Tempo de Tempestade

Andrzej Sapkowski · Capítulo 10 de 31

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Tempo de Tempestade

Interlúdio

 

(um fragmento do rascunho, texto que nunca foi publicado na edição oficial)

Jaskier, Meio século de poesia

 

Sinceramente, o bruxo devia muito a mim. A cada dia mais.

Como sabem, a visita a Pyral Pratt em Ravelin terminou de forma tempestuosa e sanguinolenta. No entanto, trouxe alguns lucros. Geralt achou uma pista sobre o ladrão das suas espadas. De certo modo, contribuí para isso, afinal de contas, graças à minha astúcia, eu mesmo o guiei até Ravelin. E, no dia seguinte, também fui eu mesmo, e mais ninguém, quem providenciou uma nova arma para ele. Não aguentava vê-lo andando por aí desarmado. Ora, alguns diriam que um bruxo nunca fica indefeso, que é um mutante treinado em todos os tipos de combates, duas vezes mais forte e dez vezes mais rápido do que uma pessoa normal, capaz de, num instante, derrubar três fortões armados com uma aduela de tanoeiro de carvalho, além de dominar a magia e os seus sinais, que constituem uma poderosíssima arma. Tudo isso é verdade. Mas nada substitui uma espada. Geralt vivia afirmando que, sem uma espada, sentia-se nu. Por isso mesmo acabei arrumando uma para ele.

Como já sabem, o bruxo e eu fomos remunerados por Pratt, que se mostrou pouco generoso, mas pelo menos pagou. No dia seguinte, de manhã, seguindo a orientação de Geralt, corri à filial dos Giancardi para descontar o cheque. Entreguei-o, e lá estava eu, olhando à minha volta. De repente, percebi que alguém me observava atentamente: era uma dama, nem velha, nem jovem, trajando uma vestimenta elegante e de bom gosto. Não estranhei o olhar feminino que me admirava, pois muitas mulheres consideram simplesmente irresistível a minha aparência máscula e cheia de bravura.

A dama aproximou-se de repente, apresentou-se como Etna Asider e disse que me conhecia. Ora, não havia nada de novo nisso. Todos me conheciam. A minha fama é maior do que eu, supera-me aonde quer que eu vá. Ela falou:

– Soube, senhor poeta, das mal-aventuranças do seu companheiro, o bruxo Geralt de Rívia. Sei que perdeu a sua arma e que precisa urgentemente de uma. Sei também como é difícil conseguir uma boa espada. Acontece que disponho de uma excelente lâmina. Pertencia ao meu falecido marido – que os deuses derramem graças sobre o espírito dele. Por isso venho ao banco com a intenção de avaliá-la. Que utilidade pode ter uma espada para uma viúva? O banco a avaliou e quer colocá-la para vender. De qualquer forma, preciso urgentemente de dinheiro vivo para pagar as dívidas do falecido. Caso contrário, os fiadores não me deixarão em paz. Portanto…

Após dizer isso, a dama desembrulhou a espada, retirando dela a capa de damasco. Juro, era uma maravilha. Leve como uma pena. A bainha, elegante e de bom gosto; a empunhadura, feita de pele de lagarto; e o guarda-mão, banhado a ouro, com um jaspe do tamanho de um ovo de pombo encrustado no pomo. Desembainhei-a e não acreditei no que vi. Na lâmina, logo acima do guarda-mão, havia uma gravura em forma de sol e em seguida uma inscrição: “Não desembainhar sem motivo, não embainhar sem honra.” Ora, uma espada forjada em Nilfgaard, em Viroleda, a cidade famosa em todo o mundo por conta das suas forjas de espadas. Passei a ponta do dedo no gume e, juro, estava afiado como uma navalha.

Com a minha esperteza, não deixei transparecer nada. Continuei observando com indiferença os caixeiros a andar apressadamente e uma velhinha a polir as maçanetas de latão. A viúva disse:

– O banco dos Giancardi avaliou a espada em duzentas coroas, para revenda. Mas se pagar em dinheiro e à vista, venderei por cento e cinquenta.

– Hã… Cento e cinquenta é um saco cheio de dinheiro. É o preço de uma casinha no subúrbio – respondi.

– Ah, senhor Jaskier, o senhor está debochando de mim – a dama uniu as mãos e verteu uma lágrima. – Só um homem cruel se aproveitaria dessa forma de uma viúva. Mas, como estou passando necessidade, então que seja feito do seu jeito: venderei a espada ao senhor por cem.

E foi assim, meus caros, que resolvi o problema do bruxo.

Corri até O Caranguejo e Belona, onde encontrei Geralt comendo ovos mexidos com bacon. “Hum… a bruxa ruiva deve ter servido para ele novamente queijo fresco com cebolinha no café da manhã”, pensei. Aproximei-me e – bum! – coloquei a espada sobre a mesa. Ele ficou boquiaberto. Largou a colher, desembainhou a arma e começou a examiná-la. O seu rosto continuava impassível. Já havia me acostumado ao fato de ele ser mutante, sabia que não era capaz de sentir emoções. Não importava o quanto estivesse impressionado ou feliz, não demonstraria nenhum sentimento.

– Quanto você pagou por isso?

Pensei em responder que o que tinha sido pago não interessava para ele, mas lembrei na hora que havia comprado a espada com o dinheiro dele mesmo, por isso falei o preço. Ele apertou a minha mão, sem proferir sequer uma palavra, nem mudou a expressão no seu rosto. Esse era o jeito dele: simplório, mas sincero. E disse-me que estava indo embora, sozinho. Falou, antecipando os meus protestos:

– Queria que você permanecesse em Kerack e quero que mantenha os olhos abertos e os ouvidos atentos.

Contou o que havia ocorrido no dia anterior, sobre a sua conversa noturna com o conde Egmund. E não parava de brincar com a sua espada viroledana, como uma criança entretida com um novo brinquedo. Resumiu os seus planos:

– Não planejo servir ao conde, nem participar das bodas reais em agosto como guarda-costas. Egmund e o seu primo estão certos de que logo prenderão o ladrão que roubou as minhas espadas. Não compartilho do seu otimismo. E isso, essencialmente, me convém. De posse das minhas espadas, Egmund teria conseguido uma vantagem sobre mim. Prefiro apanhar o ladrão por minha própria conta em julho, em Novigrad, antes da licitação na casa de leilões dos Borsodi. Recuperarei as espadas e nunca mais passarei por Kerack. Já você, Jaskier, mantenha a boca fechada. Ninguém pode saber aquilo que Pratt nos disse. Ninguém, nem o seu primo promotor.

Jurei que permaneceria mudo como um peixe. Ele, no entanto, olhava para mim de uma forma estranha, como se não confiasse na minha promessa. Retomou:

– E, já que as coisas podem não sair como o esperado, preciso ter um plano B. Queria ter informações mais detalhadas sobre Egmund e os seus irmãos, sobre todos os possíveis herdeiros ao trono, sobre o próprio rei, sobre toda a família real. Queria saber o que planejam e o que tramam, quem conjura com quem, que facções estão ativas, e assim por diante. Está claro?

– Pelo que entendo, você não quer envolver Lytta Neyd nisso – respondi. – E acho que tem razão. A beldade ruiva certamente se sai muito bem nos assuntos que interessam a ela, mas possui relações demasiadamente fortes com a monarquia local para optar por uma dupla lealdade. Isso é uma coisa. Outra coisa é que você não deveria dizer a ela sobre o seu repentino desaparecimento e as intenções de não voltar. A reação pode ser violenta. Você sabe, com base na sua própria experiência, que as feiticeiras não gostam quando alguém some. Quanto ao resto, você pode contar comigo. Manterei os meus ouvidos atentos e os olhos abertos e focados naquilo que for preciso. Conheço a família real e já ouvi muitos boatos sobre ela. Belohun, que reina benignamente, conseguiu reunir uma numerosa progênie. Trocava as mulheres com bastante frequência e facilidade. Quando encontrava uma nova, a anterior despedia-se com suavidade da sua existência terrena, tomada subitamente, por uma estranha ordem do destino, por um mal que a medicina estava impotente para curar. Assim, atualmente, o rei possui quatro filhos legítimos, todos de mães diferentes, sem mencionar as suas numerosas filhas, que nem levo em conta, já que não são pretendentes ao trono. Tampouco conto os filhos bastardos. Vale, no entanto, mencionar que todos os cargos e postos importantes em Kerack estão ocupadas pelos maridos das filhas. O meu primo Ferrant constitui uma exceção. Já os filhos bastardos administram o comércio e a indústria.

Notei que o bruxo ouvia com toda a atenção. Continuei o relato:

– Os quatro filhos legítimos são, por ordem de senioridade: o primogênito, não sei o nome dele, que não pode ser mencionado na corte, pois se desentendeu com o pai e partiu sem deixar rastros, ninguém nunca mais o viu; o segundo, Elmer, é um bêbado, doente mental, mantido em isolamento, fato que seria, supostamente, segredo de estado, mas em Kerack todo mundo tem conhecimento dele. Os únicos pretendentes reais seriam Egmund e Xander, que se odeiam, e Belohun usa isso conforme os próprios interesses. Mantém os dois numa incerteza permanente. Na questão da sucessão, consegue também, de vez em quando, favorecer e iludir com promessas um dos filhos bastardos. Corre um boato de que ele havia prometido a coroa ao filho parido pela nova esposa, aquela com quem oficialmente se casará em Lammas. Eu e o primo Ferrant achamos, contudo, que são apenas promessas que o sapo velho usa para persuadir a jovem a realizar os seus desejos sexuais e que Egmund e Xander são os únicos reais herdeiros ao trono. Caso fosse preciso organizar um “coup d’état” para tomá-lo, um dos dois seria capaz de fazê-lo. Conheci-os por meio do meu primo e a impressão que eu tive é que os dois são… escorregadios como uma merda em maionese. Espero que você entenda o que quero dizer com isso.

Geralt confirmou que entendia, pois tivera a mesma impressão após a conversa com Egmund. A única diferença é que não sabia como expressá-la tão bem. Depois de afirmar isso, ficou muito pensativo. Enfim, disse:

– Voltarei em breve. E você, Jaskier, tome conta das coisas aqui e fique de olho em tudo.

– Antes de nos despedirmos, seja um bom amigo e me conte um pouco sobre a aprendiz da sua feiticeira, sobre a moça alisada. É um verdadeiro broto, uma rosa, só precisa de um pouco de carinho para desabrochar maravilhosamente. Tive a ideia de me sacrificar…

A expressão do rosto de Geralt mudou. De repente, bateu o punho contra a mesa, fazendo as canecas saltarem no ar. Sem o mínimo respeito, falou para mim:

– Mantenha as suas mãos longe de Mozaïk, poetinha! Tire-a da cabeça. Você não sabe que as aprendizes de feiticeiras são terminantemente proibidas de aceitar até os mais inocentes galanteios? Por algo desse tipo, por menos importante que seja, Coral a considerará indigna de ser sua aprendiz e a mandará de volta para a escola, o que, para uma aluna, constitui uma grande vergonha e perda de credibilidade. Ouvi falar de suicídios cometidos por causa disso. Com Coral não se brinca. Ela não tem senso de humor.

Queria aconselhá-lo a fazer cócegas com uma pena de galinha no fundo do bumbum dela. Esse tratamento fazia milagres, alegrava até as mais sisudas. Calei-me, porém, porque o conheço bem e sei que detesta quando se fala mal das suas mulheres. Mesmo dos casos de apenas uma noite. Portanto, jurei pela minha honra que riscaria da minha agenda a virtude da adepta alisada e jamais me arriscaria a cortejá-la.

– Se você está tão desesperado – disse, rejubilando-se, antes de partir –, então saiba que neste tribunal conheci uma advogada que parecia interessada. Por que você não dá uma cantada nela?

– Engraçadinho. Você acha o quê? Que devo… atacar o judiciário? Por outro lado, pensando bem, talvez não seja má ideia…