Tiranos

Antonio Ghirelli · Capítulo 3 de 10 · parte 3/3

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Tiranos

Stalin

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Não é fácil encontrar uma explicação para este segundo momento do "grande terror". Às vésperas de uma guerra mais do que provável com a Alemanha, e talvez com o Japão, Stalin manda fuzilar, sem processo, três dos cinco marechais da União Soviética, 16 dos 17 comandantes do Exército, 60 dos 66 generais do corpo do Exército, 133 dos 199 generais de divisão, 221 dos 397 generais de brigada, além de quase todos os almirantes da frota e até grande parte dos comissários políticos do partido e dos agentes da NKVD infiltrados entre os militares. Não se pode crer que suspeitasse realmente de sua culpa. As acusações para instigá-lo são fabricadas por Ezov ou indiretamente sugeridas pela Gestapo que, tendo notícia das operações e visando a enfraquecer o Exército Vermelho, faz chegar ao Kremlin, por vias transversas, uma falsa correspondência a respeito de uma imaginária conspiração entre Tuchacevski e seus colegas alemães — documentos que, naturalmente, a corte marcial considera autênticos. Em suma, pode-se crer que, na iminência de uma agressão hitlerista que se anuncia como fatal, o secretário-geral tenha decidido eliminar um poderoso centro de poder, pelo qual poderia vir a ser chamado a responder quanto a suas derrotas iniciais.

Com os chefes supremos do Exército Vermelho são também liquidados quase todos os oficiais que haviam amadurecido em preciosas experiências na Espanha e na China durante a invasão japonesa.

A operação começa, com uma rapidez fulminante, em junho de 1937. No dia 15 é constituída a corte marcial para julgamento dos supostos traidores, formada pelos dois marechais sobreviventes, Budenni e Bliucher, e mais cinco generais de garantida obediência stalinista. A 12 de julho, coroando um processo secretíssimo, comunica-se oficialmente que todos os acusados foram fuzilados. Em seguida, Vorosilov revela aos leitores do Pravda que, antes da sentença, os miseráveis fizeram, evidentemente, uma confissão completa. O método é sempre o mesmo: o chefe da NKVD envia a Stalin uma lista dos indivíduos suspeitos, esclarecendo que a polícia está efetuando investigações ulteriores. O ditador restitui infalivelmente a listagem com esta sucinta anotação: "Deixem de lado as investigações. Prendam-nos." Não há setor algum da sociedade soviética que não tenha sido alvo da repressão: no triênio 1936-1939, o número de soviéticos aprisionados, deportados ou justiçados chegaria a 4 ou 5 milhões de indivíduos, dos quais apenas 10% conseguiriam sobreviver.

O terror se exerce, particularmente neste período, também sobre comunistas estrangeiros: quase todos os alemães são liquidados ou, depois do acordo Molotov-Ribbentrop, em 1939, entregues aos nazistas; são ainda mais numerosos os poloneses depurados sob as acusações mais disparatadas, de trotskismo a espionagem para seu governo reacionário. Dos iugoslavos capturados quando em peregrinação a Moscou antes de estourar a guerra salvou-se apenas Tito, que consegue escapar em tempo para Belgrado; os italianos acabam no gulag sem que Togliatti mova um dedo para salvá-los, tal como durante o conflito com os infelizes prisioneiros da Armir* de Mussolini.

 

*Armir (Armata Italiana in Rússia) — Corpo expedicionário

italiano enviado por Mussolini para apoiar a ofensiva alemã na Rússia, em uma expedição que se mostraria desastrosa. (N. T.)

A propaganda do partido e o diabólico fascínio do secretário-geral criaram uma atmosfera de medo tal e, ao mesmo tempo, uma tão "alucinada exaltação" que não se registra um único episódio de rebelião coletiva e, ao contrário, manifesta-se um aspecto típico da psicologia popular nos regimes totalitários: o homem da rua e o próprio militante estão convencidos de que faz parte das atribuições dos chefes do PUCS, ou dos funcionários da polícia política, a responsabilidade pelas injustiças e pelos delitos cometidos sem o conhecimento de Stalin, o qual, por sua vez, faz o papel de bom pai para o povo como nenhum outro ator do mundo: Napoleão tomaria com ele lições, e em matéria do grande Talma ele não tem necessidade de mestres.

Oficialmente, o "tornado" do terrorismo de Estado se aplaca no início de 1938, mesmo que na prática se manifeste ainda furiosamente por muitos meses. Para encerrar este capítulo recorre-se, mais uma vez, a um expediente já aprovado brilhantemente: descarregam-se os erros, mal-entendidos e "excessos" nos dirigentes intermediários e nos quadros provincianos, carreiristas que exageraram nas expulsões do partido e nas deportações em massa, e que esquecem o princípio basilar do comunismo que, segundo o incomparável secretário-geral, seria "a atenção e a solicitude para com o indivíduo". Para confirmar este seu momentâneo acesso sentimental, em março de 1939, no decurso dos trabalhos do XVIII Congresso do PCUS, ele decide que os militares sobreviventes sejam liberados da prisão ou do gulag.

Entre estes, juntamente com Gorbatov e Tupolev — o engenheiro que idealizou o melhor aparelho soviético de combate — está o General Konstantin Rokossovski, futuro marechal, um comunista polonês que é recebido por Stalin no Kremlin: "Espancaram você?", pergunta o secretário-geral.

"Sim, companheiro Stalin."

"Entre nós", lamenta, imperturbável, o georgiano, "ainda há muita gente que está pronta a tudo para agradar a seus superiores."

"Tenho medo", ousa confessar Rokossovski, "de que 1937 venha a se repetir."

"O ano de 1937 não se repetirá."

No mesmo discurso, dirigido contra os "excessos" dos "carreiristas", Stalin vai a ponto de afirmar que a NKVD na realidade não abjurou do princípio elementar do comunismo, mesmo que, em dezembro do mesmo ano, ele tenha providências para livrar-se de Ezov, fazendo com que desapareça misteriosamente e seja substituído por seu compatriota Beria, personagem menos brutal, mas ainda mais bajulador e ambíguo, que será justiçado somente depois da morte do ditador, por iniciativa de seus sucessores.

 

Guerra e paz

 

O senhor do Kremlin continua a enquadrar, a sua maneira, inimigos potenciais ou imaginários. Mas, ao mesmo tempo, volta a concentrar-se na situação internacional, que se torna novamente dramática, e, como sói acontecer quando se ocupa de política externa, o faz com grande espírito prático, sem qualquer concessão ao preconceito ideológico, e menos ainda, como muitas vezes sucede com Hitler e Mussolini, à vaidade pessoal. Sua obsessão é de que a URSS possa vir a ficar esmagada entre o Japão e a Alemanha. Para bloquear a ameaça do Oriente, se empenha em favorecer um entendimento, mesmo que provisório, entre nacionalistas e comunistas chineses; mas vai encontrar dificuldades bem maiores na outra vertente, na qual se trata de refrear o alastrante expansionismo do Führer, que, entre 1936 e 1939, recolhe uma messe de extraordinários sucessos: o apoio à vitoriosa revolta de Franco na Espanha, a imposição do Anschluss* à Áustria e a divisão da Tchecoslováquia em dois protetorados alemães. E agora o rolo compressor está se encaminhando para a Polônia, perigosamente vizinha da fronteira soviética. Há, pois, razão para o alarme vermelho.

*Anschluss — Anexação da Áustria à Alemanha, desejada pelos

pangermanistas e imposto por Hitler em 1938. (N. T.)

O realismo não exclui o medo, as oscilações, os passos em falso.

Inicialmente, até a primavera de 1939, Stalin pensa em uma ação em comum com ingleses e franceses, apesar de suas concessões em Mônaco; depois começa a abrir caminho em sua mente a convicção de que, para ganhar tempo, talvez seja indispensável fazer um acordo, de qualquer forma, com Hitler, na esperança de que fascistas e capitalistas acabem se destruindo. Vai neste sentido a renúncia do comissário do Exterior, Maksim Litvinov, que funcionava com os ocidentais, mas aos olhos dos nazistas cometeu o imperdoável erro de ser judeu e deve, por isso, entregar seu posto ao fidelíssimo Viaceslav Molotov, que de judeu tem apenas a mulher. A mudança da guarda vai começar em 3 de maio. São necessários três meses de paciente preparação antes de se chegar, em 23 de agosto, a um encontro que deixará o mundo estupefato e indignará muitos comunistas estrangeiros: na cúpula do Kremlin, entre Molotov e seu homólogo alemão, o ex-vendedor de champanha Ribbentrop, portador de uma espécie de ultimato. Como o Führer está com muita pressa em vista do início da agressão à Polônia, os dois ministros assinam a toque de caixa um tratado de não-agressão, que inclui um codicilo secreto no qual as partes contratantes se comprometem a dividir o território polaco, aliás ainda não invadido, e de trocar matérias-primas estratégicas e outros produtos úteis em caso de guerra. A cerimônia é honrada com a presença do secretário-geral, que brinda à saúde do Führer, sublinhando amavelmente a popularidade de que goza o chanceler na nação alemã.

No decurso de poucos dias, a guerra-relâmpago da Wehrmacht e da Luftwaffe aniquila a heroica resistência polonesa: é uma outra obsessão para Stalin, que, em setembro, se apressa a estabelecer com os novos amigos camisa-marrom um segundo acordo, que vem seguido de uma declaração que deixa estupefatos ingleses e franceses, porque lhes atribui uma responsabilidade gravíssima, caso continuem a guerra agora que o problema polonês já está "resolvido". Por este segundo pacto, soviéticos e hitleristas se comprometem a "sincronizar a ação" das respectivas polícias nos territórios ocupados e também a intercambiar detentos — uma cláusula que a NKVD interpretará no sentido de confiar aos cuidados da irmãzinha Gestapo comunistas alemães encarcerados pelos mais diversos motivos políticos nas prisões soviéticas, muitos dos quais judeus. Estipula-se ainda que a URSS fará evacuar os territórios de etnia polaca assim que forem ocupados, obtendo, porém, em troca, a cessão da Lituânia, uma troca honesta, graças à qual Moscou completará o tríptico báltico de modo a manter os alemães a distância naquela região de fronteira.

O reforço de uma aliança tão estreita com a Alemanha, no momento em que as tropas hitleristas estão se apoderando de quase toda a Europa, faz com que caiam em dramática crise muitos partidos comunistas estrangeiros, sobretudo o francês, ao qual o Kremlin manda que sabotem o já difícil esforço bélico de seu país. Mas isto é um detalhe marginal que não perturba Stalin, o qual, ao contrário — sempre visando a proteger as fronteiras de seu país —, lança um seco ultimato à Finlândia, intimando-a a aceitar a sorte a que foram entregues lituanos, estônios e letônios. Não é um gesto feliz. Entre dezembro de 1939 e março de 1940, o pequeno exército do Marechal Mannerheim opõe ao Exército Vermelho uma resistência tão memorável que suscita a admiração de todo o mundo civil, induzindo o próprio Kremlin a conceder-lhes uma paz digna, que retoca os limites da Finlândia com a URSS, mas salvaguarda a sua independência. As dificuldades encontradas na canhestra operação sugerem algumas modificações na cúpula do Exército, na qual o jovem Marechal Timochenko assume o lugar de Vorosilov e algumas reformas formais, entre as quais a ressurreição dos galões, dos rituais e dos privilégios do antigo exército dos Romanov; mas a restauração protocolar naturalmente não compensa de imediato, em termos de eficiência, os terríveis vazios abertos com o "expurgo".

A derrocada da França elimina as últimas ilusões do ditador soviético, que esperara até o último instante um prolongado e recíproco desgaste entre os alemães e os aliados ocidentais. A assinatura de um tratado de não-agressão com os japoneses, em abril, representa um motivo provisório de alívio, mas o pânico novamente se apodera de Stalin, que a 6 de maio decide assumir as funções de presidente do conselho, cargo que a partir de 1922 não havia mais solicitado. Agora o aceita porque, evidentemente, sente avizinhar-se o furacão, tanto que, nos contatos com os alemães, alterna cada vez mais exorbitantes pretensões territoriais com humilhantes protestos de amizade, chegando até a fingir ignorar ou subestimar o impulso cada vez mais agressivo da Wehrmacht em direção às fronteiras da URSS. Embora os serviços secretos, os espiões e os desertores das patrulhas alemãs o informem minuciosamente a respeito de planos de um ataque iminente, o homem mais desconfiado da Terra minimiza, desmente e in extremis transmite aos comandantes soviéticos instruções as mais absurdas, como a de esperarem uma ordem explícita antes de revidar eventuais "provocações" dos hitleristas.

Parece quase antecipar o que faria Badoglio em 8 de setembro de 1943. Mas Hitler não provoca, Hitler ataca: havia decidido, há um ano, que atacaria a União Soviética e está fazendo isto. Às 3h45min do dia 22 de junho de 1941, desencadeia a chamada "Operação Barbarruiva": um quarto de hora depois, enquanto dorme em sua dacha em Kuntsovo, o Presidente Stalin é avisado de que começou a segunda invasão da santa Rússia depois da de Napoleão Bonaparte.

Para ele, pessoalmente, repete-se a singular mutação que Hitler e Mussolini já haviam sofrido: o ditador político se torna (ou se ilude pensando tornar-se) um estrategista militar, um condottiero. No famoso "relatório secreto", Kruchev é particularmente sarcástico a propósito do "gênio militar" de seu predecessor, afirmando que ele havia influído de modo desastroso na condução das operações bélicas devido a sua histeria, presunção e incompetência, embora posteriormente a propaganda do regime viesse a exaltar seu papel com grotesca ênfase. Na sala espalha-se uma onda de irrefreável hilaridade quando Nikita Sergei [Kruchev] revela que o companheiro Stalin, exatamente como o ditador da obra-prima de Charlie Chaplin, preparava seus planos de guerra no mapa-múndi. Ao aludir depois ao torpedeamento de Zukov, "o verdadeiro vencedor da guerra nacional", o orador relembra que, depois do grande empreendimento realizado pelo Exército Vermelho a custos tão altos, o vodz não havia hesitado em degradar muitos comandantes que haviam contribuído de maneira decisiva para tal, porque ele não suportava que fossem reconhecidos os méritos de outros que não ele próprio, com suas dragonas douradas e seu uniforme de marechal da União Soviética.

Na verdade, durante os quatro e terríveis anos do conflito com os alemães, o homem alterna momentos de desânimo com períodos de extraordinária energia, erros clamorosos, iniciativas, intuições e discursos capazes de galvanizar os combatentes e o povo. No dia seguinte ao 22 de junho, foi acometido de uma crise de nervos durante uma reunião na Defesa, abandonando-a furioso e refugiando-se em sua casa de campo de Kuntsovo para ali ficar até o final do mês. No entanto, quando uma delegação do Politburo vai instar com ele para que retorne a Moscou, retoma o controle da situação, dirigindo aos russos o célebre apelo pela rádio: "Companheiros, cidadãos, irmãos e irmãs..." É o começo de uma guinada histórica, porque, a partir daquele momento, a defesa contra a agressão nazista se torna uma "guerra patriótica", cessam todas as palavras de ordem e rituais do léxico bolchevique, renuncia-se até mesmo às perseguições à Igreja ortodoxa enquanto os nomes mais gloriosos da Rússia czarista, a começar pelos vencedores dos franceses em 1812, tornam-se a memória sagrada dos comandantes soviéticos.

Em relação aos generais, como Timochenko e Zukov, Stalin mantém, de início, sua proverbial desconfiança e a pretensão de sobrepor à sua competência profissional suas visões estratégicas pessoais, a ponto de atribuir-se a tarefa de comissário da defesa e de comandante-em-chefe das Forças Armadas, obrigando Zukov, o único colaborador que ousa fazer-lhe frente, a deixar o Estado-Maior. Mas quando, no verão de 1942, a Wehrmacht aperta o cerco a Leningrado, chegando a apenas 50 quilômetros de Moscou, e prepara-se para abocanhar Stalingrado (a sua velha Carycin), então chama de volta Zukov e se resigna não só a deixar aos militares a condução das operações, como a acabar com os comissários políticos. Em termos de propaganda, a sua guerra se torna um extremado esforço no sentido de uma afirmação no mundo do antifascismo e da democracia, dissolvendo qualquer ligação com os comunistas estrangeiros em nome da cruzada pela libertação dos povos. A contribuição em sacrifícios e sangue do povo soviético se traduz no terrível balanço de mais de 20 milhões de mortos, 32 mil fábricas destruídas, 1.700 cidades e 70 mil vilarejos arrasados, cerca de 100 mil fazendas incendiadas e destruídas pelo inimigo. Entre os mortos está inclusive o primeiro filho de Stalin, assassinado por uma sentinela alemã quando tentava fugir de um campo de concentração nazista. Hitler havia oferecido ao ditador georgiano a troca do jovem pelo marechal Von Paulus, capturado em Stalingrado, mas Stalin recusara.

Em termos políticos, a União Soviética sai da guerra como a segunda potência mundial, a única capaz (até certo ponto) de confrontar-se com os Estados Unidos no momento em que a estrutura e a prosperidade do Império Britânico estão agora duramente redimensionadas. O epílogo está sendo triunfal: a 2 de maio de 1945, o Exército Vermelho içara a bandeira com a foice e o martelo sobre os escombros da Chancelaria de Hitler; a 24 de junho, uma imensa multidão, comovida e entusiasmada, saudara o grandioso desfile dos vencedores diante do mausoléu de Lenin, tendo à frente o Marechal Zukov em seu cavalo branco. A Stalin, que acompanha a parada juntamente com os dirigentes máximos do país, não agrada o destaque dado ao marechal e o envia, no ano seguinte, para uma guarnição de província para que medite sobre os riscos do bonapartismo. A euforia da vitória apaga também entre os aliados a mancha das fossas de Katyn, onde tinham sido descobertos os cadáveres de cerca de 10 mil oficiais poloneses, assassinados na primavera de 1940, e que a propaganda soviética havia divulgado como um dos mais horrendos crimes de guerra dos nazistas. Até Churchill engolira o fantasioso relato de Stalin, segundo o qual "elementos polacos de tendência fascista", isto é, membros do governo polonês no exílio em Londres, teriam atribuído o delito aos russos, tudo de acordo com Hitler.

No imediato após-guerra, a ingenuidade dos aliados ocidentais e a alternância na cúpula da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos permitem que o Kremlin tenha uma enérgica iniciativa que vem de longe, ou seja, dos primeiros contatos com Churchill e Roosevelt, quando buscavam selar um acordo contra o Terceiro Reich. O objetivo da política externa soviética é, seguindo o espírito dos acordos de Yalta, a posse permanente dos países da Europa Oriental libertados pelo Exército Vermelho no decurso do impetuoso avanço da última primavera. A morte do presidente americano e a inesperada derrota eleitoral do primeiro-ministro conservador inglês por obra dos trabalhistas interrompem, logo finda a guerra, um diálogo que na realidade nunca foi fácil e que se torna ainda mais dificultoso porque Harry Truman, o sucessor de Roosevelt, é um provinciano astuto e pragmático, que não tem a menor ilusão a respeito da formidável arremetida soviética em relação ao Ocidente e, de saída, anula a lei "de aluguéis e empréstimos" que permitira aos russos alimentar sua heroica resistência com uma poderosa massa de ajuda americana.

A 6 de agosto de 1945, o lançamento da primeira bomba atômica sobre Hiroshima, seguida em menos de um mês pela rendição do Japão, põe os americanos em posição de evidente vantagem, facilitando uma política de firmeza em relação ao comunismo, afirmada com um grande discurso pronunciado de surpresa em Fulton, Missouri, em presença do Presidente Truman, pelo ex-Premier Winston Churchill. É a denúncia da nova ameaça que pesa sobre o mundo livre com a estratégia expansionista da URSS, constituída não só pelo vitorioso Exército Vermelho, como também pelas "quintas-colunas" representadas pelos movimentos comunistas que agem no Ocidente. Como escritor clássico que é, e não por acaso premiado com o Prêmio Nobel de Literatura, Sir Winston Churchill inventa uma definição destinada a tornar-se famosa, quando afirma que caiu sobre a Europa, do Báltico ao Adriático, uma pesada "cortina de ferro". Truman transformará o discurso de Fulton em uma doutrina estratégica, a da "contenção do comunismo em todos os continentes", e diante da dura reação de Stalin deflagrará, por sua vez, a da "guerra fria", que se prolongará na prática, salvo alguns esporádicos parênteses de distensão, até a queda do Muro de Berlim, no ano de 1989.

De imediato, depois da entrada do Exército Vermelho na capital alemã, já totalmente destruída, e da grande parada de Moscou, o ditador georgiano encontrou em Potsdam os novos representantes do Ocidente, Truman e Attlee, entre julho e agosto de 1945, em uma reunião particularmente fria e formal, depois da qual — encerrada também a guerra com o Japão — desapareceu de circulação por várias semanas, vítima, talvez, de misteriosa doença. Voltará ao Kremlin apenas no início do ano seguinte, quando já não lhe restam mais que oito anos de vida, que não serão fáceis nem gloriosos.

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A partida

 

Apenas dois anos se passaram depois do vitorioso fim da guerra e as relações com os aliados ocidentais estão já deterioradas, não só pela desconfiança recíproca e gritante incompatibilidade a respeito dos respectivos sistemas político-econômicos, como também porque o marechal, embora respeitando rigorosamente (por exemplo, na Grécia e na Itália) a divisão das zonas de influência, delega peremptoriamente aos dirigentes comunistas que agem nos países do Ocidente a tarefa da transformá-los mais ou menos gradativamente em outros dóceis satélites. As nuvens começam a adensar-se no verão de 1947, quando os americanos intervém em Roma para induzir De Gasperi a afastar o PCI do governo, oferecendo simultaneamente à Europa a grande oportunidade do Plano Marshall para sua reconstrução. Stalin proíbe que os governos da Polônia e da Tchecoslováquia o aceitem e, quando Georgi Dimitrov — já secretário do Komintern na Alemanha e corajoso protagonista do processo erguido contra ele pelos nazistas pelo incêndio do Reichstag — lança um projeto que visa a constituir uma federação balcânica, rejeita-o como uma provocação antissoviética. Em 1948 registram-se outros significativos episódios de "satelitização". No final de fevereiro, os comunistas tchecoslovacos dão um violento golpe de Estado, levando seu principal aliado liberal, o ministro das Relações Exteriores, Tomás Garrigue Masaryk, a suicidar-se. Na primavera do mesmo ano, o Kominform, recuperado das cinzas do velho Komintern, mas representando apenas uma frágil imitação sua, excomunga Tito, definindo-o como um agente do imperialismo, e com ele renega a experiência iugoslava de autogestão. Em junho, finalmente, os soviéticos bloqueiam o acesso por terra a Berlim, em represália à unificação da Alemanha Ocidental, mas uma gigantesca ponte aérea organizada pelos americanos minimiza esta operação.

A estratégia do velho georgiano consolida os regimes comunistas nos países da chamada democracia popular, mas reforça a frente adversária. A 4 de abril de 1949, constitui-se de fato a Aliança do Atlântico, que terá na OTAN seu instrumento militar. A 8 de maio nasce em Bonn a República Federal Alemã, sobre a qual Moscou lança violentíssimas acusações de revanchismo e de nostalgia nazista. É neste momento que no grupo dirigente soviético começam a surgir difusas inquietações quanto à capacidade de Stalin e de seus mais antigos colaboradores, como Molotov, Kaganovic e Mikoian, de enfrentar os problemas da reconstrução e do confronto com o Ocidente, ainda mais por estar emergindo na URSS uma geração de jovens tecnocratas que cresceram sob o fogo da guerra e vêm temperados com uma visão mais moderna da sociedade. Stalin percebe os sinais da mudança e procura absorvê-los com uma recomposição do governo, que acaba reforçando Malenkov e Beria, mas, ao mesmo tempo, cede a mais uma de suas crises obsessivas, desencadeando mais uma onda de repressão.

O velho senhor do Kremlin se prepara, assim, para festejar os seus setenta anos em uma atmosfera sombria, de solidão e de suspeita: a imensa carga de responsabilidade que pretende manter depois da vitória, seu caráter colérico e violento, o desgaste físico provocado pelo abuso de alimentos pesados, de bebidas alcoólicas e de fumo aceleram seu declínio natural.

Quando, porém, em 1949, atinge a casa dos setenta anos, a ocorrência é festejada em todo o mundo pelos comunistas e por não poucos socialistas, com um grotesco culto à personalidade stalinista. Falando, por exemplo, no Comitê Central do PCI a respeito das oferendas e presentes que chovem sobre o Kremlin de todas as partes do planeta, Palmiro Togliatti se pergunta por que isto acontece e, com uma ênfase muito acima da habitual, responde: "A verdade é que a pessoa do companheiro Stalin tem no mundo uma parte tal, que jamais foi atingida por nenhum outro dirigente de partido, de povos, de Estados. É inútil tentar compará-lo com outros desses dirigentes, cujo nome até já desapareceu da memória dos povos ou, se aí permaneceu, tem um lugar bem diferente daquele ocupado por Stalin..." "Se pensarmos", continua o secretário do Partido Comunista Italiano, "na vida de Stalin, imediatamente de fato ela golpeia não só a inteligência como a própria imaginação dos homens, por ser algo de grandioso, de maravilhoso, que se assemelha a um portento."

Provavelmente um homem diferente do portentoso georgiano depois de uma guerra tão dura e tão triunfantemente concluída teria concedido a seu povo e ao movimento comunista mundial uma trégua de serenidade, mas Dzugasvili não pensa nisto, nem mesmo por um instante. No ano mesmo em que completa setenta anos, ordena a eliminação de três personalidades eminentes do movimento comunista internacional: Traicho Kostov e Laszlo Raik são mortos, respectivamente, na Bulgária e na Hungria, ao passo que, na Polônia, Wladislaw Gomulka goza de um tratamento de favor, indo apenas para a prisão. Quando chega a Moscou, Mao Tsé-tung, cuja Longa Marcha se concluiu triunfalmente com a fundação da República Popular da China, em Pequim, encontra uma acolhida bastante fria, mas as dimensões de seu país e de seu empreendimento são tais que Stalin, a 14 de fevereiro de 1950, autoriza a assinatura do pacto sino-soviético.

A Ásia se torna o centro de gravidade da política e da angústia mundial na semana seguinte à assinatura do acordo, quando o Exército da Coreia do Norte, governada por um regime comunista de tipo semifeudal, e evidentemente por instigação dos russos, invade a Coreia do Sul, ligada aos americanos. Apenas cinco anos se passaram depois do fim do hediondo conflito que varreu da face da Terra os nazifascistas e o imperialismo japonês, e já se esboça a ameaça de uma Terceira Guerra Mundial, sobre a qual pesa, por acréscimo, a ameaça da guerra atômica. Por sorte, no verão de 1953 a diplomacia prevalece nos Estados-Maiores e, ao cabo de longas e laboriosas negociações, consegue-se apagar o perigoso incêndio. A sensação geral, porém, é de que Stalin tenha visto seu golpe frustrado e que sua sombria velhice não seja uma boa conselheira, sobretudo quanto a decisões que dizem respeito às regiões asiáticas, onde será cada vez mais necessário levar em conta o colosso chinês.

Em sua pátria, o tirano não encontra obstáculos a suas obsessivas perturbações. Se durante a guerra "patriótica" se vira obrigado a conceder a seus súditos uma trégua ideológica em troca de sua contribuição e sangue, concluída a paz, ele decide apertar os freios, porque está sendo obrigado a confrontar-se com o bloco capitalista e, internamente, com milhões de soldados que voltam para casa depois de terem experimentado as tentações do Ocidente. Desta vez os primeiros revoltosos que identifica são os revisionistas, os da facção de direita ou de esquerda do movimento, mas os intelectuais também se mostram seduzidos pelo cosmopolitismo e pelo sionismo, ou até pelas seduções da cultura burguesa, serpente venenosa que se aninha tanto na literatura quanto na arte, tanto na filosofia quanto na ciência, e até mesmo na economia, trazendo uma armadilha mortal à pureza da doutrina de Marx e Engels, de Lenin e de seu melhor discípulo, Iosif Visarionovic, que, para evitar qualquer contaminação, jogará o peso do próprio prestígio em todos os debates possíveis e imagináveis.

E, se antes da guerra a desconfiança e a cólera do vodz haviam se concentrado em seus camponeses, seus antigos revolucionários e seus generais, agora é a vez dos escritores, poetas, músicos, gente de teatro e de cinema, cuja inteligência e sensibilidade representam objetivamente à antítese do fúnebre conformismo stalinista. Os maiores nomes da cultura soviética, de Bulgakov a Pasternak, de Shostacovich a Prokofiev, da Achmatova a Brodski, se veem alvo de uma obtusa perseguição que os marginaliza da sociedade, priva-os da liberdade e do trabalho e muitas vezes os relega ao inferno daquele gulag cuja infâmia Aleksandr Solzenicyn eternizou em Um dia na Vida de Ivan Denisovic — uma ofensa imperdoável não só à dignidade da pessoa humana, como aos princípios fundamentais do socialismo, aos quais se atém, até mesmo no nome, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Sentinela incorruptível da pureza ideológica, André Zdanov, homem culto, fanático e impiedoso, será prematuramente arrancado do afeto de suas vítimas por sua debilidade de saúde: com Malenkov e Beria, Mikoian e Bulganin constitui um pequeno grupo de colaboradores no qual Stalin confia, embora apenas até certo ponto, prevendo que, quando não estiver mais ali, eles ficarão como "gatinhos cegos".

Mas os intelectuais, os artistas, os cientistas dissidentes não são as únicas vítimas do furor senil de Stalin. Pelo contrário, entre 1947 e 1952, o campo de concentração da União Soviética irá rivalizar com o hitlerista pelo menos no que se refere à brutalidade de tratamento usado com os deportados e à desoladora infâmia das condições ambientais. "Bem-vindos ao inferno" é a frase que encima a entrada de uma fábrica em uma cidade da Sibéria setentrional, Norilsk, onde se calcula que tenham morrido 17 mil dos deportados aí chegados, recebidos, tal como se deu com os judeus de Mauthausen e de Büchenwald, pelos agentes da polícia política encarregados de cuidar deles, com uma cordial mensagem: "Vocês foram trazidos para cá não para viver, mas para sofrer e morrer. Se sobreviverem, das duas, uma: ou porque trabalharam menos do que deviam, ou porque comeram mais do que lhes tocava." As condições gerais são as de todo campo de trabalho forçado, mas, naturalmente, nas regiões siberianas mais próximas do Círculo Polar Ártico (a mesma zona em que em sua juventude tinha sido exilado Stalin) a aspereza do clima e do ambiente acentua o horror.

Ettore Mo colheu os testemunhos dos poucos sobreviventes do campo e do frio siberianos, que oscilava entre 40 e 50 graus abaixo de zero, "a grande e desconhecida carnificina dos condenados à prisão perpétua de Norilsk": a maior parte dos deportados é descarregada em uma portinhola, a 100 quilômetros a oeste, e daí, "como uma grande manada", é levada a pé para as minas ou para trabalhar durante meses com pás e picaretas na construção de uma ferrovia. Muitos desses infelizes enfrentaram a fúria dos mares árticos em decrépitos barcos e retornaram à terra transidos de frio, esfomeados e inclusive "obscenamente emporcalhados, porque durante uma tempestade os barris de bordo, cheios de excremento e de urina, caíram em cima deles". Os turnos de trabalho nas minas ou na fábrica são de doze horas, com apenas dez minutos de intervalo para aquecer as mãos. Quem não respeita os ritmos de produção e as cotas estabelecidas pelos chefes está arriscado a ser fuzilado: os mortos são cerca de trinta por dia e acabam em um cemitério do tamanho do de Moscou. A fome e o desespero provocam reações de delírio, como a de levantar-se durante a noite para caçar as ratazanas do barracão e cozinhá-las em uma lata, ou cortar os próprios dedos congelados com um golpe de machado para conseguir alguns dias de descanso na enfermaria. E muitas vezes os delinquentes comuns matam os criminosos políticos para serem levados a processo e saírem do gulag.

A repressão atinge, neste período, até os parentes e os amigos mais íntimos do tirano, ora escravizado também às infernais intrigas de Beria, além de suas próprias obsessões. Nem os Svanidze, nem os Alliluev, os familiares das duas esposas de quem é viúvo, são poupados por Stalin, que não hesita em mandar prender e deportar até mesmo Zenia, sua cunhada, que havia sido por algum tempo sua amante, além de sua melhor amiga, uma mulher que lhe era totalmente devotada, a ponto de acreditar nele até depois de sua injusta condenação. À filha Svetlana, que lhe pergunta por que suas tias foram presas, o marechal explicará: "Falavam demais. Sabiam demais e falavam demais. E isto dá vantagens a nossos inimigos."

Com esses amigos e parentes também acabam na Lubianka seus próprios parentes, alguns dos quais de origem judaica. Stalin jamais se declarou antissemita, mas durante e depois da guerra teve o maior cuidado em não denunciar abertamente o Holocausto e no após-guerra infligiu por duas vezes golpes sobre personalidades desta etnia, acusando-as de complôs antissoviéticos tramados com fundamentos sionistas. A 13 de janeiro de 1948, um misterioso bandido assassina Solomon Michoels, um grande intérprete do teatro iídiche, que no início da Operação Barbarruiva havia criado um comitê antifascista judaico, incondicionalmente alinhado ao PCUS. Foi denunciado por dois membros do Comitê, "pisoteado de maneira selvagem" na Lubianka, mas, na realidade, quem o pôs a perder foi o projeto, submetido ao ditador, de criar uma república judaica na Crimeia: delito de lesa-majestade da União, pecado nacionalista. No decurso desta primeira onda de perseguições antissemitas, a própria Paulina Molotov, mulher do ex-ministro das Relações Exteriores, foi mandada para o exílio, sem que o velho bolchevique tenha ousado erguer a voz, nem mesmo quando o ditador ordenou bizarramente que os dois maduros esposos se divorciassem.

A segunda onda racista acompanhará os últimos anos de vida do marechal. O velho tigre já está, a esta altura, com o fôlego curto. Disto se teve uma clara impressão no verão de 1952, quando se realizou em Moscou o XIX congresso do partido, um evento que Stalin conseguiu adiar por treze anos, ou porque já sabe muito bem que não tinha mais forças para aguentar um debate, ou porque jamais acreditara na gestão colegiada do poder. É, de fato, Malenkov quem faz o relatório principal e o emergente Kruchev a parte organizativa: o vodz se limitara a publicar, alguns dias antes, um ensaio sobre os problemas econômicos do socialismo na URSS, saudado como um acontecimento de marcar época, embora apenas venha a confirmar o modesto nível científico do autor. Maior ressonância obtém a breve intervenção com a qual ele encerra o congresso, instigando as delegações de comunistas estrangeiros a tomar em suas mãos "as bandeiras das liberdades democráticas e da independência" que a burguesia "deixou cair na lama".

Que já esteja cansado e doente é tão verdade que, depois de trinta anos, renuncia ao cargo de secretário-geral do partido e aventa até a possibilidade de aposentar-se. No entanto, tem ainda guardada uma das suas surpresas: suas desastrosas condições de saúde insinuam nele a suspeita de que sejam devidas aos médicos da nomenklatura que dele cuidam, quase todos judeus, e que, por ordem da pérfida organização sionista, teriam feito morrer antes da hora Zdanov e Scerbakov, e estão pensando também em mandá-lo para o outro mundo. Adquire a certeza definitiva disto quando o Professor Vinogradov, depois de ter-lhe feito uma visita, o aconselha a renunciar a qualquer tipo de atividade de trabalho. Desencadeia-se, assim, a segunda onda racista. O marechal põe de lado Beria, assume pessoalmente a chefia das operações e, com base em falsos testemunhos impostos a uma doutora do Kremlin, ordena a prisão de um grupo dos mais ilustres clínicos do país, apresentando-os na imprensa, a 13 de janeiro de 1953, como "um bando de feras", de assassinos terroristas, que planejavam igualmente assassinar dois marechais do Exército Vermelho. Obviamente, são todos réus confessos, e acabariam certamente diante de um pelotão de fuzilamento se seu famoso paciente não os precedesse no inferno poucas semanas depois da denúncia de sua suposta conspiração.

Isso acontece nos primeiros dias de março de 1953. Embora se tenha falado em consequências de uma violenta altercação entre o marechal e Vorosilov a respeito da questão dos médicos judeus, parece, no entanto, que ele tenha sido vítima de um ataque apoplético, de se esperar no velho burocrata guloso, incontinente e colérico que ele acabara se tornando nos últimos anos. Depois de ter assistido, na noite de 27 de fevereiro, a um balé no Teatro Bolshoi e no dia seguinte, de manhã, a um filme em seu apartamento no Kremlin, partiu para sua casa de campo de Kuntsovo, juntamente com um grupo de colaboradores e aí os entretém com a última de suas ceias, prolongada até o amanhecer, regada a vinho e recheada de lúgubres historietas que os hóspedes contam para seu divertimento. Depois manda todos para a cama na cidade, desaparecendo por sua vez no quarto da casa de campo em que dorme.

Neste ponto, de primeiro a 5 de março, tudo se desenvolve em uma atmosfera turva e alucinante, na qual Beria se reserva um papel demoníaco, e Stalin acaba sendo vítima de uma trágica lei do retorno, se é verdade que o chefe de polícia adia ao máximo a intervenção dos médicos, contando, evidentemente, com a morte do ditador para sucedê-lo; além de o ditador ficar sendo malcuidado pelos médicos finalmente reunidos (depois de doze ou catorze horas perdidas) porque entre eles não está, por estar trancafiado com seus colegas judeus na Lubianka, seu médico particular, Vinogradov, o único que conhece bem o doente e que está em condições de intervir de maneira adequada. Atemorizados apenas com a ideia de entrarem no alojamento de Stalin sem serem chamados, os de sua guarda pessoal esperam toda a manhã do primeiro de março até as 11 horas da noite antes de decidir-se e descobrir, com espanto, o marechal caído por terra, na sala de jantar, junto à mesa, os cotovelos desesperadamente cravados no chão na inútil tentativa de se erguer.

Está consciente, mas não fala. A partir daquele momento, embora prodigalizando ao vodz todas as atenções, só se veem chegar os médicos na manhã seguinte, depois que Beria apenas se mostra em companhia do marechal na soleira e intima a que não falem nada com ninguém, porque, segundo ele, Stalin está apenas adormecido e não quer ser perturbado.

Os médicos, por sua vez, não podem mais que constatar a hemorragia cerebral que atingiu o marechal e tentar remédios de rotina, como a aplicação de sanguessugas, as injeções de cânfora e o oxigênio para ajudá-lo a respirar.

A agonia é longa e torturante. Avisados, incrivelmente, só no último momento, os filhos chegam transtornados a Kuntsovo. Svetlana corre para a cabeceira do moribundo, soluçando, apertando-lhe com força as mãos e tentando fazer-se reconhecer; Vasili está completamente ébrio e, informado pelos criados do atraso certamente provocado por Beria, perde o controle, berrando: "Canalhas, vocês mataram meu pai!" Continuará afirmando, ao voltar a Moscou, que envenenaram seu pai e, ao terminarem os funerais, será preso e condenado a oito anos de reclusão.

O marechal morre a 5 de março. A notícia é dada pela rádio ao povo soviético às 4 da manhã do dia seguinte, e no dia 7, depois da exposição do corpo na sala das colunas do Palácio dos Sindicatos, são celebrados, ao som da Heroica de Beethoven, os solenes funerais. A loucura dos cidadãos que querem prestar homenagem ao defunto é tal que, no tumulto, são mortas quatrocentas pessoas: são as últimas vítimas de Stalin, cujo desaparecimento é, contudo, saudado pelos comunistas do mundo inteiro com profunda emoção.

O cadáver, devidamente embalsamado, será enterrado no mausoléu da Praça Vermelha, junto com a múmia de Lenin, e aí ficará até o dia da dessacralização, que se segue ao relatório secreto apresentado por Kruschev no XX congresso.

Ao concluir este relatório, Kruschev comenta, entre outras coisas: "Não podemos dizer que tenha agido como um déspota alucinado, Ele achava que tudo isto deveria ser feito no interesse do partido, das massas trabalhadoras, em nome da defesa das conquistas revolucionárias. É nisto que reside essencialmente a tragédia." Uma de suas biógrafas, Lilly Marcou, que não é em absoluto hostil à personagem, contudo observa: "Stalin vive, se nutre e se circunda de abstrações." Até a morte seria uma abstração? A inocência daqueles que mandava matar ou enviava para os gulags não o perturbava nem um pouco. O número de vítimas sacrificadas na realização de seu sonho era apenas uma questão de estatística. Não foi ele quem disse que "uma morte é uma tragédia, mas um milhão de mortes é apenas estatística"? E um observador objetivo e sagaz como o General De Gaulle, ao encontrá-lo durante a guerra, apreenderia sua mais profunda essência psicológica: "Era um comunista vestido de marechal, um ditador mascarado por sua astúcia, um conquistador afável, que se empenhava em enganar as pessoas. Mas a sua paixão era de tal maneira forte que aparecia de qualquer maneira, não sem uma espécie de tenebroso fascínio."

Talvez ninguém como Iosif Visarionovic, animado por aquela paixão, tenha acreditado tanto no ditado segundo o qual o fim justifica os meios. Mas, à parte considerações de caráter moral, é um fato que os monstruosos meios utilizados por Stalin conseguiram apenas um de seus objetivos, a potência da União Soviética, mesmo que não o sucesso da Revolução socialista. Sem esquecer que a própria União Soviética, ao perder o desafio planetário para os Estados Unidos, desintegrou-se miseravelmente, junto com o regime, menos de quarenta anos depois do desaparecimento do secretário-geral.

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