado oposto. De algum lugar lá em cima vinha uma luz fraca e, de lá, de uma grande altura, a corrente fria.

A poça em que o córrego desaparecia dava a impressão de estar completamente inundada de água, mas o bruxo, que suspeitava existir um sifão lá, não estava com muita vontade de mergulhar. Escolheu o caminho em direção a montante do córrego, contra a forte correnteza, subindo por um aclive. Antes que conseguisse sair e adentrar uma grande sala, estava completamente ensopado e sujo do lodo formado pelo sedimento calcário.

A sala era enorme, repleta de majestosas formações, couves-flores, cortinas, estalagmites, estalactites e colunas. O córrego fluía no fundo da caverna, esculpindo um meandro profundo. Nela também penetrava uma luz vinda de cima e sentia-se uma fraca correnteza. Sentia-se também outra coisa: o olfato do bruxo não podia rivalizar com o olfato de um lobisomem, mas Geralt percebia agora aquilo que o lobisomem detectara antes: um leve odor de urina de gato.

Permaneceu algum tempo lá, observando o seu entorno. A correnteza de ar apontou-lhe a saída, uma abertura que parecia um portal palaciano ladeado por pilares formados de enormes estalagmites. Junto dele viu uma cavidade repleta de uma areia fina. O odor de gato vinha exatamente de lá, e na areia havia várias pegadas de patas felinas.

Pendurou transversalmente nas costas a espada, que havia tirado por causa das fendas estreitas, e enfiou-se no meio das estalagmites.

O corredor que formava uma suave ladeira era alto e seco. No fundo havia rochas, mas era possível andar por elas. Prosseguiu até o momento em que o seu caminho foi barrado por uma porta firme, com uma enorme fechadura.

Até então não tinha nenhuma certeza de estar seguindo as pistas corretas, nem sequer se havia entrado na caverna certa. Mas a porta parecia confirmar que sim.

Na porta, exatamente na soleira, havia uma pequena abertura feita recentemente: a passagem para um gato.

Empurrou a porta, mas ela nem sequer tremeu. No entanto, tremeu, levemente, o amuleto do bruxo. A porta era mágica, protegida por um feitiço. Mas a fraca agitação do medalhão indicava que o feitiço era igualmente fraco. Aproximou o rosto da porta.

– Amigo.

A porta, com as dobradiças lubrificadas, abriu-se silenciosamente. Como Geralt tinha adivinhado, era uma daquelas portas produzidas em série, equipada com configurações de fábrica estandardizadas, uma fraca proteção mágica e senha padronizada. Ninguém, por sua sorte, pensou em instalar na porta algo mais sofisticado, pois a sua função era separar do complexo de grutas e de criaturas incapazes de usar mesmo uma magia tão simples.

Atrás da porta, que o bruxo protegeu, por precaução, com uma pedra, terminavam as cavernas naturais e começava um corredor cavado na rocha com sachos.

Mesmo com todos esses vestígios, ainda não tinha certeza, até o momento em que viu, diante de si próprio, uma luz trêmula de uma tocha ou lamparina e, após um momento, ouviu uma risada já bastante conhecida, uma gargalhada.

– Buueh-hhhrrr-eeeehhh-bueeeeh!

Descobriu que a luz e a gargalhada vinham de uma sala relativamente grande, iluminada com uma tocha presa num suporte de ferro. Junto da parede havia baús, caixas e barris empilhados. Ao lado de uma das caixas estavam Bue e Bang, sentados sobre barris. Jogavam dados. Quem gargalhava era Bang, após ter rolado um número maior. Na caixa ao lado havia um garrafão de aguardente e, junto dele, um petisco: uma perna humana assada.

O bruxo desembainhou a espada.

– Salve, rapazes!

Bue e Bang fitaram-no por algum tempo, boquiabertos. Em seguida, berraram, levantaram-se às pressas, derrubando os barris, e pegaram suas armas – Bue, uma foice, e Bang, uma larga cimitarra – e lançaram-se sobre o bruxo.

Surpreenderam-no. Embora soubesse que não seria fácil, não esperava que os desajeitados gigantes seriam tão rápidos.

Bue arremessou a foice a uma baixa altura e, se não fosse pelo salto, Geralt teria perdido ambas as pernas. Mal conseguiu se esquivar do golpe de Bang, cuja cimitarra lançava faíscas ao se chocar com a parede de pedra.

O bruxo sabia lidar com indivíduos rápidos, e grandes também. Rápidos ou lentos, grandes ou pequenos, todos possuíam partes do corpo sensíveis à dor. E eles não tinham a menor ideia do quanto o bruxo ficava rápido após beber os seus elixires.

Acertado no cotovelo, Bue uivou. Atingido no joelho, Bang uivou ainda mais alto. O bruxo confundiu-o fazendo uma volta rápida. Pulou por cima do gume da foice e cortou a orelha de Bue com a ponta da lâmina. Ele berrou, sacudindo a cabeça, e atacou com a foice. Geralt juntou os dedos e atingiu-o com o Sinal de Aard. Bue, atingido pelo feitiço, caiu de nádegas sobre o chão, e os seus dentes começaram a bater, fazendo um barulho alto.

Bang lançou a cimitarra com ímpeto. Geralt mergulhou com agilidade por debaixo do gume e, de passagem, atingiu o outro joelho do gigante. Girou e saltou até onde estava Bue, que tentava se erguer, cortando-o na altura dos olhos. Mas Bue conseguiu afastar a cabeça, fazendo que Geralt errasse o golpe e cortasse a arcada supraciliar. Por um momento, o sangue cobriu o rosto do ogrotrol. Bue berrou, ergueu-se de um ímpeto e lançou-se sobre Geralt às cegas. O bruxo saltou para trás, e Bue colidiu com Bang, que o empurrou e, berrando raivosamente, tombou sobre ele, executando um corte pela esquerda com a cimitarra. Geralt esquivou-se do gume, desviando com rapidez e executando uma meia-volta. Cortou o ogrotrol duas vezes, atingindo os seus dois cotovelos. Bang uivou, mas não soltou a cimitarra. Golpeou outra vez com ímpeto, produzindo desorientadamente um largo corte. Geralt, com habilidade, evitou ser atingido pelo gume. O movimento de defesa levou-o para trás das costas de Bang. Não podia deixar passar uma chance dessas. Virou a espada e cortou, verticalmente, de baixo, bem entre as nádegas. Bang agarrou a sua bunda, uivou, grunhiu, remexeu as pernas, dobrou os joelhos e urinou-se todo.

Bue, cego, arremessou a foice e acertou, não o bruxo, que havia executado uma pirueta, mas o seu companheiro, que ainda segurava as nádegas, e arrancou a cabeça dele dos ombros. O ar do esôfago cortado expirou com um silvo penetrante. O sangue das artérias jorrou alto, até o teto, como se fosse a lava expelida da cratera de um vulcão.

Bang permanecia imóvel, vertendo sangue como uma estátua degolada numa fonte, estabilizado em pé graças aos seus enormes pés chatos. Por fim, inclinou-se e tombou feito o tronco de uma árvore.

Bue enxugou os olhos cobertos de sangue. Berrou igual a um búfalo quando percebeu o que havia acontecido. Bateu as pernas contra o chão e arremessou a foice. Deu uma meia-volta, procurando o bruxo, mas não o achou. Geralt estava atrás de suas costas e golpeou-o debaixo da axila. Bue soltou a foice e lançou-se sobre o bruxo com as mãos desarmadas, mas o sangue novamente cobriu os seus olhos. Bateu contra a parede e Geralt o golpeou.

Parecia que Bue ainda não sabia que as suas artérias tinham sido cortadas e que deveria ter morrido há muito tempo. Berrava, girava, agitava as mãos, até que os seus joelhos desabaram e ele ajoelhou sobre uma poça de sangue. Ainda de joelhos, continuava a berrar e a agitar os braços, mas vagarosamente, com cada vez mais dificuldade. Por fim, Geralt aproximou-se dele e o esfaqueou, enfiando a ponta da espada debaixo do seu esterno. Foi um erro.

O ogrotrol gemeu e segurou a lâmina, o guarda-mão e a mão do bruxo. A sua visão já estava embaçada, mas ele não soltava. Geralt colocou o sapato em seu peito, fincou-o e puxou. Embora o sangue jorrasse da sua mão, Bue não o soltou.

– Seu filho da puta imbecil – falou Pashtor, arrastando as sílabas, ao entrar na caverna e apontar para o bruxo sua besta de dois limbos. – Você veio aqui à procura da morte. Você já está morto, cria do diabo. Segure-o, Bue!

Geralt sacudiu-se. Bue gemeu, mas não o soltou. O corcunda abriu a boca, mostrando os dentes, e acionou o gatilho. Geralt agachou-se, esquivando-se, e a seta pesada passou de raspão pelo seu flanco e acertou a parede. Bue soltou a espada e, deitado de bruços, agarrou as pernas do bruxo e imobilizou-o. Pashtor grasnou triunfalmente e ergueu a besta. Mas não conseguiu dispará-la.

Um enorme lobo entrou com ímpeto na caverna, feito uma bala cinzenta. Atacou Pashtor ao modo lupino: acertou as pernas por trás, cortou os ligamentos posteriores do joelho e as artérias. O corcunda gritou e desabou. A corda da besta caída no chão estalou e Bue pigarreou. A seta acertou-o diretamente no ouvido e entrou até a altura das penas. A ponta saiu pelo outro ouvido.

Pashtor uivou. O lobo abriu a terrível bocarra e segurou a sua cabeça. O uivar virou um estertor.

Por fim, Geralt conseguiu afastar das pernas o ogrotrol morto.

Dussart, já na sua forma humana, ergueu-se, soltando o cadáver de Pashtor, e enxugou os lábios e o queixo. Ao encontrar o olhar do bruxo, declarou:

– Após quarenta e dois anos como lobisomem, convinha, enfim, matar alguém a mordidas.

•

– Tive que vir. Eu sabia, senhor Geralt, que precisava avisá-lo – Dussart justificou-se.

– Avisar sobre eles? – Geralt limpou a lâmina e apontou para os corpos inertes.

– Não só.

O bruxo entrou no cômodo que o lobisomem apontou e, instintivamente, recuou.

O piso de pedras estava coberto de sangue coagulado. No meio do cômodo havia um buraco escuro com uma borda. Junto dele, via-se uma pilha de cadáveres nus, machucados, cortados, esquartejados, esfolados. Era difícil calcular extamente quantos havia no total.

Do fundo do buraco ressoava um nítido estalar e trincar de ossos esmagados.

– Antes não consegui sentir – balbuciou Dussart com a voz cheia de nojo. – Só depois que o senhor abriu aquela porta, lá embaixo, consegui farejar… Vamos fugir daqui, senhor, para longe deste lugar macabro.

– Preciso resolver só mais uma coisa aqui. Mas você deve ir embora. Obrigado por vir até aqui e me ajudar.

– Não agradeça. Paguei a minha dívida com o senhor. Estou feliz por ter conseguido fazê-lo.

•

Uma escada em espiral levava para o alto, serpenteando junto à escadaria cilíndrica cavada na rocha. Era difícil estimar com exatidão, mas Geralt calculou, por alto, que, se fosse a escada de uma torre convencional, levaria até o primeiro ou o segundo andar. Contou seiscentos e dois degraus quando por fim deparou com uma porta.

Como a outra porta lá embaixo, essa também possuía uma passagem aberta para o gato. E, também como a outra porta, tinha uma enorme fechadura. No entanto, não era mágica, e cedeu facilmente quando ele pressionou a maçaneta.

O cômodo no qual o bruxo entrou não tinha janelas e era pouco iluminado. No alto, sob o teto, pendiam esferas mágicas, mas apenas uma estava ativa. O odor era insuportável. O lugar cheirava a produtos químicos e a todos os tipos de morbidez. À primeira vista, era possível identificar o que havia lá: vidros, garrafas e frascos sobre as prateleiras, retortas, ventosas e tubos de vidro, instrumentos e ferramentas de aço. Tratava-se, inegavelmente, de um laboratório.

Sobre a estante junto da entrada havia vidros enormes. O mais evidente estava lotado de olhos humanos que flutuavam num líquido amarelo, feito ameixas mirabelle numa compota. No segundo vidro havia um homúnculo, minúsculo, menor do que dois punhos postos juntos. No terceiro…

No terceiro vidro havia uma cabeça humana que flutuava dentro de um líquido. Não reconheceria as feições, deformadas por feridas, pelo inchaço, pela perda de cor, pouco visíveis por causa do líquido turvo e do vidro grosso. Mas dava para perceber que a cabeça estava completamente raspada. Apenas um feiticeiro rasparia a cabeça. Harlan Tzara, ao que parecia, nunca tinha chegado a Poviss.

Em outros vidros também flutuavam objetos e diversas imundícies roxas e pálidas. No entanto, não havia mais cabeças neles.

No centro do cômodo via-se uma mesa de aço perfilada e com drenagem e, sobre ela, um cadáver nu. Era o cadáver de uma criança, uma menina de cabelos claros. No corpo havia um corte no formato da letra Y. Os órgãos internos, retirados, estavam dispostos de ambos os lados do corpo, de forma ordenada, cuidadosa, clara. Parecia uma gravura de um atlas de anatomia humana, faltavam apenas as marcações: fig. 1, fig. 2 etc.

Percebeu um movimento com o canto do olho. Um enorme gato negro passou rapidamente junto da parede, olhou para ele, silvou e fugiu pela porta encostada. Geralt foi atrás dele.

– Senhor…

Parou, e virou-se.

No canto havia uma gaiola baixa que lembrava um galinheiro. Viu dedos finos apertando os arames de ferro e, depois, olhos.

– Senhor… socorro…

Era um menino, tinha no máximo dez anos. Estava encolhido e trêmulo.

– Socorro…

– Fique quieto. Você já não corre mais perigo, mas aguente um pouco mais.

Já volto para resgatá-lo.

– Senhor! Não me deixe aqui!

– Quieto!

Primeiro deparou com uma biblioteca tão empoeirada que o pó irritava as suas narinas. Depois, algo que parecia uma sala e, em seguida, o dormitório, com uma enorme cama com um baldaquim preto sustentado por colunas de ébano.

Ouviu um cicio. Virou-se.

Sorel Degerlund estava parado na porta. Tinha um penteado sofisticado e vestia uma capa bordada com estrelas douradas. Junto dele havia algo relativamente pequeno, todo cinzento, armado com um sabre zerricano.

– Preparei um vidro com formol para a sua cabeça, mutante. Mate-o, Beta! – falou o feiticeiro.

Degerlund ainda terminava a frase, regozijando a própria voz, quando o monstro cinzento atacou. Era uma criatura extraordinariamente rápida, uma ratazana ágil e silenciosa, com o silvo e o brilho do sabre. Geralt esquivou-se de dois golpes cruzados executados de forma clássica. Na primeira vez, sentiu o movimento do ar agitado pela lâmina; na segunda, um leve roçar na manga. Conseguiu rebater o terceiro golpe com a espada, mas por um momento permaneceram num bloqueio. Viu o rosto do monstro cinzento, seus enormes olhos amarelos com pupila vertical, fendas estreitas no lugar do nariz e orelhas pontudas. A criatura não tinha boca.

Separaram-se. O monstro virou-se com rapidez e realizou um ataque imediato num passo leve, dançante. Outra vez executou um golpe cruzado, e outra vez previsível. Era maravilhosamente dinâmico, incrivelmente ágil, diabolicamente veloz, mas burro. Não tinha a mínima ideia de quão rápido era o bruxo depois de tomar os seus elixires.

Geralt permitiu que executasse apenas um golpe, e conseguiu rebatê-lo. Em seguida, ele próprio atacou com um movimento treinado e repetido centenas de vezes. Cercou o monstro com uma rápida meia-volta, executou uma finta com o intuito de desviar do adversário e golpeou-o, acertando a sua clavícula. O sangue nem tinha começado a jorrar, quando rodou a espada e cortou a axila do monstro. Recuou, pronto para continuar, mas já era o suficiente.

Descobriu que a criatura possuía lábios. Abriram-se no rosto cinzento feito uma ferida cortada, horizontalmente, de uma orelha a outra, mas a uma largura menor do que meia polegada. Contudo, o monstro não emitiu nenhum tipo de voz ou som. Caiu de joelhos, e depois de lado. Tremeu por um momento, tomado por convulsões, agitando os braços e as pernas como um cão que sonha. Depois, morreu em silêncio.

Degerlund cometeu um erro. Em vez de fugir, ergueu as mãos e começou a entoar um encantamento com uma voz cheia de ódio que parecia o latido de um cão. Em volta da sua mão, turbilhonou uma chama que formou uma esfera fogosa. Tudo guardava certa semelhança com o processo de produção de algodão-doce. O cheiro também era parecido.

Degerlund não conseguiu criar uma nuvem completa. Não tinha ideia de quão veloz o bruxo tornava-se após tomar os elixires.

Geralt saltou até ele e cortou a esfera e as mãos do feiticeiro com a espada. Ouviu-se um estrondo, como se alguém tivesse acendido um fogareiro, e viram-se faíscas. Degerlund, berrando, soltou a esfera luminosa das mãos que jorravam sangue. A esfera apagou, e o cômodo foi tomado pelo odor de caramelo queimado.

Geralt lançou a espada para o lado. Golpeou Degerlund com ímpeto, bofeteando-o no rosto com a palma aberta. O feiticeiro gritou, encolheu-se e virou de costas. O bruxo levantou, agarrou-o e cingiu o seu pescoço com o seu antebraço. Degerlund gritou e começou a escoicear.

– Não pode! – uivou. – Você não pode me matar! Está proibido… Eu sou… sou um ser humano!

Geralt apertou o antebraço em seu pescoço, inicialmente com menos força.

– Não fui eu! – o feiticeiro uivava. – Foi Ortolan! Foi Ortolan quem ordenou! Forçou-me! E Biruta Icarti sabia de tudo! Ela! Biruta! O medalhão foi ideia dela! Foi ela quem me mandou fazê-lo!

O bruxo apertou com mais força.

– Socorrooooo! Geeeenteeee! Socooooorroooo!

Geralt apertou com mais força.

– Gen… socorr… nãoooooo…

Degerlund estertorava, a boca salivava com abundância. Geralt virou a cabeça e apertou ainda com mais força.

O feiticeiro perdeu a consciência e desfaleceu. Com mais força, estourou o osso hioide. Com mais força, desabou a faringe. Com mais força, mais força ainda, estouraram e deslocaram-se as vértebras cervicais.

Geralt ainda escorou Degerlund por um momento, depois puxou a sua cabeça com força para o lado, para assegurar-se, depois soltou. O feiticeiro deslizou sobre o piso, suavemente, como um tecido de seda.

O bruxo enxugou a manga ensalivada na cortina.

Do nada, apareceu um enorme gato negro. Roçou-se contra o corpo de Degerlund. Lambeu a sua mão inerte. Miou e lamuriou. Deitou-se junto do cadáver, encostando-se no seu flanco. Olhava para o bruxo com os olhos dourados bem abertos.

– Tive que fazer isso – o bruxo falou. – Teve que ser assim. De todas as criaturas neste mundo, você deveria entender.

O gato semicerrou os olhos, num sinal de que entendia.