Tiranos
Mao Tsé-Tung
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Motivos de segregação podem também ser encontrados em uma longínqua origem feudal da família, na adesão a uma confissão religiosa ou no simples passado de funcionário ou de militar do Kuomintang, culpas estas sempre automaticamente transmissíveis aos familiares quando o dirigente comunista considerar oportuno. Os camponeses pobres são induzidos a endossar as mais absurdas acusações, com a esperança de virem a dividir as terras expropriadas, mas em sua maioria não têm grandes benefícios com uma reforma que foi estudada essencialmente ou, sobretudo, para permitir que o aparelho do partido se apodere do território e de seus recursos e os ponha à disposição do governo para acumular, por meio da coletivização, o capital necessário à transformação industrial do país.
Com o início do conflito coreano, a caça aos elementos "reacionários" se intensifica, estendendo-se preferencialmente às maiores cidades da China meridional, onde se realizam movimentos de massa mais ou menos espontâneos visando a atingir as camadas burguesas, os intelectuais e os dissidentes políticos, enquanto simultaneamente se reprime com a máxima dureza as máfias criminosas, o tráfico de drogas e a exploração da prostituição.
Com estas operações, entre aprisionados e justiçados chega-se aos quatro milhões de vítimas, que o regime atinge e pune graças a um sistema de "controle recíproco", baseado em uma organização capilar e em uma difundida prática de espionagem, a serviço de uma polícia onipotente, cujos efetivos crescem desmedidamente, assim como cresce o número de prisões, muitas vezes improvisadas e sempre terríveis em termos de superpopulação, trabalho forçado, desnutrição e sádica brutalidade do pessoal de vigilância. Os policiais e dirigentes políticos em geral dispõem de amplíssimos poderes discricionários porque devem semear o "terror vermelho" entre todos os potenciais ou supostos opositores do regime. Quem acaba em suas garras, seja ele empresário ou comerciante, residente estrangeiro ou eclesiástico, ex-funcionário ou ex-militar do Kuomintang, pode ser incriminado a qualquer título, e até mesmo apenas por responsabilidade "histórica" e com efeito retroativo, ser condenado a longuíssimas penas de detenção ou à pena capital, sem a menor necessidade de provas nem a mínima possibilidade de defesa. A respeito da repressão deste período, somente nas cidades do Sul, fala-se em um milhão de mortos, dois milhões e meio de prisioneiros e um sem-número de casos de suicídio.
Mas Mao não seria Mao se não desse seu toque peculiar a este quadro.
Partindo da convicção de que os dissidentes e os criminosos que se salvam do pelotão de fuzilamento devem ser reeducados, o Grande Timoneiro elabora uma outra campanha que, como sempre, batiza poeticamente de "reforma do pensamento". É basicamente um sistema de lavagem cerebral, útil principalmente nos confrontos com intelectuais avessos às diretivas do partido ou apaixonados pela decadente cultura ocidental, e pode ser executada ou com o velho sistema soviético da autocrítica ou com uma técnica mais especificamente chinesa, que visa a reprimir a desprezível tendência ao individualismo com uma disciplina severa a ser imposta, em nome da reflexão e da adequação à sociedade comunista, por meio da destruição da identidade da personagem e sua reconstrução nos moldes da ortodoxia maoista. Em síntese, a "reforma do pensamento" serve para substituir, no contexto da modernização, a antiga autoridade paterna pela "piedade filial" nas divergências com o Pai da China, que é o "onipotente e onisciente" Presidente Mao, cuja figura deve ocupar os pensamentos de todos os chineses, ricos e pobres, rurais e urbanos.
Não é difícil penetrar em seus segredos: basta estudar suas "obras escolhidas", que estão publicadas em uma versão totalmente revista pelo autor, que fez desaparecerem magicamente do texto os erros de juventude e os teoremas ideológicos já ultrapassados. É, de certo modo, uma antecipação da revolução cultural que estava por vir, no sentido de que a reforma de pensamento se propõe a "remodelar" estudantes e militantes, escritores e artistas segundo o modelo perfeito que o presidente irá esboçar no devido tempo em seu Livro Vermelho. Por ora, morto o "velho homem" que neles existe e reconhecida a perfídia do imperialismo cultural americano, eles dela se livram com algumas semanas por ano de exercícios espirituais marxistas, de repudio aos erros e de total submissão, sempre que não levem seu individualismo a ponto de preferirem o suicídio. Para os empresários, porém, o problema não é teórico e sim prático. A pressão fiscal e as chantageadoras medidas legislativas contra eles são de tal maneira asfixiantes que, em janeiro de 1956, finalmente aceitarão em massa que seus bens sejam coletivizados, contentando-se, em troca, com um pequeno cargo de diretor técnico em uma repartição pública ou com uma exígua pensão. No ano anterior fora lançada mais uma campanha de eliminação dos contrarrevolucionários que fazem secretamente resistência ao regime e se escondem até nas fileiras do partido, no qual cerca de 10% dos membros são formados de traidores que tramam à sombra.
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Carestia e massacres
O método pedagógico do presidente não é aplicado apenas no tratamento das almas, ele recai também sobre a gestão da economia.
Enquanto enquadra proprietários de terras, contrarrevolucionários a soldo do inimigo e intelectuais corrompidos pela cultura ocidental, lança o primeiro plano quinquenal, a partir exatamente de 1953, ano em que por curiosa coincidência desaparece também o mais tenaz campeão do dirigismo econômico, Stalin, a cujo cadáver Mao tributa uma homenagem nascida em parte de uma sincera admiração, em parte de um inconfessável alívio pela convicção de que agora o comunismo chinês ficará realmente no centro do mundo. Em setembro do ano seguinte, a República Popular adota sua Constituição, na qual, evidentemente, são enunciadas de modo solene as condições para a passagem ao socialismo, um processo que, para a criação de uma grande indústria, não poderá senão exigir mais de um único plano quinquenal e que, por conseguinte, Mao decide acelerar pelo menos no que diz respeito ao campo.
A intervenção neste setor se articula em dois tempos. Entre 1955 e 1956, o regime se movimenta até certo ponto com algum gradualismo, deixando relativamente livres os camponeses para se unirem em cooperativas do vilarejo ou delas se retirarem. As reações são positivas e a boa safra de 1957 demonstra que o reformismo vale mais que a arrogância maximalista.
Mas não é esta a lição que daí extraem o Grande Timoneiro e sua equipe, visto que a segunda fase da coletivização será infinitamente menos racional e produtiva, expressando-se principalmente na experiência mais catastrófica de toda a história maoista, que Mao lançará entre dezembro de 1957 e a primavera de 1958, com o rótulo de o Grande Salto Adiante.
Paralelamente à primeira fase da ofensiva no setor agrário, o presidente continua, porém, com suas campanhas de aniquilamento do que considera uma oposição permanentemente à espreita. As prisões, as denúncias e as condenações sucedem-se ininterruptamente, sobretudo entre os intelectuais, mesmo dos mais ilustres. É neste sentido que vai ser interpretada a própria e enganosa campanha das "Cem Flores", que na primavera de 1957 o principal poeta da República Popular, com a costumeira metáfora, convida a fazer florescerem livremente: a verdadeira intenção é a de tornar visíveis "os rebentos venenosos", animando artistas e escritores, ou mesmo os mais brilhantes dirigentes do PCC, com a promessa de uma liberalização cultural que durará poucas semanas. Os interessados levam tão a sério o convite que chegam a pôr em discussão até mesmo a autoridade do partido. O sacrilégio suscita a ira de Mao, que manda para o campo escritores, professores e marxistas excessivamente dialéticos para que meditem sobre os princípios da "ditadura democrática do povo" enquanto realizam trabalhos um tanto ou quanto pesados para gente de escrivaninha, ou tarefas humilhantes como a limpeza de banheiros às vezes na própria universidade em que eram docentes.
O perfume das "Cem Flores" se dissolve no espaço de uma cela: 400 a 700 mil intelectuais chineses, rotulados de "elementos de direita", desaparecem por muitos anos de circulação.
A mesma sorte cabe às camadas moderadas da política agrícola. A ruptura com Kruchev, a eliminação dos melhores cérebros chineses, a obsessão com a luta de classes induzem Mao a acelerar imprevistamente as etapas de coletivização. No governo, Chu En-lai aproveita as dissensões ideológicas com os soviéticos e a própria alarmante revolução na Hungria para orientar a bússola da política externa em direção aos países não-alinhados da Ásia e da África, independentemente de seu regime interno. Seu presidente, no entanto, aproveita a realização de uma sessão do VIII Congresso do PCC para anunciar o lançamento de mais uma guinada, o chamado Grande Salto Adiante, ambiciosa ofensiva a ser desfechada na frente industrial e agrícola, para atingir, e talvez superar, os níveis de produção dos países capitalistas.
Quem vai pagar o preço de tudo isto será, obviamente, o povo chinês "sobre o qual podemos escrever as palavras mais novas e mais belas": nunca se idealizou um epitáfio mais poético para um propósito tão funesto.
Uma das consequências do retorno ao mais cego maximalismo é a ruptura definitiva com os dirigentes soviéticos que falam de um "atalho desastroso", para passar em seguida à mais cruel das represálias, que consistiu na anulação de um importante contrato de assistência tecnológica e, a seguir, em julho de 1960, a uma retirada unilateral, no decurso de apenas um mês, de todos os especialistas russos da China, com um prejuízo incalculável para a economia dos ex-aliados. Indiferente a estas e outras lacerações, o Grande Timoneiro segue impassível sua rota, seguro de que "três anos de esforços e de privações" garantirão aos chineses "mil anos de felicidade": tal como Hitler, ele não se contenta com séculos. A condição é de que os chineses, especialmente os camponeses chineses, se deixem guiar pelo presidente em direção ao supremo ponto de chegada da comuna, renunciando a seu antigo modo de viver e reagrupando-se aos milhares ou dezenas de milhares na extensa agremiação na qual cada momento da atividade cotidiana, do repouso ao debate político, da vida familiar ao próprio consumo das refeições, é vivido coletivamente, a fim de desenvolver desmedidamente a produção agrícola. De sua parte, o governo tomará providências no sentido de realizar moderníssimas obras de irrigação e porá à disposição dos agricultores as últimas inovações da técnica. Sem esquecer que o Grande Timoneiro tem no cérebro uma invenção ainda mais surpreendente: desta vez, para dinamizar a produção industrial, quer "suprimir a diferença entre o trabalho no campo e o trabalho na fábrica", criando pequenos altos-fornos até nos pátios das casas ou das fazendas. Desta maneira permitirá que cada comunidade atinja a autossuficiência, melhorando rapidamente a qualidade de vida dos trabalhadores e ao mesmo tempo pondo à disposição do Estado a mais-valia que lhe possibilitará acelerar a chegada ao paraíso comunista.
Um adequado aparelho de propaganda, com escolta de bandeiras vermelhas, slogans e dados estatísticos cada vez mais triunfais acompanha o Grande Salto Adiante. Simultaneamente vão se reduzindo dia a dia os espaços relativos às pequenas liberdades remanescentes: a de possuir ainda um minúsculo pedaço de terra, a de vender no mercado um pouco de frutas ou de hortaliças, a de sair da comuna, enquanto se nacionalizam até os utensílios para conseguir aço e as portas das habitações para alimentar os altos-fornos.
Como prêmio a tamanha dedicação (compulsória) à comunidade, camponeses e operários poderão consumir nos banquetes revolucionários quanta comida e, sobretudo, quanta carne quiserem, com a certeza de que colheitas de legendária abundância voltarão a encher as despensas. Para acelerar posteriormente o crescimento, o partido põe em prática os métodos agronômicos do soviético Lysenko, um cientista muito estimado por Stalin por ter, até nos estudos de biologia, dado primazia às leis do marxismo sobre as leis da natureza; e Mao aplica com entusiasmo um dogma ideológico que lhe permite crer que "em companhia as sementes germinam mais facilmente, e quando crescem juntas se sentem mais à vontade", não se importando se, ao crescerem assim apertadas e numerosas, as plantinhas acabem morrendo.
Estas e outras extravagantes teorias, que muitas vezes parecem retiradas da obra-prima de Swift sobre as aventuras de Gulliver, levam infalivelmente ao desastre: ficou célebre a campanha ordenada pelo presidente para o extermínio dos pássaros, acusados de comerem os grãos do trigo, e cujo desaparecimento em troca multiplica as parasitas, com consequências irreparáveis para as colheitas. Mas poderiam ser citados muitos outros despropósitos, como a mobilização extraordinária de camponeses pobres, já exauridos pelo trabalho nos campos, para a construção de faraônicas obras públicas, às vezes depois deixadas de lado. Até 1960, contudo, a máquina de propaganda do regime oferece dados entusiásticos e totalmente imaginários acerca dos resultados do Grande Salto Adiante, embora no ano anterior o bureau político tenha tentado em vão, pela boca do honesto Marechal Peng Dehuai, frear os excessos do Grande Timoneiro, tendo como único resultado o de ser o pobre marechal mandado para a prisão, sendo substituído por Lin Piao, seu colega, servil cortesão de Mao e senhora.
Apesar disto, chega um momento em que, obviamente, não é mais possível esconder a verdade, pelo menos para as dezenas de milhões de vítimas chinesas do desastre, o momento em que uma carestia sem precedentes atinge todas as regiões do imenso país, com efeitos fatais para toda a população. Não só os preços das mercadorias sobem medrosamente no alastrante mercado negro, como a dificuldade de conseguir comida seja lá como for, juntamente com a drástica redução das rações individuais distribuídas pelas autoridades, provoca um temível incremento da mortalidade por desnutrição, especialmente nas províncias governadas pelos maoistas mais fanáticos. Diante desta catástrofe a reação do Grande Timoneiro é inconscientemente a mesma que em circunstâncias não muito diversas tivera Stalin: imputa o fracasso de sua política à preguiça ou à sabotagem dos camponeses, ordenando que seja conduzida contra eles uma espécie de expedição punitiva, de duração e extensão quase tão inexoráveis quanto a guerrilha organizada contra o exército japonês. Aprisiona-se, tortura-se, mata-se, chega-se a ponto de cozinhar os cadáveres das crianças para fazer adubo e de vetar abrigo aos órfãos que vagueiam esfomeados pelos campos.
Multiplicam-se as prisões e as execuções não só de trabalhadores da terra, mas até de quadros locais do partido, agora culpados apenas de terem seguido as instruções do centro.
Acabando também por dar lugar ao pânico ou ao estado de necessidade, surgem medidas governamentais que seguem direção oposta à de qualquer critério lógico: por exemplo, a decisão de continuar a exportar (mesmo que com uma ligeira redução) grandes quantidades de cereais ou de recusar, por abstratas razões políticas, as ajudas que os Estados Unidos oferecem para superar a conjuntura. Fala-se em 20, 30, 40 milhões de vítimas.
A situação é de tal modo desastrosa que, por fim, a latente oposição dentro do bureau político do PCC vem à tona, criticando diplomaticamente a linha de Mao, mas revelando publicamente que as cifras do Grande Salto Adiante estão erradas (ou, a bem dizer, manipuladas) até em cerca de 50%, e pedindo, em consequência, um retorno a uma certa descentralização. É uma freada brusca na impaciência de Mao, que se ofende com isto a tal ponto que renuncia a candidatar-se novamente à Presidência da República para reservar suas preciosas energias à solução dos problemas de política externa, que para ele se resumem no acerto de contas com os dois inimigos mortais da revolução: os imperialistas americanos e os revisionistas soviéticos.
Uma ocasião ideal para isto lhe é oferecida pela visita de Kruchev a Pequim. Entre uma e outra de suas célebres gafes, o secretário-geral do PCUS dedica um sarcástico e transparente comentário aos políticos que "pretendem à força pôr à prova a estabilidade do sistema capitalista"; e os políticos em questão são para ele os comunistas chineses, que continuam a lançar obscuras ameaças contra Formosa e a índia.
Poucos meses depois, o mesmo Nikita Sergeievic chegará a qualificar de "loucos" os dirigentes maoistas que não se deterão nem mesmo diante da assustadora perspectiva de uma guerra nuclear e os punirá da maneira que já vimos, ou seja, privando-os de toda e qualquer assistência tecnológica soviética. É um prelúdio do rompimento total que acontecerá no ano da graça de 1962, quando no espaço de poucos meses a URSS fornecerá aviões de combate à Índia, empenhada em violentos combates de fronteira exatamente com a China, e aceitará em dramáticas condições o ultimato de Kennedy para a retirada dos mísseis instalados em Cuba.
Para Mao é a prova definitiva do aventureirismo e ao mesmo tempo do espírito "de capitulação" dos ex-companheiros russos, com os quais o conflito é agora declarado, se expressa cotidianamente em infamantes acusações recíprocas e acaba levando o comunismo chinês a uma drástica escolha de campo: contra a hostilidade conjunta de imperialistas e revisionistas, "formigas que procuram sacudir uma grande árvore", Pequim tornar-se-á o luminoso farol de todos os povos antes colonizados da Ásia, da África e da América Latina, visando à revolução mundial que o proletariado europeu atraiçoou, rendendo-se a "falsos profetas", como Kruchev e o italiano Togliatti.
A tragédia final
Não seria demais suspeitar que, ao assumir uma orientação extremada e tão declaradamente antissoviética, escolhendo o papel de líder da revolução mundial — papel ambicioso, mas sobretudo desproporcional às reais possibilidades hegemônicas da China —, Mao tenha pretendido também livrar-se da crescente oposição na cúpula do partido à sua política interna. Em suma, foi o único modo de conquistar novamente o controle do movimento. Assim como não se pode excluir a hipótese de que no início da década de 1960 tenha começado a produzir-se um processo degenerativo de seu equilíbrio físico e mental: ele seria visível no desenfreado impulso que permitiu ou, melhor, que estimulou, ao culto da própria personalidade, levado aos limites do ridículo.
Tratou-se de um declínio impressionante, que coincidiu com o insensato desafio da chamada Revolução Cultural, acarretando as mais trágicas consequências para o país, sua economia, sua classe dirigente. A guinada maoista teve, porém, um impacto rumoroso no Ocidente, e especialmente na Itália, onde alimentou um movimento difundido principalmente entre os jovens: a constituição da Unione Marxista-Leninista, formação extraparlamentar voltada para uma concepção monacal da luta política e, indiretamente, para a agregação de núcleos rebeldes, inclusive ao PCI, e destinada a confluir para o ardente magma do terrorismo.
Em linhas gerais, o objetivo é aquele "tigre de papel" que, segundo Mao, seria o imperialismo americano, então empenhado na insensata aventura do Vietnã e mantido por uma hipotética conspiração de multinacionais: são dez anos, de 1966 a 1976, que revolucionam o mundo comunista, mesmo que desde 1963 se observem movimentos de libertação nacional na Ásia, África e América Latina como importantes forças anti-imperialistas, às quais se oferece o modelo de tática de guerrilha chinesa, a mobilização das massas camponesas.
O mundo rural circunda a cidade: é o mote do esperto cortesão de Mao, o chefe supremo do Exército Popular, Lin Piao, o qual, exaltando o papel determinante do campo, sugere implicitamente um percurso inverso ao percurso clássico da ortodoxia marxista, que parte da cidade, do proletariado industrial. Não é sequer um retorno ao trotskismo, porque não apela para a tática para realizar a revolução e sim para a própria identidade da classe que deve torná-la possível. A inovação não nasce em gabinetes, tem origem principalmente na convicção de que Mao e muitos de seus companheiros nutrem acerca da superioridade de sua experiência de luta e do primado universal que caberia à tradição e à cultura da China, tanto que acabam finalmente reabilitando o feudalismo dos antigos imperadores do Reino do Meio. De qualquer forma, o que o Grande Timoneiro quer valorizar, até por intermédio de Lin Piao, é o significado da Longa Marcha, a demonstração de que democracia e progresso econômico podem ser conquistados mesmo quando não se dispõe de grandes recursos militares e industriais, caso se galvanize o espírito dos militantes apostando em sua vontade revolucionária e em sua capacidade de sacrifício. Nem mesmo a bomba atômica pode dobrar combatentes dotados de tal têmpera.
Deixando de lado o sarcasmo dos soviéticos, a China comunista não é suficientemente forte e flexível para garantir aos movimentos de libertação nacional a necessária assistência, ainda mais porque onde não chega o contra-ataque americano ou soviético é a cínica venalidade dos déspotas locais que torna vãs as ajudas de Pequim. Por outro lado, os progressos internos no campo político e econômico não apagam a febril impaciência de Mao, que vem se convencendo de estar sendo traído por um partido já excessivamente burocrático e por um grupo dirigente aburguesado pelo poder. Nasce assim nele a ideia de mais uma reviravolta, ainda muito mais brusca e radical que todas as anteriores, uma transformação integral na maneira de pensar dos chineses e do próprio partido, destinada a antecipar a renovação dos quadros dirigentes: é a ideia da "grande revolução cultural proletária", confiada aos jovens, aos estudantes, capazes ao mesmo tempo de captar o sentido da mudança e de com ela se entusiasmar. Serão os Guardas Vermelhos que Mao chamará para "pôr abaixo o quartel-general", apelando para a eterna antinomia entre as gerações, a hostilidade dos jovens contra o poder repressivo dos adultos, mas igualmente para semear o terror nas fileiras da nomenklatura e de uma elite intelectual que jamais se resignara à disciplina revolucionária da obediência.
Será o terceiro e definitivo fracasso do movimento comunista mundial depois da sangrenta tragédia do stalinismo soviético e do naufrágio do revisionismo iugoslavo e tchecoslovaco, sem falar nas revoluções frustradas dos partidos comunistas no Ocidente. Mao assume a tarefa de "adestrar e educar milhões de sucessores" dos atuais dirigentes e militantes, para levar adiante "a causa proletária", mas o faz sem pensar um só instante em seguir a via democrática da formação e da participação crítica das quais, até em palavras, se diz autor, ao contrário dos soviéticos. Seu ideal é a ética da luta e do sacrifício. Seu modelo, o exército popular, no qual vê encarnada, muito mais que no partido, a "vontade do proletariado"; seu método, a doutrinação, algo muito semelhante ao martelar do catecismo de Stalin, mas também muito chinês, mais refinado e implacável. E, como seu ideal, modelo e método não se mostram suficientemente repressivos, faz um último ultraje ao materialismo científico quando, em março de 1964, decide que os Guardas Vermelhos sejam doutrinados exclusivamente com o estudo de seu pensamento, expresso nas páginas de uma antologia que inicialmente traz o título de Citações do Presidente Mao, e mais tarde será universalmente conhecido como o Livro Vermelho, uma espécie de bíblia, evangelho ou corão do culto que os revolucionários do mundo inteiro deverão tributar ao Grande Timoneiro.
É um culto que, em última instância, se baseia em uma afirmação simples e categórica, a de que o pensamento de Mao Tsé-tung "é o único pensamento correto", e em um corolário óbvio, de que quem quer que manifeste "hesitações", mesmo que leves ou passageiras, na tradução prática desse pensamento, se afasta da verdade, perde o rumo como um navegante sem bússola e, por conseguinte, está inevitavelmente destinado a cometer erros políticos. É um corolário que, juntamente com inenarráveis sofrimentos e humilhações, produzirá na China pelo menos um outro milhão de mortes. O casal de parceiros que o Grande Timoneiro escolheu para a celebração de seu culto é formado por Lin Piao, que põe à sua disposição o exército como símbolo da guerrilha e braço armado da luta contra o aparelho do partido, e por Jiang Qing, a mulher do presidente, a ex-atriz cinematográfica Lan-pin, que subirá rapidamente para a cúpula da hierarquia até ser nomeada conselheira cultural do Exército. Para valorizá-la, são também entregues à sua competência a célebre Companhia de Ópera de Pequim e outros conjuntos musicais e teatrais: o objetivo é a anulação de qualquer forma de arte e de literatura que não seja conforme à linha do partido.
Mao desaparece por alguns meses, provavelmente para preparar o lançamento da operação, a respeito da qual nada disse aos mais eminentes colegas do bureau político, mas em 1965 já enviou grupos de estudantes para a província, no contexto de depuração de comunas agrícolas pouco sensíveis às palavras de ordem políticas ou marcadas por níveis de produção medíocres.
Deslancha assim a ofensiva sobre a organização do partido na capital, destituindo primeiro o vice-prefeito, autor de um drama histórico escrito na época das "Cem Flores", e acusado por isso de "oportunismo de direita", e a seguir o próprio prefeito. Para fazer calar boatos de doença, postos maliciosamente em circulação para explicar suas clamorosas intervenções, em pleno verão de 1966 faz circular na imprensa nacional e nas agências de todo o mundo uma telefoto que o mostra nadando majestosamente nas águas do Yang-tsé Kiang. Está com ótima saúde, portanto, e em plena posse de suas faculdades mentais para pôr em ação os Guardas Vermelhos, estudantes de escolas de segundo grau e de universidades, mas também de nível médio, a quem transmitiu uma inflamada palavra de ordem: a de que "todas as verdades do marxismo podem ser resumidas em uma única frase: é justo rebelar-se". Em um país que há dezoito anos é governado pela "ditadura democrática" de um partido único, evidentemente a recomendação é de que se rebelem contra o Partido Comunista, contra seu aparelho, contra aqueles dirigentes "que tomaram a via do capitalismo". Desta vez não é o partido que comanda o fuzil, é o contrário.
O aspecto paradoxal, e de certo modo inexplicável, do desafio não está apenas na inversão do slogan, mas também na temeridade com que o Grande Timoneiro enfrenta a perigosa fase de transição que deveria permitir-lhe desmantelar toda a organização do PCC para reconstruí-la a partir dos fundamentos — uma vez que o objetivo dos Guardas Vermelhos é "sacudir o Velho Mundo, estilhaçá-lo, pulverizá-lo e criar o caos". É como se o anárquico Bakunin se vingasse finalmente do velho Marx, ou como se Lev Trotski tivesse ressurgido para aniquilar finalmente a mais que maldita burocracia que arruinou a sua feroz Revolução de Outubro. Mas, como é altamente improvável que um velho comunista como Mao tenha se convertido de fato à feliz desordem libertária, pode-se suspeitar de que, à raiz de mais esta clamorosa reviravolta, as motivações sejam diversas. No plano político, com a Revolução Cultural ele joga em seu nome e no dos sucessores que designa, Lin Piao e a própria mulher, em uma cerrada luta pelo poder contra os dirigentes mais realistas, como o Presidente da República Liu Xao-chi e o secretário-geral do PCC, Deng Xiaoping. No entanto, no apelo aos antigos valores do movimento revolucionário poder-se-ia também entrever um desesperado retorno do presidente septuagenário à juventude que, no fundo, se materializa nos Guardas Vermelhos.
De qualquer modo, é surpreendente a condescendência com que o bureau político, o Comitê Central e toda a máquina do partido reagem ao ciclone que varre os céus da China. Agitando o Livro Vermelho, exaltando suas máximas e aprendendo-as de cor, saudando em Mao "o grande mestre, o grande chefe, o grande piloto", os jovens vão dar origem a uma infernal mistura de violência e fanatismo que dará arrepios de prazer nos burgueses vermelhos da velha Europa. Sua primeira aparição oficial acontece no dia 18 de agosto do ano fatal, na famosa Praça Tienanmen, onde uma estudante amarra a faixa dos Guardas Vermelhos no braço direito do presidente. A primeiro de outubro, dia de festa nacional, a mesma praça recebe um milhão e meio de chineses, que saúdam o seu líder, chamando-o textualmente de "grande duce" e pedindo que fique com eles para sempre. Duas semanas depois, outra oceânica aglomeração de Guardas Vermelhos, ladeados por estudantes revolucionários e professores, se apresenta sob o céu azul de Pequim e o "dourado esplendor" do sol, encerrando-se com as majestosas notas do hino O Oriente é Vermelho, no qual, segundo a imprensa oficial, estaria "o momento mais feliz que o povo esperava, quer de dia quer de noite". O Presidente Mao, Lin Piao e outros membros da direção afundados em nove carros abertos e saudados por "altos gritos de alegria" passam em revista aquela multidão de alucinados. Já estão desaparecendo no horizonte como visões celestiais quando os estudantes se apressam a registrar na primeira página do Livro Vermelho uma frase que parece extraída do livro Coração, de Edmundo De Amicis: "Este é o momento mais feliz e mais inesquecível de minha vida: vi o Presidente Mao, o sol vermelho que jamais se põe." O fetichismo que Stalin, Mussolini e Hitler alimentaram nunca atingiu cimos tão elevados.
Na realidade, os anos que vão do início da Revolução Cultural até seu fim, entre 1966 e 1968, provam a incomparável maestria do Grande Timoneiro no uso da palavra e da propaganda, e, ao mesmo tempo, sua crescente confusão mental, confirmando a suspeita de que esta última guinada tenha nascido exclusivamente de seu rancor à resistência oposta, mesmo que da maneira mais discreta possível, pelos dirigentes do partido às insensatas diretivas que culminaram na catástrofe do Grande Salto adiante. São instrumentos de sua vingança uma mulher ambiciosa e temperamental que quer fazer-se passar por uma grande intelectual, um general medíocre como Lin Piao (de quem se diz que tinha um passado de fumador de ópio) e uma geração de estudantes embebidos de fanatismo e desejosos de escrever páginas de história gloriosas como a de seus pais revolucionários, os rapazes da Guarda Vermelha, entre os quais não poucos saídos das famílias de "negros", ou seja, pertencentes às classes aniquiladas pelo comunismo como inimigos do povo. A Revolução Cultural é para eles um modo de resgatar o anátema que pesa sobre sua origem social e vai assim ser realizada com a maior violência possível.
No período inicial do movimento, entre 1966 e 1967, o alvo desta violência é representado pelos intelectuais e por quadros políticos intermediários, já que os que estão em nível mais alto na hierarquia mantêm a cabeça baixa, temerosos de se comprometerem e incapazes de deter o furor do presidente. A confusão chega ao máximo quando é autorizada a formação de grupos de Guardas Vermelhos nas fábricas e nos vilarejos, embora seja principalmente nas cidades que tenham seu ponto de força porque as massas camponesas e as autoridades regionais veem com crescente desconfiança o movimento. Milhões de estudantes, galvanizados pelo dazibao de um estudante universitário de Pequim lido na rádio, organizam-se para dar caça aos "monstros e demônios", aos "gênios maléficos", aos "fantasmas bovinos", em suma, aos revisionistas "do tipo Kruchev", que, segundo eles, se aninham entre os professores e os administradores das universidades ou entre as autoridades comunais e provinciais que tentam defendê-los. O inimigo de classe é obrigado a portar cartazes, a usar chapéus ou andrajos muitas das vezes ridículos (sobretudo as mulheres), a assumir posições grotescas (e dolorosas) com a cara borrada com tinta negra, a ficar de quatro e a "latir como um cão", deve perder a própria dignidade, como um certo Professor Ma, "que foi obrigado a comer capim". Como escreve a imprensa comunista da capital, os inimigos do Presidente Mao "são ratos que correm pelas ruas" e devem ser, portanto, mortos sem piedade. Alguns desses "ratos"- por exemplo, em Guangxi, não poucos diretores de colégio — são obrigados a servir à mesa os Guardas Vermelhos. Por outro lado, é o próprio Mao quem explica: "Não queremos gentilezas, queremos a guerra." E, como esclarece o novo ministro de Polícia, amigo da mulher do presidente, "Se as massas odeiam os malfeitores a ponto de não conseguirmos detê-las, então não insistimos".
Esses bravos rapazolas revolucionários não correm riscos: a polícia e o partido deixam-nos agir, ao passo que os intelectuais perseguidos já foram tantas vezes acossados pelo Grande Timoneiro que não têm mais forças para resistir. Insultados pelos rapazes, velhos escritores "imitam um avião" durante horas, outros desfilam pelas ruas tendo na cabeça orelhas de burro e são espancados até sangrarem, em alguns casos vindo a morrer, em outros casos, não menos frequentes, preferindo suicidar-se. Em certa universidade, os professores, não conseguindo mais suportar as sessões de críticas e de insultos, adoecem e acabam morrendo diante de seus perseguidores, enquanto outros se atiram pela janela e um deles se joga "nos gêiseres escaldantes" da região, morrendo queimados. As pessoas se trancam nas casas quando as hordas de Guardas Vermelhos irrompem na cidade e, como chegam a ponto de destruir parte da Grande Muralha para construir pocilgas com os tijolos, Chu En-lai faz erguer muros no Palácio Imperial de Pequim, protegendo-os com um cordão de soldados dos vândalos que queimam manuscritos de escritores e documentos seculares dos mosteiros budistas, saqueiam nos cemitérios as tumbas dos ocidentais, proíbem ameaçadoramente livros e usos estrangeiros, quebram as vitrinas em que estão expostas roupas e sapatos dos países capitalistas e muitas vezes se entregam ao saque de habitações privadas, espancando até a morte os moradores que ousam revoltar-se.
É impossível calcular o número exato de vítimas, mas fala-se em prisão ou expulsão de 60% dos componentes do Comitê Central do PCC, de três quartos dos secretários regionais do partido, de três a quatro milhões de quadros e de quatrocentos mil militares. O balanço é ainda mais grave no que se refere aos intelectuais, pois foram perseguidos, assassinados ou induzidos ao suicídio pelo menos 200 mil entre professores, técnicos, cientistas, escritores e artistas. Não houve um único momento ou um único vilarejo em que os Guardas Vermelhos tenham dado provas de saber administrar seu poder ou tenham pelo menos tentado introduzir no sistema princípios de liberdade, de participação ou de autêntica democracia. Até quando organizaram eleições, elas foram manipuladas seguindo um copião preestabelecido e no contato com o sistema concentracionário, os chamados laogai, a tendência dos jovens do Livro Vermelho foi sempre a de estimular neles a brutalidade. Especialistas em torturas, que as consideram "uma arte" a ser aperfeiçoada com "pesquisas científicas para aumentar seu horror". Como ou mais que os velhos comunistas, consideram a origem social uma marca racial, mesmo que haja entre eles filhos de "negros" que conseguiram se infiltrar até atingir posições de responsabilidade, que exercem com crueldade ainda maior.
Nos primeiros dias de janeiro de 1967, o centro do movimento lança a palavra de ordem da conquista do poder também na periferia, mas onde conseguem estabelecer-se os resultados são desastrosos. Enquanto explodem conflitos violentíssimos entre grupos rivais, as estruturas administrativas desmoronam e a produção industrial cai em queda livre. No decurso de poucas semanas sucedem-se marchas e contramarchas nas relações entre rebeldes, conservadores e o Exército, até porque o Grande Timoneiro já perdeu a rota e diante da guerra de todos contra todos que explodiu no país hesita entre a anarquia e o retorno à ordem. O ponto máximo da crise coincide com o verão de 1968: nos meses que faltam, o Exército Popular recupera o controle total da situação e o movimento dos Guardas Vermelhos é dissolvido, milhões de jovens são enviados para se reeducarem nas mais longínquas províncias e aí ficarão até por dez anos, sendo completamente "ruralizados". Rebeldes, "negros" e expoentes sobreviventes do Kuomintang são exterminados pelos esquadrões de operários comunistas e tropas de soldados, a ponto de falar-se em 170 mil mortos apenas nas regiões meridionais.
É a restauração do regime de partido e o início do fim do mito Mao, que suporta quase que passivamente o contragolpe de mais um fracasso denunciando os primeiros sintomas de decadência física que, oito anos depois, o levarão ao túmulo. Os acontecimentos se precipitam. Entre 1969 e 1972, consuma-se a derrota do Grupo dos Quatro, selada pela marginalização da diabólica Jiang Qing e do "misterioso" desaparecimento de Lin Piao. A facção vitoriosa no PCC é a dos revisionistas, cujo expoente máximo, Deng Xiaoping, depurado e reabilitado "em série", é nomeado vice-primeiro-ministro. Quatro anos depois, desaparecem os dois protagonistas do decênio vermelho: Chu En-lai morre em janeiro de 1976, Mao em setembro, coincidindo com uma extrema e vã tentativa de sua mulher retornar ao poder. Em outubro, o Grupo dos Quatro é definitivamente liquidado pelo novo premier, Hua Kuo-feng, e isto representa a última pá de cal sobre o cadáver de Mao Tsé-tung.
No final de 1978, Deng vai desembaraçar-se igualmente de Hua e conduzir a China para a via das "quatro modernizações": também aqui a imaginosa idealização de uma experiência política única no mundo, uma mistura de despotismo político e semiliberalismo econômico, com a dureza do cárcere para os dissidentes — como os que se manifestam ruidosamente na Praça Tienanmen, mas sem novos massacres — e o temerário relançamento da economia privada e do mercado, equilibrados com a manutenção de um setor público diretamente controlado pelo regime. De qualquer forma, à diferença do que aconteceu na União Soviética, nos países-satélites e nos regimes comunistas correlatos, o Império do Meio fica devendo ao realismo de Deng uma milagrosa sobrevivência. Por quanto tempo, na situação atual, é impossível dizer.
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