Tempo de Tempestade
Capítulo oitavo
A qualidade de uma espada de bruxo não depende apenas da
sua fabricação artesanal ou da sua eficácia. Assim como as misteriosas lâminas élficas ou gnômicas (o segredo delas se perdeu), a espada de um bruxo está conectada, por meio de um poder secreto, com a mão e o sistema sensorial daquele que a maneja. E são exatamente esses arcanos da magia que a tornam bastante eficaz no combate contra as Forças Escuras.
Pandolfo Forteguerra, Tratado sobre as armas brancas
Vou revelar a vocês um segredo sobre as espadas dos bruxos.
O suposto poder secreto atribuído a elas é uma balela, assim como a fama de serem uma arma tão excelente, presumidamente – a melhor de todas. Tudo isso é fictício e foi inventado para servir de disfarce. Soube disso de uma fonte absolutamente verídica.
Jaskier, Meio século de poesia
Avistaram de longe e imediatamente reconheceram a rocha chamada de Grifo.
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O lugar para onde rumavam estava localizado no meio do caminho entre Kerack e Cidaris, um pouco afastado de uma estrada que ligava ambas as cidades e serpenteava por entre florestas e turfeiras pedregosas. Demoraram um pouco para percorrer o caminho. Entretinham-se conversando. Jaskier primava no discurso.
– Dizem por aí que as espadas usadas pelos bruxos possuem propriedades mágicas – o poeta falou. – Salvo as invencionices acerca da impotência sexual, deve haver alguma verdade nisso. As suas espadas não são espadas comuns. O que você poderia dizer sobre isso?
Geralt acalmou a égua. Plotka, entediada pela estada prolongada nas cavalariças, de vez em quando demonstrava a vontade de galopar.
– Decerto. Nossas espadas não são espadas comuns.
Jaskier fingiu não ter percebido o deboche e comentou:
– Diz-se que o poder mágico das armas dos bruxos, letais para os monstros contra os quais vocês lutam, está no aço usado para forjá-las. Vem da própria matéria-prima, que é o minério originário dos meteoritos caídos do céu. Como isso é possível, se os meteoritos não são mágicos, mas sim um fenômeno natural descrito cientificamente? De onde provém, então, essa suposta magia?
Geralt olhou para o céu que escurecia no norte. Parecia que o tempo fechava, anunciando mais uma tempestade e o encharcamento iminente do solo. Respondeu com uma pergunta:
– Salvo engano, você estudou todas as sete artes liberais?
– Estudei, e recebi um diploma summa cum laude.
– Você assistiu às palestras ministradas pelo professor Lindenbrog sobre astronomia, uma das disciplinas que compunham o quadrivium?
– O velho Lindenbrog, conhecido como Disparate? – Jaskier riu. – Claro! Ainda o vejo coçando a bunda e passando um ponteiro sobre mapas e globos, resmungando monotonamente. Sphera Mundi, eeee, subdividitur em quatro planos elementais: terra, água, ar e fogo. A terra, junto com a água, forma o globo terrestre e está cercada por, eeee, por todos os lados, pelo ar, isto é, aer. Sobre o ar, eeee, estende-se o aether. O ar fogoso ou fogo. Sobre o fogo encontra-se o sutil espaço sideral, firmamentum da natureza esférica. Sobre ele existem erratica sydera, as estrelas errantes, e fixa sydera, as estrelas fixas…
– Não sei o que admirar mais: o seu talento de arremedar ou a sua memória – Geralt bufou. – Mas vamos voltar ao assunto que nos interessa: os meteoritos que o nosso coitado Disparate descrevia como estrelas cadentes, sydera cadens, ou algo parecido. Elas soltam-se do firmamento e caem para soterrar-se na nossa querida e velha Terra. No caminho, porém, penetram todos os planos restantes, ou seja, os planos elementais, assim como os planos paraelementais, que aparentemente também existem. Como se sabe, os elementos e paraelementos possuem uma grande energia, a fonte de toda a magia e de toda a força supernatural, e o meteorito que os penetra, absorve-a e preserva-a por inteiro. O aço fundido de um meteorito, assim como a lâmina dele forjada, contêm em si a força dos elementos, são mágicos. Toda espada é mágica. Quod erat demonstrandum. Entendeu?
– Claro que entendi.
– Então esqueça, é tudo balela.
– O quê?
– Balela, invenção. Não se encontram meteoritos debaixo de qualquer árvore. Mais da metade das espadas usadas pelos bruxos era feita de aço proveniente do minério de magnetita. Eu mesmo já usei espadas desse tipo. São tão boas quanto aquelas feitas de sideritas caídas do céu que penetram os elementos. Não há absolutamente nenhuma diferença entre elas. Mas, por favor, Jaskier, isso é confidencial. Não conte para ninguém.
– Como assim? Devo me calar? Você não pode exigir isso de mim! Qual o sentido de ter um conhecimento sem poder compartilhá-lo com os outros?
– Por favor, prefiro ser considerado uma criatura sobrenatural munida de uma arma sobrenatural. Sou contratado e remunerado como tal. A normalidade é igual à mediocridade, e a mediocridade é barateza. Por isso peço que mantenha a boca fechada. Promete?
– Tudo bem. Prometo.
•
Avistaram de longe e imediatamente a rocha chamada de Grifo.
Com um pouco de imaginação, a rocha poderia realmente despertar associações com a cabeça de um grifo fixada sobre um longo pescoço. No entanto, como Jaskier havia notado, lembrava mais o braço de um alaúde ou de outro instrumento de cordas.
Descobriram que o Grifo era um inselberg que se destacava sobre um gigantesco relevo cárstico. De acordo com as histórias evocadas por Geralt, a formação era chamada de Fortaleza Élfica por causa de seu formato bastante regular, o que sugeria que pudesse constituir ruínas de uma antiga construção que possuía muros, torres, bastiões e outros elementos. Contudo, nunca houvera ali nenhum tipo de fortaleza, élfica ou de outra proveniência, e as formas do relevo eram obra da natureza. Por sinal, uma obra impressionante.
– Lá embaixo – Jaskier apontou, erguendo-se nos estribos. – Você está vendo? Esse é o nosso destino. Ravelin.
O nome era excepcionalmente adequado. Os inselbergs demarcavam o formato incrivelmente regular de um enorme triângulo que avançava na frente da fortaleza élfica feito um baluarte. Dentro desse triângulo havia uma construção que lembrava um forte, rodeada de algo que recordava um acantonamento cercado.
Geralt lembrou-se dos boatos sobre Ravelin e sobre a pessoa que lá residia.
Saíram da estrada.
Para ultrapassar a primeira cerca, era preciso atravessar algumas entradas, todas vigiadas por sentinelas armadas até os dentes, soldados mercenários, facilmente identificados pela vestimenta multicolorida e diferenciada. Logo foram interditados pelas sentinelas da primeira guarita. Embora Jaskier invocasse imperiosamente a audiência marcada e sublinhasse com veemência as boas relações com os chefes, ordenaram que desmontassem dos cavalos e esperassem. Aguardaram um longo tempo. Geralt começou a inquietar-se, quando enfim apareceu um fortão com aparência de galeriano. Mandou que o seguissem. Logo descobriram que o fortão conduzia-os por um caminho enredado nos fundos de um complexo. Do centro dele ressoava música e vinham sons de algazarra.
Atravessaram uma pequena ponte. Logo depois dela, um homem prostrado no chão tateava com as mãos à sua volta de maneira aleatória. O seu rosto estava ensanguentado e tão inchado que os olhos quase desapareciam no meio da intumescência. Respirava com dificuldade, e cada vez que soltava o ar surgiam bolhas sangrentas no seu nariz machucado. O fortão que os guiava não deu a mínima atenção ao homem prostrado, e Geralt e Jaskier também fingiram que não viam nada. Estavam num território onde não convinha demonstrar curiosidade exagerada. Não se devia meter o nariz nos assuntos de Ravelin, pois lá, diziam, o nariz de um curioso era arrancado no mesmo lugar onde o seu dono o havia enfiado.
O fortão guiou-os pela cozinha, onde os cozinheiros trabalhavam apressados. Remexiam os caldeirões, nos quais, Geralt notou, eram cozidos caranguejos, lavagantes e lagostas. Enguias e moreias serpeavam nas cubas, mexilhões e amêijoas eram guisados nas panelas, carnes fritas estalavam sobre as enormes frigideiras. Os criados carregavam as bandejas com recipientes cheios de comida pelos corredores.
Os cômodos seguintes exalavam o cheiro de perfumes e cosméticos femininos. Diante de uma série de espelhos, havia mulheres em diferentes fases de nudez, inclusive na fase final, que se aprumavam tagarelando sem parar. Geralt e Jaskier permaneceram impassíveis e evitaram que os seus olhos vagueassem demasiadamente.
No cômodo subsequente foram revistados minuciosamente. Os homens que os inspecionaram pareciam sérios, agiam com profissionalismo e segurança. O estilete de Geralt foi confiscado. Jaskier, que nunca carregava nenhuma arma, teve o seu pente e o seu saca-rolhas apreendidos. Contudo, após uma breve análise, permitiram que ficasse com o seu alaúde. Receberam as instruções:
– Diante do venerável há cadeiras. Sentem-se nelas. Sentem-se e não se levantem até o venerável ordenar. Não interrompam quando o venerável falar. Não falem antes de o venerável autorizar. E agora entrem por esta porta.
– Venerável? – Geralt murmurou.
– Foi sacerdote – o poeta sussurrou. – Mas não se preocupe, não pegou as manhas. Os subordinados precisam dirigir-se a ele de alguma forma, e ele detesta ser chamado de chefe. Nós não precisamos nos dirigir a ele.
Ao entrarem, logo foram barrados por algo enorme como uma montanha e que fedia intensamente a almíscar.
– Salve, Mikita – Jaskier cumprimentou a montanha.
O gigante, chamado Mikita, evidentemente o guarda-costas do venerável chefe, era mestiço, resultado do cruzamento entre ogro e anão. O resultado foi um anão calvo que media mais de sete pés de altura, era totalmente desprovido de pescoço, tinha barba crespa, dentes como os de um javali e braços que alcançavam os joelhos. Era um cruzamento incomum, pois acreditava-se que as espécies possuíam genética completamente diferente e uma criatura como Mikita não podia surgir naturalmente. Inclusive foi usada uma magia excepcionalmente forte, por sinal, proibida. Corriam boatos de que muitos feiticeiros ignoravam a proibição. E Geralt tinha diante dos seus olhos a prova disso.
Sentaram-se, de acordo com o protocolo, sobre duas cadeiras de vime. Geralt olhou em volta. No canto mais distante da câmara, duas moças nuas entretinham-se sobre uma enorme chaise-longue. Um inconspícuo homem de baixa estatura, corcunda, que trajava uma vestimenta bordada com desenhos floridos e um fez com borla, observava-as enquanto alimentava um cão. Após dar a ele o último pedaço de lavagante, o homem limpou as mãos e virou-se.
– Salve, Jaskier! Seja bem-vindo, nobre senhor Geralt de Rívia – falou ao se sentar diante deles sobre algo muito parecido com um trono, embora fosse feito de vime. – O venerável Pyral Pratt, considerado, plausivelmente, o chefe do crime organizado de toda a região, parecia um comerciante de tecidos aposentado. Num piquenique de comerciantes aposentados de tecidos não chamaria a mínima atenção e seria considerado alguém do ramo, ao menos de longe. Contudo, observando Pyral Pratt de perto, era possível identificar nele algo que os comerciantes de tecidos não possuíam: uma antiga e desbotada cicatriz no osso zigomático, a marca de um corte de faca. Seus lábios finos possuíam uma desagradável e agourenta expressão. Seus olhos claros eram amarelados, inertes como os olhos de uma cobra píton.
Demorou para alguém interromper o silêncio. Em algum lugar, atrás da parede, ressoava música, ouvia-se uma algazarra.
– Bem-vindos, senhores! É um prazer vê-los! – Pyral Pratt falou, enfim. Em sua voz era possível detectar um antigo e vivo amor pelos destilados baratos de baixa qualidade.
– É um grande prazer ver particularmente você, caro trovador. – O venerável sorriu para Jaskier. – Não nos vemos desde o casamento da minha neta, que você prestigiou com a sua apresentação. E eu estava justamente pensando em você, pois, ao que parece, outra das minhas netas está preparando-se para casar. Presumo, pela nossa longa amizade, que desta vez você também aceitará o convite para cantar no casamento, não é? Não precisarei insistir tanto quanto da outra vez? Não precisarei… convencê-lo?
– Cantarei, sim! – Jaskier apressou-se em assegurar, empalidecendo levemente.
– E, hoje, suponho que veio para saber sobre o meu estado de saúde. Ora, a minha saúde vai mal pra cacete – Pratt continuou.
Jaskier e Geralt não disseram nada. O ogranão fedia a almíscar. Pyral Pratt suspirou pesadamente e disse:
– Tenho úlceras no estômago e não consigo comer. Portanto, as delícias gastronômicas já não me servem mais. Estou com problemas no fígado e fui proibido de beber. Tenho discopatia, tanto cervical como lombar, o que eliminou a caça e outros esportes radicais das minhas diversões. Os remédios e tratamentos custam uma fortuna, que antigamente costumava gastar com jogos de azar. Ora, quanto ao pau, digamos que ainda levanta, mas imaginem quanto esforço é preciso para isso! Em vez de sentir prazer, você fica entediado com o negócio… O que será que me resta, hein?
– A política?
Pyral Pratt riu com tanta intensidade que a borla do fez começou a sacudir.
– Parabéns, Jaskier. Acertou, como sempre. Sim, a política é algo adequado para mim no momento. Inicialmente, via-a de modo negativo. Tinha pensado em entrar no ramo da prostituição e investir em prostíbulos. Andei no meio dos políticos e conheci muitos deles, e aprendi que era melhor andar com as putas, pois elas ao menos têm honra e certos preceitos. Por outro lado, um bordel não é necessariamente o melhor lugar para governar. Uma prefeitura é bem melhor. E, como diz o provérbio, governar eu tenho vontade de sobra, se não o mundo, pelo menos uma pobra. Já outro ditado antigo afirma: se você não pode vencê-los, então junte-se a eles…
Interrompeu, olhou para a chaise-longue, estendendo o pescoço, e gritou:
– Não finjam, meninas! Não simulem! Mais ânimo! Humm… Sobre o que eu estava falando?
– Sobre a política.
– Pois é. Nós aqui falamos da política e você, Geralt, teve as suas famosas espadas roubadas. Será que não é por causa disso que tenho a honra de recebê-lo aqui?
– Exatamente por causa disso.
– Roubaram as espadas… – Pratt acenou com a cabeça. – Deve ser uma perda inestimável. Ora, claro, não inestimável, mas irrecuperável! Ah! Sempre disse que em Kerack só há ladrões. Todos sabem que o povo de lá espera só uma oportunidade para roubar algo que não esteja pregado. Mesmo assim, todos sempre andam com um pé de cabra, para o caso de acharem coisas cravadas.
– Suponho que a investigação esteja em andamento, não? – retomou após um momento. – Ferrant de Lettenhove está tomando providências? Mas não se enganem, senhores. Não esperem milagres da parte de Ferrant. Sem ofensas, Jaskier, mas o seu parente se sairia melhor como contador do que como investigador. Ele só quer saber de livros, códigos, parágrafos, regulamentos e das suas famosas provas. Provas e mais uma vez provas. Como naquela piada sobre a cabra e o repolho. Não conhecem? Fecharam uma vez uma cabra num estábulo junto a um pé de repolho. De manhã, o repolho sumiu e a cabra começou a soltar uma merda verde. Mas não havia provas, nem testemunhas, então a ação foi encerrada, causa finita. Não queria ser um mal profeta, bruxo Geralt, mas o caso do roubo de suas espadas pode ter um fim semelhante.
Também desta vez Geralt nada disse. Pyral Pratt esfregou o queixo com a mão cheia de anéis e falou:
– A primeira espada é feita de aço de siderita, um minério proveniente de um meteorito. É forjada em Mahakam, nas forjas dos anões. O comprimento total dela é de quarenta polegadas e meia. A lâmina tem vinte e sete e um quarto de polegadas de comprimento. Maravilhosamente bem balanceada. O peso da lâmina é equilibrado de maneira precisa com o peso da empunhadura. O peso total da arma com certeza mal passa de um quilo. A empunhadura e o guarda-mão têm elaboração simples, mas elegante. Já a outra espada, de comprimento e peso similares, é feita de prata. Parcialmente, claro. Possui uma trava de aço chapeada de prata. Os gumes também são de aço, pois a prata pura é mole demais para afiá-la bem. No guarda-mão e em toda a extensão da lâmina há símbolos rúnicos e glifos, que para meus peritos é impossível decifrar. No entanto, sem dúvida são mágicos.
– Uma descrição precisa. – O rosto de Geralt manteve-se impassível. – Como se você as tivesse visto com os próprios olhos.
– Eu as vi. Foram trazidas até mim e propuseram que eu as comprasse. O intermediário que representava os negócios do atual dono, uma pessoa de reputação impecável, que conheço pessoalmente, garantia que as espadas haviam sido adquiridas legalmente e que provinham de Fen Carn, a antiga necrópole em Sodden. Em Fen Carn foram feitas escavações e encontrados inúmeros tesouros e artefatos. Portanto não havia motivos para duvidar. No entanto, eu tinha minhas dúvidas e não comprei as espadas. Você está me ouvindo, bruxo?
– Sou todo ouvidos. Espero a conclusão e os detalhes.
– A conclusão é que se trata de uma troca de favores. Os detalhes têm um custo. A informação traz uma etiqueta com preço.
– Poxa, vim aqui por causa da nossa longa amizade, com um amigo que precisa de ajuda… – Jaskier disse irritado.
– Negócio é negócio – Pyral Pratt interrompeu-o. – Já disse que a informação que possuo tem um preço. Bruxo de Rívia, se você quiser saber algo sobre o destino das suas espadas, precisa pagar.
– Qual é o preço na etiqueta?
Pratt tirou de baixo da vestimenta uma grande moeda de ouro e entregou-a ao ogranão, que sem esforço quebrou-a ao meio com os dedos, como se fosse uma bolacha. Geralt meneou a cabeça.
– Uma banalidade, parece um teatrinho de feira – falou arrastando as sílabas. – Você me entregará a metade da moeda e um dia, talvez daqui a alguns anos, aparecerá alguém com a outra metade e ordenará que cumpra a sua vontade incondicionalmente. Eu me nego. Se for esse o preço, então não chegaremos a um acordo. Causa finita. Vamos embora, Jaskier.
– Você não quer recuperar as espadas?
– Não tanto.
– Já havia percebido isso. Mas não custou nada tentar. Vou fazer outra oferta. Desta vez, uma oferta irrefutável.
– Vamos, Jaskier.
– Você sairá daqui, mas por uma outra porta. – Pratt apontou com um movimento da cabeça. – Aquela, e só depois de tirar a roupa. Fique apenas de ceroulas.
Geralt achava que controlava a expressão do seu rosto. Estava enganado, pois de repente o ogranão rugiu em alerta e deu um passo na direção dele, levantando os braços e fedendo ainda mais intensamente.
– Vocês devem estar brincando – Jaskier disse em voz alta, junto do bruxo, sempre atrevido e insolente. – Você está brincando conosco, Pyral. Vamos nos despedir e sair agora mesmo, pela mesma porta pela qual entramos. Não esqueça quem eu sou! Estou saindo!
– Não teria tanta certeza… – Pyral Pratt meneou a cabeça. – Já dissemos uma vez que você não é exatamente sábio.
Para enfatizar a importância das palavras do chefe, o ogranão mostrou para os dois um punho fechado do tamanho de uma melancia. Geralt ficou em silêncio. Havia algum tempo observava o gigante, tentando encontrar nele alguma parte sensível a chutes, pois parecia que uma pancadaria seria inevitável.
– Tudo bem. – Pratt acalmou o guarda-costas com um gesto. – Cederei um pouco, demonstrarei boa vontade e o desejo de alcançar um consenso. Hoje reuniram-se aqui os representantes das elites locais da indústria, do comércio, banqueiros, políticos, nobres, clero, inclusive um príncipe que veio para cá incógnito. Prometi a todos um espetáculo inédito. Tenho certeza de que nunca antes haviam visto um bruxo de ceroulas. Mas tudo bem, vamos fazer uma concessão: você sairá pelado só da cintura para cima, e imediatamente receberá as informações prometidas. Além disso, levará um bônus…
Pyral Pratt ergueu da mesa uma resma de papel.
– Um bônus de duzentas coroas de Novigrad! Para o seu fundo de aposentadoria, bruxo. Aqui está o cheque nominal, que pode ser descontado em qualquer filial do banco dos Giancardi. O que você acha disso?
– Por que você pergunta? – Geralt semicerrou os olhos. – Ao que parece, você já deu a entender que não posso recusar a proposta.
– Você tem razão. Eu já havia falado que é uma oferta irrecusável. Porém, acho que é vantajosa para as duas partes.
– Jaskier, pegue o cheque. – Geralt desabotoou o casaco e tirou-o. – Fale, Pratt.
– Não faça isso. – Jaskier empalideceu ainda mais. – Ora, você sabe o que o espera atrás dessa porta?
– Fale, Pratt.
– Como já havia dito – o venerável acomodou-se em seu trono –, recusei ao intermediário a compra das espadas. Mas, como eu já havia dito, ele é uma pessoa de confiança que conheço bem, sugeri outra maneira de fazer o negócio. Aconselhei que o atual dono pusesse as espadas à venda em leilão na casa de leilões dos irmãos Borsodi em Novigrad. É o maior e mais renomado leilão de coleções. Amadores de raridades, antiguidades, obras de arte raras, singularidades e todos os tipos de particularidades do mundo inteiro vão para lá. Para adquirir algo fenomenal para a sua coleção, essas pessoas extravagantes leiloam como desvairadas. Vários objetos exóticos e esquisitos são vendidos na casa dos Borsodi, muitas vezes por preços exorbitantes. É impossível vender, em qualquer outro lugar, por um preço mais alto.
– Continue, Pratt, sou todo ouvidos. – O bruxo tirou a camisa. – Os leilões na casa dos Borsodi acontecem quatro vezes ao ano. O próximo ocorrerá no dia 15 de julho. O ladrão infalivelmente aparecerá lá com as suas espadas. Com um pouco de sorte, você conseguirá recuperá-las antes que sejam postas à venda.
– Só isso?
– É muita informação.
– E a identidade do ladrão? Ou do intermediário?
– Não conheço a identidade do ladrão – Pratt interrompeu – e não revelarei a do intermediário. Trata-se de um negócio, existem direitos, regras e costumes igualmente importantes. Poria a minha reputação em dúvida. Já lhe revelei o suficiente, muito além, aliás, daquilo que exijo de você. Mikita, leve-o para a arena. E você, Jaskier, venha comigo. Nós também assistiremos. Bruxo, o que você está esperando?
– Pelo que percebi, devo sair desarmado? Não só pelado da cintura para cima, mas também desprovido de um objeto de defesa?
– Prometi aos convidados algo inédito, e todos já viram um bruxo com uma arma – Pratt explicou devagar, como se falasse com uma criança.
– Certo.
Foi levado à arena e deixado no meio da areia, dentro de um círculo delimitado por estacas encravadas no solo, imerso na trêmula luz dos lampiões suspensos em fustes de ferro. Ouvia gritos, felicitações, aplausos, vaias. Via rostos da arena, lábios abertos, olhos excitados.
Na sua frente, no lado oposto, algo se mexeu e saltou.
Geralt mal conseguiu juntar os antebraços no Sinal de Heliotrópio. O feitiço atingiu a besta que atacava, rebateu, afastou-a. A plateia gritou em uníssono.
O lagarto bípede lembrava um dragão, mas era um pouco menor, do tamanho de um grande dogue alemão. Tinha, no entanto, a cabeça muito maior do que a de um dragão, a boca com uma dentição muito mais abundante, e a cauda muito mais longa, com a ponta fina como um chicote. O lagarto agitava-a energicamente, varrendo a areia, fustigando as estacas. Abaixou a cabeça e saltou novamente na direção do bruxo.
Geralt estava pronto. Acertou-o com o Sinal de Aard e pulou para trás, mas o lagarto conseguiu fustigá-lo com a ponta da cauda. A plateia gritou novamente. As mulheres guincharam. O bruxo sentiu algo grosso como uma linguiça crescer e inchar em seu ombro nu. Entendeu por que ordenaram que se despisse. Reconheceu também o adversário: era um vigilossauro, um lagarto criado de modo especial e transformado através de magia, usado para vigiar e proteger. A situação não parecia muito animadora. O lagarto tratava a arena como um território que estava sob sua proteção. Já Geralt era um intruso que precisava ser imobilizado ou, caso fosse necessário, eliminado.
O vigilossauro circundou a arena, esfregando-se nas estacas e sibilando raivosamente. Atacou rápido, sem dar tempo ao bruxo de empregar o Sinal. Geralt saltou com agilidade para trás, afastando-se do alcance da boca cheia de dentes, mas não conseguiu evitar o fustigo da cauda. Sentiu que junto do primeiro rolo começava a inchar outro.
O Sinal de Heliotrópio bloqueou novamente o ataque do vigilossauro. O animal agitava a cauda, que silvava no ar. Geralt captou, com o ouvido, uma mudança no silvo. Ouviu-o um segundo antes que a ponta da cauda o fustigasse transversalmente pelas costas. A dor cegou-o e o sangue jorrou pelas suas costas. A plateia fervia.
Os sinais enfraqueciam. O lagarto cercava-o com tanta rapidez que o bruxo mal conseguia acompanhá-lo. Conseguiu esquivar-se de dois açoites da cauda, mas o terceiro atingiu-o outra vez na escápula, e outra vez com a parte afiada. O sangue jorrava abundantemente pelas suas costas.
A plateia clamava. Os espectadores gritavam e pulavam. Um deles, para enxergar melhor, inclinou-se sobre o balaústre, apoiando-se sobre o fuste de ferro com o lampião. O fuste rompeu-se, desabou na arena com o lampião e encravou-se na areia. O lampião caiu sobre a cabeça do vigilossauro, que foi tomado pelo fogo. O lagarto conseguiu livrar-se dele, lançando uma cascata de faíscas em volta, e sibilou, esfregando a cabeça nas estacas da arena. Nesse instante, Geralt teve uma ideia. Puxou o fuste, arrancou-o com força da areia, galgou após um curto arranque e encravou o ferro com toda a força na cabeça do lagarto. O fuste perfurou-a. O vigilossauro sacudia-se, agitando as patas dianteiras de modo desajeitado, tentando livrar-se do ferro que havia perfurado o seu cérebro. Por fim, bateu com força contra as estacas em saltos descoordenados e encravou os dentes na madeira. Durante algum tempo, em convulsão, sacudiu-se, cravou as garras na areia e fustigou com a cauda. Finalmente, ficou imóvel.
As paredes vibravam com as aclamações e os aplausos.
O bruxo desceu da arena por uma escada. Os espectadores, entusiasmados, cercaram-no de todos os lados. Alguém deu um tapa no seu ombro inchado, e Geralt segurou-se com dificuldade para não lhe dar um soco nos dentes. Uma jovem beijou a sua bochecha. Outra, ainda mais jovem, enxugou o sangue das suas costas com um lenço de cambraia, e logo em seguida abriu-o e exibiu-o às companheiras. Outra, mais velha, tirou um colar do pescoço enrugado e tentou entregá-lo ao bruxo. A expressão do rosto dele fez que ela recuasse e se misturasse com a multidão.
O cheiro de almíscar fez-se sentir e o ogranão Mikita emergiu do meio da turba, abrindo passagem, como um navio por entre os sargaços. Protegeu o bruxo com o seu corpo e retirou-o de lá.
Foi chamado um médico que atendeu Geralt e suturou as feridas. Jaskier estava muito pálido, e Pyral Pratt mantinha-se calmo, como se nada tivesse acontecido. Contudo, a expressão no rosto do bruxo mais uma vez devia ser muito enfática, pois Pratt apressou-se a prestar esclarecimentos, dizendo:
– Por sinal, aquele fuste, aparado e apontado com antecedência, caiu na arena por ordem minha.
– Valeu por se adiantar tanto.
– Os convidados ficaram encantados. Até o prefeito Coppenrath estava muito contente, até radiante, e é muito difícil satisfazer o filho da puta, sempre reclama de tudo, tenebroso como um bordel na segunda-feira de manhã. Ah, já tenho o cargo de vereador na mão. Quem sabe até consiga um cargo mais alto, se… Geralt, você por acaso não gostaria de se apresentar, semana que vem, num espetáculo parecido?
– Só se, em vez do vigilossauro, você mesmo, Pratt, entrar na arena – o bruxo disse, remexendo raivosamente o ombro dolorido.
– Ha, ha, engraçadinho. Jaskier, você viu como ele é cheio de gracinhas?
– Vi – o poeta confirmou, olhando para as costas de Geralt e cerrando os dentes. – Só que não foi uma piada, ele falou com a maior seriedade. Eu também, com a mesma seriedade, comunico-lhe que não honrarei o casamento da sua neta com a minha apresentação. Depois de tratar Geralt dessa forma, você pode se esquecer de mim, inclusive em outras ocasiões, até mesmo em batismos e enterros. No seu próprio enterro também.
Pyral Pratt olhou para ele, e os seus olhos de réptil fulguraram. Falou, arrastando as sílabas:
– Você não está me respeitando, trovador. Mais uma vez, você não está me respeitando. Você está pedindo que eu lhe dê uma lição. Uma lição…
Geralt aproximou-se e ficou de frente para ele. Mikita arfou, levantou o punho e exalou um odor de almíscar. Com um gesto, Pyral Pratt ordenou que mantivesse a calma.
– Você está perdendo credibilidade, Pratt – o bruxo falou devagar. – Fizemos um acordo clássico, seguindo as regras e os costumes de igual importância. Os seus convidados estão satisfeitos com o espetáculo. Você próprio ganhou prestígio e tem a perspectiva de ocupar um cargo no conselho municipal. Eu consegui as informações que me eram necessárias. Fizemos uma troca. As duas partes estão satisfeitas, portanto devemos nos separar sem ressentimento ou raiva. Em vez disso, você está ameaçando. Está perdendo credibilidade. Vamos embora, Jaskier.
Pyral Pratt empalideceu levemente, virou-se de costas para eles e falou vagarosamente:
– Eu tinha pensado em convidá-los a jantar comigo. Mas parece que estão com pressa. Então, passem bem. E fiquem satisfeitos por eu permitir que saiam de Ravelin impunemente, pois costumo castigar a falta de respeito. No entanto, não quero detê-los.
– Com toda a razão.
Pratt virou-se.
– O quê?
Geralt mirou em seus olhos.
– Você não é exatamente sábio, embora goste de pensar o contrário. Contudo, você é esperto demais para tentar me deter.
•
•
Tinham acabado de passar o relevo cárstico e chegado aos primeiros álamos, quando Geralt parou o cavalo e ficou escutando.
– Estão nos seguindo.
– Droga! – Jaskier bateu os dentes. – Quem? Os calhordas de Pratt?
– Não importa quem. Corra o mais rápido possível até Kerack. Peça refúgio ao seu primo. Logo de manhã, leve o cheque ao banco. Depois nos encontraremos na taberna O Caranguejo e Belona.
– E você?
– Não se preocupe comigo.
– Geralt…
– Pare de falar e esporeie o cavalo. Corra, já!
Jaskier obedeceu. Inclinou-se na sela e forçou o cavalo a galopar. Geralt recuou e esperou pacientemente.
Cavaleiros emergiram da escuridão. Eram seis.
– Bruxo Geralt?
– É ele em pessoa.
– Você irá conosco – o mais próximo dele rouquejou –, mas sem fazer asneiras, por favor.
– Solte as rédeas, caso contrário vou machucá-lo.
– Sem asneiras! – O cavaleiro recuou a mão. – E sem fazer uso de força. Nós representamos a lei e a ordem. Não somos bandidos. Estamos aqui por ordem do príncipe.
– Que príncipe?
– Logo você saberá. Siga-nos.
Seguiram. Um príncipe, Geralt lembrou. De acordo com as informações dadas por Pratt, um príncipe permanecia incógnito em Ravelin. As coisas não estavam indo bem. Os contatos com os príncipes raramente eram agradáveis e quase nunca terminavam bem.
Não andaram muito, apenas até uma taberna na encruzilhada que cheirava a fumaça e resplandecia com as luzes das janelas. Entraram na sala quase vazia. Apenas alguns comerciantes encontravam-se nela, consumindo um jantar tardio. A entrada da recâmara era vigiada por dois cavaleiros armados que trajavam capas azuis-celestes, com a mesma coloração e o mesmo corte daquelas vestidas pela escolta de Geralt. Adentraram o aposento.
– Vossa Alteza Real…
– Saiam. E você, bruxo, sente-se.
O homem atrás da mesa trajava uma capa parecida com as capas do seu exército, mas adornada com um bordado mais suntuoso. O rosto estava coberto com um capuz, o que era desnecessário, pois a lamparina sobre a mesa iluminava apenas Geralt, o misterioso príncipe escondia-se na sombra. Ele disse:
– Eu o vi na arena de Pratt. A apresentação foi realmente impressionante. O salto e o golpe aplicado de cima, reforçado com todo o peso do corpo… O ferro, embora fosse um fuste qualquer, perfurou a cabeça do dragão como se penetrasse a manteiga. Acho que se usasse uma rogatina de combate ou uma lança, por exemplo, passariam até pela cota de malha, ou chapa… O que você acha?
– Já está tarde. Não dá para pensar quando se está lutando contra o sono.
O homem na sombra bufou.
– Não vamos demorar, então. Vamos direto ao assunto. Precisarei da sua ajuda, bruxo, para executar um trabalho de bruxo. E, por mais estranho que possa parecer, você também precisará da minha ajuda. Talvez até mais do que eu da sua. Sou o príncipe Xander, duque de Kerack. Desejo veementemente virar Xander I, o rei de Kerack. No momento, para minha tristeza e prejuízo do país, o meu pai, Belohun, é o rei de Kerack. O velho ainda está com plenas forças, pode reinar, pfft, por mais uns vinte anos. Não tenho tempo nem vontade de esperar tanto tempo. Mesmo se eu esperasse, não tenho nem garantia de que o sucederei, pois o velho pode a qualquer momento indicar outro sucessor, já que é ampla a sua coleção de herdeiros. E está prestes a produzir mais um. Planejou as bodas reais para a festa de Lammas, com toda a pompa e opulência que este país não consegue sustentar economicamente. Ele, tão pão-duro que vai ao parque para evacuar, para não gastar o esmalte do penico, esbanjará um monte de ouro com o banquete matrimonial e arruinará o tesouro. Serei melhor rei. O problema é que quero tornar-me rei logo, o mais rápido possível, e para isso preciso da sua ajuda.
– Entre os serviços que presto não se incluem golpes palacianos, nem regicídio, ao qual deve estar se referindo.
– Quero ser rei. Para isso, meu pai precisa deixar de ser e meus irmãos devem ser eliminados da linha de sucessão.
– Regicídio e fratricídio. Não, Vossa Alteza, lamento, mas não posso aceitar.
– Mentira! – o príncipe rosnou na sombra. – Você não lamenta. Ainda não. Mas prometo que lamentará.
– Vossa Alteza precisa entender que não tem nenhum sentido me ameaçar de morte.
– E quem aqui está falando em morte? Sou príncipe e duque, não um assassino. Estou falando de escolha: ou optará por receber a minha graça ou pela sua desgraça. Se fizer aquilo que eu ordenar, eu lhe concederei a minha graça. E acredite, você precisa muito dela, sobretudo agora, quando aguarda o resultado de um processo e uma sentença por malversações financeiras. Tudo indica que você passará os próximos anos remando numa galera. Pelo que dá para perceber, você pensou que já tinha se safado e o seu processo já havia sido proscrito. Achou que a bruxa Neyd, que por capricho permite que você transe com ela, retiraria a acusação e tudo se resolveria? Você está enganado. Albert Smulka, o zupano de Ansegis, prestou um testemunho que o compromete.
– Esse testemunho é falso.
– Será difícil comprovar isso.
– É preciso comprovar a culpa, e não a inocência.
– Boa piada. Muito engraçada, por sinal. Mas, se eu fosse você, não riria. Olhe para isto. São documentos – o príncipe jogou um maço de papéis sobre a mesa. – Depoimentos autenticados, relatos de testemunhas. A localidade Cizmar, um bruxo contratado, uma leucrota morta. Setenta coroas na fatura, mas na realidade foram pagas cinquenta e cinco. A metade da quantia que sobrou foi dividida com um funcionário. O vilarejo Sotonin, uma aranha gigante. Assassinada, segundo o recibo, por noventa. Na verdade, por sessenta e cinco, de acordo com o depoimento do alcaide. Uma hárpia morta em Tiberghien, foram faturadas cem coroas. Na realidade, foram pagas setenta. E as suas obras e fraudes anteriores: o vampiro do castelo Petrelsteyn, que nunca existiu, mas custou ao burgrave exatamente mil orens. O lobisomem de Guaamez, supostamente desencantado, o feitiço de lobisomem desfeito, um caso muito suspeito, pois o preço oferecido para um desencantamento desse tipo parece muito baixo. Um equinope, ou, antes, uma criatura que você levou até o alcaide de Martindelcampo e chamou de equinope. Os ghouls do cemitério situado nos arredores da localidade Zgraggen que custaram oitenta coroas ao município, embora ninguém tenha visto os cadáveres porque foram devorados por, ha, ha, outros ghouls. O que você acha disso, bruxo? Essas são as provas.
– O duque está enganado – Geralt contestou com toda a calma. – Não são provas. São calúnias fabricadas e, para piorar, sem habilidade. Nunca fui contratado em Tiberghien. Nunca ouvi falar do vilarejo Sotonin. Portanto, todos os recibos referentes a esses lugares são falsificações e não será difícil comprovar isso. Quanto aos ghouls assassinados por mim em Zgraggen, eles foram realmente devorados por, ha, ha, outros ghouls, pois esse é, hã…, o costume dos ghouls. Desde então, os corpos dos mortos sepultados naquele cemitério se decompõem tranquilamente, voltam ao pó, pois os ghouls que ainda permaneciam lá foram embora. Além do mais, não tenho a mínima vontade de comentar os outros disparates contidos nesses papéis.
– Com base nesses papéis será movido um longo processo – disse o príncipe pondo a mão sobre os documentos. – Será que as provas resultarão verdadeiras? Quem pode saber o que acontecerá? Que sentença será, enfim, proferida? E a quem isso interessa? Nada disso tem a menor importância. O importante é o fedor que se espalhará e que o seguirá pelo resto dos seus dias. Algumas pessoas tinham nojo de você, mas o toleravam por obrigação, como um mal menor, como um assassino de monstros que constituíam uma ameaça para elas. Outras pessoas detestavam você, porque é um mutante. Sentiam aversão, abominavam um ser desumano. Outras ainda morriam de medo de você e o odiavam pelo medo que sentiam. Tudo isso será esquecido. A fama de assassino hábil e a reputação de bruxo implacável se dissiparão como a penugem levada pelo vento. A aversão e o medo serão esquecidos. Todos lembrarão de você como um ladrão mesquinho e charlatão. Aquele que ontem tinha medo de você e de seus encantamentos, que desviava o olhar, cuspia ou apertava os amuletos ao vê-lo, amanhã cairá na gargalhada e cutucará o companheiro com o cotovelo. “Olha só, lá vai o bruxo Geralt, aquele ignóbil trapaceiro e enganador!” Se você não aceitar a tarefa da qual estou incumbindo-o, eu o destruirei, bruxo, acabarei com a sua reputação. Só não farei isso se você se comprometer a me prestar o serviço. Decida: sim ou não?
– Não.
– Não pense que as relações com Ferrant de Lettenhove ou a feiticeira ruiva, a sua amante, ajudarão você. O promotor de justiça não prejudicará a própria carreia e o Capítulo proibirá a bruxa de se envolver num caso criminal. Ninguém o ajudará quando a máquina da justiça enquadrá-lo. Ordeno que você decida: sim ou não?
– Não. É o meu “não” final, Vossa Alteza Real. E esse homem escondido na recâmara já pode sair daí.
O príncipe, para o espanto de Geralt, caiu na gargalhada e bateu a palma da mão contra a mesa. As portas estalaram e uma pessoa conhecida, que estava na penumbra, surgiu da recâmara adjunta. O príncipe falou:
– Você ganhou a aposta, Ferrant! Amanhã receberá o prêmio pelas mãos do meu secretário.
– Agradeço a Vossa Alteza Real – Ferrant de Lettenhove respondeu o promotor de justiça real, curvando-se ligeiramente –, mas fiz a aposta apenas simbolicamente, para enfatizar a minha profunda convicção quanto às minhas razões. Não pensei, de forma alguma, no dinheiro…
– O dinheiro que você ganhou – interrompeu o príncipe – para mim também é apenas um símbolo, igual ao timbre da casa da moeda de Novigrad e ao perfil do atual hierarca nele gravados. Saiba, aliás, saibam vocês dois que eu também ganhei. Recuperei algo que considerava perdido para sempre: a fé nas pessoas. Geralt de Rívia, digo-lhe que Ferrant estava absolutamente certo da sua reação. Eu, no entanto, confesso que o considerava ingênuo, estava convencido de que você sucumbiria.
– Todos ganharam alguma coisa – Geralt afirmou mal-humorado. – E eu?
– Você também – o príncipe ficou sério. – Diga-lhe, Ferrant, explique-lhe qual era o objetivo.
– A Sua Alteza Real, o conde Egmund, aqui presente, por um momento procurou passar por cima de Xander, o seu irmão mais novo, e também, simbolicamente, por cima de seus outros irmãos que têm pretensão ao trono. O príncipe suspeitava que Xander ou outro irmão dele, tendo você por perto, tentariam usá-lo para conquistar o trono. Decidimos, então, fazer esta encenação. E agora sabemos que se realmente algo assim acontecesse… se alguém realmente lhe fizesse uma proposta indecente, você não se deixaria corromper em troca das graças concedidas pelos condes e não ficaria com medo das ameaças ou da chantagem.
– Entendo – o bruxo acenou com a cabeça. – E expresso a minha admiração pelo seu talento. O conde atuou muito bem. Não percebi nenhuma encenação naquilo que falou sobre mim, nem na opinião que proferiu sobre mim. Senti apenas sinceridade.
– A encenação tinha o seu objetivo – Egmund interrompeu o silêncio incômodo. – Alcancei-o e nem me passa pela cabeça prestar-lhe esclarecimentos. Você também terá lucros financeiros com isso. Realmente planejo contratá-lo e remunerá-lo com generosidade. Explique a ele, Ferrant.
– O príncipe Egmund teme um atentado à vida do seu pai, o rei Belohun, que pode acontecer durante as bodas reais planejadas para a festa de Lammas – disse o promotor de justiça. – O príncipe ficaria mais tranquilo se alguém como você, bruxo, se encarregasse… da segurança do rei. Ora, não interrompa, por favor. Sabemos que os bruxos não são seguranças ou guarda-costas, que a sua razão de ser é a proteção dos seres humanos das ameaças por parte dos monstros mágicos, sobrenaturais e não naturais…
– Em teoria, sim, e segundo os livros – o príncipe interrompeu com impaciência. – Na prática, nem sempre foi assim. Os bruxos eram contratados para proteger caravanas que atravessavam ermos e florestas selvagens. No entanto, em algumas circunstâncias, em vez de sofrerem ataques vindos dos monstros, os comerciantes eram assaltados por simples bandoleiros. Contudo, o papel dos bruxos não era o de acabar com eles. Tenho meus motivos para temer que, durante as bodas reais, possa acontecer um ataque de… basiliscos. Você se encarregará da missão de defender o rei dos basiliscos?
– Depende.
– Do quê?
– Quero saber se a encenação já acabou e se ainda estou sendo tratado como objeto de mais uma provocação da parte de, por exemplo, mais um dos irmãos. Presumo que o talento de atuar não é algo raro na família.
Ferrant irritou-se. Egmund bateu com o punho contra a mesa e rosnou:
– Não force a barra! E não extrapole! Perguntei se você se encarregaria da tarefa. Responda!
– Poderia me encarregar da defesa do rei contra os hipotéticos basiliscos – Geralt disse, acenando com a cabeça. – Mas, infelizmente, minhas espadas foram roubadas em Kerack. O serviço real ainda não conseguiu achar nenhuma pista que leve ao ladrão, e parece que não está se esforçando muito para isso. Sem as espadas não conseguirei defender ninguém, portanto tenho razões concretas para recusar.
– Se for apenas uma questão das espadas, então não haverá nenhum problema. Nós as recuperaremos, não é, promotor?
– Com certeza!
– Está vendo? O promotor de justiça real confirma incondicionalmente. Qual a sua decisão, então?
– Primeiro, obrigatoriamente, preciso recuperar as espadas.
– Você é um indivíduo muito teimoso. Mas tudo bem. Repito que você será pago pelo seu serviço e garanto que a remuneração será generosa. Quanto a outras vantagens, terá algumas delas de imediato, de certo modo com antecipação, como prova da minha boa vontade. Você pode considerar prescrito o seu processo no tribunal. Contudo, as formalidades precisam ser cumpridas, e a burocracia não sabe o que é pressa, mas você já pode se considerar uma pessoa livre de suspeitas e com plena liberdade de locomoção.
– Estou muito agradecido. E os testemunhos? E as faturas? A leucrota de Cizmar, o lobisomen de Guaamez? E os documentos? Aqueles que Vossa Alteza usou como… objetos do cenário?
– Os documentos por enquanto ficarão comigo – Egmund falou, olhando-o nos olhos. – Num lugar seguro, absolutamente seguro.
•
Quando voltou, o sino do rei Belohun acabava de anunciar a meia-noite.
Coral manteve-se fria e calma ao ver as costas de Geralt. Conseguiu se controlar e não alterou a voz… por pouco não alterou a voz.
– Quem fez isso com você?
– Um vigilossauro, um tipo de lagarto…
– Foi o lagarto que suturou você também? Você deixou que um lagarto fizesse isso?
– Quem me suturou foi um médico. E o lagarto…
– Que se dane o lagarto! Mozaïk! Traga um bisturi, uma tesoura e uma pinça! Uma agulha e categute! O elixir Pulchellum! E a decocção de babosa! Unguentum ortolani! Um tampão e um curativo esterilizado. E prepare uma compressa de mel e mostarda branca. Ande, menina!
Mozaïk arrumou tudo com uma rapidez digna de admiração. Lytta iniciou o procedimento. O bruxo permaneceu sentado, sofrendo em silêncio. Ao dar os pontos, a feiticeira falou, arrastando as sílabas:
– Os médicos que não têm o mínimo conhecimento sobre magia deveriam ser proibidos de atuar na área. Até poderiam lecionar nas universidades ou suturar cadáveres após as necropsias. Mas deveriam ser proibidos de ter contato com pacientes vivos. Contudo, é muito provável que eu não chegue a testemunhar isso, as coisas estão indo na direção contrária.
– Não é só a magia que cura – Geralt arriscou uma opinião. – Para curar é preciso alguém apto a fazê-lo. Há pouquíssimos magos curandeiros especializados. Já os feiticeiros comuns não querem se dedicar a isso, não têm tempo ou acham que não vale a pena.
– E têm razão. As consequências da superpopulação podem ser fatais. O que é isso, esse objeto com o qual você está brincando?
– O vigilossauro estava marcado com ele. Estava permanentemente preso à sua pele.
– Você arrancou isso como um troféu de vencedor?
– Arranquei para mostrar a você.
Coral examinou a placa oval de latão do tamanho da mão de uma criança e os símbolos gravados nela. Aplicando nas costas de Geralt a compressa de mel e mostarda branca, falou:
– Uma interessante coincidência, tendo em vista o fato de que você planeja viajar em breve para aqueles lados.
– Viajar? É verdade, já havia me esquecido dos seus confrades e dos planos deles para mim. Será que os planos se concretizaram?
– Foi exatamente o que aconteceu. Recebi uma mensagem. Você foi conclamado a ir até o castelo Rissberg.
– Fui conclamado… Que emocionante! A ir até o castelo Rissberg, a sede do famoso Ortolan. Presumo que não posso recusar atender à solicitação.
– Eu o aconselharia a não fazer isso. Pedem que você vá para lá com urgência. Considerando os seus ferimentos, quando você acha que poderá partir?
– Considerando os ferimentos… é você que precisa me dizer, médica.
– Direi mais tarde… E agora… já que você se ausentará por algum tempo, sentirei saudades suas… Como você está? Será que você poderia…? É tudo, Mozaïk. Volte para o seu aposento e não nos perturbe. Que sorrisinho é esse, moça? Você quer que eu o congele permanentemente em seus lábios?