Tempo de Tempestade

Andrzej Sapkowski · Capítulo 1 de 31

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Tempo de Tempestade

Citação

Dos ghouls e fantasmas

monstros de patas longas

E das criaturas que vagueiam pela noite

Socorrei-nos, ó Senhor!

 

Ladainha conhecida como

“Litania de Cornualha”, datada

dos séculos XIV-XV

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

Dizem que o progresso ilumina as trevas. Mas sempre,

absolutamente sempre, existirá a escuridão. E na escuridão sempre haverá o mal, sempre haverá caninos e garras, assassinatos e sangue, sempre haverá criaturas que vagueiam pela noite, perturbando. E o nosso dever, o dever dos bruxos, é perturbá-las.

Vesemir de Kaer Morhen

 

Quem deve enfrentar monstros deve permanecer atento para

não se tornar também um monstro. Se olhares demasiado tempo o interior de um abismo, o abismo acabará por olhar o teu interior.

Friedrich Nietzsche, Além do bem e do mal ou Prelúdio de uma filosofia do

futuro

 

Considero total idiotice olhar para dentro de um abismo. No

mundo há outras coisas muito mais interessantes para serem olhadas.

Jaskier, Meio século de poesia

 

Vivia apenas para matar.

Estava deitado sobre a areia quente, aquecida pelo sol. Sentia as vibrações transmitidas pelas antenas peludas e pelas cerdas apoiadas firmemente sobre o solo. Embora as vibrações continuassem distantes, Idr as percebia com nitidez e precisão. Orientando-se por elas, conseguia descobrir não apenas a direção seguida pela presa e a velocidade dela, mas também o seu peso. Para a maioria dos predadores que caçavam de maneira semelhante, o peso da presa tinha importância primordial: esgueirar-se, atacar e perseguir implicava perda de energia, que precisava ser compensada pelo valor energético do alimento. A maioria dos predadores que agiam como Idr desistia do ataque quando a presa era demasiadamente pequena. Mas não Idr. Ele não existia apenas para comer e prolongar a espécie, não tinha sido criado para isso. Vivia para matar.

Saiu da cavidade formada por uma árvore tombada, rastejou ultrapassando o tronco putrefato, em três saltos transpôs as árvores derrubadas pelo vento, perpassou a clareira feito um fantasma e caiu no meio do matagal coberto de samambaias, afundando-se no mato. Movimentava-se com rapidez e em silêncio, ora correndo, ora saltando feito um enorme louva-deus.

Caiu em uma brenha e grudou-se ao solo, encostando nele o exoesqueleto segmentado do abdome. O solo vibrava cada vez com maior nitidez. Os impulsos das vibrissas e cerdas de Idr começavam a formar uma imagem, um plano. Ele já sabia como alcançar a presa, onde cortar o caminho dela, como forçá-la a fugir. Sabia qual deveria ser o comprimento do salto para atacá-la por trás, caindo por cima dela, e em que altura golpeá-la e cortá-la com as mandíbulas afiadas como uma navalha. As vibrações e os impulsos proporcionavam-lhe a mesma alegria que experimentaria na hora em que sentisse a presa agitando-se sob o peso do seu corpo, a mesma euforia provocada pelo gosto do sangue quente, o mesmo prazer sentido ao ouvir o grito de dor rasgando o ar. Tremia ligeiramente, abrindo e fechando as pinças e os pedipalpos.

As vibrações do solo eram muito nítidas e começaram a variar cada vez mais. Idr já sabia que havia mais presas, provavelmente três, talvez até quatro. Duas provocavam na terra um tremor regular. As vibrações da terceira indicavam que sua massa e seu peso eram pequenos. Já a quarta presa, se realmente existia, provocava vibrações irregulares, fracas, incertas. Idr enrijeceu, esticou-se e estendeu as antenas sobre a grama, examinando a movimentação do ar.

O tremor do solo sinalizou, enfim, aquilo que Idr desejava: as presas separaram-se. Uma, a menor, ficou atrás. A quarta, a indistinta, desapareceu. Era um falso alarme, um eco enganador. Idr ignorou-o.

A pequena presa afastou-se ainda mais das outras. O solo tremeu com mais força, cada vez mais próximo dele. Idr esticou as pernas traseiras, impulsionou-as e saltou.

•

A menina gritou terrivelmente. Em vez de fugir, ficou paralisada. E continuou a gritar.

•

O bruxo lançou-se em sua direção e desembainhou a espada. E logo percebeu que algo estava errado, que havia sido enganado.

O homem que puxava um carrinho carregado de lenha berrou e, na presença de Geralt, foi lançado à altura de uma braça. O sangue jorrou copiosamente, respingando para os lados. Caiu e, logo em seguida, foi lançado novamente para cima, desta vez em dois pedaços que expeliam sangue. Já não gritava. Agora quem gritava de maneira penetrante era uma mulher que, junto da filha, permanecia imóvel, paralisada pelo medo.

Embora lhe parecessem pequenas as chances, conseguiu salvá-la. Lançou-se na direção dela, empurrando-a com ímpeto para o lado, da vereda para a floresta, onde caiu no meio das samambaias. E logo percebeu que desta vez também havia sido enganado por meio de um artifício. Um vulto cinza, achatado, multípede e incrivelmente veloz afastava-se do carrinho e da primeira vítima e dirigia-se para a outra, a menina que continuava a esganiçar. Geralt lançou-se atrás dele.

Se a menina tivesse permanecido parada, ele não teria conseguido chegar a tempo. No entanto, a menina mostrou-se lúcida e lançou-se numa fuga desenfreada. Mesmo assim, o monstro cinza teria conseguido alcançá-la rapidamente e sem grande esforço – alcançar, matar e retornar para assassinar a mulher. E assim teria acontecido se o bruxo não estivesse lá.

Alcançou o monstro e saltou, esmagando uma das suas pernas com o salto do sapato. Se não houvesse galgado para trás, teria perdido uma das pernas. O monstro cinza virou-se com impressionante agilidade e suas pinças em forma de foice apertaram-se, falhando minimamente. Antes que o bruxo conseguisse recuperar o equilíbrio, o monstro deu um salto e atacou. Geralt defendeu-se com um golpe involuntário, extenso e bastante caótico da espada e afastou-o. Não conseguiu feri-lo, mas repetiu o ato.

Lançou-se, alcançou-o, cortou-o a partir da orelha e destruiu a carapaça sobre o cefalotórax achatado. Antes que o monstro desorientado tentasse se proteger, com outro golpe cortou a sua mandíbula esquerda. A criatura lançou-se sobre o bruxo, agitando as pernas, tentando atacá-lo com a mandíbula

remanescente feito um auroque*. O bruxo lacerou-a também. Com um rápido corte inverso, amputou um dos seus pedipalpos. E novamente golpeou o seu cefalotórax.

•

Idr finalmente percebeu que estava em perigo e precisava fugir. Precisava fugir, fugir para longe, esconder-se em algum lugar, sumir em algum covil. Vivia apenas para matar. E para matar precisava se regenerar. Precisava fugir… fugir…

•

Mas o bruxo não permitiu que o monstro escapasse. Alcançou-o, pisou na parte traseira do seu tórax, cortou de cima, com ímpeto. Agora, a carapaça do cefalotórax cedeu e um espesso sangue esverdeado jorrou da fenda. O monstro agitava-se, suas pernas açoitavam o solo.

Geralt executou um golpe com a espada, separando por completo, desta vez, a cabeça achatada do resto do corpo.

Respirava com dificuldade.

À distância, trovejava. O vento que começara a assoprar e o céu que enegrecera rapidamente pressagiavam uma tempestade iminente.

•

Albert Smulka, o recém-nomeado zupano municipal, já no primeiro encontro com Geralt lembrou-lhe a raiz de um nabo: ele era rechonchudo, mal lavado, grosseiro e, de forma geral, pouco interessante. Em outras palavras, não era muito diferente dos outros funcionários municipais com os quais costumava lidar.

– Parece que é verdade mesmo que um bruxo consegue resolver qualquer problema – o zupano falou. – Jonas, meu antecessor, vivia elogiando-o – retomou após um momento, mas não houve nenhuma reação da parte de Geralt. – E, veja só, eu o considerava um mentiroso, não acreditava em tudo o que ele dizia. Sei como certas coisas acabam se transformando em lenda. Especialmente quando se trata de um povo ignorante, que a toda hora inventa um milagre, uma maravilha, ou surge com outro bruxo que possui forças sobrenaturais. E aí, de repente, você descobre que é mesmo verdade. Lá na floresta, além do riozinho, morreu um montão de gente. Mas os burros continuaram andando por lá, para a própria desgraça, pois aquele caminho para a cidadezinha é mais curto… Não davam ouvido aos avisos. Vivemos numa época em que é melhor não andar perambulando pelos ermos ou pelas florestas. Há monstros devoradores de homens por todo lado. Em Temeria, no Contraforte de Tukai, acabou de acontecer algo terrível: algum fantasma silvícola trucidou quinze pessoas no povoado dos carvoeiros conhecido como Cornada. Deve ter ouvido falar. Não? Mas é a pura verdade, juro pela minha morte. Até os feiticeiros teriam feito uma investigação nessa tal de Cornada. Mas chega de confabular. Aqui, em Ansegis, estamos seguros, graças a você.

Tirou um estojo de dentro de uma cômoda e estendeu uma resma de papel sobre a mesa. Mergulhou a pena no tinteiro.

– Você prometeu que mataria o monstro – disse sem levantar a cabeça. – Pelo visto, não jogou palavras ao vento. Você cumpre a sua palavra, apesar de ser um vagante… E salvou a vida daquelas pessoas, da mulher e da menina. Pelo menos agradeceram? Caíram aos seus pés?

– Não caíram – o bruxo cerrou as mandíbulas. – Elas ainda não recuperaram a consciência por completo. E eu partirei antes que a recuperem, antes que percebam que as usei como uma isca, confiando presunçosamente que conseguiria salvar os três. Partirei antes que a menina perceba, antes que entenda que virou meio órfã por minha culpa.

Sentia-se mal. Certamente por causa dos elixires que tomara antes do embate. Sem dúvida.

– Aquele monstro era um verdadeiro asco – o zupano distribuiu a areia sobre o papel e, em seguida, sacudiu, espalhando-a pelo chão. – Examinei a carniça quando trouxeram… O que ele era, exatamente?

Geralt não sabia exatamente o que o monstro era, mas não queria que o outro percebesse.

– Um aracnomorfo.

Albert Smulka mexeu os lábios, tentando, inutilmente, repetir a palavra.

– Bem, não importa o nome, que se dane. Você o matou com essa espada? Com essa lâmina? Posso vê-la?

– Não pode.

– Hum… Deve ser uma espada enfeitiçada, e cara… uma raridade… Mas estamos aqui batendo papo, e o tempo corre. O acordo foi cumprido, chegou a hora de você receber o pagamento. Mas antes precisamos tratar das formalidades. Firme a fatura, isto é, coloque uma cruz ou outro símbolo nela.

O bruxo ergueu o recibo que lhe foi entregue e observou-o contra a luz.

– Vejam só… Quer dizer que sabe ler? – o zupano disse, meneando a cabeça e franzindo o cenho.

Geralt pôs a folha sobre a mesa, empurrou-a na direção do funcionário e disse em voz baixa e calma:

– No documento há um pequeno erro. Combinamos a remuneração no valor de cinquenta coroas, e a fatura foi emitida no valor de oitenta.

Albert Smulka juntou as mãos, apoiando o queixo sobre elas, e também disse em voz baixa:

– Não é um erro. É um gesto de reconhecimento. Você matou um monstro terrível, decerto não foi uma tarefa simples… Portanto, ninguém estranhará o valor…

– Não entendo.

– Credo. Não tente passar por ingênuo. Você quer dizer que Jonas, quando era o administrador, não emitia faturas desse tipo? Aposto minha cabeça que…

Geralt interrompeu-o:

– Que…? Que ele sobrefaturava os valores? E repartia comigo a metade do que sobrava e empobrecia o tesouro real?

O zupano contorceu os lábios e retrucou:

– A metade? Não exagere, bruxo, não exagere. Alguém até poderia pensar que você é muito importante. Você ganhará um terço daquilo que sobrar. Dez coroas. Para você, é até um prêmio bastante alto. E eu mereço mais, só pelo cargo que exerço. Os funcionários públicos deveriam ser ricos. Quanto mais ricos eles forem, tanto maior será o prestígio de um país. Além disso, o que você pode saber sobre essas coisas? Já estou ficando entediado com esta conversa. Você firmará a fatura ou não?

A chuva tamborilava no telhado, lá fora caía um aguaceiro. Mas já não trovejava, a tempestade começava a se dissipar.

 

* Nome dado às populações selvagens do boi doméstico (Bos taurus) que se extinguiram no século

XVII. (N. da R.)