Tiranos

Antonio Ghirelli · Capítulo 3 de 10 · parte 2/3

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Tiranos

Stalin

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A pressa, a dureza, a fúria persecutória com que a operação é conduzida sob o controle do partido e da polícia política resultam devastadores.

Na ocasião foram cerca de cinco milhões de desventurados os destinados a ruína total, quando não à deportação ou ao pelotão de fuzilamento.

Conversando com Winston Churchill durante a guerra, Stalin falará de "uma luta espantosa", que durou bem uns quatro anos, na qual foi preciso vencer a oposição de dez milhões de camponeses, mesmo quando afirme tranquilamente que os opositores teriam sido eliminados "por seus dependentes".

O que há de verdade em tais palavras é que o regime armou realmente os camponeses pobres contra os ricos, ajudando-os com ameaçadoras "brigadas de deskulakização" e inclusive alimentando sistematicamente a delação do filho contra o pai, da mulher contra o marido, dos vizinhos contra os vizinhos. Por outro lado, uma vez estendida a toda a União Soviética a coletivização obrigatória, um decreto de 5 de janeiro de 1930 estabelece que os cultivadores deverão ser expropriados não só dos chamados meios de produção (máquinas, tratores, animais de tração e estrebarias), mas até mesmo das vacas leiteiras e das aves. É uma perseguição desatinada, que em certo momento desencadeia uma irrefreável onda de protestos, manifestações violentas, de episódios difusos de matança clandestina do gado e ocultamento das colheitas, e até de atentados terroristas contra os representantes do regime e uma torrente de cartas anônimas carregadas de insultos e de ameaças.

Stalin compreende, neste momento, que é indispensável uma intervenção de tendência pelo menos provisória, e ele próprio dita, em 2 de março, para o Pravda, um artigo, um verdadeiro recorde de despudor, porque proclama que a adesão aos kolkhoz é voluntária e não obrigatória, e ainda que excessos e ameaças se devem aos dirigentes locais, que devem ter "perdido a cabeça". Duas semanas depois, o Comitê Central se alinha prontamente na mesma direção do secretário-geral, contra o qual ninguém ousa mais levantar a voz, mesmo que seja facilmente possível entender que se trata apenas de uma trégua provisória e prever que, a um único aceno para uma saída em massa dos kolkhoz, a repressão tornará a desencadear-se mais ferozmente que antes.

É um exército de coagidos o que será posto em marcha para realizar os objetivos indicados pelo secretário-geral. Tal como no partido, o mesmo se dá no campo ou na fábrica: não se opõe qualquer resistência mais significativa, porque à resignação secular do povo russo nos confrontos com o despotismo czarista ora se acrescentam o medo da polícia política (chame-se ela CEKA, GPU ou NKVD) e a hipnótica sugestão da propaganda, na qual é mestre o secretário-geral, astuto manipulador da psicologia popular. Nesse mesmo tempo, quanto mais cresce a servil adesão a seu guia, mais se acende no tirano uma paranoica suspeita nos enfrentamentos com os adversários e, sobretudo, paradoxalmente, em relação aos colaboradores mais fiéis, que exatamente pela posição a que foram elevados podem nutrir ambições criminosas. Os efeitos de semelhante modo de governar são explosivos. Ao final do primeiro plano quinquenal, o nível de vida dos russos piorou 30% e se os camponeses— que representam 80% da toda a população — estão vivendo uma tragédia de dimensões bíblicas também os habitantes da cidade estão sujeitos a pesadíssimas privações: escassez de víveres, falta de moradias, insustentável pressão nos horários e ritmos de trabalho.

Paga um preço excessivamente alto o próprio Partido Comunista, que somente no ano de 1930 vê expulsos de suas fileiras 130 mil inscritos, sob a acusação de não terem conduzido com energia suficiente a repressão no campo. Em setembro deste mesmo ano, a polícia política descobre no ramo da indústria alimentar uma gangue de sabotadores, condenando 46 deles à pena máxima, sob a acusação de terem boicotado o plano quinquenal por estarem a soldo das sociedades do Ocidente, que assim se tornam as únicas responsáveis pela penúria de vida de que sofre o mercado russo. Estaria também a soldo de famosas personalidades estrangeiras, entre as quais até mesmo o próprio presidente da República francesa, Poincaré, um grupo de técnicos das indústrias estatais, cuja condenação à morte foi comutada em pesadas penas de detenção somente em consideração a sua especialização, que no futuro poderia vir a mostrar-se útil para a construção do socialismo, como efetivamente acontecerá com alguns deles. Esses odientos sabotadores estariam coligados, como se depreende de uma confissão sua (não exatamente espontânea), a uma organização contrarrevolucionária que apoia os kulaki e os renegados da "facção de direita", alguns dos quais, ex-mencheviques, estão infiltrados inclusive nos escritórios organizadores do plano quinquenal.

Trata-se, em conjunto, de uma guinada radical em relação à orientação cautelosa e equilibrada que até 1928 havia caracterizado a estratégia de Stalin na chefia do partido e no exercício do poder, e é impossível dizer se este enrijecimento tenha sido sugerido por considerações ideológicas ou provocado, pelo menos em parte, pelas altercações familiares que começaram a aflorar justamente nesse momento, até desembocar, quatro anos depois, no misterioso suicídio da mulher. A distância entre os cônjuges se amplia, provavelmente, com a decisão de Nádia de inscrever-se na universidade, uma escolha que nela nasce claramente do desejo de conquistar para si um espaço de autonomia em relação ao marido, e, em suma, também aos filhos, aos quais o crescente poder do secretário assegura uma educação de forma alguma proletária, uma vez que dispõem de uma governanta em casa, de uma "babá" e de um preceptor. Muitos anos mais tarde, a filha Svetlana descreverá a mãe como severa ou, melhor, até mesmo implacável, ao passo que se lembrará de que o pai muitas vezes a teve nos braços, chamando-a de "meu passarinho" ou "minha cadelinha" e mil outros diminutivos carinhosos — uma terna interpretação do papel paterno que se empenha em atribuir a Iosif Visarionovic.

Antes de agravar-se o esgotamento nervoso de Nadezda, é o filho do primeiro casamento, Jasa, quem alarma e irrita o georgiano tentando o suicídio por amor a uma moça de Leningrado que o pai não lhe permite esposar: o jovem o fará por conta própria, mas finalmente reconciliar-se-á com o pai. As relações de Stalin com a mulher continuarão por ora discretas, mesmo que se multiplicando as manifestações de independência da jovem mulher, que frequenta personagens caídos em desgraça, como Bukarin, ou amigos de sua idade, como o responsável pelo partido na faculdade, um tal de Nikita Kruschev, que é apresentado exatamente por ela ao secretário-geral.

No verão de 1930, Nádia tem uma crise de depressão e vai consultar um conhecido neurologista em Berlim, onde reside Pavel, seu irmão, para voltar a encontrar-se com Iosif, em Soci, e constatar, com ele, que a relação não funciona mais. Com o tempo, a perturbação e a angústia de Nádia aumentam, até seu dramático epílogo. A 8 de novembro de 1932, por ocasião do décimo quinto aniversário da Revolução, os Vorosilov oferecem uma recepção aos expoentes mais ilustres da nomenklatura soviética, entre os quais, evidentemente, estão Stalin e Nádia, que na ceia se sentam um em frente ao outro. Em certo momento estoura o incidente em circunstâncias a respeito das quais existem muitas versões: não se sabe se por um acesso de ciúme da mulher, irritada com a conversa excessivamente calorosa do marido com a senhora a seu lado ou por um brusco conselho de Iosif a que beba alguma coisa, Nádia lança uma frase de desprezo ao secretário-geral que, como se estivessem a sós, a chama em voz alta de burra.

A humilhação faz soltar-se na mente da Allilueva a mola da loucura: ela se ergue da mesa, sai acompanhada da mulher de Molotov, faz com ela um febril passeio pelos jardins do Kremlin, depois volta para casa, mas, evidentemente, sem conseguir conciliar o sono, se é verdade que à noite telefona seguidamente para o marido, que se retirara furibundo para a casa de campo fora de Moscou e se recusa a responder-lhe. É o golpe de misericórdia.

Na manhã seguinte, a criada, ao forçar a porta fechada do quarto, a encontra, exangue, no leito, o travesseiro sobre a cabeça, na mão um pequeno revólver que, com um pretexto qualquer, havia pedido de presente a Pavel em Berlim.

Deixa duas cartas, uma aos filhos, outra para Stalin, e desta última se dirá apenas que é "terrível, dura, insuportável", embora seu conteúdo seja mantido como segredo de família, fazendo com que, em consequência, circulem em toda Moscou os boatos mais disparatados, inclusive, naturalmente, o de um violento dissenso da mulher em relação à política do marido ou, em plano totalmente diferente, o de um amor incestuoso com Jasa, o enteado. Os boatos se multiplicam, até porque a imprensa soviética fala do falecimento ocorrido sem fornecer mais detalhes. No funeral, Iosif demonstrará grande nervosismo e confidenciará a Eugênia Aleksandrovna, sua cunhada, ter perdido "a vontade de viver", mesmo que, algum tempo depois, se lhe atribuam uma relação e até um filho com Rosa Kaganovic, aparentada com seu mais ignóbil companheiro; e, ao que parece certo, em seguida com Aleksandrovna, a mulher de Pavel Allilueva foi, pelo menos por uns dez anos, a amiga mais fiel e a amante de um Stalin cada vez mais solitário e endurecido pela solidão. Esta relação, não importa sua natureza, estava destinada a terminar muito mal, porque Zenia será levada à prisão em 1947.

De qualquer forma, o suicídio de Nádia exacerbou os piores lados do caráter de Iosif Visarionovic, a sua tendência à cólera e à suspeição, à ferocidade, ao desprezo profundo pelos outros. De agora em diante afundará exclusivamente no abismo da mais cruenta batalha pelo poder absoluto e, insaciável de honras, de louvores e de adulações, pretenderá impor-se até no campo cultural, empenhando-se em uma campanha pelo alinhamento da arte e da filosofia aos ensinamentos do marxismo-leninismo, sistematizado e corrigido por ele próprio. Desde 1924 havia realizado uma série de conferências, depois recolhidas em um volume, Os Princípios do Leninismo. Agora se dedica a uma nova e mais detalhada história do PCUS, exaltando a própria modéstia como discípulo de Lenin e denunciando os funestos desvios das frentes opostas, de Bukarin e Trotski. Recorre até mesmo a um édito do Comitê Central para lamentar os textos que difundem calúnias sobre a Rússia do passado, condenando-a em bloco, sem nem sequer valorizar as gloriosas lutas do movimento revolucionário, humilhando, assim, o "orgulho nacional" de um país que, segundo o secretário-geral, está atingindo e superando as grandes potências industriais do Ocidente capitalista.

Quando afirma que, uma vez construída a indústria e convertidos os camponeses ao socialismo, para ser o primeiro no mundo falta já muito pouco, ou seja, apenas "aprender a tecnologia" e "assenhorear-se da ciência", muitos russos se entregam ao entusiasmo, sem refletir sobre o involuntário humorismo do conceito, tanto mais porque, na expectativa de conseguir a primazia no planeta, a União Soviética se debate entre catástrofes e massacres. Em consequência da coletivização do campo entre 1932 e 1933 existe, na realidade, uma tremenda carestia em enormes regiões do país, sem que por isso o regime renuncie à arrecadação compulsória de cereais e à exportação do grão em troca da valiosa moeda estrangeira, lançando no desespero e na fome outros milhões de camponeses, que se veem ainda por cima culpabilizados pelo desastre, como autores de furtos, abusos e irregularidades de todo gênero. Contra estes fantasmáticos inimigos do povo elabora-se também um decreto que pune a apropriação de bens do Estado e dos kolkhoz com a reclusão ou trabalhos forçados por pelo menos dez anos e, nos casos mais graves, com a pena de morte. Sanções igualmente desproporcionadas são aplicadas a quem recusa deliberadamente entregar o grão aos depósitos nacionais.

Muitos dos objetivos econômicos fixados pelo plano quinquenal não são alcançados, mas Stalin conseguiu encaminhar à realização de um modelo sociopolítico no qual se identificará nos decênios seguintes o chamado "socialismo real". No campo estava previsto que todos os camponeses trabalhassem nas fazendas coletivas no ano de 1937, dispondo para consumo pessoal de apenas uma vaca e de uma pequena parte da colheita, com permissão não-oficial de revender no mercado aquilo que sobrar. Nas fábricas, liquidada a utopia igualitária que o secretário-geral considera como um resíduo radical, se estabelece o princípio da retribuição calculada pelos títulos e pelo rendimento, enquanto alguns técnicos e o gerente garantem para si salários bastante elevados, uma autoridade absoluta sobre os operários e inúmeros privilégios. A prioridade dada à indústria pesada torna-se um dogma absoluto.

Quanto aos intelectuais, aos jornalistas e aos artistas, a repressão da liberdade de pensamento e de expressão é total, salvo na possibilidade de o ditador ter a benevolência, em raríssimos casos e sem outro critério a não ser o seu capricho pessoal, de aceitar alguma exceção.

 

Um pretexto para o terrorismo

 

A partir de 1934, a ferocidade de Stalin se transforma em um terrorismo sistemático. Arquivada a arrasadora experiência do primeiro plano quinquenal, a União Soviética poderia ainda respirar fundo: as relações entre os grupos sociais estão agora definidas, como queria Stalin, e na elaboração do segundo plano quinquenal ele parece disposto a qualquer concessão em termos de bem-estar individual a ponto de proclamar, com a habitual inclinação a uma espécie de humor negro, que "a vida agora está melhor, a vida tornou-se mais serena. E quando há alegria de viver se trabalha melhor". Enquanto o mundo capitalista é fustigado pela grande depressão iniciada em 1929 em Wall Street e estendida a seguir ao outro lado do oceano, a propaganda soviética garante aos trabalhadores pleno emprego, uma existência rica de conquistas e de vitórias, um futuro grandioso. Também no plano da política externa a URSS começa a movimentar-se como uma grande potência, renunciando definitivamente aos projetos de revolução mundial e confrontando-se com extrema cautela com as duas ameaças que se vão esboçando em suas fronteiras, o Japão, a Leste, e a Alemanha nazista, a Oeste. Renovam-se, assim, as ligações com os nacionalistas chineses, estabelecem-se acordos e tratados com as Repúblicas bálticas e a Polônia, ergue-se o estandarte do pacifismo (que continuará sendo o slogan publicitário de todos os partidos comunistas do mundo, principalmente no período da guerra fria).

Ao encontrar em Maksim Litvinov um colaborador ideal por sua habilidade diplomática e talento flexível, Stalin procura "amigos no exterior" e não hesita em escolhê-los não só entre os países imperialistas, como a Grã-Bretanha e a França, mas até entre aqueles partidos socialistas e socialdemocratas da Europa que há alguns anos rotulava abertamente de "socialfascistas". Obtendo o reconhecimento oficial do governo de Washington, o Kremlin dá em 1934 um passo decisivo, aceitando entrar como membro da Sociedade das Nações, que até então havia considerado como "a liga dos ladrões imperialistas". Os dirigentes russos concordam com o secretário-geral, que considera preocupante a situação internacional, e exatamente por isso hesitam em realizar o projeto, que muitos deles acariciam, de transferir Iosif Visarionovic para um cargo menos cansativo e mais honorífico, por estarem conscientes do mandato fiduciário que, apesar de tudo, o povo russo conferiu a seu tirano.

Para este, porém, a preocupação se transforma gradativamente em um pesadelo: o pesadelo da aproximação capitalista, do isolamento da URSS e, dentro dela, de uma conspiração dos antigos quadros do partido e a seguir dos generais visando livrar-se dele. Não o dissuadem dessas angustiantes suspeitas os "louvores desmedidos" que lhe são tributados durante o XVII congresso do partido, convocado para janeiro do ano fatal de 1934; ao contrário, aquela onda de conformismo faz crescer sua mórbida desconfiança, ainda mais pelo fato de ser informado de que alguns companheiros influentes, entre os quais o velho amigo Ordzonikidze, vêm tentando envolver Kirov em uma intriga para afastá-lo da secretaria. O jovem e já popularíssimo Kirov, que substituíra Zinoviev na chefia do partido em Leningrado, liquidando todos os seus seguidores, não se deixa enganar com o convite dos veteranos e se destaca, ao contrário, no congresso com um sóbrio, mas muito eficaz elogio da relação com o georgiano. Mas é preciso mais que isso para dissipar as suspeitas de Stalin.

O episódio que desencadeia seu furor e que lhe serve como pretexto para realizar o segundo tempo de sua irresistível ascensão é exatamente o assassinato de Sergei Mironovic Kirov, o ai-jesus do partido: "um romance policial"- Depois do congresso, o secretário-geral o convida a transferir-se para Moscou, fazendo-o entrever a possibilidade de ser seu sucessor, mas concedendo-lhe algum tempo para recuperar-se de um leve achaque e arrumar suas coisas em Leningrado, cidade que, aliás, ele está deixando de má vontade. No verão, hospeda-o durante as férias, juntamente com Zdanov, em Soci, mandando-o a seguir para o Cazaquistão com uma breve missão, finda a qual o jovem dirigente volta com toda a tranquilidade para a base.

Na tarde do dia primeiro de dezembro, porém, acontece o drama: Kirov está entrando em seu escritório na sede do partido, no Palácio Smolni, quando é fulminado com um tiro de pistola por um tal de Leonid Nikolaev, ex-funcionário que reentrara há pouco no partido de Leningrado, depois de ter sido dele expulso por ser um tanto desequilibrado e que, estranhamente, se infiltrara no edifício sem ser detido por ninguém. O assassinato do jovem e popularíssimo dirigente causa enorme impressão e provoca em Stalin uma reação violentíssima. Antes mesmo de se precipitar com os seus mais fiéis colaboradores para Leningrado, onde agarrará do próprio punho o funcionário da polícia que vai recebê-lo na estação, firma um decreto do comitê de saúde pública no qual autoriza a NKVD a fuzilar imediatamente todos os condenados à morte por atividades contrarrevolucionárias, anula as práticas em curso para concessão de graça ou revisão de processos e acelera ao máximo os inquéritos sobre episódios reais ou presumidos de terrorismo. Com uma violação sem precedentes das mais elementares garantias jurídicas, o decreto dispõe que os motivos da acusação sejam comunicados aos imputados somente na véspera do debate, tolhendo-lhes naquela sede a utilização de documentos de defesa.

Precedido por Genrih Grigorevic Jagoda, que empunha melodramaticamente a pistola, urrando, como em um filme de gângsteres americanos, "De costas contra a parede e mãos para o alto!", o ditador chega com sua comitiva à sala em que está sendo interrogado o autor do atentado e ouve que este deve ter matado Kirov apenas para vingar-se não se sabe bem de que ultraje. Stalin não acredita realmente nele: em parte porque está inclinado a ver em toda parte complôs e tramas; mas principalmente Porque decidira escolher a ocasião para livrar-se definitivamente dos opositores mais temíveis. De fato, logo no dia seguinte, o dia 27, Vishinski afirma que Nikolaev faz parte de um grupo terrorista, como sempre ligado a Zinoviev e como sempre financiado por Trotski. Três dias depois, chega a notícia de que todos os supostos terroristas, processados a portas fechadas, acabaram diante do pelotão de execução: mais um mês e Zinoviev e Kamenev se vêm acusados de cumplicidade moral no caso do atentado do jovem boss de Leningrado e são condenados respectivamente a dez e cinco anos de reclusão. Em sua época, Kruschev dará a entender vagamente que por trás do atentado a Kirov estava o próprio Stalin, que se servira de Jagoda para armar a mão de Nikolaev. De qualquer forma, o atentado a Kirov servirá ao secretário-geral também como pretexto para três grandes processos, com os quais, entre 1936 e 1938, irá se desembaraçar de boa parte dos veteranos sobreviventes da Revolução de Outubro.

O progressivo aproveitamento do episódio de Leningrado encontrou uma explicação mais articulada, ou menos ocasional, e em outros e melhores termos, na hipótese de que Stalin se tivesse dado conta de que entre os membros do Comitê Central e do Politburo vinha surgindo uma desconfiança crescente em seus confrontos. Desde 1932 ele havia contestado a existência de um bloco moderado na cúpula do partido (do qual Kirov teria sido membro), que havia punido de modo relativamente brando o "direitista" Riutin, acusado de ter feito circular entre os componentes do bureau político um documento de cerca de duzentas páginas centrado basicamente na proposta de afastar o georgiano da secretaria-geral. Mas a confirmação de seus temores tinha-lhe chegado um ano depois, em 1933, quando não havia conseguido condenar à pena capital Vladimir Smirnov e outros velhos bolcheviques, embora eles tivessem ido buscar até o testamento de Lenin para fundamentar a remoção de Dzugasvili, cujo nervosismo é confirmado por um dado surpreendente: o de que, por sua ordem, nos dois anos anteriores mais de um milhão de comunistas tinham sido expulsos do partido.

E como o próprio andamento do XVII congresso, realizado em janeiro de 1934, confirmaria, apesar das declarações de lealdade, a tendência de inúmeros companheiros, inclusive Kirov, a uma recuperação do debate interno e das normas leninistas há muito deixadas de lado, Stalin poderia ter esboçado o projeto de criar no país um clima político de tal forma agitado que viesse a obrigar o Comitê Central e o Politburo a aceitarem a implantação de uma máquina terrorística, apoiada em duas pilastras: a GPU de Jagoda e de seus sucessores e a Procuradoria-Geral da URSS, cuja eficiência é garantida por Andrei Vishinski. Na prática, pelo famoso relatório secreto de Kruchev ficar-se-á sabendo que, no decurso de três anos, consuma-se uma verdadeira chacina dos delegados presentes naquele congresso — definido incautamente como o congresso "dos vencedores" exatamente porque em sua grande maioria eram veteranos do partido, da Revolução e da guerra civil. Dos 139 eleitos no Comitê central, 98 foram presos e fuzilados; dos 1.966 delegados, 1.108 foram detidos, levados à prisão ou deportados: todos por supostos delitos contra o poder soviético.

Aos companheiros que acompanhavam estupefatos as revelações contidas no relatório, publicado em 4 de junho de 1956 no New York Times, Kruchev descrevera Stalin de maneira pitoresca: "Era um homem muito diferente, morbidamente desconfiado", havia contado, sob um silêncio tumular, "o que viemos a conhecer trabalhando a seu lado. Era capaz de olhar fixo para alguém e perguntar: 'Por que seu olhar está hoje fugidio?' Ou então: 'Por que hoje baixa os olhos e evita olhar-me de frente?"' E Nikita Sergeievic acrescenta que o georgiano via por toda parte espiões, inimigos, traidores. Em 1939, quando a avalanche das prisões em massa começou a diminuir e no partido começaram a aflorar os primeiros e tímidos protestos contra os métodos da poderosíssima polícia política, o secretário-geral forneceu sua explicação: no momento em que os serviços de contraespionagem dos países capitalistas usam "de formas as mais escandalosas" métodos de pressão física sobre os representantes do proletariado, não via por que os dos soviéticos deveriam mostrar-se mais humanos em comparação com os "frenéticos" agentes da burguesia. "Nosso método", concluíra angelicamente o ditador, "é ao mesmo tempo justificável e adequado."

E impossível estabelecer com exatidão o número de vítimas exterminadas por esse sistema "justificável e adequado", entre prisioneiros deportados e fuzilados que Stalin e seus colaboradores sacrificaram entre 1936 e 1950, o período mais intenso da repressão. Além das condenações a pena capital, calcula-se que o número dos "inimigos do povo" mantidos anualmente nos campos de trabalho oscilasse, em média, de um mínimo de seis a um máximo de 17 milhões, com um índice médio de mortalidade entre 10 e 20%.

Se forem incluídas neste cálculo também as vítimas do período entre 1930 e 1936, chega-se a um total aproximativo de 20 milhões de indivíduos que pereceram nas prisões ou nos gulags, de fome, doença ou violência por parte do Estado, muitas vezes complementada com o sadismo e a corrupção dos guardas carcerários em comum acordo com os detentos comuns. No devastador ciclone dos "expurgos" stalinistas foram igualmente envolvidos dirigentes e militantes do PCUS e dos partidos "irmãos", seus parentes e amigos, os ex-combatentes da guerra da Espanha e os ex-prisioneiros nos campos de concentração alemães da Segunda Guerra Mundial, os militantes envolvidos no processo Tuchacevski, de 1937, e os intelectuais perseguidos antes e depois da invasão hitlerista.

No "relatório secreto" Kruschev havia afirmado que a cruel repressão que marcou os anos do "grande terror" tinha sido justificada apenas pelas confissões extorquidas sistematicamente dos supostos culpados por meio de coações físicas, "torturas bárbaras" e tornadas ainda mais intoleráveis por ameaças à liberdade a até à integridade física dos próprios familiares, incluindo nisto, por decreto explícito do Comitê Central, a punição às crianças acima de doze anos. Desta maneira o regime despótico se torna criminoso, e o tirano, um monstro.

A documentação a respeito é ampla e atroz, um repertório de perversões e de loucura que, em termos de sutileza, se iguala à infâmia nazista. Os carcereiros não seguem um modelo único: as técnicas aprovadas se alternam com a improvisação, a cela das grandes cidades russas não é mais terrível que os subterrâneos dos pequenos centros das mais recônditas Repúblicas da União. São usados todos os meios disponíveis: saquinhos de areia, tenazes, agulhas e até mesmo cadeiras quebradas, tudo servindo para espancar o detento no estômago, quebrar-lhe as pernas ou a espinha dorsal, fazê-lo urinar sangue, fazê-lo arrepender-se de ter nascido. Os testemunhos dos sobreviventes, os samizdat, os relatos filtrados no breve período de degelo falam de três tipos peculiares de tortura: a stroika, a isca e a cilha.

A stroika é um suplício que o policial pratica simplesmente mantendo durante horas sua vítima ereta de encontro a uma parede, sempre na ponta dos pés, até o seu colapso. A isca consiste em atar as mãos e os pés do infeliz atrás das costas, e suspendê-lo depois no ar, de cabeça para baixo, com epílogo idêntico se ele não confessa. A cilha é mais refinada, é um meio de convencimento que se realiza alternando a cada dia os policiais que se comprazem nesta tarefa, de prolongar por horas e horas o interrogatório do acusado, que se vê privado de alimento e do sono até que se decida a falar. No caso de se tratar de políticos dissidentes ou de intelectuais teimosos, forçam-se os tons, conduzindo o interrogatório durante a noite, com uma fileira de luzes cegantes e uma alucinante repetição das mesmas perguntas, realizadas por vezes com intervalos, mas ao longo de semanas, ou até meses, obrigando o presumível réu a dormir poucas horas por noite em celas excessivamente quentes ou geladas, cora alimento escasso, mas saboroso, que se torna depois uma pequena tortura, uma posterior provocação à fantasia. Normalmente, ao término de semelhante tratamento, o autômato a que se reduziu o infeliz acaba se convencendo de que é realmente culpado.

À parte as razões preliminares das pancadas, que não são negadas a ninguém e que em geral se confiam a executores particularmente robustos, em muitos apenas a ameaça de torturas como as descritas é suficiente para extorquir confissões ou impedir retratações que poderiam resultar incômodas na eventualidade, que não é em absoluto frequente, de processos públicos. O mesmo objetivo se busca obter ameaçando explicitamente represálias contra os parentes ou dando a entender à vítima que "a maneira realmente segura de fazer com que seja morta" consiste em recusar-se a reconhecer a própria culpa. Pouquíssimos são os que conseguem resistir.

Seja como for, mesmo que se prescindam das torturas e das ameaças, de pressões materiais e psicológicas, da própria esperança de uma atenuação ou de um cancelamento da pena em troca da admissão da própria culpa — elementos que são determinantes na capitulação de grande parte dos imputados —, é preciso levar em conta o fato de que a rendição não representa um ato isolado ou excepcional na vivência política dos militantes, mas antes "o pico de toda uma série de submissões" ao partido, manifestadas fora da realidade e até do próprio e íntimo convencimento, por uma espécie de sublimação do espírito gregário que só pode encontrar um termo de comparação nos votos de obediência exigidos pelas mais rígidas autoridades monacais, mesmo que, tal como se dá nessas ordens, a devoção ou, no caso, a "mística do partido" jamais tenha excluído, na Rússia e em outros lugares, rivalidades ferozes, obscuras intrigas e perfídias sem fim.

Stalin contava com um quadro psicológico semelhante e se fundamentava igualmente em sua convicção, difundida até mesmo entre seus opositores declarados, de que, principalmente nos períodos mais dramáticos, ele era insubstituível. É muito significativa neste sentido uma frase de Bukarin: "Não é nele que confiamos, mas no homem em quem o partido depositou sua confiança. Ele se tornou uma espécie de símbolo do partido." Para propiciar-lhe o triunfo, aliás, muitas das vítimas de Stalin haviam, no passado, posto em prática os mesmos métodos com os quais o georgiano viria a liquidá-las, inclusive a avalanche de acusações infamantes ou de ferinas injúrias despejadas habilmente contra os adversários internos e os militantes dos outros partidos de esquerda.

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Os "grandes expurgos"

 

 

Enquanto desencadeia o terror, Iosif Visarionovic acompanha com frio realismo a alarmante evolução da situação internacional. São anos de fogo: a Alemanha nazista se arma novamente, a Itália fascista realiza a empresa da Etiópia com frágil oposição da Sociedade das Nações, o General Franco ataca à mão armada a República democrática da Espanha, despudoradamente apoiado pelos dois ditadores de Roma e de Berlim, enquanto franceses e ingleses se escondem atrás da folha de figueira da não-intervenção. Stalin não dorme: no campo diplomático, sela tratados de amizade com a França e a Tchecoslováquia; no campo político, ordena aos dirigentes do Komintern, a Internacional Comunista, que deem um giro de 360 graus em relação aos partidos socialistas e socialdemocratas, reavaliados de repente como componentes essenciais daquelas "frentes populares" que deverão se opor, em todo o Ocidente, e acima de tudo nos campos de batalha espanhóis, contra a alastrante deriva da extrema-direita.

O alarme com a situação internacional contribui, porém, para aumentar o enrijecimento do secretário-geral na frente interna. Em 1935, enquanto esboça o projeto de uma Constituição ultrademocrática que parece uma caricatura, de tal forma contrasta com a realidade política da URSS, enrijece a legislação contra os "inimigos do povo" e, com a costumeira presteza paranoica, aproveita a ocasião para um novo "romance policial" a fim de desencadear uma segunda e mortal onda de repressão. O caso que abre as cataratas do grande terror nasce de uma descoberta que a polícia afirma ter feito exatamente nos escritórios do Kremlin, de um complô para matar Stalin, e que tem como romanesca protagonista uma ex-condessa e como seu suspeito cúmplice — ou, quem sabe, inspirador? — o chefe da guarda do palácio.

Realiza-se, assim, a portas fechadas, um processo neroniano, que se conclui com duas condenações à morte e uma revelação com a qual o tirano simula ficar perturbado: a de que o chefe da guarda foi íntimo colaborador de Trotski na época da guerra civil. É a pedra de toque que faz desabar a avalanche. Antes de tudo é preciso punir o dirigente que realizou em sua época a traição: é Avel Enukidze, um velho companheiro de armas georgiano e amigo de família de Dzugasvili, mas que Stalin detesta porque tem o vício de atribuir a si o mérito da gesta revolucionária por ambos realizada na juventude. Ele é expulso do partido e enviado para uma longíssima localidade transcaucasiana.

De tais circunstâncias emergem também duas lúgubres personagens: Nicolai Ezov, o grande inquisidor, que logo irá substituir Jagoda na direção da ex-GPU, agora NKVD, e Laurenti Beria, que já de saída se distingue pelo servilismo e o rancor com que devora o conterrâneo Enukidze.

O mecanismo dos "expurgos" funciona, entre 1935 e 1939, como um jogo de caixas chinês, no sentido de que pouco a pouco os expoentes da antiga "facção de esquerda" e os da "facção de direita", os dirigentes da NKVD e os chefes do Exército russo vão sendo encaixados em determinadas situações com base em depoimentos manipulados ou em testemunhos extraídos pelos inquisidores. Em meados de 1935, são presos em Nizni Novgorod alguns estudantes dos Komsomol, acusados de projetar atentados a Ia Nikolaev contra expoentes da nomenklatura. Graças a um agente provocador, a polícia descobre, naturalmente, que foi Trotski que inspirou a maquinação, e é este o pretexto que Stalin usa de imediato para comprometer definitivamente Zinoviev e Kamenev: ver-se-ão obrigados a confessar que as acusações a Lev Davidovic correspondem à verdade, que eles também participaram do complô e, não só isto, que foram eles que armaram a mão do assassino de Kirov.

Quando, a 19 de agosto de 1936, abre-se o julgamento, decididamente trabalhados por Ezov, os dois desafortunados declaram que renunciam a defender-se e admitem suas imaginárias culpas, contando, entre outras coisas, como registra o copião do inquisidor, que forjaram quatro anos antes um fantasmático "centro paralelo", coligado, obviamente, com Trotski, que do exílio deve ter comandado um atentado contra o próprio secretário-geral. Com esses depoimentos, os dois expoentes da "facção de esquerda" são liquidados, inclusive moralmente, frente à opinião pública e aos militantes do partido. Mas há ainda mais: um tal de Reigold, personagem menor do processo, manipulado, por sua vez, pelas marionetes da polícia política, surge com um testemunho clamoroso, afirmando, à meia voz, que o Centro de Zinoviev teria tido contato inclusive com companheiros da "facção de direita". É ainda o jogo de caixas chinês. Nas sessões que se seguem, Kamenev, com certa moderação, e Zinoviev, mais grosseiramente, engolem também essa despudorada mentira, permitindo que Vishinski acrescente à sua arenga final duas recomendações: o fuzilamento dos dois líderes e dos outros "cães enlouquecidos" da "facção pseudotrotskista" e a abertura de um inquérito penal sobre Bukarin, Rikov e Tomski.

Crepita ainda a fuzilaria que manda para o inferno os dois supostos cúmplices do ex-comissário de Guerra, quando Tomski, o operário guindado à cúpula dos sindicatos soviéticos, dividido entre um ódio antigo e correspondido nos confrontos com Stalin e uma plena consciência dos próprios objetivos, se suicida para subtrair-se a um julgamento que sabe manipulado. Bukarin e Rikov, no entanto, conseguem livrar-se. Ainda controlado em parte por uma maioria moderada, o Politburo comunica, em primeiro de setembro, que o inquérito conduzido por Vishinski é insustentável por total falta de provas: um xeque-mate, que desperta o maior furor no secretário-geral e o leva a encontrar um bode expiatório no fiel Jagoda, ao qual, com transparente alusão ao caso Riutin, acusa de estar com quatro anos de atraso. Ele será substituído por Ezov, uma alma negra do círculo stalinista, igual ou pior que o referido Vishinski.

Com a mudança de guarda na cúpula da polícia política, o terrorismo de Estado sofre uma espantosa aceleração. Praticamente em todas as casas soviéticas se desencava um inimigo do povo, um renegado, um degenerado um traidor do socialismo, com uma violência de linguagem que é inversamente proporcional à fundamentação das acusações e que acentua o pavor geral.

Difunde-se como uma peste o contágio da delação: "Uma sociedade presa do delírio recorre à denúncia por fé política, por inveja ou por interesse", tanto que, segundo os cálculos de fonte insuspeita, mais da metade dos prisioneiros e dos fuzilados são vítimas da delação.

A obra-prima de Ezov, a armação das tramas, se deve a uma fala do secretário-geral a respeito da necessidade de criar-se uma maneira de fazer crescer na URSS o temor de uma agressão dos países fascistas, atribuindo aos governos da Alemanha nazista e do Japão a inspiração de uma série de sabotagens nas fábricas e nas instituições econômicas visando a uma guerra que deve encontrar despreparada a pátria do socialismo. Um forte sinal neste sentido já estava contido nas confissões de Zinoviev e Kamenev: cabe a Ezov desenvolver este ponto, partindo sempre do subentendido de que, tecendo os fios da torpe intriga, está Trotski, a quem se atribui a convicção de que somente uma derrota militar poderia reduzir a cinzas o poder do georgiano.

Além de dirigentes marginais, Ezov aponta para dois dos últimos protagonistas da revolução: Grigori Piatakov, no momento colaborador de Ordzonikidze no comissariado da Indústria, e em sua época candidato da esquerda e dos social-revolucionários à substituição de Lenin, e também Karl Radek, brilhante editorialista de política internacional. Como de costume, atribuindo-lhes a responsabilidade por todo tipo de desastres registrados na produção industrial e na economia, e perpetrados a soldo dos odientos inimigos da URSS, livra-se assim também de incômodas acusações de ineficiência. A imputação se mostra ainda mais eficaz pelo fato de os dois acusados terem feito muitas viagens ao Ocidente e assim entabulado sabe-se lá quantos contatos espúrios com agentes de Berlim e de Tóquio.

No momento em que Stalin lança a nova Constituição-modelo e acorre em auxílio da República espanhola, um caso igualmente vergonhoso de traição aparece, criado propositalmente para unir o povo soviético em torno do Partido Comunista e de seu chefe. Apenas Ordzonikidze, o antigo camarada de juventude e de luta do secretário-geral, ora levado a Posições mais moderadas, se deu conta, como superior de Piatakov no comissariado da Indústria, de que as acusações contra seu colaborador também o deixam em uma situação sem saída. Fala a este respeito com Stalin e dele obtém a mesma promessa feita a Zinoviev e a Kamenev: se os dois acusados confessarem suas culpas como criadores do "centro paralelo" terão sua vida salva. Em consequência, a partir deste momento, tanto Piatakov quanto Radek começam a admitir tudo aquilo que Ezov pretende, tal como o farão no processo público, fantasiando um encontro do primeiro em Oslo com Trotski e uma carta que o segundo teria recebido do próprio Lev Davidovic, sempre no âmbito do programa de sabotagem em série organizado segundo os interesses de Hitler e do micado.

Acrescentam-se a isto, como o exige o jogo de caixas chinês, duas referências fatais: a Bukarin e a Rikov, como chefes da organização antipartido; e a um general do Exército Vermelho, um tal de Putna, como interlocutor, ou mesmo provocador, dos dois sabotadores em um colóquio comprometedor.

Piatakov e outros acusados são condenados à morte, apesar da promessa do secretário-geral; desta se livram, com apenas dez anos, Radek e Sokolnikov, em troca de abjetos testemunhos, embora venham ambos a morrer mais tarde de privações e maus-tratos em um gulag. O fuzilamento de seu colaborador e, sobretudo, a traição de Stalin transtornam de tal maneira Ordonikidze que, na tarde de 17 de fevereiro de 1937, depois de uma série de encontros com o ditador, também ele se mata com um tiro de revólver. Com seu suicídio rompe-se o último elo do passado de Stalin: a partir de agora não lhe restam mais que os tétricos robôs da sua burocracia, até mesmo porque o processo do "centro paralelo" não é mais que o prólogo de expurgos definitivos, que levarão ao aniquilamento da "facção de esquerda" e do Estado-Maior.

A vez de Bukarin e de seus amigos, últimos bastiões da velha guarda, chegará em breve. Poucos dias depois do suicídio de Ordonikidze, é convocado o Comitê Central escolhido no XVII congresso e devidamente preparado por uma série de reuniões secretas entre Stalin, Szdanov e Ezov, em um clima de tal forma ameaçador que Bukarin inicia, como protesto, uma greve de fome, sem se dar conta de que o secretário-geral aproveitará esse seu gesto, tão estranho à mentalidade bolchevique, para pô-lo contra a parede, acusando-o de conduta antipartido. Na reunião planejada caberá a Molotov e a outros mastins a tarefa de lançar-se sobre o ex-queridinho do partido, que se defende, também em nome de Rikov, com unhas e dentes, mas não consegue evitar a constituição de uma comissão de inquérito e a votação, por grande maioria, em favor de sua prisão, do processo e até do fuzilamento dos acusados. O processo será aberto em 2 de março do ano seguinte.

O destino dos últimos bolcheviques não é, porém, o único argumento com que Stalin pretende atacar o Comitê Central. Seu objetivo principal vai muito além, uma vez que tem em vista uma gigantesca depuração do partido e das Forças Armadas. O desejo de controlar de maneira absoluta a sociedade soviética e também a ameaça de uma agressão nipogermânica provocam no secretário-geral mais uma crise obsessiva, levando-o a realizar uma espécie de hemotransfusão: uma sanguinolenta troca de quadros dirigentes, sem fazer distinções. Na perspectiva de uma guerra, que sente iminente, quer gente nova, mais jovem, que lhe seja devedora de poder e disposta a segui-lo sem discutir, a seu arbítrio. Assim, em um discurso feito a 3 de março, lança aos componentes do Comitê Central um desafio zombeteiro, um convite a escolherem dois substitutos para cada um no exterminado exército dos quadros para desmascarar e desintegrar os inimigos do povo que agem nos bastidores em nome do partido. Em suma, o anúncio da pena capital ou da morte civil para dois terços dos companheiros, que, no entanto, ainda aprovam documente a proposta, de tal forma estão hipnotizados pelo carisma do tirano e pela funérea disciplina do partido.

Aliás, é o próprio Bukarin quem, antes de ser trazido a Lubianka, canalizará todas as contradições de sua militância em um documento que faz enviar, para registro, à mulher e que depois destrói: a reivindicação da própria inocência e a incapacidade de analisar a degradação da Revolução, a denúncia das prepotências policialescas de Stalin e a nostalgia diante da impiedosa violência do Outubro Vermelho. Ao pedir, no processo, a pena de morte para todos os acusados, Vishinski, o promotor público, o definirá como "um cruzamento diabólico de uma raposa com um porco". Bukarin, Ridov e Jagoda serão levados ao paredão entre 13 e 14 de março de 1938, quando já estará igualmente concluído outro dramático episódio dos "grandes expurgos": aquele de que foi involuntário e imprevisível protagonista o vice-comissário de Defesa, Michail Nikolaevic Tuchacesvski, marechal da União Soviética.

Continuar: parte 3 de 3