Tiranos
Mao Tsé-Tung
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Mao não cede, porém, a qualquer debilidade de tipo libertário em 1928, época em que aplica impiedosamente as diretrizes do Comitê Central de Hunan, partindo do reduto montanhês em que se encastelou para realizar incursões terroristas contra os camponeses ricos, massacrando-os, devastando casas e fazendas, impondo contribuições até mesmo aos pequenos agricultores e usando os mesmos métodos na cidade, onde desapropria inúmeros comerciantes e sequestra fábricas, entregando-as à gestão dos operários. A consequência é que diversos empresários decidem, em reação, "colocar a faixa branca", ou seja, alinhar-se ao Kuomintang, sem que o partido faça, contudo, qualquer censura a Mao, afirmando, ao contrário, que "se queimou e se incendiou bem pouco", com a costumeira alternância entre prudência e extremismo, de que o futuro Napoleão chinês, porém, não partilha realmente, cada vez mais convencido de que a revolução avança na ponta das baionetas, com a condição de que o exército popular seja usado no âmbito de uma estratégia particular, a da tática de guerrilha. A esta altura ele já elaborara a este respeito uma teoria própria baseada no princípio da "concentração de forças", que é algo mais que um expediente tático e é imposta pela inferioridade numérica e estrutural dos grupos revolucionários em relação aos inimigos. A teoria representa uma mescla de tradição e modernidade, no sentido de que faz referência a um escritor clássico em temas militares, Sun Tzu, que viveu quinhentos anos antes de Cristo, e cuja ideia fundamental é de que "a vitória só pode ser conquistada concentrando em todas as batalhas que se sucedem uma parte relativamente grande das próprias forças contra uma parte relativamente pequena das do inimigo". Em termos mais simples, Mao dirá que os chefes do Exército Vermelho chinês se servem de poucos para dominar a muitos no plano político geral, ao passo que no campo de batalha procuram servir-se de muitos para vencer poucos.
Este imaginoso modo de descrever um fenômeno tão concreto como a guerra apresenta duas vantagens nada desprezíveis: pode traduzir-se em um slogan de fácil compreensão até para o soldado mais ignorante e, ao mesmo tempo, seduz a fantasia dos intelectuais estrangeiros, ganhando-os para a causa do comunismo, principalmente naquela variante especial e inconfundível que será o maoismo. Em suma, a famosa tática de Sun Tzu se resume na canonização da surpresa como a rainha das armas de guerra, e, se o Napoleão chinês a torna algo próprio, é porque ele julga que "toda a condução da guerra se baseia no engano", na arte da astúcia e do segredo. "Hábil no ataque é o general de quem o inimigo não sabe o que defender, e hábil na defesa aquele de quem o inimigo não sabe o que atacar." É, em síntese, uma tática de guerra que parece recomendável, sobretudo para a tática de guerrilha, embora naquele momento não lhe seja dado ainda o devido valor por parte dos dirigentes do PCC e deva ter parecido totalmente incompreensível aos soviéticos, cuja ignorância em relação à realidade asiática é pelo menos igual à que os americanos demonstrariam no Vietnã. "A revolução chinesa", comentará um eminente líder do PCC em 1930, "tem tantas peculiaridades que a Internacional tem grande dificuldade em compreendê-la, aliás, na realidade não a compreende, e por isso não pode orientar efetivamente o Partido Comunista chinês". Sem dúvida os missi dominici* de Stalin ficariam escandalizados se pudessem assistir à conferência em que Mao explica a seus soldados a importância de uma "base vermelha", isto é, de um reduto fortificado e totalmente controlado do qual partir para desfechar ataques de surpresa, comparando esta base com a importância "que têm as nádegas para qualquer um de nós," já que sem nádegas não poderíamos "nem descansar nem recomeçar", e estaríamos obrigados a correr "até a exaustão". O realismo com que o Napoleão chinês fala e decide se confirma neste período também pela flexibilidade com que enfrenta o problema da reforma agrária, deixando de lado a ideia de coletivizar até as terras dos camponeses pobres, sem renunciar de todo à perspectiva revolucionária.
17 Missi dominici (literalmente, "enviados do senhor") —
Delegados dos soberanos franceses encarregados de fiscalizar as autoridades locais e ouvir as queixas de seus administrados. Criados por Carlos Magno, eles andavam sempre em dupla e foram extintos no fina) do século 9. (N. T.)
O anticonformismo, a dificuldade da guerra contra o Kuomintang e o dogmatismo dos soviéticos ralentam sua ascensão, mas não a impedem, até porque a conjuntura internacional se modifica radicalmente. A crise de Wall Street, no outono de 1929, dá a Moscou a ilusão de que uma ditadura de tipo soviético possa em breve vir a ser instaurada também na China, e por isso adula o otimismo do Napoleão chinês, estimulado com os sucessos obtidos pelo Exército Vermelho nos últimos meses, para os quais deu uma contribuição importante na qualidade de comissário político. Um curioso episódio ligado exatamente a este período demonstra o escasso conhecimento que o Komintern tem da realidade chinesa. Em Moscou, na primavera de 1930, em um necrológio se dá a notícia da morte de "um temível inimigo dos grandes proprietários de terras e da burguesia", ou seja, de Mao, que, pelo contrário, exatamente nestes dias acaba de criar um governo provisório dos soviet na província limítrofe de Hunan, Jiangxi. Na mesma ocasião, Stalin envia, juntamente com um emissário do Komintern, um pequeno grupo de ex-estudantes chineses que frequentaram a universidade moscovita dedicada a Sun Yat-sen, onde foram devidamente catequizados. É também com eles, além de com as forças dominantes no Kuomintang, que Mao terá de acertar contas, ainda mais porque dentro do próprio soviet de Jiangxi não lhe faltam adversários. Contra estes, porém, ele age com energia, usando até a polícia secreta para mandar prender um grupo de dirigentes e fuzilar cerca de três mil soldados e oficiais rebeldes. Quando é posto contra a parede, o sutil teórico, o refinado intelectual tem a mão pesada.
Apesar disto, sua autoridade sofre um rude golpe no verão seguinte, quando o Comitê Central, orientado pelos "estudantes repatriados" e por Chu En-lai, decide transferir-se de Xangai para a zona mais segura de Jiangxi, onde instala um governo comunista e, em 7 de novembro de 1931, proclama a fundação da República Soviética da China. Mao se torna seu presidente, mas é obrigado a aceitar como vice-presidentes dois expoentes do Comitê Central e se vê alvo de críticas duras, a ponto de, em maio de 1933, perder o controle do Exército Vermelho. Em seu lugar é colocado um aliado dos "estudantes repatriados", aquele Chu En-lai que retorna de uma valiosa experiência de trabalho na França; e que se revelará, com o passar do tempo, o homem de Estado mais perspicaz e equilibrado da República Popular. Em 1933, porém, sua adesão à inflexível linha estratégica dos homens de Moscou é fatal e levaria o Exército a uma total derrota frente às "forças de esmagamento" formadas por Chiang, se, no início do outono, a agressão japonesa não tivesse modificado radicalmente a situação.
A uma visão em perspectiva, a invasão nipônica representará um dos fatores determinantes da conquista do poder por parte de Mao. Naquele momento, excluído como está da condução da guerra, ele se concentra na direção do "movimento para o controle da terra", orientando-se para uma estratégia fortemente classista no confronto com os grandes proprietários de terras e com os camponeses ricos, que veem todas as suas propriedades confiscadas. Aniquilados politicamente, quando exibem veleidades contrarrevolucionárias são incriminados como "grandes tigres" e executados — uma solução radical que Mao justificará como um modo de formar em sentido revolucionário as massas de camponeses pobres. Também ou principalmente quando se torna o senhor da China, o Grande Timoneiro continuará a considerar a revolução um processo psicológico que se traduz em uma "retificação" permanente, uma ininterrupta "reforma do pensamento".
Seja como for, teoria à parte, se cerca de um ano depois dos acontecimentos de Jiangxi ele se torna o inspirador e o dirigente do empreendimento que passará à história como a Longa Marcha, é sobretudo porque, nesse ínterim, o sectarismo e a presunção dos dirigentes do partido tinham levado o Exército Vermelho à beira da derrocada. "A linha de avanço e de ofensiva", recomendada por Moscou, e a pretensão de impor a autoridade do partido aos "senhores da guerra" que, por ódio a Chiang, estivessem dispostos a ajudar em algumas províncias os revoltosos, permitiram que o presidente do Kuomintang acumulasse retumbantes sucessos até sobre o poderoso exército que os generais do PCC haviam milagrosamente conseguido reunir. A esta altura, porém, já não era mais possível confinar Mao exclusivamente no trabalho político, e passaram a confiar em sua orientação e seus princípios táticos para deslocar o restante do exército em direção ao Norte para as províncias em que o Kuomintang não era tão forte. Um dos princípios táticos usados desde o início da Longa Marcha foi exatamente aquele que se refere aos deslocamentos dos revolucionários, que se realizaram com uma marcha "sinuosa" em relação às posições do inimigo, com movimentos imprevisíveis, volteios longuíssimos, rios vadeados de dia e atravessados à noite, marchas esboçadas em uma direção e depois realizadas na direção contrária, sem falar no truque de revolucionários travestidos de soldados do Kuomintang, de policiais, ou até mesmo de cidadãos indo pagar seus impostos.
O artífice de tais estratagemas, empolgado com seu sucesso, com a embriaguez do poder e com o encantamento das paisagens começa a verter suas emoções em poesia, misturando as palavras de ordem da luta com imagens delicadas a respeito da natureza e dos animais.
A habilidade de Mao e sua capacidade de dar vida ao slogan do guerreiro com a fantasia do artista transformam em lenda as etapas da Longa Marcha: a travessia de um rio, o assalto com um punhado de homens a um forte municiadíssimo, a conquista de uma ponte, as incursões noturnas à luz de tochas, a luta contra tremendas dificuldades naturais tornam-se outros tantos momentos de uma epopeia cuja fama corre por todas as imensas regiões da China e além de suas fronteiras. Entrando em conflito com um companheiro que anteriormente era seu superior no partido, Mao dele se separa para continuar sozinho o avanço em direção às províncias setentrionais, onde é esperado pelos japoneses, enfrentando a que viria a ser definida como "a mais cruel experiência" de toda a Longa Marcha, ou seja, a travessia de pradarias desoladas e insidiosas que escondem terrenos pantanosos nos quais um passo em falso pode ser fatal, e logo adiante habitadas por populações hostis, prontas a roubar dos chineses os animais e as reservas de comida, a alvejá-los com pedras, a armar emboscadas à sua retaguarda. Sem terem como obter novos alimentos, obrigados a comer primeiro os cavalos e depois a cozinhar sapatos e cintos para matar a fome, os soldados do Exército Vermelho acabam devorando sem pensar ervas selvagens que muitas vezes se revelarão venenosas, provocando graves intoxicações e até mesmo a morte. No gelo, sob a chuva que cai, afundando na lama, os homens avançam em meio a enormes sofrimentos, com as pernas cortadas sangrando. Mao dirige aos poucos milhares de sobreviventes uma advertência que se transformará em uma outra poesia: "Se não alcançarmos a Grande Muralha não seremos verdadeiros homens!" E no outono de 1935 os arrasta até Xanxi, a província contígua a Hebei, onde fica Pequim, objetivo que se propôs desde o início da Longa Marcha, para enfrentar finalmente os japoneses. É esta vocação patriótica que ele busca conjugar com a pulsão revolucionária, à custa de medir-se com a hostilidade do Kuomintang e, ao mesmo tempo, com as desconfianças do Kremlin. Porque se Chiang pensa, exatamente como Mao, em assumir em primeira pessoa a defesa e o governo da China liberta do invasor, Stalin pretende evitar que os comunistas chineses levem a cabo o desafio revolucionário e, sobretudo, que escapem a seu paternal controle.
Instalando-se em Xanxi com uma formação que não ultrapassa a 30 mil homens, depois de uma importante conferência dos dirigentes comunistas o Napoleão chinês confia a um relatório as indicações sobre a tática a ser seguida para combater o imperialismo japonês: a seu ver, é preciso criar uma frente única para a qual possam confluir não só os pequenos e médios burgueses, mas até mesmo a parte menos contrarrevolucionária dos grandes proprietários de terras e dos comerciantes, para dar sustentação a um governo de defesa nacional no qual nacionalistas e comunistas possam fazer surgir uma coalizão sob a orientação do Partido Comunista. A base de tal coalizão deve ser o governo soviético instalado no Norte: é a linha do Komintern que, aparentemente, Mao adota incondicionalmente, alinhando-se aos princípios do marxismo-leninismo, embora no interior de seu escritório escreva poesias que exaltam, juntamente com os protagonistas da revolução, os momentos mais épicos da história chinesa e a deslumbrante beleza do país. No plano concreto busca principalmente mobilizar em torno do partido e de seus soldados as minorias étnicas, mongóis e muçulmanos da região, exaltando seus legendários heróis (inclusive Gêngis Khan), mesmo que tenha plena consciência da necessidade de obter um compromisso com o Kuomintang para juntos se armarem cada vez mais contra a alarmante invasão japonesa.
Assim, a 5 de maio de 1937, ao voltar de Nanquim, envia uma mensagem telegráfica visando abrir um entendimento com Chiang e, ao mesmo tempo, a imprensa recebe ordem de cessar imediatamente qualquer polêmica com o antigo inimigo. A princípio o Generalíssimo mostra-se relutante, depois se deixa persuadir pelos companheiros de armas, até porque a agressão nipônica está se intensificando: a 22 de setembro assina o histórico acordo com o Comitê Central do PCC. Em uma entrevista concedida a uma jornalista americana, um Mao impassível explica que não existe contradição alguma entre o "apaixonado" interesse que os comunistas têm pelo destino da nação e sua militância no movimento revolucionário mundial, porque só a libertação e a independência da China poderão permitir o advento do comunismo "para a felicidade do povo". Na entrevista não falta um elogio ao Kuomintang e a seu grande chefe, Chiang Kai-chek. O Napoleão chinês sabe muito bem que sublinhar o papel decisivo do partido na resistência ao estrangeiro significa obter prospectivamente o beneplácito das massas, mesmo que o acordo de setembro obrigue o Exército Vermelho a mudar de nome, tornando-se Exército Revolucionário Nacional e colocando-se sob as ordens do governo de Nanquim. Evidentemente continuará a ser empregada a tática de guerrilha, que, além de muito incômoda para os japoneses, também se presta bem pouco a um cerrado controle por parte do Kuomintang. Paralelamente, nos territórios ocupados o Partido Comunista amplia uma política econômica muito distante do extremismo e nem se fala mais em soviet. Não há quem saiba mimetizar-se, quando é necessário, como eles.
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Com as mãos na China
Cercados pela crescente simpatia de estudantes e intelectuais, os homens de Mao criam em Yenan uma universidade "antijaponesa", que não se preocupa em aumentar o número de diplomados, mas se dedica principalmente a preparar soldados, guerrilheiros e especialistas, deixando totalmente de lado a discriminação nos conflitos com jovens de família burguesa. É um período particularmente brilhante para o líder comunista que, entre outras coisas, neste mesmo ano, enquanto a mãe de seus filhos está se tratando em um hospital de Moscou, apaixona-se por Lan-ping, promissora artista de cinema, e se casa com ela. Iniciam-se, assim, apesar dos terríveis compromissos da guerra e da revolução, as benesses do poder, assim como se advertem as primeiras manifestações de culto à personalidade de Mao, que certo jornalista estrangeiro descreve já como "uma combinação de profundidade intelectual e sagacidade camponesa", um homem dotado de um profundo senso de dignidade pessoal, de "calor humano" e de outras virtudes escondidas sob sua "altiva reserva". Os visitantes falam, um tanto desconcertados, de seu descuido com os trajes e da informalidade de seus modos, surpreendendo-se com a sem-cerimônia com que ele tira tranquilamente o cinto das calças enquanto conversa com eles ou com o "desagradável" ruído que faz quando aspira a fumaça de seu cigarro. O interesse em relação ao líder por parte da imprensa internacional, ou pelo menos de seus expoentes mais radicais, lisonjeia a opinião pública chinesa e com isto faz crescer sua popularidade.
Nem mesmo a rumorosa vitória dos japoneses entre 1937 e 1938 impede a ascensão de Mao, que em Yenan vem a encontrar-se em posição menos ostensiva e pode dedicar-se a uma intensa atividade intelectual, quer como estudioso de problemas militares, quer como marxista. Nos escritos do primeiro tipo, permanece obviamente fiel ao princípio de "evitar a força e atacar o ponto fraco", mas reserva também uma série reflexão a necessidade de propaganda, de enfatizar as atrocidades dos soldados do micado e estimular de todos os modos o empenho dos guerrilheiros chineses, aos quais pede que só tenham medo "de serem mortos pelo inimigo", exaltando, em troca, sua resistência ao invasor como "uma missão maravilhosa que sacode a Terra". A potência dos japoneses não deve atemorizá-los, porque, a esta fase inicial de seu avassalador avanço, seguir-se-á uma outra de maior equilíbrio entre as duas forças e depois uma terceira na qual chegar-se-á ao inevitável epílogo, a vitoriosa contraofensiva dos chineses apoiados por todas as forças mundiais hostis ao imperialismo.
No plano ideológico, em um ensaio publicado em fins de 1939, mostra-se ainda prudente, no sentido de que afirma o direito dos comunistas de orientar a revolução em nome de todo o proletariado, mas reconhece que a China é ainda um país pré-capitalista e, por conseguinte, admite que, em um primeiro período, o país deva ser governado por "uma nova democracia", uma "ditadura democrático-revolucionária", aberta a diversos componentes da sociedade, até que estejam maduras as condições para passar à construção do socialismo, em estreita relação com a revolução mundial. E este epílogo será, naturalmente, pluralista.
O que chama a atenção nesses escritos, deixando de lado qualquer juízo quanto a seu valor, é a autoridade com que o autor já se expressa, com a força do controle total que obteve sobre o partido liquidando seus mais terríveis antagonistas com a acusação de terem sido coniventes com Chiang Kai-chek.
É também esta posição de domínio que lhe permite lançar, na primavera de 1940, uma poderosa ofensiva contra o invasor nipônico: os grupos de guerrilheiros irrompem da zona de Nanquim até a costa do Pacífico para marchar em poucos meses sobre cinco províncias da China setentrional, arrasando até as próprias forças do Kuomintang. Aí, porém, o ímpeto do exército revolucionário se detém porque Chiang impõe um bloqueio nas zonas ocupadas pelos comunistas, enquanto os japoneses retomam a iniciativa com uma ação de terra arrasada, em nome da selvagem estratégia dos "três tudo": queimar tudo, matar, saquear tudo. Em um país menos extenso, os grupos guerrilheiros de Mao estariam, a esta altura, perdidos, esmagados entre a potência do exército estrangeiro e a determinação do chefe nacionalista. Mao consegue, contudo, entrincheirar-se nos territórios ocupados por seus guerrilheiros e fortalecer suas fileiras e sua moral por meio de uma dupla intervenção. Para aumentar a produção, utiliza os guerrilheiros nos campos e nas fábricas, e para galvanizar o exército popular intensifica o recrutamento dos camponeses pobres e instaura uma campanha de retificação contra os ataques de Chiang. Fala claro também ao partido, acentuando "a significação do marxismo", ou seja, sua adaptação às características e à história do povo chinês: "Temos de parar de escrever ensaios prostrados de quatro diante dos modelos estrangeiros. Temos de pôr de lado nosso dogmatismo, substituindo-o por estilo e modos chineses, novos e vitais, que agradem , aos olhos e aos ouvidos de nosso povo."
As afirmações em favor de um comunismo nacional não provocam a excomunhão de Moscou, porque, obviamente, não se trata de um pequeno país dos Bálcãs, mesmo que já esteja muito clara a aversão de Mao tanto ao modelo soviético quanto à forte ingerência do Kremlin na política do PCC. E é exatamente para relançar o tema da autonomia ideológica que, mais tarde, publicará um par de antigos discursos dos quais emerge já uma linha que Stalin teria certamente definido como trotskista: a teoria de uma espécie de revolução permanente, a ser desenvolvida em uma sociedade em perpétua transformação, que não deve se estabilizar nem mesmo com o advento do comunismo. À parte as veleidades filosóficas, ele continuará fiel ao princípio da autonomia, sem fazer revisões, sobretudo depois da dissolução da Internacional comunista. Bem menos coerente é a sua atitude com relação aos países ocidentais, pois deixa-se influenciar pelas flutuações que caracterizam as relações diplomáticas e militares entre os dois blocos no decênio 1939-1949. Assim, suas avaliações a respeito do mundo anglo-americano variam de acordo com a mudança dos acontecimentos: antes e depois do famigerado acordo Molotov-Ribbentrop; antes e depois da agressão de Hitler à União Soviética (quando Stalin precisa da ajuda de Roosevelt); antes e depois da Segunda Guerra Mundial, no decurso da qual, a certo ponto, chegou a considerar aceitável a proposta do presidente dos Estados Unidos de formar um governo de coalizão com Chiang Kai-chek e de colocar todas as forças chinesas sob o comando de um general americano, para naturalmente, assim que se rompe a aliança entre os vencedores da guerra, tornar a definir a República das estrelas e listras como "a potência imperialista mais pérfida e reacionária do planeta".
De qualquer modo, a derrota do Japão soa o gongo para o definitivo acerto de contas entre nacionalistas e comunistas, e será Mao, naturalmente, quem dirigirá a guerra civil, agora que não é mais apenas um valoroso chefe do exército popular e do PCC, como demonstra, em abril de 1945, o andamento do congresso do partido, no qual sobem ao céu louvores "ao mais revolucionário estadista de toda a história chinesa", guia incomparável do partido, o maior teórico e sábio que o movimento comunista jamais teve. É o desembocar de um processo de beatificação que o próprio interessado veio preparando durante muitos anos, fazendo com que os militantes estudassem atentamente seus escritos e saudassem nele "a estrela da salvação" para o ditoso povo chinês, estrela que se revelou não só na genial condução da guerra revolucionária, como também com a contribuição teórica mantida com as campanhas de retificação ideológica, sem falar no papel histórico que ainda o espera, de farol de todas as revoluções passadas, presentes e futuras no resto do mundo.
É fácil imaginar como este coro de adulações, que em nada desagradam ao interessado, se torne molesto aos ouvidos de Stalin que, no dia mesmo em que o Japão levanta a bandeira branca, não hesita em firmar um tratado de amizade e aliança com Chiang Kai-chek para a transmissão de consignas nos territórios que o tratado de paz assegura aos russos. Mao não expressa na ocasião nenhuma queixa, apenas procura assenhorear-se do maior número possível de armas e de bases, e, quando Chiang ordena que as forças comunistas permaneçam onde estão, a imprensa de Yenan o cobre de insultos, chamando-o de fascista e de traidor. A furiosa polêmica não impede, no entanto, o Napoleão chinês de ir à capital provisória para encontrar-se com o Generalíssimo e estabelecer com ele negociações que deveriam levar a um compromisso visando a perpetuar a existência de "dois sóis em um mesmo céu", embora, obviamente, nenhum dos dois suporte o esplendor do outro—
Mao contando com a corrupção do Kuomintang para assenhorear-se de todo o poder e Chiang contando aniquilar as bases fortificadas dos vermelhos antes que seja demasiado tarde. Reassegurado pelo apoio americano e pela visível simpatia de Stalin, o chefe do Kuomintang prolonga a negociação por cerca de 43 dias antes de chegar ao rompimento que, por volta de meados de 1946, provocará o desencadear da guerra civil. Mao a enfrenta com fanática fé nas "lutas combatidas pelo povo", exatamente como encarara como "um tigre de papel" até a bomba atômica lançada duas vezes sobre o Japão, afirmando que por si só não teria sido suficiente para obrigar à rendição.
É interessante analisar a estratégia com que se confronta no último round da sua Longa Marcha em direção à conquista do poder absoluto.
Mantendo-se firme à sua capacidade de mobilizar as massas e à fidelidade aos ditames psicológicos de sempre ("coragem na batalha", "nenhum temor diante do sacrifício e do cansaço"), elabora um projeto para garantir para si o controle político da frente interna: por um lado, realizará uma drástica reforma agrária, por outro, oferecerá uma ampla abertura aos "notáveis patriotas" e dará severas instruções ao exército popular no sentido de garantirem o máximo respeito à população civil, abstendo-se de qualquer forma de saque. A mescla de invenção e astúcia produz, no decurso de três anos, o resultado de inverter as relações de força com o Kuomintang, que eram inicialmente favoráveis aos nacionalistas na proporção de quatro (milhões de homens) para um. Nos últimos meses de 1948, uma série ininterrupta de derrotas em campo e na sede política põe Chiang de costas contra a parede, mas o golpe de misericórdia vai vir com o ataque por parte do principal colaborador de Mao, Lin Piao, aos últimos redutos inimigos entre Pequim e Tianjin.
Em 21 de janeiro de 1949, o Generalíssimo renuncia à presidência do Kuomintang em favor de seu vice, Li Tsung-jen, mantendo, porém, grande parte do poder. Em 20 de abril, seu governo rejeita a intimação de rendição dos comunistas. Aos 23 do mesmo mês, o exército popular conquista Nanquim. É uma queda vertical que Mao acelerara, mesmo sabendo (ou talvez exatamente porque sabe) que alguém, talvez no Kremlin, veria com bons olhos uma solução de compromisso com Chiang, a quem prefere, contudo, aniquilar, obrigando-o a refugiar-se em Formosa porque, como registra em uma poesia escrita no dia seguinte ao do triunfo, "a verdadeira via que governa o mundo dos homens é a da mutação radical". Tudo flui em sua revolução, tal como no cosmo do velho Heráclito, o filósofo de Éfeso, e vai fluir principalmente muito sangue.
Mas o futuro da China, por ora, está no colo de Confúcio. Mao proclama a fundação da República Popular da China da tribuna da Praça Tienanmen, em primeiro de outubro de 1949. Preparou-a ao longo dos meses precedentes manifestando a intenção de eleger um governo democrático de coalizão e afirmando a vontade de libertar a China de um destino semicolonial e semifeudal. Declara-se disposto a estabelecer relações diplomáticas com todos os governos estrangeiros, com a condição de que rompam relações "com os reacionários chineses", ou seja, com Chiang, esclarecendo, contudo, que não se propõe na realidade a manter uma atitude neutra: "Todos os chineses, sem exceção, devem tomar posição: ao lado do imperialismo ou ao lado do socialismo." Não há uma terceira via. A participação e o gozo de todos os direitos não serão concedidos apenas aos operários e aos camponeses, mas, no âmbito de uma Frente Única, também à pequena burguesia e à burguesia "nacional", ao passo que dela ficarão excluídos os que fazem parte da burocracia e os grandes proprietários de terras; é a famosa "ditadura democrática do povo", um conceito que contém uma contradição de termos, embora não aceite a definição soviética de ditadura do proletariado. A visão de democracia de Mao é repentinamente esclarecida de antemão: a burguesia "nacional" está posta à prova, se se comportar bem manterá uma cidadania plena, mas deverá, de qualquer forma, ser reeducada e remodelada "quando chegar o momento de realizar o socialismo", com a nacionalização de todas as empresas privadas. O próprio aparelho estatal deve ser imediata e drasticamente depurado, de modo a tornar-se, textualmente, "o instrumento de opressão" das classes antagônicas ao regime.
A coalizão em que se baseia o governo se assemelha, como duas gotas de água, à que Stalin impôs aos países-satélites da Europa Oriental, uma vez que nela estão representados catorze partidos que não contam absolutamente para nada e até entre os vice-presidentes do conselho há personalidades independentes, subordinadas, evidentemente, ao Partido Comunista. Como chefe do Executivo, juntamente com uma "veia de impiedosa dureza", Mao confirma sua convicção de que a China virá a ser modernizada temperando a inspiração leninista com a fidelidade às tradições e aos interesses do país.
Aliás, sua versão asiática do marxismo representa um modelo para inúmeras comunidades coloniais ou semicoloniais que se encontram entre os países não-alinhados, ou confinados no Terceiro Mundo, sobre os quais a China e a URSS buscarão, no futuro, exercer, em concorrência ostensiva entre si, uma pesada hegemonia de caráter antiocidental, por meio de ajudas militares, políticas e (em medida mais limitada) econômicas.
Por ora, as relações entre os dois países-guias do mundo comunista são ainda, formalmente, discretas. A crescente dificuldade de Stalin impõe, todavia, um ritmo muito lento às negociações que se abrem depois da fuga de Chiang, tanto que, só depois de nove semanas, em meados de fevereiro de 1950, se estabelece um acordo que Mao é obrigado a assinar, embora contemple a passagem da Mongólia para a esfera de influência soviética e a instalação de bases russas em Port Arthur e no Mar Amarelo. A liturgia bolchevista o obriga igualmente a exaltar, reforçando a assinatura, a indestrutível amizade sino-soviética, sem comover, porém, o ditador georgiano que exatamente naqueles dias está comemorando seu septuagésimo aniversário entre elogios e presentes que fariam enrubescer o divino Augusto.
Um poeta cruel
Um poeta cruel. A monstruosidade de Mao Tsé-tung não está nas dimensões, embora trágicas, das carnificinas por ele provocadas antes e depois de sua chegada ao poder, e sim principalmente no contraste entre a delicadeza de sua produção poética (e de sua refinadíssima cultura, conforme a mais aristocrática tradição chinesa) e a crueldade com que exerceu o poder, primeiro sobre uma limitada região do país e depois, a partir de 1949, sobre toda a China, com exceção da Ilha de Formosa. O que tem em comum com os dois grandes criminosos do século, Stalin e Hitler, é a perseguição de uma linha política impaciente e irreal: o socialismo em um só país, independentemente dos progressos do capitalismo mundial; a hegemonia da raça germânica, independentemente do valor das forças militares e econômicas das grandes democracias; a autarquia nacionalista do comunismo chinês, independentemente das vicissitudes do comunismo mundial. Portanto, não só um poeta cruel, mas também um político abstrato, cujos erros custaram, infelizmente, muito caro a um povo que de início Mao se propunha a libertar do colonialismo e do feudalismo.
Não é por acaso que, para neutralizar posteriormente, pelo menos em mínima parte, seus históricos erros de avaliação tenham vindo de dois dirigentes reformistas do partido: Chu En-lai, um mestre de diplomacia e paciência, e Deng Xiaoping, despótico em matéria de política interna, disponível em política externa, liberal (ou quase) em economia. E também não é por acaso que as ideias do Napoleão chinês, suas máximas reunidas no famoso Livro Vermelho, encontraram no início da década de 1970 o consenso místico de milhões de jovens ocidentais, seduzidos pelo extremismo e pelo "romantismo militar" do Buda comunista. Aliás, no início do novo milênio estão igualmente reaparecendo militantes em nome do comunismo e grupos terroristas de extrema esquerda, assim como não faltam, até nos Estados Unidos, jovens que têm nostalgia do nazismo.
Mao dera curso à própria rigidez nos anos da Longa Marcha e das experiências parciais de governo nas regiões ocupadas, mas naturalmente foi depois da proclamação da República que, fortalecido com a eleição à Presidência e com o controle total sobre o seu partido, ficou em condições de modelar o regime com base em ideias que têm muito pouco em comum com a lição autêntica de Marx e com a própria vulgata soviética. O cânone de interpretação racional dos fatos e das relações de força, tanto no campo internacional quanto na sociedade, lhe é estranho, mesmo conhecendo todos os segredos de uma dissimulada atitude de moderação. Os slogans imaginosos, os heróis e os demônios com que povoa sua propaganda não servem para incrementar a cultura política e a capacidade crítica dos militantes, mas apenas para exaltar sua fé, mobilizar sua vontade até o nível de uma tensão espasmódica de modo a que se submetam aos desumanos sacrifícios que os levam a suportar para realizarem os objetivos visados, mesmo quando utópicos.
Até mesmo a crescente busca de autonomia em relação à casa-mãe soviética nasce de uma declarada vocação nacionalista e não de uma ânsia de liberdade ou da tentativa de abrir verdadeiramente à participação das massas.
As polêmicas póstumas com Stalin e as polêmicas violentíssimas com o Kruchev do relatório secreto e da distensão são um sinal de intransigência, de ortodoxia ideológica, inspiradas na certeza de encarnar a suprema verdade revolucionária, ou seja, sob muitos aspectos, além da retórica neoclássica de Mussolini e do furor étnico de Hitler, não seria despropositado colocar Mao na galeria dos ditadores de uma direita idealista e chauvinista que põem seu carisma acima de qualquer outro valor e a luta pela grandeza da nação como o objetivo supremo da política. Em comum com eles, Mao tem igualmente a paixão pela guerra como "a suprema aventura e a suprema prova de coragem", a ponto de subestimar os riscos de uma conflagração nuclear e de não se alarmar sequer com a perspectiva de isolamento a que até certo ponto o condena a reaproximação soviético-americana.
A história dos 27 anos de domínio do Grande Timoneiro é uma tumultuada história de reviravoltas e desafios ritmados pela neurótica ânsia de realizar em tempo breve o comunismo de tipo chinês e, ao mesmo tempo, transformar a China no país-guia do mundo ex-colonial, com a grotesca ilha europeia da Albânia, único satélite soviético que se converteu à heresia oriental, enquanto a Iugoslávia de Tito e da autogestão é um alvo privilegiado para contrabandear a polêmica antissoviética de Pequim, até o conflito com Kruchev vir abertamente à tona. Depois da fundação da República Popular, Mao Tsé-tung decide completar a reforma agrária, e é uma explosão de violência, de intransigência, de fanatismo que se abate como um tornado sobre toda a China. Como eu disse, não é a primeira vez que ele manifesta sua crueldade: o mesmo já acontecera pelo menos em duas outras ocasiões, em 1930, quando se instalara com seus homens na região setentrional de Jiangxi, e em 1942, quando havia desencadeado em Yenan uma impiedosa perseguição aos intelectuais do partido. Na primeira vez, o alvo das suas suspeitas tinha sido os quadros regionais e os milhares de membros do Exército Vermelho, incriminados como contrarrevolucionários e espiões de Chiang; na segunda, havia antecipado de certo modo a zombeteira guinada que viria a ser chamada de "As Cem Flores": por cerca de dois meses concede a escritores e artistas a mais ampla liberdade de crítica e, a seguir, cai sobre eles a guilhotina da repressão em nome de um dogma maoista sagrado, a submissão do intelectual ao político. Uma armadilha ignóbil. Quem não aceitou dobrar-se à autocrítica e à denúncia dos companheiros acabou na prisão ou diante de um pelotão de fuzilamento. Um ano depois, a coisa foi ainda pior. No contexto de uma retificação, coordenada por uma tétrica personagem, Kang Xeng, formado pelo bureau político do PCC e autorizado a descobrir traidores e dissidentes usando espancamentos, torturas, autocríticas, confissões falsas e mesquinhas delações, ou, no melhor dos casos, ardentes humilhações infligidas no decurso de concorridas reuniões, desembocando tudo em um processo de reeducação imposto por Mao com a convicção de que "os espiões são tão numerosos quanto os pelos de uma pelúcia", Kang Xeng levou a cabo tal operação com uma postura de SS nazista: "Vestido de couro negro, montado em um cavalo negro e acompanhado de um feroz cão negro", uma vez que não descuida do menor detalhe para apavorar as pessoas. Quando, alguns meses depois, o próprio bureau político do PCC já está achando excessiva esta torpe comédia, Kang confessará que apenas 10% dos que foram presos eram culpados e Mao terá de se desculpar diante de uma assembleia de quadros dirigentes, inclinando-se hipocritamente três vezes em homenagem a suas vítimas e atribuindo, naturalmente, à maneira de Stalin, a responsabilidade do acontecido aos executores locais.
Mas, quando o Grande Timoneiro assume a Presidência da República, seu projeto pedagógico se estende a toda a China, partindo, naturalmente, da complementação da reforma agrária. O objetivo é criar uma grande base popular de consenso em relação ao regime e, ao mesmo tempo, oferecer uma compensação aos camponeses pobres que durante tantos anos suportaram o imenso peso da guerra contra o Japão e contra Chiang. O único meio de mobilizá-los consiste na identificação de um inimigo a quem odiar, o "inimigo de classe", ou seja, os grandes proprietários de terra, os chamados camponeses ricos, os notáveis corruptos, contra os quais será organizada uma outra e bem mais ampla, prolongada e impiedosa ofensiva terrorista, agrupando-os sob um perfil político não só de contrarrevolucionários, mas também de ex-colaboradores dos invasores ou agentes dos Estados Unidos e do fugitivo de Formosa. A intensidade, a extensão, a duração dessa colossal campanha de retificação irá transformá-la em autêntico genocídio.
Como já acontecera nas terras libertadas no final da Segunda Guerra Mundial, agora são enviados a todos os cantos do imenso país esquadrões de agit-prop, que caem sobre os vilarejos identificando sumariamente as camadas e as famílias a serem discriminadas e implantando contra eles processos públicos e rumorosos, as denominadas "reuniões da amargura", nas quais a loucura dos camponeses pobres e dos militantes é instigada a lançar contra os inimigos do povo denúncias e insultos violentos, e não raro até pancadas, que preludiam a condenação dos infelizes à pena capital e ao sequestro de todos os seus bens. O ritualismo mais tradicional se mescla ao julgamento sumário, e muitas vezes à execução imediata, sob a fúria da população. Em um país tão vasto e imperfeitamente administrado, é impossível, obviamente, calcular, até pela distância de tantos anos, o número de vítimas de um expurgo cujos limites no tempo são, aliás, extremamente incertos; mas parece que os mortos estariam calculados entre dois e cinco milhões, enquanto cerca de quatro a cinco milhões de camponeses ricos teriam sido deportados para milhares de campos de reeducação (os famosos laogai) espalhados por todo o território da República, juntamente com as prisões-fábricas e os cárceres, sem falar nos milhões de outros proprietários de terras remediados, vigiados e objeto de abusos por parte dos dirigentes locais do PCC.