Tempo de Tempestade

Andrzej Sapkowski · Capítulo 28 de 31

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Tempo de Tempestade

Capítulo décimo nono

 

O guerreiro não tem uma morte serena. A morte, para

alcançá-lo, precisa combatê-lo. Mesmo assim, um guerreiro não sucumbe à morte com facilidade.

Carlos Castañeda, The Wheel of Time

 

– Nossa! Vejam! Uma ratazana! – Jaskier gritou, de repente.

Geralt não reagia. Conhecia o poeta, sabia que tinha medo de tudo, que ficava impressionado com qualquer coisa e punha sensacionalismo em coisas que nada tinham de sensacional.

– Uma ratazana! Outra! Mais uma! E mais uma ainda! Droga! Olhe, Geralt! – Jaskier não desistia.

Geralt suspirou e olhou.

Ao pé da falésia havia um bando de ratazanas. O terreno entre Palmyra e o terraço estava vivo, movimentava-se, ondeava e chiava. Centenas ou até milhares de roedores haviam fugido da região do porto e da foz do rio e corrido para cima, ao longo da paliçada, para as colinas e florestas. Outros transeuntes também observaram o fenômeno. Ressoaram gritos de espanto e medo. Jaskier observou:

– As ratazanas estão fugindo de Palmyra e do porto porque estão com medo! Eu sei o que aconteceu! O navio dos caçadores de ratazanas deve ter atracado no porto!

Ninguém falava nada. Geralt enxugou o suor das pálpebras. O calor era intenso, o ar quente abafava a respiração. Olhou para o céu translúcido, sem nenhuma nuvem.

– Uma tempestade está chegando. Uma tempestade forte. As ratazanas sentem isso, eu também, percebo no ar – Lytta falou em voz alta aquilo que Geralt havia pensado.

“E eu também sinto”, pensou o bruxo.

– A tempestade… a tempestade virá do mar – Coral repetiu.

– Que tempestade? – Jaskier abanou-se com o chapéu. – Onde? O tempo está maravilhoso, o céu limpíssimo, não sopra nem uma brisa. Que pena, pois com este calor um vento seria bom, uma brisa…

Antes que terminasse a frase, um vento soprou. Uma leve brisa trazia o cheiro do mar, proporcionava alívio, refrescava. Foi se tornando cada vez mais forte. Os galhardetes nos mastros, que um pouco antes pendiam soltos, sem se mexer, começaram a agitar-se, a tremular.

O céu escureceu no horizonte. O vento ficou mais intenso. O leve murmúrio tornou-se cada vez mais forte, até virar um silvo.

Os galhardetes nos mastros começaram a esvoaçar e bater impetuosamente. Cocoricaram os galos nos telhados e nas torres, trincaram e tiniram as coberturas de chapa nas chaminés, bateram as venezianas, levantaram-se nuvens de poeira.

Jaskier agarrou com ambas as mãos, no último instante, o seu chapéu, que quase voou.

Mozaïk segurou o vestido de chiffon, pois o sopro repentino do vento levantou-o quase até a altura dos seus quadris. Antes que conseguisse dominar o tecido agitado pela ventania, Geralt fitou, com prazer, as suas pernas. Mozaïk percebeu o olhar dele, mas não desviou o seu.

– Uma tempestade… Tempestade! Está vindo um temporal! – Coral precisava virar-se para falar e ser ouvida. O vento soprava com tanta força que abafava as palavras.

– Deuses! Deuses! O que está acontecendo? Será que é o fim do mundo? – gritou Jaskier, que não acreditava em nenhum deles.

O céu escurecia com rapidez, o horizonte azul-marinho escurecia cada vez mais. O vento crescia, silvando assombrosamente.

No ancoradouro atrás do cabo, o mar agitava-se, produzindo enormes ondas que se chocavam contra o quebra-mar. A espuma branca esguichava para os lados. O barulho do mar intensificava-se. Ficou escuro como se fosse noite.

Era possível notar a agitação nas unidades fundeadas no ancoradouro. Algumas, entre elas a embarcação de correios Eco e a escuna novigradense Pandora Parvi, içavam as velas às pressas, prontas para fugir para o alto-mar. Os outros navios amainavam as velas, permanecendo ancorados. Geralt lembrava-se de alguns deles, pois observava-os do terraço da mansão de Coral. Alke, a coca de Cidaris. Fúcsia, não se lembrava de onde era. E os galeões: Orgulho de Cintra com a bandeira que trazia uma cruz celeste, e Vertigo de Lan Exeter, equipado com três mastros, e Albatroz da Redânia, com uma extensão de cento e vinte pés da proa à popa, e alguns outros, entre eles, a fragata Acherontia com as suas velas pretas.

O vento já não silvava, parecia uivar. Geralt viu o primeiro telhado no Complexo de Palmyra subir para o alto e desfazer-se no ar. Não demorou para ver o segundo, e o terceiro, e o quarto. E o vento continuava a ganhar força. O farfalhar dos galhardetes virou um estrondo incessante. As venezianas estrondeavam, um granizo de telhas e calhas caía, as chaminés desabavam, os vasos sobre os paralelepípedos despedaçavam-se. Movido pela ventania, o sino no campanário começou a dobrar, ressoando com um toque cortado, apavorado e agourento.

E o vento continuava a soprar cada vez com mais força e empurrava para a beirada ondas cada vez maiores. O barulho do mar aumentava sem cessar. Logo não era mais um murmúrio, era um estrondo constante, surdo, como se fosse o ribombo de uma máquina diabólica. As ondas cresciam, os paredões cingidos com uma espuma branca avançavam em direção à margem. A terra tremia debaixo dos pés. O vento uivava.

Eco e Pandora Parvi não conseguiram fugir. Voltaram para o ancoradouro e fundearam.

Os gritos das pessoas reunidas nos terraços ressoavam cada vez mais alto, cheios de espanto e pavor. Os braços estendidos apontavam para o mar.

Uma enorme onda cortava o mar. Era uma gigantesca parede de água. Parecia erguer-se à mesma altura dos mastros dos galeões.

Coral agarrou o bruxo pelo braço. Dizia algo, ou tentava dizer, mas o vento parecia amordaçá-la.

– Ger! Geralt! Precisamos fugir daqui!

Uma onda despejou sobre o porto. As pessoas gritavam. O molhe desfez-se em farpas e lascas sob a massa de água, as vigas e tábuas levantaram. A doca desabou, os guindastes e as suas colunas quebraram e caíram. Os barcos e as barcaças atracados junto do embarcadouro voaram, erguendo-se para o alto como se fossem brinquedos ou barquinhos feitos de cortiça que os meninos soltavam nas sarjetas das ruas. Os casebres e as choupanas localizados mais próximos da praia simplesmente foram levados pela água, sem deixar rastro. A onda entrou na foz do rio, transformando-o numa catadupa infernal. Multidões fugiam da Palmyra inundada. A maioria das pessoas dirigia-se para a Cidade Alta e para a atalaia e conseguiu sobreviver. Uma parte optou por fugir pela beira do rio, e Geralt viu-as sendo devoradas pela água.

– Uma segunda onda! Outra onda! – gritava Jaskier.

Realmente, veio a segunda onda, e depois a terceira, e a quarta, e a quinta, e a sexta. Os paredões de água submergiam o ancoradouro e o porto.

As ondas chocaram-se com enorme força contra os navios ancorados, que, presos nas correntes, sacudiam de forma selvagem. Geralt viu as pessoas caindo do bordo para dentro da água.

Os navios com as proas viradas contra o vento lutavam com coragem durante algum tempo. Perdiam os mastros um por um e depois submergiam, envoltos pelas ondas. Desapareciam na espuma, depois reapareciam, desapareciam e novamente emergiam.

O primeiro a submergir foi a embarcação de correios Eco, que simplesmente desapareceu. Após um instante, o mesmo aconteceu com a galé Fúcsia, que simplesmente se desfez. A corrente de ancoragem partiu a carcaça do Alke e a coca desapareceu, num instante, no abismo. A proa e o castelo de proa do Albatroz romperam sob a pressão e o barco, em pedaços, afundou como se fosse uma pedra. A âncora do Vertigo quebrou, e o galeão dançou sobre o dorso da onda, virou e despedaçou ao chocar-se contra o quebra-mar.

Acherontia, Orgulho de Cintra, Pandora Parvi e dois galeões que Geralt não conhecia levantaram âncora, e as ondas carregaram-nos até a margem. A manobra parecia desesperada e arriscada. Os capitães tinham que escolher entre a morte certa no ancoradouro ou a perigosa manobra de adentrar a foz do rio.

Os galeões desconhecidos não tinham chances. Nenhum deles conseguiu sequer se posicionar de maneira adequada. Ambos se estraçalharam contra o molhe.

Orgulho de Cintra e Acherontia tampouco conseguiram continuar navegando. Chocaram-se um com o outro, uniram-se, e as ondas empurraram-nos para o cais, estraçalhando-os. Os destroços foram levados pela água.

Pandora Parvi dançava e saltava sobre as ondas como se fosse um golfinho. Mas mantinha-se no curso, levada diretamente para a foz de Adalatte, que fervilhava como um caldeirão. Geralt ouvia os gritos das pessoas encorajando o capitão.

Coral gritou e apontou.

Aproximava-se a sétima onda.

Geralt avaliava a altura das ondas anteriores, que se igualava à dos mastros, em cinco ou seis braças, isto é, entre trinta e quarenta pés. Aquilo que vinha agora do mar, cobrindo o céu, era duas vezes maior.

As pessoas que fugiam de Palmyra, tumultuadas junto da atalaia, começaram a gritar. O vento as desequilibrava, derrubava no chão, pressionava contra a paliçada, quebrando as estacas. A atalaia desabou e foi levada pela água.

O descontrolado aríete aquático colidiu com a falésia. A colina estremeceu com tanta força que Jaskier e Mozaïk tombaram. Geralt conseguiu manter o equilíbrio com grande dificuldade.

– Precisamos fugir! Geralt! Vamos fugir daqui! Virão mais ondas! – gritou Coral, agarrada ao balaústre.

A onda derramou-se sobre eles, cobrindo-os. As pessoas que estavam no terraço, e que não haviam fugido antes, fizeram isso agora. Gritando, fugiram para a colina, cada vez mais alto, na direção do palácio real. Poucas ficaram. Dentre elas, Geralt reconheceu Ravenga e Antea Derris.

As pessoas gritavam e apontavam. As ondas destruíram a falésia à sua direita, abaixo do bairro das mansões. A primeira mansão desabou como se fosse uma casa de cartas e deslizou sobre o declive, caindo diretamente dentro do turbilhão formado pela água. Em seguida, o mesmo aconteceu com a segunda, a terceira, a quarta.

– A cidade está se desfazendo, está caindo aos pedaços! – uivou Jaskier.

Lytta Neyd ergueu os braços, entoou um encantamento e desapareceu.

Mozaïk agarrou o braço de Geralt e Jaskier gritou.

A água já estava debaixo deles e do terraço, e havia pessoas nela. Aquelas que estavam em cima passavam-lhes varas, croques, jogavam cabos, tentando salvá-las. Perto deles, um homem de postura imponente saltou para dentro do turbilhão e lançou-se, nadando, para socorrer uma mulher que estava se afogando.

Mozaïk gritou. Viu o fragmento do telhado de um casebre dançar sobre as ondas e três crianças agarradas a ele. Puxou a espada das costas.

– Segure, Jaskier!

Tirou o casaco e pulou na água.

As condições não eram propícias para nadar, e as suas habilidades normais de natação de nada serviam. As ondas sacudiam-no para cima, para baixo, para os lados. Vigas, tábuas e móveis que redemoinhavam no turbilhão batiam nele. Havia o risco de ele ser amassado pelas massas de madeira e ser transformado em polpa. Por fim alcançou o telhado, e estava seriamente machucado. O telhado saltava e girava sobre a onda como se fosse um pião. As crianças gritavam, cada uma da sua maneira.

“Três”, pensou. “Não há nenhum jeito de eu conseguir levar os três.”

Sentiu um ombro junto do seu.

– Duas! Pegue duas! – Antea Derris cuspiu a água e agarrou uma das crianças.

Não estava fácil. Conseguiu pegar o menino e apertou-o debaixo da axila. A menina, em pânico, agarrou-se com tanta força ao caibro que o bruxo não conseguia fazê-la afrouxar o aperto. Uma onda ajudou, derramando-se sobre eles. A menina, que havia mergulhado na água, soltou o caibro. Geralt segurou-a debaixo da outra axila, e depois os três começaram a se afogar juntos. As crianças engasgavam e sacudiam-se. O bruxo lutava.

Não saberia explicar como, mas conseguiu emergir. A onda empurrou-o contra o muro do terraço, deixando-o sem respiração. Não soltou as crianças. As pessoas que estavam em cima gritavam, tentavam ajudar, aproximar algum objeto que eles pudessem segurar. Não conseguiram. A força do redemoinho arrebatou-os e os levou. Colidiu com alguém: era Antea Derris com uma menina nos braços. Ela lutava, mas Geralt percebeu que também estava esgotada. Mantinha com dificuldade a sua cabeça e a da criança fora da água.

Ouviu um chapinhar ao seu lado e uma respiração ofegante. Era Mozaïk. Tirou uma das crianças dele e levou-a, nadando. Viu uma viga levada pela onda chocar-se com Mozaïk, mas ela não soltou a criança.

A onda empurrou-os novamente contra o muro do terraço. Desta vez, as pessoas na parte de cima estavam preparadas. Tinham levado até escadas e estenderam os braços. Conseguiram entregar as crianças para elas. Jaskier viu Mozaïk ser tirada da água e puxada para o terraço.

Antea Derris olhou para o bruxo. Os seus olhos eram belos. Sorriu.

A onda carregou uma grande quantidade de madeira que se chocou com eles. Eram enormes estacas arrancadas da paliçada.

Uma delas atingiu Antea Derris e pressionou-a contra o terraço. Antea cuspiu sangue, muito sangue, depois a sua cabeça caiu sobre o peito e ela desapareceu debaixo da água.

Geralt foi atingido por duas estacas, uma no ombro, outra nos quadris. Os golpes paralisaram-no, fizeram que num instante todo o seu corpo ficasse completamente dormente. Engasgou com a água e começou a afogar-se.

Alguém o agarrou. Sentiu um doloroso e forte aperto e foi suspenso para cima, para a superfície luminosa. Estendeu a mão e sentiu um poderoso bíceps, duro como uma rocha. O fortão agitava as pernas, cortava a água como um tritão, e com a mão solta rebatia e afastava a madeira e os afogados que flutuavam em volta dela. Emergiram junto do terraço. De cima ressoaram gritos e vivas, havia mãos estendidas.

Em breve estava prostrado numa poça de água, tossindo, cuspindo, vomitando sobre as lajes de pedra do terraço. Jaskier estava junto dele, ajoelhado e pálido como uma folha de papel. Do outro lado encontrava-se Mozaïk, também pálida, com as mãos trêmulas. Geralt sentou-se com dificuldade.

– Antea?

Jaskier meneou a cabeça e virou o rosto. Mozaïk pôs a cabeça nos joelhos, sacudida pelo choro.

Ao seu lado estava o seu salvador, o fortão. Na realidade, uma fortona com uma cerda desgrenhada sobre a cabeça calva, uma barriga redonda como um tender amarrado com barbantes, os ombros como os de um pugilista e as canelas como um discóbolo.

– Você salvou a minha vida.

– Que é isso… – A comandante da casa de guarda meneou a mão despreocupadamente. – Não foi nada. Aliás… você é um otário. As meninas e eu ficamos com raiva de você por causa daquela confusão. É melhor você não implicar com a gente, senão daremos uma surra em você, certo?

– Certo.

– Mas é preciso reconhecer que você é um otário corajoso. Você é um otário corajoso, Geralt de Rívia – a comandante falou, cuspindo abundantemente e sacudindo a cabeça para tirar a água do ouvido. – E você? Como se chama?

– Violetta – respondeu a comandante, que, de repente, ficou pensativa. – E ela? Aquela…

– Antea Derris.

– Antea Derris – repetiu, contorcendo os lábios. – Que pena!

– É mesmo.

Outras pessoas chegaram, enchendo o terraço. Já não havia mais perigo. O céu ficou claro, a ventania sossegou, os galhardetes pendiam frouxamente. As ondas enfraqueciam. A água recuava, deixando tudo em ruínas, como se fosse um campo de batalha. Cadáveres já eram atacados por caranguejos.

Geralt levantou-se com dificuldade. Todos os movimentos e qualquer respiração mais funda causavam uma dor pungente no flanco. O seu joelho doía demais. As mangas da camisa haviam sido arrancadas, e ele não lembrava exatamente quando isso tinha acontecido. A sua pele no cotovelo esquerdo, no braço direito e provavelmente na escápula estava em carne viva. As feridas superficiais sangravam. Contudo, de forma geral, não era nada sério, nada muito preocupante.

O sol apareceu por entre as nuvens. Os seus reflexos resplandeceram no mar, que sossegava. O telhado do farol localizado no fundo do cabo, feito de tijolo branco e vermelho, uma relíquia dos tempos élficos, reluziu. Uma relíquia que sobreviveu a muitas tempestades parecidas com essa e que provavelmente sobreviveria a outras que se seguiriam.

Após forçar a foz do rio, seriamente obstruída pelo lixo flutuante, a escuna Pandora Parvi, com todas as velas içadas, como numa parada, adentrou o ancoradouro. A multidão aplaudiu.

Geralt ajudou Mozaïk a se levantar. A moça também ficou com pouca roupa no corpo. Jaskier entregou-lhe uma capa para se proteger e pigarreou enfaticamente. Diante deles estava Lytta Neyd com uma maleta médica no braço.

– Voltei – disse, olhando para Geralt.

– Não, você partiu – ele falou.

Fitou-o com um olhar frio, estranho. Em seguida, fixou o olhar em algo muito longe, localizado a uma distância muito grande atrás do ombro direito do bruxo, e falou com frieza:

– É assim que você quer terminar? Quer deixar esse tipo de lembranças? Tudo bem, a escolha e a vontade são suas. No entanto, você poderia ter escolhido um estilo menos patético. Passe bem, então. Vou ajudar os feridos e necessitados. Você, pelo visto, não precisa da minha ajuda, nem da minha própria pessoa. Mozaïk!

Mozaïk meneou a cabeça e segurou o braço de Geralt. Coral bufou.

– É assim, então? É isso o que você quer? Quer fazer as coisas dessa maneira? Tudo bem, a escolha e a decisão são suas. Passem bem.

Virou-se e partiu.

•

Febus Ravenga apareceu no meio da multidão que começou a se concentrar no terraço. Devia ter participado da ação de resgate, pois a sua roupa estava toda molhada e esfarrapada. Algum factótum prestativo aproximou-se dele e lhe entregou o seu chapéu, ou aquilo que restou dele.

– E agora? E agora, senhor vereador? – alguém da turba perguntou.

– E agora? O que fazer?

Ravenga olhou para eles demoradamente, depois retesou-se, torceu o chapéu, colocou-o sobre a cabeça e disse:

– Vamos enterrar os mortos, cuidar dos vivos e começar a reconstrução.

•

O sino do campanário tocou, como para dizer que sobrevivera. Embora muita coisa tivesse mudado, outras são imutáveis.

– Vamos embora daqui. Jaskier? Onde está a minha espada? – Geralt tirou de trás da gola as algas molhadas. Jaskier engasgou-se apontando para um lugar vazio ao pé do muro.

– Há um instante… há um instante estavam aqui! A sua espada e o seu casaco! Roubaram! Filhos da puta! Roubaram! Que gente! Havia uma espada aqui! Devolvam, por favor! Gente! Ei, seus filhos da puta! Vão para o inferno!

De repente, o bruxo começou a sentir-se mal. Mozaïk o segurou. “Estou mal”, pensou ele. “Estou tão mal que as moças precisam me amparar.” E disse:

– Estou farto desta cidade, farto de tudo o que esta cidade é e de tudo o que ela representa. Vamos embora daqui, o mais rápido possível, e para o mais longe possível.