Tempo de Tempestade
Capítulo décimo segundo
Num mundo em que a morte vai à caça, não há tempo para
remorso ou hesitação. O tempo é suficiente apenas para tomar decisões. Não importa quais decisões serão tomadas, nenhuma é menos ou mais importante do que as outras. Num mundo em que a morte vai à caça, não existem decisões importantes ou pouco importantes. Há apenas decisões tomadas pelo guerreiro perante um iminente extermínio.
Carlos Castañeda, La rueda del tiempo
Na encruzilhada havia um sinal, uma estaca com tábuas que apontavam para os quatro pontos cardeais.
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Na madrugada, encontrava-se no mesmo lugar onde havia caído. Lançado pelo portal, tombara sobre a grama molhada pelo orvalho, no meio de um matagal junto de um pântano e de uma lagoa repleta de pássaros que grasnavam e gritavam, despertando-o de um sono pesado e cansativo. À noite havia tomado o elixir de bruxo. Sempre o carregava consigo, por precaução, num frasco de prata enfiado num esconderijo costurado no cinto. O elixir, conhecido como papa-figos, era considerado uma panaceia eficaz sobretudo contra intoxicações, infecções ou os efeitos causados por diferentes tipos de venenos ou toxinas. Geralt havia utilizado o elixir inúmeras vezes, mas, desta vez, o efeito foi diferente. Após ingeri-lo, durante uma hora teve cãibras e ânsia de vômito muito fortes. Sabia que não podia vomitar. A sua luta fora bem-sucedida, mas ele caiu num sono profundo, esgotado pelo cansaço, também provocado pela mistura do veneno de escorpião, do elixir e da viagem de teleportação.
Quanto à viagem, não sabia bem o que tinha acontecido, como e por que o portal criado por Degerlund o havia lançado naquele local, naquele ermo pantanoso. Duvidava que tivesse sido um ato intencional do feiticeiro. Era mais provável que se tratasse de uma simples falha de teleportação. Fazia uma semana, receava que acontecesse algo assim. Já ouvira falar muito sobre isso, e ele próprio algumas vezes testemunhara o fato de que um portal, em vez de enviar o passageiro ao destino certo, lançava-o a um lugar completamente diferente e aleatório.
Quando retomou a consciência, na mão direita segurava a espada e na esquerda apertava o farrapo de um tecido, que de manhã identificou como o punho de uma manga. O tecido era tão liso que parecia ter sido cortado com uma faca. Não tinha vestígios de sangue, portanto o teleportal não havia cortado a mão, apenas a camisa do feiticeiro, o que desagradou a Geralt.
No início de sua carreira de bruxo, Geralt havia testemunhado a pior falha de um teleportal, o que provocou nele, de modo definitivo, grande aversão à teleportação. Naquela época, entre os novos-ricos, os senhores abastados e a juventude dourada, a moda era teleportar-se de um lugar para outro, e alguns feiticeiros disponibilizavam esse tipo de diversão por preços salgados. Um dia, o bruxo viu um apreciador da teleportação surgir no portal cortado na vertical, exatamente ao meio, após ter sido lançado. Ficou parecendo um estojo de contrabaixo aberto. Todas as suas vísceras caíram para fora do seu corpo. Depois desse acidente, a fascinação pelos teleportais diminuiu significativamente.
“Em comparação com algo desse tipo”, pensou, “pousar num pântano pode ser considerado até um luxo.”
Ainda não havia recuperado todas as forças, continuava a sentir tonturas e enjoo. Contudo, não tinha tempo para descansar. Sabia que os portais deixavam rastros, e os feiticeiros tinham seus métodos para rastrear o caminho deles. Mas as suas suspeitas levavam-no a supor que, caso o teleportal apresentasse algum defeito, o rastreamento seria quase impossível. Mesmo assim, não era sensato permanecer muito tempo nas proximidades do local de pouso.
Caminhou rápido para se aquecer e movimentar o corpo. “Tudo começou com as espadas”, pensou ao atravessar, chapinhando, as poças de água. “Que palavras Jaskier usara para descrever o que acontecera? Uma série de contratempos e adversidades? Primeiro, perdi as minhas espadas. Depois de três semanas, perdi o corcel. Se ninguém achar Plotka, abandonada em Pinheiros, e se apoderar dela, será comida pelos lobos. As espadas, o cavalo. O que mais pode acontecer? Dá medo só de pensar.”
Após uma hora tentando atravessar os pântanos, conseguiu chegar a um terreno mais seco. Depois de mais uma hora, saiu para uma estrada de terra batida. E, passada meia hora de caminho pela estrada, chegou à encruzilhada.
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Na encruzilhada havia um sinal: uma estaca com tábuas que apontavam para os quatro pontos cardeais. Em todas elas havia muitas fezes de aves migratórias e vários buracos abertos por pontas de setas. Parecia que todos os viajantes se sentiam obrigados a atirar de uma besta contra o sinal, e era preciso se aproximar muito para conseguir ler as inscrições que havia nele.
O bruxo aproximou-se e conseguiu decifrar o que estava escrito nas tábuas. Naquela tábua que apontava para o leste, de acordo com a posição do sol, estava escrito “Chippira”. A que estava posicionada do lado oposto apontava para Tegmond. A terceira tábua indicava o caminho para Findetann e a quarta não dava para saber, pois a inscrição tinha sido borrada com alcatrão. Mesmo assim, Geralt já tinha ideia de onde estava.
O teleportal havia lançado o bruxo ao interflúvio formado pelos dois braços do rio Pontar. O braço meridional, devido ao seu tamanho, recebeu dos cartógrafos o nome de Embla, que figurava em vários mapas. O país – na verdade, o paisinho – localizado entre os dois braços do rio chamava-se Emblônia. Mas esse era seu nome antigo, de muito tempo atrás, e fazia anos que tinha deixado de ser chamado assim. O reinado de Emblônia não existia mais havia aproximadamente meio século, e por vários motivos.
Na maioria dos reinados, ducados e outras formas de organização do poder e dos agrupamentos sociais que existiam nas terras que Geralt conhecia, tudo seguia relativamente bem e em ordem. É verdade que às vezes o sistema deixava a desejar, mas em geral funcionava. Na grande maioria dos agrupamentos sociais a classe governante governava, em vez de roubar e de se entregar apenas a jogos de azar ou à prostituição. Apenas pequena parcela das pessoas da elite continuava achando que “higiene” era o nome de uma prostituta e “gonorreia”, o de um pássaro da família das lavercas. Só pequena parcela do povo, representado pelos trabalhadores e agricultores, era constituída por cretinos que viviam preocupados apenas com os assuntos do dia de hoje, com a vodca de hoje, incapazes de compreender, com o seu cérebro rudimentar, algo tão abstrato como o dia de amanhã, a vodca de amanhã. Os sacerdotes, em sua grande maioria, não extorquiam dinheiro do povo nem depravavam os menores de idade. Pelo contrário, permaneciam nos templos, dedicados a tentar desvendar o segredo indecifrável da fé. Os psicopatas, lunáticos, demônios e idiotas não se metiam na política nem queriam assumir cargos importantes no governo e na administração. Em vez disso, ocupavam-se em destruir a própria vida familiar. Os matutos permaneciam nas vilas, atrás dos estábulos, não tentavam se passar por tribunos da plebe. As coisas eram assim na maioria dos países.
Mas o reinado de Emblônia não fazia parte da maioria. Constituía minoria, no que se refere a todos os aspectos mencionados e também a vários outros. Foi por isso que entrou em decadência e por fim desapareceu. Os seus poderosos vizinhos, Temeria e Redânia, fizeram de tudo para que isso acontecesse. Emblônia, embora politicamente malsucedida, possuía alguma riqueza. O reinado se situava num vale aluvial do rio Pontar que havia séculos, nas épocas de inundação, depositava sua lama sobre as terras, transformadas em solos de aluvião, excepcionalmente férteis e produtivos para a agricultura. Administradas pelos soberanos de Emblônia, essas terras começaram a transformar-se rapidamente em pousios cobertos de mata ripária onde era difícil semear, e mais ainda colher. No entanto, Temeria e Redânia experimentaram um grande crescimento populacional, e a produção agrícola tornou-se uma questão primordial. Os aluviões de Emblônia seduziam, e dois reinos separados pelo rio Pontar dividiram entre si esse reinado, sem grandes cerimônias, e apagaram o seu nome dos mapas. A parte anexada por Temeria passou a ser chamada de Pontaria, e a parte atribuída à Redânia, de Ribeira. Multidões de colonos estabeleceram-se nos aluviões. A área, embora pequena, tornou-se logo, nas mãos de administradores competentes, graças à rotação de culturas e ao melhoramento dos terrenos, uma verdadeira Cornucópia agrícola.
Assim, passado pouco tempo, começaram os conflitos. Quanto maior a safra nos aluviões de Pontar, mais violentas se tornavam as brigas. Os tratados que haviam definido as fronteiras entre Temeria e Redânia continham disposições que permitiam um vasto leque de interpretações, e os mapas a eles anexados não prestavam para nada, devido ao ineficiente trabalho dos cartógrafos. O próprio rio também contribuía para o conflito: após uma longa temporada de chuvas, muitas vezes o seu leito mudava e desviava duas ou três milhas. E foi assim que a Cornucópia virou o pomo da discórdia. Foram por água abaixo os planos dos casamentos dinásticos e das alianças, começaram as notas diplomáticas, as guerras alfandegárias e as retaliações comerciais. Os conflitos nas fronteiras intensificavam-se cada vez mais, o derramamento de sangue parecia inevitável. E finalmente ocorreu, e daí em diante passou a acontecer com regularidade.
Em suas andanças à procura de uma ocupação, Geralt costumava evitar lugares onde os conflitos armados eram frequentes, pois neles era difícil achar um trabalho. Depois de deparar uma ou duas vezes com um exército regular, com mercenários ou saqueadores, os agricultores chegaram à conclusão de que um lobisomem nas redondezas, uma estrige ou um trol que vivia debaixo da ponte, ou um wicht que habitava um túmulo constituíam um problema pequeno e um risco reduzido. Portanto, não valia a pena gastar dinheiro com um bruxo. Havia questões mais urgentes – por exemplo, a reconstrução de uma casa queimada pelo exército ou a compra de galinhas para repor aquelas roubadas e consumidas pelos soldados. Por esse motivo, Geralt conhecia pouco os terrenos de Emblônia, ou, de acordo com os novos mapas, de Pontaria e Ribeira. Tampouco tinha ideia das localidades mais próximas apontadas pelo sinal e do caminho a seguir a partir da encruzilhada para se afastar o mais rápido possível do deserto e encontrar alguma civilização.
Geralt optou por Findetann, isto é, pelo norte, já que Novigrad ficava mais ou menos nessa direção, aonde precisava chegar para recuperar suas espadas, de preferência antes do dia quinze de julho.
Depois de cerca de uma hora de uma marcha ágil, topou exatamente com aquilo que tanto queria evitar.
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Junto de uma área desmatada, havia uma propriedade agrícola com uma casa coberta de palha e algumas choupanas. O latido alto de um cão e o raivoso alarido das aves domésticas denunciavam que algo acontecia no local. Ouviam-se os gritos de uma criança, o choro de uma mulher e muitos palavrões.
Aproximou-se maldizendo, do fundo da alma, o seu azar e os seus escrúpulos.
Penas voavam pelo ar. Um dos homens de armas amarrava na sela as aves apanhadas. Outro fustigava com um látego um camponês encolhido no chão. Outro ainda lutava com uma mulher de vestimenta rasgada, com uma criança agarrada a ela.
Aproximou-se e, sem-cerimônia, apanhou a mão erguida que segurava o látego e torceu-a. O homem de armas uivou. Geralt empurrou-o contra a parede do galinheiro. Agarrou o colar do outro, afastou-o da mulher e lançou-o contra a cerca.
– Sumam daqui – ordenou de forma sucinta. – Já.
Rápido desembainhou a espada, sinalizando que deveriam tratá-lo de modo adequado, com seriedade, de acordo com a situação, e para lembrar, enfaticamente, as eventuais consequências de um comportamento inadequado.
Um dos homens de armas riu alto. O outro fez o mesmo, segurando o cabo da espada.
– Quem você está atacando, vagabundo? Não tem medo da morte?
– Sumam daqui, já falei.
O homem de armas que prendia as aves na sela virou-se. Era uma mulher, uma mulher bonita, apesar dos olhos estranhamente semicerrados.
– Não preza a sua vida? – Descobriu que a mulher sabia contorcer os lábios de uma maneira ainda mais estranha. – Ou será que é retardado? Ou não sabe contar? Eu o ajudarei. Você está sozinho, nós somos três. Isso significa que levamos vantagem e que agora você deveria dar o fora daqui, pulando, com toda a força nas pernas, antes que as perca.
– Sumam daqui. Não vou repetir.
– Ah! Ao que parece, para vocês três é o mesmo que nada. E doze?
A batida de cascos ressoou ao redor. O bruxo olhou em volta. Nove cavaleiros e homens de armas apontavam seus spetuns e suas rogatinas para ele.
– Você, hein, seu larápio! Ponha a espada no chão!
Não obedeceu. Saltou para trás, na direção do galinheiro, para proteger pelo menos as costas.
– O que está acontecendo, Relâmpago?
– O colono não colaborou – bufou a mulher que tinha esse nome. – Disse que não pagaria o tributo, porque já havia pago, e blá-blá-blá. Daí começamos a instruir o jeca e, de repente, do nada surgiu esse indivíduo aí, de cabelos brancos. Um nobre cavaleiro, diabos, defensor dos pobres e dos oprimidos. Está sozinho, mas veio logo para cima da gente.
– Atrevido, hein? – um dos cavaleiros soltou uma gargalhada e pressionou o cavalo contra Geralt, ameaçando-o com o spetum. – Vamos prendê-lo para ver se continuará ousado desse jeito!
– Solte a espada! Ponha a espada no chão! – ordenou o cavaleiro de boina com penas que parecia o comandante. – Devo prendê-lo, Shevlov?
– Deixe-o, Sperry.
Shevlov olhava para o bruxo do alto da sela. Avaliou:
– Não pretende soltar a espada, não, né? É tão corajoso assim? Um verdadeiro machão? Você come as ostras inteiras, junto com as conchas? Acompanhadas de um gole de terebintina? Não se ajoelha diante de ninguém? E só defende os injustiçados? Você se sensibiliza tanto com as injustiças? Vamos checar isso. Graveto, Ligenza, Floquet!
Rapidamente os homens de armas entenderam as intenções do comandante. Deviam ser experientes e treinados no procedimento. Desmontaram, saltando das selas. Um deles colocou uma faca no pescoço do colono, o outro puxou a mulher pelo cabelo, o terceiro pegou a criança, que começou a gritar. Shevlov ordenou:
– A espada no chão. Agora! Caso contrário… Ligenza, corte a garganta do colono!
Geralt soltou a espada. Cercaram-no imediatamente, pressionando-o contra as tábuas. Ameaçaram-no com as pontas das armas.
– Ah! Funcionou! – constatou Shevlov, e desmontou do cavalo.
– Seu defensor de colonos, acabou de se meter em apuros – acrescentou secamente. – Entrou na parada e atrapalhou o serviço real. Num caso desses, tenho o direito de prendê-lo e levá-lo para julgamento.
– Prender? – o homem chamado de Ligenza franziu o cenho. – Para ter mais trabalho? É só colocar o nó de forca no pescoço e pendurá-lo num galho!
– Ou estraçalhá-lo aqui mesmo!
– Mas eu já o vi antes. É um bruxo – falou de repente um dos cavaleiros.
– Como é que é?
– Um bruxo que mata monstros por dinheiro.
– Um bruxo? Matem-no antes que lance um feitiço contra nós!
– Cale a boca, Escayrac. Conte, Trent. Onde foi que você o viu? Em que ocasião?
– Foi em Maribor. Ele estava acompanhado do alcaide de lá, que o havia contratado para matar um monstro, não lembro qual. Mas ele ficou gravado na minha memória por causa dos cabelos brancos.
– Hã?! Então, se ele nos atacou, é porque alguém o contratou para nos eliminar!
– Os bruxos matam monstros. Apenas defendem os humanos dos monstros.
Relâmpago puxou para trás o gorro de pele de lince e disse:
– Ah! Eu estava certa! Um defensor! Viu Ligenza fustigar o camponês com o chicote e Floquet se preparar para estuprar a mulher…
– E avaliou-os corretamente? – Shevlov bufou. – Como monstros? Então tiveram sorte. Estou brincando. Na minha opinião, é simples. Quando eu servia no exército, ouvi falar outras coisas sobre esses bruxos que eram contratados para realizar qualquer tipo de tarefa: espionagem, segurança, assassinatos… Eram chamados de gatos. Este aqui foi visto por Trent em Maribor, em Temeria. Deve ser um mercenário temeriano, contratado para nos matar por causa das estacas nas fronteiras. Fui avisado em Findetann sobre os mercenários temerianos, que prometiam uma recompensa pelos capturados. Portanto, nós o levaremos para Findetann com as mãos amarradas, o entregaremos ao comandante, e a recompensa será nossa. Andem, amarrem-no já. Por que estão parados? Têm medo? Ele não vai reagir. Sabe o que seríamos capazes de fazer com esses camponeses.
– E quem vai tocar nele, caralho? É um bruxo, porra.
– Ai, diabos!
– Cagões! Bundões! – Relâmpago gritou, desamarrando uma tira de couro dos alforjes. – Eu faço isso, já que ninguém aqui tem colhões!
Geralt permitiu que Relâmpago amarrasse as mãos dele. Decidiu obedecer, pelo menos num primeiro momento.
Duas carroças puxadas por bois, carregadas de estacas e materiais de alguma construção de madeira, saíram do caminho no meio da floresta.
– Um de vocês, vá falar com os carpinteiros e com o oficial de receita – Shevlov apontou. – Mande-os embora. Já encravamos a quantidade suficiente de estacas, por enquanto chega. Mas vamos descansar um pouco aqui. Verifiquem se encontram na propriedade alguma comida para os cavalos, e para nós também.
Ligenza ergueu e examinou a espada de Geralt, uma aquisição de Jaskier. Shevlov tirou-a das suas mãos. Pesou-a, manejou-a, moveu-a em redemoinho e falou:
– Sorte deles termos chegado aqui em grupo e na hora certa. Rapidinho ele teria acabado com vocês. Com vocês, Relâmpago e Floquet. Há muitas lendas sobre essas espadas de bruxo. Dizem que são feitas do melhor aço, composto e forjado repetidas vezes. E composto e forjado ainda outra vez, fica imbuído de encantamentos especiais e ganha, assim, uma força, uma resiliência e uma afiação excepcionais. Afirmo a vocês que uma lâmina de bruxo corta chapas e cotas de malha como se fossem feitas de linho, e qualquer outra espada como se fosse macarrão.
– Não pode ser! – exclamou Sperry. Como muitos ali presentes, tinha o bigode ensopado do creme de leite que haviam encontrado no casebre e sugado até a última gota. – Macarrão, não, não pode ser.
– Também não consigo imaginar isso – acrescentou Relâmpago.
– É difícil acreditar em algo assim – falou Graveto.
– É? – Shevlov colocou-se na posição de esgrima. – Então, vamos lá. Um de vocês, venha até aqui e vamos ver se isso é verdade. E então, ninguém se habilita? E aí? Que silêncio é esse?
– Tudo bem, eu vou – disse Escayrac, dando um passo à frente e desembainhando a espada. – Não custa nada. Veremos, quem sabe… Ao embate, Shevlov.
– Ao embate. Um, dois, três!
As espadas chocaram-se com estridor. O metal rachado gemeu funebremente. Relâmpago até se agachou quando um fragmento da lâmina quebrada silvou e passou de raspão pela sua têmpora.
– Caralho! – disse Shevlov, olhando impressionado para a lâmina cortada algumas polegadas acima do guarda-mão banhado a ouro.
– O meu não está nem rachado! – Escayrac ergueu a espada. – He, he, he! Não tem nenhuma fissura, nenhum sinal!
Relâmpago riu graciosamente. Ligenza berrou como um bode. E os restantes caíram numa gargalhada. Sperry bufou:
– Uma espada de bruxo? Como se conseguisse cortar macarrão? Você mesmo é macarrão, porra.
– Isso… – Shevlov apertou os lábios. – É uma merda, caralho, é uma porcaria… e você…
Jogou no chão aquilo que restou da espada, olhou para Geralt e apontou para ele, num gesto de acusação.
– Você é um trapaceiro, um enganador, um mentiroso. Você se faz de bruxo, mas carrega uma merda… um troço assim, porra, no lugar de uma boa espada?! Por curiosidade, quanta gente de bem você já conseguiu enganar? De quantos pobres tirou o último ceitil, seu impostor? Você confessará todos os seus pecados em Findetann, o alcaide o obrigará a confessar!
Bufou, cuspiu, bateu o pé.
– Montem os cavalos! Vamos embora daqui!
Partiram rindo, cantando, assobiando. O colono e a sua família seguiram-nos com um olhar soturno. Geralt viu os seus lábios se movendo. Não era difícil adivinhar o destino e a aventura que desejavam a Shevlov e aos que o acompanhavam.
O colono, em seus sonhos mais impensáveis, não podia imaginar que os seus desejos se cumpririam ao pé da letra, menos ainda tão rápido.
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Chegaram à encruzilhada. A estrada de terra batida que seguia em direção ao oeste, no meio de um barranco, estava sulcada pelas rodas das carroças e pelos cascos dos cavalos. Era evidente que as carroças dos carpinteiros tinham passado por lá. A companhia tomou a mesma direção. Geralt seguia atrás do cavalo de Relâmpago, preso a uma corda amarrada ao cepilho de sua sela.
O cavalo de Shevlov, que ia na frente, relinchou e empinou. De repente, algo reluziu na encosta do barranco, fulgurou e ficou parado, parecendo uma leitosa bola iridescente. A bola desapareceu, e no lugar dela surgiu um grupo estranho, algumas figuras abraçadas e entrelaçadas.
– Que diabos é isso? – Graveto xingou e aproximou-se de Shevlov, que acalmava o cavalo. – O que é isso?
O grupo dividiu-se em quatro silhuetas: um homem de cabelos longos, esbelto e ligeiramente afeminado, dois gigantes de braços compridos e pernas tortas, e um anão corcunda armado com uma enorme besta de dois limbos de aço.
– Buueh-hhhrrr-eeehhh-bueeeeh! Bueeh-heeh!
– Às armas! Às armas, força! – Shevlov gritou.
Estalou a primeira e logo em seguida a segunda corda da enorme besta. Shevlov, atingido na cabeça, morreu ali mesmo. Graveto, antes que caísse da sela, por um momento ficou olhando a sua barriga, atravessada por uma seta.
– Ao ataque! Ataquem! – todos da companhia desembainharam as espadas ao mesmo tempo. Geralt não tinha a menor intenção de esperar o resultado do embate sem fazer nada. Juntou os dedos no Sinal de Igni, queimando a corda amarrada nas suas mãos. Agarrou Relâmpago pela cintura, derrubou-a no chão e subiu na sela.
Algo reluziu, ofuscando tudo em volta. Os cavalos começaram a relinchar, a dar coices e a golpear o ar com os cascos das pernas dianteiras. Alguns dos cavaleiros caíram. Os que foram atropelados gritavam. A égua tordilha de Relâmpago também se assustou, mas o bruxo conseguiu dominá-la. Relâmpago levantou-se com ímpeto, saltou e agarrou a brida e as rédeas. Geralt afastou-a com um soco e esporeou a égua, que começou a galopar.
Encostado ao pescoço do corcel, ele não conseguia ver Degerlund assustando os cavalos e ofuscando os cavaleiros com sucessivos relâmpagos mágicos, nem Bue e Bang atacando, aos berros, um munido de um machado, o outro de uma larga cimitarra. Não viu o sangue respingar, nem ouviu os gritos dos assassinados. Tampouco viu Escayrac morrer, e logo após Sperry, ambos cortados por Bang como se fossem peixes. Não viu Bue derrubar Floquet com o cavalo e depois tirá-lo, arrastando-o, debaixo dele. Mas ouviu o grito cortado de Floquet, a voz de um galo sendo abatido, que ressoou ainda por um bom tempo. Até o momento em que saiu da estrada de terra batida e adentrou a floresta.